Os três assuntos mais comentados da semana

Como faço todos os domingos desde a estréia do blog, publico abaixo os três assuntos que provocaram mais comentários de leitores no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país.

Balaio:

Filme sobre Lula: 460

Preços vão baixar: 155

Livro de Audálio Dantas: 102

Folha

Visita de Ahmadinejad: 71

Cesare Battisti: 64

Artigo de César Benjamim: 40

Veja

Divinização de Lula: 73

Caso Cesare Battisti: 18

Diogo Mainardi: 8

*** 

Os convidados eram tantos que os Barreto tiveram que fretar dois ônibus para levá-los à pré-estréia de "Lula, o Filho do Brasil", nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, na região do ABC, onde o filme termina quando morre a mãe do protagonista, dona Lindu, em 1980.

O encontro para a excursão foi marcado para as quatro da tarde _ a projeção estava marcada para as oito da noite _ no apartamento de Bruno, irmão do diretor Fábio Barreto. Entre as pessoas que foram chegando, encontrei os artistas do filme, patrocinadores, empresários, os publicitários Washington Olivetto e Nizan Guanaes,  e o pessoal de cinema, incluindo minha filha Carolina e seu marido Bráulio Mantovani, roteiristas que já fizeram ou estão fazendo trabalhos para a família Barreto.

No comando de tudo, Paula Barreto, a onipresente irmã dos diretores, responsável pela produção de seus filmes. Agitado como sempre, Luiz Carlos Barreto, o pai de todos, circulava de rodinha em rodinha. Para saber o que eu achava, veio me mostrar o discurso de apenas uma página que leria à noite antes da apresentação do filme.

Pouco depois das cinco, entramos todos nos ônibus e, apesar de ser um sábado, levamos uma hora e meia para chegar a São Bernardo do Campo. Até gostei da demora porque deu para ouvir histórias engraçadas e dar boas risadas com gente que você não cruza nas esquinas todo dia.  

Apesar de toda a polêmica causada pelo filme, que só estréia nos cinemas no começo de janeiro, não ouvi ninguém discutindo os possíveis desdobramentos políticos que a exibição de "Lula, o Filho do Brasil" poderá provocar nos rumos da eleição presidencial de 2010.

Glória Pires, que faz o papel de dona Lindu, gastava seu francês castiço no celular falando com alguém em Paris, onde a família mora atualmente e onde ficaram os seus filhos com Orlando Morais, o compositor boa praça que eu não conhecia pessoalmente.

Washington Olivetto, como de hábito, só falava do seu Corinthians _ ele lança nesta segunda-feira à noite, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, mais um livro que tem por tema sua grande paixão _ e sacaneava os torcedores de outros times.

Atrás dele, feliz da vida com o resultado que já tinha visto nas telas, estava a jornalista e pesquisadora Denise Paraná, autora do livro que deu origem ao filme do mesmo nome. Em 1989, ano da primeira eleição presidencial pós-ditadura, quando nos conhecemos, e ela começou a fazer as primeiras entrevistas para o livro, nenhum de nós poderia imaginar que vinte anos depois seríamos convidados a assistir ao filme que conta a história do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Por uma ou outra razão, os convidados que chegaram à Vera Cruz nos dois ônibus pareciam todos alegres colegiais premiados com uma viagem à Disneylândia. Entramos todos em fila indiana e no caminho encontramos outros dois convidados, Carlos e Dirce Mantovani, pais de Bráulio, que moram ali perto. Carlos, metalúrgico aposentado da Mercedes, até levou sua carteira do sindicato para mostrar a Lula.

Um dos monumentais estúdios da Vera Cruz foi transformado em sala de exibição e o outro serviu de sala de espera para os mais de dois mil convidados, recebidos com pipoca, salgadinhos e refrigerantes sem gelo. Ali encontrei dezenas de personagens das minhas matérias sobre as greves dos metalúrgicos no final dos anos 1970 e levei um tempão para chegar até a área reservada aos convidados da produção, sempre com medo de me perder da minha mulher, a Mara, e da Paula Barreto, a severa chefe da excursão.

"Acho que o Brasil é o país que tem mais vips no mundo", brincou Olivetto ao encontrar meio mundo na área reservada. Eram ministros, senadores e deputados, grandes empresários, líderes sindicais da ativa e aposentados, artistas famosos _ uma seleta amostra do saco de gatos da grande aliança promovida por Lula nos seus dois governos.

Veio também boa parte da família Silva, irmãos, filhos, netos e sobrinhos de Lula, todos orgulhosos de estar ali. O mais paparicado como sempre era Frei Chico, como é conhecido o careca José Ferreira da Silva, um dos irmãos mais velhos do presidente, responsável por sua entrada na vida sindical.

O presidente Lula e Marisa chegaram logo depois da ministra Dilma Roussef, pouco depois das oito da noite, para alívio dos convidados que começaram a chegar à Vera Cruz por volta das três da tarde. Mas, antes do filme começar, ainda teve sessão de fotos de Lula e Marisa com os atores, vários discursos e um vídeo sobre a história da Vera Cruz e seus ousados planos para o futuro.  

