O mundo da comunicação está mudando muito rapidamente, indicando caminhos opostos para a velha mídia de papel e a nova mídia eletrônica _ uma caindo e a outra subindo, como numa gangorra.

          Cheguei a esta conclusão, que nada tem de nova ou original, eu sei, mas se torna cada vez mais gritante, depois de ler dois textos na manhã desta quinta-feira em publicações diferentes, a Folha de S. Paulo (no papel) e o boletim semanal Jornalistas&Cia (no site).

         Neste caso, os números (não as imagens ...) falam por si, como os leitores poderão constatar neste post sobre o mercado da imprensa de papel nos Estados Unidos e o da internet no Brasil.

          Edson Rossi: internet brasileira

          No último encontro do ano do programa “Por Dentro da Redação”, promovido por meus amigos do Jornalistas&Cia., Edson Rossi, diretor de conteúdo do portal Terra, apresentou os números mais recentes que demonstram o vigoroso crescimento do mercado de internet no Brasil.

  • Universo de internautas: um terço da população brasileira _ algo em torno de 68,5 milhões de pessoas _ já está conectada na internet, segundo dados do IAB-Brasil.
  • As maiores audiências: UOL, com 27 milhões de visitantes/mês; iG, com 23 milhões; Terra, com 22 milhões; Globo.com, com 21,7 milhões.
  • Quem acessa: cada vez mais popular, a internet foi acessada, em 2008, por 39% da classe C (pode chegar a 45% até o final do ano); na AB, foram 76% no ano passado e a previsão para 2009 é bater nos 80%.
  • Tempo de tela: com 24h48 minutos por mês, o Brasil continua sendo o país que mais acessa internet no mundo, principalmente após a introdução da banda larga, que no ano passado já respondia por 83% das conexões.
  • Faturamento publicitário: é a mídia que mais cresce no Brasil. Em comparação com 2007, no ano passado houve um crescimento de 44%. Nos primeiros meses de 2009, em relação a igual período de 2008, a verba publicitária investida na web cresceu 22,62%.
  • Fatia do mercado: apesar deste crescimento nos últimos anos, a verba que cabe ao setor no bolo dos investimentos em publicidade ainda é pequena. Representou apenas 4% dos R$ 987 milhões investidos em 2008 e, até o final deste ano, poderá chegar a 4,2%.

             Kenneth Maxwell: imprensa americana

 “Quase todos os grandes jornais dos Estados Unidos passaram por forte declínio em sua circulação paga ao longo dos últimos 12 meses”, informa o colunista Kenneth Maxwell, que escreve todas as quintas-feiras na página 2 da Folha.

A conseqüência mais dramática da queda na circulação é o que ele chama de “colapso na receita publicitária dos jornais’, que, segundo ele, “já se tornou catastrófica”, indicando uma perda de 28% apenas em 2009.

Os números:

  • New York Times: queda de 7,3% na circulação
  • USA Today: queda de 17,1%
  • Washington Post: queda de 6,4%
  • Dallas Morning News: queda de 22,2%
  • San Francisco Chronicle: 25,8%
  • Star Ledger, de Newark: queda de 22,2%

 Maxwell registra ainda em seu artigo que, paralelamente à queda de circulação e de receita dos jornais, todas as grandes redes de televisão também sofreram perdas de audiência. “Não é fácil encontrar substituto para estas receitas na internet, que vê acesso crescente, mas na qual poucos jornais desenvolveram métodos seguros de explorar comercialmente o acesso a essa nova fonte de informação”.

 Todos nós estamos carecas de saber (alguns mais do que os outros...) que os jovens estão migrando para a nova mídia enquanto os mais idosos resistem bravamente na trincheira da imprensa de papel. Mas não seria justo atribuir apenas ao crescimento da internet a derrocada da velha mídia.

 Já escrevi aqui mesmo e repito: assim como o marqueteiro de Bill Clinton lhe dizia “é a economia, estúpido”, para explicar o que decide uma eleição, podemos dizer “é o conteúdo, estúpido” o que vai determinar o sucesso ou o fracasso de qualquer veículo, seja da nova ou da velha mídia.

                Vale no Balaio

 É com muita honra e alegria que faço este registro: desde terça-feira, 1º de dezembro, com  apenas pouco mais de um ano no ar, este jovem Balaio conta com o apoio institucional da Vale, a maior empresa privada do país.

É a vocês, meus caros leitores balaieiros, que devo agradecer esta conquista, um reconhecimento ao nosso trabalho.

 

        

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Sempre achei que o jornalismo e, agora, mais particularmente, a internet, podem servir à sociedade não apenas com informações e entretenimento, mas ajudando as pessoas a colocar em prática seus projetos de vida.
Foi assim, por exemplo, que contei aqui no Balaio, no ano passado, o drama vivido por Tinoco, da antiga dupla sertaneja Tonico e Tinoco. Aos 88 anos, ele continuava procurando shows para trabalhar e poder sobreviver. Quase mil leitores enviaram comentários e várias pessoas se dispuseram a ajudá-lo. Pelo menos, ele deixou de se sentir tão sozinho nesta altura da sua longa carreira de mais de 70 anos. 
Esta semana recebi, e reproduzo abaixo, um apelo enviado ao Balaio por Paulo Grassman, em nome desta família de artistas premiados que agora buscam  apoio para divulgar a sua obra. Se alguém puder ajudá-los, a arte brasileira agradece.
 
