Obama e Raul apontam para um mundo melhor

Barack Obama, presidente dos Estados Unidos:

"Os Estados Unidos não ficarão presos ao passado. É a primeira vez que em mais de meio século que serão restabelecidas formalmente as relações diplomáticas com Cuba. Nunca antes as relações com a América Latina foram tão boas".

Raul Castro, presidente de Cuba:

"O presidente Barack Obama é um homem honesto e isso se deve à sua origem humilde. Dez presidentes dos Estados Unidos anteriores a Obama têm dívidas com Cuba, menos o presidente Obama".

Quando eu imaginava poder reproduzir estas frases dos presidentes dos Estados Unidos e de Cuba?

Eu sou do tempo em que era bonito defender a revolução cubana e meter o pau no imperialismo americano.

No Brasil de hoje em dia, em que a intolerância, a prepotência e a ignorância tornam-se a cada dia mais ameaçadoras, ficou bonito mandar para Cuba os adversários políticos que venceram as eleições pela quarta vez seguida, e depois passar o fim de semana em Miami, como antes iam para o Guarujá.

Neste meio século que separa um tempo do outro, sem que eu tenha mudado de lado, sou agora um grande admirador da coragem do presidente americano Barack Obama e celebro com muita alegria a reaproximação dos Estados Unidos com Cuba, graças à intermediação de um outro homem providencial, o papa Francisco.

Obama, Raul e Francisco já garantiram seus lugares na história. Os que são contra eles, republicanos americanos ou a direita brasileira, ficarão na poeira das irrelevâncias.

O mundo ficou melhor, mas o Brasil está voltando aos tempos da Guerra Fria. O melhor retrato do Brasil de 2015 (ou o pior, dependendo de quem olha) é a foto das três jovens madames que ornam o editorial da "Veja" desta semana, sob o título "O chamado das ruas".

Em sua cada vez mais colérica campanha para derrubar o governo eleito, a decadente revista convoca seus seguidores para as manifestações do "Fora, Dilma" marcadas para este domingo, na mesma linha da capa fake publicada às vésperas do segundo turno das eleições de outubro, na desesperada tentativa de reverter o resultado das urnas.

Entre o gesto de grandeza de Obama e Raul, e a baixaria dos porta-vozes midiáticos da elite tupiniquim, o Brasil joga o futuro da democracia no maior país do continente. Para o bem ou para o mal, cada um que faça a sua escolha. Estamos vivendo um momento histórico. E é muito bom estar vivo para ver isso acontecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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dilma21 100 dias: o que está em jogo é o futuro do país

Os governos, por melhores ou piores que sejam, passam. Os países ficam.

É nisso que deveríamos pensar neste dia 10 de abril de 2015, uma sexta-feira: o que está em jogo no momento não é o destino de um governo, mas o futuro do nosso país.

Na nossa jovem democracia, que acaba de completar 30 anos, nunca tivemos os primeiros 100 dias de um novo governo tão tumultuados, com tantas crises e conflitos ao mesmo tempo, como neste Dilma-2.

A esta altura do campeonato nacional, tão grave é a situação, que não adianta ficar discutindo quem é o culpado e quem tem razão, quem errou ou acertou nas suas previsões, quem roubou mais ou menos. Estamos todos no mesmo barco, à deriva.

O fato é que completamos este período simbólico com uma junta civil formada por Dilma, Temer e Levy no comando do país, um Congresso conflagrado, em que a maioria governista virou minoria, a base aliada em frangalhos e a oposição liderada pelo principal partido aliado, o PMDB de Eduardo Cunha, sem falar nos estragos já causados pela Operação Lava Jato nos principais indicadores econômicos.

Para se ter uma ideia do clima, esta semana, durante um debate promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, em Belo Horizonte, a primeira pergunta que me fizeram foi sobre o perigo de termos novo golpe militar. Não corremos este risco. Respondi que a maior ameaça à democracia não vem dos quartéis, mas da aliança conservadora jurídico-parlamentar-midiática liderada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o ministro do STF Gilmar Mendes, em parceria com o Instituto Millenium.

São eles que determinam a agenda política e inspiram estes grupos cinzentos de indignados e revoltados formados nas redes sociais, que marcaram novas manifestações contra o governo para o próximo domingo, dia 12. Ganharam tanta força nestes 100 dias que, a seguir nesta marcha, daqui a pouco vão querer revogar a Lei Áurea e implantar a pena de morte no país, com o apoio de paneleiras e marchadeiros sem noção mobilizados em torno de um único objetivo: "Fora Dilma!".

