Em meio a essa desgraceira geral do noticiário, tenho uma boa notícia a dar para todos nós: estarei fora do ar nos próximos dois dias. A não ser que o mundo acabe, claro, pois nesse caso voltarei em edição extraordinária do "Balaio" para avisar vocês.

É bom a gente passar um fim de semana longe das notícias, curtindo a família, os netos, os amigos e o sol que voltou hoje. Recomendo a todos. Assim não enlouqueço antes da hora e dou um descanso também para meus queridos leitores.

 Amanhã vai fazer um mês _ pois é, o tempo corre... _ que este "Balaio" entrou no ar. Trabalhei direto até agora, sem folga, inclusive nos fins de semana, coisa que não fazia nas redações havia muitos anos.

Como este é o post de número 64, dá a média de mais de dois por dia, ou seja, duas matérias a cada 24 horas, coisa que também não fazia nos jornais onde trabalhei, até porque sempre fui de escrever bastante e nem havia espaço para isso.

Já me falaram mil vezes para fazer textos menores na internet, mas não consigo. Nem pra dizer que vou tirar uma folga consigo ser breve...

Bom fim de semana! 

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A coisa está feia, pessoal. Abri agora o computador e levei um susto com as manchetes sobre a crise mundial _ mundial mesmo, totalmente globalizada. Vocês são testemunhas de que evitei falar da crise da grana, até porque não entendo muito disso, mas agora não dá mais para tratar de outros assuntos.

Como sou meio lento de cabeça, nas últimas horas até eu percebi que esta deixou de ser uma preocupação só de quem tem dinheiro investido nas bolsas, dos grandes empresários de exportação, dos meus amigos do governo, dos analistas econômicos e especuladores em geral.

A crise está nas conversas dos motoristas de táxi, dos meus vizinhos no elevador, dos porteiros do prédio, na banca de jornal, no café da esquina. Não se fala mais de outra coisa. O que vai ser de nós?, querem todos saber.

Bem que o "Dr. Apocalipse", como é mais conhecido o economista americano Nouriel Roubini, vem cantando essa bola faz tempo, mas a realidade está provando que ele tinha razão: a grana vem derretendo no mundo todo, a cada dia a situação se agrava e, em consequência, ele agora já prevê uma depressão global.

O próprio Roubini, professor de Economia da Universidade de Nova York e ex-funcionário do Tesouro no governo Clinton, é um bom exemplo destes tempos de globalização, como nos mostra o colega Sérgio DÁvila, o homem da "Folha" em Washington, na entrevista que publicou hoje com "Dr. Apocalipse". Agora, todo mundo quer falar com ele para saber o que vai acontecer.

"Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood _ filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York _ disse que toureava 300 pedidos de entrevistas que chegaram apenas naquele dia (anteontem, quando a entevista foi feita)", conta DÁvila.

O que "Dr. Apocalipse disse na parte que nos diz respeito, quer dizer, sobre o Brasil diante da crise mundial:

"Não existe descolamento completo (...) O país fortaleceu seus fundamentos financeiros nos últimos anos, mas também foi ajudado pelo ambiente global de grande crescimento, alta nos preços das commodities e baixa aversão a risco. Agora, terá que enfrentar o cenário oposto. Assim, o país não está sob risco de crise financeira como as de 1999 e 2002, mas as coisas podem ficar piores".

Sobre o presidente Lula e as medidas adotadas pelo governo brasileiro:

"Devemos dar crédito a ele. Quando chegou ao poder, temiam que fosse ceder às tentações populistas. Em vez disso, em questões de macroeconomia, austeridade fiscal e estabilidade financeira, fez o certo".

Para entender um pouco como chegamos a este ponto em que a inadimplência de compradores de imóveis nos Estados Unidos quebra bancos e seguradoras, dando início a um tsunami que hoje derrete as bolsas no mundo todo _ enquanto escrevo, aqui em São Paulo a Bolsa despenca e o dólar dispara de novo _ vale a pena dar uma olhada na coluna do Clóvis Rossi no mesmo jornal.

Ficamos sabendo ali que, apenas seis dias depois do governo americano socorrer a seguradora AIG com US$ 85 bilhões para evitar sua quebra, a empresa torrou US$ 443 mil numa esbórnia para sete executivos da empresa num resort da Califórnia.

"Estavam fazendo as unhas das mãos e dos pés, tratamentos faciais e massagens, enquanto o contribuinte paga a fatura", denunciou discursando no Congresso em Washington a deputada democrata Elijah Cummings.

