Mapa Brasil Eleições 2014 vão deixar um país dividido

"A apenas 76 dias da abertura das urnas e 24 do início do horário eleitoral na televisão, Dilma Rousseff continua liderando as pesquisas, mas a presidente me parece cada vez mais sozinha na estrada, com a campanha à reeleição mostrando rachaduras no governo, no partido e na base aliada".

Assim começava o texto com o título "Dilma sozinha na estrada; Aécio vira vidraça", publicado aqui no Balaio no já longínquo dia 21 de julho, antes da morte de Eduardo Campos, e de todas as reviravoltas da campanha eleitoral, na mesma semana em que a Folha furou a barreira de proteção ao tucano e publicou a história do aeroporto construído com dinheiro público nas terras de titio pelo ex-governador de Minas Gerais.

Mais adiante, constatei no mesmo post: "A solidão de Dilma fica mais patente quando se nota que raros são os que saem em defesa das políticas do governo, mesmo entre seus ministros. Boa parte das lideranças empresariais e sindicais que apoiaram a presidente em 2010 agora está na moita ou pularam para o outro lado, como acontece com muitos aliados do PMDB, um partido ainda de caciques regionais que procuram, em primeiro lugar, salvar a própria pele".

Agora, a apenas 10 dias das eleições do segundo turno, o que vemos? Fenômeno de resiliência política, a presidente Dilma Rousseff resiste ao isolamento e chega à reta final em empate técnico com Aécio Neves, o candidato oficial da mídia, segundo as últimas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas na noite de quarta-feira. De uma semana para outra, nada mudou, com os dois institutos mostrando rigorosamente o mesmo placar em votos válidos: 51% a 49%.

Ou seja, mesmo jogando contra tudo e contra todos, batendo de frente com o empresariado paulista, o agronegócio sucroalcooleiro, a banca nacional e também a internacional, setores do sindicalismo e a mídia familiar nativa, tudo ao mesmo tempo, Dilma continua com chances de ser reeleita.

O resultado final ainda é absolutamente imprevisível, mas uma coisa já é certa: aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar, o próximo presidente da República vai assumir um país rachado ao meio, social, geográfica e politicamente, como mostram as pesquisas e, mais do que os índices de intenção de voto, é revelado pelo mapa dos eleitores que se dividem entre Aécio e Dilma.

São dois Brasis claramente opostos que estarão em confronto no dia 26, segundo os números do Datafolha: o de Dilma se concentra no Norte e Nordeste e tem renda familiar de até dois salários mínimos; o de Aécio lidera nas três outras regiões (centro-oeste, sudeste e sul) e em todas as demais faixas de renda.

Faltam ainda três debates (SBT, hoje à tarde; Record, no domingo, e Globo, na próxima quinta), que podem desempatar este jogo, já que os apoios recebidos por Aécio, inclusive a badalada adesão de Marina, e os ataques desfechados contra Dilma por conta das delações premiadas da Petrobras, até agora, não mudaram uma vírgula nas pesquisas, que continuam sendo estranhamente divulgadas no mesmo dia, com os mesmos números, aconteça o que acontecer.

Dilma e Aécio empatam até nos tiros que dão nos próprios pés: Aécio, ao entregar antecipadamente a economia ao controle do controverso Armínio Fraga, o homem do megainvestidor americano George Soros no Brasil, e Dilma, ao anunciar a saída de Guido Mantega, mas mantê-lo agonizante no cargo.

Tem certas coisas que você pode até pensar, mas só deve anunciar após a definição das urnas, como a decisão de Dilma de criar, finalmente, o marco regulatório da mídia, em seu possível segundo mandato, o que só serviu até agora para aumentar ainda mais a ira dos poderosos meios de comunicação do Instituto Millenium contra ela.

Na verdade, é esta questão da regulação da mídia, e mais ainda a do destino a ser dado ao tesouro do pré-sal, ambos temas até aqui ignorados nos debates, que mais despertam os interesses dos investidores nacionais e estrangeiros, os grandes apostadores neste cassino eleitoral. Os destinos do país nos próximos quatro anos e nos seguintes são apenas um detalhe, o pano de fundo para animar a torcida do Fla-Flu.

Enquete: e se a água acabar?

Ficou todo mundo assustado com as previsões apocalípticas feitas nesta quarta-feira pela Sabesp de que a água em São Paulo pode acabar já em meados de novembro. E aí, o que faremos?

Ainda não tinha pensado nisso, mas se as torneiras secarem mesmo de vez, para onde fugirei?

Há tempos venho alimentando o sonho de passar o que me resta de vida no Nordeste, mais particularmente em João Pessoa, na Paraíba, mas talvez tenha que antecipar os planos.

E você, caro leitor do Balaio? Já resolveu para onde ir? Tá na hora de pensar nisso.

As suas respostas poderão ajudar outros leitores a decidirem seu rumo.

