Publicado em 19/04/10 às 15h41

São Paulo tem que chamar o Baresi

145 Comentários

Vila Belmiro, 18 de abril, domingo, diante de 13 mil torcedores: os meninos do Santos dão um passeio nos senhores do São Paulo, metem 3 a 0 sem perdão e se classificam para os finais do Paulistão.

Pacaembu, 25 de janeiro, aniversário da cidade, diante de 23 mil torcedores: os meninos do São Paulo ganham por 3 a 0 dos meninos do Santos, nos penaltis, e conquistam o título invicto da Copa São Paulo de 2010.

Sim, havia 10 mil torcedores a mais no jogo dos juniores do que na semifinal de domingo.  Será que isto não diz nada aos dirigentes do São Paulo?

Bem diferente do jogo da Vila Belmiro, em que o time principal do São Paulo mais uma vez se arrastou em campo e não achou a bola, no confronto entre os juniores os dois times mostraram o mesmo futebol rápido, sempre em busca do gol, com ataques lá e cá, uma final emocionante. 

Eu assisti aos dois jogos e me lembro bem do que aconteceu, com sinais invertidos, num intervalo de pouco mais de  três meses. Mas parece que o técnico Ricardo Gomes e Juvenal Juvêncio, o sábio e todo-poderoso presidente do tricolor, não foram ao jogo do Pacaembu _ se foram, não viram nada, ou já se esqueceram.

"Na final da Copa São Paulo, o melhor do nosso futebol": este foi o título aqui do Balaio na matéria publicada poucos minutos após o final da partida, em que o goleiro Richard defendeu três penaltis e saiu carregado como herói.

Alguém já viu Richard pelo menos no banco de reservas do São Paulo, depois dos frangos que o grande Rogério Ceni vem levando ultimamemente? Não, nem Richard, nem qualquer outra revelação do time campeão de juniores.

Ao contrário do Santos, o São Paulo parece que tem vergonha _ ou medo, sei lá _ dos jogadores revelados nas suas equipes de base, que custam um bom dinheiro por ano ao clube.

Cadê o meia Oscar, que no final de 2008 o Muricy me disse que seria o novo Kaká _ e depois foi para a Justiça contra o clube, entre outros motivos porque não o colocavam para jogar, como aconteceu também com o lateral Diogo? Cadê o Sergio Motta e o Wellington, que desapareceram depois de serem promovidos ao time principal?

Além do goleiro Richard, este time campeão da Copa São Paulo apresentou um balaio de outros bons meninos que, se fossem do Santos, poderiam disputar uma vaga entre os titulares: o zagueiro e capitão Bruno Ovini, o lateral esquerdo Felipe, o volante Casemiro, um craque pronto, os meias Mercelinho (não este Paraíba que o São Paulo trouxe de volta depois de velho) e Jefferson, e os atacantes Ronieli (autor de um gol de placa, de fora da área, na final) e Lucas Gaúcho, o artilheiro da Copa São Paulo, com nove gols.

Este time do técnico Sérgio Baresi, um ex-zagueiro do próprio São Paulo, na contra-mão dos masters de Ricardo Gomes, marcou 29 gols em oito jogos e sofreu apenas três, com sete vitórias (várias de goleada) e um empate.

Se a diretoria do São Paulo não se lembra deles, pode procurá-los no CT de Cotia, onde devem estar asssistindo a muitos jogos pela televisão, comendo bem e aproveitando as horas vagas para pensar no que vão fazer da vida _ de preferência, longe do Morumbi, que prefere os Washingtons e os Richarlysons espancando a bola.

Por ironia do destino, lembro-me que, no mesmo dia da final dos juniores, Juvenal Juvêncio anunciou, com todo o garbo que lhe é peculiar, a contratação do grande Cleber Santana, que o Santos não quis mais porque não caberia num time de garotos.

Pois é exatamente isso que o São Paulo deveria fazer: dispensar o Cleber Santana e toda aquela turma com prazo de validade vencido e chamar os meninos, como o Santos fez, e se deu bem.

Como este time do São Paulo não vai mesmo muito longe na Libertadores, o São Paulo poderia dispensar seu elenco de veteranos e convocar Sergio Baresi, que já os conhece, para treinar os meninos no time de cima, e assim evitar um outro vexame no Brasileirão.  Ainda está em tempo.

Em tempo:  parabéns ao técnico Dorival Júnior e à diretoria do Santos pela coragem de dar fôrça e liberdade à molecada.  E o técnico Dunga? Será que já viu o que o Neymar anda jogando? Pode se informar com o Ricardo Gomes...

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Caros leitores,

tive problemas de conexão da internet neste fim de semana em Porangaba.

Por isso, muitos comentários, liberados por mim, não apareceram publicados, o que só consegui consertar agora, já na segunda-feira. Grato pela compreensão.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a semana

Balaio

Eleições 2010: 817

Pedofilia na Igreja: 668

Neymar na seleção: 142

Folha

Eleições: 84

Lula: 41

Chuvas: 36

Veja (não publica números)

Tragédia no Rio de Janeiro

Lya Luft

Gustavo Ioschpe

***

Nós ficamos aqui discutindo a semana inteira os diferentes resultados das pesquisas, como se este fosse o mais importante tema das eleições presidenciais deste ano, capaz de decidir seu resultado. Pura bobagem, como podemos verificar na manchete da Folha este domingo: "Renda no Brasil volta asubir no ritmo pré-crise _ Melhora está mais ligada ao rendimento do trabalho do que a programas como o Bolsa Família, diz analista".