O que uma coisa tem a ver com outra?, poderá me perguntar o leitor. Tem tudo a ver, como o veterano escriba Rossi, que também tem um pouco de "Dr. Apocalipse" já faz tempo, meu primeiro chefe e padrinho de casamento, escreve em sua coluna diretamente de Madri:

"O que essa prática revela é uma cultura torta, feita de hedonismo ao ponto extremo e de uma sensação já não de impunidade, mas de inimputabilidade.

Não há respeito não só pelo dinheiro público, mas pela própria empresa que lhes paga os salários (...), bônus, luxos. Claro que ganhar dinheiro não é feio, desde que honestamente".

O estrago está feito, mas enquanto eles continuam se divertindo, "Dr. Apocalipse só vê duas opções para o mundo onde habitam os simples mortais:

"Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global".

Na segunda hipótese, só nos resta apelar para o velho "salve-se quem puder!"

 

 

 

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O premiado ator e diretor Celso Frateschi, ex-secretário municipal da Cultura, que esta semana pediu seu boné de presidente da Funarte para voltar aos palcos da vida, é um apaixonado por seu trabalho, qualquer trabalho.

Para quem só entra de cabeça em tudo o que faz na vida, vez ou outra tomar uma trombada faz parte do jogo, como aconteceu na sua saída da Funarte esta semana, quando divergências internas acabaram saindo na imprensa e envenenando o ambiente.

O que aconteceu? Ninguém melhor do que ele mesmo pra responder a esta pergunta singela que muita gente do mundo da cultura está se fazendo neste momento.

"O dia ontem ainda fiquei muito ocupado em me defender dos golpes no ministério. Aí vai o que me passou pela cabeça quando a madrugada chegou", escreveu-me ele, na introdução da sua mensagem cheia de perguntas a si mesmo, em que explica as razões da sua saída da Funarte:

Caro Ricardo Kotscho

O mais triste de todo este processo é pensar na pergunta daquele cidadão que, como eu, mantém a esperança de um país mais justo e fraterno:

É nisso que vão se resumir os nossos sonhos?

Será que a história dará outra oportunidade como essa para mudarmos a história cultural de nosso país?

O presidente Lula nomeou Gilberto Gil, que trouxe a poesia para o ministério. Aqueles que não são poetas, não teriam que transformá-la em ações além da oratória?

Alguém tem o direito de desfocar nossas energias em assuntos tão mesquinhos como essas querelas de vaidade e poder?

Temos a possibilidade pelo Programa Mais Cultura de proporcionar a criação e fruição artísticas e culturais na quase totalidade do semi-árido brasileiro. São mais de mil municípios. Perderemos essa possibilidade porque a performance virou mais importante do que o ato?

O ministro Gil conseguiu emplacar a cultura no esfôrço nacional pelo crescimento e o presidente Lula sinaliza claramente com recursos para colocar o cidadão no centro desse programa. Um ano se passou, muito pouco foi feito. Perdemos um ano de recursos. Perderemos mais dois em reuniões exibicionistas?

Continuaremos presos aos mesmos mecanismos de financiamento e fomento à atividade cultural e enfrentaremos mais dois anos de debates e consultas públicas, desprezando os mecanismos de participação construídos pela gestão do ministro Gilberto Gil?

Será que a linguagem dos que administram a coisa pública não deveria ser a ação concreta?

O sonho acabou. Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou?

Celso Frateschi

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Internet também é cultura, estou aprendendo a cada dia. Semana passada, fiquei sabendo, e contei para vocês no sábado, que existia o "Dia do Amigo em Rede". Coisas destes tempos internéticos em que ainda estou tatendo.

Hoje, dois colegas de Colégio Santa Cruz, onde estudei no ginásio nos tempos dos padres canadenses, me escreveram para lembrar que estamos na "Semana Mundial do Melhor Amigo".

E me mandaram dois textos sobre amizade, que divido com vocês. O primeiro foram alguns versos enviados pelo Emílio Haddad, que recentemente ressuscitou, depois de quase embarcar para sempre, quando estava trabalhando num país pra lá do fim do mundo, cujo nome não me lembro (e não tenho o telefone dele pra perguntar).

Minha classe  

Formamos um bando _ um

coletivo de pássaros

Uns mais outros menos, bandidos

Uma malta.