Com ou sem água, é vida que segue. 

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eleicoes Dilma ou Aécio? Que tal Boechat para presidente?

Assim que acabam os debates, começam as intermináveis discussões sobre quem ganhou. Como ainda não existe nos estúdios de televisão placar eletrônico para apontar o resultado, a exemplo dos estádios de futebol, cada um dá a vitória para o candidato pelo qual torce e em quem pretende votar. E cada um sempre vai encontrar mil argumentos para justificar a sua escolha.

Não vou entrar nessa, apesar de ter feito anotações durante o debate inteiro, registrando na velha caneta os bons e maus momentos de Aécio Neves e Dilma Rousseff, que alternaram fortes ataques com pisadas de bola. Debate só decide eleição quando um dos candidatos vai a nocaute ou ganha por uma larga vantagem de pontos, o que não aconteceu na noite de terça-feira nos estúdios da Band.

Por isso, não vou aborrecer os leitores com um texto longo, mas apenas registrar alguns momentos que me chamaram a atenção. De todos eles, o principal foi o brilhante desempenho do moderador Ricardo Boechat, o mais premiado jornalista brasileiro da atualidade, entre outros motivos porque tem bom humor, é capaz de debochar dele mesmo e não se leva tão a sério como seus principais concorrentes.

Embora não faça pose de sabichão nem de interrogador policial, como se fosse também candidato, quem se saiu melhor neste debate foi Boechat, exatamente porque ficou no seu papel de apenas passar a palavra aos candidatos, deixando todo o protagonismo para eles. Ao todo, não deve ter ocupado mais de cinco minutos ao longo dos 90 de debate.

Não sei se o caro colega Boechat daria um bom presidente da República, mas me deu vontade de votar nele. Pelo menos, o Brasil iria se divertir mais do que com Dilma e Aécio, dois candidatos com um ponto em comum: são muito chatos. Quando falam, parece que ligam um gravador escondido no púlpito.

Algumas observações:

* Além de bater na mesma tecla da derrota de Aécio em Minas no primeiro turno, ao longo do debate, em todos os intervalos comerciais a propaganda de Dilma repetia o mote "Aécio _ Quem conhece não vota". Ficou redundante e cansativo igual aqueles anúncios de varejo que ficam martelando nos nossos ouvidos as mesmas mensagens.

* Aécio passou a maior parte do tempo defendendo seus dois governos em Minas, como se não estivesse em disputa o futuro do Brasil. Ficou mais uma vez amarrado aos refrões sobre desmandos na Petrobras e a corrupção no governo petista.

* Dilma, mais uma vez, se confundiu com tantos números e projetos que apresentava, desfiando milhares disso, milhões daquilo, bilhões disso outro, o que, convenhamos, não é muito conveniente para fazer a cabeça de quem passou o dia trabalhando e precisa acordar cedo no dia seguinte.

* Os dois falaram mais do "futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga", como se a vitória de Aécio já fosse certa, e se esqueceram do atual, Guido Mantega, um ex-ministro em exercício que já foi limado do cargo por Dilma.

* O tucano falou muito mais de Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente sempre escondido nas campanhas presidenciais de José Serra, do que Dilma citou Lula, desta vez relegado a um pé de página no debate.

* Como não poderia deixar de ser, ambos também falaram de educação, saúde, segurança e mobilidade urbana, o de sempre, mas os pontos altos do debate acabaram acontecendo quando começou a troca de insultos entre eles, embora tivessem prometido um "debate de alto nível" antes de Boechat dar início ao combate.

* "A senhora está sendo leviana!", disparou Aécio, mirando nos olhos de Dilma, quando a presidente levantou a história do aeroporto público construído nas terras do titio, mas ela só foi retrucar na mesma moeda no bloco seguinte: "Leviano é o senhor!". Um acusou o outro várias vezes de leviano e de mentiroso, mas acabou ficando tudo por isso mesmo. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

 

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Logos Quem está querendo enganar quem com estas pesquisas?

Tinha prometido a mim mesmo que procuraria não basear em pesquisas meus comentários neste segundo turno da disputa presidencial, até porque elas se mostraram pouco confiáveis na primeira rodada. Aquela história toda de margens de erro e nível de confiança de 95% virou folclore e motivo de piadas.

Só não dá para ignorar as disparidades mostradas pelos números dos diferentes institutos nestes primeiros dez dias da fase decisiva da campanha, o que me leva a perguntar: são os eleitores que decidiram desmoralizar as pesquisas ou são as pesquisas que resolveram tirar uma onda da nossa cara?

Porque não dá para levar a sério o que está acontecendo. Um dia, o instituto chamado Sensus anuncia que Aécio Neves já tem 17 pontos de vantagem sobre Dilma Rousseff _ ou seja, a eleição está praticamente decidida. Dois dias depois, outro instituto, o Vox Populi, informa que a diferença é de apenas 2 pontos, mas a favor de Dilma. Como é possível?