O que os move é apenas o sentimento de vingança, inconformados com a quarta derrota seguida para o PT de Lula e Dilma. O que eles querem, afinal, além de derrubar o governo? Para colocar em seu lugar que projeto de país?

Se o que os mobiliza fosse o combate à corrupção, por que não gritam também "Fora Cunha!" e "Fora Calheiros", os presidentes da Câmara e do Senado que estão sendo investigados pela Operação Lava Jato? Será que alguma das suas emergentes lideranças está preocupada mesmo em salvar a Petrobras ou apenas quer rifa-la na bacia das almas para o primeiro gringo que aparecer?

Por que não levam para as marchas faixas e cartazes com os nomes dos bancos e das empresas investigados na Operação Zelotes no maior propinoduto de sonegação fiscal da nossa história? Por que não pedem a lista dos maganos flagrados com contas secretas no HSBC da Suíça? Por que não cobram da Justiça mais agilidade nos processos dos mensalões tucanos e dos trensalões paulistas?

O quadro é tão nebuloso que a oposição oficial dos tucanos e agregados está mais perdida do que cachorro em dia de mudança, sem saber se dá as caras nos protestos ou fica mais uma vez na janela para ver a banda passar, torcendo de longe. Já não sinto neles e nos seus celerados porta-vozes da imprensa o mesmo ânimo dos dias que antecederam o 15 de março, que pode ter sido apenas um tardio espasmo pós-eleitoral.

Seja como for, aconteça o que acontecer no domingo, ainda temos pela frente 1.360 dias de governo Dilma-2, agora sob a direção da dupla Temer & Levy e com a presidente no papel de rainha. Em lugar do flácido "presidencialismo de coalização" da envelhecida Nova República, estamos inaugurando o parlamentarismo monárquico. Pelo menos nisso, ficamos mais parecidos com a Inglaterra...

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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dilma1 Lambança leva Dilma a jogar a última cartada

Dilma e Michel Temer

Agora vai ou racha, é tudo ou nada. De lambança em lambança, já no desespero, sem ter mais para onde correr, após ser rejeitada até por um Eliseu Padilha da vida, Dilma Rousseff entregou o comando político do governo ao seu vice, Michel Temer, presidente do PMDB.

Duas semanas atrás, foi o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, quem anunciou a demissão de Cid Gomes, então ministro da Educação. Terça-feira, a substituição de ministros desceu na hierarquia. Sabem quem anunciou que Padilha não aceitaria o convite de Dilma para deixar a aviação civil e assumir a articulação política? Foi um tal de Leonardo Picciani, jovem líder do PMDB na Câmara, um dos bate-paus da bancada particular e suprapartidária que Cunha elegeu em outubro.

Quer dizer, virou zona, é fim de feira de um governo que está desmilinguindo antes mesmo de completar os primeiros 100 dias. Acabou a liturgia do poder que José Sarney tanto prezava para pelo menos disfarçar sua falta de poder. Dilma, mais uma vez, fez tudo errado ao tentar dar um jeito no seu Ministério Frankstein para tirar a articulação política das mãos do seu chegado Pepe Vargas (quem?) e entregá-la ao PMDB.

Como é que uma presidente da República pode se dar ao vexame de receber a recusa de um subordinado para trocar de ministério, ainda mais sabendo que ele atendeu a ordens de Eduardo Cunha, que é quem realmente manda no PMDB e na agenda política nacional? E ainda por cima mantê-lo no posto, jogando Pepe Vargas para um outro ministério?

E agora? Ninguém sabe. Só por um milagre o melífluo Michel Temer conseguirá domar o PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, cada vez mais dispostos a botar fogo no navio desgovernado para cumprir as promessas feitas aos financiadores de suas campanhas.

Para ninguém alimentar ilusões sobre o PMDB, Eduardo Cunha já mandou avisar: com Michel Temer na articulação política, "não vai alterar absolutamente nada a independência da Casa". Ou seja, se depender dele, e é ele quem manda, o partido vai continuar no comando da oposição a Dilma.

Partido com o maior número de cadeiras no Congresso Nacional, o PMDB tem apenas 6 ministérios, com uma verba total de R$ 7 bilhões, enquanto o PT tem 14, movimentando orçamentos que chegam a R$ 50 bilhões.