Cada um vem de suas bandas, em revoada

quando

se dá ou vida ou morte,

como quer a sorte

O outro texto veio do Luiz Cintra, mais conhecido por Gogô nas rodas do Baixo Santa. Viraram todos poetas, esses meus amigos, agora deram pra só escrever em versos:

Vocês conhecem o

relacionamento entre seus dois olhos?

Eles piscam juntos, eles se movem juntos,

eles choram juntos, eles vêem coisas juntos,

embora eles nunca vejam um ao outro...

A amizade deveria ser exatamente assim!

Com a diferença que os amigos devem se ver de vez em quando.

Por isso precisamos continuar com os nossos encontros.

Se os amigos leitores também quiserem me mandar seus versos para o "Balaio", fiquem à vontade. Aqui sempre cabe mais um poeta. Afinal, Internet também pode ser poesia... 

 

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Como costumo dizer, de vez em quando a gente acerta... Kassab disparou em São Paulo, abrindo 17 pontos sobre Marta, e Gabeira já está na frente de Paes no Rio, segundo a primeira pesquisa Datafolha para o segundo turno das eleições.

Para confirmar as três ondas apontadas aqui no "Balaio" na segunda-feira, só está faltando alguma pesquisa mostrar a situação em Belo Horizonte, onde a onda Quintão derrubou o poste Lacerda, plantado por Aécio e Pimentel, já na reta final do primeiro turno.

Também não precisava ser nenhum grande especialista em pesquisas eleitorais, adivinho ou bidú (que palavra mais antiga!) para prever estes movimentos nas três maiores cidades do país.

Em São Paulo, estava na cara que os eleitores dos candidatos derrotados no primeiro turno migrariam em sua grande maioria, sem ninguém pedir, para o demo-tucano Kassab, agora apoiado oficialmente pelo governador José Serra.

Sem conseguir fazer qualquer nova aliança, Marta ficou sozinha na estrada para enfrentar o voto anti-PT, que é historicamente forte na maior cidade do país. Agora, não há Lula nem comitiva de ministros que dê jeito de segurar a onda Kassab.

O maior problema de Marta é que ela junta três rejeições: a própria, dos que simplesmente antipatizam com sua figura, especialmente na elite cinquecentona e na classe média tradicional; os conservadores, que odeiam a estrela do PT desde sempre, e a do presidente Lula, que diminuiu, mas ainda existe.

Só lhe resta agora tirar votos do candidato favorito, batendo duro nele, como já começou a fazer. Mas tenho sérias dúvidas se, a esta altura do campeonato, funcionará a estratégia de politizar e radicalizar a campanha, mostrando as antigas ligações de Kassab com Maluf e Pitta. Isso pode até piorar a situação de Marta, como já aconteceu com Alckmin no primeiro turno. 

Os eleitores já demonstraram nesta campanha eleitoral, como constatou o governador da Bahia, Jaques Wagner, na entrevista que concedeu ontem ao "Balaio", que estão mais interesados em saber qual projeto é melhor para a sua cidade.  

Já que não existem grandes diferenças entre o que Marta e Kassab prometeram aos moradores de São Paulo no primeiro turno para melhorar a vida na sua cidade, a tendência é deixar como está para ver como fica, ou seja, reeleger o atual prefeito.

No Rio, temos outra prova de que nestas eleições pouco importam as alianças partidárias. Enquanto Eduardo Paes, do PMDB, o candidato fabricado pelo governador Sergio Cabral, aparece todos os dias em fotos nos jornais festejando novos apoios de partidos (hoje, foi a do PT), Gabeira surge cercado de eleitores nas ruas da zona oeste em redutos onde teve fraco desempenho no primeiro turno. Nem o apoio oficial do prefeito demo Cesar Maia conseguiu segurar a onda Gabeira até agora.

A nossa eterna Cidade Maravilhosa é o melhor exemplo da marca que vai ficar destas eleições municipais de 2008: o eleitor parece ter se libertado dos cabrestos de formadores de opinião, caciques e alianças costuradas nos gabinetes, e resolveu votar com a própria cabeça.

  

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A política não precisa necessariamente ser feita de mau humor, nem se deve confundir cara feia com seriedade. O amigo que entrevistei hoje é um desses casos raros: em qualquer situação, está sempre de alto astral, capaz de brincar com suas próprias mancadas quando as coisas não vão bem.

