Todo dia antes de dormir fico pensando em vários assuntos para escrever no meu blog no dia seguinte. Alguns temas se impõem naturalmente, estão nas manchetes da internet, da TV e dos jornais, ocupam todos os espaços de opinião, blogs e colunas. Como procuro fugir deles, às vezes fico na dúvida sobre o que pode interessar ou ser útil aos leitores.

Abrir a tela do computador em branco e escrever todos os dias, chova (e como tem chovido!) ou faça sol, dia útil ou dia santo, não é fácil. Nos jornais e nas revistas onde já trabalhei, não precisava me preocupar: recebia pautas com os assuntos escolhidos pelas chefias e tratava de cumprí-las. Mas escrevia reportagens apenas uma vez por semana, em média; em alguns casos, levava até um mês ou mais para entregar o texto.

Às vezes, calha de contarmos para os amigos uma história banal que aconteceu com a gente, e eles próprios sugerem: "Por que voce não escreve sobre isso no teu blog?". 

É o que vou fazer.  Ao voltar das férias, minha mulher não conseguia encontrar nossos documentos _ todos eles: carteira de identidade, CPF, certidão de casamento, etc. Só de pensar em enfrentar as filas do Poupa Tempo, da Receita Federal, dos cartórios, para tirar tudo de novo, me deu um frio na espinha, um desalento danado. Penso que isso acontece com todo mundo. Fazer o quê?

Depois de revirar o apartamento e o carro, já desistindo de encontrar os ditos cujos, minha mulher, a Mara, resolveu ligar para o cartório onde fomos no final de novembro para passar uma escritura. Foi a última vez que usamos os documentos originais, que sempre ficam guardados com ela num arquivo.

Muito simpático, o escrevente Juliani, que tinha nos atendido naquele dia, garantiu que com ele os documentos não ficaram, mas deu um santo conselho: rezar uma "Salve Rainha", até o trecho que fala "deste desterro mostrai-nos...". Depois, assegurou ele, é só procurar novamente os documentos, que eles serão encontrados.

Se isso acontecer, a pessoa deve então rezar a oração até o final. Pois o milagre aconteceu! Mara procurou novamente nos mesmos lugares que já havia vasculhado antes e acabou encontrando todos os documentos num lugar onde ela não costumava guardar.

Se deu certo para nós, pode dar também para outras pessoas com os mesmos problemas, antes que elas enfrentem as filas para tirar novos documentos.

Já tinha ouvido falar numa outra simpatia, a de São Longuinho, aquela em que você tem que dar três pulinhos acompanhados de três gritinhos, caso teu pedido seja atendido. Mas esta da "Salve Rainha" para mim foi novidade.

Vivendo e aprendendo... Se os caros leitores conhecerem outros meios, orações, simpatias ou santos para nos tirar do sufoco, por favor escrevam na área de comentários. Uma coisa boa da internet é justamente que aqui um sempre pode ajudar o outro.

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Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana

Balaio

Desacelera, Lula: 191

São Paulo, 456: 134

Um dia na vida de Zé Alencar: 104

Folha

Lula: 83

Educação: 63

Chuvas: 60

Veja (a revista não publica mais o número de comentários recebidos por matéria)

Catástrofe do Haiti

Claudio de Moura Castro

Tentativa de controle da sociedade

***

Ufa! Ainda bem que acabou... Que mês de janeiro mais trágico este de 2010 ! No momento em que escrevo, às 10 da manhã deste domingo, não chove em São Paulo, um solzinho até ameaça aparecer entre as nuvens, mas a previsão do tempo que leio nos jornais é de mais chuva hoje, amanhã, depois de amanhã. Até quando?

Vocês são testemunhas de que sempre procuro aqui no Balaio falar também de coisas boas, evitar o catastrofismo generalizado na imprensa e dar alguma esperança aos leitores a cada novo dia.

Está difícil. O ano começou com a tragédia de Angra dos Reis, que matou mais de 60 pessoas, a destruição da cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, o terromoto do Haiti, com seus quase 200 mil mortos, e atravessou janeiro com as enchentes em São Paulo, que ainda não acabaram, e matam mais gente a cada dia.

Se você abre o jornal ou liga a televisão, é só notícia ruim, desgraça, milhares de famílias que perderam parentes e as casas onde moravam, cenas de destruição e dor por toda parte.

Aqui em São Paulo, nada indica que teremos uma trégua. Ao contrário, deve ficar ainda mais difícil circular pela cidade a partir de segunda-feira, com o reinício das aulas e a volta de quem estava de férias. Não é difícil imaginar o que vai acontecer com as Marginais, ainda em obras, quando todos os carros retornarem à cidade, ainda mais se continuar chovendo.

Nada, porém, se compara ao sofrimento das centenas de famílias que ainda vivem cercadas de água e esgoto na região do Jardim Pantanal, na zona leste, desde antes do Natal. Os que sobreviveram às enchentes nas periferias de São Paulo agora vão ter que reconstruir suas vidas, mais uma vez.