Caro Ricardo,
 
escrevo em nome de 2 pessoas que muito admiro e em nome da Arte.

Sou filho de Roberto Grassmann, um mestre impressor da arte da gravura em metal.  Pois é, raras são as pessoas que conhecem o que meu pai faz há mais de 50 anos. Sobre ele posso dizer o seguinte:

 

Vida ereta, labuta, dedicação que impressiona,

Tempo que passa, no monotom do motor da prensa,

Cheiro de gasolina, cor da tinga, espalmar da placa,

Cumpriu sua sina, criou a família.

No papel molhado, o vai e vem do feltro,

O amor no que faz fica impresso.

Vida, tempo, artistas, tudo passa,

Sua prensa desaparecerá,

Lembranças serão esquecidas,

Mas ele ficará com seu dom impresso

Nas gravuras que imprimiu.

 

A outra pessoa por quem escrevo é meu “super tio”, Marcello Grassmann. Quem?

Poucas pessoas sabem quem é, mas não há quem não tenha  ficado pasmo, admirado, emocionado, quando teve a oportunidade de ver um obra feita por ele. Sobre ele eu digo:

 

O artista não é nada,

É um igual, nasce, vive, morre,

A arte é distração,

Pequeno prazer, diverte, esquece.

A genialidade é tudo,

Não nasce, existe, não morre, fica,

A genialidade não distrai, pasma,

Impacta, grava na alma,

Grassmann gênio que grava.

 

Eu tenho 43 anos, meu pai 77 e meu tio 84. Sempre vivemos dignamente, sem luxo, “só” o luxo da arte. Mas por que lhe escrevo? Para pedir sua ajuda na divulgação da edição especial “Gravuras da vida de Grassmann".

 

Não tenho intenção de ser piegas. Apenas relato que meu pai vive da minguada aposentadoria do INSS, que vai encolhendo ano a ano, e ainda do trabalho como impressor (quando aparece), trabalho esse “bem pesado”.

 

Assim tembém vive meu tio Marcello Grassmann, que hoje troca suas obras pelo aluguel do apartamento onde mora, ainda produzindo “arte maior”. Faço esse breve relato para dizer que o Brasil, com sua riqueza e diversidade, tem muito a oferecer para a humanidade.

 

Para um país que busca cada vez mais um papel de liderança e respeito, o caminho da valorização de seus artistas, a preservação de sua arte, uma política de divulgação da nossa arte maior para o mundo, se faz urgente, necessária, e será mais eficaz na conquista desse respeito do que a compra de arsenais bélicos.

Sobre meu tio Geraldo Ferraz escreveu sobre ele em 1975: "Adstrito aos temas que se desdobraram na fidelidade de sua visão adstringentemente original, entre o visionário e o fantástico, Grassmann paira acima de qualquer discussão. Ele pertence à arte maior." José Roberto Teixeira Leite, com muita propriedade, acentuou que "Grassmann é deliberadamente arcaico, seu mundo é o de um faizeur de diables, flor perdida no tempo e no espaço do gótico fantástico".

Quem buscar por Marcello Grassmann na internet terá a oportunidade de conhecer um pouco sobre ele, artista internacionalmente renomado, ele mantém obras nos acervos dos principais museus do Brasil e do Exterior. A Pinacoteca do Estado de S.Paulo possui uma importante coleção de obras anteriores a 1971. Ele destaca-se por ser um dos mais premiados desenhistas brasileiros na história da Arte Moderna. Participou de mais de 300 exposições. Suas obras fazem parte do acervo do MoMA de Nova York, da Bibliothèque Nationale de Paris, do Museum of Fine Arts de Dallas. No Brasil, além da Pinacoteca do Estado, podem ser vistas na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, no Instituto Moreira Salles em Poços de Caldas, no MAM-Museu de Arte Moderna e no MAC-Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, no Museu de Belas Artes no Rio de Janeiro, no Itamaraty e no Museu Oscar Niemayer de Curitiba.

Voltando da “GRAVURAS DA VIDA DE GRASSMANN”, o motivo desse contato, talvez Grassmann seja o primeiro Grande Mestre na historia da arte a conseguir fazer uma edição especial completa reunindo toda sua obra em gravura em metal, cerca de 200 obras reunidas ( conheça detalhes também no blog, www.marcellograssmann.blogspot.com ).

Uma edição histórica, de valor artístico inestimável, importante que seja preservada para as futuras gerações, obra de um brasileiro que reconhecidamente está entre os grandes mestres da arte em toda sua história.

E finalmente a família busca um mecenas, apoio de grandes empresários, do nosso governo, quem sabe até o itamaraty (não imagino melhor presente para um chefe de estado por exemplo) para adquirir as 6 edições que a família possui, tanto pelo amparo financeiro, mas também pela arte.

Grato caro Ricardo pela oportunidade de lhe escrever, forte abraço!

Paulo Roberto Grassmann

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 
 


 
 

 

 
 
 

 

 

 

 

 


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Fim de papo: ninguém mais tira este título do Flamengo. E digo isso não é só porque o Grêmio vai jogar no próximo domingo com o time reserva nem porque interessa a muita gente, pelas mais variadas razões, que o time de maior torcida do país volte a ser campeão, depois de um longo inverno de títulos.

