congresso2 Novo normal explica e anima as noites de Brasília

O congresso nacional (Foto: Rubens Chaves/Folhapress)

"O meu cantar está polido/Posso, não vou esbravejar/Sinto não corro perigo/Zumbido de flecha no ar" (Versos da música "Na calada da noite", gravada pela banda Barão Vermelho, em 1990).

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Andam cada vez mais animadas as noites e madrugadas em Brasília.

É na calada da noite, nas horas mais tardias, quando a maioria dos brasileiros já está dormindo ou vendo futebol, que as excelências reunidas em palácios e plenários decidem os nossos destinos em agendas públicas ou secretas nas horas escuras.

Às favas com a Constituição, os protocolos, regimentos, normas legais, independência dos poderes e tudo que possa atrapalhar os planos e interesses dos pais da pátria.

Tudo agora é justificado por líderes e cientistas políticos, juristas e consultores de qualquer coisa como o "novo normal".

Do que se trata? Eles têm mil explicações, mas em resumo isso quer dizer que agora vale tudo, vigora a lei do salve-se quem puder e dane-se o resto, em nome das reformas e da "governabilidade".

E nada mais deve nos causar estranheza: é assim porque tem que ser assim, e acabou.

Ao raiar desta desta quinta-feira, ficamos sabendo que criaram um tal de "Fundo Especial de Financiamento da Democracia", o nome pomposo dado à "Bolsa Político" para bancar campanhas eleitorais sem o caixa dois das empreiteiras.

Aprovado por 25 votos a 8 na comissão especial da reforma política na Câmara, que só foi feita para isso, o fundo vai nos custar mais R$ 3,6 bilhões em 2018.

De onde vai sair tanto dinheiro se os cofres públicos já estão arruinados? Isso é um detalhe, ninguém se preocupou em explicar.

Ao mesmo tempo, anunciava-se que, após cinco horas de reunião do presidente Michel Temer com a equipe econômica, na quarta-feira, o governo decidiu aumentar em R$ 20 bilhões o deficit fiscal deste ano, chegando o rombo agora a R$ 159 bilhões.

Bilhões para cá, bilhões para lá, os líderes do Centrão já avisaram que não querem saber só do dinheiro das emendas parlamentares para votar com o governo.

Querem os cargos dos partidos infiéis, como o PSDB, que continua com quatro ministérios, enquanto faz autocrítica na televisão admitindo que o partido errou, mas não diz quem, como, onde, nem quando.

Se os parlamentares do baixo clero do Centrão de Cunha, que passaram de coadjuvantes a protagonistas da cena política, não tiverem seus pleitos atendidos, ameaçam não votar a pauta econômica e causar um prejuízo de R$ 13 bilhões na arrecadação federal.

Em jantares e reuniões sem hora para acabar, capas pretas dos três poderes discutem oficialmente a reforma política com o único objetivo de garantir privilégios e a própria sobrevivência.

Para isso, aprovaram junto com o financiamento público de campanha, já alta madrugada, a estrovenga do "distritão", um sistema eleitoral que beneficia quem já tem mandato e impede a renovação das bancadas, atualmente só adotado em quatro países no mundo, entre eles potências democráticas como o Afeganistão e a Jordânia.

Vale tudo para garantir o cargo ou o mandato, quer dizer, o foro privilegiado, que é o que realmente importa.

Vida que segue.

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