De volta ao frio e à chuva da minha terrinha paulistana, depois de quase dois meses viajando dentro e fora do país, dou uma olhada geral na imprensa e descubro que algo mudou.

Nos últimos dias, o alvo predileto da imprensa passou a ser o Dunga, que virou a nossa nova Geni. Jogam tantas pedras nele que os políticos, o presidente e o governo ganharam uma trégua, como eu já previa aqui antes da Copa do Mundo começar.

O mais curioso da história é que a seleção brasileira, com duas vitórias em dois jogos, foi a primeira a se classificar para a próxima fase do Mundial, não há nenhuma crise na equipe e continuamos sendo um dos favoritos para o título.

Se não está encantando as platéias com um maravilhoso futebol, pelo menos o time de Dunga vai dando conta do recado numa Copa muito equilibrada em que até agora não apareceu nenhum bicho papão.

O maior problema do técnico da seleção não está dentro, mas fora do campo, no seu eterno embate com os coleguinhas da imprensa esportiva. A coisa desandou de vez quando ele comprou uma briga feia com a TV Globo no domingo à noite, após a vitória contra a Costa do Marfim, ao proibir entrevistas exclusivas de jogadores no "Fantástico".

Já estava tudo acertado com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, mas o marrento Dunga bateu o pé e não liberou ninguém. Ao perceber o que estava acontecendo nos bastidores durante a entrevista coletiva, após o jogo, soltou os cachorros em cima de um dos repórteres da emissora, foi tirar satisfações com outro, dinamitou as pontes e, na mesma noite, o bafafá acabou ganhando mais destaque do que o próprio jogo.

Lembrei-me do que aconteceu comigo, em 2002, logo após o anúncio da vitória de Lula nas eleições presidenciais. Como assessor de imprensa, tinha combinado uma coletiva do candidato eleito num hotel, mas, sem eu saber, o comando da campanha já acertara com a Globo para que ele desse, antes, uma entrevista exclusiva, ao vivo, para o "Fantástico".

Claro que, nos dias seguintes, quem virou a Geni da imprensa fui eu, obrigado a ouvir desaforos de todos os outros jornalistas que estavam no hotel esperando a coletiva.

Enquanto Serra e Dilma murcham no noticiário, com sabatinas, entrevistas e eventos sem nenhuma repercussão, Dunga virou assunto de todas as manchetes, matérias, colunas, blogs, até de quem sempre achou o futebol um assunto menor, coisa de ignorantes e fanáticos. De uma hora para outra, ele tomou o lugar de Lula como inimigo número um da imprensa livre.

Há, de fato, algo em comum entre os dois polêmicos personagens: mais do que o resultado do trabalho deles, o que se contesta é o seu modo de lidar com a própria imprensa, por não lhe dar a devida importância e a atenção que a instituição julga merecedora.

Não que eles não mereçam críticas, como qualquer figura pública, muito ao contrário, mas o espírito de manada do linchamento dá a impressão de que virou uma gincana para ver quem joga mais pedras no alvo do momento.

E se Dunga perder a próxima partida, o que pode acontecer? Ricardo Teixeira vai defender o seu treinador ou jogá-lo às feras? Pelo retrospecto, eu não tenho muitas dúvidas. Façam suas apostas, senhoras e senhores.

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Começou a contagem regressiva, a longa fase de despedidas do presidente Lula, a seis meses do final do seu segundo mandato.

Neste sábado, Lula e Marisa promoveram a última festa junina na Granja do Torto, uma tradição que mantiveram ao longo destes oito anos de governo.

Apesar do clima de despedida, foi a festa mais animada de todas, com mais gente, todo mundo vestido a caráter, uma noite de alto astral que varou a madrugada.

Marisa e sua nora Marlene capricharam na decoração e na mesa farta de doces e salgados típicos (cada convidado levou um prato), e serviram sopas (canja e caldo verde).

Em geral, costuma acontecer o contrário: na reta final dos governos, a história mostra que as festas do poder começam a se esvaziar e até o café é servido frio nos gabinetes.

Estavam na procissão que saiu antes da festa começar, além da família Silva e dos amigos de sempre, muitos dos atuais ministros e alguns que já deixaram o governo há tempos (Luiz Fernando Furlan e Mares Guia). Também teve muita gente nova no pedaço, como o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes.

Os mais animados, como de costume, eram os anfitriões, que faziam estas festas juninas na chácara deles, a "Los Fubangos", em São Bernardo do Campo, desde os tempos em que Lula era apenas um candidato a presidente.

O casal Silva passou boa parte da noite tirando fotografias com os convidados, como se fossem noivos de verdade na festa caipira.

9214 1024x644 Última festa junina da família Lula no Torto

Na festa do sábado e ao longo de todo o domingo, no churrasco que antecedeu o jogo da seleção brasileira contra a Costa do Marfim, Lula quase não falou de política, mas dos seus planos para quando deixar o governo, ou melhor da falta de planos.

O presidente até ri quando fala da sua vida pós-governo e do tanto que já se escreveu sobre o que ele vai ser ou fazer. "A única coisa que sei é que vou passar um mes só descansando. Vou ficar no sofá e a Marisa vai toda hora me mandar levantar os pés pra limpar a poeira..."

Lula parece estar vivendo a melhor fase do seu governo. De bem com a vida, brinca com todo mundo o tempo todo. Nas poucas vezes em que falou de política, assunto que evita nos finais de semana, foi só para mostrar uma certeza que ninguém lhe tira. "Vamos ganhar estas eleições no primeiro turno".

DEN10FESTAJUNINATORTO2 1024x682 Última festa junina da família Lula no Torto

Só ficou sério na hora do jogo do Brasil, sentado entre Marisa e o ministro dos Esportes, Orlando Silva, na primeira fila de cadeiras colocadas em frente a um telão instalado na varanda da Granja do Torto.

Cercado pela família e pelos amigos, umas trinta pessoas, o presidente Lula viveu um final de semana igual ao de milhões de brasileiros, com festa junina, churrasco, chope e futebol.