Ambos os institutos, deve ser por acaso, são mineiros, mas isto não explica nada. Digamos que ambos sejam honestíssimos, competentes, totalmente independentes. O Sensus trabalha para a revista semanal IstoÉ, que apoia abertamente Aécio; o Vox Populi foi contratado pela Carta Capital, que já declarou voto em Dilma. Em comum, apenas por curiosidade, as duas revistas foram criadas e dirigidas por Mino Carta, em épocas bem distintas, o que também não ajuda a entender esta diferença de 19 pontos entre uma pesquisa e outra no intervalo de dois dias.

Mais intrigante ainda foi o que aconteceu na semana passada com o Ibope e o Datafolha, os dois principais institutos, que há 30 anos disputam a liderança do mercado pesquiseiro. Pela primeira vez, que eu me recorde, ambos divulgaram um empate técnico entre Dilma e Aécio, com números rigorosamente iguais.

No primeiro turno, tanto Ibope como Datafolha erraram feio tanto na campanha presidencial como nas disputas estaduais. Agora, parece que até desistiram de competir entre si. Dá para acreditar que os dois institutos entrevistaram as mesmas pessoas, no mesmo horário, nas mesmas regiões do país, para chegar a resultados idênticos? Será que não houve nenhum votinho diferente, para mais ou para menos?

Em vez de nos ajudar a entender um pouco o que se passa nesta campanha presidencial, de tantas ondas e reviravoltas, estes institutos todos só estão confundindo ainda mais as nossas cabeças e deixando pulgas atrás das orelhas.

Por isso, acho melhor mesmo seguir a minha intuição, que na primeira semana indicou uma agenda positiva para Aécio e negativa para Dilma, apontando a vantagem do tucano nos primeiros dias do segundo turno, como escrevi aqui antes da divulgação das primeiras pesquisas.

Agora, já não sei de mais nada, e é melhor fazer como aqueles velhos comentaristas esportivos, que não queriam se comprometer: pode ganhar Aécio, mas também pode ganhar Dilma e, se nenhum dos dois vencer, vai dar empate. Sim, pelo que já aconteceu de imprevisível e imponderável nesta campanha, não é impossível que os dois cheguem com o mesmo número de votos ao final da disputa. Seria mais difícil do que ganhar sozinho uma bolada da mega-sena, mas eu não duvido de mais nada.

E aí, como fazer para desempatar?

 

 

 

 

 

 

 

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aeroporto guarulhos hg 20110420 Sociedade bipolar é revelada pela campanha eleitoral

Na cacofonia provocada durante a campanha eleitoral pelas conversas de motoristas de táxi misturadas ao som das análises do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, revela-se também como nossa sociedade é bipolar, ao defender uma coisa e praticar exatamente o seu oposto.

Quem percebeu isso foi minha filha Mariana Kotscho, também veterana jornalista, que publicou um texto sobre o assunto em seu animado Facebook.

Reproduzo abaixo o que escreveu Mariana:

"Tem gente que reclama da criminalidade, mas compra drogas e assim alimenta o crime...

Tem gente que reclama da falta de água mas continua lavando a calçada com mangueira...

Tem gente que reclama da corrupção, mas não perde a oportunidade de comprar a carteira de motorista...

Tem gente que não trabalha, vive de renda, de herança, e diz que o bolsa família é que sustenta vagabundo...

Tem gente que fala em respeito, mas não perde a oportunidade de agredir o outro ou fazer piada racista...

Tem gente que diz que a vida dela tá péssima, mas mora em casa própria, frequenta as melhores escolas e os melhores hospitais e viaja pro exterior pelo menos duas vezes por ano...

E tem gente que em rede social fala que ama o povo nordestino, que somos todos brasileiros e, em grupos privados de whatsapp, manda um monte de vídeo acabando com o nordeste...

Tem gente que faz doação pra ajudar famílias pobres, mas se incomoda demais quando tem que se sentar ao lado delas no avião...

Ou seja, tem todo tipo de gente por aí...

E você, tem mais algum exemplo da bipolaridade da nossa sociedade?"

Volto eu.  Desde pequena, Mariana me surpreende e comove com o que fala e escreve, principalmente por seu agudo senso de justiça. Digo sempre que é uma prova da evolução da espécie... Também conheço um montão de gente desta sociedade bipolar, mas nunca tinha me dado conta da dimensão desta doença, que se alastra pelo país.

É isso que explica porque, aqui em São Paulo, a maioria dos eleitores quer não apenas derrotar Dilma e o PT nas urnas, mas também degolar a presidente e, se possível, acabar com o seu partido.

Quer dizer, a sociedade bipolar quer é "acabar com esta raça", como já dizia o grande democrata Jorge Bornhausen, aliado de Marina Silva e, agora, também de Aécio Neves.