Quando Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002, e começou a anunciar os nomes dos seus ministros, fiz uma brincadeira com ele, que acabou saindo no jornal. "Começamos mal... Nosso presidente nomeou para o Ministério do Trabalho justo um baiano..."

Indicado para o Ministério do Trabalho, o carioca Jaques Wagner, que fez carreira de sindicalista e político na Bahia, ficou sabendo quem foi o autor da brincadeira, mas nem por isso deixou de ser meu amigo. Ao contrário, fiquei sabendo hoje que ele é leitor aqui do "Balaio" e aproveitei para fazer uma breve entrevista com ele.

Quem me ligou para colocá-lo na linha foi outra boa e velha amiga dos tempos em que o Jornal do Brasil era o Jornal do Brasil, o melhor do país, a repórter Sonia Carneiro.

Os dois estavam em Brasília para uma maratona de reuniões. Antes de falar com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, Wagner conversou rapidamente com o "Balaio".

Como de costume, estava bem humorado, e demos boas risadas. Ao cumprimentar Minc, Wagner explicou porque hoje não poderia falar mal de ninguém: "É que hoje, para os judeus, é o Dia do Perdão... E eu e o ministro somos judeus..."

Vamos então ao ping-pong com o governador petista da Bahia, que está neste momento enfrentando uma saia-justa em Salvador, com dois candidatos da base aliada disputando o segundo turno (o atual prefeito, João Henrique, do PMDB, e Walter Pinheiro, do PT), mas não se abala com isso.

RK: Cada um está fazendo uma análise diferente de quem ganhou e de quem perdeu as eleições no domingo no país. Qual é a tua?

Wagner:  Quem ganhou foi o projeto político conduzido pelo presidente Lula, sem dúvida. Ocorre que dentro da ampla base aliada do governo temos vários partidos e muitos candidatos se apresentaram como sendo Lula desde criancinha. Cresceu mais quem já partiu de um patamar maior, é claro. Por isso, em números absolutos, quem cresceu mais foi o PMDB.

RK: Qual foi a marca destas eleições que a diferencia das outras de que você já participou?

Wagner: A taxa de contraditório em relação ao governo federal desta vez foi quase a zero.

RK: Como assim?

Wagner: Você viu alguém falando contra o presidente Lula e o governo federal nestas eleições? Então, isto nunca aconteceu antes. Mas isso não quer dizer que onde ele vai elege o candidato. Foi a Natal e não elegeu a nossa candidata (Fátima Bezerra, do PT). Em São Paulo, a Marta não ficou em primeiro lugar. Lula não pôde ir a Fortaleza e a Luizianne Lins se elegeu no primeiro turno. O que quero dizer com isso? Que eleição depende do potencial de cada candidato e do debate de projetos para as cidades, muito mais do que da questão nacional.

RK: Isso também aconteceu na Bahia?

Wagner: Olha, teve candidato que me falou que se eu fosse na cidade dele ele ganharia a eleição. Se fosse com o Lula então... As coisas não funcionam assim. Se o candidato tiver um por cento na pesquisa e a minha simples visita aumentar o índice dele em 60%, coisa que não existe, ele iria para 1,6%, certo?... Agora, se ele estiver em situação de empate técnico e eu for lá e disser que ele é o candidato do presidente Lula, tudo bem, acho que isso pode fazer ele ganhar.

RK: Agora todo mundo está comentando que você e o presidente Lula vão enfrentar uma saia-justa no segundo turno em Salvador com dois candidatos da base aliada, o Walter Pinheiro, do PT, e o João Henrique, do PMDB, apoiado pelo ministro Geddel Vieira Lima ...

Wagner: Não tem problema porque na Bahia todo mundo era Lula desde criancinha. Até o ACM Neto teve que pedir desculpas por ter xingado o presidente num discurso na Câmara, admitindo que foi um erro... Os partidos de oposição ao governo federal (PSDB, DEM e PPS) fizeram 50 prefeitos nos 417 municípios da Bahia. Nós tínhamos 25, fizemos 115, o PMDB fez 110. É falso dizer que agora haverá uma guerra entre o ministro Geddel e o Wagner na Bahia. Meu vice é do PMDB, somos todos da base do presidente Lula. É bobagem esse negócio de falar em 2010 agora. Eu não tenho ilusões: se meu governo chegar em 2010 como um avião, vai querer subir nele até quem eu não queira; se for uma carroça, nem os amigos vão querer vir comigo... Temos agora o desafio de administrar bem a campanha de dois aliados. Com isso, ganha a cidade, e nós dois não nos escangalhamos...  

