Pessoal,

só agora, mais de dez da noite de quinta-feira, arrumei um tempinho pra moderar os comentários. Como conto no texto abaixo, estou de mudança, com a vida de pernas pro ar. Mas logo tudo volta ao normal. Até sábado, espero encontrar um canto arrumado na casa nova para atualizar este blog. Enquanto isso, voces poderiam contar como foram as mudanças de casa na vida de cada um, a exemplo do que vários leitores já fizeram com belos depoimentos.

Abraços,

Ricardo Kotscho

Tem gente que não gosta de mudar de casa porque dá muito trabalho tirar tudo das estantes, das paredes e dos armários, coisas que a gente fica guardando e nem lembra, separando o que fica e o que vai para o lixo, mas estou gostando muito destes dias de arrumação geral.

Até que fiz poucas mudanças de casa na minha vida adulta. Quando casei, fui morar literalmente no Paraíso (é o nome de um bairro aqui de São Paulo). De lá a família mudou para Bonn, na então Alemanha Ocidental (havia ainda duas Alemanhas), onde fui correspondente do Jornal do Brasil e assim conheci a Europa dos meus pais fazendo reportagens.

Voltamos para morar no Butantã, e lá passamos trinta belos anos no casarão que construímos (tinha até horta, pomar e galinheiro no tempo em que as filhas eram pequenas).

Esta semana chegou a hora de mudar de novo. Em 2005, um ciclo da vida tinha se encerrado. Com a morte de minha mãe, colocamos a casa à venda e fomos morar provisoriamente num apartamento alugado no Jardim Paulista, onde tinha passado parte da infância e agora viviam minhas duas filhas, a poucas quadras de distância.   

A idéia era ficar por aqui mesmo, um pedaço de São Paulo em que ainda dá para fazer quase tudo a pé, como numa cidade do interior, mas demorou bem mais do que a gente esperava para conseguirmos vender a casa e mais ainda comprarmos um apartamento do nosso gosto.    

Achamos no final do ano passado um bem pertinho de onde moramos. Estava meio detonado, pedindo uma reforma geral, coisa que me apavora, mas minha mulher gosta. Por coincidência, o jovem que cuidou da obra, logo descobrimos, era filho do engenheiro que tinha construído a nossa casa.

Ficou tudo uma beleza, do jeito que a gente queria. Como o novo fica a uma apenas quadra do apartamento velho, pela primeira vez pude acompanhar o dia a dia de uma obra e até dar uns palpites. Dizem que reforma dá até separação de casal, mas no nosso caso foi um belo trabalho de parceria, nos entendemos bem até nos mínimos detalhes.

Agora, que já está tudo encaixotado, só esperando o caminhão da mudança, marcado para sexta-feira, fico olhando para as paredes e estantes vazias do escritório.

Lá se vão para a casa nova, que espero seja a última, milhares de fotografias e filmes, o convite de casamento dos meus pais (em 1945, bem quando a guerra tinha acabado de acabar, oferecendo um café da manhã após a cerimônia), os originais dos meus 19 livros, recortes das mais de três mil reportagens que já escrevi, crachás de empresas e das coberturas que fiz pelo mundo inteiro (entre elas, as da morte de dois Papas e duas Copas do Mundo, passando pela Campanha das Diretas, corridas de Fórmula-1, eleições aqui e lá fora), diplomas de premios, troféus e medalhas, faixas e camisas do São Paulo campeão, uma vasta coleção de bonés, desenhos das filhas e um esboço de Oscar Niemeyer, gravuras do Zélio, um manuscrito da Elis Regina votando em Dom Paulo, Dom Hélder e em mim no Premio Carlito Maia, em 1982, um poster da campanha presidencial de 1989, na ilha de Alcântara, e uma velhíssima máquina de escrever Remington, que ganhei de presente naquele ano quando completei 25 anos de jornalismo (em outubro agora, já vou fazer 45, o tempo passa...) _ todas estas pequenas coisas, enfim, que resumem a vida de qualquer um de nós.

Esta Remington é especial, como todas as outras inutilidades que a gente vai carregando de um lado para outro. Já na reta final da campanha para presidente de 1989, a primeira eleição direta desde o golpe de 1964, fomos almoçar num restaurante no interior de Minas que também vendia velharias. 

Entre elas, estava esta máquina de escrever, já meio enferrujada, que eu logo cobicei, mas meus colegas não me deixaram levar porque ainda tínhamos muitos comícios pela frente. Como carregá-la?

Já tinha até me esquecido da dita cuja, quando no final da festa no Bar Avenida, poucos dias antes da eleição, o então candidato Lula e a turma da campanha subiu ao palco para me entregar o presente. Eles tinham comprado a máquina sem eu saber.

A relíquia parece que pesa uma tonelada e não tem indicação de modelo _ deveria ser o único fabricado nesta época imemorial. Foi comprada na Casa Pratt e nela se lê: "Made at Ilion, N.Y., U.S.A".

Fico pensando como e quando chegou ao Brasil, quem a comprou primeiro, por quantas mãos já passou, o que nela foi escrito. Quando chegou para mim, já não escrevia mais, mas foi a única máquina que guardei comigo. Minha mulher deu um trato nela e agora vai ficar na sala da casa nova ao lado dos retratos da família.

Bons tempos, aqueles... Bons tempos, esses... Os tempos da vida dependem de cada um de nós, não das circunstâncias do momento. Tudo passa, eu sei, mas o caminho percorrido fica na nossa alma, lembrança revivida cada vez que se vai mudar de casa. Ontem só não foi melhor do que poderá ser amanhã para quem nunca perde a fé na profissão de jornalista, nos brasileiros e na vida.  

         

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Quem vai ficar com o apoio do PMDB, quer dizer, seus cinco minutos na televisão e seus palanques na campanha de 2010? A resposta a esta questão está na raiz de toda a crise política que se arrasta desde o início do ano e culminou na semana passada com a salvação de José Sarney pelo PT. Vai valer a pena?

No mesmo dia, dois senadores, Marina Silva e Flávio Arns _ por razões bem diferentes, diga-se _ anunciaram que deixariam o partido. No dia seguinte, Aloizio Mercadante foi convencido por Lula a revogar sua renúncia irrevogável à liderança no Senado para não aumentar ainda mais a crise nas relações entre o partido e o governo.

Diante de mais uma guerra interna desencadeada a partir deste episódio, os analistas de sempre repetiram a previsão feita outras vezes ao longo das últimas três décadas: é o fim do PT. Tantas vezes anunciada nestas últimas três décadas, a morte do PT é desmentida eleição após eleição e nas pesquisas, inclusive as mais recentes, que colocam o partido em primeiro lugar na preferência dos eleitores brasileiros.

É como diz o leitor Simei de Almeida, em comentário enviado na tarde de segunda-feira: "Antes não prestava pelo que era, agora não presta pelo que não é mais".

Às vésperas de comemorar 30 anos, no começo do ano eleitoral de 2010, parlamentares, dirigentes e militantes petistas vivem o eterno dilema de ser ou não ser governo quando chegam ao poder, do pequeno munícipio à Presidência da República. Tem sido assim desde que o primeiro petista foi eleito. Muitos foram ficando pelo caminho, abrindo dissidências e até novos partidos, que nunca emplacaram.

No centro das discussões, desde o primeiro Encontro Nacional do PT, está sempre a política de alianças, depois que o partido descobriu que ninguém consegue se eleger nem governar sozinho.

Qual o preço e os limites destas alianças? Foi mais uma vez em torno desta questão que a jornalista Marilda Varejão, minha velha amiga e petista histórica, desencadeou um grande debate entre militantes, a partir do momento em que comunicou a mais de cem pessoas das suas relações que estava deixando o partido.