Do mesmo jeito que costumava brincar comigo quando lhe peguntava como estavam as coisas, nos tempos em que presidia apenas o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, repetiu a velha frase no final do dia: "Se melhorar, estraga...".



Antes do domingo acabar, porém, ainda com a camisa da seleção,  Lula teve que juntar ânimo para atender a equipe de Franklin Martins que já estava à sua espera para gravar o programa semanal de rádio "Café com o Presidente". Um dos temas, claro, foi a nova vitória da seleção.

O domingo acabou com uma bela sopa de legumes, servida enquanto os Silva faziam planos para a reabertura do Planácio do Planalto, prevista para o final do mês de julho, quando o casal voltar de mais uma viagem pela África. Depois de visitar vários países africanos, eles vão assistir à final da Copa na África do Sul.

Em breve, o casal estará de volta a São Bernardo do Campo. Vai levar boas lembranças da Granja do Torto e dos seus tempos de Brasília.

LAT4FESTAJUNINATORTO Última festa junina da família Lula no Torto

Em tempo: leitores me cobram um comentário sobre a vitória do Brasil no domingo contra a Costa do Marfim. Já se falou e escreveu tanto a respeito do jogo que só posso acrescentar que melhoramos muito em relação ao primeiro jogo e, como não há muita lógica nesta Copa da África do Sul,  ao final o Dunga poderá provar que ele estava certo e o mundo todo errado. Faltam apenas cinco jogos para o hexa. Há esperanças, apesar de tudo...

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Caros leitores,

embarco de novo daqui a pouco, desta vez para Ribeirão Preto, onde participo nesta sexta-feira, ao lado do mestre Zuenir Ventura, de um debate no Salão de Idéias da tradicional Feira do Livro. De lá, vou para Brasília e só volto na segunda-feira à noite. Atualização do blog e moderação de comentários vão ficar um pouco prejudicados. Decidi não levar mais o notebook nas viagens, ainda mais com uma costela quebrada...

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Acabei de ver agora o passeio que a Argentina deu na Coréia do Sul, um exemplo de como o time mais forte se impõe ao mais fraco do primeiro ao último minuto do jogo. Terminou 4 a 1, mas poderia ter sido bem mais, tal foi a superioridade do time de Maradona.

Ao final desta primeira semana de Copa, o técnico argentino desponta como a grande estrela na África do Sul. Depois de se classificar com a maior dificuldade, e só no último jogo das eliminatórias, contra o Uruguai, um Maradona agora confiante, cheio de gás e de amor para dar, é a própria encarnação do futebol de garra e talento que coloca a Argentina como uma das seleções favoritas neste Mundial, ao lado da seleção da Alemanha.

De terno cinza e gravata prateada, poderia fazer sucesso como cantor de tango no bairro da Boca, onde fica o lendário estádio que o consagrou para o futebol. Quase o tempo todo em pé junto ao banco de reservas, não para quieto um minuto, abre e fecha os braços, como se tocasse um bandoneon imaginário, grita e gesticula freneticamente, dando o ritmo aos seus atletas, que parecem ter um só objetivo em campo: marcar gol, muitos gols.

Pouco importa quanto está o resultado da partida. A Argentina de Maradona joga seu futebol e deixa o adversário jogar, mais ou menos como o time do Santos de Dorival Júnior tem feito por aqui, encantando as platéias brasileiras.

Onde está escrito que para ser campeão do mundo tem que jogar o anti-futebol, preocupar-se mais em defender do que em atacar, não ousar um drible ou fazer um lançamento em profundidade, como faz o time de Dunga?

A alegria de Maradona ao invadir o campo ao final do jogo para abraçar e beijar cada um dos seus jogadores, e até cumprimentar o trio de arbitratgem, é o melhor retrato do melhor futebol mostrado até agora na África do Sul.

Nem sempre o melhor time chega ao título, sabemos disso, há mil e uma variantes que podem decidir uma Copa do Mundo. Mas dá gosto ver esta Argentina jogar e alegrar os estádios, tocar a bola com carinho, inverter o jogo a toda hora e deixar o adversário zonzo, sem saber a quem marcar.

A diferença é essa: Maradona procurou montar um time de 11 Maradonas, à sua imagem e semelhança, enquanto Dunga escalou uma seleção com 11 Dungas. Se Messi aparece como a reeencarnação do seu técnico e ídolo, na seleção brasileira Gilberto Silva e Felipe Melo são a pobre contrafação do que foi Dunga como jogador. Quem sai ganhando nesta história?

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O recente e inédito encontro do presidente Raúl Castro com o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, reacendeu as esperanças para os presos políticos cubanos e seus familiares. Em cinco horas de reunião, na semana retrasada, os dois estabeleceram as bases para a Igreja Católica intermediar a transferência dos presos de consciência _ os que não cometeram crimes comuns com o emprego de violência _ para presídios próximos às suas famílias.

Fontes do primeiro escalão do governo cubano já admitem que, até o final deste ano, podem ser libertados os 52 dissidentes que ainda restam detidos, de um grupo de 75 que foram presos em março de 2003, muitos deles condenados a até 28 anos de cadeia.

O primeiro passo foi dado esta semana. Ariel Sigler Amaya, condenado a 20 anos de prisão,  foi libertado e já se encontra na casa da família, em Matanzas, a 100 quilômetros da capital. Paraplégico e com graves problemas de saúde, ele estava internado no Hospital Julito Diaz, em Havana.

Após o encontro de Raúl com Ortega, outros seis presos já foram transferidos para locais próximos às suas residências: Hector Gutierrez, Juan Adolfo Sainz, Omar Hernández, Efrén Fernández, Jesus Mustafá Felipe e Juan Carlos Acosta. Do grupo inicial de 75, 21 já haviam sido libertados por "licença judicial" e um por ter cumprido a pena.

Foi neste clima de diálogo e distensão que, na segunda-feira, chegou a Cuba o arcebispo Dominique Mamberti, secretário do Vaticano, para presidir a Semana Social Católica, que vai até o dia 20. Espera-se que no encontro marcado entre o arcebispo e o chanceler cubano Bruno Rodriguez também seja tratada a questão dos presos políticos, em que a Igreja Católica volta a exercer um importante papel.