Tenho esta certeza porque nenhum outro time mostrou neste segundo turno do Brasileirão e, em especial na reta final, mais pinta de campeão do que o velho Flamengo de tantas glórias e tradições.

Na hora da onça beber água,  não interessa discutir elenco, juiz, técnico, tapetão, sorte, azar, planejamento, estrutura, nada disso. Nesta hora, o que vale é a alma que o time mostra em campo, disputando cada bola como se fosse a última.  

O grande mérito de Andrade, o ex-jogador e grande ídolo do Flamengo, que entra sempre como interino quando cai um técnico, é que ele fez novamente a ponte entre o time e a torcida, um jogando e torcendo pelo outro, como se fossem uma só entidade.

O leitor me perguntará por que,  nas outras tantas vezes em que Andrade assumiu o time  isso não aconteceu e, após alguns jogos, ele saía de novo do comando. Não sei dizer. Aí tem que perguntar aos deuses dos estádios. Vai ver que  vez a diretoria do Flamengo teve mais paciência ou faltou grana para contratar alguma estrela. 

O fato é que desta vez ele pegou o time no momento certo, a tempo de consertar o que estava errado, escalou os jogadores que a torcida queria,  bancou Petkovic e Adriano, e resgatou a confiança de todos no seu taco.

Há duas semanas, no dia 15 de novembro, escrevi aqui mesmo um texto com o título "Flamengo agora é a ameaça rumo ao tetra". Meu São Paulo tinha acabado de assumir a liderança pela primeira vez e o Flamengo vinha correndo por fora, com a força toda.

Neste domingo, meus piores pressentimentos se confirmaram: o São Paulo não tinha time nem alma para ser campeão este ano _ e o Flamengo tinha. Só isso. Os dois times jogaram fora de casa, mas o São Paulo se perdeu em campo, depois de tomar o gol de empate, e levou 4 a 2 do Goiás, em Goiania, enquanto o Flamengo ganhava tranquilamente do Corinthians, por 2 a 0, em Campinas.

Tem toda razão o leitor Donizetti, de São Paulo, que escreveu às 12:41: "Quando achamos que não vai, vai. Quando achamos que são favas contadas, cai do cavalo. C´est la vie..."

É chique este pessoal do Balaio: manda comentário até em francês. A diretoria do são Paulo também já parecia não acreditar muito no título ao anunciar, antes do jogo, em matéria da Folha, que o elenco precisa ser reformulado no próximo ano.

Depois de três títulos nacionais seguidos, mantendo basicamente o mesmo elenco e forma de jogar, é natural o desgaste. O primeiro a cair, no meio do campeonato, como costuma acontecer, foi o técnico Muricy.

Agora chegou a vez de agradecer a colaboração de alguns jogadores que estão com o prazo de validade vencido e dar chance aos novos talentos formados nos times de base, como Oscar e Henrique, que já mereciam estar no time.

Só nos resta esperar 2010 e dar os parabéns ao Flamengo, que será o legítimo campeão de 2009.

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Os três assuntos mais comentados da semana

Como faço todos os domingos desde a estréia do blog, publico abaixo os três assuntos que provocaram mais comentários de leitores no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país.

Balaio:

Filme sobre Lula: 460

Preços vão baixar: 155

Livro de Audálio Dantas: 102

Folha

Visita de Ahmadinejad: 71

Cesare Battisti: 64

Artigo de César Benjamim: 40

Veja

Divinização de Lula: 73

Caso Cesare Battisti: 18

Diogo Mainardi: 8

*** 

Os convidados eram tantos que os Barreto tiveram que fretar dois ônibus para levá-los à pré-estréia de "Lula, o Filho do Brasil", nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, na região do ABC, onde o filme termina quando morre a mãe do protagonista, dona Lindu, em 1980.

O encontro para a excursão foi marcado para as quatro da tarde _ a projeção estava marcada para as oito da noite _ no apartamento de Bruno, irmão do diretor Fábio Barreto. Entre as pessoas que foram chegando, encontrei os artistas do filme, patrocinadores, empresários, os publicitários Washington Olivetto e Nizan Guanaes,  e o pessoal de cinema, incluindo minha filha Carolina e seu marido Bráulio Mantovani, roteiristas que já fizeram ou estão fazendo trabalhos para a família Barreto.

No comando de tudo, Paula Barreto, a onipresente irmã dos diretores, responsável pela produção de seus filmes. Agitado como sempre, Luiz Carlos Barreto, o pai de todos, circulava de rodinha em rodinha. Para saber o que eu achava, veio me mostrar o discurso de apenas uma página que leria à noite antes da apresentação do filme.

Pouco depois das cinco, entramos todos nos ônibus e, apesar de ser um sábado, levamos uma hora e meia para chegar a São Bernardo do Campo. Até gostei da demora porque deu para ouvir histórias engraçadas e dar boas risadas com gente que você não cruza nas esquinas todo dia.  

Apesar de toda a polêmica causada pelo filme, que só estréia nos cinemas no começo de janeiro, não ouvi ninguém discutindo os possíveis desdobramentos políticos que a exibição de "Lula, o Filho do Brasil" poderá provocar nos rumos da eleição presidencial de 2010.

