dilma Vamos virar a página da vergonha e olhar para o futuro

Depois de 2 anos e 7 meses de trabalho, o maior mérito do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, entregue nesta quarta-feira à presidente Dilma Rousseff, foi o de ter sido divulgado agora, exatamente no momento em que neogolpistas e viúvas da ditadura militar estão se assanhando nas ruas e nas redes sociais, querendo trazer de volta um período de triste memória, esta página de vergonha da nossa História, que está na hora de ser virada.

Alguns leitores, editores e amigos estranharam que eu não tivesse tratado mais deste tema aqui no Balaio, mas tenho mesmo uma grande dificuldade para ficar remoendo um passado de sofrimento, tanto na vida do país como na minha vida familiar, que gostaria de sepultar na lembrança, para poder me ocupar melhor do presente e do futuro.

Tanto por parte de pai como de mãe, sou filho de famílias que foram perseguidas nos seus países de origem, na Europa, sobreviveram às atrocidades das duas grandes guerras mundiais e vieram parar aqui no Brasil em busca de paz.

Sou o primeiro brasileiro da família, nascido apenas duas semanas após meus pais desembarcarem de um navio de refugiados no porto de Santos, e tenho muito orgulho disso. Na minha infância, em casa, os mais velhos evitavam falar dos tempos de guerra para evitar que os sofrimentos deles passassem para os filhos e netos.

Por isso, ao escrever meu livro de memórias, Do Golpe ao Planalto, em meados da década passada, tive muita dificuldade para resgatar minhas origens familiares, cavoucando documentos e cartas amarelecidos pelo tempo que meus pais guardaram, mas nunca haviam me mostrado.

Até hoje, evito lembrar da morte de meu pai, muito jovem, quando eu tinha 12 anos. Lido muito mal com estas lembranças e entendo perfeitamente o choro da presidente Dilma neste trecho do seu discurso no Palácio do Planalto, ao receber o relatório histórico:

"Afirmei que o Brasil merecia a verdade, que as novas gerações mereciam a verdade, e, sobretudo, mereciam a verdade aqueles que perderam familiares, parentes, amigos, companheiros e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo, e sempre, a cada dia".

É exatamente isto que sinto quando me pedem para relembrar, em repetidas entrevistas para documentários e trabalhos acadêmicos, os tempos do golpe cívico-militar-midiático de 1964, que este ano completou 50 anos, o mesmo tempo que tenho de jornalismo.

Sim, o Brasil merecia a verdade, cara presidente Dilma, e agora a temos por inteira, com a identificação dos responsáveis pelas atrocidades cometidas e a descrição da cadeia de comando de uma política de Estado, a começar pelos cinco generais-presidentes (Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo), como eram chamados os ditadores naquele tempo, todos já mortos.

Cabe agora a nós, sobreviventes, cuidarmos do presente e olharmos para o futuro, sem revanchismos nem ódios, mas também sem medo de enfrentar os inimigos da democracia, que continuam à espreita, esperando só uma chance de voltar ao poder.

Pena que tenhamos demorado tanto para enfrentar o que outros países, que enfrentaram a mesma tragédia, já resolveram há muito tempo. Antes tarde do que nunca, Dilma em boa hora criou a coragem que os presidentes civis que a antecederam não tiveram para mandar investigar os crimes de lesa-humanidade aqui perpetrados e nominar 377 pessoas como responsáveis por eles.

Devemos isso ao trabalho incansável, do qual sou testemunha, de seis brasileiros da melhor qualidade humana e honradez profissional, cujos nomes devemos guardar para sempre: Pedro Dallari, José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Maria Cardoso da Cunha.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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jornalistas1 Afinal, onde estão estas ameaças à nossa liberdade?

Antes de começar a escrever na manhã desta quarta-feira, olho debaixo da mesa, abro as portas dos armários, tiro os livros das estantes, tomo todos os cuidados para me certificar de que não tem nenhum agente secreto à espreita querendo cercear minha liberdade de expressão.

De onde ressurgiu de repente esta síndrome de pânico da censura, que desaparecera da minha vida em 1975, quando o general-presidente Ernesto Geisel fez o favor de tirar seus homens das oficinas do centenário Estadão, onde eu trabalhava e eles por sete anos cortavam as matérias que a gente escrevia?

Acho que fiquei muito impressionado com as ameaças que ouvi de alguns colegas na noite da entrega dos prêmios aos "Cem mais Admirados Jornalistas Brasileiros", uma iniciativa das empresas Jornalistas&Cia. e Maxpress, baseada numa pesquisa feita junto a 2 mil executivos de Comunicação Corporativa num universo de 55 mil profissionais em atividade no país.

Segundo alguns destes profissionais admirados e premiados que, sem citar fatos nem entrar em maiores detalhes, fizeram discursos inflamados sobre a gravidade do momento para a nossa profissão, diante das ameaças governamentais à liberdade de imprensa e expressão, a volta da censura estava logo ali na esquina, com as tropas só esperando uma ordem para invadir as redações, como fizeram na noite de 13 de dezembro de 1968 no Estadão, quando boa parte dos 600 convidados que lotavam o salão do Clube Homs, na avenida Paulista, nem havia nascido ou não tinha a menor ideia do que foi o Ato Institucional Nº 5.

A partir do alerta sobre os perigos iminentes feito por um colega de Brasília, cujo nome não me lembro, vários outros premiados viram-se como que na obrigação de também tocar no assunto, na mesma linha de editoriais e colunas publicados nos últimos tempos pela imprensa familiar tucana, na linha de "o preço da liberdade é a eterna vigilância", a máxima do udenismo que voltou à moda na recente campanha eleitoral.