Embora nesse meio seja comum a prática de sonegar impostos, há uma justificativa: "Não vou dar meu dinheiro para o governo alimentar estes vagabundos do Bolsa Família", cansei de ouvir nos últimos agitados dias da campanha eleitoral.

Contribui muito para isso também a revolta das madames com os direitos conquistados pelos empregados domésticos. Reclamam que ficou difícil arrumar empregadas e, quando conseguem, elas pedem mil coisas, além do salário mínimo. A criadagem agora exige um monte de direitos, até o pagamento de horas extras,  imaginem só...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Inhotim e13987420202111 Três dias fora do ar entre o sonho e a realidade

Conforme o combinado (ver post anterior "Eleição agora está mais para Aécio do que para Dilma", publicado antes da divulgação das pesquisas), cá estou de volta à lida nesta ensolarada manhã de domingo em São Paulo. Quando acordo, a cidade ainda dorme, em silêncio, o que é coisa muito rara por aqui. Melhor assim.

Pelos comentários que li, alguns leitores ainda não entenderam, embora o Balaio já esteja há seis anos no ar, que este é um blog jornalístico, que tem opinião própria, mas não briga com os fatos. As coisas são como são, não como gostaria que fossem.

Todos sabem que sou são-paulino, como confesso no meu perfil publicado aqui ao lado. Se o time está bem, digo que está bem, o elogio; se está mal, sou obrigado a criticá-lo e a escrever que está mal. Gostaria que o São Paulo fosse campeão sempre, mas este ano tenho que reconhecer: o favorito disparado para ganhar o título é o Cruzeiro, jogando um futebol muito melhor do que o nosso. Escrever o contrário não influiria no resultado.

Dito isso, vamos voltar aonde nossa conversa parou na quinta-feira cedo, quando viajei para Minas Gerais e imergi num outro mundo, trocando a política pela cultura. Sem levar celular nem laptop, sem ver televisão nem ouvir rádio, e ficar bem longe de jornais e revistas, passei três dias flanando, vendo e falando de outras coisas, conversando com pessoas que não conhecia, todas de bem com a vida, sem pressa e sem compromisso.

Também não levei nem caderno e caneta para fazer anotações, como faço em todas as viagens, a passeio ou a serviço, muito menos gravador, utensílio que não costumo usar. Queria só ver, ouvir e sentir. Fiz muito bem, pois é um choque tão grande conhecer de perto o museu a céu aberto do Instituto Inhotim, espalhado por um fantástico jardim botânico de 110 hectares, a 55 quilômetros de Belo Horizonte, que leva algum tempo para a gente absorver e entender a dimensão do que é aquilo.

Talvez escreva uma reportagem mais adiante para a revista Brasileiros, pois este é um assunto tão grande que não cabe no blog. Por hoje, queria só compartilhar com vocês o sentimento de paz e liberdade que Inhotim nos dá, reunindo incríveis obras de arte de vanguarda, cultura popular, música brasileira da melhor qualidade, projetos educacionais e mata nativa preservada, tudo num só lugar.

Não tem nada igual no Brasil e, ao que eu saiba, no mundo. Tudo é pensado e cuidado para unir num só cenário a fantasia com a vida real. Para tentar explicar do que se trata, o Instituto Inhotim e seus patrocinadores já convidaram para conhecer o museu um monte de jornalistas, escritores, poetas, compositores e outros seres inúteis, e todos deram depoimentos apaixonados sobre este mundo mágico. É só procurar no Google.

Acho melhor vocês irem lá para ver com os próprios olhos o que eu vi, já que me sinto incapaz de descrever a dimensão do que é aquilo. Ou, então, vão ter que esperar pela publicação do livro sobre os dez anos de Inhotim, que foi entregue aos cuidados de um grande artista das letras, o Humberto Werneck.

Andando de carrinho elétrico por suas alamedas, fiquei me perguntando como pode tanta riqueza humana e cultural brotar no meio do nada, em tão pouco tempo, numa região pobre do interior mineiro, sem nenhuma interferência ou ajuda do poder público.

Com sua cabeleira branca e esvoaçante, que faz lembrar a figura do cantor Osvaldo Montenegro, em meio ao almoço, apareceu na minha mesa a resposta ao vivo: o empresário Bernardo Paz, 61 anos, ex-dono de mineradora, pai de seis filhos, que já vai logo contando toda a história do lugar, sem a necessidade de lhe fazer perguntas, com o entusiasmo típico de quem é apaixonado pelo que faz e tem o maior orgulho, com toda razão, pelo resultado da obra.

Como não tomei nota de nada, só me lembro de uma frase. "Eu poderia passar o resto da minha vida em Paris sem fazer nada porque o futuro da minha família está garantido. Mas não conseguiria, porque agora tenho um compromisso com Inhotim. Muita gente acha que só fiz esta obra porque sou rico, mas não é isso. Eu fiz porque sou um louco".