Glória Pires, que faz o papel de dona Lindu, gastava seu francês castiço no celular falando com alguém em Paris, onde a família mora atualmente e onde ficaram os seus filhos com Orlando Morais, o compositor boa praça que eu não conhecia pessoalmente.

Washington Olivetto, como de hábito, só falava do seu Corinthians _ ele lança nesta segunda-feira à noite, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, mais um livro que tem por tema sua grande paixão _ e sacaneava os torcedores de outros times.

Atrás dele, feliz da vida com o resultado que já tinha visto nas telas, estava a jornalista e pesquisadora Denise Paraná, autora do livro que deu origem ao filme do mesmo nome. Em 1989, ano da primeira eleição presidencial pós-ditadura, quando nos conhecemos, e ela começou a fazer as primeiras entrevistas para o livro, nenhum de nós poderia imaginar que vinte anos depois seríamos convidados a assistir ao filme que conta a história do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Por uma ou outra razão, os convidados que chegaram à Vera Cruz nos dois ônibus pareciam todos alegres colegiais premiados com uma viagem à Disneylândia. Entramos todos em fila indiana e no caminho encontramos outros dois convidados, Carlos e Dirce Mantovani, pais de Bráulio, que moram ali perto. Carlos, metalúrgico aposentado da Mercedes, até levou sua carteira do sindicato para mostrar a Lula.

Um dos monumentais estúdios da Vera Cruz foi transformado em sala de exibição e o outro serviu de sala de espera para os mais de dois mil convidados, recebidos com pipoca, salgadinhos e refrigerantes sem gelo. Ali encontrei dezenas de personagens das minhas matérias sobre as greves dos metalúrgicos no final dos anos 1970 e levei um tempão para chegar até a área reservada aos convidados da produção, sempre com medo de me perder da minha mulher, a Mara, e da Paula Barreto, a severa chefe da excursão.

"Acho que o Brasil é o país que tem mais vips no mundo", brincou Olivetto ao encontrar meio mundo na área reservada. Eram ministros, senadores e deputados, grandes empresários, líderes sindicais da ativa e aposentados, artistas famosos _ uma seleta amostra do saco de gatos da grande aliança promovida por Lula nos seus dois governos.

Veio também boa parte da família Silva, irmãos, filhos, netos e sobrinhos de Lula, todos orgulhosos de estar ali. O mais paparicado como sempre era Frei Chico, como é conhecido o careca José Ferreira da Silva, um dos irmãos mais velhos do presidente, responsável por sua entrada na vida sindical.

O presidente Lula e Marisa chegaram logo depois da ministra Dilma Roussef, pouco depois das oito da noite, para alívio dos convidados que começaram a chegar à Vera Cruz por volta das três da tarde. Mas, antes do filme começar, ainda teve sessão de fotos de Lula e Marisa com os atores, vários discursos e um vídeo sobre a história da Vera Cruz e seus ousados planos para o futuro.  

O diretor Fábio Barreto se emocionou ao dedicar o filme a dona Lindu e arrancou as primeiras lágrimas de Lula, que passou o resto do filme chorando discretamente. Como já conhecia a história da família Silva, que o presidente gosta sempre de repetir aos amigos, e testemunhei a parte final do filme, a partir de 1978, foi como se estivesse assistindo à noite ao vídeo-tape de um jogo de futebol que já tinha assistido no estádio à tarde.

Não se trata de um documentário, evidentemente, a exemplo dos que Silvio Tendler, por exemplo, produziu sobre Jango e JK, e agora está fazendo sobre Tancredo Neves. Nem concordo que o filme de Barreto seja este melodrama todo, um filme hagiográfico, como andaram falando.

Mesmo sem ser crítico de cinema, achei que é apenas um filme muito bem feito, baseado na vida de um personagem improvável e sua saga familiar, na medida do possível fiel ao livro e aos fatos. Mas é apenas cinema, um espetáculo de entretenimento, que recomendo aos meus leitores.

Para os mais jovens, é uma boa oportunidade de conhecer os principais fatos políticos do período e saber como se formou a personalidade de Lula, que o levou a comprar muitas brigas, a criar o PT e a CUT, sem nunca deixar de negociar e compor, até chegar à Presidência da República, depois de três derrotas. Parece que ele seguiu à risca, o conselho tantas vezes repetido por dona Lindú: "Teime!".

Lula se emocionou tanto ao ver nas telas a sua própria história e a da sua família, que não atendeu ao pedido dos assessores para falar com a imprensa. Recolheu-se a uma pequena sala, onde estavam sua família e uns poucos amigos, e ainda passou algum tempo conversando com Barretão e Barretinho, que lhe falou dos problemas com a equalização do som no início da projeção.

Quase meia noite do sábado, os ônibus já tinham ido embora, mas conseguimos pegar uma carona na van providenciada por Paula Barreto para levar de volta os retardatários. Foi uma excursão bem divertida.

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Durante dois anos, o jornalista Audálio Dantas esperou para conseguir marcar um encontro com o presidente Lula. Era para escrever mais um livro da série que retrata a infância de brasileiros vitoriosos.  Audálio queria que Lula lhe contasse como foi a sua vida de menino, assim como já havia feito com os livros sobre Graciliano Ramos, Ziraldo, Maurício de Sousa e Ruth Rocha.