Não seria o caso de a sociedade civil e o poder público lançarem uma campanha tipo "SOS São Paulo", um grande mutirão de de solidariedade, a exemplo do que foi feito em Angra, em São Luiz do Paraitinga e no Haiti? Sem querer comparar tragédias, o fato é que uma parcela cada vez maior da população de São Paulo está precisando de ajuda urgente, mas ninguém se toca, nem sabe como fazer.

Fica a sugestão. Com a palavra, sua excelência, o leitor.

Bom domingo para todos.

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Até que demorou muito. Basta acompanhar a agenda do presidente da República, com todos os compromissos e viagens pelo Brasil e pelo mundo, para saber que é humanamente impossível alguém viver sempre com o pé no acelerador, fazendo vários discursos por dia, pulando de uma cidade para outra, dormindo cada hora num lugar diferente. Uma hora, a máquina pifa.

"Estou muito cansado, mas estou bem", disse ele, ao chegar agora há pouco à sua casa, em São Bernardo do Campo, vindo do Recife, onde foi internado no final da noite desta quarta-feira com um quadro de hipertensão. Cercado pela família, que já estava à sua espera, Lula deve ficar em casa descansando hoje e amanhã. Sábado ou domingo, o presidente  fará um check-up com seu médico, o cardiologista Roberto Kalil Filho, que conversou com ele ainda no aeroporto de Congonhas.   

Em sete anos e um mês de governo, sempre a mil por hora, é quase um milagre que esta tenha sido a primeira vez em que Lula teve um problema mais sério e foi internado numa emergência, quando já estava dentro do avião, rumo a Davos, na Suiça, onde receberia o título de "Estadista Global". Lula sabe que o corpo lhe deu um aviso e que com a saúde não se brinca. Afinal, aos 64 anos, o presidente já não é um garoto, embora muitas vezes assim queira parecer.

Toda vez que os amigos lhe falam que ele poderia viajar menos, falar menos, marcar menos compromissos por dia, Lula faz que não ouve, dá um sorriso, e segue em frente, como se ainda precisasse provar alguma coisa a alguém.

O pique de viagens se acelerou este ano porque Lula quer comandar pessoalmente a campanha do seu partido e, de preferência, levar o PT à vitória, fazendo o seu sucessor, ou melhor, sucessora, custe o que custar. Quando a pressão chega a 18 por 12, é porque alguma coisa está errada, e é preciso repensar a caminhada, lembrar que a vida não é feita só de política.

Mas Lula sempre foi assim, desde os seus tempos de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, quando o conheci e ficamos amigos, faz mais de trinta anos. Quando está no meio de uma disputa, qualquer que seja, esquece de dormir e de comer, vai à luta e toca em frente, como se o destino do mundo estivesse em jogo.

Qualquer que seja o resultado das eleições de outubro, a biografia dele como presidente já está escrita. Durante as três campanhas presidenciais em que trabalhei como assessor do candidato Lula, sempre lhe dizia que o mais importante era chegar vivo ao final da campanha. E lhe lembrava o que aconteceu com Tancredo Neves, na véspera da posse que não houve.

Agora, o mais importante para Lula, é chegar ao final dos seus oito anos de governo com saúde. O que tinha que fazer, já foi feito, basta apenas administrar o resultado, como fazem os jogadores mais experientes quando a partida está chegando ao final, com o seu time ganhando.  Desacelera, te cuida, amigo.

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Atualizado às 8h50 de 28.1

Caros leitores,

viajo daqui a pouco para Belo Horizonte, onde vou participar do lançamento do projeto "Cumplicidade", do meu amigo Bernardino Furtado, jornalista dos melhores, sobre a parceria no trabalho entre duplas de repórteres e fotógrafos, com o lançamento de um livro e a inauguração de uma exposição de fotos. Volto amanhã e conto para vocês como foi.

Em tempo, às 12h30:

meu vôo foi transferido para mais tarde. Vou atualizar o Balaio agora tratando do que aconteceu com o presidente Lula.

Abraços,

Ricardo Kotscho

*** 

Tinha um amigo dele no interior de Minas, que gostava de falar nas cerimonias e solenidades, mas raramente era chamado. Mineiro matreiro, o que além de rimar chega a ser quase uma redundância, certo dia sugeriu ao prefeito, que presidia a mesa: "Me chama para falar que eu vou falar bem de você". Foi atendido.

Quem me conta a história, dando boas gargalhadas, é o empresário e político José Alencar Gomes da Silva, mais conhecido por "Zé Alencar, o vice de Lula", certamente o único homem público brasileiro hoje que pode ser considerado uma unanimidade nacional _ unanimidade a favor, claro, já que, unanimidade contra, tem um monte.

Ele se lembrou do folclórico personagem da política mineira durante nosso almoço na cantina Generali, um reduto da classe média paulistana, na rua Pamplona, que nem faz parte dos 555 melhores restaurantes paulistanos listados pelo anuário da Veja São Paulo, onde almoçamos na segunda-feira.