É aí que está a razão do conflito entre o governo e os dois principais partidos da sua base, o resto é firula. O PMDB, que não é um partido só, mas uma federação de interesses, só quer mais cargos e verbas, no momento em que acabou a farra do dinheiro fácil para alimentar os apetites de todos. O PT, por sua vez, isolado e sem rumo, não apoia o ajuste fiscal que prevê o corte de gastos sociais para reequilibrar as contas públicas.

Com a economia entregue a Joaquim Levy, e a articulação política, a Michel Temer, Dilma repartiu o poder presidencial e, daqui para a frente, vai ficar administrando a massa falida, sem ter o apoio de nenhum setor da sociedade organizada e dos movimentos sociais que lhe deram a vitória em outubro, enquanto a inflação dispara e o desemprego se multiplica na esteira da Operação Lava Jato.

O fracasso das manifestações promovidas pela CUT na terça-feira, com 400 gatos pingados saindo às ruas em São Paulo, mostra que a outrora aguerrida militância do PT e o "exército do Stédile" já não têm mais forças nem disposição para correr em seu socorro.  Com seus agora 38 ministros, Dilma está cada vez mais só na estrada e já não tem mais coelhos para tirar da cartola. Michel Temer pode ter sido o último.

Vida que segue.

 

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alcapone Com bom advogado, aqui Al Capone não seria preso

Al Capone

Dono de um amplo repertório de crimes que celebrizaram seu nome como um dos maiores bandidos de todos os tempos, Al Capone só foi parar na cadeia depois de ser condenado por sonegação de impostos.

O azar dele é que vivia nos Estados Unidos. Como aqui não é Chicago, os Al Capone tupiniquins de alto quilate não correm este risco.

Quem me chamou a atenção para este detalhe no grande cipoal das nossas leis fiscais, que garantem a impunidade criminal, foi o sempre atilado repórter Marcelo Auler. Em texto publicado no seu Facebook neste final de semana, Auler lembra que sonegar passou a ser um bom negócio no Brasil, como demonstra a Operação Zelotes, da Polícia Federal, um assunto que aos poucos já está sumindo do noticiário.

Vale reproduzir o trecho principal do texto do amigo jornalista para entender melhor as origens da festa do caqui em que se transformou a Receita Federal, com a mudança nas leis promovida durante o primeiro governo Fernando Henrique Cardoso.

"Aqui cabe lembrar que nossos governantes, com o aval dos nossos legisladores, já em 1995, através da Lei nº 9.249, de 26/12/1995, como estipula o artigo 34, simplesmente extinguiram a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137/90, que cita crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo, e na Lei nº 4.729/65, específica para a sonegação fiscal, quando o agente promover o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia".

"Ou seja, em outras palavras, amarraram as mãos do Ministério Público, impedindo qualquer processo criminal contra grandes sonegadores, em especial empresários e gente do mercado financeiro, que forem pegos, desde que o sonegador "arrependido" acerte as contas com a Receita. Ele, então, tenta fraudar. Se for pego, corre e se acerta com a Receita _ normalmente, parcelando a dívida ou aderindo ao Refis e, com isto, não pode ser processado criminalmente. É como se o ladrão da esquina, depois de pego, devolvesse o que roubou e fosse deixado em paz, livre, leve e solto".

É o popular: se colar, colou. Se a fiscalização, por acaso, pegar alguma mutreta e multar a empresa do bacana, sempre restará contratar um bom escritório de advocacia e recorrer da punição no agora famoso "tribunal" do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) do Ministério da Fazenda, alvo de investigações da Polícia Federal por fraudes que podem representar um prejuízo já identificado superior a R$ 19 bilhões aos cofres públicos. No total, tramitam atualmente no tribunal centenas de recursos em processos no valor de R$ 500 bilhões (isso mesmo, meio trilhão de reais), que o governo deixa de arrecadar.

Um azeitado esquema de propinas montado com a participação de servidores públicos e representantes dos contribuintes autuados, quer dizer, dos sindicatos e confederações patronais, cuida de diminuir o valor das multas ou mesmo, simplesmente, deleta-las. Pelos valores já divulgados, a Operação Zelotes bota no chinelo os casos dos mensalões e petrolões, e tem tudo para ser promovido a maior escândalo de corrupção na nossa história, se as investigações realmente forem levadas até as últimas consequências, o que não é fácil.