Agora tem gente besta escrevendo, sem saber do que fala, que Audálio pretende pegar uma carona no filme de Fábio Barreto, "Lula, o Filho do Brasil",  que, por mera coincidência,  terá pré-lançamento no mesmo dia à tarde nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, com a presença do presidente e da sua família. 

Nem Audálio, um dos mais mais respeitados e premiados jornalistas brasileiros da sua geração, precisa pegar carona em filme, nem o presidente Lula precisa de filme para se transformar em mito e ganhar votos. Escreve-se muita bobagem, mas deixa pra lá. 

Valeu a pena esperar o livro de Audálio, como os leitores poderão conferir neste sábado de manhã, a partir das 11 horas, na Livraria da Vila (alameda Lorena, 1.731), local do lançamento de "O menino Lula" (Ediouro).  

Além do jornalista escritor alagoano, estará lá também Jeronimo Soares, para autografar reproduções das suas xilogravuras que ilustram o livro. Começou na arte ainda menino, com 12 anos, ilustrando os livros do pai, José Soares.

Paraibano de Esperança, 65 anos, é um pouco mais jovem do que Audálio e um ano mais velho do que o presidente Lula. Sobre ele escreveu Jorge Amado:

"É um dos mais notáveis gravadores populares do Brasil. As suas gravuras refletem a identidade do artista com a vida sofrida e a imaginação invencível do povo".

O mesmo se poderia dizer do meu cada vez mais velho e mais amigo Audálio Ferreira Dantas. Foi o que fiz quando ele me honrou com o convite para para escrever o prefácio do livro, que segue reproduzido abaixo:

O menino de Tanque D´Arca

e o menino de Caetés

         Os dois saíram meninos lá das profundas dos sertões nordestinos e percorreram trajetórias de vida improváveis, se a gente for olhar de onde partiram e aonde chegaram.

         Audálio saiu de Tanque D´Arca, nas Alagoas, e faz mais de meio século está na lista dos melhores jornalistas brasileiros, além de ser respeitado escritor.

         Luiz Inácio, o Lula, pegou um pau-de-arara, deixou para trás Caetés, antigo distrito de Garanhuns, em Pernambuco, e está terminando seu segundo mandato de presidente da República com os maiores índices de popularidade da história republicana.

          Dos encontros e conversas entre os dois no Palácio do Planalto nasceu este pequeno livro que fala da infância meio trágica, meio aventurosa, às vezes até engraçada do menino pobre de dar dó que virou presidente.

         Por suas origens comuns, filhos da mesma terra seca, só mesmo o menino Audálio, que tem idade para ser seu pai, poderia contar, com sua alma nordestina e maestria de prosador sertanejo, a história do menino Lula.

         Afinal, os dois cresceram na mesma paisagem, conviveram com os mesmos personagens, enfrentaram as mesmas dificuldades para chegar até onde chegaram. As condições de vida eram diferentes, mas o cenário em que viveram era mais ou menos o mesmo.

         A comovente história de retirantes da família Silva, igual a tantas milhões de outras empurradas Brasil abaixo pela seca e pela ausência de perspectivas, em meados do século passado, encontra em Audálio Dantas não só um narrador correto, mas um cabra que sabe do que está escrevendo.

         Tanto a abertura como o final do texto deste livro são verdadeiras obras primas de beleza, estilo e síntese _ sem muitos adjetivos, sem pieguice, deixando a história correr.

         Para quem não conhece o Brasil e seu presidente, “O Menino Lula” pode parecer ficção, mais um romance fantástico de Gabriel Garcia Marquez. Mas posso garantir a vocês que é tudo verdade. Mil vezes já ouvi Lula contar as mesmas histórias, sempre do mesmo jeito. E Audálio foi absolutamente fiel a elas.

        Ao ler algumas cenas deste livro era como se me lembrasse do Lula contando.

         Do espanto da jumenta que o agarrou com os dentes e não o queria soltar.

         Da doença dos olhos que o irritava e só conseguiu curar recentemente, já em Brasília.

         Do mulungu que continuava em pé quando fui a primeira vez com ele a Caetés, em 1989.

         Do susto na irmã Maria e a volta repentina ao sertão do pai que havia sumido.

         Da carta do irmão Jaime para a mãe e a partida da família toda para São Paulo.

         De Lula e Ziza, o Frei Chico, se aliviando no mato, durante uma parada do caminhão, e quase perdendo o pau-de-arara.

         Do pai lendo o jornal de cabeça para baixo na balsa do Guarujá e do sorvete que ele lhe recusou.

Do primeiro carinho do pai quando Lula se machucou com um facão.

         Do sonho de ser motorista do caminhão amarelo.

         Da surra de mangueira do pai no irmão e da mãe decidindo o destino dos filhos com a mudança para São Paulo.

         Da alegria de vestir o primeiro paletó.

        Este livro é uma prova de que, querendo, tudo é possível. Até mesmo mudar o nosso próprio destino.

          Ricardo Kotscho

         Outubro de 2009

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De uns tempos para cá, o São Paulo vinha perdendo todas de goleada nos tribunais da CBF _ não por acaso, comandados por cartolas cariocas. Mesmo assim, tropeçando aqui e ali, manteve-se na liderança isolada do Brasileirão, um ponto apenas à frente do Flamengo, o clube que quase todo o establishment do futebol queria ver campeão pelos mais diferentes motivos.