O diretor Fábio Barreto se emocionou ao dedicar o filme a dona Lindu e arrancou as primeiras lágrimas de Lula, que passou o resto do filme chorando discretamente. Como já conhecia a história da família Silva, que o presidente gosta sempre de repetir aos amigos, e testemunhei a parte final do filme, a partir de 1978, foi como se estivesse assistindo à noite ao vídeo-tape de um jogo de futebol que já tinha assistido no estádio à tarde.

Não se trata de um documentário, evidentemente, a exemplo dos que Silvio Tendler, por exemplo, produziu sobre Jango e JK, e agora está fazendo sobre Tancredo Neves. Nem concordo que o filme de Barreto seja este melodrama todo, um filme hagiográfico, como andaram falando.

Mesmo sem ser crítico de cinema, achei que é apenas um filme muito bem feito, baseado na vida de um personagem improvável e sua saga familiar, na medida do possível fiel ao livro e aos fatos. Mas é apenas cinema, um espetáculo de entretenimento, que recomendo aos meus leitores.

Para os mais jovens, é uma boa oportunidade de conhecer os principais fatos políticos do período e saber como se formou a personalidade de Lula, que o levou a comprar muitas brigas, a criar o PT e a CUT, sem nunca deixar de negociar e compor, até chegar à Presidência da República, depois de três derrotas. Parece que ele seguiu à risca, o conselho tantas vezes repetido por dona Lindú: "Teime!".

Lula se emocionou tanto ao ver nas telas a sua própria história e a da sua família, que não atendeu ao pedido dos assessores para falar com a imprensa. Recolheu-se a uma pequena sala, onde estavam sua família e uns poucos amigos, e ainda passou algum tempo conversando com Barretão e Barretinho, que lhe falou dos problemas com a equalização do som no início da projeção.

Quase meia noite do sábado, os ônibus já tinham ido embora, mas conseguimos pegar uma carona na van providenciada por Paula Barreto para levar de volta os retardatários. Foi uma excursão bem divertida.

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Durante dois anos, o jornalista Audálio Dantas esperou para conseguir marcar um encontro com o presidente Lula. Era para escrever mais um livro da série que retrata a infância de brasileiros vitoriosos.  Audálio queria que Lula lhe contasse como foi a sua vida de menino, assim como já havia feito com os livros sobre Graciliano Ramos, Ziraldo, Maurício de Sousa e Ruth Rocha.

Agora tem gente besta escrevendo, sem saber do que fala, que Audálio pretende pegar uma carona no filme de Fábio Barreto, "Lula, o Filho do Brasil",  que, por mera coincidência,  terá pré-lançamento no mesmo dia à tarde nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, com a presença do presidente e da sua família. 

Nem Audálio, um dos mais mais respeitados e premiados jornalistas brasileiros da sua geração, precisa pegar carona em filme, nem o presidente Lula precisa de filme para se transformar em mito e ganhar votos. Escreve-se muita bobagem, mas deixa pra lá. 

Valeu a pena esperar o livro de Audálio, como os leitores poderão conferir neste sábado de manhã, a partir das 11 horas, na Livraria da Vila (alameda Lorena, 1.731), local do lançamento de "O menino Lula" (Ediouro).  

Além do jornalista escritor alagoano, estará lá também Jeronimo Soares, para autografar reproduções das suas xilogravuras que ilustram o livro. Começou na arte ainda menino, com 12 anos, ilustrando os livros do pai, José Soares.

Paraibano de Esperança, 65 anos, é um pouco mais jovem do que Audálio e um ano mais velho do que o presidente Lula. Sobre ele escreveu Jorge Amado:

"É um dos mais notáveis gravadores populares do Brasil. As suas gravuras refletem a identidade do artista com a vida sofrida e a imaginação invencível do povo".

O mesmo se poderia dizer do meu cada vez mais velho e mais amigo Audálio Ferreira Dantas. Foi o que fiz quando ele me honrou com o convite para para escrever o prefácio do livro, que segue reproduzido abaixo:

O menino de Tanque D´Arca

e o menino de Caetés

         Os dois saíram meninos lá das profundas dos sertões nordestinos e percorreram trajetórias de vida improváveis, se a gente for olhar de onde partiram e aonde chegaram.

         Audálio saiu de Tanque D´Arca, nas Alagoas, e faz mais de meio século está na lista dos melhores jornalistas brasileiros, além de ser respeitado escritor.

         Luiz Inácio, o Lula, pegou um pau-de-arara, deixou para trás Caetés, antigo distrito de Garanhuns, em Pernambuco, e está terminando seu segundo mandato de presidente da República com os maiores índices de popularidade da história republicana.