O mesmo jornal, tão criticado pelos leitores por divulgar um Datafolha com José Serra dez pontos á frente de Dilma Rousef (38 a 28), no sábado, resultado bem diferente de outras pesquisas, publica neste domingo uma alentada reportagem do repórter Fernando Canzian que nos leva de volta à vida real dos brasileiros:

"No ano eleitoral de 2010, o aumento de renda no Brasil retomou os níveis anteriores à crise de 2009, e o poder de compra das famílias antigiu o maior patamar em uma década e meia. Além disso, a proporção de brasileiros abaixo da linha de miséria caiu 43% desde 2003", informa o jornal em sua primeira página.

"Distribuição de renda deve marcar eleição _ Melhora do poder aquisitivo retoma ritmo pré-crise; ganhos com o trabalho superam de longe os com benefícios sociais", acrescenta o jornal na manchete da reportagem publicada em duas páginas internas.

A reportagem de Canzian derruba esta balela de que a aprovação recorde do governo Lula (caiu de 76 para 73% no último Datafolha, dentro da margem de erro, mas ainda é a maior na série histórica do instituto) se deve apenas aos pobres do Bolsa Família. O aumento da renda do trabalhador brasileiro permite hoje que ele compre 2,2 cestas básicas com o salário mínimo de 510 reais, enquanto em 2003 só podia comprar 1,2  com 200 reais _ ou seja, a metade.

O resto é filosofia e disputa de slogans entre marqueteiros. Os números levantados pela reportagem levaram até o insuspeito cientista político tucano Leôncio Martins Rodrigues a concluir que "não há dúvida" de que a renda em alta é "trunfo" para Dilma Roussef.

Na hora da onça beber água, a pergunta que todos se fazem é muito simples: minha vida melhorou ou piorou nos últimos oito anos em relação ao período anterior? A reportagem da Folha não deixa dúvidas: enquanto a classe C hoje representa 53,6% da população, a classe E, a dos mais pobres, caiu de 29,5% para 17,4%. "A proporção de brasileiros vivendo abaixo da linha de miséria caiu expressivos 43% desde 2003",  informa a Folha.

Mais do que qualquer pesquisa neste momento, são estes indicadores que, mais à frente, levarão os eleitores a decidir seu voto no momento em que se projeta um crescimento de até 7% para a economia brasileira em 2010. É esta a conclusão a que qualquer leitor chega ao terminar de ler a reportagem de Fernando Canzian.

O grande desafio de José Serra, lider absoluto nas pesquisas, seja qual for a pesquisa, é ser o candidato de oposição numa circunstância econômica e social muito favorável ao governo. Por isso mesmo, o presidente Lula, sempre poupado pelo candidato da oposição, deveria dedicar todo seu tempo a cuidar mais do governo do que da campanha de Dilma _ até porque, se o país continuar neste mesmo ritmo de crescimento econômico e diminuição das desigualdades sociais, o resultado da eleição pode ser uma consequência natural, longe dos palanques, e mais perto da vida real.

A semana no Balaio

Com a chegada diária de novos leitores, muito bem-vindos, estou tendo mais trabalho para fazer a moderação de comentários. Esta semana, os três assuntos mais comentados no Balaio, renderam 1627 comentários publicados até as 10 horas de domingo, fora os que me vi obrigado a excluir, que não foram poucos, já que tratamos aqui de assuntos bastante polêmicos.

Para se ter uma idéia da força da internet na interação com os leitores, o total de mensagens recebidas durante a semana pela Folha, o jornal de maior circulação no país, chegou a 639.

Agradeço a todos vocês pela participação nestes debates aqui no Balaio e desejo um bom domingo a todos. Agora vou cuidar do almoço aqui no sítio de Porangaba. A família já está reclamando.

Correção: o caro Eduardo Guimarães e outros leitores me alertaram para um erro na minha afirmação acima de que o candidato José Serra é líder absoluto em todas pesquisas até agora. Na pesquisa Sensus, divulgada na semana passada, Serra e Dilma aparecem empatados.

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Caros leitores,

cheguei agora no meio da tarde a Porangaba, onde não vinha há muito tempo, e encontrei a área de comentários do Balaio bem agitada. Alguns leitores simplesmente não se conformam com os resultados das pesquisas e, conforme suas preferências políticas, descem a lenha nos institutos _ e, por tabela, em mim também, que apenas divulgo e analiso os números.

Não tenho condições de saber se a razão está com o Datafolha ou com o Sensus, que apresentaram resultados tão divergentes esta semana. Como repórter, ao contrário de outros blogueiros, não posso brigar com os fatos. Acho até engraçado alguns me xingarem de petista e outros de tucano. Calma, pessoal, vamos baixar a bola porque muita água ainda vai correr debaixo da ponte nesta campanha até chegarmos ao dia das eleições.

Depois de uma semana pesada de trabalho, com a área de comentários sempre carregada, sinto-me feliz ao rever os amigos e os cachorros no sítio, como o comandante que acabou de encostar o avião no finger depois de uma longa viagem ou o motorista de caminhão que atravessou o país e agora estaciona para entregar a carga. Missão cumprida, é tempo de respirar um pouco.

A vida não pode ser feita só de trabalho, e a política é só um meio, nunca um fim em si mesmo. Tem coisa mais importante. Deitar na rede e ver a grama crescer no pasto, o gado caminhando sem pressa e sem rumo, no mesmo ritmo sereno do sol que se põe lentamente, também é bom. É o que vou fazer agora.