Zé Alencar tinha acabado de participar de duas cerimônias para comemorar o aniversário da cidade, a missa solene na Catedral da Sé e um evento na sede da prefeitura, em que o presidente Lula e o governador José Serra foram condecorados por Gilberto Kassab.

O vice não estava na lista de oradores, mas foi chamado a falar _ sem ter pedido, esclarece, ao contrário do seu amigo mineiro da história. Mas falou bem do prefeito Kassab assim mesmo.

É difícil ouvir Zé Alencar falar mal de alguém.  Quase chegando aos 80 anos, é um dos raros políticos capazes de rir de si próprio, não se levar tão a sério, nem se dar tanta importância, embora seja reverenciado, aplaudido e abraçado por onde passa, até na missa da catedral.

Na cantina lotada, toda hora vinha alguém pedir licença para lhe entregar um bilhete, dar um abraço ou apenas dizer que admira sua luta contra o câncer, que já o levou a 15 cirurgias, mas jamais o desanimou. "O Brasil precisa muito do senhor, estamos rezando pela sua saúde", é a frase que mais ouve de pessoas de todas as classes sociais, onde quer que esteja.

E o vice não esconde a emoção cada vez que seu almoço, um belo prato de macarrão com frutos do mar, é interrompido para ler um bilhete escrito no guardanapo, demonstrações de carinho e solidariedade, que vai guardando no bolso do paletó.

Estava saindo para almoçar com a minha mulher para comemorar mais um título do meu São Paulo, quando ele me ligou perguntando se não queria tomar um "golo", que é como os mineiros do interior chamam o aperitivo. Encontrei-o numa mesa no fundo da cantina, acompanhado só do seu inseparável assessor Adriano Silva (sua mulher, dona Mariza, tinha aproveitado as poucas horas em São Paulo, para ir a um shopping).

Sorriso largo, abraço forte, encontrar com ele é sempre uma alegria. Nem parece que o vice veio a São Paulo para mais uma sessão de quimioterapia  e novos exames no Hospital Sírio-Libanes, que fez na manhã desta terça-feira .

É destes exames que depende sua decisão de disputar uma cadeira no senado por Minas Gerais, um plano antecipado aqui no Balaio, no dia do aniversário do presidente Lula, em outubro do ano passado.

Zé Alencar não tem pressa para decidir, jamais se mostra ansioso por nada. "Tudo tem seu tempo certo", costuma ensinar, sem querer dar lições a ninguém. Adora contar causos da velha política mineira, mas, quando se trata dos rumos da política nacional, mais pergunta do que fala, prefere ouvir o que os outros acham.

Nestes seus bate-papos sem hora para acabar, raramente se refere às manchetes dos jornais ou à disputa política em Brasília. Emociona-se com muita facilidade, tanto ao falar da sua vida de menino, da mulher, dos filhos e dos netos _ "em fevereiro nasce minha primeira bisneta!" _, como ao contar para minha mulher cenas de um filme que viu sobre a vida de Chopin.

Cantarola trechos de músicas de Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Chico Buarque para ilustrar o que quer dizer. Poderíamos agora estar num botequim carioca ou na bodega de seu pai, onde ele começou a trabalhar muito cedo, não faria a menor diferença.

Este meu amigo Zé Alencar é o que se pode chamar de bom papo, bom sujeito, bom amigo. Passar algumas horas com ele faz bem para a alma e renova nossas esperanças no ser humano. Tivesse alguns anos a menos e alguma saúde a mais, e certamente agora ninguém estaria discutindo quem será o possível sucessor de Lula.

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E o São Paulo é campeão invicto da Copinha: 3 a 0 nos penaltis, depois de um empate de 1 a 1 no tempo normal. 

Foi tão sofrido que o choro sentido do jovem e corajoso técnico Sergio Baresi ao comemorar o título acabou sendo a melhor imagem de um futebol com garra, talento e vergonha na cara de uma molecada que não joga só por dinheiro, mas ainda tem amor à camisa. 

O garoto herói Richard pegou três penaltis, Ronieli fez um gol de placa, já no final da partida, e a torcida tricolor pode novamente sentir orgulho ao sair pela rua com a sua camisa.  

Há esperanças. Sorte de quem acordou cedo neste aniversário da cidade de São Paulo para ver um dos mais belos e emocionantes jogos de futebol dos últimos tempos. Dribles, ousadia, chutes de qualquer distância _ os dois times procurando o ataque do primeiro ao último minuto de jogo, a decisão nos penaltis, teve de tudo. A meninada do Santos e do São Paulo mostrou na final da Copa São Paulo, no Pacaembu, o melhor do nosso futebol.