 

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E não é que este "Balaio", com menos de um mes de vida, pegou no breu? Sem querer dar uma de mascarado nem entrar na onda dos blogueiros autoreferentes, hoje preciso agradecer aos leitores que, desde o dia 11 de setembro _ êita data pra não esquecer! _, estão dando a maior força para este novo espaço de debates.

A cada post publicado, a freguesia aumenta, na mesma proporção da indignação dos leitores sobre os assuntos aqui discutidos _ em especial, os que se referem à atuação do Judiciário brasileiro, como no caso do jornalista Pimenta Neves e do promotor Thales Ferri Schoedl, que continuam livres, leves e soltos, enquanto as famílias das suas vítimas choram à espera do fim da impunidade. 

São tantos os comentários que, por mais que eu quisesse, seria impossível responder a cada um deles. Por isso, faço este agradecimento geral pela sua participação no debate e pelo alto nível das suas intervenções.

Da mesma forma, quero dizer meu muito obrigado aos leitores e amigos que enviaram mensagens me cumprimentando pelo "Troféu Especial de Imprensa ONU: 60 anos da Declaração de Direitos Humanos", que recebi ontem junto com quatro colegas brasileiros _ Caco Barcellos, José Hamilton Ribeiro, Zuenir Ventura e Henfil (em memória) _ "pelo conjunto do trabalho e carreira".

O que me deixou mais feliz, além da honrosa companhia dos outros escolhidos, na minha opinião os três melhores repórteres da imprensa brasileira em atividade, foi ganhar este troféu numa eleição direta de que participaram os mais de 500 jornalistas que receberam o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos nos últimos 29 anos.

Não dando para citar todos um a um, agradeço coletivamente às muitas turmas de onde vieram estas mensagens: meus colegas de Colégio Santa Cruz, dos Grupos de Oração de São Paulo, Rio e Belo Horizonte, das redações por onde passei (Folha, Bandeirantes, TV Globo, Estadão, O Globo, Jornal do Brasil, Brasileiros, iG, entre outras) , além dos leitores deste "Balaio".

Achei até engraçado que um prêmio concedido pela ONU a cinco jornalistas brasileiros só tenha merecido registro num dos nossos três grandes jornais nacionais. Foi "O Globo", do Rio, já que um deles (Zuenir) trabalha no jornal e os outros dois vivos (Caco e José Hamilton) são da TV Globo. Nosso Henfil também trabalhou lá nos tempos da TV Mulher e eu fui do programa Globo Rural em 1985. Quer dizer, todos os premiados trabalham ou trabalharam na empresa.

Os dois jornalões paulistas, a Folha e o Estadão, como nenhum dos seus profissionais foi premiado, devem ter considerado que esta não era uma notícia de interesse público. A Folha preferiu noticiar um outro prêmio concedido a ela mesma: "Folha é eleita a mídia do ano pela Aberje".

Seus leitores podem não saber o que é a Aberje, mas certamente já ouviram falar na ONU. Sem querer desmerecer a entidade, que fez a premiação pela 34ª vez, a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial _ até porque, se não me engano, foi dela que ganhei outro premio tempos atrás como profissional do ano _, o critério adotado é uma pequena amostra de como se decide o que é e o que não é notícia na grande imprensa brasileira.   

Sem nenhuma demagogia, porque nunca precisei disso, queria dedicar este prêmio concedido pela ONU a todos os leitores que me acompanharam nos últimos 44 anos. Afinal, é da leitura deles que eu vivo. 

Em tempo: por falar em amigos e leitores, há dias estou pra recomendar um blog mas acabo esquecendo na pressa de publicar logo o post novo.

É o blog do meu amigo Wanderley Midei, o popular Azambuja do Estadão, que conta as histórias das histórias das reportagens feitas em sua longa carreira. Vale a pena conferir:

http://wanderleymidei.zip.net

 

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Enquanto o mundo não submerge de vez na crise da grana americana, assunto do qual outros colegas mais qualificados se ocupam, garimpei algumas notícias menores desta terça-feira. São daquelas que o leitor olha e diz: é inacreditável!