Como o caso só envolve cachorro grande, todo cuidado é pouco, ao contrário do que acontece nas denúncias seletivas da Operação Lava Jato. A diferença de tratamento chamou a atenção até da ombudsman da Folha, Vera Guimarães, que escreveu neste domingo:

"Só na última quinta (2), uma semana depois do início, a operação galgou a manchete deste jornal ("Mensagem liga lobista a caso que fraudou Receita"). Um dia após ser deflagrada (27), a Zelotes foi o título principal dos concorrentes, mas mereceu na Folha uma chamada modesta. O tema ficou sumido da capa por três dias e voltou ainda menor na terça (31) e na quarta (1º). O furo mais importante até agora, a lista de grandes empresas investigadas, foi obra da concorrência".

A bronca parece não ter surtido efeito. Nesta segunda-feira, não encontrei nenhum registro sobre o assunto no jornal.

A melhor definição sobre o papel do Carf e a atuação da Receita Federal e do Ministério da Fazenda neste escândalo do propinoduto fiscal foi dada por um dos conselheiros do órgão, Paulo Roberto Cortez, em escuta gravada pela Polícia Federal com autorização da Justiça:

"Quem paga imposto é só os coitadinho, quem não pode fazer acordo, acerto (...) eles estão mantendo absurdos lá contra os pequenininho e esses grandões aí tão passando tudo livre, tudo isento de imposto, é só pagar, passa (...) tem que acabar com o Carf imediatamente (...) tem que fechar aquilo, mudar, vai pro judiciário, não pode, não pode isso aí. Virou balcão de negócio. É de dar vergonha, cara".

Pois é, até os corruptos já estão ficando com vergonha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Reencontrei o velho amigo Djalma Bom na saída do cine Belas Artes, no final da tarde de sábado. Era exatamente a mesma figura que conheci no final dos anos 70 do século passado, nas históricas greves dos metalúrgicos do ABC paulista. Ao longo do tempo, não mudou a forma de se vestir nem de pensar, nunca deixou de usar chapéu de feltro, nem trocou de lado.

Hoje septuagenário,  o operário aposentado da Mercedes-Benz, ex-vice-prefeito de São Bernardo do Campo e ex-deputado federal Djalma Bom, sempre foi um dos mais fiéis companheiros de Lula na diretoria do sindicato, na criação do PT e da CUT, nas campanhas eleitorais e nos embates políticos que levaram o partido primeiro aos parlamentos e, por fim, ao poder central.

Vimos filmes diferentes, atravessamos a rua e fomos junto com nossas mulheres tomar um chope no Riviera, um boteco daquela época de resistência e sonhos, que era comandado pelo onipresente Juvenal, servindo sozinho todas as mesas barulhentas da chamada esquerda festiva.

O que mudou? Mudaram os amigos, mudaram o país e o mundo, mudou tudo, até o bar que agora ficou chique e é frequentado por uma fauna mais silenciosa. O que dava orgulho agora dá vergonha, a esperança cedeu lugar ao desencanto, não temos mais argumentos, só boas lembranças das lutas pela anistia, pelas eleições diretas, por um país mais justo, menos desigual, com oportunidades para todos.

Nos despedimos no ponto de ônibus, onde o casal Bom embarcou de volta para casa.

Deu saudades de um tempo que não volta nunca mais.

E vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Nada pode ser pior do que perder um filho

Demoro um pouco para entender e escrever sobre fatos que fogem à minha compreensão, como é o caso da trágica morte de Thomas, de 31 anos, filho caçula do governador Geraldo Alckmin e de dona Lu, na tarde desta quinta-feira, em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

Nestas horas, fico, literalmente, sem palavras, mas não posso me omitir. Ao me colocar no lugar do pai e da mãe, sinto e sofro por eles. Nada no mundo pode ser pior do que perder um filho. É algo que vai contra a ordem natural da vida.

Todos nós temos a lembrança de parentes ou amigos próximos que já passaram por esse drama. Na hora, me lembrei de dois amigos queridos, os jornalistas Fausto Camunha e Ricardo Viveiros, que também perderam filhos jovens como Thomas.

A esta altura da vida, só me abalo ainda com problemas envolvendo minhas filhas ou meus netos que eu não possa resolver. O resto a gente enfrenta sem maiores queixas como coisas do destino.

Não conheci Thomas, mas sempre tive uma boa convivência com o governador Alckmin, um homem de trato lhano e muito respeitoso, desde o tempo em que ele era conhecido como o "Geraldinho do Covas", um político simples do interior, muito religioso e apegado à família e, por isso, posso imaginar o tamanho da dor dele neste momento.