De fato, tem muitos ricos no Brasil, tem até demais, com dinheiro demais, que nunca pensaram em investir suas fortunas em cultura, sem esperar receber nada em troca, como é comum com os mecenas das artes que proliferam nos países civilizados de outras partes do mundo. Loucos, como sabemos, também não faltam por aqui, mas eles preferem se dedicar a outros ramos mais rentáveis, como a política, por exemplo. O desafio é juntar a fome com a vontade de comer.

Bernardo Paz, um maluco rico e genial, conseguiu. Só o fato de Inhotim despertar em cada visitante a esperança de um futuro melhor para nossos filhos, provar que sonhar um outro mundo é possível, e ver a alegria das crianças que por lá circulam com suas professoras, já vale a viagem.

E me dá uma tristeza danada, porém, uma enorme preguiça, quando volto à realidade, e começo a ler os jornais no avião da viagem de volta de Belo Horizonte para São Paulo, no fim da tarde de sábado. Constato que não perdi nada e também não fiz a menor falta. Continuava tudo absoluta e mediocremente igual, a mesma baixaria, com um lado mostrando os podres do outro, neste melancólico Fla-Flu eleitoral, cada vez mais violento e insano. De qualquer forma, faz bem à saúde dar um tempo nesta guerra em que todos só temos a perder, ganhe quem ganhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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foto 2 Eleição agora está mais para Aécio do que para Dilma

Em jogo disputadíssimo, o time que estava ganhando por 1 a 0 toma um gol no último minuto, e a decisão vai para a prorrogação, que já ninguém esperava. Com todo o gás, reanimado pela nova chance, o time que marcou no finalzinho vai para cima do adversário, que sentiu o baque. Em poucos minutos, faz mais três gols e leva a taça da Liga dos Campeões da Europa.

Isto aconteceu em maio deste ano, na final disputada entre dois grandes times espanhóis, em que o Real Madri acabou goleando o Atlético de Madri por 4 a 1 na prorrogação, quando o adversário já estava botando a mão na taça no tempo normal de jogo.

E é mais ou menos isso que se está vendo agora nos três primeiros dias de campanha do segundo turno da eleição presidencial. Carta fora do baralho a duas semanas da eleição, abandonado até por seus companheiros e aliados, o tucano Aécio Neves saiu do terceiro lugar, atropelou Marina Silva e disparou na reta final, levando a disputa com a petista Dilma Rousseff, candidata à reeleição, para um imprevisível segundo turno.

Agora, mudou tudo. Basta ver a cara dos dois finalistas. Dilma parece cansada, pesada, rouca, com um discurso burocrático em que vai chutando a esmo. Do outro lado, dá a impressão de que Aécio rejuvenesceu dez anos, está sempre sorridente, saltitante, falante, animado, quase eufórico.

Não é para menos, já que nas primeiras horas após o anúncio do resultado do primeiro turno no domingo, a campanha só trouxe boas notícias para Aécio e muito ruins para Dilma. Não estou prevendo nenhuma goleada _, por favor, não me entendam mal _, mas o jogo já esteve melhor para a presidente, como comentaria o Galvão Bueno.

Vamos aos principais fatos desta quarta-feira.

Do lado de Dilma, a inflação subiu e a previsão de crescimento do PIB caiu mais uma vez; aliados do PT são flagrados pela Polícia Federal com malas de dinheiro suspeito em Brasília; os dois homens-bomba do esquema denunciado na Petrobras depõem na Justiça Federal e produzem novos vazamentos na imprensa contra aliados do governo, e o presidente do partido, Rui Falcão, faz o favor de lançar agora a candidatura presidencial de Lula para 2018.  Precisa mais?

Já pelas bandas tucanas, só alegria: o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mandou arquivar a investigação criminal contra Aécio Neves ligada ao aeroporto construído em terras da sua família com recursos públicos; PSB e uma penca de nanicos anunciam apoio à sua candidatura, e o partido parece mais unido do que nunca, até com José Serra e outros tucanos paulistas participando ativamente da campanha, no embalo da onda antipetista criada no país, principalmente em São Paulo.

Para completar, além dos oito partidos que já a apoiavam no primeiro turno, nenhum outro aderiu até agora a Dilma, enquanto o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, um gênio, faz declarações desastrosas sobre o aumento do custo de vida, mandando o povo comer ovo e frango em lugar de carne, que está muito cara. Justo agora que o povão se acostumou a comer bife todo dia... Que maravilha!, completaria o Milton Leite. Assim Dilma nem precisa de adversários.

Viajo daqui a pouco para Minas Gerais, onde vou conhecer o museu a céu aberto de Inhotim, que todo mundo diz ser uma beleza. Por isso, escrevo antes de Marina Silva anunciar a sua escolha de Sofia para o segundo turno, e da divulgação das primeiras pesquisas Ibope e Datafolha, previstas para o começo da noite desta quinta-feira. Já saíram alguns números divulgados por institutos menores favorecendo Aécio, mas não quero me deixar guiar pelas pesquisas, que exageraram um pouco nas margens de erro no primeiro turno.

