No pós Janot, a corrida para anistiar corrupção

Funcionária da PGR carrega caixa com processos para serem entregues ao STF (Foto: Folhapress/Folhapress)

Caixa dois seria uma coisa, propina seria outra, dinheiro embolsado seria uma coisa, dinheiro gasto na campanha, bem outra. Jurisconsulto de renome, o doutor Gilmar Mendes fica devendo uma tabelinha capaz de diferenciar urubu de carcará (Elio Gaspari em "Só a rua salva a Lava Jato _ A oligarquia unida jamais será vencida e ela quer assar uma pizza, mandando a conta para a patuleia").

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Na prática, não muda nada tão cedo. A agonia continua.

Vai levar muitos anos para que os políticos com foro privilegiado citados  na Lista de Janot-2 sejam levados a julgamento no STF.

Tenho minhas dúvidas se ainda estarei vivo para ver isso, se é que um dia vai acontecer.

Já que não dá para negar nem apagar o que foi feito e denunciado na megadelação suprapartidária da Odebrecht, que pegou quase todo o mundo político, começa agora uma nova corrida contra o tempo.

O objetivo imediato que une governo e oposição neste momento é preparar e aprovar a toque de caixa uma "reforma política" para zerar o jogo.

Sob o pretexto de discutir novas formas de financiamento de campanhas eleitorais, proposta apresentada pelo ministro Gilmar Mendes, o que todos querem é estabelecer regras valendo daqui para a frente e, ao mesmo tempo, anistiar a corrupção passada.

Nas negociações que se se sucedem no Palácio do Planalto e no Congresso, igualmente alvejados segundo os primeiros vazamentos da nova Lista de Janot, instalou-se o salve-se quem puder _ se possível, todos juntos _ e dane-se o resto.

É este o espirito que anima a reunião convocada para a tarde desta quarta-feira pelo presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto.

Com a participação dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Eunício Oliveira, ambos citados na lista, também foi convidado o onipresente Gilmar Mendes, é claro, hoje o principal conselheiro do presidente.

Como presidente do TSE e ministro do STF, a quem no final da história caberá julgar os acusados, Mendes tornou-se o grande mentor desta "reforma política dos políticos", que tem na pauta a cláusula de barreira e o voto em lista dos partidos.

É aí que querem incluir a anistia no bojo do novo financiamento de campanhas, tanto faz se o nome do bicho é urubu, carcará ou meu louro.

Ninguém poderá falar nada de ninguém porque entraram todos na roda da Odebrecht: os ex-presidentes petistas Lula e Dilma, ministros e senadores do PMDB e do PSDB, quase toda a cúpula do governo Temer, os presidentes da Câmara e do Senado, e os presidenciáveis tucanos Aécio Neves e José Serra.

Como estão todos no mesmo barco, e não houve surpresas na lista, a princípio não deve ser alterado o cenário para a eleição presidencial de 2018, que será disputada entre tribunais e palanques, se o atual sistema político sobreviver até lá.

Até a quebra dos sigilos e a divulgação completa dos nomes dos políticos delatados e dos respectivos crimes de que são acusados, a burocracia e os ritos lentos do Judiciário vão amortecer o primeiro impacto dos vazamentos que começaram logo após a chegada das dez caixas brancas da PGR depositadas na sala-cofre do STF.

Falta saber ainda, por exemplo, o que os 77 executivos da empreiteira contaram sobre os esquemas de "doações legais" ou não para governos estaduais e municipais.

Com certeza, a pródiga doadora Odebrecht não criou um Departamento de Propinas (o popular Deprop) só para a Petrobras.

E vida que segue.

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