Estava tudo montado para Gilmar Mendes brilhar no comando do julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, mas quem venceu o primeiro embate foi o relator Herman Benjamin.

A disputa até aqui se deu em torno da utilização ou não das delações da Odebrecht como provas do abuso de poder econômico na campanha eleitoral de 2014, tese defendida por Herman em seu relatório, e contestada por Gilmar.

O presidente do TSE entrou em campo na noite de terça-feira como franco favorito, com maioria no plenário, depois de suspender o julgamento, em abril, para que fossem ouvidas novas testemunhas, enquanto providenciava a troca de dois ministros em comum acordo com o governo.

Até a suspensão da segunda sessão, na hora do almoço desta quarta-feira, discutia-se apenas os números do placar _ 4 a 3 ou 5 a 2 _ a favor da manutenção do mandato do presidente Michel Temer, que era tudo o que Gilmar Mendes queria.

Agora, diante da vigorosa defesa feita pelo relator a favor da cassação da chapa durante a longa discussão das preliminares, em que as defesas de Temer e Dilma se uniram contra o uso das delações, o resultado voltou a ficar indefinido.

Desde o reinício do julgamento neste processo instalado a pedido do PSDB, hoje aliado do governo, que já completou 900 dias no TSE, Gilmar procurou interromper a todo momento a fala de Herman com ironias, mas o relator se manteve firme.

Só que por mais uma das muitas ironias desta história, Herman baseou sua argumentação no voto dado pelo próprio Gilmar contra o arquivamento do processo, para que fossem investigados os fatos novos trazidos pela Lava Jato, quando a presidente ainda era Dilma Rousseff e Temer seu vice, antes da delação da Odebrecht, que jogou todos no mesmo saco.

O antagonismo entre os dois já tinha ficado evidente na noite de terça, quando Gilmar advertiu Herman de que uma medida drástica como a cassação da chapa pode provocar instabilidade política. "O TSE cassa mais mandatos do que a ditadura", acusou Gilmar, embora nunca o tribunal tivesse julgado um presidente da República no exercício do mandato.

Na réplica, Herman lembrou que ditaduras cassam quem defende a democracia. "E o TSE cassa quem é contra a democracia".

Logo no reinício do julgamento nesta manhã, o presidente do TSE atacou novamente o relator ao dizer que seu argumento a favor do uso das informações prestadas pelos delatores da Odebrecht era falacioso porque neste caso teria que incluir também outras delações.

"Agora vossa excelência tem mais um desafio: manter o processo aberto para trazer as delações da JBS e, na próxima semana, a delação de Antonio Palocci, só para mostrar que seu argumento é falacioso".

E por aí foi. Diante das repetidas citações feitas por Herman Benjamim do seu voto pela continuidade do processo, em 2015, Gilmar Mendes se vangloriou:

"Essa ação só existe graças ao meu empenho. Modéstia às favas. Vossa Excelência hoje é relator e está brilhando aí na televisão do Brasil todo".

"Vossa Excelência sabe que eu prefiro o anonimato, muito mais", interrompeu-o o relator. "Em processo no qual se discute a condenação de A, B ou C, não tem e não deve haver nenhum glamour pessoal".

Antes, Gilmar havia argumentado que tinha defendido o prosseguimento do processo dois anos atrás, não para cassar mandatos, mas apenas para debater o financiamento ilegal de campanhas políticas.

Alinhado ao presidente do TSE, o ministro Napoleão Nunes Maia Filho questionou o uso dos vazamentos das delações da Odebrecht, ao que o relator respondeu, provocando sorrisos na distinta platéia:

"Só índios não contatados da Amazônia não sabiam que a Odebrecht havia feito colaboração premiada. Se isso não é fato notório e público, não existirá outro. Todos nós sabíamos disso".

Ao final, depois de receber o apoio do ministro Luiz Fux sobre a utilização de provas que não constavam na ação inicial do PSDB, Herman Benjamim rejeitou as três questões preliminares apresentadas pelos advogados de Temer e Dilma. Nenhum ministro o contestou.

Muito gripado, o relator disse que estava ficando sem voz, e Gilmar aproveitou para encerrar a sessão, convocando todos para voltarem às 9 da manhã de quinta-feira. E avisou que, se for preciso, haverá novas sessões na sexta, sábado e domingo.

Tudo indica que teremos, afinal, antes da semana acabar, a decisão deste processo para sabermos quem fica na presidência da República.

E vida que segue.

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