"Com imensa dor, mas com igual convicção, anexo a carta que estou levando hoje ao PT local. Sem mais, abraços, Marilda Varejão", escreveu ela, e anexou a carta que reproduzo abaixo.

"Petrópolis, 23 de setembro de 2009

Ao Partido dos Trabalhadores

Há muito – mais precisamente desde quando, no “mensalão”, vi rolarem por terra ídolos como José Dirceu e Genoíno – venho pensando em fazer o que agora faço. Entretanto, movida pelo desejo de separar o joio do trigo e, de alguma forma, ajudar a reconstruir o PT local, mantive-me fiel ao partido, tendo exultado quando a cidade elegeu Paulo Mustrangi como prefeito.

Entretanto, apesar de Lula declarar que petista é como flamenguista, que permanece fiel ao time independentemente das derrotas, creio que para tudo nesse mundo há um limite. E não suporto mais ver esse homem – que acompanhei com ardor e paixão desde a greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, SP, em maio de 1978 –, em nome da “governabilidade”, jogar por terra a própria biografia e os ideais de tantos quantos depositaram nele a responsabilidade de construir um Brasil mais justo e mais digno.

O mais lamentável em tudo isso é que, apesar da decepção, não nego sua capacidade e louvo seus feitos: é mérito seu mais de 35 milhões de brasileiros terem saído da linha de pobreza e nosso país hoje ser conhecido e respeitado em todo o mundo. Mas nem por isso Lula pode ser maior que o próprio PT nem fazer com que petistas históricos, como o senador Aloizio Mercadante se tornem alvo do achincalhe nacional.

Por tudo isso, em caráter irrevogável (irrevogável mesmo!), venho solicitar minha desfiliação partidária. Solitária em minha dor, saberei sempre a hora de estar ao lado das pessoas de bem que insistem na luta, como por exemplo o ministro Patrus Ananias. Mas me resguardo e estou a salvo dessa indigesta pizza que tentam jogar goela abaixo dos menos incautos.

Atenciosamente,

Marilda Varejão (título de eleitor 228802690159, zona 0085 seção 0018 cadastro 2407706) "

Os amigos da Marilda se dividiram ao meio, apoiando ou discordando da sua decisão, e o debate continua nesta terça-feira pela internet.

Zélio Alves Pinto, o grande cartunista e artista plástico, escreveu: "Tá certo, Marilinha: concordo, mas discordo, porque contra fogo só fogaréo, senão acabam queimando a gente e, cansado de ser gato escaldado, eu fico. Não tenho carteirinha, apenas fé. E é nessa que eu vou. Apoio Marilda, você, e digo-lhe mais, até a Marina, mas não dá pra votar nela (vão fazer picadinho da santa), mas fico. Me desculpa, viu? Todo carinho, Zélio".

No final da noite de ontem, ao ler a mensagem de Zélio, resolvi participar também do debate em que escrevi para os amigos o que penso a respeito deste assunto:

"Pessoal,

Não queria entrar nesta conversa, mas faço minhas as palavras do mestre Zélio, sem tirar nem por. É por isso que gosto sempre de ouvir os mais velhos...

Estou que nem ele: nunca entrei em partido nenhum, mas não perco a fé. Se não entrei, não tenho nem como sair...  Como dizia outro velho amigo, o Carlito Maia: não sou do PT, mas o PT é meu partido. É e será. O resto é muito pior.

Qual PV vocês preferem: o PV do DEM e do Sirkys, no Rio, ou o PV do PSDB e do Penna em São Paulo? Coitada da minha amiga Marina...

Entre o Gabeira e o Roberto Freire, linhas auxiliares dos demo-tucanos, gente sem projeto e sem compromisso com o país, fico com o Lula, o melhor presidente (para a maioria da população) que este país já teve, desde Getúlio Vargas.

Daqui a 100 anos, quando falarem do Brasil, só vão lembrar destes dois.

Abração a todos,

Ricardo Kotscho".

Com a palavra agora, os leitores do Balaio.

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Caros leitores,

Antes de tratar do assunto deste domingo, como sempre faço desde a estréia deste blog, publico abaixo a relação dos três assuntos mais comentados da semana no Balaio e nas duas publicações impressas de maior circulação no país (Folha e Veja):

Balaio

Lula e o anjo da guarda: 547
A próxima crise: 209
Aposentadoria instantânea: 109

Folha

Sarney: 135
Dilma: 114
Senado: 83

Veja

Igreja Universal: 148
Dilma e a sucessão presidencial: 27
Sistema de saúde dos Estados Unidos: 10

***

"Você não vai comentar o fato de que o marido da Lina (ex-Receita) foi ministro da Integração Nacional durante um ano no governo FHC? Aguardo o seu comentário!", escreveu a leitora Suely Gomes, em mensagem enviada ao Balaio na sexta-feira, 21, às 14:04.

Dezenas de outros leitores fizeram-me a mesma cobrança ou simplesmente resolveram contar eles próprios o que sabiam sobre Alexandre Firmino de Melo Filho, o marido de Lina Vieira, que teve papel de destaque no longo depoimento prestado esta semana pela ex-secretária da Receita Federal, no Senado, sobre um presumível encontro que teria mantido com a ministra Dilma Roussef no final do ano passado.

Na internet é assim: o leitor cobra e pauta o blogueiro, com ponto de exclamação e tudo. Quando não é atendido, trata de contar a história que não encontrou na grande imprensa.

O leitor que se identifica como CB (por que não dar o nome completo? Não entendo isso ...) escreveu às 16:01: "A sra. Lina Vieira, que acusa a ministra Dilma, é casada com Alexandre Firmino de Melo Filho, que foi ministro interino do Ministério da Integração Nacional de 20/08/1999 a 17/07/2000 no governo de FHC. Precisa dizer mais... Essa oposição não vale é nada. Querem o poder de qualquer jeito. Não é oposição séria. Seus políticos são bandalhos. Se entrarem no poder, nada vai mudar".

"Ireneth Maria Dias Weiler, a chefe de gabinete de Lina Vieira, aparece no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) como doadora da campanha de Fernando Henrique Cardoso para presidente da República em 1998", acrescenta o leitor Carlos, às 19:17.

Só fui ler algo sobre o assunto na edição de sábado da Folha (o depoimento foi dado na terça-feira), uma nota de apenas sete linhas sob o título: "Passado: Marido de Lina foi ministro da Integração de Fernando Henrique".

Muito mais informações sobre este personagem o leitor poderá encontrar aqui no Balaio nos comentários enviados neste domingo pelo leitor Simas Mayer e ao longo da semana por vários outros.

O papel do marido de Lina Vieira nesta história pode nos ajudar a entender melhor por que só agora, nove meses depois, ela deu entrevista à Folha para falar do tal encontro que teria havido, e que a ministra Dilma Roussef nega, para tratar das investigações da Receita sobre a família Sarney.

Se não fossem as informações sobre as relações de Alexandre Firmino de Melo Filho com o consórcio PSDB-DEM, que começaram a pipocar na internet em diferentes sites e blogs (ver mais abaixo), ninguém ficaria sabendo da sua existência.

Além das suas implicações políticas na disputa sucessória de 2010, o episódio Lina-Dilma revela a diferença de tratamento dado ao assunto na internet e na velha mídia.

A este respeito, vale a pena ler o interessante artigo publicado esta semana no Observatório da Imprensa pelo jornalista Sandro Vaia, que foi meu colega no Estadão, onde chegou depois a diretor de redação, quando começamos a trabalhar juntos na empresa como repórteres nos distantes anos 1960.
Sob o título "Os jornais e a cacofonia da internet", depois de afirmar logo na abertura que "é dado como certo que os jornais impressos vão morrer", com o que nós dois não concordamos, Sandro Vaia escreve:

"Um certo clima de euforia inconsequente toma conta de setores da blogosfera que imaginam que está em andamento o processo de tomada do poder pelos "democratizadores" da informação em razão da constante perda de audiência por parte dos grandes jornais".