Melhor é seguir a intuição da gente, sentir o clima, conversar com as pessoas e descobrir para que lado o vento está batendo. Neste momento, está batendo a favor do candidato tucano _ fato inédito na abertura do segundo turno nas últimas quatro eleições presidenciais disputadas entre PT e PSDB.

Vida que segue.

Em tempo: não deixem de ler, na área de comentários, a análise enviada às 2h15 de hoje pelo leitor Robert Silva, professor de Filosofia da rede pública.  Vale a pena.

Como não vou nem levar meu laptop na viagem, só voltarei a liberar comentários e atualizar o blog na noite de sábado ou na manhã de domingo. Até a volta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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foto 1 Nanicos apoiam Aécio. Qual é a surpresa? Que diferença faz?

Em tempo, atualizado às 20h20 de 8.9:

A Executiva Nacional do PSB anunciou agora à noite que irá apoiar Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno. Marina Silva, que concorreu pelo partido à presidência, só deverá anunciar sua posição amanhã. Ao participar do anúncio da decisão do PSB, em Brasília, Aécio falou do legado de Eduardo Campos, morto em acidente aéreo no dia 13 de agosto:

"Recebo este apoio honrado e emocionado porque passo a ter, no limite das minhas forças, a responsabilidade de levar o legado de Eduardo pelo Brasil. Seus sonhos, Eduardo, passam a ser os meus sonhos".

***

Até o final da tarde desta quarta-feira, Marina Silva ainda não proclamou oficialmente ao país quem irá apoiar no segundo turno, embora não haja muitas dúvidas sobre a sua preferência.

Mas três nanicos já se anteciparam, ao anunciar que estão com Aécio Neves, e não abrem: primeiro, foi Roberto Freire, eterno presidente e proprietário do PPS (antigo Partido Comunista Brasileiro), que não conseguiu sequer se reeleger deputado federal em São Paulo, apesar do apoio de José Serra e da mídia aliada; em seguida, chegou a vez de Eduardo Jorge, do PV, um partido que há tempos é uma folclórica linha auxiliar dos governos do PSDB e, por fim, o venerável pastor Everaldo, do PSC, que já vinha fazendo dobradinha com o tucano nos debates.

E daí? Qual é a novidade? Se nos programas políticos e nos debates de televisão do primeiro turno já eram todos contra o PT de Lula e Dilma, não havia motivos para que mudassem de posição agora. Com perdão pelo trocadilho, até aí morreu o Neves.

Somando o voto de todos os nanicos com os de Marina, como mostrei e provei no post anterior, nem se chega perto do total de eleitores que optaram por não escolher nenhum deles no primeiro turno.

Pois são exatamente eles, os 38,7 milhões dos eleitores reunidos no contingente dos "não votos" (brancos, nulos e abstenções) que irão definir este segundo turno em 2014, e não estes caciques nanicos de partidos idem. O resto é só farofa para alimentar os portais e as especulações em dia de noticiário fraco, antes do reinício da propaganda eleitoral previsto para amanhã, quando serão divulgadas também as primeiras pesquisas do Ibope e do Datafolha no segundo turno.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Marina e os não votos nas margens de erro

Quem será que Marina vai tirar para dançar no segundo turno? Alguém tinha ou ainda tem alguma dúvida?

Faz três dias, desde a abertura das urnas no domingo, só se fala disso. A protagonista do segundo turno até agora é Marina Silva, a terceira colocada, que ficou fora dele. Apesar de ser intimada a todo momento pela velha mídia familiar e partidária a declarar logo seu apoio ao tucano Aécio Neves, ela está se fazendo de difícil e alimentando o suspense para valorizar o passe.

A ex-senadora, ex-ministra e agora ex-candidata, ainda está discutindo com suas equipes da Rede e do PSB os termos do acordo com o PSDB, e só deve proclamar o resultado das negociações nesta quinta-feira, mesmo dia em que devem sair as primeiras pesquisas do Ibope e do Datafolha no segundo turno _ dentro das margens de erro, é claro. Pode ser tarde demais. Dependendo da margem de erro, que alguns pândegos já estão querendo aumentar para 40%, para cima ou para baixo, você pode estar chegando ao Guarujá ou indo para a PQP (distrito de Ponte Que Partiu).

Trancada num apartamento da agora mística Vila Nova Conceição, bem longe da floresta, onde recebe seus seguidores para ajudá-la a refletir sobre os rumos do novo Caminho de Santiago, enquanto os tucanos e a mídia amiga fazem contas para descobrir quantos votos, afinal, Marina poderá transferir a Aécio, todos se esquecem de um outro eleitorado, bem maior do que o dela: é o dos 38,7 milhões de "não votos", a soma dos brancos, nulos e das abstenções no último domingo.

