Foi se Moreno, grande repórter, rara figura humana

Jorge Bastos em 2013 (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

Morreu no começo da madrugada desta quarta-feira, no Rio, aos 63 anos, meu velho e bom amigo Jorge Bastos Moreno, um dos melhores e mais respeitados repórteres da minha geração, uma rara figura humana.

Num país tão dividido e intolerante, Moreno era amigo de todo mundo, nunca o vi brigar com ninguém.

Incansável caçador de notícias, de preferência exclusivas, os chamados "furos", que ele adorava, abria as portas da casa dele para políticos de todos os partidos, do governo e da oposição, reunidos em volta de um bom prato da comida preparada pela sua inseparável cozinheira Carlúcia.

Generoso e solidário, Moreno era suprapartidário não só na política como na vida, sempre disposto a ajudar os outros, sem esperar nada em troca, a não ser uma boa história para contar na sua coluna.

Com mais de 40 anos de jornalismo, 35 deles no jornal O Globo, nunca fomos colegas de redação, mas era como se fôssemos.

Na primeira campanha presidencial depois da ditadura, em 1989, fomos concorrentes: Moreno, como assessor de imprensa de Ulisses Guimarães, e eu, de Lula. E ficamos amigos para sempre, como eram também nossos candidatos.

Assim que cheguei a Brasília para trabalhar como secretário de Imprensa do primeiro governo Lula, ofereceu um jantar na casa dele para me apresentar ao alto mundo de políticos e jornalistas de Brasília, que eu pouco conhecia, caipira que era.

E foi na casa dele, a embaixada do Globo em Brasília, que Moreno também me ofereceu uma bela festa pelos meus 40 anos de jornalismo, que acabou sendo de despedida, pois estava deixando o governo, no final de 2004.

Mesmo nas suas famosas festas e jantares, o repórter nunca parava de trabalhar, e ele não se limitava ao círculo fechado da política _ era amigo de tudo quanto é artista, do pessoal do futebol e da turma da academia, um verdadeiro ING (Indivíduo Não Governamental).

Assim como Carlos Castello Branco, o Castelinho, outro célebre colunista político, Moreno não precisava correr atrás das "fontes" que cultivava. Ao contrário, eram os políticos que iam atrás dele quando tinham uma informação importante a dar.

Convivemos bastante na campanha presidencial de 2002, quando Lula foi eleito. Moreno era um carrapato e não largava o candidato quando estávamos no Rio ou em Brasília.

Certa vez, apareceu como quem não quer nada logo cedo no Hotel Glória, no Rio, onde Lula tinha um café da manhã marcado com o patrão dele, João Roberto Marinho.

Ficamos numa outra sala, eu, ele e Marisa, a mulher de Lula, esperando o café terminar. Para não perder a viagem, o velho repórter aproveitou para fazer matéria com Marisa, que não dava entrevista para ninguém.

Ao final, perguntamos ao então candidato como tinha sido a conversa, mas Lula desconversou: "Foi uma conversa de negócios, não vou falar pra vocês".

Brincando, perguntei a Lula, como assim, que história é essa de conversa de negócios: "Você comprou a Globo ou vendeu o PT?"

Claro que Moreno não perdeu a chance de publicar o diálogo na sua coluna, sempre recheada de ironia e bom humor, tratando de forma leve os assuntos mais pesados no inimitável estilo que criou.

Por pior que fosse a crise, o amigo nunca deixava de lado a lhaneza no trato, sempre perguntando pela família e preocupado com os amigos comuns.

Acabou ficando amigo da família toda, principalmente da minha filha Mariana, também jornalista. Na última troca de mensagens entre os dois, ficaram de marcar um almoço comigo quando ele viesse a São Paulo.

Isso foi no começo de maio. Não deu tempo da gente se rever. Moreno foi-se embora sem aviso prévio.

Quero morrer como ele: de repente, sem sofrer e sem dar trabalho aos outros, partindo como sempre viveu, discretamente, sem fazer drama.

Quando nos reencontrarmos, vamos ter muita história para contar, que é o que fica da vida.

Tem gente que vive para competir, pisando nos outros, levando vantagem.

Pois nosso Moreno era o contrário disso: só queria se divertir trabalhando, em paz, fazendo amigos.

Vai fazer muita falta.

Vida que segue.

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