A história das relações entre o governo cubano e a Igreja Católica é feita de muitas idas e vindas, encontros e desencontros ao longo destes últimos 30 anos, quando os dois lados voltaram a se falar, o que não acontecia desde 1964. Na minha primeira viagem a Cuba, em 1980, testemunhei o encontro em que Fidel Castro pediu a Frei Betto para ajudá-lo a retomar o diálogo com a Igreja Católica cubana.

O frade dominicano condicionou a aceitação do convite à aprovação dos bispos cubanos. No ano seguinte, a Conferência Episcopal de Cuba aprovou a intermediação de Frei Betto e ele passou a ir a Havana de três a quatro vezes por ano em função desse trabalho.

O que contribuiu bastante para melhorar as relações entre o governo e o arcebispado cubano foi a longa entrevista concedida por Fidel a Frei Betto, em 1985, que resultou no livro "Fidel e a Religião". O livro já vendeu 1,3 milhão de exemplares em Cuba, um recorde na história do país.

Em consequência das declarações de Fidel sobre religião, bem recebidas pelos bispos, iniciou-se um processo de abertura em relação à Igreja Católica, com duas mudanças institucionais importantes: na Constituição do país, que tirou seu caráter ateísta e declarou o país laico, e nos estatutos do Partido Comunista, que também deixou de ser ateu e passou a ser laico, aceitando cristãos e comunistas com fé religiosa em suas fileiras.

Esta caminhada conjunta seria interrompida em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Convencidos de que o efeito dominó logo chegaria a Cuba, os bispos dispensaram a intermediação de Frei Betto e romperam o diálogo com o governo.

O frade dominicano, porém, continuou nas suas visitas a Havana e, em 1998, foi convidado por Fidel, junto com mais quatro teólogos, entre eles, Leonardo Boff, a assessorá-lo durante a visita do Papa João Paulo 2º ao país.  Foi a pedido do Papa que um grupo de presos seria libertado após a visita e dezenas emigraram para outros países, que lhes concederam vistos, desde que não tivessem cometido crimes de sangue.

Este episódio foi destacado em entrevista concedida recentemente pelo cardeal Jaime Ortega à revista Palabra Nueva. Anos antes da visita de João Paulo 2º , lembrou o arcebispo de Havana, outro grupo de presos cubanos havia sido libertado graças à intervenção da Igreja Católica:

"Com a participação da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, na década dos 80, saiu do cárcere um bom grupo de presos, que, junto com seus familiares mais próximos, partiram para os Estados Unidos. Considerados todos juntos, prisioneiros e familiares, foram mais de mil os que, em vários vôos custeados pelos bispos norte-americanos, sairam de Cuba".

No final de sua entrevista, o cardeal faz um apelo ao entendimento: "Em suma, neste tempo difícil, a Igreja de Cuba pede a oração e a ação de todos os que crêem para que o amor, a reconciliação e o perdão abram espaço entre todos os cubanos daqui e de outras latitudes".

O diálogo entre bispos e autoridades do governo já havia sido retomado em 2008, mas foi só no início de junho agora que Raúl Castro e Jaime Ortega se encontraram pela primeira vez para acertar os ponteiros, sem intermediários. Há boas razões e esperanças de que, desta vez, venham da ilha boas notícias sobre o futuro dos presos políticos. Já não era sem tempo.

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O trânsito virou um inferno na hora do almoço em São Paulo, o oba-oba na televisão e no rádio começou cedo, a cidade se enfeitou toda de verde e amarelo e a moçada fez um barulho infernal com cornetas e buzinas pelas ruas e nos botecos. Na hora da bola correr, porém, a seleção brasileira mostrou pouco futebol para tanta festa na sua estréia contra a Coréia do Norte na Copa do Mundo.

A seleção do Dunga parecia um time de pebolim: todo mundo parado em linha, esperando a bola, tocando de lado, até arriscar um chute a gol. As caras amarradas do técnico e dos jogadores saindo dos vestiários para entrar em campo já prenunciavam o que viria: um time amarrado, burocrático, melancólico, alguma coisa que lembrava vagamente a criatividade do futebol búlgaro dos anos 50.

A única coisa que chamou a atenção nesta seleção brasileira de 2010 ficou fora do campo. Como chamar aquilo? O traje, a fantasia, o figurino do técnico Dunga? Nem em novela de época se usa mais aquilo. Que personagem ele estaria representando? Um porteiro de boate high-tech? Ou o bispo de alguma nova igreja pós-tudo?

Posso mais uma vez queimar a língua, e o Brasil de Dunga conquistar o hexa _ até porque, pelo que as outras seleções jogaram até agora,  não apareceu nenhum bicho papão se destacando como favorito na África do Sul.

O Brasil conseguiu apenas se nivelar à mediocridade do futebol jogado nesta primeira fase da Copa. Craques como o nosso Kaká viraram manés, jogadores indiferenciados como qualquer estrela da seleção japonesa.  

Vai ver que o Dunga está certo, e o mundo todo, errado. Ou o mundo todo resolveu seguir o estilo Dunga de ser? Desse jeito, podemos até ser campeões, qualquer país pode, até a Coréia do Norte ou a Costa do Marfim, que ficou no 0 a 0 com Portugal. Seja quem for, será o pior campeão do mundo da história.

A continuar assim, a Copa do Mundo pode terminar batendo recordes negativos de audiência na televisão e de público nos estádios. Ninguém vai aguentar por muito tempo ver tanta chatice em campo e nas telas.

Nem a empolgação de um Galvão Bueno dá jeito nisso. O futebol nunca movimentou tanto dinheiro e, no entanto, jamais ofereceu tão pouca diversão ao público. Será uma coisa consequência da outra?

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SANTIAGO DO CHILE _ "Óptima evaluación técnica post terremoto", promete o anúncio publicado pela imobiliária Bravo e Izquierdo na revista de domingo do jornal La Tercera. Foi a única referência que encontrei na imprensa sobre o terromoto que abalou o país na madrugada de 27 de fevereiro deste ano, deixando quase 800 mortos.