São 4 milhões de votos a mais do que os recebidos por Aécio Neves (34,8 milhões). Num universo de 143 milhões de eleitores, Dilma ficou com 43,2 milhões de votos e Marina teve perto da metade (22,1 milhões), pouco mais do que conseguiu quando foi a grande zebra da eleição de 2010.

É este enorme contingente de não votantes, eleitores que resolveram ficar fora do jogo e não escolheram nenhum presidenciável no primeiro turno, que poderá ser decisivo no segundo, e ninguém parece dar muita importância a isso.

Se eu fosse marqueteiro ou cientista político, estaria mais preocupado com o destino desses "não votos" do que com os de Marina, a líder da "nova política", que não tem propriamente currais eleitorais nem eleitores de cabresto, ao menos que eu saiba, para estar se comportando como Getúlio Vargas ao fazer suspense na hora anunciar se o Brasil entraria na Segunda Guerra Mundial ao lado dos alemães ou dos americanos, dentro das margens de erro de uns 5 mil quilômetros, para mais ou para menos, nas frentes de combate.

Nesta troca de balas perdidas, Aécio também deveria se preocupar com o que anda falando seu mentor Fernando Henrique Cardoso, cada vez mais sociólogo e menos ex-presidente. O fogo amigo é sempre perigoso. Ao jogar esta semana os ricos letrados do Sul Maravilha contra os desinformados pobres do Nordeste Atrasado, FHC dá a impressão de não estar lendo nem os veículos da mídia amiga e com problemas de localização geográfica. Afinal, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde Dilma ganhou com folga, não ficam propriamente nos grotões nordestinos.

É preciso alguém levar dados atualizados ao ex-presidente. As coisas mudaram: noticiário da Folha desta terça-feira, escondido num canto de página, mostra que o PIB do Nordeste continua crescendo mais do que o do resto do Brasil, como vem acontecendo nos últimos 12 anos.

De acordo com os números mais recentes do Banco Central, a economia nordestina cresceu 2,55% no segundo trimestre do ano, na comparação com o primeiro, que já havia registrado 2,12% de expansão. "Nenhuma das demais regiões obteve dois trimestres consecutivos de alta, e as taxas, mesmo quando positivas, foram bem mais modestas", informa o jornal, que não pode ser acusado de petista.

Mais: segundo o IBGE, a economia do Brasil encolheu 0,2% de janeiro a março e 0,6% de abril a junho. Assim, mais do que qualquer outro fator ou argumento calcado em velhos preconceitos, são estes números que podem ajudar o sociólogo a entender as razões das vitórias de Dilma no Norte-Nordeste, em Minas e no Rio, que lhe deram uma vantagem de quase 9 milhões de votos sobre Aécio, apesar da acachapante derrota do PT em São Paulo.

Ah, antes que eu me esqueça. Enquanto o mundo político ficava ocupado com acordos, delações premiadas e pajelanças em geral, no mundo real o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, aquele do topetão jeitoso, aproveitou a trégua eleitoral para dar a módica ajuda moradia no valor de R$ 4.377 mensais para todos os juízes e procuradores, o que vai nos custar mais de R$ 1 bilhão por ano.

Na hora de votar, também é bom pensar nestas pequenas coisas do nosso cotidiano. Afinal, de um jeito ou de outro, aconteça o que acontecer dia 26, a vida continua.

 

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camara Câmara Federal vai ter 28 partidos: chega de nanicos!

Se todos os partidos que, nas eleições de domingo, conseguiram representação de pelo menos um deputado na Câmara Federal, apresentarem candidatos a presidente da República, em 2018, as emissoras de televisão vão ter que montar palcos gigantescos: serão nada menos do que 28 atores em cena.

Sim, é isso mesmo: aumentou de 22 para 28 o número de siglas com representação na Câmara. Isto torna simplesmente inadministrável organizar qualquer debate, por mais que a lei eleitoral determine a participação de todos os que apresentarem candidaturas.

Inadministrável, na verdade, fica o próprio país. Seja quem for eleito presidente, como vai governar? Alguém já pensou como o presidente da República vai fazer para administrar as demandas de 28 presidentes partidários e seus respectivos líderes na hora de montar sua base aliada para ter maioria no parlamento, sem o que, é impossível governar o país?

Diante deste quadro assustador produzido pelas urnas de 2014, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Dias Toffoli, já voltou a defender a cláusula de barreira para restringir a verba do fundo partidário e o tempo de televisão para as siglas nanicas. "Este grande número de partidos com um ou dois deputados, que passam a ter acesso a tempo de TV e fundo partidário, mostra que é hora de instituir a cláusula de barreira".

