ermirio Doutor Antônio era, acima de tudo, um trabalhador

Doutor Antônio: assim o chamavam, com respeito e reverência. Conhecido como o maior empresário do país durante décadas, de Antônio Ermírio de Moraes pode-se dizer que era, acima e antes de tudo, um homem trabalhador, que se orgulhava de não tirar férias.

A última vez em que conversamos mais longamente foi antes de uma entrevista dele no programa "Roda Viva", na TV Cultura, já faz algum tempo. Tinha ido direto do seu trabalho no hospital da Beneficência Portuguesa para os estúdios, e estava com fome, como eu também. Traçamos o lanche oferecido pela emissora, enquanto ele falava dos seus mil projetos, das coisas que andava fazendo _ falamos da vida, enfim, que o empolgava tanto.

"Mas eu já respondi isso ao Kotscho...", interrompeu várias vezes os demais entrevistadores.  Não gostava de repetir as mesmas coisas. "Sim, doutor Antônio", tentou explicar o apresentador do programa. "Só que agora estamos ao vivo e os nossos telespectadores também querem saber o que o senhor falou...".

Num país em que todo rico é chamado de doutor, doutor Antônio era doutor mesmo, em várias áreas, do alumínio das suas fábricas às mais novas tecnologias médicas. Formado em engenharia metalúrgica pela Colorado School of Mines, nos Estados Unidos, era também autor de vários livros e peças de teatro, um homem apaixonado pelo Brasil e por suas imensas potencialidades.

Só não gostava de preguiça, malandragem, puxa-saquismo, estas coisas tão nossas, que o irritavam. Por isso, só quebrou a cara quando resolveu entrar na política, nos anos 80 do século passado. Candidato a governador de São Paulo, em 1986, não demorou a descobrir que o que os seus correligionários, como se dizia na época, queriam mesmo dele era sua grana. Perdeu, acreditem, para um profissional do ramo chamado Orestes Quércia.

Ao se dar conta de que nossa política não era para amadores, preferiu se dedicar a ofícios mais úteis, como o de comandar a Beneficência, um dos mais antigos, modernos e melhores hospitais do país, ao qual oferecia boa parte do tempo que roubava da mulher e dos seus nove filhos.

Mais do que qualquer fábrica que criou em diferentes setores, o que fazia seus olhos brilharem era contar histórias de pacientes de todas as classes sociais salvos ou curados pela equipe do hospital que comandava. Ali todo mundo era atendido, mesmo sem documento nenhum.

Numa época em que ninguém ainda falava em "responsabilidade social", o grande empresário empenhou não só recursos, mas, principalmente, seu tempo, para ajudar os mais necessitados. Dava-se bem com intelectuais e artistas, e também gostava de conversar com seus colaboradores mais humildes, saber da vida deles.

Com seus ternos sempre amarrotados, gravata fora do lugar e cabelos revoltos, dava trabalho ao pessoal do camarim quando ia dar entrevistas na televisão. Respondia na lata, sem pensar muito, como se estivesse numa roda de amigos, sem se preocupar com a repercussão das suas palavras.

Foram estas as últimas lembranças que me ficaram desta figura singular, um sujeito de princípios e valores muito rígidos, como é raro encontrar hoje em dia. Claro que não era nenhum santo em sua atividade empresarial, era um trator. Quando tinha um objetivo em mente, atropelava mesmo quem lhe cruzasse o caminho, fossem concorrentes ou vizinhos das suas fábricas poluidoras, muito antes que surgisse a palavra sustentabilidade.

Pena que não pudemos conversar mais depois que ele ficou doente. Aos 86 anos, ao fazer um balanço na hora de partir, ele pode dizer que não apenas passou pela vida, mas a viveu  em sua plenitude, com tudo a que tinha direito, deixando mais do que obras, um exemplo.

Vai em em paz, doutor Antonio. E aproveita para descansar um pouco.

Prêmio Comunique-se:

estou lá, de novo

Saiu hoje a lista dos finalistas do Prêmio Comunique-se 2014. Para minha surpresa, meu nome aparece em duas categorias: Blog (portal R7) e Mídia Impressa (revista Brasileiros). Se fosse em uma só já estava bom, ainda mais neste ano em que completei meio século de jornalismo.Desde 2004, quando saí do governo federal e voltei a trabalhar como repórter, quase todo ano estou lá entre os três finalistas. Já ganhei e já perdi algumas vezes. O importante é estar na festa, uma espécie de "Oscar do Jornalismo", quando são anunciados os vencedores das 24 categorias de profissionais de comunicação.

Para votar é preciso ser jornalista cadastrado no site Comunique-se. Como dizem os candidatos na TV: "Venho aqui pedir o seu apoio".

E termino como eles falam: "Conto com o seu voto!".

Sou muito grato a todos os leitores e colegas do R7 e da Brasileiros.