Desconheço este clima de euforia, assim como o processo de tomada de poder pelas novas mídias, mas é certo que os grandes jornais estão perdendo circulação, não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Já escrevi aqui mesmo no Balaio que não acho a internet culpada pela "perda de audiência dos grandes jornais", como disse Vaia. Para mim, o que está tirando público dos jornalões de papel não é a concorrência dos monitores, mas o conteúdo de baixa qualidade, a indiferenciação dos produtos do pensamento único, que não sabem mais como para atender a freguesia cada vez mais exigente e participativa.

No ponto central do seu artigo, Sandro Vaia faz uma série de perguntas que já embutem as respostas _ do seu ponto de vista, claro, mas que não são as minhas:

"A pergunta instigante é esta: que fariam os blogueiros comentadores sem ter o que comentar? Que condições tem a maioria _ senão a totalidade _ deles de apurar e publicar informações acabadas, completas, críveis, influentes? Qual é o nome de um site ou um blog que não esteja ligado a uma corporação jornalística estabelecida e que tenha originado uma só informação exclusiva e importante que tenha mexido com a ordem das coisas?"

Já que ele perguntou, respondo: tem, sim. Este Balaio aqui, por exemplo, um blog que não é ligado a nenhuma corporação jornalística estabelecida e tem publicado entrevistas, reportagens e informações exclusivas nestes 11 meses em que está no ar.

Mexer com a ordem das coisas não é meu objetivo, mas vou dar dois exemplos recentes de matérias publicadas aqui primeiro. Na semana passada, em entrevista exclusiva com Marina Silva, o Balaio antecipou sua decisão de trocar o PT pelo PV e as linhas centrais do discurso da sua provável candidatura à presidência da República.

Neste final de semana, a revista Veja publica entrevista com Carlos Augusto Montenegro, o homem do Ibope, falando sobre as dificuldades que Lula terá de eleger o sucessor, que, segundo ele, será José Serra, repetindo os mesmos argumentos da conversa que tivemos dois meses atrás contada aqui no Balaio.

Em menos de um ano, o único funcionário deste blog já rodou mais pelo país para fazer reportagens do que qualquer outro dos grandes jornais. Já foram publicadas entrevistas exclusivas com quatro presidenciáveis _ Aécio, Ciro, Dilma e Marina. Neste blog os leitores também encontraram informações exclusivas sobre o dia a dia da luta do vice-presidente José Aelncar contra o câncer.

Falo por mim, mas sei que tem muitos outros colegas na blogosfera fazendo o mesmo trabalho. De acordo com os números do Google, só o Balaio registra 43.500 links de blogs de todo o país. Se cada um deles tiver apenas cinco leitores, já dá a circulação diária do Estadão, por exemplo.

O mundo da informação mudou, caro Sandro Vaia, só os jornalões ainda não perceberam. Mas concordamos num ponto do que você escreveu ao final do artigo: "(...) para as sociedades abertas, pluralistas e democráticas, eles (os jornais) ainda são indispensáveis". Cabe a quem os dirige descobrir o que fazer para que isso se torne realidade.

***

Além dos leitores do Balaio, vários blogs trataram do papel do marido de Lina Vieira no bate-boca que a envolve com a ministra Dilma Roussef. O amigo Washington Araújo, do Rio, me chamou a atenção para o que escreveu José Sergio Rocha no blog "Quem é vivo sempre aparece" (ver link e reprodução abaixo). Este tipo de comentário, que reproduzo abaixo, você não vai ver em nenhum dos jornais ou agências citados pelo Sandro Vaia em seu artigo como fornecedores únicos de matéria prima para a blogosfera.

http://quemevivo.blogspot.com/2009/08/tem-gato-na-tuba-do-depoimento-de-lina.html

"Jabuti não sobe em árvore. Se subiu, só se alguém botou.

Quem assistiu pelo menos parte do depoimento da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, na Comissão de Constituição e Justiça, com transmissão pela TV Senado e Globonews, vai lembrar que um cidadão constantemente sussurrava uns bizus no ouvido da moça. Isso é normal, coisa de assessor. Só que o cara não parava quieto.

Essa vontade de aparecer a qualquer custo tem seu preço. No meio de uma pergunta do Mercadante, o assessor lá estava cochichando nas orelhas da Lina. O bigodudo petista, que já estava meio enfurecido, deu-lhe um esporro, pois estava atrapalhando o trabalho da comissão.

Pois é, o cara chamou tanta atenção que foram descobrir quem era. Não era assessor coisa alguma. Era o marido da Lina.

Até aí, tudo bem. É que nem um velho anúncio do Gelol: não basta ser marido, tem que participar.

Ontem, lendo o blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, deparei-me com a seguinte informação: o marido da Lina, publicitário e marqueteiro no Rio Grande do Norte, chama-se Alexandre Firmino de Melo Filho e foi (pasmem) ministro interino da Integração Nacional durante quase um ano (entre agosto de 1999 e julho de 2000), no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Ou seja, mais um episódio da novela “Como é sujo o jogo da política”. Foi, portanto, encenação pura aquele depoimento sobre um encontro que a depoente teria tido com Dilma Rousseff numa data que não soube precisar – nem hora, nem dia, nem semana e nem mesmo o mês em que aconteceu.

A ex-secretária da Receita parecia firme, sincera e convincente, apesar desses “detalhes”. Mas o maridão foi arroz de festa e estragou tudo.

Alguém leu essa notícia em qualquer grande jornal?

Agora, imagine o oposto. Vamos que outra senhora, dona Maria das Couves, ocupasse o mesmo cargo num futuro governo tucano.

Foi demitida por esse governo, tomou ódio de alguém desse mesmo governo e, quando surgiu a oportunidade, resolveu abrir a boca, sendo assessorada pelo marido que, antes daquele governo, foi ministro do PT.

Não seria desmascarado logo que entrasse na sala da comissão?

Tem gato na tuba desse depoimento. Na caixinha de música, o coral Garganta Profunda canta essa pérola do Braguinha".

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Aos leitores,

o post abaixo foi publicado no blog na quinta-feira, 20.8, mas só hoje entrou na home do portal. Havia um problema de instabilidade no sistema do iG, que deixou o Balaio fora do ar durante a maior parte do tempo esta semana. Fui informado neste sábado que o sistema voltou ao normal. Escrevo post novo amanhã, domingo.

Atualizado às 21:05 de 22.8  

Atualizado às 18:05 de 20.8

***

Nesta passagem do primeiro para o segundo turno do Brasileirão, um nome que ninguém poderia imaginar até poucas semanas atrás se destaca como a grande revelação do campeonato.

Não é nenhum jogador: é o técnico Ricardo Gomes. Numa sensacional arrancada, ele pegou um São Paulo decadente e desfigurado, e o levou a vice-líder, apenas um ponto atrás do Palmeiras.

Após a derrota para o Atlético Mineiro, que deixou o tricampeão brasileiro em 15º lugar, a um ponto da zona de rebaixamento, são agora nove jogos invictos, sete vitórias seguidas, com o 1 a 0 contra o Fluminense, golaço de Richarlyson, na noite desta quarta-feira, no Morumbi.

Sem ninguém acreditar nele, nem eu, a não ser o presidente Juvenal Juvêncio e seu fiel guardião Marco Aurélio Cunha, sem carisma, falando baixo e pouco, Ricardo Gomes chegou de mansinho e, em pouco tempo no comando, voltou a fazer do São Paulo um time de futebol.

Com a difícil missão de substituir Muricy Ramalho, o técnico tricampeão que virou ídolo da torcida como Telê Santana, o ex-zagueiro da seleção brasileira dos anos 90, que veio da França sem nenhum título importante na carreira de treinador, rapidamente ganhou e devolveu a confiança aos jogadores.