Mais uma vez, este país de 15 milhões de habitantes, com renda per capita (US$ 10,5 mil) maior do que a do Brasil (US$ 7,9 mil), abalado por grandes terremotos a cada 25 anos, está fazendo do limão uma limonada. Com recursos públicos e, principalmente, privados, as regiões abaladas pelo tremor, que chegou a 8,8 pontos na escala Richter, estão sendo reconstruídas com o emprego de novas tecnologias em tempo recorde.

Em menos de seis meses, depois do terremoto e do tsunami que atingiu as cidades da Costa do Pacífico, e com uma sucessão presidencial no meio, o país vive num clima da mais absoluta normalidade, transformado num imenso canteiro de obras, com modernos prédios sendo erguidos por toda parte, tanto na capital como no interior.

A começar pelo aeroporto de Santiago, que foi bastante atingido pelo terremoto e passou duas semanas fechado, onde restam apenas pequenos consertos a fazer, são raros os sinais da tragédia na capital, que abriga quase metade da população do país. Além dos sistemas de água, luz e comunicações, que precisaram ser refeitos em grande parte da cidade, os maiores prejuízos aconteceram dentro das casas e edifícios, não dá para ver de fora.

O epicentro do terremoto se deu na cidade de Constitucion, 500 quilômetros ao sul de Santiago, mas praticamente todo o país sofreu com os abalos. Entre os maiores prejudicados estão os trabalhadores da indústria da pesca, que é muito forte no Chile. Embora tivesse viajado a passeio, sem nem levar o notebook, logo comprei um caderno de anotações para, na volta, poder contar a vocês o que vi neste país com ares europeus, onde não ia faz mais de vinte anos.

Como estava hospedado na casa de José Graziano, o primeiro ministro do Fome Zero, meu velho colega de campanhas eleitorais com Lula, que já está há quatro anos no Chile como diretor regional da FAO (orgão da ONU de combate à desnutrição) para América Latina e Caribe, aproveitamos o belo dia de sol no sábado para visitar uma região pesqueira na região de Santo Domingo, a 120 quilometros de Santiago, na direção do Pacífico.

Pegamos a Ruta del Sol, uma belíssima estrada margeada por vinhedos e plantações de frutas e legumes, e seguimos até o distrito de Llolleo, no município de San Antonio, onde fica o Sindicato dos Trabalhadores Independentes e Pescadores Artesanais.

Ali ainda são visíveis as marcas da destruição. Logo na entrada, formou-se um grande lago, a poucas quadras do mar, onde antes havia um condomínio, o Ojo de Mar, com 120 casas de veraneio. Foram todas destruídas. Colchões, geladeiras, móveis, pedaços de telhados, brinquedos, está tudo boiando na água até agora. Muitos imóveis que resistiram ao tsunami e ao terremoto estão à venda.

O jovem pescador Luis Arnijo, de 20 anos, estava na praia montando a rede no bote a remo com mais seis colegas, às 3h30 da madrugada de 27 de fevereiro, quando a água quente começou a brotar da areia e se formaram ondas gigantes de até 17 metros de altura. Cinco pescadores morreram naquela madrugada.

Sem se mostrar abalado com a tragédia, ele conta que a vida dos pescadores já voltou ao normal. Agora é epoca de pesca de robalo, um peixe nobre, de bom preço no mercado. "Às vezes, conseguimos trazer mais de mil quilos de pescado".

Na entrada da sede do Sindicato dos Pescadores, encontramos o diretor David Alberto Quiroz Ortiz, 65 anos,  consertando uma rede junto com alguns colegas. "Estamos recomeçando", diz ele, resumindo um sentimento que se espalha por este país que não entrega os pontos.

Trabalhando no mar desde os 13 anos, como o avô e o pai, sempre com botes a remo, David vive até hoje da pesca de corvina, robalo, toyo, pejegallo, vendidos no mercado de San Antonio ou levados para Santiago, quando a produção é maior. São 110 pescadores aqui na boca do rio Maipo, que se queixam da dificuldade para pescar. "O movimento telúrico mudou toda a geografia, a gente precisa se reacostumar para saber onde está o peixe. A produção caiu mais de 50%".

Para ajudar os pescadores chilenos neste "recomeço", a FAO já destinou uma verba superior a US$ 1 milhão, segundo Alejandro Flores Neiva, um mexicano responsável pelo setor de aquicultura e pesca. O maior problema dos pescadores da região no momento, além das mudanças no mar provocadas pelo tsunami, são os condomínios fechados que impedem o acesso dos botes.

Até agora, de acordo com o presidente do sindicato, Oswaldo Duarte Echeverria, não chegou nenhuma ajuda oficial do governo chileno, mas a FAO prometeu ajudá-los e já está em entedimentos com a sub-secretaria de Pesca do Ministério da Economia para fazer um recadastramento dos pescadores de Llolleo.

As fendas na terra destruiram também parte de um parque infantil ao lado do sindicato. Próximo dali vimos a todo vapor as obras de reconstrução da Ponte Lo Gallardo, com mais de dois quilômetros de extensão, construída a 500 metros das ruínas da antiga ponte, destruída pelo terremoto de 1960.

Fomos também ao importante porto de Valparaiso, cidade vizinha da turística Vinã Del Mar, onde Garrincha deu seus shows na Copa do Mundo de 1962 em que o Brasil se sagrou bicampeão do mundo. Em toda parte, brasileiros são maioria nas excursões dos turistas que não se abalaram com o terremoto e continuam chegando às estações de esqui, que agora estão abrindo suas temporadas de inverno.

Se alguém ainda estiver temeroso, pode vir tranquilo porque o terremoto já faz parte da história e o próximo só deve acontecer daqui a 25 anos. Uma sugestão: fazer uma visita às vinícolas e, principalmente, aos seus belos restaurantes, como o da Viña Casa Del Bosque, no Valle Casablanca, onde servem um cordeiro da Patagônia que vale a viagem.