Aproveito para informar que o nosso Balaio está sem patrocinador. Se alguma das empresas patrocinadoras do prêmio _ ou qualquer outra _ se interessar, pode entrar em contato comigo mesmo: rikotscho@uol.com.br

A lista completa dos finalistas e as regras de votação estão aqui: www.comunique-se.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

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filminho1 A estranha fauna que se une em torno de Marina

Defensora radical do meio ambiente e das espécies em extinção, a presidenciável Marina Silva, abrigada temporariamente no PSB, está conseguindo reunir em torno da sua candidatura uma fauna das mais variadas do cenário político e econômico nacional.

Na primeira semana de campanha, desfilaram em seu comitê eleitoral, e até falaram em nome da candidata, banqueiros e socialistas, históricos bichos grilo e simpatizantes dos black bloc, aqueles rebeldes sem causa das "manifestações de junho", descontentes em geral, de ex-tucanos a ex-petistas, passando por venerandos dissidentes do PMDB _ um saco de gatos, enfim.

Em nome da sustentabilidade de um possível governo, a candidata já lançou no ar que pode se unir tanto a Serra como a Suplicy. O vice escolhido é Beto Albuquerque, do PSB, líder do agronegócio e dos transgênicos, agora parceiro dos "sonháticos" da Rede marinista e dos banqueiros Neca Setúbal e André Lara Rezende, responsáveis pela área econômica do projeto eco-socialista.

No comando da campanha, estão lado a lado a ex-petista Luiza Erundina e o ex-tucano Walter Feldman. Na tesouraria, ficou o socialista Márcio França, deputado federal e ex-prefeito de São Vicente, que é candidato a vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin. Na base aliada da "nova política", podemos encontrar as famílias políticas dos Bornhausen, de Santa Catarina, e a de Inocêncio Oliveira, em Pernambuco, figuras históricas do PFL-DEM.

Só não deu para saber ainda qual é mesmo o projeto de governo desta arca de Noé, que embala as fantasias de colunistas e editorialistas, enquanto se tenta descobrir quem era, afinal, o dono do jato em que Eduardo Campos morreu na tragédia aérea de Santos.

É neste cenário buliçoso, com a grande mídia hegemônica já anunciando a economia em processo de recessão e o aumento dos índices de desemprego, que serão publicadas nos próximos dias novas pesquisas Datafolha e Ibope, os dois institutos que, de fato, comandam os rumos desta campanha eleitoral. Para quem gosta de jogar no quanto pior, melhor, e se dedica a especular na Bolsa, a próxima semana promete mais emoções.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

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tb Se depender da TV, esta eleição acaba empatada

Costumava-se falar antigamente que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado. O mesmo se pode dizer agora da primeira semana da propaganda eleitoral obrigatória: se depender só do que vimos na televisão até agora, todos os candidatos têm a mesma chance de ganhar e de perder, e vai acabar tudo tudo em zero a zero.

São 110 minutos de horário político por dia, fora as inserções de 30 segundos distribuídas ao longo da programação _ um verdadeiro massacre de mau gosto, mesmice, teatro mambembe, total ausência de propostas viáveis para o país, com o desfile de candidatos maquiados, uma chatice sem fim. Estamos assistindo a um "circo de horrores", a perfeita definição do meu colega Zé Simão, o mais sério comentarista político do país.

As campanhas são ricas, não faltam recursos,  os mais modernos equipamentos e marqueteiros de grife, mas os programas, de uma forma geral, são pobres, indigentes mesmo. Fico pensando como conseguem gastar tanto dinheiro para apresentar produtos tão ruins. Colocar Dilma fazendo macarrão na cozinha, cuidando do jardim e do cachorro, para "humanizar a imagem", é algo tão amador que chega a ser um desrespeito com a presidente e os eleitores.

Pois é, nem o PT escapa da mediocridade, justamente o partido que em outras épocas chamava a atenção pela criatividade dos seus programas, produzidos muitas vezes por equipes de voluntários e equipamentos emprestados. Os primeiros programas de Dilma, com suas imagens aéreas apoteóticas mostrando grandes obras em construção e um texto ufanista, me fizeram lembrar das "reportagens" de Amaral Neto exibidas pela TV Globo no auge da ditadura militar. Só faltou usar o slogan do "Brasil Grande".

Sem emoção e sem humor, sem mostrar e dar voz aos anônimos que fazem a grandeza do país, características dos antigos programas petistas, o latifúndio de 12 minutos em cada bloco que a aliança liderada pelo PT mostra na televisão não tem alma nem rumo, é uma repetição de cenas e discursos de Dilma e Lula, que já não comovem ninguém. O programa repetiu até imagens da campanha de 2010, o que é inconcebível num programa de televisão destinado a surpreender o telespectador, apresentar algo novo e projetar o futuro, renovar as esperanças do eleitor.

