Maia pode ficar com o espólio de Cunha Temer

O deputado Eduardo Cunha no dia de sua prisão, em 2016 (Foto: Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Dilma Rousseff começou a cair quando perdeu o apoio do PMDB, principal aliado do seu governo.

Michel Temer assumiu seu lugar e agora pode ter o mesmo destino ao ser abandonado pelo principal partido aliado, o PSDB, que estava na oposição a Dilma e se juntou ao PMDB para voltar ao poder.

Os senadores tucanos Tasso Jereissati, presidente interino do partido, e Cássio Cunha Lima, ligado a Aécio Neves, já deram a senha na quinta-feira: o governo Temer acabou e Rodrigo Maia é a solução, simples assim.

Cunha Lima até marcou data: "Dentro de 15 dias, o país terá um novo presidente".

Apenas um ano se passou entre os dois movimentos, muita coisa mudou, mas um personagem continua protagonista nesta ciranda do poder: Eduardo Cunha, ex-aliado de Maia, que comandou o impeachment de Dilma e agora está ameaçando detonar seus velhos companheiros de guerra da "turma do pudim" do PMDB, toda ela encalacrada nas delações da Lava Jato.

Maia também é alvo de inquéritos no STF, acusado por delatores da Odebrecht de receber repasses via caixa dois nas eleições de 2008, 2010 e 2012. Na lista da empreiteira, seu codinome é "Botafogo".

Quando o ex-todo poderoso presidente da Câmara caiu em desgraça, logo depois de comandar o impeachment de Dilma, quem ficou em seu lugar foi Rodrigo Maia, obscuro e inexpressivo parlamentar carioca, eleito para cumprir um mandato tampão. Depois foi reeleito com folga, apoiado pela mesma bancada suprapartidária do baixo clero financiada por Cunha em 2014, e até por setores da oposição.

Dois anos antes, à frente de um partido que parecia em extinção, o antigo PFL que depois virou DEM, Maia foi candidato a prefeito do Rio, o único cargo executivo que disputou na vida. Ficou na rabeira, com 3% dos votos.

Dele não se tem notícia de uma única iniciativa, ideia original ou projeto importante, pouco se sabe sobre o que pensa, mas ninguém duvida da sua habilidade em manobrar nos bastidores do governo e da oposição, com sua fala mansa de velho político mineiro do interior.

Primeiro nome na linha sucessória, filho do folclórico ex-prefeito carioca Cesar Maia, hoje vereador, o presidente da Câmara surge em Brasília como solução natural, um candidato de consenso da base aliada, caso Temer não consiga sobreviver ao cerco da Justiça, a todo momento ameaçado por novas delações.

Rodrigo Maia é o próprio retrato da falência de lideranças no Congresso Nacional, onde a maioria também está sendo investigada e só pensa em manter o foro privilegiado para salvar a própria pele.

Assim, a Presidência da República, com o espólio de Cunha-Temer, pode cair no colo dele de graça para que tudo continue como está, só trocando o inquilino do terceiro andar do Palácio do Planalto.

E ninguém simboliza melhor esta decadência da classe política do que Eduardo Cunha. Mesmo preso há nove meses na cadeia em Curitiba, o bem sucedido exportador de carne enlatada continua dando as cartas na dança do poder em Brasília.

Vida que segue.

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