Ao governador Geraldo Alckmin e dona Lu, e a todas as famílias das vítimas do acidente com o helicóptero,  envio daqui meus mais profundos sentimentos de pesar.

 

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receitanova Qual o maior escândalo? A indústria da sonegação

"Vou lhe contar um pequeno segredo: aqui no Brasil empresas não gostam muito de pagar impostos".

Segredo para quem, cara pálida? O autor desta frase é exatamente quem deveria cuidar para que todos paguem seus impostos, o ministro da Fazenda Joaquim Levy. Em palestra que fez na semana passada, em São Paulo, a ex-alunos da Universidade de Chicago, onde também estudou, ele falou de passagem numa antiga prática, a sonegação fiscal, exercida desde sempre por amplos setores do alto empresariado nacional. Preferem pagar bons advogados e lobistas para pagar menos ou não pagar nada do que devem à Receita Federal.

Como de hábito, Levy depois tentou consertar o que disse, substituindo na transcrição oficial do inglês para o português a palavra "empresas" por "pessoas". Claro que ninguém gosta de pagar impostos, nem aqui, nem em Chicago, nem na China, mas o ministro deu azar de tocar neste assunto proibido justamente no momento em que a Polícia Federal deflagrava a Operação Zelotes, que está investigando 74 empresas suspeitas de causar um rombo de até R$ 19 bilhões aos já combalidos cofres públicos que Levy tenta salvar com seu ajuste fiscal.

Este é, de longe, o maior escândalo de corrupção da nossa história, quiçá do mundo, muito maior do que todos os mensalões e petrolões juntos, que há anos fazem a alegria da mídia udenista nativa, como mostram os números, que agora não tem mais jeito de esconder das manchetes e das capas de revista:

* Até o momento, do total do montante investigado, a Polícia Federal já identificou e comprovou prejuízos ao erário de R$ 6 bilhões causados pelo esquema, que envolve grandes grupos econômicos do porte dos bancos Bradesco,  Santander, Boston Negócios, Safra e UBS Pactual, e empresas como Ford, Gerdau, RBS, TIM, BRF, Petrobras, Light, Mitsubishi, Brascan e Marcopolo. Não tem cachorro pequeno nesta história e, até agora, não apareceram nomes de políticos (apenas uma sigla, a do PP, sempre ele, está na lista dos sonegadores investigados).

* Só este valor já corresponde a três vezes mais do que o total desviado no esquema de corrupção na Petrobras descoberto pela Operação Lava Jato e divulgado pelo Ministério Público Federal em janeiro: R$ 2,1 bilhões.

Para se ter uma ideia do que representa esta verdadeira indústria da sonegação, os R$ 19 bilhões e 77 milhões que deixaram de ser recolhidos à Receita Federal, só nos processos investigados até agora, estão próximos dos R$ 18 bilhões que o ministro Joaquim Levy pretende cortar este ano em benefícios trabalhistas e previdenciários, as principais metas do pacote fiscal que está paralisando o país. Ou seja, se o Ministério da Fazenda e a Receita Federal cobrassem dos grandes sonegadores o que devem, o governo nem precisaria fazer ajuste nenhum.

Só agora, com a Operação Zelotes, nós, simples contribuintes, ficamos sabendo da existência de um tal de CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), a sigla que esconde o grande ninho da corrupção numa bilionária parceria público-privada, espécie de segunda instância a que as empresas podem recorrer quando se sentem "prejudicadas" pela fiscalização.

A curiosidade deste tribunal tributário especial é que ele é constituído de forma paritária por servidores do Ministério da Fazenda e representantes das confederações e sindicatos patronais, ou seja, das pessoas jurídicas autuadas pelo Fisco.

A cada dia, aos poucos, novos escândalos vão aparecendo e mostrando como o CARF se tornou um ótimo negócio para as empresas devedoras da Receita Federal. Vamos só pegar alguns exemplos:

* Para não pagar uma dívida relativa a suposta sonegação de impostos da ordem de R$ 793 milhões, o Banco Safra está sendo investigado pelo pagamento de uma propina de R$ 28 milhões negociada com conselheiros do CARF, entre eles um procurador da Fazenda Nacional, Jorge Victor Rodrigues, segundo denúncia do jornal O Globo, com base em gravações de conversas interceptadas pela Polícia Federal, com autorização judicial.