De onde tiraram isso? Não encontro nenhuma razão objetiva, nenhum fato novo concreto, qualquer sinal de que a liberdade de imprensa esteja correndo perigo no Brasil, um país que vive hoje o mais longo período democrático e de pleno respeito às liberdades públicas da nossa História.

Gostaria que me citassem um só caso em que a liberdade dos jornalistas e das suas empresas sofreu qualquer restrição por parte do governo federal, direta ou indiretamente, desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2003, quando eu era o Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Já naquela época, qualquer tentativa de se debater a necessidade da criação de um novo marco regulatório para as comunicações sociais, que vivem a mais profunda revolução desde a invenção da prensa de Gutemberg, faz mais de 500 anos, era imediatamente taxada de tentativa de controlar a imprensa e promover a volta da censura. Só para lembrar: a legislação em vigor data do tempo da televisão em branco e preto, lá nos idos dos anos 1960. Para os barões da mídia, que continuam os mesmos daquele tempo, é simplesmente proibido tocar neste assunto.

Pensei em falar disso quando me chamaram ao palco, já perto da meia noite. Mas, como cada "admirado" só tinha 15 segundos para os agradecimentos, e eu estava acompanhado de alguns dos meus netos, todos nós com sono, achei melhor deixar para lá, e curtir o resto da festa.

Só resolvi escrever sobre este assunto agora, depois de ler nota publicada no Observatório da Imprensa pelo meu amigo Luciano Martins Costa, um dos premiados, sob o título "O fantasma bolivariano". Faço minhas as palavras do sempre brilhante colega, que também não entrou na onda do efeito manada assustada daquela noite, e foi o único a registrar o que aconteceu em sua coluna:

"Na hora dos agradecimentos, foi das mesas onde se concentravam figuras conhecidas das grandes empresas de comunicação que brotaram os raros discursos com teor político: como num jogral, personalidades da escrita, do rádio e da TV desfiaram no palco seus temores e seu repúdio a uma suposta ameaça à liberdade de imprensa, que estaria pairando sobre o universo midiático. Foi quase um manifesto de solidariedade ao credo patronal: o Brasil estaria à beira de ver ressuscitar a censura do período militar, agora por conta de um regime "bolivariano" em Brasília".

"As frases de sentido dúbio insinuavam esta aleivosia, que vem sendo repetida por outros jornalistas menos categorizados do que aqueles _ os pitbulls remunerados para radicalizar o discurso partidário da imprensa _ colocando respeitados profissionais no papel pouco edificante de incutir naquele ambiente festivo um viés que _ por imposição ética do jornalismo _ só deve ser exposto em circunstância que permita o contraditório".

"Além do mais, foi uma manifestação de pouca educação, visto estarem todos ali para uma celebração, não para uma dessas passeatas que levam à Avenida Paulista os desafetos da democracia".

"A demonstração de corporativismo em seu sentido mais raso teve frases de efeito que beiravam a sabujice. Mas nada disso estragou a festa. O evento de Jornalistas&Cia. talvez seja o último lugar onde jornalistas brasileiros postados em campos ideológicos opostos podem trocar amabilidades, ainda que alguns não tenham entendido o espírito da coisa".

Nada tenho a acrescentar ou objetar.

jornalistas Afinal, onde estão estas ameaças à nossa liberdade?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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audalio3 Pois é, quem diria, Audálio Dantas está na moda

O jornalista Audálio Dantas

O tempo passa, o tempo voa, o tempo não perdoa, mas ele continua aí firme e forte, na batalha. Aos 85 anos de idade e 60 de profissão, em plena atividade, o jornalista Audálio Dantas, alagoano de Tanque D´Arca, testemunha e protagonista da nossa História, prepara-se para receber esta noite mais um premio pelo conjunto da obra. Muito justo.

Audálio está entre os "Cem Mais Admirados Jornalistas Brasileiros" que receberão seus troféus nesta noite de segunda-feira, em São Paulo. Prêmios e homenagens já fazem parte da sua rotina, principalmente nestes últimos anos, mas o de hoje é especial: foi baseado numa pesquisa inédita promovida pelas empresas Maxpress e Jornalistas & Cia., com mais de dois mil executivos de Comunicação Corporativa de todo o país, em votação direta, num universo que reúne 55 mil jornalistas profissionais.

Firme nos gestos e lhano no trato, Audálio foi e é mestre e exemplo de várias gerações de jornalistas. Repórter por gosto e vocação, está fora do mainstream da grande imprensa desde o final dos anos 1970, quando foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e nele teve papel central na denúncia do assassinato do nosso colega Vladimir Herzog, tema do livro As duas guerras de Vlado Herzog _ Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil, que lhe valeram os prêmios "Jabuti" (Livro-reportagem e Livro do Ano de não ficção) e "Intelectual do Ano" (Juca Pato), em 2013.

Somos amigos desde esta época, mas nunca tive a oportunidade de trabalhar junto com ele numa redação. Foi em feiras de livros, debates, seminários e nas diretorias e conselhos de entidades sindicais que passei a admirar cada vez mais este cidadão brasileiro, que teve papel fundamental na longa e penosa trajetória da ditadura à democracia, sempre fiel a seus princípios, colocando os interesses da sociedade acima daqueles da sua vida pessoal. Sei o quanto isto lhe custou, e ainda está custando, mas nunca o vi reclamar da vida. Ao contrário, está sempre disposto a encarar o próximo desafio, ao lado da inseparável Vanira, sua mulher, geralmente em atividades não remuneradas, sua especialidade.