O Santos saiu na frente, aos 18 minutos, com uma tabelinha que lembrou Pelé e Coutinho, entre Alan Patrick, um craque com a camisa 10, e Renan Mota, que tocou na saída do goleiro. Dirigido pelo ex-zagueiro Narciso, o Santos não recuou, continuou no ataque com um futebol rápido e liso, assustando o São Paulo, que não conseguia repetir as atuações anteriores. Em campanha memorável, o time chegou à final depois de vencer sete partidas em sete jogos, com cinco goleadas, marcar 28 gols e sofrer apenas dois.

Seria uma grande injustiça não levar pela terceira vez o caneco da Copinha para o Morumbi, mas só aos 40 minutos do segundo tempo Ronieli acertou um inacreditável chute de fora da área, empatando o jogo, ao bater de primeira no angulo, sem chances para o bom goleiro Rafael.

O São Paulo ainda teve várias chances para decidir o título no tempo normal, mas aí foi a vez do goleiro Richard defender três penaltis seguidos, mostrando que também tem condições de ser promovido para o time principal, junto com o zagueiro e capitão Bruno Uvini, o lateral esquerdo Felipe, o volnte Casemiro, os meias Marcelinho e Jefferson, os atacantes Ronieli e Lucas Gaúcho, artilheiro do campeonato com nove gols.

Mas a diretoria ainda prefere pagar uma fortuna para Washington e companhia dar caneladas na bola, e investir em jogadores no final de carreira, sem dar chance aos garotos, fazer o quê? Já escrevi aqui e repito: tem que abrir vaga logo para estes meninos no time principal, antes que eles também resolvam ir embora do Morumbi, junto com Oscar, Diogo e Lucas, outros jovens brilhantes revelados pelo São Paulo, que denunciaram o clube na Justiça.

É só trocar o time master pelo juvenil, a turma do CT de Cotia pela turma do CT da Barra Funda, com uns dois ou três reforços dos veteranos, e promover o Sergio Baresi, que ainda teremos muitas alegrias este ano. Pelo menos, poderíamos nos divertir mais, gastando bem menos.

Em tempo:

Os leitores que escreveram ao Balaio criticando uma grave omissão minha no texto acima têm toda razão. Fiquei tão empolgado com a vitória do São Paulo nos penaltis que esqueci de falar de um lance capital do jogo: a falta violenta do goleiro Richard em Renan Mota, que merecia cartão vermelho. Se ele tivesse sido expulso, como deveria, a história do jogo poderia ter sido outra. Perdão, leitores.

 

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Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana

Balaio

De onde vem tanto medo?: 356

Direita vive: 321

Futebol: como melhorar o São Paulo: 176

Folha

Haiti/Zilda Arns: 172

Direitos Humanos: 64

Eleições: 60

Veja (não publica mais o número de comentários recebidos)

Catástrofe no Haiti

Programa Nacional de Direitos Humanos

Abandono de cães no verão

***

Pois é, meus amigos paulistanos, nesta segunda-feira é dia de aniversário da nossa cidade. Vamos comemorar 456 anos. Comemorar?

Em pleno sábado, no meio do feriadão de janeiro, mês de férias, e antes das chuvas da tarde, estava difícil andar de carro em várias áreas da cidade. Não é difícil imaginar como será a partir de terça-feira, quando meio mundo volta das férias e recomeçam as aulas.

Já estávamos habituados aos problemas do trânsito nas "horas de pico", em algumas avenidas centrais, nas marginais e nos acessos às estradas, mas de uns tempos para cá não tem mais dia, hora nem lugar: São Paulo está parando todo dia, o dia todo.

Como trabalho em casa e faço quase tudo que preciso a pé, no raio de uns três ou quatro quarteirões, e raramente vejo televisão, só me dei conta do que está acontecendo ao tentar sair ou voltar à cidade nas viagens que fiz durante as férias e na volta ao trabalho.

Parece que São Paulo toda está em obras, sejam públicas ou privadas, cheia de desvios e armadilhas, caçambas e montanhas de lixo e entulho por todo lado, como se a cidade estivesse recém-saída de uma guerra ou de um terremoto.   

Nestas horas, não adianta nada ficar xingando o prefeito ou o governador, como tantos leitores fizeram esta semana ao comentar um texto que escrevi na sexta-feira sobre as dificuldades para se entrar ou sair da cidade. O fato é que São Paulo está à beira de um colapso. Apenas constato esta realidade, não fico procurando culpados passados ou presentes.

"Nem Cristo dá mais jeito nisso! Um dia vai parar tudo de uma vez", já ouvi de diferentes motoristas de táxi, mais parados do que andando, procurando atalhos, tentando levar o passageiro ao seu destino.

Nos meus 45 anos de jornalismo, acho que entrevistei todos os prefeitos que comandaram São Paulo neste período, de Faria Lima a José Serra/Gilberto Kassab, de Olavo Setubal a Luiza Erundina, de Jânio Quadros a Miguel Colassuono, de Mário Covas a Paulo Maluf, de Marta Suplicy a Reinaldo de Barros, de Figueiredo Ferraz a Celso Pitta, gente de todos os partidos e diferentes ideologias, e deles ouvi mais queixas do que soluções, revelando um profundo sentimento de impotência diante dos brutais desafios de colocar ordem no cáos.