* As investigações da PF no processo da montadora Ford levaram a um ex-presidente do CARF, Edison Pereira Rodrigues, que oferece seus "serviços" em troca de módicos 2% a 3% do valor devido, com garantia de "95% de chances" de reduzir ou anular as multas da Receita Federal. "Caso contrário, perderão com certeza. A bola está com vocês", escreveu Rodrigues em e-mail encaminhado à empresa e apreendido pelos agentes federais, no qual informa já ter trabalhado também para a Mitsubishi, "com sucesso", segundo reportagem da Folha desta quinta-feira.

* A Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, é suspeita de pagar R$ 1 milhão de propina para não pagar multa no valor de R$ 200 milhões, segundo denúncia do Estadão, o primeiro jornal a levantar o assunto, que já relacionou vários outros gigantes citados nas investigações (ver acima), como bancos, montadoras, empresas do setor alimentício, de construção e de telecomunicações. Parece que quase nenhum setor escapa. Todas as empresas, é claro, negam irregularidades e garantem só atuar dentro da lei. Segundo o jornal, dez conselheiros e ex-conselheiros do CARF estão sendo investigados por envolvimento no esquema.

É muito bom que os três principais jornalões brasileiros agora disputem esta gincana para jogar mais luz no escândalo das propinas da sonegação, abrindo ao caso o mesmo espaço e dando-lhe o mesmo tratamento concedido aos casos anteriores que abalaram o país.  Antes tarde do que nunca. E o governo o que faz? A julgar pelas declarações de Levy e do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, parece que ainda não está muito preocupado com isso.

Levy: "Não é uma coisa que se deva fazer com espalhafato, mas todas as ações serão e estão sendo tomadas". Quais? "O fortalecimento do Carf é um dos temas que elegi para a minha administração. É muito importante porque diminui a necessidade de se aumentar impostos". Fortalecimento? Como assim? Não seria melhor fechar de uma vez esta arapuca que só tem servido para sangrar os cofres públicos e encaminhar os reclamantes à Justiça comum, como qualquer um de nós?

Rachid: "Há 74 processos administrativos que estão sob suspeita pelas informações de que nós já dispomos (...) Mas não necessariamente os R$ 19 bilhões serão revertidos a favor da Fazenda Nacional". Por que não? O governo não está desesperadamente precisando de dinheiro para acertar as contas públicas? Não é justo aumentar a arrecadação, cobrando de quem pode e deve mais, em vez de cortar benefícios sociais de quem pode menos?

A crise não é só econômica, meus amigos. É política. O governo Dilma-2 precisa decidir de que lado fica.

E vamos que vamos.

Em tempo (atualizado às 14h):

Só para lembrar um detalhe que esqueci de colocar no texto acima: segundo estudo dos procuradores da Fazenda Nacional, a estimativa de sonegação fiscal para o exercício de 2015 está na ordem de R$ 500 bilhões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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joaquim Sem um Plano B, só resta a Dilma segurar o Levy

O Ministro Joaquim Levy

Por mais sapos que tenha de engolir, só resta mesmo à presidente Dilma Rousseff defender seu plenipotenciário ministro Joaquim Levy, como fez nesta segunda-feira, em Capanema, no Pará, ao dizer que ele "foi mal interpretado" em mais uma declaração polêmica sobre os rumos da política econômica do governo.

A partir do momento em que jogou todas as suas fichas do segundo mandato no pacote de ajuste fiscal embrulhado pelo ministro da Fazenda, até pela ausência de qualquer outro projeto de governo, Dilma não tem escolha: ou banca Levy até o fim ou correrá o risco de ver o país perder o grau de investimento, derrubando o último pau da barraca.

O problema agora não é mais saber quais são os limites da presidente, mas adivinhar até onde a paciência do ministro aguenta o "fogo amigo" do PT e das centrais sindicais, e as intermináveis negociações com deputados, senadores, governadores, prefeitos, empresários e o resto do mundo. E se Levy jogar a toalha?

Promovido simultaneamente a czar da economia e articulador político de um governo sem plano de voo em plena tempestade, o técnico que fez carreira no sistema financeiro carrega sozinho nos ombros o destino de 200 milhões de brasileiros, com suas famílias ameaçadas pelas nuvens de desemprego, inflação e juros altos, recessão, paralisia nos investimentos e nenhuma agenda positiva à vista no horizonte.

Em Capanema, a 152 quilômetros de Belém, Dilma foi entregar as chaves de mais 1.032 unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, uma das principais bandeiras do seu primeiro governo. Fora isso, o que temos? Mais médicos, mais bolsas, quer dizer, tudo mais do mesmo. É muito pouco para os imensos desafios de um país como o nosso, menos na opinião do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, que mandou ver: "Na história do Brasil e do mundo ninguém fez mais do que a presidente Dilma".