Abrindo a série notícias inacreditáveis no "Balaio", selecionei três que são do balacobaco, como se dizia no tempo em que festiva era a esquerda, e não a direita dos neo-cons, que estão na moda agora na mídia eletrônica (na impressa já estão faz tempo). Vamos a elas:

1. O tucano verde ameaçado: 48 horas depois de se tornar a grande estrela da eleição carioca, surfando na onda de novidade da estação, meu amigo Fernando Gabeira, agora verde tucano ou tucano verde, como queiram, recebeu um apoio capaz de abalar seu favoritismo previsto por mim no "Balaio" de ontem.

Ninguém menos do que o inefável Cesar Maia, que tomou uma tunda com sua candidata Solange Amaral no primeiro turno, veio a público para declarar oficialmente o apoio do DEM ao Gabeira, justamente no momento em que ele tentava cativar o eleitorado de esquerda que ficou pelo caminho no Rio.

Se quisesse mesmo a vitória de Gabeira, Maia teria anunciado apoio oficial ao adversário dele, Eduardo Paes, o candidato do PMDB  de Cabral. Agora, ficou difícil, Gabeira.

2. A volta do promotor acusado de matar: o Supremo Tribunal Federal, sempre ele, concedeu liminar reconduzindo Thales Ferri Schoedl ao cargo de promotor de Justiça. Para quem não se lembra, o promotor foi acusado de matar um rapaz e ferir outro na saída de um luau em Bertioga, litoral de São Paulo, porque mexaram com a namorada dele.

Quem deu a liminar? Nenhuma surpresa: foi o ministro Carlos Alberto Direito, aquele mesmo que adia todas as decisões importantes do STF com a senha: "Peço vista!"

Shoedl já havia sido exonerado do cargo pelo Conselho Nacional do Ministério Público, que decretou o não vitaliciamento, e perdera o salário. Agora, embora não possa voltar à função enquanto não for julgado o mérito da ação, terá direito a receber salários mesmo sem trabalhar. 

Preso em flagrante pelo delegado de Polícia de Bertioga, o promotor alegou que atirou em legítima defesa, mas acabou denunciado ao Tribunal de Justiça de São Paulo por homicídio duplo qualificado em janeiro de 2005. Continua solto e recebendo o salário que nós pagamos. Que beleza!

3. Cansado pede um tempo: o líder popular e organizador de passeatas Paulo Zottolo deixou a presidência da Phillips do Brasil para, segundo ele, "seguir outros caminhos". Ainda não revelou quais são.

Para quem não se lembra (eu sou velho mas não esqueço de certas coisas), Zottolo tornou-se famoso em meados do ano passado quando liderou o movimento "Cansei", junto com outros líderes de massa como o empresário João Dória Júnior, em protesto contra a queda do avião da TAM  em Congonhas.

É dele a famosa frase para justificar o movimento: "Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz como tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". Depois pediu desculpas, mas já era tarde.

Se já estava cansado em agosto de 2007, agora deve estar muito mais, o que explica sua retirada. Parece que os holandeses da Phillps também se cansaram dele.   

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Réu confesso, o jornalista Antonio Pimenta Neves assassinou com um tiro na nuca e outro nas costas a ex-namorada Sandra Gomide, também jornalista, em agosto de 2000, num haras em Ibiúna.

Condenado a 19 anos de prisão em 2006, está em liberdade até hoje, graças a um habeas corpus, enquanto aguarda a decisão definitiva da Justiça.

Agora, oito anos após a morte de Sandra, Pimenta foi condenado a pagar uma indenização no valor de R$ 166 mil aos pais da sua ex-namorada a título de danos morais e materiais.

Mas nada garante que vá pagar o que a Justiça determinou. Como sabemos, sempre cabe mais um recurso quando o réu tem bons e bem remunerados advogados.

"O cidadão brasileiro é tratado de forma falsa neste país. As pessoas falam que todos têm direitos iguais, mas isso é mentira. A Justiça existe somente para uma minoria que tem poder. Minha irmã está morta e o criminoso, mesmo confessando a autoria do crime, está em liberdade, advogando tranquilamente, enquanto amargamos a dor da perda", desabafou Nilton Gomide, irmão de Sandra, para a repórter Cristina Christiano, do "Diário de S. Paulo".

O pai de Sandra, João Florentino Gomide, está internado com grave doença no intestino, mas a cirurgia foi adiada porque também tem problemas no coração.

A mãe, Leonilda Florentino, sofre de transtornos bipolares e outros problemas físicos desde a morte de Sandra.

"Ela perdeu a vontade de viver e já não pode mais nem andar", contou Nilton à repórter. Um dia, quem sabe, João e Leonilda serão indenizados.  