A conta simplesmente não fecha.

Por mais que se construam casas populares, milhares e milhares de paulistanos continuam morando em condições sub-humanas em barracos ou sob os viadutos, jogados nas calçadas.

Por mais que se leve saneamento básico às periferias, falta água e o esgoto corre e céu aberto nas novas vilas e jardins que brotam todas as semanas em São Paulo.

Por mais que se construam linhas de metrô e corredores de ônibus, viadutos e novas avenidas, a cada dia fica mais difícil circular pela cidade, seja de carro ou no transporte público.

Por mais que se façam postos de saúde e escolas, continua tendo muita gente sem atendimento médico e crianças sem aulas.

Por mais que se aumentem impostos e taxas, sempre falta dinheiro para atender a demandas mínimas como fazer a limpeza e tapar os buracos das ruas.

A impressão que me dá é que o crescimento desordenado e sem fim da cidade ganhou vida própria, independentemente da vontade dos governantes ou dos moradores, como se São Paulo vivesse um processo de autofagia absolutamente fora de controle.

Não se trata de gostar ou não gostar da cidade. Eu, por exemplo, já escrevi um texto no antigo Estadão, num outro dia de aniversário da cidade, muitos anos atrás, a que dei o título "Amo esta cidade com todo ódio". Hoje, mais amo do que odeio São Paulo. Nos seis anos em que morei longe daqui, na Alemanha, em Curitiba e Brasília, senti muita saudade e só pensava em voltar logo.

Nos comentários escritos pelos leitores, notei muita intolerância e preconceitos, tanto de velhos paulistanos como de moradores de outras cidades. Aqui, meus amigos, somos todos forasteiros, filhos, netos, bisnetos de migrantes e imigrantes de toda parte do Brasil e do mundo. Apenas uns chegaram antes do que os outros e, hoje, estamos todos no mesmo barco, que está afundando a cada nova chuva.

Também não se trata de simplesmente chamar um caminhão da Lusitana e mudar de cidade, como gostariam de fazer 41% dos paulistanos ouvidos pelo Datafolha publicado neste domingo. Os mesmos problemas de São Paulo, em maiores ou menores proporções, estão chegando a todas as metrópoles do país, e nem todos se acostumariam a morar numa pequena cidade do interior sem os confortos e oportunidades da cidade grande.

Precisamos é aprender a conviver com o cáos e o barulho, como os nordestinos aprenderam a conviver com a seca _ simplificar as coisas, procurar morar o mais perto possível do trabalho, talvez ganhando menos, para ter uma qualidade de vida um pouco melhor, sem tanto stress.

Enquanto continuarem derrubando os velhos sobrados geminados geminadas para erguer novas torres com quatro vagas na garagem, como acontece na rua onde nasci, a Mateus Grou, em Pinheiros, plantando monumentais prédios residenciais e comerciais, shoppings e supermercados por todo lado, não tem jeito mesmo. Fazer o quê?

Se alguém tiver alguma brilhante idéia para evitar o colapso da cidade nesta véspera de aniversário de São Paulo, compartilhe-a, por favor, com os demais leitores aqui do Balaio.  

Da minha parte, procuro aproveitar as coisas boas que a cidade também tem, apesar de tudo. Amanhã, logo cedo, por exemplo, vou ao Pacaembu para ver mais uma final da Copa São Paulo, com o meu Tricolorzinho enfrentando a meninada do Santos. Ganhando ou perdendo, é sempre uma festa ver esta moçada jogar no velho estádio de tantas tradições e boas lembranças.

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Mais da metade dos paulistanos ouvidos pelo Ibope responderam em recente pesquisa que gostariam de deixar a cidade, se pudessem. A pesquisa foi feita e divulgada antes das últimas chuvas em São Paulo, que já mataram 59 pessoas, mais do que a tragédia de Angra dos Reis, no começo do ano, e deixaram a cidade em estado de colapso permanente.

Na quinta-feira de manhã, tentei sair de São Paulo logo cedo, junto com Hélio Campos Mello, meu colega fotógrafo e chefe da redação da revista Brasileiros. Nosso destino era Rio Claro, no sul fluminense, perto de Barra Mansa, para fazer uma reportagem sobre um heróico defensor da natureza e dos índios, o velho Nikolaus, dono do Sítio Fim da Picada.

Mas como iríamos sair de São Paulo, com as marginais inundadadas pelos nossos principais rios, que transbordaram de madrugada? Embora ele estivesse no comando de uma velha, porém possante, Land Rover, foi mais difícil encontrar um caminho de fuga do que enfrentar os obstáculos do rallye Paris-Dacar.

Tudo fechado, tudo parado, um inferno no trânsito, que o noticiário das rádios só conseguia tornar ainda mais complicado. Algo parecido o Hélio me disse que só tinha visto durante a cobertura da última guerra no Iraque.