Se o objetivo era mostrar o que mudou para melhor na vida dos brasileiros nestes quase 12 anos de PT no governo federal, por que não fazer um programa jornalístico, mandando repórteres aos quatro cantos do país para mostrar e ouvir os principais beneficiados por estas mudanças? Sairia bem mais barato e teria muito mais efeito do que a presidente ou um locutor falar bem do seu próprio governo.

Com um terço do tempo de Dilma, o programa do tucano Aécio Neves atinge melhor seus objetivos: apresentar o candidato do PSDB como principal crítico do governo petista, mostrar um governante bem sucedido em Minas, com a imagem de pacato pai de família, o genro em quem a mãe da moça pode confiar. Se isso passa por verdadeiro ou não, é outro problema.

Dona de apenas dois minutos em cada bloco, a única novidade apresentada pelos marqueteiros de Marina Silva em sua estreia na quinta-feira foi tirar o xale da candidata. O resto é tudo igual à campanha de 2010, em que ela, com menos tempo ainda, conseguiu quase 20 milhões de votos e forçou um segundo turno na eleição presidencial. Fora o discurso da sustentabilidade, o nome do partido próprio que Marina ainda não conseguiu criar, e que a maioria das pessoas não sabe o que quer dizer, o que mais a líder conservacionista tem a oferecer ao país para melhorar a vida dos brasileiros?

Como de costume, pontificam entre os nanicos as "línguas de aluguel", nas eternas participações especiais do democrata-cristão Eymael e do aerotrem Fidelix, cada vez mais furiosos ao bater no governo Dilma, no que são acompanhados pelos "revolucionários" PCO, PCB, PSTU e PSOL, a extrema esquerda que faz apenas papel de figurante.

A mesma pergunta dirigida a Marina poderia ser feita a todos os outros candidatos que invadiram nossas televisões abertas e jogaram grande parte dos telespectadores/eleitores nos braços dos canais pagos. Resultado: em relação à campanha de 2010, o horário político já provocou a queda de 32% na audiência das nossas principais emissoras, enquanto os canais pagos, que não exibem a propaganda eleitoral, batem recordes, chegando à soma de 18,4 pontos na quarta-feira.

Nem vou falar dos inacreditáveis blocos destinados a candidatos a deputados e senadores porque tenho vergonha. O padrão Tiririca se espalhou pelo vídeo, com a campanha ganhando ares de deboche, a começar pelos nomes de fantasia dos candidatos, mas vou deixar isso aos cuidados do nosso caro Macaco Simão, que está cada vez mais imperdível.

 

 

 

 

 

 

 

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foto 11 Antes de começar, campanha de Marina entra em crise

Não deu outra. Bem que avisei, desde o primeiro dia, que isso não daria certo.  Antes mesmo de começar a campanha, no dia em que foi ungida candidata a presidente pelo PSB, Marina Silva abriu a primeira grande crise na estranha aliança ambientalista-socialista, ao bater de frente com o pessebista histórico Carlos Siqueira, que era uma espécie de José Dirceu de Eduardo Campos, coordenador-geral da campanha presidencial do ex-governador pernambucano, que morreu num acidente aéreo na semana passada. Como escrevi aqui outro dia, o mundo de Marina se divide entre quem manda e quem obedece. Quem manda é ela. Siqueira não obedeceu e já caiu fora.

"Não tenho magoa nenhuma dela, apenas acho que quando se está numa instituição como hospedeira, como ela é, tem que respeitar a instituição, não se pode querer mandar na instituição. Ela que vá mandar na Rede dela, porque, no PSB, mandamos nós", desabafou o ex-chefe da campanha de Eduardo nesta quinta-feira, ao deixar a reunião do PSB com partidos coligados, em Brasília, para oficializar a nova chapa presidencial.

O que todo mundo já sabia, mas era escondido pela grande imprensa familiar, que queria garantir um segundo turno na eleição presidencial, Siqueira botou para fora a guerra surda da aliança de Eduardo com Marina: "Acho que ela não representa o legado de Campos. Eu não vou fazer campanha pra ela porque eles eram muito diferentes, politicamente, ideologicamente, em todos os sentidos."

Para o lugar de Siqueira, Marina autocraticamente nomeou Walter Feldman, seu fiel aliado, fundador do PSDB e secretário de vários governos tucanos. O último cargo público que ocupou, antes de trocar o PSDB pelo PSB, quando ajudava Marina a criar a Rede Sustentabilidade, que não deu certo, foi o de "Secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos" da Prefeitura de São Paulo. Alguém pode imaginar o que seria isso?

Tratava-se de uma bela mordomia em Londres, que durou seis meses e foi custeada pelos nossos impostos, em que Feldman foi encarregado de acompanhar as Olimpíadas na Inglaterra para dar sugestões à Prefeitura de São Paulo, na época comandada por Gilberto Kassab, sucessor e aliado do tucano José Serra. Como as próximas Olimpíadas serão sediadas no Rio, e não em São Paulo, ninguém entendeu até agora qual era o objetivo da sinecura de Feldman em Londres. É desse tipo de gente que Marina está cercada, incluindo herdeiras de bancos, economistas tucanos e altos empresários de cosméticos.