          Dos encontros e conversas entre os dois no Palácio do Planalto nasceu este pequeno livro que fala da infância meio trágica, meio aventurosa, às vezes até engraçada do menino pobre de dar dó que virou presidente.

         Por suas origens comuns, filhos da mesma terra seca, só mesmo o menino Audálio, que tem idade para ser seu pai, poderia contar, com sua alma nordestina e maestria de prosador sertanejo, a história do menino Lula.

         Afinal, os dois cresceram na mesma paisagem, conviveram com os mesmos personagens, enfrentaram as mesmas dificuldades para chegar até onde chegaram. As condições de vida eram diferentes, mas o cenário em que viveram era mais ou menos o mesmo.

         A comovente história de retirantes da família Silva, igual a tantas milhões de outras empurradas Brasil abaixo pela seca e pela ausência de perspectivas, em meados do século passado, encontra em Audálio Dantas não só um narrador correto, mas um cabra que sabe do que está escrevendo.

         Tanto a abertura como o final do texto deste livro são verdadeiras obras primas de beleza, estilo e síntese _ sem muitos adjetivos, sem pieguice, deixando a história correr.

         Para quem não conhece o Brasil e seu presidente, “O Menino Lula” pode parecer ficção, mais um romance fantástico de Gabriel Garcia Marquez. Mas posso garantir a vocês que é tudo verdade. Mil vezes já ouvi Lula contar as mesmas histórias, sempre do mesmo jeito. E Audálio foi absolutamente fiel a elas.

        Ao ler algumas cenas deste livro era como se me lembrasse do Lula contando.

         Do espanto da jumenta que o agarrou com os dentes e não o queria soltar.

         Da doença dos olhos que o irritava e só conseguiu curar recentemente, já em Brasília.

         Do mulungu que continuava em pé quando fui a primeira vez com ele a Caetés, em 1989.

         Do susto na irmã Maria e a volta repentina ao sertão do pai que havia sumido.

         Da carta do irmão Jaime para a mãe e a partida da família toda para São Paulo.

         De Lula e Ziza, o Frei Chico, se aliviando no mato, durante uma parada do caminhão, e quase perdendo o pau-de-arara.

         Do pai lendo o jornal de cabeça para baixo na balsa do Guarujá e do sorvete que ele lhe recusou.

Do primeiro carinho do pai quando Lula se machucou com um facão.

         Do sonho de ser motorista do caminhão amarelo.

         Da surra de mangueira do pai no irmão e da mãe decidindo o destino dos filhos com a mudança para São Paulo.

         Da alegria de vestir o primeiro paletó.

        Este livro é uma prova de que, querendo, tudo é possível. Até mesmo mudar o nosso próprio destino.

          Ricardo Kotscho

         Outubro de 2009

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De uns tempos para cá, o São Paulo vinha perdendo todas de goleada nos tribunais da CBF _ não por acaso, comandados por cartolas cariocas. Mesmo assim, tropeçando aqui e ali, manteve-se na liderança isolada do Brasileirão, um ponto apenas à frente do Flamengo, o clube que quase todo o establishment do futebol queria ver campeão pelos mais diferentes motivos.

Pois na tarde desta quinta feira, quando o jogo no tapetão já parecia perdido, o São Paulo conquistou, de virada, duas belas vitórias. 

Jean, o melhor jogador do time neste campeonato, que estava injustamente suspenso por três jogos, e já havia cumprido dois, pode voltar no domingo contra o Goiás, em Goiânia.

E o Morumbi, que estava vetado, foi liberado para a torcida poder ver de perto o último jogo do São Paulo, contra o Sport, agora muito provavelmente aquele que será o da conquista do inédito tetra/hepta do tricolor.

Agora, quem segura? Demos todas as chances aos outros times, jogamos mal a maior parte do campeonato, perdemos gols feitos e tomamos gols de bobeira, nos fingimos de mortos _ e olha nós lá de novo, chegando na frente. Somos conhecidos como o clube da fé, mas vai ter fé assim naquele lugar. Nem eu, confesso, e vocês sabem, acreditava mais nisso.

Ao liberar o Jean e o Morumbi, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva reunido no Rio fez o que deveria fazer: Justiça. O Brasileirão agora volta a ser decidido dentro de campo, apenas _ melhor ainda, dentro do nosso campo.

Sei que quem não gosta do Ssão Paulo, ou seja, os torcedores de todos os outros times, que não aguentam mais ver o tricolor campeão, vão entrar aqui matando, me xingando daquelas bobagens de sempre, mas não adianta. Quando ninguém mais acreditava, comendo pelas beiradas, nós chegamos lá. Agora, só depende de nós. 

Até o Belluzzo, o neocartola patético do Palmeiras, um homem cordial e inteligente que perdeu a noção,  já descobriu que ninguém vai ganhar no grito nem ofendendo os adversários. Agora, é o jogo jogado, meus amigos. É só na bola.

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Boa notícia para as donas de casa e o povo em geral: fiquei sabendo de fonte bastante confiável que no começo do próximo ano vão baixar os preços do gás de cozinha e do material escolar.