Levamos quase duas horas para achar o acesso à rodovia Ayrton Senna, às margens do rio Tietê, que estava pela tampa, tomado pelo barro e pelo lixo. Daí para a frente, deu tudo certo na viagem e, já na manhã desta sexta-feira, pegamos o caminho de volta. O tempo havia melhorado,  não chovia mais quando chegamos a São Paulo.

Em pouco mais de três horas,  estávamos entrando novamente na marginal do Tietê, quando tudo parou, embora as águas do rio tivessem baixado e já não houvesse alagamentos. Pelo rádio, ficamos sabendo que São Paulo estava com mais de 120 quilômetros de congestionamentos, às 11 da manhã. Alternativas não havia. O jeito era se armar de paciência e tentar entender o que aconteceu com esta cidade no começo de 2010.

Será que ainda tem solução? A cada dia entram em circulação mais de 1.000 novos veículos São Paulo. Assim não há obra que chegue para melhorar o trânsito, nem evitar as inundações quase diárias, que afligem os moradores de dezenas de bairros, em todas as regiões da cidade.

Tudo bem que neste janeiro tenha chovido como nunca antes, mas não há o menor sinal de que São Pedro vá dar uma trégua, muito menos que o poder público municipal e estadual guarde na manga alguma iniciativa para pelo menos minorar o sofrimento dos paulistanos. Ao contrário, a sensação que se tem ao entrar na cidade é  de que cada um de nós está abandonado à sua própria sorte _ ou azar, sei lá.

Da entrada da cidade até a minha casa levei  metade do tempo que gastei para percorrer quase 300 quilômetros de viagem do Rio a São Paulo. Alguma coisa está errada, não sei explicar o quê. Só sei que São Paulo hoje é uma cidade onde quem está dentro não sai e quem está fora não consegue entrar. Virou uma gincana permanente.

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Atualizado às 7h40 de 21.1

Caros leitores,

viajo daqui a pouco para Rio Claro, no interior do Estado do Rio, onde vou fazer reportagem sobre uma reserva florestal para a revista Brasileiros. Volto no sábado. Até lá, o Balaio fica sem moderação nem atualização porque não consigo usar dois chapéus ao mesmo tempo. Grato pela compreensão,

Abraços,

Ricardo Kotscho 

***

"A mídia está sendo vítima de um surto de pânico: está com horror ao espelho. Berra e esperneia quando alguém menciona a organização de conferências ou debates públicos sobre meios de comunicação, imprensa, jornalismo. Apavora-se ao menor sinal de controvérsia a seu respeito, por mais úteis ou inócuas que sejam. Parece ter esquecido que o direito de ser informado é um dos direitos inalienáveis do cidadão contemporâneo. O Estado Democrático de Direito garante a liberdade de imprensa e o acesso universal à informação".

Começa assim o primoroso artigo publicado hoje por Alberto Dines, mestre de várias gerações de jornalistas brasileiros, entre os quais me incluo, sob o título "Mídia à beira de um ataque de nervos" (www.observatóriodaimprensa.com.br).

A começar pelo título, Dines resume o estado d´alma da nossa grande e velha mídia nestas últimas semanas, como se o governo federal estivesse prestes a desfechar o ataque final para acabar com a liberdade de imprensa.

Podem todos tirar o cavalinho da chuva porque não há a menor chance disto acontecer _ pelo menos, no atual governo. Quando começou o barulho provocado pelo Plano Nacional de Direitos Humanos, conversei sobre o assunto com um dos ministros mais importantes do governo Lula, que até deu risada diante dos temores expressos em editoriais delirantes.

"Controle social da mídia? Isso não existe. Até porque, é impossível, inexequível, esquece este negócio", disse-me ele, sem meias palavras.  

De fato, alguém já se perguntou como seria executado na prática este controle social da mídia? Assembléias populares reunir-se-iam em algum local secreto para discutir o que pode ou não ir ao ar ou ser impresso, puniriam em tribunais de exceção quem não respeitasse a cartilha, simplesmente fechariam jornais e emissoras se assim lhes desse na telha?

Pelo que se lê e se ouve na nossa grande imprensa nestes últimos dias, parece que este desatino está prestes a acontecer. De onde vem tanto medo? O problema todo é que a mídia não admite que ninguém sequer discuta a mídia, não aceita um debate público, ainda mais que se tenha a ousadia de propor algumas regras básicas de convívio civilizado para esta atividade, como acontece em todas as outras áreas econômicas e sociais da vida brasileira. 

Pode-se discutir tudo, propor e defender marcos regulatórios para qualquer coisa, menos para a mídia. Esta histeria começou em 2004 quando, a pedido das entidades representativas de jornalistas de todo o país, o governo encarregou o Ministério do Trabalho de discutir, junto com os representantes dos sindicatos, um projeto de lei para a criação de um Conselho Federal de Jornalismo, a exemplo dos que existem para quase todas as outras profissões.