Em seu relatório final sobre seu trabalho em Londres entregue à prefeitura de São Paulo, Feldman concluiu com o seguinte ensinamento, no melhor estilo Marina Silva: "As atividades que envolvem um grande contingente populacional devem ter toda a área de prevenção e análise de riscos, planejamento, agregação e uma retaguarda especializada, com experiência internacional, para monitorar, dar suporte e formar uma rede de ação, a qual, desenvolvida em São Paulo, deverá atuar como fio condutor para o Brasil". Maravilha!

Entenderam? Pois é isso que nos espera nas propostas a serem apresentadas por Marina Silva na campanha presidencial, a julgar pelas ininteligíveis propostas que a candidata e seus fiéis seguidores apresentaram até agora. Salve-se quem puder,  ou quem tiver juízo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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marina Beto é o vice de Marina: que diferença faz?

Daqui a pouco, na tarde desta quarta-feira, o PSB vai oficializar a sua nova chapa presidencial, com Marina Silva e Beto Albuquerque. Sem outra alternativa viável para apresentar como candidato a presidente em lugar do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, morto em acidente aéreo há uma semana, o partido só tinha mesmo que adotar a solução natural para a cabeça de chapa, uma vez que Marina era sua vice.

Também não houve muitas discussões para se chegar ao nome do deputado gaúcho Beto Albuquerque, líder do partido na Câmara, um vice de consenso encontrado pelo PSB, que agrada tanto a Marina como à família Campos. Chegou-se a cogitar para o cargo a indicação da viúva Renata, mãe dos cinco filhos de Eduardo, mas a ideia logo foi abandonada por razões familiares e políticas.

Com um filho de seis meses que requer seus cuidados, Renata, considerada por Roberto Amaral, presidente do PSB, "a candidata dos sonhos", não teria condições de se dedicar à campanha, enquanto Marina precisava de alguém que lhe abrisse as portas entre os poderosos empresários do agronegócio, exatamente o setor onde Albuquerque atua e recolhe os recursos para as suas campanhas. Os ruralistas, como se sabe, torcem o nariz diante do nome da ex-ministra de Meio Ambiente do governo Lula, uma adversária histórica dos donos das terras.

Pensando bem, que diferença faz o nome do vice na campanha? Quantos brasileiros sabem dizer hoje quem é o vice de Dilma, ou o companheiro de chapa do tucano Aécio Neves? Se em lugar de Beto, tivessem indicado Juca, Joãozinho ou Genésio, quantos votos a mais ou a menos eles trariam para Marina? Se fosse Renata a escolhida, aí sim, poderia influenciar o eleitorado, com o ingrediente emocional da tragédia aérea que comoveu o país, e era isso que os adversários mais temiam.

"Ninguém vota em vice", costumava dizer José Alencar, vice de Lula nos dois mandatos _ ele próprio, ironicamente, uma exceção à regra. O ex-metalúrgico reunia bons motivos ao batalhar muito para ter o grande empresário mineiro numa chapa unindo capital e trabalho, uma forma de espantar os temores dos donos do dinheiro. Deu certo.

Na historia brasileira do último meio século, porém, candidatos a vice não foram decisivos em campanhas, mas tiveram papel de destaque após as eleições, ao assumirem, por diferentes motivos, o cargo dos titulares. Basta lembrar, por exemplo, de João Goulart, que ocupou a cadeira no Palácio do Planalto quando Jânio pirou e se mandou de Brasília; de José Sarney, que ficou no lugar de Tancredo Neves, o presidente que nunca foi, abatido por um câncer na véspera da posse, e de Itamar Franco, o substituto do impichado Fernando Collor.

A própria Marina Silva foi escolhida como vice por ser considerada uma grande carreadora de votos para Eduardo Campos, mas não foi isso que se viu. Ao morrer, Eduardo tinha apenas 8% das intenções de voto. Dias depois, na primeira pesquisa pós-tragédia, Marina já aparecia com 21%.

Ex-secretário estadual nos governos gaúchos dos petistas Olívio Dutra e Tarso Genro, que deixou em 2012, para se dedicar à campanha de Eduardo, Beto Albuquerque tem 51 anos. No governo Lula, lutou pela aprovação da medida provisória dos transgênicos, que Marina combatia.

Socialista histórico, nunca teve outro partido fora do PSB. No próximo final de semana, ele já estará ao lado de Marina numa caminhada no Recife, o primeiro ato de campanha da nova chapa. Para o PSB, a partir de hoje, começa tudo de novo, a um mês e meio das eleições presidenciais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lll Dilma e Marina, tão iguais e tão diferentes

Quem um dia poderia imaginar, até poucos anos atrás, que teríamos neste momento, a 45 dias das eleições, duas mulheres disputando quem vai ser a próxima presidente da República do Brasil?