O governo estuda reduzir os impostos destes produtos como já fez com tantos outros, como os carros e a chamada linha branca. Hoje mesmo os jornais informam que o governo prorrogou até o final de março a redução do IPI dos carros flex.

Estas notícias chegam em boa hora porque este ano, apesar da crise da marolinha e da redução de impostos, a carga tributária bateu mais um recorde: chegou a 36,5% do PIB. Ou seja, mais de um terço do que pagamos nas lojas vai para o Tesouro Nacional por conta dos impostos.

Em 2009, segundo o jornal Brasil Econômico, uma nova publicação muito bem feita,aliás,  "a arrecadação federal foi impactada negativamente pelo pacote de incentivos fiscais de R$ 21,6 bilhões até outubro, concedidos a vários setores da economia em razão da crise".

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Atualizado às 12:17

Caros leitores,

viajo de novo daqui a pouco para fazer uma palestra. Por isso, só vou poder moderar os comentários à noite, se conseguir. De preferencia, depois da vitória do meu tricolor... Volto amanhã à tarde.

Abraços,

Ricardo Kotscho

Em tempo: o São Paulo acaba de perder do Botafogo por 3 a 2, no finalzinho do jogo. Fiquei triste, claro,  porque este jogo poderia ter sido o do título, se aquelas duas bolas na trave tivessem entrado... Mas não tem "se" em futebol. Agora tudo conspira a favor do Flamengo.  E o Botafogo, pela luta do começo ao fim, acabou merecendo a vitória.  Vida que segue.

Em tempo 2: o Flamengo bobeou, empatou em 0 a 0 com o Goiás, e o São Paulo continua líder absoluto do campeonato.  Estamos a dois jogos do tetra/hepta. Há muito tempo não tínhamos um final de Brasileirão tão emocionante. Agora seja o que Deus quiser.

***

Os assuntos mais comentados da semana

Balaio

Humildade e humor: 82

Foz do Iguaçu, 39 graus: 35

Futebol: 35

Folha

Cesare Battisti: 98

Apagão: 69

Lula: 65

Veja

Caso Geisy arruda: 27

Apagão do governo Lula: 22

Enade com propaganda do governo: 15

***

O filme brasileiro mais badalado do ano só estréia nos cinemas no começo do ano que vem. Muito poucos o viram até agora. Mas "Lula, o Filho do Brasil"  já deve ser o filme mais lido do cinema brasileiro.

Há meses, jornais, revistas e portais de internet escrevem todo dia quilômetros de textos para falar do filme _ falando bem ou mal, não importa. Todo mundo acha que tem a obrigação de escrever sobre o filme. Nas cartas e comentários de leitores que ainda não viram o filme de Fábio Barreto, também não tem meio termo: Lula sempre desperta amor e ódio na mesma medida, qualquer que seja o enredo.

Já que é assim, também resolvi hoje escrever sobre o assunto, embora só vá assistí-lo no próximo sábado, em São Bernardo do Campo, graças a um convite que recebi dos produtores _ entre eles, meu velho e bom amigo Roberto d´Ávila.

"Lula, o mito, a fita e os fatos" é a capa da Veja desta semana. Mostra Lula com cara de bravo e o ator que o interpreta no filme fazendo um inflamado discurso do tempo em que o hoje presidente era líder metalúrgico.

A chamada de capa já resume o que a revista julga a respeito: "Pago por empresas privadas com interesses no governo, o filme sobre a vida do presidente é um melodrama que depura a sua biografia, endeusa o político e servirá de propaganda em 2010".

Será mesmo? A esta altura, o que menos interessa é a obra cinematográfica _ a direção, o roteiro, a fotografia, os atores _, mas o uso que se fará dele no ano da eleição presidencial, embora o filme termine antes de Lula iniciar sua carreira política.

Tenho para mim, e até adversários severos de Lula concordam, que o mito já está criado faz tempo, e o filme dificilmente terá o poder de mudar o que os brasileiros pensam a respeito deste personagem improvável na cena política brasileira.

Como tudo virou um Fla-Flu no Brasil quando se trata de governo e oposição, acho difícil alguém mudar sua opinião sobre Lula _ e mais ainda sobre a sua candidata Dilma Roussef_ só porque uma ou outra cena não corresponde exatamente à vida real, assim como ninguém vai mudar de time por causa de um artigo de revista ou jornal.

E os leitores do Balaio, o que pensam sobre o filme que ainda não viram?

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FOZ DO IGUAÇU (PR) _ Final de tarde de quinta-feira. Cheguei agora ao hotel, depois de passar o dia todo viajando pelo lado brasileiro da Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai, às margens do marzão de Itaipu. No rádio do carro, o locutor da Rádio Mundial, que transmite em portunhol e mistura música sertaneja, com guarânias e vanerões, informa que os termometros marcam 39 graus.