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Passando a régua nos votos apurados em todo o país, uma constatação se destaca no conjunto da obra. Foram três ondas na reta final, nas três maiores capitais do país, que derrubaram feio os maiores institutos de pesquisa do país nas eleições de domingo.

O que aconteceu? Será que os eleitores passaram as últimas semanas fazendo molecagem com os pesquisadores só parar rir por último? As metodologias dos institutos precisam ser revistas ou era absolutamente imprevisível que as três ondas se formassem no horizonte?

Até outro dia, a petista Marta iria com folga para o segundo turno e Alckmin disputava com Kassab para saber quem seria o outro candidato classificado para as finais no campo demo-tucano.

Márcio Lacerda, fabricado pelo governador tucano Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, estava eleito no primeiro turno em Belo Horizonte.

Eduardo Paes, o candidato inventado pelo governador Sergio Cabral, enfrentaria o evangélico Marcelo Crivella no segundo turno do Rio. O verde tucano Fernando Gabeira ainda disputava o terceiro lugar com a comunista Jandira Fegalli o voto da velha esquerda carioca. 

Quando as urnas foram abertas domingo, Kassab chegou na frente em São Paulo, Leonardo Quintão colado no Márcio Lacerda em Belo Horizonte e Gabeira folgado em segundo lugar no Rio.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada na véspera da eleição, as previsões eram estas:

Marta 36 X Kassab 30

Gabeira 20 X Crivella 19

Lacerda 48 X Quintão 35

Resultado oficial:

Kassab 34 X Marta 33

Gabeira 26 X Crivella 19

Lacerda 44 X Quintão 41

Quanta diferença! No Rio, o Ibope errou mais feio ainda. Na sua última pesquisa, divulgada no "Jornal Nacional" de sábado, apontava Crivella com 19% e Gabeira com 17% Uma semana antes, o maior instituto de pesquisas do país ainda dava Crivella com 24% e Gabeira com 17%.

Sei que é temerário cravar qualquer previsão para o segundo turno, mas algo me diz que, quando as ondas se formam, não há como detê-las no caminho. Por isso, arrisco-me a escrever aqui que os três candidatos, que surfam nas grandes ondas de outubro, são agora os favoritos para ganhar as eleições daqui a três semanas: Kassab, em São Paulo; Quintão, em Belo Horizonte, e Gabeira, no Rio. Vamos ver nos posts seguintes como está o mar neste momento nas três capitais.

A onda Kassab em São Paulo

Até ele mesmo deve ter ficado surpreso quando olhou para o lado e viu que chegou na frente de Marta no primeiro turno. Quando conversei com o jovem Gilberto Kassab pela primeira vez, em meados do ano passado, para fazer uma reportagem sobre um dia na vida do prefeito na revista "Brasileiros", ele mesmo reconhecia que seu maior problema era ainda ser desconhecido de boa parte da população.

Kassab recebera meses antes de presente a Prefeitura da maior cidade do país quando José Serra resolveu trocá-la pelo governo do Estado, com menos de dois anos de mandato, mas já sabia o que queria.

Ficou mais conhecido com a campanha "Cidade Limpa", quando combateu com coragem a poluição visual na cidade, tirando na marra a sujeirada da propaganda das ruas e fachadas. O tempo todo que conversei com ele, porém, só repetia em investir pesado na área social, quer dizer, em educação e saúde, nas áreas mais pobres, como se fosse um militante petista.

Já estava pronto o discurso que repetiu agora à exaustão em seu bem feito programa eleitoral, que ganhou mais tempo do que os outros graças à aliança que Serra costurou com o PMDB de Quércia. Pelo jeito, a estratégia deu certo.

Kassab tirou de Alckmin o voto anti-PT, que é muito forte em São Paulo, desde os tempos do malufismo, que os tucanos herdaram. E é esse voto que, a meu ver, lhe dá agora a condição de favorito, mais do que o apoio oficial e a presença do governador Serra nos palanques.

Em sentido contrário, tenho sérias dúvidas se a estratégia de federalizar e ideologizar a campanha do PT no segundo turno, como se anuncia, dará certo para Marta. Já não deu quando ela enfrentou Serra nas últimas eleições e nada indica que o eleitorado paulistano tenha mudado seu caráter conservador.

Mesmo a decisão de optar preferencialmente pelos mais pobres, como tem feito em seus últimos discursos, é de resultado duvidoso para Marta. Em São Paulo, ninguém gosta de admitir que é pobre _ no máximo, fala que é "remediado".