"Você está ficando muito rabugento", queixou-se ele, com razão, na última vez em que viajamos juntos para participar do Fórum das Letras de Ouro Preto, em novembro. Para Audálio, ao contrário, não tem tempo ruim, mesmo tendo enfrentado seríssimo problema de saúde no ano passado. Não fosse por seus cabelos branqueados já faz tempo, ninguém seria capaz de adivinhar a idade desta figura, sobre a qual, alias, ainda há controvérsias.

Esta é apenas uma das muitas lendas que se criaram em torno dele, tantas quanto as reportagens e os livros que escreveu, desde que começou a trabalhar como repórter da Folha da Manhã ( hoje Folha de S. Paulo). Uma das suas primeiras reportagens premiadas foi uma entrevista "não dada" por Guimarães Rosa, quando o escritor veio lançar Grande Sertão: Veredas em São Paulo. Sem conseguir falar com Rosa, Audálio ficou fuçando em torno da mesa em que ele dava autógrafos, anotando as respostas dadas aos leitores e copiando algumas dedicatórias.

Além das características inatas de repórter que nunca desiste da pauta, Audálio sempre levou uma grande vantagem sobre a concorrência: sabe escrever, e escreve muito bem. Outra vantagem que levava nas redações é que saia para fazer uma matéria e voltava com várias, sobre os mais diversos assuntos. Nunca foi um especialista em nada. Claro que não dá para resumir neste breve texto os seus 60 anos de carreira, com passagens marcantes pelas revistas O Cruzeiro e Realidade.

Uma das passagens mais marcantes da longa trajetória de Audálio foi a descoberta, durante uma reportagem, da fantástica personagem Carolina Maria de Jesus, favelada que se tornou escritora, com o best-seller Quarto de Despejo, editado também no exterior.

Nas voltas que a vida dá, foi deputado federal pelo extinto MDB e primeiro presidente eleito pelo voto direto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde ainda atua como conselheiro, atividades que lhe renderam o Premio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU.

De tão boas, suas reportagens acabaram transformadas em livros, a começar por O Circo do Desespero, vindo depois O Chão de Graciliano, O Menino Lula e muitos outros. Até o mês passado, foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação e agora trabalha em diversos projetos na área cultural, entre eles um programa de entrevistas na televisão, que ainda está negociando. É membro da Comissão Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo e da Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas Brasileiros, entre muitas outras atividades.

Se tem mesmo um jornalista admirável neste país, sem dúvida é o tal de Audálio Dantas, que nunca sai de moda... Jornalista não tem muito o hábito de falar bem de outro jornalista, mas hoje acordei disposto a abrir uma exceção.

Valeu, velho Audálio!

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lobao 1024x682 Aécio vai à praia, Serra reaparece e Lobão reclama

Foto: DARIO OLIVEIRA/ AGÊNCIA ESTADO

 

"Cadê os parlamentares? Cadê o Aécio, cadê o Caiado? Estou pagando de otário!".

A queixa do roqueiro performático Lobão, agora transformado em garoto propaganda das manifestações contra o governo, tinha sua razão de ser. Afinal, foi o próprio candidato derrotado Aécio Neves, em pessoa, acompanhado por outros expoentes tucanos, quem convocou o protesto de sábado, na avenida Paulista, em São Paulo.

Era o quinto ato (favor não confundir com o Ato Institucional nº 5 dos militares, de 1968, o golpe dentro do golpe) contra Dilma, o seu governo e o PT, depois das eleições. Se tivesse lido a coluna de Ancelmo Gois publicada no jornal O Globo, no mesmo dia, Lobão teria a resposta nesta nota:  "Descanso _ Aécio e família descansam em Santa Catarina, onde ele obteve dois terços dos votos". Ninguém é de ferro.

Quer dizer, Aécio convocou a turma e, em seguida, se mandou para a praia, deixando Lobão na mão. Na avenida, sua tropa ficou dividida entre os que pregavam a volta dos militares e os que apenas queriam denunciar corrupção na Petrobras para impedir que Dilma assuma seu segundo mandato. Para surpresa geral, quem apareceu foi outro senador, o paulista José Serra, que andava sumido, principal antagonista de Aécio dentro do PSDB.

Já na reta final da caminhada, que reuniu entre 5 mil (segundo Folha e Estadão) e 8 mil pessoas (para O Globo), conforme o veículo e o PM ouvido pela reportagem, Serra subiu num carro de som e mandou ver, num tom misterioso: "As coisas não vão se resolver em uma semana, um mês ou um ano. Mas precisamos estar prontos para o imprevisto, para o improvável. Não há história sem fatos inesperados", alertou, sem entrar em detalhes. Serra acompanhou a ala principal dos manifestantes pacíficos, que foram até a praça Roosevelt, na região central, enquanto a dissidência pró-golpe seguia em direção ao Comando Militar do Leste, no Ibirapuera.

Na véspera da votação das mudanças na LDO, na madrugada de quinta-feira, em que a oposição mais uma vez saiu derrotada, Aécio foi mais duro do que seu rival, ao mesmo tempo premonitório e ameaçador: "Nós vamos perder, mas vamos sangrar estes caras até de madrugada". Aécio, que nem chegou a votar contra o governo, limitou-se a publicar uma foto do protesto em seu facebook.

Na manifestação do final da tarde de sábado, não correu sangue, mas enquanto o chefe descansava em Santa Catarina, seus seguidores mostraram os dentes em cartazes e palavras de ordem: "Fora, Dilma!" e "Impeachment! Fora, PT!" eram os mais democráticos.