Parece muito mais. Há tempos não sentia tanto calor em nenhum lugar do Brasil. Apesar de cercado de água e matas por todos os lados, com as Cataratas do Iguaçu no meio, não bate uma brisa,  as árvores parecem estátuas. Por uma dessas ironias do destino, vim parar aqui exatamente para acompanhar o 6º Encontro Cultivando Água Boa, uma pajelança que reúne 4.300 participantes em torno das discussões sobre as práticas ambientais que podem impedir o tal aquecimento do planeta.

Vocês podem imaginar o que é esta multidão reunida no auditório fechado de um hotel na entrada da cidade, com faixas e bandeiras, dançando e cantando na festa de abertura do evento promovido pela Itaipu Binacional e por outras 30 empresas e instituições. Veio gente de todo canto, em sua maioria agricultores, pescadores e índios dos 29 municípios da região beneficiados pelo Programa Cultivando Água Boa, mas também especialistas e pesquisadores de outras partes do país e do exterior.

Logo cedo saí a campo para fazer uma reportagem para a revista Brasileiros de dezembro sobre como anda a vida das pessoas que vivem às margens do marzão represado do rio Paraná, e ver o que mudou com a criação de 70 microbacias e o reflorestamento das nascentes dos rios e das sangas, como por aqui chamam os corregos, que desaguam no reservatório.

Tive a sorte de ser acompanhado por um guia que conhece a história toda desde o começo da obra. O técnico gaúcho Romualdo Barth, 54 anos, começou em Itaipu como segurança e passou pelas mais diferentes funções até se tornar um dos nove gestores de microbacias do Programa Cultivando Água Boa, criado em 2003.

Barth conhece a vida de cada um dos 508 proprietários da área de Itaipulândia, um bem cuidado, calmo e limpo município de oito mil habitantes, que não existia quando a hidrelétrica começou a ser construída. Levou-me à casa de dois deles, o Arruda e o Silvestre, dois personagens fantásticos que deixam qualquer um feliz ao ouvir as suas histórias.

São pessoas que passaram por muitas dificuldades na vida, mas aproveitaram a oportunidade que apareceu quando começaram a receber assistência técnica para implantar a agricultura orgânica, caso de Arruda, ou de se tornar pioneiros na criação da microbacia da sanga do Buriti, como aconteceu com Silvestre, que cedeu parte da sua terra para a criação de uma mata ciliar e da abertura de uma estrada para evitar a erosão, antiga praga por estas bandas que até recentemente ameaçava assorear o reservatório.

"Eu perdi uma parte da propriedade, ou melhor, ganhei, porque amanhã, de repente, tem alguém que vai me agradecer. Nunca vou morrer de fome e agora vivo melhor. Até os passarinhos e os peixes voltaram...", contou-me  Wilson Francisco Silvestre, 54 anos, três filhos e dois netos, que ainda mora numa daquelas antigas casas de madeira do interior paraneanse, mas tem dois aviários com mais de 30 mil frangos, plantações de fumo, soja e milho, um carro e uma moto na garagem, e vê os netos quase todo dia pela webcam da internet.

Os sinos da catedral anunciam que é a hora da Ave Maria e me lembram que daqui a pouco vai sair o passeio de catamarã no grande lago de Itaipu, que eu vi ser formado em apenas duas semanas de 1982, quando vim fazer uma reportagem para o Estadão. Nada melhor para encarar a noite também quente nestes fundões do oeste brasileiro. 

Stress? Mau humor? Desânimo? Recomendo aos leitores dar uma chegada por aqui qualquer dia desses para conhecer outras paisagens e brasileiros do tipo de Arruda e Silvestre, e descobrir como a gente perde tempo com tanta bobagem, sem desconfiar que outra vida é possível.

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Atualizado às 9:15 de quinta-feira

Pessoal,

embarco daqui a pouco para Foz do Iguaçu, no Paraná, onde vou fazer uma reportagem para a revista Brasileiros. De lá de Foz, onde fico até sábado, vou atualizar o Balaio e fazer a moderação de comentários na medida do possível.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

De vez em quando, faz bem sair de circulação, nem que seja por pouco tempo. Nas 48 horas que passei em retiro espiritual, sem notebook nem celular, com meus colegas de Grupo de Oração, durante o último fim de semana, numa pousada em Tremembé, no interior de São Paulo, o tema que discutimos foi a alegria de viver.

Nosso grupo, que já completou 30 anos, tem gente de variadas idades, religiões, profissões e experiências, sobrevive sem regras, estatutos ou compromissos. O que nos une é apenas a vontade comum de refletir sobre os rumos da nossa caminhada pela vida.

Como em todos os retiros, cada um de nós leva textos para ajudar nesta reflexão. Trouxe para compartilhar com vocês um destes textos: "Humildade e humor como características da existência cristã", quarto capítulo do livro "Espiritualidade a partir de si mesmo" (Editora Vozes, 2004), de Anselm Grün e Meinrad Dufner, dois beneditinos que vivem na Alemanha.

