O novo poder do Centrão rural: casamento na roça

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Está na hora de encararmos certos fatos. Que milagre fará com que o eleitor que votou neste Congresso não eleja um outro pior ainda? Qual a chance de alguma coisa mudar para melhor com legislaturas cada vez piores? Fica todo mundo debatendo eleição de presidente. O problema e a solução estão no Congresso (Eduardo O. Cavalcanti, de Campo Grande, MS, no Painel do Leitor da Folha).

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Placar final na Câmara: 263 a 227 para o governo. Vitória do presidente Michel Temer e da sua nova base aliada em que o Centrão rural do baixo clero tomou o lugar dos cardeais do PSDB urbano na aliança comandada pelo PMDB.

Após 12 horas da sessão em que foi debatida a denúncia contra Temer por corrupção passiva, que mais parecia uma festa junina em pleno agosto, assim que a votação acabou começou a ser feito o balanço de fiéis e traidores, revelando a nova relação de poder em Brasília, que reflete a desindustrialização do país e a crescente força do agronegócio.

A grande vencedora foi a poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária, com seus 231 deputados, também conhecida como bancada do boi, a maior da Câmara e a mais fiel ao governo.

Do outro lado da cerca, o ex-aliado PSDB rachou e foi o grande perdedor: dos seus 47 deputados, 21 votaram contra o governo.

A bancada tucana, que tinha o relator Paulo Abi-Ackel, favorável ao governo, fechou questão contra o relatório e pelo prosseguimento da denúncia contra Temer.

Aécio e Tasso disputam o espólio. FHC retirou-se de cena.

Não esperaram nem o corpo do traidor esfriar: assim que foi anunciado o resultado, líderes do Centrão sairam a campo para cobrar do Palácio do Planalto punição a parlamentares da base aliada que votaram contra o governo.

Querem os quatro ministérios ainda nas mãos do PSDB, principalmente o das Cidades, que é o que tem mais verbas.

"O momento é de avaliar o resultado com muito critério e respeito aos parlamentares que deram demonstração de lealdade ao presidente", proclamou o líder do governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro, do PP, que comanda o Centrão junto com PR, PSD, e PTB e outras siglas médias e nanicas.

Na véspera da votação, as bancadas da frente ruralista do Centrão já tinham dado demonstrações da sua força ao almoçar e jantar com o presidente Temer, depois que o governo divulgou medida provisória reivindicada pelo setor para parcelar com desconto multas e dívidas de contribuições previdenciárias em até 14 anos.

A fidelidade tem seu preço. Levantamento feito pelo jornal Valor Econômico revela que o custo total da operação desencadeada pelo governo nas últimas semanas para garantir a vitória na Câmara, incluindo os agrados aos ruralistas, emendas parlamentares, verbas para municípios, distribuição de cargos de confiança e outros benefícios, chegou a R$ 13,2 bilhões _ ou seja, mais do que os R$ 10 bilhões a serem arrecadados com o aumento dos impostos nos combustíveis.

E agora? O governo ganhou a batalha na Câmara, mas a guerra jurídica e política está longe de acabar. E a meta de R$ 138 bilhões de deficit fiscal para este ano está ameaçada de estourar.

Na mesma hora em que Temer comemorava a vitória com um discurso no Palácio do Planalto, mais uma vez prometendo tocar as reformas e pacificar o país, era divulgada a notícia de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal a inclusão dos nomes do presidente da República e dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco no inquérito da Lava Jato conhecido como "quadrilhão do PMDB".

Acho que fui dos poucos brasileiros a acompanhar pela televisão, do princípio ao fim, os longos debates que marcaram o dia chamado de "histórico" em que me senti num casamento na roça.

Discursos, figurinos, penteados, tudo fazia lembrar a chegada da Família Real ao Brasil rural no começo do século 19, tão bem contada pelo jornalista Laurentino Gomes no livro "1808".

Teve de tudo: deboches, chacotas e ofensas, deputados com dificuldades para ler discursos escritos, malas pretas com cédulas de dinheiro falso voando pelo plenário, pixulecos rasgados, empurra-empurra, bate boca, barraquinhas para negociações de emendas de última hora, uma farra. Só faltou uma boa música sertaneja para celebrar os novos velhos tempos em Brasília.

Vida que segue.

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