Por uma dessas boas sortes do destino, tive a oportunidade de trabalhar com ambas durante os dois primeiros anos do governo Lula, em que elas foram ministras de Estado e eu secretário de Imprensa da Presidência. Aprendi a admirá-las pela força com que defendem suas convicções, muitas vezes opostas, e posso dizer que ficamos bons amigos.

As vidas da economista mineira Dilma Vana Rousseff, 66, e da ambientalista acreana Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, 56, tão iguais e tão diferentes, dariam um belo e emocionante filme.

Não gosto de fazer comparações entre pessoas, e muito menos julgá-las, nem é este o objetivo deste texto. Quero apenas contar um pouco do que sei sobre a trajetória e a personalidade destas duas figuras absolutamente incomuns, que construíram seus próprios caminhos com muita luta, determinação e sofrimento, cada uma do seu jeito.

Conheci Marina primeiro, nas campanhas presidenciais do Lula, lá pelo final dos anos 80 do século passado, e logo ela me chamou a atenção nos vários encontros dos "povos da floresta", em Rio Branco, no Acre, por sua figura frágil, ar místico, voz fina, mas sempre firme, cabelos presos e figurinos étnicos, muito carismática.

Conversei com Dilma pela primeira vez no período de transição do governo FHC para o de Lula, no final de 2002, quando trabalhamos juntos no prédio do Centro Cultural do Banco do Brasil. Não era de dar intimidade a ninguém, sempre muito séria e objetiva em suas roupas de executiva, cabelos armados, só falava de trabalho, carregando planilhas e seu inseparável laptop.

Figuras humanas bem diferentes, como se pode notar, mas também com muitas coisas em comum. Elas não gostam de ser contrariadas, sempre carregam verdades definitivas, parecem estar cumprindo uma missão terrena ou divina. O mundo delas se divide entre quem manda e quem obedece. Não tem conversa. Por isso mesmo, não custaram a se estranhar logo nos primeiros meses de governo.

As divergências entre elas eram muitas, mas podem ser resumidas num ponto- chave: Dilma era o que se pode chamar de desenvolvimentista, ao lutar por grandes obras e projetos no Ministério de Minas e Energia, batendo de frente com o conservacionismo de Marina, que sempre se dedicou a defender com unhas e dentes o meio ambiente, desde os tempos de líder seringueira ao lado de Chico Mendes.

Em razão disso, não foram poucas as vezes em que Marina foi se queixar a Lula e pedir demissão do cargo. Acabou ficando até meados de 2008. Saiu do governo e, ao mesmo tempo, do PT, para se candidatar a presidente da República pelo PV, em 2010, quando enfrentou Dilma pela primeira vez, e acabou provocando um segundo turno na eleição, ao obter 19% dos votos, tornando-se a grande surpresa daquela campanha.

Dilma tinha assumido a chefia da Casa Civil, o cargo mais importante do governo depois do presidente, em 2005, no auge da crise do mensalão, em que foi chamada para ocupar o lugar de José Dirceu. Poucos meses depois, Lula me confidenciou que tinha encontrado nela a candidata ideal para disputar a sucessão dele. No papel de gerente geral do governo, foi convocada por Lula para comandar o PAC no segundo mandato, principal bandeira da sua primeira campanha eleitoral disputada na vida. E assim se tornou a primeira mulher eleita presidente da República, um projeto que nunca fez parte da sua vida.

Ao contrário, Marina não pensa em outra coisa desde que deixou o PT. Sem espaço no PV após a campanha de 2010, resolveu criar seu próprio partido, chamado de Rede Sustentabilidade, para concorrer novamente em 2014, mas não conseguiu o registro a tempo de disputar as eleições. Com seu grupo de seguidores, conhecidos por "marinistas" e "sonháticos", resolveu se abrigar provisoriamente no PSB de Eduardo Campos, que já estava em campanha presidencial e a recebeu de braços abertos para ser sua vice. Do outro lado, não se conhecem "dilmistas".

Como aconteceu nos seis anos em que conviveram na Esplanada dos Ministérios, disputando posições e projetos diferentes no governo Lula, montadas em suas certezas, que não abrem muito espaço para o diálogo e o contraditório, agora Marina e Dilma estão frente a frente outra vez. A última pesquisa Datafolha mostra que ambas podem ir para o segundo turno, hoje numa situação de empate técnico, com leve vantagem de Marina, prometendo luta renhida até o final.

Quem ficou numa situação bastante difícil foi o tucano Aécio Neves, único homem ainda na disputa entre os candidatos competitivos. Ensanduichado entre duas mulheres, vai ter que bater nelas para cavar um lugar no segundo turno, ou ficará fora dele, e isso não pega bem num país machista como o nosso, onde ainda está em vigor a Lei Maria da Penha. Como esse filme vai acabar, eu não sei, mas certamente viveremos fortes emoções nos próximos 45 dias. Preparem seus corações!