Pessoas muito alegres não são necessariamente felizes _ e vice-versa. Grün e Dufner nos ajudam a entender a diferença entre estes dois sentimentos _ a alegria, voltada para fora, e a felicidade, para o consumo interno. Uma passagem, que está na página 113 do livro, nos indica os caminhos:

Uma espiritualidade que se deixa orientar pela humildade não faz de nós pessoas que se diminuem artificialmente, que pedem desculpas pelo fato de estar no mundo. Pelo contrário, a humildade leva à verdade interior, à despreocupação e ao bom humor. No humor está presente a antevisão de que tudo pode existir em nós, de que somos feitos de barro e que, por isso, não podemos nos espantar com nada que é terreno.

O humor é estarmos reconciliados com nossa condição humana, com nossa condição terrena, com nossa fragilidade. No humor está presente a aceitação de mim assim como eu sou.

Outro autor, Henrich Lützeler, citado pelos beneditinos alemães, acha que o humor tem a ver com o desmascarar a realidade:

As figuras mais importantes do humorismo _ por exemplo, Aristófanes, Shakespeare, Cervantes, Molière _ eram pessoas realistas, e nada do que faz parte do homem lhes era estranho. Por trás de mil disfarces, por trás de resplendentes bastidores e de palavras altissonantes, eles infalivelmente apanhavam o que existe de mais humano.

No humor, reencontramos a reta medida de nós mesmos e nos libertamos por inteiro do emocionalismo em que tanto gostamos de nos sentir os tais.

De todas as formas de humor, a mais simples para alcançarmos a felicidade que, ao final das contas, é o objetivo primeiro e último de todos nós nesta terra do bom Deus é, a meu ver, a autoironia ou autogozação, como queiram. É a capacidade que temos de rir de nós mesmos, brincar com nossos defeitos, em vez de sofrer com eles.

Penso que existe a boa humildade, que é altiva na alegria, por conhecermos nossos limites e não querermos ser mais do que somos, satisfeitos com o que temos. E tem a humildade ruim, que é servil e triste. A este respeito escrevem Grün e Meinrad:

Nós entendemos a humildade antes de tudo como uma atitude religiosa, não haveremos então de associar-lhe idéias negativas, como "dobrar o espinhaço", rastejar, fugir às exigências da vida, um secreto egoísmo disfarçado de falsa modéstia.

Claro que a alegria e a felicidade jamais serão sentimentos permanentes e imutáveis, por mais que procuremos cultivá-los para o nosso próprio bem e o de quem conosco convive _ exatamente porque dependemos também do humor dos outros e das circunstâncias que nos cercam a cada momento.

Entre a vida idealizada dos retiros e a vida real do nosso dia a dia, a felicidade é uma busca permanente, que depende de um conjunto de fatos concretos e não se subordina apenas a nossos desejos.

Por exemplo: fui informado agora há pouco dos resultados de exames que faço todo ano desde que os médicos me extirparam a tireoide (havia suspeita de câncer, felizmente não confirmada). Trata-se de uma pequena glândula localizada ao pé do pescoço, que controla o metabolismo do corpo e regula orgãos como o coração, o cérebro, o fígado e os rins.

Por isso, tenho que tomar pelo resto da vida um comprimido de remédio todo dia logo ao acordar. Nas raríssimas vezes em que me esqueço de fazê-lo, com o passar das horas do dia vou perdendo as forças e o humor, como uma lâmpada que vai ficando mais fraca com a queda de voltagem.

Desta vez, os exames mostraram alterações graves em relação aos exames anteriores. Minha médica imediatamente aumentou a dosagem do remédio que tomarei a partir de amanhã, mas o simples fato de saber do problema já alterou meu humor, é claro.  

Entre as belas reflexões do nosso retiro e a dura verdade científica, a alma e o corpo balançam. Nosso grande desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os exames médicos e a prática da espiritualidade.

   

 

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Os assuntos mais comentados da semana

Como faço todos os domingos, publico abaixo a relação dos três temas que receberam na última semana o maior número de comentários dos leitores, aqui no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

Porque ficamos no escuro: 276

Palmeiras ladeira abaixo: 221

Estilos de Lula e Serra: 117

Folha

Caso Geisy/Uniban: 302

Apagão: 195

Lula: 55

Veja

Vocações: 39

Especial Brasília 50 anos: 26

Políticos transgressores: 20

***

Aos leitores: alguns de voces estranharam minha ausência nos últimos dias, imaginando coisas, como aconteceu na noite do apagão. Deixei de atualizar o post e moderar comentários porque na sexta-feira preparei almoço para uma ilustre amiga aqui em casa e, em seguida, viajei para o retiro espiritual que faço duas vezes por ano. Apenas esqueci de avisar vocês, como costumo fazer.

***

E vamos falar de futebol, que hoje é domingo, e o meu São Paulo terminou a rodada como líder absoluto, dois pontos à frente do Flamengo e três do Palmeiras.