Nem só de Copa do Mundo e eleições é feita a vida. Foram cinco belos dias de viagem, graças à hospitalidade do velho Graziano e de sua mulher, a jornalista Paola Ligasacchi, que nos mostraram um pouco das belezas chilenas, onde vive um povo amável que trata muito bem os brasileiros. Chega de escrever. Daqui a pouco, tem Brasil na Copa. Vida que segue.

Em tempo: demorei um pouco para escrever este texto porque voltei na noite de segunda-feira e fui direto para o hospital. Descobri que quebrei uma costela. Parece mentira, mas não foi numa estação de esqui _ foi antes de sair de casa, para ir ao Valle Nevado, na hora de calçar a bota. Dei um mau jeito e ploc... Já perdi a conta de quantas costelas quebrei na vida. Coisa de velho... Nada grave. Já estou em casa. Só dói quando respiro...

1 Viagem pelo Chile, um país em reconstrução

O jovem pescador Luis Arnijo mostra a destruição e o local ao fundo, na beira do mar, onde estava na hora do tsunami / Foto: José Graziano

2 Viagem pelo Chile, um país em reconstrução

David Ortiz (de boné, à esquerda), diretor do sindicato dos pescadores, consertando a rede / Foto: José Graziano

3 Viagem pelo Chile, um país em reconstrução

Obras na Ponte Lo Gallardo / Foto: José Graziano

4 Viagem pelo Chile, um país em reconstrução

Destroços na beira do rio Maipo / Foto: José Graziano

5 Viagem pelo Chile, um país em reconstrução

Fendas do terremoto no parque infantil ao lado do sindicato / Foto: José Graziano

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Caros leitores,

com o post abaixo, encerro minhas atividades no Balaio esta semana. Vou passar cinco dias no Chile, a passeio, sem levar meu notebook. Na volta, prometo contar a vocês o que vi naquele belo país andino, aonde não vou faz muito tempo. Boa Copa para vocês e que o Dunga nos prove que o mundo estava errado e ele certo.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Não é todo dia, mas, de vez em quando acontece. Ao pegar o jornal e abrir o computador, só encontrei boas notícias na manhã ensolarada desta quarta-feira paulistana. Como sou viciado em informação (ver post anterior),  quando leio coisas boas acontecendo me sinto mais animado a enfrentar nova jornada de trabalho, começo a achar todo mundo mais simpático, a vida mais bela.

As manchetes dos jornais destacam, como vocês já sabiam desde ontem, que o nosso PIB registrou a maior alta dos últimos 14 anos _ crescimento de 9% no primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano anterior _ e a home do iG acaba de nos informar que "Inflação recua no dia do Copom". O IPCA de maio recuou 0,14% em relação a abril e foi o menor do ano, segundo o IBGE.

Juntou a fome com a vontade de comer: economia em alta e inflação em queda é o ciclo virtuoso sonhado desde que os economistas começaram a medir a nossa felicidade em números. É o que, em última instância, determina o aumento no número de empregos e o crescimento da renda do trabalhador, objetivo principal de qualquer governo.

Com isso, ficamos também livres da notícia enguiçada dos tais dossiês de que todo mundo fala e ninguém vê, que desapareceu milagrosamente das páginas. Voltamos à vida real com fatos positivos, antes confinados na coluna "Toda Mídia", do Nelson de Sá, na Folha, que reproduz o que se escreve sobre o Brasil lá fora.

Claro que nem todo mundo vai ficar feliz com estas boas notícias e sempre acrescente a elas um "mas...", para prever coisas ruins mais adiante, embora outro dado nos inspire otimismo sobre o futuro da economia: houve uma expansão de 26% nos investimentos este ano, na comparação com o primeiro trimestre de 2009, a maior taxa da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

Mesmo com o fim da redução do IPI, que o governo adotou durante a crise, o nível de emprego na indústria automobilística voltou a crescer em maio e assim deve se manter, segundo o presidente da Anfavea, Cledorvino Belini. O setor bateu novo recorde, com a produção de 1,43 milhões de veículos este ano.

Para onde você olha, em todos os setores, tem notícia boa nos cadernos de economia. Na política, é aquele rame-rame de sempre,com o dia dos candidatos, o que eles falaram ou deixaram de falar um do outro, as especulações sobre o vice do Serra e as convenções partidárias marcadas para este final de semana, coincidindo com o início da Copa do Mundo.

Diante deste quadro favorável, meu colega Fernando Rodrigues, em sua coluna na Folha, resume assim o momento vivido pelo país neste começo de junho, a menos de quatro meses das eleições:

"O cenário da sucessão presidencial deste ano é único desde a volta do país à democracia, em 1985. Há um trinômio nunca visto: economia superaquecida, presidente muito popular e candidata favorita neófita nas urnas".

De fato, presidentes em fim de mandato costumam registrar popularidade em queda, o contrário do que acontece com Lula, que registrou aprovação recorde de 76% no último Datafolha, como lembrou Rodrigues em seu texto. Só pode haver uma explicação para isso: exatamente estas boas notícias da economia, que é o que realmente importa para quem vive do seu trabalho e tem contas a pagar no final do mês. O resto, como costumam dizer os outros, é trololó.

  

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Publicado em 08/06/10 às 12h15

Como não virar escravo da internet?

61 Comentários

Já somos quase 70 milhões os brasileiros ligados à grande rede e estamos entre os maiores consumidores de internet no mundo. Segundo pesquisa Ibope Nielsen Online, consumimos em média 66 horas por mês navegando em alguma das mil plataformas que o mercado não para de criar. Dá mais de duas horas por dia.

Além do nosso tempo, gastamos também um bom dinheiro para isso: de acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a assinatura de serviço de internet banda larga já responde por 9,6% da renda média dos usuários.

Pela internet, podemos fazer de um quase tudo: trabalhar, estudar, nos informar, brincar, namorar, jogar, comprar, fechar negócios, cuidar dos filhos, acompanhar novelas ou o futebol, até fazer sexo à distância.