Bom fim de semana a todos.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***  

Em três semanas de notícias favoráveis, desde a pesquisa anterior, no período em que fez o lançamento oficial da sua campanha com uma megafesta em Brasília, o tucano José Serra abriu mais um ponto de vantagem sobre a petista Dilma Roussef no Datafolha divulgado neste sábado: agora, o ex-governador paulista lidera a corrida presidencial com 38%, contra 28% da candidata do governo. É neste patamar que a campanha agora começa para valer.

O fato novo desta pesquisa é que pela primeira vez a verde Marina Silva (10%) aparece na frente de Ciro Gomes (9%), cada vez mais enfraquecido dentro do seu próprio partido, o PSB _ um dado que reforça o caráter plebiscitário destas eleições polarizadas pela disputa acirrada entre PT e PSDB, como já aconteceu nas últimas quatro campanhas presidenciais, desde 1994.

Daqui a dez dias, quando a direção do PSB se reúne para definir o destino de Ciro Gomes, com a sua mais do que provável saída do páreo, teremos um quadro eleitoral praticamente definido, com Marina correndo por fora, não se sabe até onde, em busca de quem não quer mais PT nem PSDB, ao lado de uma penca de candidatos nanicos absolutamente inexpressivos.

Serra não só sai na frente, com uma confortável vantagem, mas mostrou até agora uma estratégia de campanha serena, que vem dando certo, com as decisões centralizadas nas suas mãos e nas de seu fiel marqueteiro Luiz Gonzalez, deixando em segundo plano as lideranças partidárias da aliança PSDB-DEM-PPS.

A começar pelo competente discurso de Brasília, o tucano é um curioso candidato de oposição que não faz oposição ao presidente Lula _ ao contrário, até elogia seu governo sempre que pode. Em entrevistas a rádios paulistanas amigas e breves incursões pelas ruas de Salvador e Maceió, limitou-se a falar do futuro, com o bordão "O Brasil pode mais", e a bater de leve em Dilma, que ele já chegou a comparar com o falecido prefeito Celso Pitta, eleito por Paulo Maluf. 

De outro lado, Dilma não foi feliz nos seus primeiros dias de campanha solo, entrando sem precisar em bolas divididas em Minas Gerais e no Ceará, tendo a toda hora que explicar declarações feitas no dia anterior, o que é altamente desgastante.

Ao contrário de Serra, que segue apenas as orientações de Gonzalez, está se formando um comando de campanha cada vez mais inchado a guiar os passos de Dilma, em todas as áreas, sem que até agora se perceba claramente qual será sua estratégia daqui para a frente, além de garantir que dará continuidade às conquistas do governo Lula.  

Lula, aliás, só chegou à vitória em 2002, após três tentativas frustradas, quando pegou as rédeas da campanha nas mãos, desde o início, escalou o time que queria, definiu as alianças e deu o norte para todos.

Diante destes contrastes nos lances iniciais da campanha, até que o novo Datafolha apresenta também indicadores favoráveis à candidata do PT, como os números da pesquisa espontânea, em que ela aparece um ponto à frente de Serra (13 a 12), mas podendo acrescentar também os 7% que votariam em Lula, além dos 3% que declararam voto no "candidato do Lula". Daria 23 a 12 para Dilma na espontânea, uma diferença maior a seu favor do que para Serra na pesquisa induzida.

Em sua análise publicada pela Folha, o colunista Josias de Souza chama a atenção para o que ele qualifica como "dado periférico da pesquisa", que poderá fazer toda a diferença quando a fase decisiva da campanha começar na televisão, em agosto, após a Copa do Mundo:

"O Datafolha informa, desde dezembro, que há na praça algo como 14% de eleitores que reunem três características básicas. Declaram que, com certeza, votariam no candidato apoiado por Lula. Não são, ainda eleitores de Dilma. Nem sabem que ela é candidata. O grosso deste eleitorado está assentado no Nordeste. É gente pobre, com pouco ou nenhum acesso à informação".

Donde o analista chega à seguinte conclusão:

"Pois bem, suponha-se que esses eleitores, ao tomar conhecimento da existência de Dilma, optem por votar nela. A candidata de Lula vai a 42%. Foi precisamente com esse percentual de votos (42%) que Lula prevaleceu sobre Serra no segundo turno de 2002".

Claro que a esta altura cada campanha pode jogar com os números que lhe forem mais favoráveis, e o PT poderá optar pela polêmica pesquisa Sensus divulgada na última terça-feira, em que Serra e Dilma aparecem empatados: 32,7% e 32,4%, respectivamente.

O jogo está só começando e a cada semana daqui para a frente teremos novas pesquisas fazendo balançar a gangorra eleitoral. Os números de agora não definem nada, mas poderiam servir para que os candidatos e seus comandos de campanha corrijam rumos, acertem os discursos e errem menos. Uma eleição também se ganha, como já vimos tantas vezes, jogando no erro do adversário, mais do que nos próprios trunfos.

Na próxima semana, provavelmente na quarta-feira, o Ibope deverá divulgar nova pesquisa presidencial, desta vez encomendada pela Associação Comercial de São Paulo. Até lá, todos terão tempo para entender melhor o que dizem os números do Datafolha publicados hoje no jornal.

Com a palavra, os leitores do Balaio. Façam suas apostas.