O governo Dilma, como sabemos todos, está cheio de problemas para montar a equipe do segundo mandato, mas se depender desta oposição, agora liderada por Aécio Neves, podemos ficar tranquilos. Pela demonstração dada no quinto ato de protesto, esta oposição faz oposição a si mesma.

Até Lobão já está irritado com seus novos líderes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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feliz Me dê um motivo para ficar mais otimista em 2015

Na contramão da maioria dos meus amigos e das pessoas com quem convivo no lar, no trabalho e no bar, sempre fui um otimista, daqueles que chamam de inveterado. Alguns me consideram ingênuo ou romântico demais, na melhor das hipóteses, pois há também os que me acham apenas um perfeito idiota.

Procuro sempre ver o lado bom das pessoas e das coisas, mas, convenhamos, ultimamente anda difícil encontrar motivos e argumentos. Os mais otimistas que encontro pela frente se baseiam na esperança de que pior do que está não pode ficar.

Depois de acompanhar o frege que aconteceu esta semana no Congresso Nacional (ver meu comentário no Jornal da Record News de quinta-feira), com as baixarias, ofensas e rabos de arraia, tanto dos parlamentares do governo como da oposição, fica até difícil dizer quem se saiu pior nesta batalha inglória. No entanto, o pior é que os dois lados comemoraram o resultado. Dilma, mais uma vitória, e Aécio, mais uma derrota.

Curioso este nosso país, em que os vitoriosos saem da arena com cara de derrotados e, os derrotados, com cara de vitoriosos. Pelo menos, é assim que são vistos pelos "analistas independentes" da imprensa e da academia. O mote da moda agora é ganhar perdendo e perder ganhando, seja lá o que isso quer dizer.

O fato é que, somando tudo o que aconteceu, com a aprovação do projeto de lei da flexibilização da meta fiscal, depois de 18 horas de uma sessão que começou na manhã de quarta e terminou no final da madrugada de quinta-feira, restou mais uma vez a certeza de que, com o atual sistema político-partidário-eleitoral, nosso país é simplesmente ingovernável. Não há o menor risco de melhorar, se tudo continuar como está, com 30 partidos disputando 39 ministérios.

Quem se saiu vitorioso, na verdade, mais uma vez, não foi o PT nem o PSDB, mas o PMDB velho de guerra. Ao final, foram os caciques liderados por Michel Temer que garantiram a aprovação do projeto do governo e, assim, aumentaram seu cacife na formação do novo ministério, que já nasce velho, a julgar pelos primeiros nomes confirmados. Desse jeito, repito: tem alguma chance de mudar alguma coisa no segundo governo de Dilma?

A presidente Dilma também não ajuda a imagem do governo Dilma ao condicionar a liberação de mais R$ 444 milhões para as emendas parlamentares à aprovação da mudança no superávit fiscal _ e, ainda por cima, faze-lo por decreto publicado no Diário Oficial. Quem teve esta ideia de jerico?

Tem razão o Heródoto Barbeiro de me perguntar por que este furdunço todo, se o governo tem ampla maioria, tanto na Câmara como no Senado. Tem, mas não tem, como sabemos todos, e a cada votação é aquele barata voa que só revela a total falta de articulação política no Palácio do Planalto e nas suas relações com o Congresso Nacional.

Esperamos todos que Joaquim Levy possa mesmo botar ordem nas contas públicas e arrumar a casa na economia, mas ainda não consegui descobrir quem vai exercer o mesmo papel na área política. Dilma já deixou claro que não é do ramo e não gosta desta coisa de negociar com partidos e políticos, só que alguém terá que fazer isso para que o país não corra o risco, mais adiante, de enfrentar uma séria crise institucional. Se depender da oposição do agora lacerdista Aécio Neves, isso não demora, como ele revelou em seus inflamados discursos dos últimos dias.

O que nos espera em 2015? Conto com a colaboração dos caros leitores deste Balaio para que me deem bons motivos, argumentos inteligentes e razões fortes para não perdemos a esperança. Fazer cara feia e ficar reclamando da vida não resolve nada, e cenas deprimentes como as desta última semana em Brasília só vão se repetir.

 

 

 

 

 

 

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aecio1 Oposição derrotada parte para o vale tudo contra Dilma

É como se Aécio Neves dissesse para Dilma Rousseff, ao final desta opera bufa em que encarna Carlos Lacerda à beira de um ataque de nervos: "Tudo bem, eu perdi a eleição, não vou ser mais presidente, mas você também não vai governar. Nós não deixaremos".

Vai ficando mais claro a cada dia que o objetivo real da oposição é um só: criar o clima e as condições necessárias para que a presidente reeleita Dilma Rousseff não assuma o segundo mandato e, se isso acontecer, impedi-la de governar o país pelos próximos quatro anos.

A guerra deflagrada contra a votação do projeto de lei para autorizar mudanças na meta fiscal de 2014, que terminou nesta madrugada de quinta-feira, com mais uma vitória do governo, foi apenas o pretexto imediato utilizado pelas oposições mobilizadas no Congresso Nacional, no Judiciário e na mídia para uma ofensiva golpista sem precedentes.

* No Congresso Nacional _ O vale tudo começou na noite de terça-feira, quando uma tropa de choque oposicionista invadiu as galerias e tentou impedir a votação no grito e na marra. Eram apenas uns 30 bate-paus ensandecidos, gritando as mesmas palavras de ordem utilizadas nas recentes manifestações da avenida Paulista, em São Paulo, enquanto parlamentares do PSDB e do DEM, entre outros menos votados, ocupavam a tribuna com ataques irados contra Dilma e o PT, mas foi o suficiente para que, diante da baderna promovida pelos arruaceiros, o presidente do Senado, Renan Calheiros, suspendesse a sessão.