Do primitivo e pesadíssimo computador portátil do começo dos anos 90 do século passado, que a gente chamava de "marmita" nas redações, e que depois ganhou uma infinidade de nomes e modelos, aos iPad e iPhone e o diabo a quatro, foi uma evolução tão rápida e violenta que nem nos demos conta de como a internet mudou as nossas vidas.

Quando fui convidado pelo jornalista Caio Túlio Costa, então presidente do iG , no começo de 2008, a criar um blog no portal, resisti até onde pude, argumentando que já estava velho para virar um escravo da internet, tinha medo de deixar de ser dono do meu tempo.

Além disso, achava que já havia blogs demais no mercado e, um a mais ou a menos, não faria a menor diferença nesta selva eletrônica. Pois ele acabou me convencendo, argumentando, além de oferecer um bom salário, que esta era a melhor forma de prosseguir no jornalismo, que não havia futuro para nós fora da internet. 

No começo, ainda procurei me disciplinar, reservando horários para atualizar o blog e fazer a moderação de comentários. Com o passar dos dias, este tempo foi-se alargando gradativamente, sem que eu percebesse. Virou um trabalho online full-time, em que abro o computador antes das nove da manhã e só fecho depois das nove da noite, em dias normais.   

Fora o trabalho no Balaio propriamente dito, esta função de blogueiro me obriga a acompanhar o noticiário nos diferentes portais e a estar sempre consultando as mensagens que recebo sem parar porque é daí que tiro novos temas para poder comentar.

"Você está ficando viciado nisso!", a família começou a reclamar, com razão. Não adiantava explicar que este é meu trabalho, meu ganha pão, o que me permite pagar as contas no fim do mês, e não um hobby, um brinquedo eletrônico como acontece com muita gente que não sai do computador.  

No último feriadão, durante o retiro espiritual anual com os meus Grupos de Oração num hotel-fazenda no interior de São Paulo, dei-me conta do estágio a que havia chegado. O tema do encontro era "Alegria e Silêncio", mas eu continuava na mesma rotina como se não tivesse saído do meu escritório.

Procurei me dividir entre as atividades dos grupos, o convívio com a mulher, os amigos e os três netos que foram com a gente e o notebook, sempre ligado na varanda da piscina _ algo, claro, impossível de conciliar.

"Fecha esse negócio!", cansaram de me pedir os amigos e os netos toda vez que me viam trabalhando. Era como se eu fosse um ET num ambiente dominado pela meditação, a espiritualidade, o transcendente, por alguns dias deixando as pessoas longe do mundo externo e dos seus compromissos.

Ninguém queria saber das notícias que não paravam de ser produzidas em algum lugar lá fora. E para mim era difícil me concentrar nos textos bíblicos e nas reflexões levantadas pelos companheiros orantes. Dava a impressão de vivermos em dois mundos diferentes. Prometi aos colegas que não levarei mais o notebook nos nossos próximos retiros. Eles tinham toda razão ao me repreender, e aproveito para agradecer a todos.

Lembrei-me do amigo Zélio Alves Pinto, o grande cartunista e artista plástico, também membro dos Grupos de Oração, mas que não estava neste retiro. Ele passava o dia criando suas obras no ateliê instalado nos fundos da sua casa. Um dia, seu filho Fernando, que estava começando a ir à escola, lhe perguntou:

"O senhor nunca vai trabalhar como os pais dos meus colegas, que saem de manhã e voltam à noite? Fica só aí desenhando o dia inteiro?"

Como acontece com meus netos, Zélio também teve dificuldades para explicar a Fernando que aquele era seu trabalho.

Mas ainda bem que não estou sozinho nesta batalha, dividido entre o trabalho na internet, a família e os amigos, sem falar nos outros compromissos profissionais (reportagens para a revista Brasileiros, palestras, consultorias).

"Abuso de aparelhos eletrônicos provoca conflito cerebral", leio hoje na página C9 da Folha, que trata exatamente deste problema.

Trecho da matéria de Matt Richtel, reproduzida do "The New York Times":

Quando um dos e-mails mais importantes da vida de Kord Campbell chegou à sua caixa de entrada, há alguns anos, passou batido por 12 dias. Uma companhia grande queria comprar sua empresa de internet.

A mensagem tinha passado por ele em meio a um mar de eletrônicos: duas telas de computador com e-mail, chats, navegador de internet e o código de um programa de computador que ele estava escrevendo.

Mesmo conseguindo salvar o negócio de US$ 1,3 milhão, Campbell continua a se debater com os efeitos do excesso de informação.

Depois de se desplugar, ele sente falta do estímulo que recebe de seus "gadgets". Campbell se esquece do jantar e não consegue se concentrar na família.

Cientistas dizem que fazer malabarismo com e-mail, celular e outras fontes de informação muda a maneira como as pessoas pensam. Nossa concentração está sendo prejudicada pelo fluxo intenso de informação.

Esse fluxo causa um impulso promitivo de resposta a oportunidades ou ameaças imediatas. O estímulo provoca excitação - liberação de dopamina - que vicia. Na sua ausência, vem o tédio.

Como não adianta só constatar as coisas e não tomar nenhuma providência prática, vou fazer uma experiência esta semana. Embarco na quinta-feira com minha mulher para uma viagem de lazer ao Chile, algo que não nos permitimos faz muito tempo, a convite do meu velho e bom amigo José Graziano e sua doce mulher Paola. Desta vez, não vou levar o notebook nem procurar uma lan house.

Já escrevi demais por hoje. Preciso ir ao barbeiro e tomar várias providências para a nossa viagem. Deixo a pergunta do título para os caros leitores responderem.

Tem jeito?

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A partir desta semana, com o início da Copa da África do Sul, cessa tudo o que a antiga musa canta, e vamos ficar mais de um mês falando de seleção brasileira. Saem de cena Dilma e Serra, assumem o protagonismo Dunga e seus guerreiros. Quem está bem ou quem está mal no Brasileirão vai ter tempo de descansar, arrumar o time e começar tudo de novo.

