E agora? Qual é a saída? Como será o amanhã? O que vai sobrar?

Diante da acentuada perda de governabilidade do Executivo e da septicemia do sistema político-partidário no Legislativo, sintomas que se agravaram nesta Semana Santa, setores da sociedade civil começaram a se movimentar para procurar uma saída.

Nestas horas de angústia, surgem soluções heterodoxas de todo tipo para enfrentar uma situação de emergência nacional e evitar o colapso das instituições.

Dois compromissos agendados há tempos me levaram a conversar com muita gente ao longo do "day after" da hecatombe provocada pela divulgação das delações da Odebrecht, e o que encontrei foram ambientes tomados por absoluta perplexidade.

À tarde, estive com representantes do poder público, do empresariado e da academia ligados à área de Educação, agora às voltas com os novos desafios provocados pelo corte de recursos.

À noite, fui a um aniversário que reuniu políticos, profissionais liberais e empresários de diversas tribos, todos igualmente perdidos, circulando entre uma rodinha e outra em busca de um norte.

Até propostas que ainda outro dia eram defendidas apenas por setores mais à esquerda, como a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte e a antecipação de eleições gerais, agora são sugeridas também por porta-vozes do conservadorismo, na falta de outras alternativas.

Estão todos pensando em alternativas para o impasse, sabendo que não dá para esperar que as soluções venham de um Judiciário lento e politizado, que trabalha sem prazos, cada vez mais sobrecarregado de processos criminais contra políticos (já são mais de 400) _ o único poder até agora estranhamente preservado nas delações.

Há até quem proponha soluções heroicas e improváveis ao presidente Michel Temer, um dos mais atingidos pelas denúncias da empreiteira, junto com Lula, Dilma e Aécio.

Resumindo o que ouvi de várias fontes, Caio Magri, diretor presidente do Instituto Ethos, entidade que reúne 500 empresas, defende uma constituinte exclusiva para a reforma política e a antecipação das eleições presidenciais, em entrevista publicada pela "Folha" desta quinta-feira:

"Espero do presidente Temer a grandeza de avaliar a possibilidade de contribuir para que as eleições sejam antecipadas e democráticas".

Sem entrar no mérito da proposta e ainda que ela fosse viável, surgem outras questões ainda sem respostas:

* Quem convocaria esta constituinte exclusiva? Seria este desmoralizado Congresso Nacional, com toda a cúpula e suas principais lideranças sub-judice, abrindo mão do foro privilegiado?

* Quem convocaria a antecipação de eleições gerais, ainda que Temer concordasse com a ideia?

* Quais seriam os candidatos presidenciais a salvo da Lava Jato e quem formaria esta constituinte exclusiva?

* Quanto tempo levaria para organizar e viabilizar as campanhas destas eleições gerais?

Com os três grandes partidos, PT, PMDB e PSDB,  igualmente abatidos pela Lava Jato, já se fala num grande pacto pela sobrevivência, envolvendo Temer, Lula e FHC.

Também aqui cabe perguntar o que, a esta altura, cada um teria a propor ao outro, qual seria a pauta deste pacto e quem iria combinar com os russos, quer dizer, o Judiciário?

Discute-se entre interlocutores das três principais lideranças nacionais, por exemplo, um acordo em torno de algumas medidas práticas, como a cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais, para impedir a proliferação de nanicos e preservar a hegemonia dos grandes, mas isso é  muito pouco diante do cenário de terra arrasada.

Como não dá para inventar novos partidos e lideranças de um dia para outro, e os três, já com idades avançadas, não deixaram herdeiros políticos, fica difícil imaginar como seria construído este pacto pela sobrevivência nas condições atuais.

A repetida leitura das listas de investigados nos noticiários da TV, na terça-feira, me fizeram lembrar o que acontece nos grandes acidentes aéreos, quando são anunciados os nomes das vítimas e dos possíveis sobreviventes.

Neste caso, o avião carregava todo o sistema político brasileiro.

Enquanto não forem concluídos os trabalhos de rescaldo e remoção dos escombros, com os três poderes em pleno recesso da Semana Santa, vamos assistindo atônitos aos vídeos dos delatores da Odebrecht, detalhando os crimes cometidos na grande parceria público-privada da corrupção.

Sabemos apenas que um ciclo político acabou e não temos a menor ideia de como será o próximo.

Uma coisa é certa: do jeito que está, não dá para continuar. O país da recessão e de 13 milhões de desempregados não aguenta.

Vida que segue.

Em tempo (atualizado às 12h30):

Já está circulando um "Manifesto à Nação", assinado pelos juristas Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach, que tiveram importante papel no processo de redemocratização do País, no qual eles propõem uma "mobilização da sociedade por uma Constituinte originária e independente". No documento, eles justificam a iniciativa diante dos constantes escândalos que "comprovam a inviabilidade do vigente sistema político-constitucional".

Entre outras medidas, defendem a "eliminação do foro privilegiado" e finalizam fazendo uma convocação à sociedade civil para "que exija do Congresso Nacional a realização de um plebiscito, nos termos da Lei 9.709/98, para que o povo decida, soberanamente, se quer uma Assembléia Constituinte originária e independente, que estabeleça as novas estruturas para o desenvolvimento sustentável do nosso País, num autêntico Estado Democrático de Direito".

http://r7.com/8Nav