"Esta é a casa do povo e o PT tem que aprender a conviver com o povo novamente nas galerias", defendeu Aécio, que há muito tempo não usava a palavra povo duas vezes na mesma frase. Eles voltaram mais enfurecidos na manhã de ontem, dispostos a impedir a entrada de deputados e senadores, agora acoitados por tipos como Ronaldo Caiado, revivendo seus tempos de líder da famigerada UDR, e Paulinho da Força, sempre o mesmo, entre outros baluartes da democracia, que dão sustentação à "nova oposição" liderada por Aécio Neves. Nem o ex-presidente da República José Sarney escapou do cerco, que o deixou bastante assustado, quando os manifestantes chutaram e tentaram virar o seu carro.

À tarde, os representantes do povo pró-Aécio, convocados pela rede social por entidades como "Movimento Brasil Livre e Democracia", "Revoltados Online" e "O Brasil despertou", que passaram o dia gritando "Fora PT", "PT roubou" e "Vá para Cuba", receberiam o reforço do indescritível cantor Lobão, que apareceu em Brasília para liderar um "movimento popular" contra a votação, e chegou a ir ao STF para pedir a liberação do acesso às galerias.

Em conversas reservadas com sua tropa, segundo a Folha de S. Paulo, o ex-governador mineiro já deu as instruções, para não deixar dúvidas: a ordem é "cumprir o objetivo de deixar o governo Dilma no chão". Caso o projeto de lei sobre flexibilização da meta fiscal não fosse aprovado, a estratégia tucana era denunciar Dilma por "crime de responsabilidade", para embasar um pedido de impeachment. Derrotados novamente, agora os aliados de Aécio jogam todas suas fichas nas denúncias dos delatores na Operação Lava-Jato, uma ação casada com vazamentos seletivos, para levar o "mar de lama" até o gabinete presidencial.

"Se comprovadas essas denúncias, estamos diante de um governo ilegítimo", disparou Aécio Neves, nosso Carlos Lacerda redivivo, agora em nova versão radical chique, em que chegou a perder o fôlego ao final de mais um discurso incendiário para impedir a votação da lei, depois de ter afirmado em entrevista que perdeu a eleição para uma "organização criminosa".

É em meio a este clima beligerante que a Câmara Federal se prepara para eleger o ínclito Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como seu novo presidente, em fevereiro. E é com a boa vontade dele que a oposição conta caso consiga formalizar o sonhado pedido de impeachment, para abreviar sua volta ao poder. É o presidente da Câmara, afinal, quem decide se o pedido será ou não acolhido para seguir adiante nas comissões e no plenário. Assim se fecharia o cerco programado.

* No Judiciário _ Enquanto juízes e delegados da Operação Lava-Jato, em Curitiba, vão soltando a cada dia novas denúncias de pagamentos de propinas por executivos de empreiteiras a emissários do PT e partidos aliados, em Brasília arma-se o ataque final para colocar na mira diretamente a presidente Dilma Rousseff e, se possível, também seu antecessor Lula, virtual candidato a voltar em 2018. Segundo o jornal O Globo, o ministro Gilmar Mendes, sempre ele, do STF, já está preparando uma "devassa" nas contas da campanha da reeleição.

A estratégia ganhou força com o depoimento do empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto em que ele afirmou ter feito pagamentos de propina em troca de contratos na Petrobras, na forma de "doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores", que teriam começado em 2010, quando Lula era o presidente e Dilma candidata à sua sucessão.

O alvo imediato é João Vaccari Neto, tesoureiro do PT nas campanhas de 2010 e 1014, citado nas delações feitas pelo doleiro Alberto Youssef e pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Com base nos vazamentos destas delações premiadas, lideres da oposição revezam-se nas tribunas da Câmara e do Senado, quase sem contestação dos aliados do governo, para denunciar que está "sob suspeita" o comando do país.

* Na mídia _ Para amarrar as pontas e fechar a roda, não poderia faltar o decisivo apoio da mídia tucano-familiar, que rasgou a fantasia, e há semanas dedica a maior parte dos seus noticiários à Operação Lava-Jato, como se nada mais estivesse acontecendo no país, colocado à beira do abismo.

Já não se sabe se é a mídia que pauta as oposições no Congresso e no Judiciário ou vice-versa, pois virou tudo uma coisa só, muito bem orquestrada, por sinal. As manchetes e os destaques dos veículos impressos ou eletrônicos parecem ser produzidos pela mesma pessoa, a partir de um comando central que atende pelo pomposo nome de Instituto Millenium.

Após uma brevíssima trégua, com a indicação de Joaquim Levy para comandar a economia no segundo mandato, parece que resolveram abrir todas as comportas para inundar o país com o "mar de lama", uma criação original de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas, agora ressuscitada por Aécio Neves, que parece ter trocado definitivamente o PSD conciliador do seu avô Tancredo Neves pela velha UDN golpista das vivandeiras de porta de quartel.

Neste cenário de vale tudo, de nada adianta a presidente Dilma tentar acalmar as feras fazendo seguidas concessões à direita derrotada nas urnas. Ela e Lula são e serão tratados como inimigos a serem abatidos, sem dó nem piedade. Após 12 anos de PT no poder central, a turbulência brava está só começando. Senhores passageiros, fechem as mesinhas à sua frente, amarrem os cintos e desliguem seus aparelhos eletrônicos.