Todo ano de Copa é assim e, desta vez, as surpresas estão mais no futebol do que na política. Se todos já esperavam um Fla-Flu acirrado entre os candidatos do PT e do PSDB, como tem acontecido desde 1994, o fato novo de 2010 é a luta pela liderança do Brasileirão. Quem poderia imaginar o Ceará disputando pau a pau o primeiro lugar com o Coríntians, os dois com 17 pontos ganhos, com o mesmo número de vitórias e ainda invictos?

Na campanha eleitoral, vai ser mais difícil acontecer alguma surpresa. A menos de quatro meses de irmos às urnas, as últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha indicam outro empate (37 a 37) entre os dois principais candidatos, mas as curvas mostram a subida de Dilma e a queda de Serra na estimulada, e a vantagem da petista na espontânea (19 a 15).

O dado que mais me chamou a atenção no Ibope divulgado neste fim de semana é que Lula ainda tem 12% na pesquisa espontânea, fato que a matéria da Folha ignorou, um claro indicador de que a sua candidata ainda tem uma estrada para crescer á medida em que o eleitorado se convencer de que o presidente não pode disputar a reeleição.

A única vez, depois da redemocratização, em que houve uma inversão de posições dos candidatos durante a Copa do Mundo, foi em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso, a bordo do Plano Real, ultrapassou Lula e a partir daí caminhou para uma tranquila vitória no primeiro turno.

Desta vez, sem Plano Real, a única chance do candidato do PSDB virar o jogo é provar ao distinto eleitorado que é ele o verdadeiro candidato de Lula, e não Dilma, para dar continuidade aos programas do atual governo. Não será fácil, convenhamos.

Bem que no início da campanha, na fase "Serrinha Paz e Amor", ele tentou esta estratégia, elogiando Lula sempre que podia e garantindo que manteria todos os programas do atual governo.  Mas as últimas pesquisas, mostrando a crescente transferência de votos de Lula para Dilma, o fizeram mudar de rumo e de conduta, assumindo de vez a cara e o discurso de candidato de oposição.

O problema é que, nesta campanha, quem faz o papel de Plano Real, o fator capaz de desequilibrar a disputa, é o próprio Lula, com os sempre crescentes índices de aprovação e de popularidade do seu governo _ e a oposição não tem como colocar novos planos em prática, apenas prometê-los para o futuro. Entre um pássaro na mão e dois voando, o histórico das eleições mostra que o público prefere ficar com a primeira opção.

A seu favor, José Serra tem neste mês de junho três programas na televisão e, Dilma, nenhum. O desafio é o que dizer e propor nestes programas, disputando a atenção e a audiência justamente com a Copa do Mundo. Bolívia, Mercosul, trimonialismo, novos ministérios, autonomia do Banco Central e guerra de dossiês, os trunfos até agora empregados, talvez não sejam temas capazes de emocionar a torcida nesta altura do campeonato.

Resta-lhe o trunfo da indicação do vice, o que neste momento, com a indefinição do nome, em vez de servir para dar um novo gás na campanha, mais atrapalha do que ajuda a sua caminhada, já que Aécio continuava irredutível.  

De outro lado, enquanto espera de camarote que prossiga a natural transferência de votos dos que se convencerem de que Lula não é nem pode ser candidato, Dilma Rousseff precisa se preocupar mais com a sua retaguarda do que com grandes lances ofensivos. Basta não errar mais, armar bem a defesa e só avançar em contra-ataques, mais ou menos como a seleção de Dunga.

Depois de um início de campanha capenga, como foi constatado aqui no Balaio, a candidata do governo aparentemente conseguiu acertar o prumo, mas as recentes brigas internas no comando político, que desaguaram no até agora mal explicado episódio do "dossiê", mostram que ela precisa redobrar seus cuidados para não levar bola pelas costas.

Minas, mais uma vez, pode ser o fiel da balança, ao contrário do que acontece no Brasileirão, onde seus times vão mal das pernas (o Cruzeiro, em 11º, e o Atlético, na zona de rebaixamento). É lá que será decidida, provavelmente ainda hoje, a aliança nacional entre PT e PMDB. Se o PT bater o pé e não apoiar Hélio Costa para governador, pode ir para o espaço a aliança com Michel Temer de vice e o latifúndio de tempo do PMDB na eleição, o grande trunfo do governo para, depois da Copa, mostrar que Lula é Dilma e jogar no plebiscito contra o PSDB de Serra e FHC.  

Mas as últimas notícias que chegam de lá também não são nada animadoras para o candidato da oposição. "Base de Aécio vacila em apoiar Serra", mancheteia a Folha desta segunda feira (página A6), informando que "de 264 prefeituras de PSDB-PPS-DEM em MG, 79 se disseram neutras, indecisas ou mesmo a favor de Dilma".

Ao se justificar, o prefeito de Nova Belém, Valdeci Dornelas (PPS), resumiu o sentimento tão mineiro que pode mais uma vez predominar nas eleições de 2010, como já aconteceu em 2002 e 2006, quando Lula e Aécio foram candidatos:

"Eu prefiro ficar quieto, deixa o povo ficar à vontade".

Em tempo: a última pesquisa do Ibope confirma mais uma vez o índice de 5% dos eleitores que consideram o governo Lula "ruim ou péssimo", tema do Balaio na semana passada, que gerou muita polêmica e mais de 1.300 comentários publicados (fora outro tanto que me vi obrigado a deletar por medida profilática em respeito aos leitores).

Em tempo 2: o Ultimo Segundo, do iG , informou agora à tarde que Hélio Costa será o candidato a governador da aliança PT-PMDB em Minas Gerais. Assim, está assegurada a chapa Dilma-Temer para a disputa da Presidência da República. Só falta agora definir o vice da chapa de José Serra, do PSDB-DEM-PPS. O empresário Guilherme Leal já havia sido confirmado como vice de Marina Silva, do PV.