Em tempo: um outro dado importante desta pesquisa, que escapou até aos editores do jornal, foi revelada hoje pelo diretor do Datafolha, Mauro Paulino, em entrevista à rádio Jovem Pan: na pesquisa espontânea, quando não é apresentada a lista de candidatos, 54% dos eleitores responderam que ainda não sabem em quem vão votar. Ou seja, quase metade dos brasileiros ainda não se ligou na campanha eleitoral. Diante disto, qualquer conclusão que se tire das pesquisas neste momento não passa de chute ou de torcida.

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Tinha Corintians pela Libertadores, na Globo, e Santos pela Copa do Brasil, no Sportv, no mesmo horário, na mesma noite desta quarta-feira. Claro que resolvi ver o jogo do Santos _ e fui premiado com mais um fantástico espetáculo do melhor futebol do mundo neste momento. O Santos meteu oito e poderia ter feito vinte no Guarani, na Vila Belmiro, tal foi a sua superioridade em campo. Quem não viu não sabe o que perdeu.

Que Barcelona, que Messi, que nada!  Não tem para ninguém. O torcedor brasileiro não via nada parecido desde o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, que encantaram o mundo nos anos 50 e 60 do século passado, jogando um futebol do outro mundo. Eu vi.

Meio século depois, o fenômeno se repete na mesma Vila Belmiro. Em lugar do menino Pelé, agora tem um moleque chamado Neymar, autor de cinco gols de cinema, um craque que brinca com a bola com a facilidade e a felicidade de quem toma um sorvete na praia.

Como em 1958, quando Pelé começou a comer a bola, estamos agora às vésperas de uma Copa do Mundo. Mais velho do que Pelé na época, Neymar, que acabou de completar 18 anos, clama por uma convocação para a seleção brasileira o mais rápido possível, a tempo de disputar os dois amisotosos previstos para antes do Mundial da África do Sul, se é que alguém ainda tem alguma dúvida.

Neymar é, de longe, o melhor jogador brasileiro em atividade hoje. Quem serão os outros 21 eu nem discuto, mas ele não pode ficar fora do avião que levará o Brasil para a África no dia 28 de maio. 

Depois dos 8 a 1 contra o Guarani, a nona goleada santista este ano _ o time já marcou 87 gols na temporada, média de 3,6 por jogo _ nem ele mesmo resistiu ao óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, e sapecou nos microfones, sem medo de ser feliz: "A cada minuto, a cada segundo que passa, eu me vejo com a camisa da seleção brasileira".

Todo mundo vê isso, menos o nosso Dunga, que ainda não se manifestou sobre o personagem que se tornou uma unanimidade nacional. O técnico da seleção brasileira já admitiu até levar para a Copa um certo Hulk, que nem sei onde joga, mas sobre Neymar não foi capaz até agora de dar sequer um palpite.

O que Dunga está esperando? Neymar já!

Em tempo: o pior, lembrei-me agora, é que domingo tem o segundo jogo do Santos contra o meu São Paulo, pelas semifinais do Paulistão, na Vila Belmiro. Deus tende piedade de nós... Para segurar este Santos de Neymar e Cia., e ainda ganhar por dois gols de diferença deles, só mesmo um milagre.

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Caros leitores,

até agora, meio dia de quarta-feira, já li e publiquei mais de 1.000 comentários esta semana, fora o monte de entulho que me vi obrigado a deletar.

Agradeço a crescente participação dos leitores nos debates do Balaio, mas reitero o apelo para que se evitem comentários grosseiros, com ofensas graves e acusações levianas, muitas vezes tratando de assuntos que nada têm a ver com o post publicado.

Da mesma forma, peço que não enviem comentários repetidos, várias vezes por dia, com textos longos ou escritos com maiúsculas. Isso afasta do debate quem quer apenas dar sua opinião e não participar de bate-boca com outros leitores, algo que é muito chato e inútil.

Aos que estão entrando aqui pela primeira vez, também peço um pouco de paciência na liberação de comentários, trabalho que faço duas ou três vezes ao dia, das nove da manhã às nove da noite.

Em ano de campanha eleitoral, ainda mais quando trato aqui de assuntos polêmicos, sei que não é fácil, mas se cada um tiver um pouco de moderação no que escreve terei menos trabalho para recolher e deletar o lixo eletrônico, e sairemos ganhando com a qualidade do debate.

Abraços a todos,

Ricardo Kotscho

***

Quanto mais tenta justificar a enxurrada de acusações de pedofilia contra padres e bispos em diferentes regiões do mundo, mais a Igreja Católica Apostólica Romana se afunda no poço das suas contradições.  

A última agora foi esta inacreditável declaração feita terça-feira, em Santiago do Chile, pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, o segundo homem na hierarquia da Igreja:

"Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas outros demonstraram que há entre homossexualidade e pedofilia".

De onde ele tirou isso? Quais psicólogos e psiquiatras chegaram a esta conclusão? E o que leva membros do clero à homossexualidade?

Mesmo sem ser um estudioso do assunto, qualquer leigo pode concluir que é mais provável o celibato levar à homossexualidade, ao obrigar homens e mulheres a conviverem unicamente com pessoas do mesmo sexo nos conventos e seminários. Mas de onde este cardeal foi tirar a ligação entre homossexualidade, uma orientação sexual, e pedofilia, um crime hediondo, em qualquer lugar do mundo? 

Em pleno século 21, o celibato obrigatório na igreja é uma das maiores aberrações e hipocrisias que ainda resistem ao tempo de mudanças em que vivemos. Setores cada vez mais amplos da própria Igreja são contra esta instituição, que não está em nenhum lugar das escrituras sagradas, mas têm receio de se manifestar publicamente contra um dogma defendido pelo papa Bento 16, o mais retrógado e autoritário chefe da Igreja dos tempos modernos.