Vida que segue. E seja o que Deus quiser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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cunha Bancada de Cunha é o retrato da falência dos partidos

Eduardo Cunha

Para que servem, afinal, os partidos políticos, que nos custam tão caro (verbas do fundo partidário, tempo de televisão, etc.) e não param de se multiplicar?

Se alguém ainda tinha alguma dúvida da inutilidade dos partidos políticos brasileiros, e de que jogamos dinheiro fora para sustenta-los, um evento solene marcado para as 18 horas desta quinta-feira, no Congresso Nacional, em Brasília, é emblemático da falência desta miríade de siglas, que hoje não querem dizer absolutamente nada.

Trata-se do lançamento oficial da candidatura do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atual líder do partido, à presidência da Câmara Federal. Embora o PMDB seja o principal aliado do PT e tenha o vice-presidente da República, Michel Temer, reeleito na chapa de Dilma Rousseff, Cunha notabilizou-se na atual legislatura como o mais combativo e agressivo adversário do governo federal.

Contra a vontade de Dilma e de Temer, este controvertido deputado carioca, que está indo para seu quarto mandato e começou na vida pública como integrante da tropa de choque de Fernando Collor, levado pelas mãos de PC Farias, nos anos 1990, lançou sua campanha já faz tempo, quebrando um acordo de revezamento na presidência celebrado pelos dois partidos em 2010. Agora, era a vez do PT, que tem a maior bancada, indicar o candidato, mas Cunha não liga muito para estas coisas de acordos e programas partidários.

Afinal, ele tem a sua própria bancada, suprapartidária e independente. Dinheiro nunca foi problema para ele, desde que Collor o nomeou para a presidência da Telerj, a antiga empresa de telecomunicações do Rio de Janeiro.

Eduardo Cunha não esconde os métodos empregados para montar sua bancada particular, que reúne mais de 50 parlamentares fiéis, de diferentes partidos, um número que não para de crescer nestes dias de campanha pela presidência. "Este ano não tive dificuldade para captar. Até sobrou dinheiro na minha campanha", disse candidamente aos repórteres David Friedlander e Catia Seabra, da Folha de S. Paulo, após a campanha eleitoral de 2014. "Na maioria das vezes, são as empresas que me procuram. Até porque, tenho a mesma visão delas".

E não são empresas pequenas: Bradesco, BTG Pactual, Safra, Santander, Vale, Ambev e Coca-Cola estão na lista dos doadores que deram ao peemedebista um total declarado de R$ 6,8 milhões. Se sobrou dinheiro, como ele afirma, não é difícil imaginar como Cunha fez para ajudar nas campanhas de sua base suprapartidária, além de dar conselhos, é claro.

Enquanto isso, o ministro Gilmar Mendes continua dando vistas e não devolve o processo já aprovado pelo Supremo Tribunal Federal, por 6 votos a 1, que acaba com o financiamento privado de campanhas.

Sem estas doações desinteressadas, como Eduardo Cunha poderia montar sua bancada particular e surgir como franco favorito para assumir a presidência da Câmara nos próximos dois anos, desafiando os caciques do seu próprio partido? O deputado Gastão Vieira, do Maranhão, que já foi seu rival e recebeu a módica ajuda de R$ 300 mil para fazer campanha, só tem elogios a fazer à generosidade de Cunha: "Ele ajudou todo mundo", admitiu aos repórteres da Folha. Um dos doadores, executivo de grande empresa, revelou que Cunha lhe pediu ajuda para um grupo de 20 a 30 candidatos a deputado, em sua maioria do Nordeste, de Minas Gerais e do Rio.

Claro que esta turma toda de eleitores cativos de Cunha não pode nem ouvir falar em reforma política. Se está bom demais assim, para que mudar as regras do jogo?

Vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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aecio É preciso alguém avisar Aécio que a eleição acabou

Manhã de segunda-feira, 1º de Dezembro.

Já se passaram 35 dias desde que o Tribunal Superior Eleitoral anunciou o resultado do segundo turno, na noite de 26 de outubro, com a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Mas tem muita gente até hoje, na oposição e na mídia tucana que, simplesmente, não aceita a quarta derrota consecutiva.

Algum amigo precisa urgentemente avisar o candidato derrotado Aécio Neves e seu mentor Fernando Henrique Cardoso que a eleição já acabou, os palanques foram desmontados e a vida continua. Quem ganhou, ganhou; quem perdeu, perdeu. Agora, para tentar voltar ao poder novamente, é preciso esperar a próxima eleição presidencial, daqui a quatro anos. É assim que acontece nas democracias.

Até lá, cabe à oposição fazer oposição, dentro das regras do jogo, apresentando críticas e alternativas ao programa de governo do partido vencedor, que ainda nem foi anunciado em detalhes pelos ministros já indicados. A posse de Dilma e de sua nova equipe no segundo governo só se dará no dia 1º de janeiro de 2015.

O que importa, daqui para a frente, é saber o que será melhor para o nosso país, independentemente do que cada candidato falou ou deixou de falar durante a campanha eleitoral, uma página virada na nossa história. Não há mais candidatos, mas apenas uma presidente da República reeleita pela vontade da maioria do povo brasileiro, de forma tão inconteste como foi o bicampeonato do Cruzeiro no Brasileirão, conquistado dentro de campo.

Ao afirmar, em entrevista a Roberto D´Ávila, exibida na noite de sábado pela Globonews, que perdeu a eleição para uma "organização criminosa", Aécio Neves em nada contribui para desmontar as orquestrações golpistas dos que fazem protest0s nas ruas defendendo o impeachment de Dilma e a volta dos militares ao poder. Ao contrário, não contribui nem mesmo para o seu futuro político como novo líder da oposição, ao se inspirar no triste papel desempenhado por Henrique Capriles na Venezuela. Não foi esse o Aécio que conheci nas lutas pela redemocratização do país.