Em tempo 3: vale um registro a competente apresentação do país da Copa do Mundo feita pela Fátima Bernardes na abertura do Jornal Nacional desta segunda-feira. Em poucos minutos, a repórter-apresentadora ou apresentadora-repórter nos levou ao coração da África do Sul, falou do dia da seleção brasileira, mostrou as torcidas, os estádios, a divisão entre brancos e negros, que ainda resiste no país da Copa. Lá, já passava da uma hora da madrugada, mas parecia que ela tinha acabado de acordar. Belo trabalho, Fátima.

Em tempo 4: na parte política, reparei que o JN continua sendo uma espécie de "Veja no ar", reproduzindo e repercutindo as matérias da revista, sem esquecer de abrir espaço para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), uma espécie de porta-voz oficial da oposição na Globo.

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TREMEMBÉ (SP) _ São pouco mais de quatro da tarde nesta bela região do Vale do Paraíba, aos pés da Serra da Mantiqueira, no caminho de Campos do Jordão.

Aqui viveram e construiram parte da sua obra dois grandes brasileiros, Monteiro Lobato e Mazzaropi, que muito admiro pela contribuição que deram à nossa cultura, cada qual no seu canto.

Na Fazenda Maristela, que já foi um mosteiro trapista,  começa a cair a temperatura, e a noite promete ser bem fria neste final de outono, embora ainda esteja tudo verde ao meu redor, e as flores lilazes e brancas dos manacás da serra resistam bravamente à chegada do inverno.  

Fomos os primeiros a chegar para o nosso retiro anual dos Grupos de Oração espalhados por São Paulo, Rio e Minas, que congregam mais de cem companheiros, sob a inspiração do nosso veterano frade, o Betto. O tema do encontro deste ano é muito bom: "Alegria e silêncio". Será possível conciliar uma coisa e outra?

Os netos foram passear com a avó e, assim, finalmente, arrumei um tempinho para atualizar este Balaio. Nada como um retiro numa fazenda cercado pela família e pelos amigos, depois do tiroteio desta semana no blog, justamente nos dias em que eu estava fechando uma reportagem de 44 páginas sobre o Novo Nordeste, o Brasil que mais cresce no Brasil, a ser publicada na edição de junho da revista Brasileiros.

Confesso que fiquei assustado com a violência dos comentários para cá enviados desde o começo da tarde de segunda-feira, como se alguém tivesse gritado "fogo na floresta!", atiçando a matilha, que invadiu este blog com uma ferocidade nunca vista antes.

No domingo, havia publicado um texto sem maiores pretensões, sob o título "Que Brasil é este dos 5% do contra?", apontando uma coincidência estatística nas pesquisas de todos os institutos, que sempre registram este índice dos que consideram o governo Lula "ruim ou péssimo".

Nem mais nem menos: são sempre os mesmos 5%, faz muitos meses, quaisquer que sejam as cicunstâncias do país naquele momento.

A partir desta curiosidade sugerida pelos números estáveis,  já que ninguém investigava o fenômeno, na imprensa ou na academia, levantei algumas perguntas sobre o perfil deste eleitorado cativo. Coisa de repórter curioso. Quem seriam estes 5%, o que pensam da vida?

Foi o que bastou para me chamarem, ao mesmo tempo, de comunista, fascista, judeu, nazista e petista, como se eu fosse um tira malvado que quisesse identificar os do contra para fichá-los e entregá-los à polícia. Que bobagem!

Creio que a maioria destes "comentaristas" profissionais nem leu o que escrevi. Vieram a mando, como se uma central de infâmias tivesse distribuído vários modelos de textos para me atacar,  não respeitando familiares e amigos, que nada tinham a ver com a história. Foi um verdadeiro massacre, mas decidi não responder, já que é absolutamente impossível argumentar diante da irracionalidade dos fanáticos.

Desde o primeiro dia deste Balaio, deixei bem claro aos leitores que não pretendia entrar na guerra dos blogueiros, já naquela altura bastante radicalizada, mas apenas contar as minhas histórias em mais de 45 anos de jornalismo, e falar dos fatos novos do dia a dia da vida real. Não pretendo convencer nem catequizar ninguém aqui, como acontece nestas seitas eletrônicas que se espalham pela internet. Não é a minha praia.

Às vezes dá um desânimo danado quando a gente tem que enfrentar a ignorância e/ou a má-fé de pessoas que fazem da guerra política a sua única razão de ser, e são incapazes de debater com um mínimo de civilidade. Por isso, peço desculpas aos leitores habituais do Balaio pelo que aconteceu esta semana.

Procurei eliminar as manifestações mais escatológicas, insanas e intolerantes, mas sempre escapa alguma coisa. Também não quero ser chamado de censor ou sectário por não publicar opiniões contrárias às minhas. Tenho pavor do pensamento único e dos donos da verdade. Mesmo assim, mais de 900 comentários estão publicados, a maioria contestando o que escrevi.

Como bem sabem os balaieiros mais antigos, aqui há espaço para manifestações de toda ordem. Recebo com tranquilidade as críticas que me fazem. Sempre é tempo de aprender com os outros, mas para tudo há um  limite.

Vou até evitar assuntos polêmicos nestes tempos de vale tudo da disputa eleitoral porque não quero entrar no jogo sujo dos pistoleiros de reputações alheias. Pelo menos, fiquei sabendo um pouco mais do que sentem, pensam e do que são capazes estes 5% que não respeitam os que apenas pensam diferente, ou seja, que a vida dos brasileiros melhorou nestes últimos oito anos.

Acho que o melhor a fazer neste momento é rezar para desarmar os espíritos, pedir que as próximas eleições sejam mais um motivo de festa da nossa jovem democracia _  não esta guerra insana que transforma eventuais adversários políticos em inimigos de morte. 

Quase todos os amigos já chegaram, e está escurecendo na Maristela. Vou parando por aqui. Até domingo, se nenhum fato novo justificar uma edição extraordinária do Balaio, pretendo me recolher à companhia dos netos e dos orantes neste lugar encantado, onde se respira paz, na certeza de que cada novo dia é um novo motivo para celebrar a vida, não a morte; o amor, não o ódio.  Vida que segue.

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