Este foi, a meu ver, o seu maior mérito. Além de ganhar, o São Paulo voltou a jogar um futebol vistoso, rápido, criativo, que dá gosto de assistir.

Ricardo Gomes pode agora comemorar a rápida inversão de papéis. Enquanto o Palmeiras do meu amigo Muricy vem caindo, há quatro jogos sem ganhar, o nosso time é a grande sensação deste início de segundo turno _ outra vez, um dos favoritos ao título, que seria o hepta ou o tetra consecutivo, como preferirem os adversários.   

Futebol, todos sabemos, é acima de tudo paixão. Mas o que vale mesmo é bola na rede, são os resultados.

Não sei de onde o presidente Juvenal Juvêncio tirou esta idéia de contratar Ricardo Gomes, surpreendendo a todos, mas agora ele tem todo o direito de cobrar os méritos pela sensacional virada do São Paulo no Brasileirão.

Como diria o nosso ex-presidente FHC, esqueçam tudo o que escrevi sobre a contratação de Ricardo Gomes e as críticas que fiz à diretoria do São Paulo. Eles estavam certos e eu, mais uma vez, errado.

Em tempo:

1. O calendário informa: ainda faltam 11 dias para agosto acabar.

2. Antes que me cobrem, explico: hoje escrevi sobre futebol e não sobre política porque já publiquei diversas matérias sobre as variadas crises desde a semana passada, dizendo tudo o que penso a respeito do conturbado ciclo que o país está vivendo. Nada tenho nada a acrescentar. Olhando pela janela, a paisagem política não é nada bonita. E viva o tricolor!

3. Fiquei triste com a saída dela do PT, mas desejo toda a sorte do mundo à minha velha amiga Marina Silva nos novos caminhos que escolheu. Sejam quais forem estes caminhos, Marina é uma brasileira de valor, com muita garra e coragem na defesa dos seus princípios e utopias. Sou grato a ela pela entrevista exclusiva que me concedeu na semana passada, em Brasília, antecipando o desfecho ontem anunciado.

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Em tempo: atualização às 12:00

Leitores reclamam, com razão, que esqueci de publicar os novos números da pesquisa Vox Populi-TV Bandeirantes, divulgados ontem à noite, que são bem diferentes daqueles do Datafolha publicado no último final de semana.

Os números:

Serra: 30

Dilma: 21

Ciro: 17

Heloísa Helena: 12

Sem Ciro na lista, ficaria assim, segundo o Vox Populi:

Serra: 36

Dilma: 24

Heloísa Helena: 10

***

Com o fiasco do depoimento no Senado de Lina Vieira, a ex-secretária da Receita Federal de um dia para outro alçada à condição de manchete de jornal, qual será a próxima crise do fim do mundo que a oposição vai criar para abalar a popularidade do presidente Lula e a candidatura da ministra Dilma?

Já tentaram de tudo este ano, mas nada deu certo para a aliança PSDB-DEM-Mídia, que continua sem rumo para as eleições de 2010 e se limita a jogar no desgaste do governo. 

Primeiro, jogaram suas fichas na crise econômica mundial, anunciando a quebradeira, a recessão, o apocalipse. Nada disso aconteceu: o Brasil foi mesmo, como disse o presidente Lula, o último país a entrar na crise e o primeiro a sair.

Envergonhados, procuram esconder os fatos positivos. Nesta terça-feira, no pé de uma chamada de capa sobre prejuízos na Eletrobrás, a Folha, o maior jornal do país, publica em duas linhas com letras minúsculas, as menores da imprensa brasileira:

"Mercado de trabalho formal teve em julho o melhor desempenho do ano".

Depois, vieram com a epidemia de gripe suína, que ganhou as manchetes semanas seguidas, consumiu quilômetros de páginas de jornal e oceanos de tempo nos telejornais.

Hoje, noticia-se, discretamente: "Dados do Ministério da Saúde indicam redução do número de casos de gripe suína _ na semana de 9 a 15 de agosto, foram registrados 111 novos casos graves, conta 794 na semana anterior". 

E a pauta foi mudando, mas a palavra crise continuou nas manchetes com as denúncias sobre os desmandos e maracutaias seculares do Senado Federal, a partir de determinado momento centralizadas em José Sarney e na base aliada do governo.

Quando o assunto começou a cansar, criaram a grande crise da CPI da Petrobrás, que já está sumindo do noticiário.

Qual será a próxima crise anunciada?

O texto acima sintetiza o pensamento de grande contingente dos leitores do Balaio que comentaram o post que escrevi ontem sobre o anjo da guarda do presidente Lula.

"Esse episódio canhestro ( o depoimento de Lina) deixa claro para a população o tamanho do destempero, a ânsia aloprada na agonia da grande mídia. Quando o povo se pergunta: "Uai, por que tanto falatório? Tá demais da conta, não acha?" Tá claro, né. O povo já sacou. Esse é o anjo da guarda de Lula, Kotscho", escreveu o leitor José Melquíades Ursi, às 9:18 desta quarta-feira.

Sem discurso, sem bandeiras, sem candidato definido, sem propostas para o país, resta à oposição fazer barulho e atirar farofa nos ventiladores dos plenários do Congresso Nacional, que está paralisado desde o começo do ano, só jogando para a imprensa.

Sai Lina, entra quem? Façam suas apostas.

 

  

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Caros leitores,

antes de mais nada, devo fazer um agradecimento a todos vocês pela audiência que dão a este Balaio e à crescente qualidade dos comentários nos debates aqui travados.

Só posso atribuir a isso a mensagem que recebi no final da noite desta segunda-feira do Rodrigo Azevedo, presidente do site Comunique-se:

"Caro Ricardo Kotscho,

Parabéns! Você está entre os indicados do Prêmio Comunique-se 2009 e já pode se sentir um vencedor.

Como você sabe, o Prêmio Comunique-se é o único em que os jornalistas são indicados pelo voto dos próprios colegas, ou seja, aqueles que mais entendem de jornalismo".

Fiquei ao mesmo tempo surpreso e feliz com esta notícia porque, entre os 10 indicados na categoria, acho que sou o mais velho em atividade e o Balaio é o blog mais jovem (só vai completar um ano no ar no próximo mês).

Valeu, pessoal.

***

Vamos aos fatos do dia.  Ao ler esta manhã o noticiário em destaque nos jornais e na internet sobre o depoimento de Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal na CCJ do Senado, voltei a me fazer a pergunta que está no título deste post.

Na véspera, durante solenidade ao lado do presidente mexicano Felipe Calderón, no Itamaraty, ao ser interpelado por jornalistas sobre a questão Dilma-Lina, o presidente Lula não se fez de rogado e lançou um desafio à ex-funcionária:

"Qual a razão que essa secretária tinha para dizer que conversou com a Dilma e não mostrar a agenda? Só tem um jeito: abrir a mala em que ela levou a agenda e mostrar a agenda para todo mundo".

É mais um caso de bola dividida em que Lula entrou sem precisar, dando de bandeja munição aos adversários, como já havia acontecido ao longo da novela Sarney, quando exagerou na defesa do aliado e depois teve que recuar.

Não faz sentido o presidente da República bater boca com uma funcionária de segundo escalão, ainda mais num episódio tão nebuloso, que vem sendo alimentado pela mídia com a ajuda do próprio governo dia após dia.

Bastaria responder que não iria tratar de questões de política interna ao lado de um visitante estrangeiro, como já fez em tantas outras ocasiões aqui dentro e no exterior.

Fica difícil imaginar, convenhamos, que toda esta história tenha sido simplesmente inventada por Lina Vieira em entrevista à Folha, ela que até outro dia ocupava um cargo de confiança no governo, responsável pela arrecadação dos impostos federais.