Antes mesmo que o projeto começasse a ser discutido no Congresso Nacional, houve um massacre na mídia, com os mesmos argumentos agora apresentados: querem controlar a imprensa, acabar com a liberdade de expressão, implantar a ditadura, etc. Sem articulação parlamentar, e nem dos próprios profissionais interessados, o projeto foi retirado da pauta e não se falou mais no assunto.

No final do ano passado, o alvo foi o a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), atacada pelos mesmos baluartes da liberdade de expressão (só deles, claro), antes mesmo de começar. Como todas as outras conferências, também esta não tinha nenhum poder deliberativo, limitando-se a apresentar propostas ao Executivo e ao Legislativo, que podem ou não, futuramente, ser transformados em projetos de lei.

O mesmo aconteceu agora no começo de 2010 quando eles descobriram que a terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, a exemplo das duas primeiras do governo FHC, também tratava de propor algumas regras do jogo para os meios de comunicação, em defesa da sociedade e do que Dines chamou de "acesso universal à informação".

Gastaram-se quilômetros e horas de palavras em furibundos editoriais, blogs, colunas para atacar algo que ainda nem existe como se um novo AI-5 tivesse entrado em vigor. O mais curioso nisso tudo é que grande parte dos veículos e muitos dos profissionais, que agora bradam aos céus em defesa da liberdade de imprensa, aceitaram docemente a censura prévia imposta pelos militares em 1968, sem falar nos que abertamente apoiaram a ditadura.

Agora, todos viraram heróis da resistência, certamente nomeados por desígnios divinos, como se o Brasil não estivesse vivendo o mais longo e amplo período de liberdades públicas da última metade de século. A quem eles pensam que enganam ou assustam?

Como diria o próprio Lula, nunca antes na história deste país houve um presidente que tivesse sido tão xingado, ofendido, espezinhado, em todas as latitudes da mídia e, no entanto, o governo dele é apontado como a grande ameaça à nossa liberdade. Qual foi até hoje a mínima iniciativa concreta do governo Lula para censurar quem quer que seja?

Ao contrário do que é habitual em outros políticos que conheço, não me consta que alguma vez o presidente Lula tenha reclamado de repórteres ou pedido a cabeça deles aos donos dos veículos. Se o presidente tem queixas da imprensa, assim como a imprensa tem queixas dele, é um direito que assiste aos dois lados. Só não vale criar fantasmas para defender antigos interesses e eternos privilégios.

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Depois do vexame do São Paulo, domingo no Morumbi, perdendo de 3 a 1 da Portuguesinha em sua estréia no Campeonato Paulista, fiquei pensando numa solução boa, simples e barata para melhorar o time: é só trocar o time todo.

Mas não é o que o técnico Ricardo Gomes já anunciou, trocando seis por meia dúzia do time de veteranos para enfrentar o poderoso Mirassol na próxima quarta-feira.

Minha idéia é um pouco mais ousada: é só pegar a meninada da Copa São Paulo e entregar a camisa do time principal para disputar o Campeonato Paulista. Se der certo, basta rechear com dois ou três do elenco principal (Miranda, André Dias e Jean, por exemplo) e dá para disputar todos os campeonatos deste ano, inclusive a Libertadores, com mais chances de ganhar.

O resto pode tranquilamente ser vendido para pagar a reforma do Morumbi ou participar de algum campeonato de seniores, fazendo exibições pelo interior. Para Rogério Ceni proponho até uma estátua na entrada do Morumbi por tudo o que ele já fez pelo nosso Tricolor, mas agora chegou a hora de renovar este São Paulo velho de guerra.

Não dá mais para ver Washington dando caneladas na bola, irritando o técnico e a torcida, nem o Dagoberto dando pernadas no adversário até ser expulso.  

Para quem está acompanhando a Copinha, encantando-se com um time forte na defesa, técnico no meio de campo, rápido e ofensivo no ataque, que detona todos os adversários sem tomar conhecimento deles (5 vitórias em 5 jogos, 24 gols a favor e 1 contra), fica difícil aceitar o futebolzinho sem graça e sem garra do São Paulo titular no jogo de estréia, um sinal do que nos aguarda este ano.

O artilheiro Lucas Gaúcho, bom de bola e matador, e o meia Marcelinho (não o Paraíba, mas o garoto) dão de 10 a 0 em Washington e Dagoberto, para ficar só em dois exemplos. E ainda tem o Casemiro, o Zé Vitor, o Dener, o goleiro Richard..., não me lembro do nome de todos, mas não tem nenhum cabeça de bagre, posso garantir.

Pode pegar o pacote com o técnico Sergio Barese e tudo, e simplesmente promover todo mundo para o time principal. Não custa nada tentar. Sai de graça, e ainda teria a vantagem adicional de segurar no Morumbi os jovens craques que estão batendo às portas da Justiça para ir embora, denunciando seus contratos de gaveta.  