 

 

 

 

 

 

 

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 Com Marina, PSB sobe, mas Aécio e Dilma não caem

Como já se podia prever, a primeira pesquisa pós-tragédia mostra um crescimento do PSB, com Marina Silva em lugar de Eduardo Campos. A surpresa foi outra: Dilma Rousseff e Aécio Neves  não perderam nenhum voto, ficando exatamente onde estavam na pesquisa anterior  (ver matéria no R7).

Politicologos, pesquisólogos, futurólogos e profetas em geral, passaram os últimos dias especulando sobre quem perderia mais votos para Marina, se Dilma ou Aécio. Pois erraram todos, como mostra a pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira. Por isso, acho melhor fazer previsões só depois do fato consumado, como ensinava Marco Maciel, velho sábio pernambucano.

Eduardo Campos tinha 8% na última pesquisa e Marina Silva surge agora com 21%, um vigoroso crescimento de 13 pontos percentuais para o candidato da chamada "terceira via". De onde vieram então estes votos?

É só fazer algumas contas bem simples.

Em julho, o contingente de eleitores sem candidato que votariam em branco ou nulo era de 13%; não sabiam quem escolher eram 13% e aqueles dispostos a sufragar candidatos nanicos chegavam a 8%. Somando tudo, dava 35% de eleitores que não votariam em Dilma, Aécio e Eduardo.

Agora, a soma deste contingente de eleitores é de 22%: 9% ainda não sabem; 8% preferem votar branco ou nulo e apenas 5% em nanicos.

A diferença entre uma pesquisa e outra é de 13 pontos percentuais, portanto — ou seja, exatamente o total de intenções de voto (21%) que Marina tem a mais do que Eduardo Campos registrava (8%), às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, que começa amanhã.

Claro que a tragédia aérea em que o presidenciável do PSB morreu na quarta-feira passada deve ter forte influência nestes números que provocam uma reviravolta no quadro sucessório, mas há outros motivos a se levar em conta.

Assim como acontece com os acidentes aéreos, mudanças bruscas de rota são causadas por um conjunto de fatores, e não um só. Neste caso, não podemos esquecer o "recall" de Marina Silva, que teve 19% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2010, depois de trocar o PT pelo PV para ser candidata, apenas dois a menos do que nesta pesquisa de agosto de 2014, a 47 dias da eleição.

A entrada de Marina na campanha como candidata a presidente ungida pela família Campos e pelo PSB também não foi surpresa para ninguém, como já havia antecipado aqui na última sexta-feira (ver post).

Além disso, Marina tinha 27% das intenções de voto em abril, na última vez em que seu nome apareceu na lista de candidatos nas pesquisas, antes da oficialização da chapa do PSB encabeçada por Eduardo, com a ex-senadora no papel de vice.

A troca do presidenciável do PSB, da forma trágica como aconteceu, foi um fato tão inesperado que torna agora mais difícil o trabalho dos analistas do futuro, mas não deve ser atribuída à "providência divina", como fez Marina Silva na sexta-feira.

Na verdade, ela não embarcou no voo fatídico de Eduardo porque não queria se encontrar com o correligionário Márcio França para evitar constrangimentos. Márcio era o responsável pela agenda daquele dia na Baixada Santista, seu principal reduto eleitoral, e pela aliança do PSB com o PSDB em São Paulo, o que lhe garantiu o lugar de vice na chapa do governador Geraldo Alckmin.

Administrar agora estas alianças heterodoxas firmadas por Eduardo contra a vontade de Marina — no Rio, por exemplo, o PSB apoia Lindberg Farias, do PT, para governador — é agora um dos primeiros desafios de Marina, que pode crescer ainda mais nas próximas pesquisas, diante do clima emotivo que tomou conta da campanha após os comoventes funerais de Eduardo Campos, no Recife, que duraram todo o domingo, e deram à candidata do PSB o protagonismo na mídia.

Neste primeiro momento, Marina já aparece um ponto à frente de Aécio (21% a 20%), no primeiro turno, e com uma vantagem de quatro pontos sobre Dilma (47% a 43%) num agora quase inevitável segundo turno. Se acontecer, e o adversário de Dilma for Aécio, a presidente derrotaria o tucano por 47% a 38%.

Ao mesmo tempo, uma informação que passou meio escondida nas análises da pesquisa, mas pode influir nas próximas, mostrou o crescimento de 6% nos índices de aprovação do governo Dilma, que passaram de 32% de ótimo e bom, em julho, para 38%, agora, enquanto a avaliação de ruim e péssimo registrava uma queda também de 6% (caiu de 29% para 23%).

Muita calma nesta hora. Melhor é esperar a poeira assentar e avaliar a repercussão dos primeiros programas dos candidatos na televisão, em que Dilma tem o dobro do tempo dos seus dois adversários somados. A próxima pesquisa do Ibope só está prevista para setembro.