Vejam o que ele disse ao meu amigo Roberto D´Ávila:

"Na verdade, eu não perdi a eleição para um partido político. Eu perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas patrocinadas por esse grupo político que está aí".

Ainda em clima de disputa eleitoral, o tucano fez duras críticas à campanha da sua adversária: "Essa campanha passará para a História. A sordidez, as calúnias, as ofensas, o aparelhamento da máquina pública, a chantagem para com os mais pobres, dizendo que nós terminaríamos com todos os programas sociais (...) Essa sordidez para se manter no poder é uma marca perversa que essa eleição deixará".

Esta postura radicalizada de Aécio, na linha dos discursos do cantor Lobão, só se justifica se ele estiver preocupado em garantir desde já sua liderança no PSDB para as eleições de 2018. Mais do que ninguém, ele sabe que, até lá, seus principais concorrentes não estão no PT, mas dentro do seu próprio partido, em que o governador paulista Geraldo Alckmin já se perfila para a sucessão de Dilma, e nunca se pode esquecer da sombra de José Serra, agora de volta à ribalta do Senado.

A resposta aos ataques fora de época de Aécio não demorou. O secretário nacional de Comunicação do PT, José Américo, qualificou a declaração de irresponsável e anunciou que vai pedir ao departamento jurídico do partido uma análise da entrevista para estudar alguma ação contra o tucano na Justiça.

"É desagradável. Aécio mostra que não sabe perder. Não é um problema político, ele está abalado psicologicamente. A derrota em Minas abalou Aécio porque, ao perder no seu estado, perdeu também a corrida dentro do próprio PSDB. Está em desvantagem na sociedade e no seu partido. E aí faz uma acusação irresponsável deste tipo".

É melhor todo mundo agora esfriar um pouco a cabeça. Papai Noel já está chegando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Corria este sabadão pachorrento, sem maiores novidades, quando fui dar uma passeada por blogs e portais. Parei ao encontrar algo inacreditável publicado no blog do Paulo Henrique Amorim, que reproduziu um texto de Fernando Brito, por muitos anos assessor de imprensa de Leonel Brizola, e que hoje edita o "Tijolaço".

Brito é um jornalista da escola antiga, daqueles que não perdem o faro de repórter. Ficamos amigos na campanha presidencial de 1989, quando ele cruzou o país com Brizola, enquanto eu exercia o mesmo papel na campanha de Lula. Denuncia Brito:

"Quem está na iminência de ser indicada ministra de um governo sistemática e doentiamente combatido por Gilmar Mendes, com ações jurídicas e outras nem tanto, só pode fazer isso se não tem ideia de quem governa e de quem elegeu este governo".

O comentário indignado se refere a um artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, sob o título "Conflitos intermináveis", em que a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), aquela mesma da UDR e da CNA, trata da demarcação de uma terra indígena reivindicada pelos guirarocá no Mato Grosso do Sul. Vejam se não é espantoso o que ela escreveu, após as polêmicas decisões de Gilmar Mendes, sempre a favor do PSDB e de notórios malfeitores em geral, e contra o PT e os movimentos populares:

"As baterias ideológicas voltaram-se, então, contra o ministro Gilmar Mendes, pelo fato de sua família supostamente ocupar terras indígenas em Mato Grosso do Sul e, evidentemente, contra os "fazendeiros", como se esses fossem os algozes dos indígenas.

Cabe enfatizar que o ministro Gilmar Mendes é um dos mais sérios juristas deste país, cuja obra ultrapassa nossas fronteiras. No Tribunal, sempre pautou sua posição pela estrita aplicação da lei, não sucumbindo a pressões como essas que hoje o acometem. Os que contra ele vociferam são os que não possuem o mínimo respeito pelo Estado Democrático de Direito".

Claro que Kátia Abreu tem o direito de escrever o que ela quiser e defender quem ela bem entender.

Se assim pensa, no entanto, a senadora ruralista não deveria aceitar o convite para ser ministra da Agricultura de um governo eleito e comandado por uma presidente do PT, partido que historicamente defende os índios, os sem-terra, os quilombolas e os pequenos produtores rurais ameaçados pelos latifúndiários, justamente as parcelas da população por ela sempre combatidas desde os tempos da UDR de Ronaldo Caiado.

Se ainda faltava um bom motivo para a presidente Dilma Rousseff desistir de convidar Kátia Abreu para o seu novo ministério, agora não falta mais.

Fernando Brito termina assim seu texto, dirigindo-se a Kátia Abreu:

"Ninguém lhe pediu que esbofeteasse o mais figadal inimigo do governo no Judiciário, Gilmar Mendes. Seria desnecessário pedir-lhe que não esbofeteasse o governo com escancarados elogios a ele".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok2 Dilma fez o que devia e deixa oposições sem discurso

O que eles queriam, afinal?

Que Dilma deixasse tudo como está e nomeasse um companheiro revolucionário ou um burocrata anódino para comandar a economia no seu segundo governo?

As primeiras críticas feitas pelas oposições ao seu governo, à direita e à esquerda, antes mesmo do anúncio oficial, mostram que a presidente Dilma Rousseff estava certíssima ao montar sua nova equipe econômica com Joaquim Levy, na Fazenda, Nelson Barbosa, no Planejamento, e mantendo Alexandre Tombini no Banco Central.