O pior é que a presidente pode mesmo estar acreditando nisso, revelando um preocupante alienamento da realidade, como demonstrou ao defender o pacote fiscal e tentar minimizar as muitas crises que seu governo enfrenta:

"Uma coisa é ajustar o Orçamento e outra é reformar tudo. Nós não temos que reformar tudo. O Brasil é muito maior do que esses problemas que estamos passando. O Brasil está enfrentando dificuldades, mas são passageiras".

Tomara que ela esteja certa e disponha de informações que nós não temos para demonstrar tanta tranquilidade e otimismo. É disso que o país precisa, mas é vital que os desejos não se descolem da realidade dos fatos.

Na vida real, Joaquim Levy vai enfrentar nesta terça-feira uma outra batalha decisiva na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em que tentará um acordo para a correção das dívidas de estados e municípios com a União, que poderá provocar uma sangria de mais R$ 3 bilhões na arrecadação do governo.

Além disso, o ministro terá que se empenhar nas negociações para manter os cortes nos benefícios trabalhistas e sociais e evitar que o pacote do ajuste fiscal seja desfigurado no Congresso.

Caso Levy não seja bem sucedido neste duplo papel de articulador político e econômico do governo, enfrentando feras feridas como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o que já está ruim pode piorar muito, pois a presidente não tem um Plano B.

É Levy ou Levy, ajuste fiscal ou ajuste fiscal, tudo ou nada. Quero estar enganado, mas pressinto que estamos apenas no início de uma crise profunda na vida nacional, que não promete acabar tão cedo, ainda que o pacote levítico seja integralmente aprovado, o que constituiria verdadeiro milagre.

Entre a canonização e o naufrágio de Joaquim Levy, que de bobo não tem nada, mas não parece possuir dons divinos, navega o barquinho de cada um de nós em busca de um porto seguro. Ele sempre poderá dizer que tentou de tudo, mas, infelizmente, não deu. E Dilma e nós o que vamos fazer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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"Sete em cada dez jovens tendem a aceitar suborno em forma de presente _ Maioria dos profissionais de até 24 anos hesita em denunciar corrupção, indica pesquisa".

A manchete do R7 neste domingo, em matéria assinada pela colega Joyce Carla (ver íntegra no link), baseada em pesquisa da ICTS Protiviti, empresa de consultoria e serviços, é a meu ver a mais grave ameaça para o futuro do país, já assolado por tantos casos de corrupção e de sonegação de impostos, os grandes ralos do dinheiro público.

Acima de todas as outras, estamos vivendo uma profunda crise de caráter, de valores e de princípios. É inevitável associar esta preocupante pesquisa sobre o perfil ético dos jovens profissionais das corporações brasileiras com as denúncias divulgadas esta semana sobre a quadrilha que agia no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf, em que algumas das maiores empresas brasileiras criaram uma espécie de parceria público-privada para lesar o Tesouro Nacional em bilhões de reais, deixando no chinelo o que foi apurado até agora pela Operação Lava-Jato.

Os recursos das empresas contra autuações da Receita Federal eram julgados por servidores da Fazenda junto com representantes do sindicalismo patronal. "Nenhum outro país digno de menção tem um sistema semelhante", constata Elio Gaspari em seu artigo dominical na Folha.

Os números são assustadores, segundo os dados revelados pelo jornalista. "No Carf tramitam 105 mil processos com R$ 520 bilhões em autuações contestadas. A PF já achou 70 processos com desfechos suspeitos. Nove extinguiram cobranças que iam a R$ 6 bilhões. Se procurarem direito acharão cinco cobranças que valiam R$ 10 bilhões e viraram pó".

Entre as grandes empresas investigadas citadas em reportagem do Estadão, estão os bancos Bradesco (R$ 2,7 bilhões), Santander (R$ 3,3 bilhões), Safra (R$ 767 milhões), BankBoston (R$ 106 milhões) e Pactual, e mais Ford, Mitsubishi, BR Foods, Camargo Correa, Light e Petrobras. Segundo o jornal, o grupo RBS, afiliado da Rede Globo, está sendo investigado pelo pagamento de R$ 15 milhões para que sumisse do mapa um débito de R$ 150 milhões. São tantos milhões e bilhões desaparecidos nesta selva da terra de ninguém que a gente corre o risco de se perder.