O prório Bento 16 já foi denunciado pela imprensa americana, com a revelação de documentos do Vaticano, por ter acobertado ao menos dois casos de pedofilia, quando ainda comandava a Congregação para a Doutrina da Fé, na época responsável pela expulsão da Igreja do frade brasileiro Leonardo Boff. 

As denúncias crescem em progressão geométrica desde que foi aberta uma linha telefônica, em março, na Alemanha, terra natal do Papa, para receber denúncias anônimas por vítimas de pedofilia. Quase 15 mil denúncias foram feitas em apenas uma semana, o mesmo número de um relatório da Igreja Católica na Irlanda, publicado no ano passado, segundo informa a repórter Luciana Coelho, da Folha, em Genebra.

Sem saber o que fazer diante do tsunami de denúncias de abusos contra padres e religiosos, e como não é mais possível esconder os malfeitos, a Igreja já atirou para todos os lados, pediu desculpas, anunciou que fará rigorosas investigações e que as vitimas devem ser indenizadas, mas a cada dia que passa a situação fica pior, como nesta manifestação do cardeal Bertone.

Em Santiago ainda, sem citar as fontes de onde tirou suas conclusões, o vice do Papa foi mais longe e afirmou que a pedofilia é "uma patologia que aparece em todos os tipos de pessoas e, nos padres, em um grau menor em termos percentuais". 

De onde ele tirou isso? Mesmo que fosse verdade, não justificaria a atitude canalha dos religiosos, que deveriam dar o exemplo e proteger os jovens, e não abusar deles, embora admita que "o comportamento de padres, nesses casos, é negativo, é grave e é escandaloso".

O mal está feito e não tem cura para as milhares de vítimas deixadas no caminho pelos "celibatários" da Igreja. O que o mundo gostaria de saber é o que a Igreja Católica pretende fazer para que essa patologia, como diz Berdone, não se transforme numa pandemia, esvaziando cada vez mais os templos católicos.

Antes que me acusem de preconceito religioso contra os católicos, acho bom informar que esta é a minha Igreja, estudei em colégio de padres, pensei em seguir o sacerdócio, mas não dá para se calar diante destes reiterados crimes praticados contra menores nas sacristias pelo mundo afora. 

Claro que não se trata de uma exclusividade da Igreja Católica. Em nome de Deus e de Jesus, praticam-se as maiores barbaridades contra os setores mais pobres e indefesos da população nas diferentes denominações religiosas, como revela a mesma edição da Folha desta quarta-feira, em reportagem de Rubens Valente.

Com base num vídeo entregue por um ex-voluntário da Igreja Universal do Reino de Deus, fica-se sabendo como a holding do bispo Edir Macedo se preparou para recolher dízimos em meio à crise de 2008.

Nele aparece o bispo Romualdo Panceiro, apontado como sucessor de Edir, orientando seus colegas, em português castiço, a usar passagens bíblicas com o termo "semear" para arrancar dinheiro dos fiéis:

"Eu combinei com os regionais aqui o seguinte, malandro. No domingo, falar assim: Olha, pessoal, em nome de Jesus, você que vai agora semear em cima dessa palavra aqui, com 10 mil (reais) para cima, vem aqui na frente, coloca, muito bem. Com mil para cima, vem aqui pra frente´(...)"

Entre os templos do cardeal Bertone e os do bispo Panceiro, prefiro ficar fazendo minhas orações sem sair de casa. É mais seguro e Deus nos ouve do mesmo jeito.

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Publicado em 11/04/10 às 10h33

Serra e Dilma abrem o jogo

713 Comentários

Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a última semana:

Balaio

Eleições 2010: 432

Intolerância: 317

Campeonato Paulista: 83

Folha

Chuvas: 101

Lula: 50

Eleições: 40

Veja (não publica número de comentários recebidos)

Ricky Martin "saiu do armário"

Aviação

Aécio Neves

***

Nos discursos que fizeram neste sábado, quase no mesmo horário, o tucano José Serra, em Brasília, no lançamento oficial da sua candidatura, e a petista Dilma Roussef, em São Bernardo do Campo, em encontro com sindicalistas, deixaram bem claro quais as armas que escolheram para o embate presidencial de outubro.

A cinco meses e meio das eleições, já se pode ter uma idéia sobre o que estará em jogo. Basta tomar alguns trechos dos dois discursos para constatar que Serra se apoiará no confronto de biografias e no futuro pós-Lula, enquanto Dilma centrará sua campanha na comparação entre os governos Lula e FHC. O único ponto em comum nos dois discursos foi logo no início: ambos pediram um minuto de silêncio para as vítimas das enchentes no Rio, mas depois não falaram o que pretendem fazer para evitar estas tragédias urbanas caso sejam eleitos.

José Serra:

"É  deplorável que haja gente que, em nome da política, tente dividir o nosso Brasil. Não aceito o raciocínio do nós contra eles. Não cabe na vida de uma nação".

"Às falanges do ódio que insistem em dividir a nação vamos responder com nosso trabalho presente e nossa crença no futuro".

"Meu pai, um homem austero, severo, digno, carregava caixas de frutas para que um dia eu pudesse carregar caixas de livros".

"Juntos, vamos construir o Brasil que queremos, mais justo e mais generoso. Eleição é uma escolha sobre o futuro".