Pois na tarde desta quinta feira, quando o jogo no tapetão já parecia perdido, o São Paulo conquistou, de virada, duas belas vitórias. 

Jean, o melhor jogador do time neste campeonato, que estava injustamente suspenso por três jogos, e já havia cumprido dois, pode voltar no domingo contra o Goiás, em Goiânia.

E o Morumbi, que estava vetado, foi liberado para a torcida poder ver de perto o último jogo do São Paulo, contra o Sport, agora muito provavelmente aquele que será o da conquista do inédito tetra/hepta do tricolor.

Agora, quem segura? Demos todas as chances aos outros times, jogamos mal a maior parte do campeonato, perdemos gols feitos e tomamos gols de bobeira, nos fingimos de mortos _ e olha nós lá de novo, chegando na frente. Somos conhecidos como o clube da fé, mas vai ter fé assim naquele lugar. Nem eu, confesso, e vocês sabem, acreditava mais nisso.

Ao liberar o Jean e o Morumbi, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva reunido no Rio fez o que deveria fazer: Justiça. O Brasileirão agora volta a ser decidido dentro de campo, apenas _ melhor ainda, dentro do nosso campo.

Sei que quem não gosta do Ssão Paulo, ou seja, os torcedores de todos os outros times, que não aguentam mais ver o tricolor campeão, vão entrar aqui matando, me xingando daquelas bobagens de sempre, mas não adianta. Quando ninguém mais acreditava, comendo pelas beiradas, nós chegamos lá. Agora, só depende de nós. 

Até o Belluzzo, o neocartola patético do Palmeiras, um homem cordial e inteligente que perdeu a noção,  já descobriu que ninguém vai ganhar no grito nem ofendendo os adversários. Agora, é o jogo jogado, meus amigos. É só na bola.

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Boa notícia para as donas de casa e o povo em geral: fiquei sabendo de fonte bastante confiável que no começo do próximo ano vão baixar os preços do gás de cozinha e do material escolar.

O governo estuda reduzir os impostos destes produtos como já fez com tantos outros, como os carros e a chamada linha branca. Hoje mesmo os jornais informam que o governo prorrogou até o final de março a redução do IPI dos carros flex.

Estas notícias chegam em boa hora porque este ano, apesar da crise da marolinha e da redução de impostos, a carga tributária bateu mais um recorde: chegou a 36,5% do PIB. Ou seja, mais de um terço do que pagamos nas lojas vai para o Tesouro Nacional por conta dos impostos.

Em 2009, segundo o jornal Brasil Econômico, uma nova publicação muito bem feita,aliás,  "a arrecadação federal foi impactada negativamente pelo pacote de incentivos fiscais de R$ 21,6 bilhões até outubro, concedidos a vários setores da economia em razão da crise".

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Atualizado às 12:17

Caros leitores,

viajo de novo daqui a pouco para fazer uma palestra. Por isso, só vou poder moderar os comentários à noite, se conseguir. De preferencia, depois da vitória do meu tricolor... Volto amanhã à tarde.

Abraços,

Ricardo Kotscho

Em tempo: o São Paulo acaba de perder do Botafogo por 3 a 2, no finalzinho do jogo. Fiquei triste, claro,  porque este jogo poderia ter sido o do título, se aquelas duas bolas na trave tivessem entrado... Mas não tem "se" em futebol. Agora tudo conspira a favor do Flamengo.  E o Botafogo, pela luta do começo ao fim, acabou merecendo a vitória.  Vida que segue.

Em tempo 2: o Flamengo bobeou, empatou em 0 a 0 com o Goiás, e o São Paulo continua líder absoluto do campeonato.  Estamos a dois jogos do tetra/hepta. Há muito tempo não tínhamos um final de Brasileirão tão emocionante. Agora seja o que Deus quiser.

***

Os assuntos mais comentados da semana

Balaio

Humildade e humor: 82

Foz do Iguaçu, 39 graus: 35

Futebol: 35

Folha

Cesare Battisti: 98

Apagão: 69

Lula: 65

Veja

Caso Geisy arruda: 27

Apagão do governo Lula: 22

Enade com propaganda do governo: 15

***

O filme brasileiro mais badalado do ano só estréia nos cinemas no começo do ano que vem. Muito poucos o viram até agora. Mas "Lula, o Filho do Brasil"  já deve ser o filme mais lido do cinema brasileiro.

Há meses, jornais, revistas e portais de internet escrevem todo dia quilômetros de textos para falar do filme _ falando bem ou mal, não importa. Todo mundo acha que tem a obrigação de escrever sobre o filme. Nas cartas e comentários de leitores que ainda não viram o filme de Fábio Barreto, também não tem meio termo: Lula sempre desperta amor e ódio na mesma medida, qualquer que seja o enredo.

Já que é assim, também resolvi hoje escrever sobre o assunto, embora só vá assistí-lo no próximo sábado, em São Bernardo do Campo, graças a um convite que recebi dos produtores _ entre eles, meu velho e bom amigo Roberto d´Ávila.