Já pensaram esse time da Copinha, mais Oscar, Wellington, Diogo e Lucas, outros juvenis que estavam ou estão servindo às seleções brasileiras sub alguma coisa?  Se eles tivessem uma chance no time principal, não pensariam em deixar o São Paulo, mesmo com empresários oferecendo muito dinheiro para que troquem de clube.

Deixo aqui a sugestão. Gostaria de saber o que os meus caros leitores são-paulinos pensam a respeito.

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Veja (*)

Programa Nacional de Direitos Humanos

Sérgio Guerra

O MST destrói a floresta

(*) A revista não divulga mais o número de comentários recebidos.

***

"Esse negócio de direitos humanos é só para defender direitos de bandidos e não de humanos direitos", cansei de ouvir no final dos 70 e início dos anos 1980, quando fazia parte da Comissão de Justiça e Paz, criada na Arquidiocese de São Paulo pelo cardeal Paulo Evaristo Arns, entidade que se dedicava a defender os perseguidos pela ditadura militar e a denunciar ao mundo seus atos arbitrários.

Um quarto de século depois do fim do regime dos generais, a terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, lançada pelo governo federal no final de 2009, que gerou uma enorme confusão ao ser apresentada como um projeto de política de governo,  voltamos a ouvir os mesmos argumentos que pareciam sepultados junto com as lembranças tristes dos chamados anos de chumbo.

A única consequência prática do PNDH até agora foi radicalizar o debate político e ressuscitar as viúvas da ditadura, que invadiram as áreas de comentários da internet, como pudemos constatar aqui mesmo no Balaio. Não mudou e, pelo jeito, não mudará nada, pelo menos até onde a vista alcança, na vida da maioria das pessoas que hoje vivem num país muito melhor e mais justo. 

São apenas propostas, muitas delas inexequíveis, que o Congresso Nacional pode discutir, a exemplo de tantas outras que lá já se encontram, tratando dos mesmos temas, sabe-se lá quando. Então, para quê tanto barulho?  

A direita brasileira, que parecia adormecida, restrita ao grunhir de alguns nichos da mídia, do parlamento e do agronegócio, voltou com tudo, blasfemando como se estivéssemos às portas de uma guerra civil.

De uma hora para outra, é como se estivessem ameaçadas pelo PNDH conquistas garantidas pela Constituição, como a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, o direito de propriedade, etc. Até a Lei de Anistia estaria ameaçada, o que não é verdade. Nada consta do texto que possa levar a esta conclusão.

A reação em cadeia provocada por um verdadeiro massacre na mídia, em boa parte pela descoordenação do governo ao produzir e divulgar às vésperas do Natal este texto extraído do Congresso Nacional de Direitos Humanos promovido no final de 2008, tem três origens diversas.

A daqueles que saem gritando "fogo na floresta!" toda vez que sentem seus interesses e privilégios ameaçados pela simples discussão de marcos regulatórios civilizados para suas atividades.

A dos que estavam à espreita de uma escorregada do governo para restabelecer a batalha ideológica entre esquerda e direita, e acenar com os perigos representados pelos "radicais do PT". 

Aos dois grupos ligaram-se, naturalmente, interesses político-partidários com objetivo puramente eleitoral num ano em que o país vai às urnas para escolher o sucessor de Lula.

O número dos comentários publicados esta semana sobre o assunto (fora as centenas que fui obrigado a deletar na moderação por conter ofensas e acusações graves não comprovadas contra terceiros) é uma pequena amostra do clima de Fla-Flu que nos espera quando a campanha eleitoral esquentar para valer entre os candidatos do governo e da oposição.   

A oposição encontrou finalmente uma bandeira e um discurso, oferecidos gratuitamente por setores do próprio governo, que não mediram as consequências _ e muito menos a oportunidade _ de se mexer com tantas áreas sensíveis num mesmo texto, no último ano dos dois mandatos de Lula, exatamente quando o país vive seu melhor momento dos últimos tempos.

Para se ter uma idéia do radicalismo deflagrado pelo PNDH, reproduzo abaixo mensagem enviada pela leitora Norma, às 5h57 deste domingo:

"Trata-se da reedição do AI-5 disfarçado de direitos humanos. É um projeto de poder para instituir o comunismo no país".

Nas voltas que a vida dá, de tanto ler e ouvir estas barbaridades espalhadas pela mídia, as pessoas acabam repetindo chavões dos tempos do inesquecível coronel Erasmo Dias, falecido dias atrás, símbolo da linha-dura que jogou o Brasil nas profundezas do inferno institucional, origem da luta pelos direitos humanos no país.  Tudo tem seu tempo e sua hora.

Resgatemos a verdade sobre o que aconteceu nos anos da ditadura militar, como fez o livro "Brasil Nunca Mais", trabalho do qual também participei, sem colocar em risco as conquistas da jovem democracia brasileira, finalmente pacificada, nem o futuro de uma nação que aprendeu a andar com as próprias pernas, sem tutores nem salvadores da pátria.  Vida que segue.

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