Já que é impossível agradar a todos ao mesmo tempo, ainda mais num momento tão convulsionado da vida nacional, a presidente fez o que devia: acima de rótulos ou de siglas, nomeou três profissionais de competência reconhecida, com o objetivo central de restabelecer um clima de confiança, tanto entre investidores, aqui dentro e lá fora, como na sociedade dividida pela campanha eleitoral.

A primeira entrevista coletiva do novo trio econômico, que ainda não tem data para tomar posse, me passou uma sensação de tranquilidade, de saber o que estão falando e o que pretendem fazer para que o país volte a crescer sem atropelos, sem soluções mágicas, sem pacotes, sem sustos.

Quem pode ser contra o que disse Joaquim Levy, o chefe da nova equipe, que trabalhou na gestão econômica de Fernando Henrique Cardoso e foi Secretário do Tesouro no primeiro governo Lula, destacando-se tanto nas funções públicas como na iniciativa privada? Veja suas primeiras declarações:

"Temos a convicção de que a redução das incertezas em relação às ações do setor público sempre é ingrediente importante para a tomada de risco pelas empresas, trabalhadores e famílias brasileiras, especialmente as decisões de aumento de investimento (...) Essa confiança é a mola para cada um de nós nos aprimorarmos e o país crescer".

"A gente vai ver no dia a dia como a autonomia no cargo ocorre. Mas evidentemente quando uma equipe é escolhida é porque há confiança. Não tenho indicação nenhuma em contrário. O equilíbrio da economia é feito para garantir o avanço na área social que nós alcançamos".

"O Ministério da Fazenda reafirma o compromisso com a transparência de suas ações e manifesta o fortalecimento da comunicação de seus objetivos e prioridades e a comunicação de dados tempestivos, abrangentes e detalhados que possam ser avaliados por toda a sociedade, incluindo os agentes econômicos".

"Nossa prioridade tem que ser o aumento da taxa de poupança. Aumentando sua poupança, especificamente o primário, o governo contribuirá para que os outros agentes de mercado e as famílias sigam o mesmo".

É importante registrar que, antes de conceder esta entrevista, Joaquim Levy e seus dois colegas de equipe almoçaram com a presidente Dilma Rousseff e com ela acertaram os ponteiros. Quem já joga num confronto entre os novos ministros e deles com a presidente da República, como os "analistas independentes" do apocalipse, que sempre aparecem nestas horas para dar fundamento "científico" aos colunistas do pensamento único do Instituto Millenium, podem ir tirando o cavalinho da chuva.

Quem define política de governo e dá as ordens é quem senta na cadeira de presidente no terceiro andar do Palácio do Planalto, não os eventuais ocupantes de ministérios, aliás, por ela escolhidos. Se Dilma nomeou estes três é porque confia neles e não tem esta besteira de que daqui a dois anos, feito o ajuste fiscal com um "saco de maldades", vai trocar a equipe e voltar a ser tudo como era antes. Isso é papo de quem continua jogando no quanto pior melhor e não aceita o resultado das urnas, achando que nada neste governo pode dar certo, para ver se fatura algum na especulação financeira.

O fato é que Dilma deixou sem discurso esta turma do contra e setores do PT e da base aliada inconformados com a ousadia da presidente em dar um cavalo de pau na economia para colocar o navio novamente no rumo certo. Por falar nisso, o economista Joaquim Levy também é engenheiro naval e sua primeira missão, certamente, será consertar os rombos no casco.

Mais do que das palavras e intenções, gostei da cara boa dos três, gente comum capaz de sorrir mesmo em horas graves, falando coisas que a gente entende, sem querer mascarar as dificuldades, mas também sem nos tirar o ânimo para enfrenta-las. Por isso, fiquei mais otimista ao olhar para 2015, na contramão dos profetas do fim do mundo.

Kátia Abreu, não

Se Dilma Rousseff provou que estava certa na indicação de Levy, Barbosa e Trombini, o mesmo não se pode dizer da anunciada nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Tem coisa que pode e tem coisa que não pode. Kátia Abreu não pode, pelo conjunto da obra pregressa. Seria o mesmo, por exemplo, que nomear Paulo Maluf para o Ministério das Cidades ou lhe entregar as chaves do Banco do Brasil.

Parceira de Ronaldo Caiado e seus coronéis na famigerada União Democrática Ruralista (UDR) dos tempos da ditadura militar, que de democrática nada tinha, Kátia Abreu sempre esteve lutando do lado exatamente oposto aos que, no PT e fora dele, defendem como razão de viver a reforma agrária, a proteção do meio ambiente, a agricultura familiar, a demarcação das terras indígenas e dos quilombolas.

A política também é feita de símbolos _ e Kátia Abreu, hoje presidente da Confederação Nacional da Agricultura, simboliza o que há de mais reacionário, intolerante e autoritário neste importante setor da vida nacional. Não é possível que Dilma não encontre outro representante do agronegócio para ocupar este ministério. Alguém com o perfil de Roberto Rodrigues, por exemplo, um líder realmente democrático e capaz em seu ofício, que fez campanha para José Serra, em 2002, foi ministro da Agricultura de Lula, a partir de 2003, e agora apoiou Aécio Neves. Não tem problema. Como dizia o velho amigo José Alencar, vice de Lula, um sábio sem diploma, o importante não é a cor do gato, mas que ele seja capaz de caçar o rato.

Governo tem que procurar escolher os mais competentes e mais representativos em cada área, sem se preocupar com críticas de adversários nem muxoxos de aliados. Pode até descobrir depois que errou, mas não pode já começar errando. Ainda está em tempo de Dilma pensar melhor neste assunto.

Vida que segue.

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