A nova crise política em que o governo se desgasta nem teria começado, se a ministra Dilma Roussef simplesmente houvesse desmentido o teor da conversa que teria mantido com Lina Vieira sobre a investigação feita pela Receita nos negócios da família Sarney.

Ficaria uma versão contra a outra numa conversa de que apenas duas pessoas teriam participado.

A própria Lina afirmou agora há pouco no começo do seu depoimento na CCJ: "Não me senti pressionada. Interpretei como um pedido para resolver o caso".

Ora, qual o problema? Interpretar por interpretar, cada um pode interpretar o que quiser do que o outro falou numa conversa reservada. Ao negar o encontro, a ministra Dilma corre agora o risco de que mais dia, menos dia apareça alguma prova e a desminta, colocando em xeque a palavra do presidente.

"Não preciso de agenda para falar a verdade", respondeu Lina ao desafio do presidente. Lula poderia ter passado sem essa.

Da mesma forma, poderia ter costurado internamente o apoio a José Sarney e à sua base aliada comandada pelo PMDB, sem se expor em tantas entrevistas e discursos, quando chegou a afirmar que o presidente do Senado não poderia ser tratado como um homem comum.

O fato de ligar sua imagem a figuras como Sarney, Collor e Renan para manter unida a base aliada e o apoio a Dilma em 2010, ao contrário do que todo mundo previa, inclusive eu, não abalou a popularidade do presidente, que permanece próxima dos 70%, algo inédito na reta final de um governo.

Ao mesmo tempo, seria recomendável ao presidente levar em conta os 74% da população que condenaram Sarney e defenderam a sua saída da presidência do Senado, segundo a mesma pesquisa Datafolha publicada no último domingo.   

Em texto publicado hoje no seu blog "Observações Políticas", Alon Feuerwerker, que foi meu colega no governo Lula e agora é vizinho aqui no iG , faz uma análise a meu ver bastante correta sobre o quadro político revelado pelo Datafolha diante destes números aparentemente contraditórios.

"Constata-se novamente que a consciência do cidadão não tem outro dono a não ser o próprio. Se o brasileiro comum não vai ficar contra Lula só porque há pessoas bem nascidas e bem postas falando mal do presidente, tampouco vai ficar a favor de Sarney só porque isso convém aos propósitos políticos de Lula e do PT. O cidadão-eleitor é cada vez mais dono do nariz. Até porque tem cada vez mais acesso a informação. Alguns só se lembram disso quando é a seu favor. Acabam quebrando a cara".

Como não quero que o presidente quebre a cara, penso que está na hora dele se preservar mais e entrar em menos bolas divididas, algumas delas absolutamente desnecessárias.

Por enquanto, os números das pesquisas mostram que a população separa a crise política da realidade econômica em que vive, com a retomada do crescimento, dos investimentos e dos empregos, e é nisto que o presidente bota fé, como me disse durante uma breve conversa que tivemos no último domingo.

Tranquilo e confiante como sempre, Lula acredita que os próximos números dos indicadores econômicos vão melhorar ainda mais e teremos boas notícias até o final do ano, o que o leva a não dar maior importância à interminável crise política que se arrasta desde o começo de 2009.

Certa vez, em entrevista que fiz com ele no final de 2007 para a revista Brasileiros, perguntei-lhe quem era seu anjo da guarda, que deve ser bem poderoso, já que sua popularidade só fazia aumentar, apesar de todas as crises enfrentadas pelo seu governo desde o primeiro mandato.  

Não me lembro mais da resposta, mas certamente Lula continua confiando muito neste anjo da guarda. As pesquisas mostram que até aqui ele tem tido boas razões para não se preocupar com o que a imprensa fala dele.

Claro que contribui para isso, e deve ser até determinante, o fato de que a maioria da população vive hoje melhor do que em 2003.

Temos menos gente passando fome e mais brasileiros comprando carros, mais classe média e menos miseráveis, mas acho muito arriscado jogar todo este patrimônio de aprovação popular para manter a base aliada a qualquer custo e fazer o sucessor em 2010.

Até porque, a esta altura do campeonato, com o descrédito generalizado que atinge partidos e políticos, fica difícil saber quais aliados vão dar ou tirar votos na próxima eleição. 

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Chegou logo cedo, como faz todos os dias, e veio toda contente me mostrar a carta que recebeu do INSS.

Ali se lê:

"Requerido em 14/7/2009. Benefício concedido com vigência a partir de 14/7/2009".

Dona Edite Dias dos Santos, baiana de Planalto, que fica entre Vitória da Conquista e Poções, nem podia acreditar no que estava escrito no papel: ganhou sua aposentadoria no mesmo dia em que dera "entrada nos papéis", como se costuma dizer.

Informa ainda o documento: "A partir de 11/08/2009 compareça diretamente à agência bancária indicada neste documento, munido de sua identificação, para receber seu benefício. Os pagamentos serão efetuados no 5º dia útil de cada mês. Renda mensal: 465,00".

Dona Edite começou a trabalhar aos oito anos, ajudando na roça dos pais, Getulino e Luiza.  Teve nove irmãos, cinco ainda vivos. Trinta anos atrás, veio para São Paulo, e foi trabalhar como doméstica. Há mais de vinte, está com a gente, cuidando da nossa casa, com esmero e sempre de bom humor. 

No último dia 10 de julho, completou 60 anos, e ficou sabendo por uma vizinha que já teria direito à aposentadoria. Mas não tinha a menor idéia de como fazer, por onde começar. 

Lembrou-se da batalha do marido, o pedreiro Antonio, já falecido, que levou mais de dois anos para conseguir a aposentadoria, gastando dinheiro com advogado e tudo _ o mesmo tempo que eu também penei nas filas do INSS.

Como tenho vários amigos se aposentando, sabia que as coisas agora ficaram mais simples, e apenas a orientei a ir até o posto do INSS mais próximo para se informar sobre o que deveria fazer.

Dona Edite, que mal frequentou a escola e tem dificuldades com letras e números, foi lá sozinha, levando apenas a carteira de trabalho e sua identidade. Só havia três pessoas na fila. Uma hora depois, saiu de lá oficialmente aposentada.

Qual aposentado de outros tempos poderia imaginar uma cena destas?

Dos quatro filhos que teve, apenas uma, Marlene, está viva e mora com ela numa casa própria, no Jardim João XXIII, no quilômetro 18 da rodovia Raposo Tavares. As duas cuidam da sua pequena neta Isabela, que ficou orfã (dois anos atrás, o genro matou a filha de dona Edite e fugiu).

Tem ainda uma filha adotiva, Valdeci, que ficou em Planalto e cuida da terrinha da família, onde Edite tem dez cabeças de gado, que foi comprando com suas economias de uns tempos para cá.

Dona Edite é uma cidadã brasileira que não se queixa da vida. Para ela, apesar dos infortúnios da vida familiar, não tem crise nem tempo ruim. Agora, com a aposentadoria, ficou melhor _ vai pode aumentar seu pequeno rebanho. Pelas estatísticas do IBGE, já faz parte da chamada nova classe média. 

Em tempo: Antes que algum engraçadinho comente que a aposentadoria dela saiu com tanta presteza porque tenho amigos no governo _ "assim até eu..." _ já vou logo respondendo que minha única participação na história foi lhe informar o endereço do posto do INSS.