Além disso, se Marta continuar falando para seu eleitorado cativo das periferias das zonas leste e sul não vai conseguir atrair o voto da classe média, predominantemente anti-PT.

O mar, neste momento, está para Kassab. Nem acho que o segundo turno em São Paulo seja a antecipação da disputa presidencial de 2010. Por mais que o presidente Lula, com todo seu prestígio, venha dar apoio a Marta em São Paulo, assim como Serra a Kassab, penso que esta será uma disputa bem local, bem paulistana: é PT e anti-PT.

Em todas as projeções para o segundo turno, antes mesmo da onda Kassab, ainda que o candidato anti-PT fosse Alckmin, Marta já começaria a etapa decisiva com 10 pontos de desvantagem. Para mudar isso, só se aparecer outra onda, um tsunami vermelho, que não consigo vislumbrar no horizonte desta segunda-feira chuvosa em São Paulo.

A onda Gabeira no Rio

Carioca gosta de uma novidade, gosta de contrariar os institutos de pesquisa e de surfar numa onda nova, sempre foi assim. E a novidade destas eleições é um jovem de 67 anos, de rebeldes cabelos grisalhos, o eterno candidato alternativo Fernando Gabeira, que trocou a fantasia de guerrilheiro por uma sunga e foi à luta como militante ecológico, com breves escalas no PT antes de cair nos braços dos tucanos.

Vai enfrentar no segundo turno um candidato fabricado pelo governador Sergio Cabral, um político obscuro, que se tornou conhecido nas CPIs do fim do mundo quando bateu pesado no governo Lula, depois de naufragar a tentativa do governador de fazer uma aliança com o PT.

Cristão novo do PMDB, ex-demo e ex-tucano, Eduardo Paes, político revelado por Cesar Maia, abriu apenas seis pontos de vantagem sobre Gabeira no primeiro turno mesmo contando com todo o apoio da máquina estadual. Quer dizer, o jogo está aberto.

Gabeira tem história, tem carisma, é bom de marketing e agora resolveu ampliar suas alianças, buscando apoios do DEM de Maia ao multirachado PT carioca, sem medo de ser feliz. Além de tudo, leva a vantagem de que sua filha, Maya, é uma campeã de surf, sabe para onde batem as ondas.

A onda Quintão

Confesso que nunca tinha ouvido falar em Leonardo Quintão, jovem deputado federal do PMDB, de 33 anos, que atrapalhou os planos de Aécio e Pimentel de eleger um poste em Belo Horizonte já no primeiro turno.

O problema é que se eu não sabia quem era Quintão, a população de Belo Horizonte tampouco sabia quem era Márcio Lacerda, do PSB, o candidato lançado pelo laboratório político tucano-petista dos dois bem avaliados líderes mineiros.

Belo Horizonte confirma a tese de Carlos Augusto Montenegro, o homem do Ibope: depois do trauma Collor, o brasileiro dificilmente elegerá candidatos fabricados, sem currículo político, sem história. Lacerda, do PSB, começou lá no fundão, com 6 pontos nas pesquisas, e disparou com o apoio dos padrinhos no latifúndio do seu programa eleitoral e parecia que ia levar a eleição assobiando, mas na reta final deu chabú.

A deputada federal Jô Moraes, do PC do B, que saiu na frente nas pesquisas, ficou pelo caminho, mas agora pode ser um importante trunfo para Quintão no segundo turno, levando com ela os ministros dissidentes do PT, Patrus Ananias e Luiz Dulci, mais o vice-presidente José Alencar, sem falar no ministro Hélio Costa, que é do PMDB e bancou a sua candidatura. Se Quintão chegar na frente na onda mineira, onde nem tem mar, Costa passa a ser automaticamente um forte candidato contra Fernando Pimentel ao governo de Minas. 

Quintão já foi o vereador mais votado de Belo Horizonte, quer dizer, tem laços fortes na cidade, como Jô Moraes e ao contrário de Lacerda, que nunca foi candidato a nada nem teve vida política em Minas. Mineirinho esperto, não falou mal de ninguém na campanha, sempre que pode elogia Aécio e saiu do primeiro turno surfando forte em direção ao segundo e à vitória. 

 

      

 

 

Quem poderia prever este desfecho quando a campanha municipal de 2008 começou para valer dois meses atrás?   

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