"Lula, o mito, a fita e os fatos" é a capa da Veja desta semana. Mostra Lula com cara de bravo e o ator que o interpreta no filme fazendo um inflamado discurso do tempo em que o hoje presidente era líder metalúrgico.

A chamada de capa já resume o que a revista julga a respeito: "Pago por empresas privadas com interesses no governo, o filme sobre a vida do presidente é um melodrama que depura a sua biografia, endeusa o político e servirá de propaganda em 2010".

Será mesmo? A esta altura, o que menos interessa é a obra cinematográfica _ a direção, o roteiro, a fotografia, os atores _, mas o uso que se fará dele no ano da eleição presidencial, embora o filme termine antes de Lula iniciar sua carreira política.

Tenho para mim, e até adversários severos de Lula concordam, que o mito já está criado faz tempo, e o filme dificilmente terá o poder de mudar o que os brasileiros pensam a respeito deste personagem improvável na cena política brasileira.

Como tudo virou um Fla-Flu no Brasil quando se trata de governo e oposição, acho difícil alguém mudar sua opinião sobre Lula _ e mais ainda sobre a sua candidata Dilma Roussef_ só porque uma ou outra cena não corresponde exatamente à vida real, assim como ninguém vai mudar de time por causa de um artigo de revista ou jornal.

E os leitores do Balaio, o que pensam sobre o filme que ainda não viram?

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FOZ DO IGUAÇU (PR) _ Final de tarde de quinta-feira. Cheguei agora ao hotel, depois de passar o dia todo viajando pelo lado brasileiro da Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai, às margens do marzão de Itaipu. No rádio do carro, o locutor da Rádio Mundial, que transmite em portunhol e mistura música sertaneja, com guarânias e vanerões, informa que os termometros marcam 39 graus.

Parece muito mais. Há tempos não sentia tanto calor em nenhum lugar do Brasil. Apesar de cercado de água e matas por todos os lados, com as Cataratas do Iguaçu no meio, não bate uma brisa,  as árvores parecem estátuas. Por uma dessas ironias do destino, vim parar aqui exatamente para acompanhar o 6º Encontro Cultivando Água Boa, uma pajelança que reúne 4.300 participantes em torno das discussões sobre as práticas ambientais que podem impedir o tal aquecimento do planeta.

Vocês podem imaginar o que é esta multidão reunida no auditório fechado de um hotel na entrada da cidade, com faixas e bandeiras, dançando e cantando na festa de abertura do evento promovido pela Itaipu Binacional e por outras 30 empresas e instituições. Veio gente de todo canto, em sua maioria agricultores, pescadores e índios dos 29 municípios da região beneficiados pelo Programa Cultivando Água Boa, mas também especialistas e pesquisadores de outras partes do país e do exterior.

Logo cedo saí a campo para fazer uma reportagem para a revista Brasileiros de dezembro sobre como anda a vida das pessoas que vivem às margens do marzão represado do rio Paraná, e ver o que mudou com a criação de 70 microbacias e o reflorestamento das nascentes dos rios e das sangas, como por aqui chamam os corregos, que desaguam no reservatório.

Tive a sorte de ser acompanhado por um guia que conhece a história toda desde o começo da obra. O técnico gaúcho Romualdo Barth, 54 anos, começou em Itaipu como segurança e passou pelas mais diferentes funções até se tornar um dos nove gestores de microbacias do Programa Cultivando Água Boa, criado em 2003.

Barth conhece a vida de cada um dos 508 proprietários da área de Itaipulândia, um bem cuidado, calmo e limpo município de oito mil habitantes, que não existia quando a hidrelétrica começou a ser construída. Levou-me à casa de dois deles, o Arruda e o Silvestre, dois personagens fantásticos que deixam qualquer um feliz ao ouvir as suas histórias.

São pessoas que passaram por muitas dificuldades na vida, mas aproveitaram a oportunidade que apareceu quando começaram a receber assistência técnica para implantar a agricultura orgânica, caso de Arruda, ou de se tornar pioneiros na criação da microbacia da sanga do Buriti, como aconteceu com Silvestre, que cedeu parte da sua terra para a criação de uma mata ciliar e da abertura de uma estrada para evitar a erosão, antiga praga por estas bandas que até recentemente ameaçava assorear o reservatório.

"Eu perdi uma parte da propriedade, ou melhor, ganhei, porque amanhã, de repente, tem alguém que vai me agradecer. Nunca vou morrer de fome e agora vivo melhor. Até os passarinhos e os peixes voltaram...", contou-me  Wilson Francisco Silvestre, 54 anos, três filhos e dois netos, que ainda mora numa daquelas antigas casas de madeira do interior paraneanse, mas tem dois aviários com mais de 30 mil frangos, plantações de fumo, soja e milho, um carro e uma moto na garagem, e vê os netos quase todo dia pela webcam da internet.

Os sinos da catedral anunciam que é a hora da Ave Maria e me lembram que daqui a pouco vai sair o passeio de catamarã no grande lago de Itaipu, que eu vi ser formado em apenas duas semanas de 1982, quando vim fazer uma reportagem para o Estadão. Nada melhor para encarar a noite também quente nestes fundões do oeste brasileiro. 

Stress? Mau humor? Desânimo? Recomendo aos leitores dar uma chegada por aqui qualquer dia desses para conhecer outras paisagens e brasileiros do tipo de Arruda e Silvestre, e descobrir como a gente perde tempo com tanta bobagem, sem desconfiar que outra vida é possível.