  

 

 

 

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Os mais comentados
Publico abaixo, como faço todos os domingos desde a estréia do blog, os três assuntos mais comentados da semana no Balaio, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas de maior circulação no país:
Balaio
Marina Silva: 632
Diploma de jornalista: 117
Boa notícia: 108
Folha
Senado: 182
Lei antifumo: 75
Sarney: 54
Veja
Rozângela Alves Justino: 189
Senado mal-assombrado: 113
Roberto Pompeu de Toledo: 36
***
  
A grande novidade da pesquisa Datafolha publicada neste domingo é que não apresenta nenhuma grande novidade.
A crise política que dominou o noticiário nacional nos últimos meses nada alterou nos índices de popularidade do presidente Lula nem na corrida sucessória para 2010, ficando tudo na mesma dentro da margem de erro.
Ao contrário do previsto por dez entre dez dos maiores colunistas políticos do país, o festival de denúncias, baixarias e escândalos dos últimos meses, tendo como epicentro o Congresso Nacional, os números do Datafolha de agosto são praticamente os mesmos da pesquisa anterior divulgada em maio. 
Nem a doença de Dilma e as denúncias contra ela, nem a gripe suína, nem a surpreendente entrada em cena da senadora Marina Silva como provável candidata do PV à Presidência da República, nada foi capaz de mudar as intenções de voto para 2010 e a avaliação positiva do governo Lula.
O líder das pesquisas José Serra perdeu um ponto (foi de 38 para 37), Dilma manteve os mesmos 16% da pesquisa anterior, assim como Ciro repetiu o índice de 15%. Logo atrás, Heloísa Helena subiu de 10 para 12%.
Marina Silva apareceu com apenas 3%, desmentindo os números do Ipespe, o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas do cientista político Antonio Lavareda, que trabalha para o consórcio PSDB-DEM, na qual a senadora aparecia com índices entre 10 e 27% das intenções de voto _ argumento utilizado pelos verdes para convencê-la a sair candidata pelo partido. 
"Lula passa por crise sem perder alta aprovação", parece lamentar a Folha, em modesta matéria de uma coluna espremida na página A11, na qual informa que o presidente caiu apenas dois pontos (de 69 para 67) no auge de mais uma crise do fim do mundo.
O que para mim mais uma vez ficou claro nesta pesquisa do Datafolha é que há uma clara separação entre o Brasil real da grande maioria da população, satisfeita com a recuperação da economia e com a vida que leva, e o Brasil midiático, que emenda uma crise política na outra.   
Outra constatação óbvia é que o quadro sucessório continua indefinido, não se sabendo até agora quem serão os candidatos para valer. Mas parece mais distante a possibilidade de uma eleição plebiscitária entre Serra e Dilma, como queria o governo.
 
Ciro será candidato a presidente ou a governador de São Paulo?
Heloísa Helena, a líder do PSOL que hoje é vereadora em Maceió, sairá candidata a presidente ou ao Senado por Alagoas?
Qual rumo tomará Aécio Neves, que continua na rabeira da pesquisa em diferentes cenários, mas não abre mão da sua candidatura por enquanto?
Até onde pode crescer Marina, se for mesmo candidata pelo nanico PV de Gabeira, o candidato do PSDB-DEM no Rio?
Enquanto estas perguntas não forem respondidas pelos fatos, tudo não passa de chute, a apenas 14 meses do dia de irmos às urnas.
Em tempo: o leitor Pedro Franhi, das 16:04, me chama a atenção para o dado mais importante da pesquisa Datafolha, que me escapou, publicada no pé da matéria principal da página A4: 42% dos eleitores ouvidos votariam num candidato apoiado pelo presidente Lula para presidente. Esta informação mereceria maior destaque, em condições normais, convenhamos.
***
Notícias do bem
Na minha eterna campanha para falarmos também de notícias boas e pessoas do bem, mesmo em momentos de tristeza, recebi esta semana e reproduzo abaixo um belo texto do nosso leitor Robson de Oliveira sobre o trabalho social de uma família muito ligada à turma do Balaio.
Central de Ajuda... Bom dia!          

 

Existem pessoas que priorizam as mais diversas culturas.

Uns cultivam plantas, outros cultivam árvores, mas há aqueles que cultivam pessoas e, entre essas pessoas, tive a oportunidade de conhecer  recentemente  três grandes mulheres.

Através de uma participação minha no Balaio do Kotscho, recebi em minha caixa de e-mails uma mensagem da leitora Ana Luíza Berlinotti Aguiar, moça de 29 anos, que já perdeu uma filha pequena, e também se tornou viúva precocemente.

Durante nossas conversas diárias, pude conhecê-la um pouco melhor, e também as suas duas companheiras, dona Vera Lúcia de Souza Alves Ferreira, mais conhecida e carinhosamente tratada por vovó, e também a sua prima Blenda, ambas também participantes do Balaio.

Ana Luíza, essa menina carioca já vivida (como costumava me dizer), ao invés de culpar o mundo por seus infortúnios,  resolveu junto com sua avó e sua prima abraçar uma causa pequena em uma comunidade carente na cidade de Pirajuí, no interior de São Paulo, que se torna gigantesca pelo exemplo que nos oferece.

Tudo começou quando tiveram uma idéia. Iriam ajudar todas as pessoas que passassem por elas, solicitando algum tipo de ajuda.  

Por morarem num bairro de periferia, os problemas são muitos e diversificados, em questões como saúde, segurança e educação. Forneciam pequenos auxílios financeiros,  providenciavam consertos de eletrodomésticos e o encaminhamento a órgãos do governo para receberem auxílios como os da Bolsa Família.

Vovó Vera cuidava da orientação e auxílio junto de Blenda.  Ana Luíza desenvolvia atividades com as crianças. Ensinava-as a tocar instrumentos musicais, além de promover alguns passeios e excursões, em que constantemente até adultos também participavam.

Praticavam, enfim, e também ensinavam a praticar, a cidadania, para moradores constantemente esquecidos nas periferias.

Atendiam ao telefone sempre anunciando: "Central de Ajuda”!

Juntas elas também acompanhavam pessoas com dúvidas sobre seus direitos até o centro da cidade, onde iam receber auxílios ou até para abrir uma simples conta bancária.

Com extrema paciência, cuidavam e orientavam os membros dessa comunidade no que lhes fosse possível.

Se alguém solicitava ajuda para um problema de eletrodoméstico com defeito, lá iam elas para resolver o problema ou buscar alguém com conhecimento para isso.

Vovó Vera me disse, certa vez, que um senhor chegou quando ela estava conversando com uma vizinha. Ele parou e perguntou:

- A senhora lembra de mim? Fui eu que limpei aquele canteiro para a senhora- e apontou para umas flores amarelas.

A vizinha no mesmo instante se retirou apressadamente, mas vovó Vera convidou-o para um café, e mais tarde para o almoço.

Aquele senhor acabou efetuando pequenos reparos na casa, obteve sua refeição e, além do calor humano, recebeu R$50,00 pelos serviços prestados.

Ana Luíza também participava ativamente das reuniões políticas, onde eram discutidos os problemas da comunidade.

Ela me confidenciou que o lugar é realmente muito triste, carente de tudo, mas as pessoas são muito boas.

Hoje, infelizmente, ela não esta mais entre nós. Um problema cardíaco detectado de forma tardia surpreendeu a todos.

Sua prima Blenda mudou-se da cidade. E vovó Vera continua seguindo, embora de maneira  solitária, e dentro de suas mais limitadas possibilidades, com  o programa que as três criaram e desenvolveram.

Vovó Vera, é leitora do Balaio e também uma profunda admiradora do Ricardo Kotscho.

Participava através de sua neta dos comentários.

Bem, meus amigos. Descrevi  apenas algumas coisas que a Central de Ajuda proporcionava, e de certa forma ainda proporciona àquelas pessoas.

Atitudes de pessoas normais, que olham para o seu semelhante, e conseguem enxergar essa “semelhança”!

Criaturas que se despem de artifícios efêmeros criados por uma sociedade muitas vezes desumana.

Seres humanos iluminados em sua capacidade de entender que na verdade somos todos irmãos.

Lembro-me do final da história já conhecida do menino que salva as estrelas do mar e diz, quando questionado, estar fazendo a parte dele.

Isso gera uma cobrança.

Prefiro o final em que ele diz olhando para a que está em suas mãos.