Como escrevi aqui dias atrás, o São Paulo demorou a pegar o osso, chegou à liderança apenas na reta final do campeonato, mas agora vai ser difícil arrancá-lo dele, a exemplo do que aconteceu nos três anos anteriores  em que chegou ao título.

Assim como o São Paulo, que cresceu quando já ninguém mais esperava, também o Flamengo embalou na hora da onça beber água, e agora é o que mais ameaça a conquista do tetra consecutivo e do heptacampeonato brasileiro.

Os São Paulo e Flamengo ganharam pelo mesmo placar _ 2 a 0, contra o Vitória e o Náutico respectivamente _, lotando estádios e empolgando suas torcidas.

Enquanto isso, o Palmeiras que esteve na frente durante quase todo o campeonato, cai agora para o terceiro lugar, depois de empatar no meio da semana com o já rebaixado Sport, jogando em casa, e o Atético Mineiro, outro concorrente direto ao título, caía diante do Coritiba.

Ricardo Gomes, no São Paulo, e o eterno interino Andrade, no Flamengo, assumiram seus times sem muita confiança das suas torcidas. Mas, com os mesmos elencos que receberam, sem fazer mágicas, tiraram seus times lá do fundo da tabela e foram subindo aos poucos, até chegar ao topo.

Vi o jogo do São Paulo contra o Vitória, sábado à noite, no Morumbi. Depois de muito tempo, deu para vibrar com as belas jogadas do time, que dominou o jogo de ponta a ponta, sem ter que sofrer os 90 minutos como aconteceu antes nas magras vitórias que nos levaram à liderança.

Agora, só dependemos de nós. Os três adversários que faltam para botarmos a mão em mais uma taça, são bem fraquinhos _ Botafogo, Goiás e Sport _ e, se o São Paulo conseguir controlar os nervos, jogando só para o gasto, já dá para pensar em mais uma conquista inédita, quatro vezes seguidas campeão brasileiro.

Já andaram até botando à venda camisas com o 7-4-4, e tem gente propondo que em 2010 o São Paulo tire um ano sabático para dar chance aos outros, o que pode dar azar. Do jeito que as coisas andam, porém, o mais provável hoje é que o time do pé quente Juvenal Juvêncio conquiste o Brasileirão de 2009.

Este ano, o São Paulo mais uma vez começou mal, demitiu o técnico, contratou outro sem perfil de ganhador, esteve perto da zona de rebaixamento. Como não apareceu nenhum outro grande time, de repente, olha lá o Tricolor, chegando outra vez. Este ano, como a maioria dos torcedores que conheço, nem eu esperava por isso. Foi uma bela surpresa. Falta pouco.

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Nada como um dia após o outro, com uma noite no meio. Ladeira abaixo, o Palmeiras colocou toda a culpa da sua derrota de domingo contra o Fluminense, por 1 a 0,  no juiz Carlos Eugenio Simon, que anulou um gol legítimo de Obina logo no começo do jogo. Massacrou o pobre do juiz, ameaçou processá-lo, só faltou pedir à torcida seu linchamento em praça pública. Vão pedir desculpas agora?

Pois apenas três dias e três noites depois, por muito pouco o Palmeiras não foi derrotado pelo lanterna Sport em pleno Parque Antártica, graças ao juiz goiano Elmo Alves Resende Costa, que anulou e depois confirmou um gol de Danilo, já no final da partida, quando o time perdia por 2 a 1 e era vaiado pela torcida.

Que me perdoe o amigo Muricy, mas o Palmeiras desta reta final está lembrando muito o São Paulo mambembe do início do Campeonato Brasileiro, quando o time estava jogando pedrinhas e caindo na tabela, já à beira da zona de rebaixamento, quando Muricy foi demitido.

Sorte nossa que o Muricy foi para o Palmeiras, que era o líder do campeonato. Agora que chegou a hora da onça beber água, o São Paulo chegou pela primeira vez à liderança, mesmo sem jogar o fino da bola, mas mostrando um time aguerrido e coeso, montado por Ricardo Gomes, com o mesmo elenco que herdou de Muricy.

A verdade é que o Palmeiras perdeu o rumo na hora decisiva, depois de liderar o campeonato por 17 rodadas. No primeiro tempo do jogo desta quarta-feira à noite, os dois times pareciam de camisas trocadas. Bem postado em campo, trocando passes raídos, fulminante nos contra-ataques, era o lanterna Sport quem dava um passeio em campo e parecia disputar o título, enquanto o líder Palmeiras parecia lutar bravamente para não cair.

Até estava evitando falar de futebol aqui no Balaio para não tripudiar sobre Muricy e meus amigos e parentes palmeirenses. Mas agora não tem jeito de não reconhecer que eu estava errado ao jogar a toalha já na metade do primeiro turno, desdenhar de Ricardo Gomes e escrever que este ano o São Paulo não seria tetra consecutivo (ou hepta, como queiram). Quem, pelo jeito, não vai mais conquistar este título inédito é Muricy Ramalho, tricampeão pelo São Paulo.