Já passou da hora, caro ministro, permita-me acrescentar. Jamais poderíamos chegar a esta balbúrdia partidária, uma anomalia que me parece única no mundo civilizado. A cláusula de barreira, que prevê um mínimo de 5% dos votos nacionais para que um partido possa ter representação no Congresso Nacional é, a meu ver, o principal ponto de uma reforma política pela qual o país clama, mas que jamais irá acontecer, se depender só dos políticos, sem que haja uma forte pressão popular.

Isto já aconteceu em 2006, mas o Supremo Tribunal Federal fez o favor de derrubar a cláusula de barreira. Nada sugere que agora será diferente. Mesmo que a medida seja aprovada no Congresso Nacional, bastará que o ministro Gilmar Mendes peça vistas do processo, e não se falará mais nisso.

A propósito, lembro que Mendes ainda não liberou o processo sobre a proibição de financiamento privado de campanhas, que já foi aprovada pela maioria do STF, mas não pode entrar em vigor até que o cuidadoso ministro faça o favor de devolvê-lo.

Dos 28 partidos a que chegamos na Câmara, três deles elegeram apenas um deputado (o PTdoB, o PRTB de Levy Fidelix e o PSL) e outros três contam com dois (o PEN, o PSDC e o PTC). Além do insistente Levy Fidelix, poderemos agora ter de volta aos debates o incrível Eymael, o democrata cristão, do PSDC, que antes não tinha nenhum deputado federal. Qual é o eleitor que sabe me dizer o significado dessas siglas?

Para se ter uma ideia da urgência da reforma partidária, se a cláusula de barreira já estivesse em vigor, apenas 7 partidos teriam representação na Câmara. E ficaria de fora o DEM, que já chegou a eleger a maior bancada, em 1998, quando ainda era chamado de PFL, e agora teve apenas 4,2% dos votos válidos.

Esse certamente é um dos motivos do desencanto demonstrado por boa parte dos eleitores nas eleições de domingo, quando quase um terço do eleitorado se recusou a participar da escolha dos novos governantes e dos parlamentares que serão responsáveis pelos nossos destinos nos próximos quatro anos.

Entre votos brancos, nulos e as abstenções, o índice chegou a 29%, um número muito elevado, que deveria preocupar os políticos deste país, se eles não estivessem ocupados apenas com o que é melhor para eles.

 

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 O papel do rádio na fábrica da desconstrução

Desconstrução virou a palavra da moda. Foi muito utilizada para criticar a propaganda negativa do PT contra a candidatura Marina Silva. Como ando muito de táxi, acompanho diariamente as atividades de uma outra fábrica de desconstrução, bem mais antiga e poderosa, que não está no radar dos nossos analistas e da qual quase ninguém fala.

Refiro-me ao papel desempenhado pelas rádios nesta campanha eleitoral. Temos no país três rádios sediadas em São Paulo e que operam em rede nacional, dedicadas dia e noite a baixar a ripa nos governos e políticos progressistas de qualquer latitude.

Recrutados em sua maioria na mídia impressa, proliferam no dial os "comunicadores populares" e  "comentaristas políticos e/ou econômicos", com um discurso que repete o pensamento único das suas empresas e não dá espaço para controvérsias: é pau no governo, desde que o governo não seja tucano.

Não importam o fato nem o assunto, você já sabe o que vai ouvir naquelas vozes indignadas de quem veio ao mundo para salvar a humanidade da danação eterna. Lembram aqueles pregadores do apocalipse que gritam na praça da Sé, mesmo que ninguém pare para ouvi-los. Só que estes têm uma audiência seleta e cativa.

Quando se fala de "conversa de motorista de táxi", sempre que alguém conta uma história cabeluda, detonando alguma figura pública sem necessidade de comprovação, pode ter certeza que a matéria prima vem do que ele ouviu no rádio do carro, e nada mais é do que a reprodução do que divulgam estes comunicadores e comentaristas clonados em série.

Depois, seus passageiros vão repetir estas mesmas histórias nos botecos de esquina ou nas salas de espera, nos salões chiques ou nos pagodes, garantindo que são verdadeiras. Se você lhes perguntar de onde tiraram isso, vão dizer que ouviram no rádio (ou então que viram na internet, na retroalimentação das notícias multimídia). É o círculo vicioso da fábrica de desconstrução, que gerou a famosa lenda da "mansão do Lula no Morumbi", repetida até hoje à exaustão pelos taxistas mais antigos.

Claro que não se pode generalizar, que há honrosas exceções à regra, e faço questão de citar como exemplos José Paulo de Andrade e Salomão Esper, ambos veteranos profissionais da Rede Bandeirantes, de quem muitas vezes posso discordar, mas sempre respeito. Não se trata de afinidade política ou ideológica, mas apenas de ter caráter e honestidade profissional.

Em épocas de beligerância eleitoral como estamos vivendo neste momento, muita gente subestima o poder do rádio e sua capacidade de multiplicação de boatos e infâmias, instrumento de propaganda permanente, geralmente a serviço do que há de mais conservador, reacionário e intolerante na sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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