-Para essa eu faço a diferença!

Para a pequena comunidade de Pirajuí, a Central de Ajuda faz uma grande diferença.

O Balaio perde uma leitora participativa...

Vovó perde uma neta linda.

Eu perdi mais que uma amiga...

O mundo perde um ser iluminado...

Mas todos nós acabamos ganhando com o exemplo dela, que será eterno...

 

Robson de Oliveira

 

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Até os vizinhos mais antigos que não fumam e, portanto, nunca haviam entrado no bar e tabacaria do Beto Ranieri, na esquina da Lorena com a Ministro Rocha Azevedo, um reduto de charuteiros, estranharam ao ver a cena de cidade do interior em pleno coração dos Jardins, em São Paulo.

"Vocês também foram expulsos?", perguntou-me um deles, sábado passado, ao nos ver do lado de fora, pitando na calçada, em bancos improvisados de jardim, que chamaram a atenção dos transeuntes.

Nunca fumei charutos, continuo fiel ao velho cigarro, mas desde que vim morar no bairro, faz quatro anos, fiquei amigo desta turma do Ranieri que se reúne ali no bar da tabacaria há mais de duas décadas, nos finais de tarde e de semana, para bater papo e tomar um aperitivo.

Tem de tudo nesta turma e, por isso mesmo, sempre sai uma conversa bem divertida: advogados, empresários, cineastas, construtores, gente do mercado financeiro, artistas globais, políticos e até jornalistas, entre outros tipos da cidade.

Moro ali perto e aquele virou meu bar da esquina, onde encontro os amigos e fico sabendo das novidades. Como trabalho em casa, é vital para mim saber o que anda acontecendo além das janelas do meu apartamento e do portão do prédio.

Agora, com a entrada em vigor, há duas semanas, da Lei Anti-fumo do Serra, que proibiu o fumo até em tabacarias, aonde as pessoas vão para fumar e quem não fuma não vai, como diria o conselheiro Acácio, tive que mudar meus hábitos.

Para encontrar as minhas "fontes", que dizer, meus amigos, tenho que fazer como na praça principal em Porangaba: chegar cedo para garantir um lugar nos quatro bancos de madeira instalados na calçada do bar ao lado de vasos de manacá.

Ao ser entrevistado no Ranieri pela minha amiga Miriam Clark para um especial do programa do Jô com o governador José Serra, na semana em que a lei entrou em vigor, só me restou brincar com a nova ordem.

Falei que aquela era uma sacanagem com os carecas ( o governador, assim como eu, tem uma certa deficiência capilar), já que agora serei obrigado a ficar ao relento, gelando a cabeça nas noites mais frias deste inverno.

O Jô gracejou que eu devo ter ficado careca de tanto fumar. Pode ser. Mas como explicar o que aconteceu com os cabelos do ilustre governador Serra, a seu lado, que não fuma e não quer que os outros fumem?

Lei é lei, eu sei, e como bom cidadão só me resta respeitá-la, mas acho que proibir o fumo num local reservado para fumantes é mais ou menos como proibir que sirvam carnes numa churrascaria ou obrigar ateus a frequentar a igreja.

Imaginava que poderia ficar cada um no seu quadrado, um respeitando a vontade do outro. Mas, já que é assim, melhor buscar na calçada as coisas boas da nova lei.

Passei a encontrar e prosear com outros amigos e apreciar mais de perto as moças bonitas que não entram em tabacaria. Em dias de sol com céu claro, como neste belo sábado, a calçada do Ranieri vira uma prainha ou pracinha de interior em meio aos prédios, e é para lá que vou daqui a pouco.

Além dos bancos, temos outras novidades. Almoço de sábado agora tem uma bela polenta (com ragu, rabada, quatro queijos ou shitaque), preparada por um dos sócios, o Max Abdo, que é servida no belo lounge junto ao bar, recentemente inaugurado.

No começo da tarde, todos os sábados apresenta-se no pequeno palco (toda noite agora, a partir das 21 horas, também tem uma atração musical) um quarteto de cordas da Orquestra Bachiana de João Carlos Martins, e vira-e-mexe o próprio pianista-maestro, que é vizinho, aparece por lá para dar uma canja.

O Ranieri resiste.

Inspeção veicular:

para que isso, prefeito?

Mudando de pato a ganso, não posso deixar de falar de um programa de índio que fui obrigado a fazer na sexta-feira, sem entender até agora para que serviu meu esforço ao cumprir outra lei implantada recentemente em São Paulo.

Vocês já devem ter ouvido falar de uma tal de inspeção veicular (até rimou...), que obriga os proprietários de veículos fabricados a partir de 2003 a comparecer a um dos quatro postos instalados pela Prefeitura para provar que teu carro não está poluindo o ar puro da cidade.

Até aí, tudo bem. Os carros, como os cigarros, são grandes agentes de poluição, mas só não entendi uma coisa: por que não começar pelos mais antigos, fabricados antes de 2003, em lugar de fiscalizar os mais novos que, teoricamente, são melhor equipados e poluem menos?

O mais estranho neste processo, no entanto, não é nem isso. É o sistema que criaram para você cumprir a lei. É preciso pagar uma taxa para ser fiscalizado, agendar um horário e, ao final do kafkiano processo, se ficar provado que teu carro não é poluidor, você recebe o dinheiro de volta.

Para fazer tudo isso, contando o tempo perdido com a burocracia e o trânsito para chegar aos locais de inspeção, até receber de volta a taxa de R$ 52,73, gasta-se pelo menos quatro horas para cumprir a lei.  

Por que não fazer o contrário? Ou seja, obrigar o sujeito a pagar multa, após a inspeção, caso seu carro não atenda às especificações legais?

Na saída do posto da Barra Funda, tem uma placa informando que 800 mil veículos já haviam sido inspecionados pela Controlar, a empresa contratada para este serviço.   

A inspeção propriamente dita não dura mais do que cinco minutos e mais parece um teatrinho para justificar a cobrança da taxa. No caminho de volta para casa, fiz um pequena conta para ver quanto a cidade perde em homens/hora de trabalho nesta brincadeira:

800 mil carros X 4 horas perdidas X R$10,00 (salário médio por hora de quem tem carro novo) = RS 32.000.000,00.

Isto sem contar quanto a Prefeitura paga à Controlar para fazer a inspeção.

Alguém poderia me explicar que estranha novidade é essa, para que e a quem serve?

Eu, pelo menos, ainda não senti nenhuma melhora no ar que respiramos. Ao contrário, com mais gente fumando nas ruas, a coisa só tende a piorar...   

 

 

 

 

    

 

 

 

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BRASÍLIA _ Duas da tarde de quinta-feira, dia 13. A senadora Marina Silva (PT-AC), 50 anos, está terminando de almoçar com Moara, sua filha de 19 anos, estudante de Direito, que acabara de chegar da Inglaterra.

Sai da cozinha do seu amplo, mas modesto apartamento funcional da 309 Sul, e recebe-me na sala com um beijo e o mesmo sorriso sereno e amigo de sempre.

Como o tempo que temos para conversar é pouco, alertou-me a assessora de imprensa Jandira Gouveia, vou direto ao assunto que agitou a semana política e o cenário da sucessão presidencial, desde que a sua candidatura presidencial foi lançada pela direção do PV.

Balaio _ Você sempre foi uma pessoa movida pelo coração, que eu sei. Neste momento, o que diz o teu coração: você fica no PT ou vai para o PV, que te ofereceu a candidatura à Presidência da República?

Marina _ Olha, se eu tivesse esta certeza no coração, chamaria meus velhos companheiros Binho (o ex-colega de faculdade e atual governador do Acre, Binho Marques),  Jorge (duas vezes governador do Acre, Jorge Viana) e Tião (senador Tião Viana, do PT-AC), e falaria primeiro para eles. Nesse momento, eu ainda estou vivendo a elaboração de toda a exposição a que me submeti nos últimos dias, ouvindo todas as pessoas, que não foram poucas, para que seja uma decisão consciente da minha parte. 

