Todos os dias vou dormir e acordo disposto a acreditar no que acabei de escrever neste título aí de cima, mas está difícil.

Num país dividido entre os que já estão desempregados e os que temem ficar sem trabalho amanhã, a esperança passou a ser uma questão de sobrevivência.

Depois de mais de meio século de trabalho ininterrupto e de contribuir religiosamente com a Previdência, a aposentadoria que recebo não dá para pagar nem o plano de saúde da família.

Por um bom tempo, como ganhava bem, fui descontado pelo teto de vinte salários mínimos. Mais tarde, o teto caiu para dez mínimos, me aposentei com seis, mas depois de tantas mudanças na legislação o que me pagam hoje mal chega a três.

O medo do amanhã, que hoje assola boa parte dos brasileiros e lota as clínicas médicas, não pode, no entanto, sufocar os nossos sonhos de uma vida melhor. Qual é a receita?

Para isso, não há remédio que dê jeito, a não ser que você deixe de frequentar o noticiário e passe só a ler bons livros e a fechar os olhos para o resto.

Numa semana em que a Lista do Janot foi vazada pelo próprio Ministério Público Federal, numa inacreditável "entrevista coletiva em off", como denuncia a ombudsman Paula Cesarino Costa na Folha deste domingo, festejamos a criação de 32 mil empregos num universo de 13 milhões de desempregados.

Como acreditar que "o pior já passou", o novo jargão da copiosa propaganda oficial, quando no dia seguinte ficamos sabendo do esquema de corrupção que libera carne estragada para o nosso consumo, enquanto se trama uma "reforma política" para salvar a cara dos políticos denunciados na Lava Jato?

O sonho de qualquer pai é deixar para os filhos um mundo melhor, mais fraterno e mais seguro, mas por tudo o que está acontecendo no presente, estamos detonando as conquistas do passado e comprometendo o nosso futuro.

É por isso que os consulados estão lotados de gente querendo adotar a cidadania dos seus antepassados e o maior sonho de tantos jovens é estudar e trabalhar em outro país.

Metade da minha pequena família já foi embora e não pensa em voltar.

Vou me sentindo cada vez mais solitário e sem argumentos na minha paixão pelo Brasil, a terra adotada e amada por meus pais, que para cá vieram deixando para trás uma Europa arrasada pela guerra, sem emprego e sem comida.

Aqui não tivemos guerra nenhuma e, no entanto, nos sentimos como refugiados em nosso próprio país, sem nenhuma perspectiva de mudanças tão cedo. Lamento escrever isso, mas repórter não pode brigar com os fatos nestes tempos de pós-verdades.

E apesar de tudo, sonhar é preciso.

Vida que segue.

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