 

 

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essa essa Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Com milhares de bandeiras, camisetas, faixas, adesivos e balões, palavras de ordem e punhos erguidos, a missa campal celebrada pela morte de Eduardo Campos, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, na praça da República, no Recife, na manhã deste domingo, deu início para valer à campanha eleitoral de 2014.

Mais de 100 mil pessoas participaram do ato religioso, que se transformou num grande comício, o primeiro deste ano, tomando as ruas próximas, com milhares de materiais de campanha de Eduardo e Marina sendo distribuídos à população. "Não vamos desistir do Brasil", a última frase de Eduardo em entrevista à televisão, na noite anterior à queda do avião em Santos, rapidamente se transformou no lema da campanha de Marina Silva, que só terá sua candidatura presidencial oficialmente lançada pelo PSB na próxima quarta-feira.

ok Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Sol e chuva, religião e política, comoção e cantoria, tudo se misturou numa grande festa para as câmeras da televisão, em que lágrimas se alternavam com gritos de "Eduardo guerreiro do povo brasileiro" e candidatos de todas as latitudes viraram "papagaios de pirata", demorando-se diante do caixão e postando-se ao lado de parentes de Eduardo, como se fossem da família.

A missa durou uma hora e meia, mas o velório começou de madrugada e iria até a hora do enterro marcado para o final da tarde. Filas quilométricas formaram-se desde cedo sobre as pontes em volta do palácio, com caravanas vindas do interior. Teve repórter de TV que se empolgou tanto, a ponto de chamar todas as autoridades presentes de "chefes de Estado". Portais da grande imprensa familiar registraram que a presidente Dilma foi recebida com vaias, mas esqueceram-se de dizer nos títulos que ela também foi muito aplaudida.

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A presidente Dilma e o ex-presidente Lula chegaram juntos à tenda armada diante do palácio onde foi armado o velório. Discreta e visivelmente emocionada, a agora candidata Marina Silva não entrou no clima de comício, e se manteve em silêncio quase todo o tempo. O tucano Aécio Neves, por enquanto o principal opositor de Dilma, chegou atrasado.

dilma Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

As palavras emoção e multidão foram repetidas milhares de vezes por narradores e repórteres, que já não sabiam mais o que falar. A mãe de Eduardo, Ana, a mulher, Renata, e os cinco filhos recebiam ao mesmo tempo e da mesma forma os cumprimentos de políticos e gente do povo.

Chamou a atenção de todos uma jovem senhora estrategicamente postada atrás dos celebrantes da missa, comandados pelo arcebispo de Olinda, d. Fernando Saburido. De vestido negro e enormes óculos escuros, passou a missa toda ajeitando os longos cabelos e digitando freneticamente no celular até ser retirada por seguranças do alvo das câmeras, que a todo momento mostravam as bandeiras eleitorais de Eduardo e Marina com o número 40 e uma pomba, símbolo do PSB, que muitos não conheciam.

Descansa em paz, Eduardo, que por aqui a guerra está só começando.

 

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essa s Marina Silva é o nome e Alckmin já está reeleito

De volta à lida política, 48 horas após a tragédia de Santos, dois pontos se destacam no noticiário desta sexta-feira (15) e só o imponderável poderá impedir que sejam confirmados pelos fatos: a ex-senadora Marina Silva será a candidata a presidente em substituição a Eduardo Campos na coligação liderada pelo PSB, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, está praticamente reeleito em primeiro turno, segundo o último Datafolha.

Com o apoio da família de Eduardo, do mercado, dos nanicos partidos aliados e da mídia grande, Marina só não será a candidata se não quiser. Uma das poucas pessoas do cenário político nacional a guardar obsequioso luto e respeitoso silêncio pela morte do companheiro de chapa, Marina Silva só irá se manifestar após o enterro, previsto para domingo, mas a sua indicação é dada como certa, até por absoluta falta de opção do PSB, que não tem outro nome de expressão nacional.

Como candidata a vice, a ex-senadora do Acre e ex-ministra do governo Lula já era, desde o primeiro momento, a solução natural para assumir a candidatura a presidente. Se Eduardo a havia escolhido pessoalmente para ser a sua eventual substituta, não faria sentido o PSB escolher outro nome, por mais que algumas lideranças do partido tenham restrições a Marina.

Nem seria necessário o comovente esforço despendido pelo mercado e pela mídia, que nunca tiveram tanto e desabrido protagonismo numa campanha presidencial, para defender a indicação de Marina como adversária de Dilma e Aécio no dia 5 de outubro. Agora, meus amigos, vale tudo para levar a eleição ao segundo turno e, se possível, impedir a reeleição de Dilma, mas tem gente com pressa para definir quem é o mais forte candidato anti-PT.