O São Paulo voltou a ser o grande favorito para ganhar mais um título brasileiro, como já previu na segunda-feira o amigo Milton Neves, aqui mesmo no iG. A principal ameaça no nosso caminho para que isso aconteça é, a meu ver, o Flamengo de Andrade e Petkovic, um time que embalou na reta final, ao contrário do que está acontecendo com o Palmeiras.

Nada está decidindo ainda. Mas, daqui para a frente, o Palmeiras vai ter que rebolar e  suar mais a camisa para ficar ao menos no G-4, de onde poderá sair já neste final de semana. Sábado, o São Paulo pega o Vitória no Morumbi e, com o mesmo número de jogos (tem um a menos hoje) , poderá abrir três pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Quando isso acontece, o São Paulo não costuma mais largar o osso.

Na Casa do Saber

Estarei nesta noite de quinta-feira, a partir das 20 horas, na Casa do Saber, participando do ciclo denominado "Grandes Jornalistas" (agradeço a parte que me toca, mas acho um exagero...).

O encontro faz parte de um curso que já apresentou Otavio Frias Filho e Joyce Pascovitch. Ainda estão programados  Alberto Dines (19/11) e Juca Kfouri (24/11).

Na apresentação do encontro, a Casa do Saber explica a iniciativa:

"Neste curso, alguns dos maiores expoentes do jornalismo brasileiro dão depoimentos sobre suas trajetórias pessoais e profissionais. Os jornalistas convidados se tornaram referências para a história da atividade e continuam exercendo influência em suas áreas de atuação até hoje, para além dos limites de um ou outro veículo. Entrevistados por Mario Vitor Santos, jornalista e diretor da Casa do Saber, serão questionados sobre hábitos, formas de trabalho, grandes reportagens, furos e sobre projetos jornalísticos que realizaram e realizam ainda. Os depoimentos do curso formarão um painel de aspectos da comunicação jornalística atual. Tratarão também dos impasses e desafios impostos ao jornalismo pelas mudanças sócio-econômicas, o advento da comunicação virtual e o polêmico fim da exigência do diploma para exercer a profissão".

Endereço da Casa do Saber: rua Mario Ferraz, 414, no Itaim, em São Paulo.

Fone: 3707 8900

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A exemplo do que deve ter acontecido em milhões de casas de brasileiros de 12 Estados e do Distrito Federal, quando tudo apagou e o mundo escureceu, às 22:15 desta terça-feira, começamos a ligar para os parentes mais próximos querendo saber onde cada um estava, com a inevitável pergunta: o que será que aconteceu?

Eu também queria saber. Nestas horas, todo mundo corre para a internet, mas demorou para que aparecessem as primeiras informações, ainda truncadas. Choveram palpites de todo lado. Lembrei-me então de um velho amigo, o Jorge Samek, que poderia ter a resposta mais correta. Tenho seu celular, mas achei que seria impossível falar com ele nesta hora.

Tentei a primeira vez, não consegui. Na segunda tentativa, pouco antes das 11 da noite, o próprio atendeu. "Alô, Samek, o que aconteceu?", fui logo perguntando, sem mesmo dar-lhe boa noite. Solícito como sempre, ele me deu as informações mais importantes que eu precisava, que imeditamente repassei à redação do iG.

Jorge Samek, como agora todos sabem, vem a ser o presidente da Itaipu Binacional, cargo que ocupa desde o início do governo Lula. No olho do furacão, à frente da maior empresa de geração de energia do continente, o amigo parecia mais tranquilo do que eu poderia imaginar.

Em resumo, ele me contou que as cinco linhas de transmissão de Furnas foram saindo do ar num efeito dominó, o que desligou automaticamente as 20 turbinas de Itaipu, que geram 14 mil megawatts. Sem ter a quem entregar a energia gerada, as turbinas simplesmente pararam de produzir.

Já naquele momento, ele me disse que ventos ou raios devem ter provocado danos em alguma linha de transmissão e, como o sistema é interligado, uma após outra elas deixaram de levar a energia de Itaipu para boa parte do país. Mais não lhe perguntei para não atrapalhar seu trabalho.

Enquanto eu falava com ele, minha mulher foi repassando as informações para as filhas. Em seguida, liguei para a chefia da redação. Como a bateria do celular já estava acabando, nada mais me restava fazer a não ser ir dormir com a boa sensação do dever cumprido, sabendo o que aconteceu. Foi mais um dia ganho honestamente, como costumo dizer à minha mulher ao final de cada jornada.

De manhã, ao acordar, a luz já tinha voltado,  tudo funcionava normalmente aqui em casa e, penso, no resto do país. O susto foi grande, mas as soluções seriam logo encontradas, antes que a urubuzada saísse da toca para festejar mais uma crise do fim do mundo.

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