Dilma Roussef:

"Eu não fujo quando a situação fica difícil. Não tenho medo da luta. Posso apanhar, sofrer, ser maltratada, mas estou sempre firme com minhas convicções".

"Minhas críticas serão duras, mas serão políticas e civilizadas".

"O que estamos fazendo no governo Lula e continuaremos fazendo é garantir que todos sejam ouvidos. Democrata que se preza não agride os movimentos sociais".

"Acabou o tempo dos exterminadores do emprego, dos exterminadores de futuro. Porque, hoje, o Brasil é um país que sabe o que quer, sabe onde quer chegar e conhece o caminho. É o caminho que Lula nos mostrou e por ele vamos seguir". 

Pelo tom dos discursos, parecia até que Serra, mais racional e contido, era o candidato da situação e, Dilma, sempre disposta a partir para o enfrentamento com os tucanos, da oposição.

Como nenhum dos dois se destaca pelo carisma e ambas são figuras públicas com personalidade forte e centralizadoras, que não gostam muito de ouvir palpites, tudo indica que esta campanha lembrará mais um jogo de xadrez do que uma final de campeonato de futebol. O clima de Fla-Flu deve ficar nas arquibancadas, longe do gramado.

Por falar nisso, agora vamos esperar o grande jogo entre a molecada do Santos e os masters do São Paulo, no Morumbi, abrindo as semifinais do Paulistão.

Bom domingo a todos.

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Publicado em 08/04/10 às 10h33

"Agora quem dá bola é o Santos…"

98 Comentários

O Palmeiras ficou no meio do caminho, o Corinthians morreu na praia e o São Paulo só se classificou em quarto lugar no último jogo, na noite desta quarta-feira. Em 19 jogos, o Santos sobrou em campo: marcou 61 gols, vinte a mais do que o meu São Paulo, o seu adversário de domingo pelas semifinais, no Morumbi.

Foi tão grande a distância entre o futebol encantado jogado pelo Santos e os três grandes daqui da capital, nesta primeira fase do Paulistão, que ao fazer o título deste post me lembrei da marchinha "Leão do Mar" sempre cantada pela torcida da Vila Belmiro: "Agora quem dá bola é o Santos...".

Mais atual do que nunca, a composição de Maugeri Sobrinho e Maugeri Neto, depois gravada por Zeka Baleiro, que virou um hino do clube, foi cantada pela primeira vez em 1955, quando o Santos conquistou o campeonato paulista depois de um jejum de vinte anos. 

O hino oficial do Santos é outro, "Sou alvinegro da Vila Belmiro", composto em 1957 por Carlos Henrique Roma, filho do ex-presidente Modesto Roma, mas até hoje a música cantada nas arquibancadas é "Leão do Mar".  

Se olharmos só os números da tabela, o Santos é o franco favorito nesta fase decisiva, que ainda trouxe as gratas surpresas do Santo André e do Grêmio Prudente, segundo e terceiro colocados, que disputarão entre si para ver quem vai às finais.

Com 15 vitórias contra 11 dos outros três classificados, o Santos joga por dois empates e decide a semifinal na Vila Belmiro (se chegar à final, leva a mesma vantagem).

Fora isso, agora zera tudo. Como costuma acontecer, o São Paulo só melhorou de produção na reta final, depois que Ricardo Gomes acordou e finalmente colocou Marlos no meio de campo, o que mudou o jeito burocrático e preguiçoso do time jogar, marcando oito gols nos últimos dois jogos.

Domingo será o grande teste para os meninos do Santos contra o time de seniors do Morumbi e eu, claro, vou torcer para dar zebra _ ou seja, que o São Paulo desencante de vez e acabe com o baile da molecada dançarina. Qual é o palpite dos leitores?

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Com os candidatos e seus times já em campo, foi dada esta semana a largada para a eleição presidencial de 2010. Serra, Dilma e Marina afinam suas estratégias e preparam os próximos passos. Agora, só falta saber o que Ciro Gomes vai fazer da vida e esperar as próximas pesquisas para saber o rumo do vento.

Depois de um longo suspense, o governador José Serra assumiu finalmente sua candidatura, mas logo após fazer o anúncio, na semana passada, recolheu-se outra vez para preparar o discurso que fará no próximo sábado, em Brasília, com a participação de Fernando Henrique Cardoso, na grande festa de lançamento com os partidos aliados (DEM e PPS).

No mesmo dia, o PT decidiu também fazer uma festa para Dilma Roussef, que já está há mais de um ano na estrada ao lado de Lula, no histórico reduto do ABC.

Livre e solta, sem aliados e com pouco tempo de televisão, a verde Marina Silva, que já escolheu Dilma como seu alvo preferencial, vai fazer um giro pelo nordeste para combater um dos principais projetos do governo Lula, a transposição do rio São Francisco. 

Sábado, dia 10, a campanha começa então para valer, embora pelo calendário eleitoral do TSE as candidaturas só possam ser oficializadas pelos partidos em julho. Até lá, os pré-candidatos estarão limitados às suas pré-campanhas, sem ninguém saber direito o que pode ou não fazer de acordo com a nossa confusa legislação. A batalha no tapetão dos tribunais também promete ser acirrada.

Por enquanto, quem dá o tom da campanha, além das pesquisas, é a grande imprensa, que já escolheu seu lado e nem faz muita questão de disfarçar, como deixou claro a presidenta da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito, que chamou para a mídia a responsabilidade de fazer oposição ao governo.