Leiam esta nota publicada na coluna Painel, da Folha, que mostra bem a degradação a que chegaram os costumes políticos no País:

"Choque _ Um banco de investimentos encomendou pesquisa telefônica para medir a intenção de voto em Marina na quarta-feira, dia do acidente. A enquete foi cancelada porque muitos eleitores se recusaram a responder".

Quer dizer, não respeitam mais ninguém, nem os mortos, nem os eleitores. Na mesma edição, o jornal faz questão de não deixar dúvidas: "Para forçar 2º turno, mercado torce por ex-senadora _ Investidores apostam que candidatura dificultaria a reeleição de Dilma e poderia abrir espaço para Aécio Neves".

E se Marina abrir tanto espaço que pode deixar Aécio para trás? Não importa. A esta altura, qualquer nome serve para impedir o quarto governo seguido do PT. Também sou a favor da alternância do poder, tanto no País como nos Estados, mas há modos e modos de se atingir os objetivos.

Em São Paulo, por exemplo, não há motivos para preocupações de quem só defende a alternância do poder em Brasília:  com 55% dos votos na pesquisa divulgada hoje, Alckmin está praticamente reeleito, depois de duas décadas de domínio tucano no maior colégio eleitoral do País.

O empresário Paulo Skaf, do PMDB, com 16%, e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, do PT, com 5%, continuam onde estão há muito tempo: empacados, sem mostrar força para qualquer reação, a apenas 50 dias da abertura das urnas e às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Com o trágico fato novo da morte de Eduardo Campos, os partidos agora precisam correr para refazer suas estratégias de campanha e o resultado da eleição presidencial torna-se absolutamente imprevisível. Estão todos esperando, sofregamente, pela primeira pesquisa Datafolha com Marina em lugar de Campos, que deverá ser divulgada já neste final de semana para acalmar o mercado e a mídia.

Vida que segue.

 

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futebol Muricy, Ceni e Aidar: os retratos da decadência

Como me recuso a entrar neste Fla-Flu sobre quem ganha e quem perde na corrida presidencial com a morte de Eduardo Campos, num país em que já tem jornalista lançando candidatos prediletos e chapas impossíveis, e fundos abutres especulando na Bolsa antes mesmo do velório, ainda chocado diante do que aconteceu repito o que escrevi logo após o trágico acidente: perdemos todos, perdeu a democracia brasileira, tão carente de novas lideranças políticas (ver post anterior). Acho melhor escrever sobre futebol e dar tempo ao tempo.

Diante de 7 mil testemunhas, na noite chuvosa e gelada de quarta-feira, em pleno estádio do Morumbi, o meu São Paulo passou diante do modesto Bragantino _ time que está na zona de rebaixamento da Série B _ um dos maiores vexames da sua gloriosa história. Perdeu só por 3 a 1, só assistindo o adversário jogar, fazendo lembrar aquela vergonha dos 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa. Aconteceu com o São Paulo, mas é o retrato da decadência do futebol brasileiro, que ontem abateu também Fluminense e Internacional, todos eliminados da Copa do Brasil.

Sou são-paulino desde pequeno, mas confesso que fiquei feliz vendo a alegria dos modestos jogadores do Bragantino, que comemoraram a vitória como se fosse o título do mundial de clubes. Impotente diante do que acontecia em campo, Muricy olhava para o banco de reservas, balançava a cabeça e não fazia nada, tão patético como Felipão diante da Alemanha e da Holanda.

Com o melhor e mais caro elenco do país, Muricy muda a escalação e o esquema a cada jogo, mas não consegue montar um time que preste.  E Rogério Ceni não desiste: levou mais dois belos frangos para fazer companhia aos inúteis Pato e Ganso na granja do Morumbi. Com sua valente arrogância, o presidente Carlos Miguel Aidar sumiu de cena quando tudo começou a dar errado, seguindo o exemplo de José Maria Marin. Herdeiro de uma dinastia de cartolas cheios de soberba que controlam o São Paulo há séculos, como os Havelange-Teixeira-Marin fazem na CBF, Aidar ficou conhecido como um sujeito que compra caro e vende barato, pois dinheiro não é problema (para ele, claro).

Deu pena ver o marrento Muricy, de quem sempre fui admirador de carteirinha, mas está com o prazo de validade vencido, balbuciando na entrevista coletiva após o jogo, sem ter o que dizer, no melhor estilo Felipão, tentando explicar o inexplicável. Felipão fez mal ao nosso futebol não só na seleção, mas pelos efeitos negativos deixados para este pobre Brasileirão, que a cada rodada vai perdendo audiência e público.

Quem vai ter a humildade de reconhecer tudo isso e propor uma verdadeira revolução no nosso futebol, a começar pelas equipes de base, aposentando cartolas, treineiros e ex-jogadores em atividade, para dar lugar aos novos? Alemanha, França e tantos outros países fizeram isso há muitos anos _ e se deram bem. Por que não nós também?

 

 

 

 

 

 

 

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