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Atualizado às 9:15 de quinta-feira

Pessoal,

embarco daqui a pouco para Foz do Iguaçu, no Paraná, onde vou fazer uma reportagem para a revista Brasileiros. De lá de Foz, onde fico até sábado, vou atualizar o Balaio e fazer a moderação de comentários na medida do possível.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

De vez em quando, faz bem sair de circulação, nem que seja por pouco tempo. Nas 48 horas que passei em retiro espiritual, sem notebook nem celular, com meus colegas de Grupo de Oração, durante o último fim de semana, numa pousada em Tremembé, no interior de São Paulo, o tema que discutimos foi a alegria de viver.

Nosso grupo, que já completou 30 anos, tem gente de variadas idades, religiões, profissões e experiências, sobrevive sem regras, estatutos ou compromissos. O que nos une é apenas a vontade comum de refletir sobre os rumos da nossa caminhada pela vida.

Como em todos os retiros, cada um de nós leva textos para ajudar nesta reflexão. Trouxe para compartilhar com vocês um destes textos: "Humildade e humor como características da existência cristã", quarto capítulo do livro "Espiritualidade a partir de si mesmo" (Editora Vozes, 2004), de Anselm Grün e Meinrad Dufner, dois beneditinos que vivem na Alemanha.

Pessoas muito alegres não são necessariamente felizes _ e vice-versa. Grün e Dufner nos ajudam a entender a diferença entre estes dois sentimentos _ a alegria, voltada para fora, e a felicidade, para o consumo interno. Uma passagem, que está na página 113 do livro, nos indica os caminhos:

Uma espiritualidade que se deixa orientar pela humildade não faz de nós pessoas que se diminuem artificialmente, que pedem desculpas pelo fato de estar no mundo. Pelo contrário, a humildade leva à verdade interior, à despreocupação e ao bom humor. No humor está presente a antevisão de que tudo pode existir em nós, de que somos feitos de barro e que, por isso, não podemos nos espantar com nada que é terreno.

O humor é estarmos reconciliados com nossa condição humana, com nossa condição terrena, com nossa fragilidade. No humor está presente a aceitação de mim assim como eu sou.

Outro autor, Henrich Lützeler, citado pelos beneditinos alemães, acha que o humor tem a ver com o desmascarar a realidade:

As figuras mais importantes do humorismo _ por exemplo, Aristófanes, Shakespeare, Cervantes, Molière _ eram pessoas realistas, e nada do que faz parte do homem lhes era estranho. Por trás de mil disfarces, por trás de resplendentes bastidores e de palavras altissonantes, eles infalivelmente apanhavam o que existe de mais humano.

No humor, reencontramos a reta medida de nós mesmos e nos libertamos por inteiro do emocionalismo em que tanto gostamos de nos sentir os tais.

De todas as formas de humor, a mais simples para alcançarmos a felicidade que, ao final das contas, é o objetivo primeiro e último de todos nós nesta terra do bom Deus é, a meu ver, a autoironia ou autogozação, como queiram. É a capacidade que temos de rir de nós mesmos, brincar com nossos defeitos, em vez de sofrer com eles.

Penso que existe a boa humildade, que é altiva na alegria, por conhecermos nossos limites e não querermos ser mais do que somos, satisfeitos com o que temos. E tem a humildade ruim, que é servil e triste. A este respeito escrevem Grün e Meinrad:

Nós entendemos a humildade antes de tudo como uma atitude religiosa, não haveremos então de associar-lhe idéias negativas, como "dobrar o espinhaço", rastejar, fugir às exigências da vida, um secreto egoísmo disfarçado de falsa modéstia.

Claro que a alegria e a felicidade jamais serão sentimentos permanentes e imutáveis, por mais que procuremos cultivá-los para o nosso próprio bem e o de quem conosco convive _ exatamente porque dependemos também do humor dos outros e das circunstâncias que nos cercam a cada momento.

Entre a vida idealizada dos retiros e a vida real do nosso dia a dia, a felicidade é uma busca permanente, que depende de um conjunto de fatos concretos e não se subordina apenas a nossos desejos.

Por exemplo: fui informado agora há pouco dos resultados de exames que faço todo ano desde que os médicos me extirparam a tireoide (havia suspeita de câncer, felizmente não confirmada). Trata-se de uma pequena glândula localizada ao pé do pescoço, que controla o metabolismo do corpo e regula orgãos como o coração, o cérebro, o fígado e os rins.

Por isso, tenho que tomar pelo resto da vida um comprimido de remédio todo dia logo ao acordar. Nas raríssimas vezes em que me esqueço de fazê-lo, com o passar das horas do dia vou perdendo as forças e o humor, como uma lâmpada que vai ficando mais fraca com a queda de voltagem.

Desta vez, os exames mostraram alterações graves em relação aos exames anteriores. Minha médica imediatamente aumentou a dosagem do remédio que tomarei a partir de amanhã, mas o simples fato de saber do problema já alterou meu humor, é claro.  

Entre as belas reflexões do nosso retiro e a dura verdade científica, a alma e o corpo balançam. Nosso grande desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os exames médicos e a prática da espiritualidade.

   

 

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