Nem Lula X FHC, como querem os petistas, ao jogar suas fichas num plebiscito sobre os dois governos, nem Serra X Dilma, como quer o candidato tucano, que prefere um confronto de biografias. O embate principal nesta primeira fase da campanha está se dando no jogo pesado Mídia X Governo.

Este clima de beligerância, que chega a lembrar o segundo turno entre Collor e Lula, em 1989, pode em breve sofrer a interferência de um novo elemento, que pela primeira vez terá importante papel numa eleição presidencial em nosso país: a internet.

Não por acaso, é neste campo das redes sociais que as três campanhas já nas ruas estão investindo em primeiro lugar. "Partidos já armam bunkers para campanha presidencial", mancheteia hoje a principal página de política da Folha, em que revela os esquemas dos principais partidos nesta área.

Para quem não se lembra, bunker era o nome dado pelos alemães aos abrigos subterrâneos utilizados durante a Segunda Guerra para os civis se protegerem das bombas durante os combates aéreos. Na minha infância, meus pais falavam muito do que sofreram nestes bunkers. Se a expressão é ou não apropriada, vai depender do uso que se fizer da internet.

Tanto as redes sociais poderão ser utilizadas para mobilizar militantes, divulgar programas de governo e angariar recursos para as campanhas, como para atacar adversários, espalhar dossiês e fazer da campanha eleitoral realmente uma guerra, que já começa a dar seus primeiros sinais em alguns blogs, colunas e nos comentários dos leitores.

A sorte está lançada, como escreveu esta semana o candidato José Serra em seu twitter. Façam suas apostas.

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Escrevo ainda sob o impacto do filme que acabei de ver na manhã desta terça-feira _ "Sonhos Roubados", de Sandra Werneck. Com a chuva que não para de cair na cidade, pouca gente foi ao cinema para ver a exibição especial feita para a imprensa. Quem recebeu o convite e não foi deixou de ver uma das melhores produções do cinema brasileiro nos últimos anos.

Direção, roteiro, fotografia, interpretação _ se eu fosse jurado de festival, daria nota 10 em todos os quesitos. Aliás, "Sonhos Roubados" já ganhou os prêmios de melhor filme (no júri popular) e melhor atriz (Nanda Costa) na última edição do Festival do Rio. 

Como não sou crítico de cinema, só escrevo quando acho que vale a pena recomendar um filme aos leitores. Quando não gosto, não escrevo nada. Neste caso, só não indico o filme para pessoas muito sensíveis e/ou deprimidas. É uma paulada na moleira num ritmo que por vezes sufoca o espectador. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, "Sonhos Roubados", que estréia dia 23 de abril em circuito nacional, precisa ser visto.

Se tivesse lido alguma resenha, talvez eu nem me dispusesse a ir ao cinema às 10h30 da manhã num dia em que o tempo e o trânsito recomendavam ficar em casa. Pois não se trata de um gênero que me entusiasma. Prefiro ver comédias, de preferência, musicais, e com final feliz. "Sonhos Roubados", ao contrário, é mais uma tragédia urbana ambientada no mundo das drogas dos morros cariocas _ a vida sempre por um fio, degradada desde cedo, no limite da miséria física e humana.

Trata-se do desafio diário pela sobrevivência vivido por três adolescentes _ Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias) _, em permanente estado de risco, entre a falta de dinheiro, as drogas e os apelos do consumo, em meio a famílias desestruturadas. O roteiro é baseado no livro "As Meninas da Esquina", da jornalista Eliane Trindade.

Violência, prostituição, pedofilia, estupro, tem de tudo. Ao mesmo tempo, o filme é de uma delicadeza incrível, uma lição de esperança, exatamente aonde não parece mais haver nenhuma esperança, ancorada na comovente solidariedade da relação entre as três adolescentes, em que elas renascem a cada dia.

Em torno das três meninas protagonistas, com atuação impecável das  jovens atrizes, atuam atores consagrados como Marieta Severo, Daniel Dantas, Ângelo Antonio e Nelson Xavier, um melhor do que o outro, em interpretações marcantes, com participação especial de Mv Bill. Para completar, a fotografia ficou aos cuidados do consagrado Walter Carvalho, o que dispensa qualquer comentário.  

A narrativa parece tão real, e os personagens tão de carne e osso, que a obra de Sandra Werneck poderia ser enquadrada no gênero documentário. Ninguém sai do cinema pensando que se trata de um filme de ficção. E é isso o que mais dói na gente.

Projeto Cumplicidade

A semana cultural começou agitada. Na segunda-feira à noite, depois de passar o dia com o fotógrafo Manoel Marques fazendo reportagem na zona leste, fui ao lançamento do livro "Cumplicidade _ 20 anos de reportagem, 20 fotógrafos", do meu caro colega mineiro Bernardino Furtado, profissional dos velhos tempos em que vivíamos na estrada.

Junto com o lançamento do livro, foi aberta a exposição dos painéis fotográficos do Projeto Cumplicidade, no saguão do Conjunto Nacional, na avenida Paulista _ um passeio pelo Brasil real de garimpeiros, pescadores, índios, quilombolas e sem-terra, que fica por lá até o final deste mês.

No prefácio do livro, escrevi o texto que reproduzo abaixo:

Poetas e retratistas:

uma raça em extinção

Os Bernardinos Furtados e seus fiéis retratistas, aqueles seres estranhos que ainda sujam os sapatos no trabalho de garimpar boas histórias, são uma raça em extinção.

Quase não existem mais estas duplas de repórter e fotógrafo que saíam juntos da redação e brigavam uns com os outros para descobrir novidades, revelar o escondido, ir até onde ninguém foi antes.