Nos 50 minutos seguintes, Marina manteve-se impassível sentada na mesma posição no sofá, com sua fala mansa e firme sobre a importância da luta contra o aquecimento global e pela preservação da natureza para as futuras gerações, disposta a não abrir o jogo político-partidário por enquanto.

Apesar dos poréns e no entantos, saí de lá convencido de que ela já foi picada pela mosca azul do PV. Posso estar enganado, claro, mas para mim agora é só uma questão de dias, não muitos, para que ela tome a grande decisão da sua vida. O calendário eleitoral fixa um prazo: 30 de setembro, a data limite para a mudança de partido.

Balaio _ Você já tinha pensado nesta idéia? Alguma vez já tinha passado pela tua cabeça o plano de se candidatar a presidente da República, antes de receber o convite dos dirigentes do PV?

Marina _ Tem uns seis meses que um grupo de jovens criou um site na internet chamado Movimento Marina Presidente. Perguntaram-me se eu autorizava, falei que não. Mas eles iam fazer de qualquer jeito. Não articulei nada para isso. Só ouvia as pessoas falarem sobre esta possibilidade da minha candidatura. Até pedi para que os assessores e as pessoas mais identificadas comigo não entrassem neste site para ninguém dizer que a Marina estava articulando alguma coisa.

A filha Moara vai até o escritório e, na volta, informa à mãe que o movimento foi criado no dia 17 de abril de 2006, mas só nos últimos meses a comunidade criada na internet começou de fato a funcionar.

As conversas com o pessoal do PV, lembra ela, começaram logo após o dia 13 de maio de 2008, quando ela entregou sua carta de demissão no Palácio do Planalto, depois de ocupar por 5 anos, 5 meses e 14 dias _ ela guarda os números na cabeça _ o cargo de ministra do Meio Ambiente do governo Lula.  

Balaio _ Como foram estas conversas com os verdes?

Marina _ Eles me perguntavam por que eu não entrava no PV, mas eu levava na brincadeira. Pedia para eles pararem com isso, mas eles respondiam que estavam falando sério. Nas últimas semanas, começaram a me informar que estavam preparando a refundação programática do PV, com a participação de pessoas da academia, para colocar a questão do desenvolvimento sustentável na agenda estratégica do partido, planejando a desverticalização da direção e a conquista de novos militantes nos movimentos sociais. O quadro mundial mudou muito desde a criação do PV, há 24 anos, inspirado nos partidos verdes da Europa. Diante desta ameaça de aquecimento global, as questões ambientais não se resolvem sem uma forte integração com a dinâmica econômica. O mundo vive hoje uma forte mudança no modelo de desenvolvimento. É o grande desafio deste século. Estou fazendo uma grande reflexão sobre tudo isso.

Como se vê, o discurso de candidata pelo PV está pronto. O longo namoro dos verdes com Marina chegou ao pedido de casamento no dia 29 de julho último, quando ela foi chamada pela executiva nacional para ser oficialmente convidada a entrar no partido, acenando com o dote da candidatura.

Para convencê-la, mostraram-lhe uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), coordenada por Antonio Lavareda, que costuma trabalhar para o PSDB e o DEM nas campanhas, provando a viabilidade eleitoral do seu nome.

Nas 81 páginas desta pesquisa feita por telefone, que veio a público no mesmo dia em que conversamos, conclui-se que no confronto direto entre Marina e Dilma, em quatro cenários, a senadora perde em um, empata em outro e ganha em dois.  

Balaio _ Além da pesquisa, o que mais vocês discutiram neste encontro do dia 29 de julho?

Marina _ Foi uma conversa que durou quatro horas em que eu mais ouvi do que falei. Eles me falaram dos novos desafios, das dificuldades que vivem em vários Estados onde há problemas. Mas não quero subordinar a minha decisão sobre a candidatura aos números da pesquisa. O centro da minha reflexão é programático. Como podemos presrvar os ativos ambientais sem que isso traga efeitos indesejáveis ao desenvolvimento? Como podemos integrar preservação com desenvolvimento?

Marina explica que sua reflexão tem que levar em conta três etapas. A primeira, e mais difícil, é se deve ou não se desfiliar do PT, o partido que ajudou a criar. Depois, filiar-se ao PV. Por último, discutir uma possível candidatura.

Balaio _ E em que pé está esta reflexão agora?

Marina _  Ninguém sai de um partido, depois de 30 anos, e vai para outro só para se candidatar a presidente da República. Esta é uma reflexão visceral para mim e para este século, principalmente para os jovens. Agora vou me recolher em mim mesma para decidir. Precisamos atender ao mesmo tempo às legítimas necessidades das gerações presentes sem inviabilizar o futuro. Precisamos construir uma aliança intergeracional com compromisso ético.

Em nenhum momento da nossa conversa, antes que eu tocasse no assunto, Marina falou dos seus tempos de governo ou dos programas e projetos do PT nesta área, como se ambos já fizessem parte do passado.

Balaio _  Neste um ano e meio que você deixou o governo, tem conversado com o presidente Lula? Como estão tuas relações com o governo e o PT?

Marina _ Sempre que há necessidade de uma interação institucional da senadora com o presidente e o governo é natural que a gente converse. Foi assim na recente homenagem ao João Candido, com a anistia póstuma e a inauguração da sua estátua, e no episódio da regulamentação fundiária na Amazônia. Estou me sentindo muito serena quanto a isso, graças a Deus. Vários companheiros do PT vieram falar comigo para que ficasse no partido, para continuarmos juntos. Conversamos muito também sobre a crise do Senado nestas últimas semanas. Mas é um erro ficarmos só falando da crise do Senado. Quantas possibilidades nós não temos de melhorar a vida no nosso país? Kant dizia que o projeto de um mundo melhor sempre caminha em paralelo com o projeto de um mundo pior. As coisas são mesmo paradoxais. Existe a crise do Senado, claro, ela é grave, mas também existe muita esperança neste Brasil, neste mundo em que a gente vive. Vivemos aqueles momentos do cerceamento da liberdade na ditadura, mas nunca vivi tanta esperança como naquela época. Mais tarde, um sociólogo consolidou a democracia e elegemos um metalúrgico realizador das nossas utopias. As políticas sociais do governo Lula são a realização das nossas utopias, embora estejam ainda apenas no começo. Isso precisa ser preservado e consolidado.

Marina se anima ao falar das utopias e dos utopistas, para desespero da assessora que fica olhando o relógio (num único dia, Jandira chegou a receber 60 ligações de jornalistas). Fala de Florestan Fernandes, Celso Furtado, Paulo Freire, Chico Mendes, D. Hélder, D. Moacyr, e junta na mesma lista Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, "os mantenedores das utopias".

"Quero ser para os jovens e as pessoas da minha geração o que estas pessoas que citei foram para mim, uma mantenedora da utopia".

Na hora de me despedir, Marina lembra que batizou sua única filha de Moara (ela tem mais três filhos homens), que quer dizer liberdade em tupi-guarani, em homenagem à primeira campanha presidencial de Lula, em 1989, quando ela estava grávida da menina.

"Viajava pelo Acre com uma barriga de oito meses, expremida num avião monomotor, entre o Jorge e o Tião, e eles falavam que eu ia entrar em trabalho de parto...".

Em tempo: Se Marina for mesmo candidata, ela foi o quarto presidenciável que deu entrevista exclusiva a este Balaio desde a abertura do blog em setembro do ano passado (antes dela, foram Aécio, Ciro e Dilma). Agora só falta José Serra.

Se depender dos leitores do Balaio, que decisão Marina Silva deve tomar?

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