Como dois compositores que se respeitam, um cuidando da música e outro da letra, no fim eles acabam se entendendo: o trabalho de um, afinal, não existe sem o do outro.

Fotógrafos costumam chamar os repórteres de poetas e são por estes chamados de retratistas. Quando o poeta é um matuto como Bernardino Furtado, colega dos bons que conheci na revista Época, e com quem logo me identifiquei na mesma paixão, só pode sair coisa boa, ainda mais se ele tem a sorte de encontrar, ao longo do caminho, vinte grandes parceiros como retratistas, tão bons que parecem ser um só...

O resultado é esta bela obra, feliz encontro de texto e imagem com as muitas caras do Brasil da labuta pesada, do povo sofrido e, ao mesmo tempo, digno, sonhador, brincalhão.

Guarde bem este livro. Os historiadores do futuro poderão nele encontrar boas pistas de como se construía uma boa reportagem e das condições em que ainda viviam muitos brasileiros na virada do século 20 para o 21.

Ricardo Kotscho

Setembro de 2009

 

 

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Publicado em 04/04/10 às 11h06

Estamos ficando mais intolerantes?

329 Comentários

Caros leitores,

não sei se foi o espírito da Páscoa, mas fiquei muito feliz com o alto nível da maioria dos comentários publicados de ontem para hoje sobre o tema da intolerância que levantei no post de domingo. Tomara que continue assim no resto do ano. Nesta segunda-feira, passarei o dia fora fazendo uma reportagem para a revista Brasileiros. Por isso, só à noite voltarei à moderação dos comentários.

Boa semana para todos.

Um abraço,

Ricardo Kotscho

*** 

Os assuntos mais comentados pelos leitores durante a semana:

Balaio

O vexame do Santos fora de campo: 1.203

Henrique Meirelles fica: 296

O poder da imprensa: 207

Folha

Educação: 114

Eleições: 77

Caso Nardoni: 63

Veja ( a revista não publica mais o número de comentários recebidos)

Caso Isabella

Roberto Kalil

Ideologia na educação

***

São dez e meia da manhã deste domingo de Páscoa chuvoso em São Paulo. Fui dormir tarde e acordei cedo hoje para liberar os comentários do post publicado ontem sobre o vexame que alguns badalados jogadores do Santos deram ao se recusar a visitar crianças e adolescentes com paralisia cerebral no Lar Espírita Mensageiros da Luz, alegando motivos religiosos.

Nem pretendia atualizar o Balaio no meio do feriadão, mas a notícia publicada pela Folha me causou tal indignação que resolvi escrever um breve comentário antes do almoço. Jamais poderia imaginar tal repercussão, a maior provocada por um post publicado no blog nestes primeiros meses  de 2010.

Antes de começar a escrever, já tinha liberado mais de 1.200 comentários e havia mais de 50 na fila aguardando moderação. Fiquei assustado com o grau de agressividade dos comentários, tanto contra a atitude dos jovens ídolos santistas, como na discussão entre os seguidores de diferentes credos, o que me levou a levantar a questão no título desta matéria: estamos ficando mais intolerantes?

Para quem acompanha este blog há mais tempo, tornaram-se comuns os debates mais acalorados quando o tema é político, ainda mais neste ano de disputa eleitoral. Já tratei aqui, dois domingos atrás, da guerra suja da campanha eleitoral na web, com os defensores das candidaturas do PT e do PSDB agredindo-se mutuamente, como se eleição fosse uma questão de vida ou morte.

Constato agora que o clima de beligerância na nossa sociedade não se limita só à política. Juntar futebol e religião no mesmo texto, em razão do triste episódio protagonizado por Robinho & Cia., acabou revelando um contencioso ainda mais explosivo.

Não sabia que já tinhamos chegado a este ponto, confesso. A grande maioria dos comentários publicados, sem falar nas centenas que fui obrigado a deletar, revela, como os leitores poderão notar, um festival de preconceitos arraigados de toda ordem, sejam religiosos, sociais ou raciais.

Para atacar os jogadores do Santos, atribuiu-se à sua cor e origem social, e não só ao fato de muitos deles serem evangélicos, o ato de intolerância ao se negarem a descer do ônibus do clube para levar ovos de Páscoa a 34 crianças carentes numa ação de benemerência promovida por um dos seus patrocinadores.

De um lado, o futebol colocou os santistas contra os torcedores de todos os outros times, o que é natural; mas, de outro, criou-se um Fla-Flu entre evangélicos de diferentes denominações, os espíritas e os que professam as demais religiões. Por um momento, ao ler os comentários, diante do fanatismo religioso de muitos leitores, senti-me no Oriente Médio, palco de tantas guerras provocadas pela intolerância.

Faço apenas este registro, a partir de um debate sobre o que aconteceu em Santos esta semana, mas gostaria muito que um dos nossos grandes institutos fizesse uma ampla pesquisa sobre o tema. Enquanto isso não acontece, convido os leitores a responderem à pergunta que faço no título. Você também está ficando mais intolerante? 

Boa Páscoa para todos.

Em tempo: agora à noite, no segundo tempo do jogo entre Santos e São Caetano, a Sportv informou que o Santos decidiu fazer nova visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, desta vez com todos os jogadores e sem imprensa. Bela notícia. Sempre é tempo de corrigir um erro, principalmente quando se é jovem como os craques santistas, aqueles que se recusaram a descer do ônibus na semana passada para fazer uma visita às crianças.

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