A Operação Zelotes, deflagrada na quinta-feira, investiga os crimes de advocacia administrativa, tráfico de influência, corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Um estudo feito por procuradores da Fazenda Nacional, que já comentei aqui, estima que, em 2015, a sonegação de impostos deve bater na casa dos R$ 500 bilhões.  Se todos pagassem o que devem, em lugar de contratar bons advogados e pagar propinas, o governo federal certamente nem precisaria brigar tanto pelo seu pacote fiscal, que se destina mais a cortar gastos do que em aumentar a arrecadação.

Com estes exemplos vindos do andar de cima, não espanta a conclusão a que chegou Maurício Reggio, sócio-diretor do ICTS. "As pessoas estão acostumadas a pensar a corrupção como algo de fora, dos políticos, das autoridades. Não percebem as próprias atitudes. Com isso, têm um padrão para fora e não para si próprios". Dos 8.712 profissionais de 121 empresas pesquisadas, 82% admitiram aceitar atos antiéticos e 68% hesitam em denunciar casos de corrupção dos quais tomam conhecimento. Talvez muitos deles possam ser encontrados nas ruas e nas redes sociais nas manifestações contra a corrupção.

É esta desenfreada hipocrisia nacional que está minando os alicerces da nossa jovem democracia e colocando em risco o nosso futuro como Nação civilizada.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok1 Geração 68, de vitoriosa a derrotada

Faço parte da geração 68, como ficou conhecida a dos estudantes libertários que viraram o Brasil e o mundo de cabeça para o ar naquele ano do século passado, contestando todas as hierarquias e estruturas de poder, sem ter ideia de onde pretendiam chegar. Sabiam o que não queriam mais, mas não se entendiam sobre o que exatamente sonhavam colocar no lugar.

Pintava de tudo naqueles movimentos estudantis, das barricadas de Paris às grandes passeatas no Rio _ comunistas, trotskistas, anarquistas, hippies do paz e amor, guerrilheiros urbanos, porra-loucas e insatisfeitos em geral.

Tinha acabado de entrar na faculdade, na primeira turma da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, criada um ano antes. Voltei lá esta semana para participar de um debate junto com Heródoto Barbeiro, meu colega no Jornal da Record News, que comemorou na segunda-feira sua milésima edição no ar.

Para mim, foi um verdadeiro choque cultural. Nada mais restava daquele agito permanente em que os alunos ficavam mais fora do que dentro das salas de aula, pintando cartazes e faixas, fazendo discursos inflamados contra o reitor, a polícia, os americanos, a ditadura militar, o diabo a quatro.

Confesso que não tinha na época a menor consciência política e gostava mesmo era da farra, das festas, das paqueras, das intermináveis conversas no Rei das Batidas, um bar que existe até hoje na entrada da Cidade Universitária.

Já trabalhava na época como estagiário do Estadão, o principal jornal brasileiro naquele tempo, onde tinha entrado no mesmo mês em que passei no vestibular. Como viajava muito para fazer reportagens, comecei a frequentar cada vez menos a faculdade, que não consegui terminar até hoje.

Agora, ao entrar na sala, onde os alunos do professor Santoro já nos aguardavam, tive uma sensação estranha. Todos em silêncio, comportadamente sentados, pareciam esperar o início de uma missa. Do lado de fora, nenhum sinal ou som fazia lembrar a escola onde estudei quase meio século atrás. A ECA-USP velha de guerra, um dos principais focos dos confrontos dos anos 60, lembrava a sede de uma repartição pública.

Imaginava encontrar um clima bem diferente após as manifestações do Fla-Flu político dos últimos dias. Nos debates de que participei quando era aluno, os palestrantes passavam o maior sufoco. Eram contestados a todo momento. Desta vez, porém, depois de uma hora de conversa, me dei conta de que só Heródoto e eu falamos, sem ninguém nos interromper para discordar de nada. Até comentei isso para dar uma provocada na turma, que ficou só olhando para a minha cara como se eu fosse um extraterrestre.

Com o entusiasmo de sempre, Heródoto falava das maravilhas das novas tecnologias e eu da minha paixão pela reportagem, relembramos fatos históricos, arriscamos previsões sobre o futuro da profissão. Quando chegou a vez das perguntas, ninguém tocou nas profundas crises que o país está vivendo em todas as áreas. Na verdade, nem eram perguntas, mas apenas comentários sobre teorias da comunicação e mercado de trabalho, algo bem limitado ao que costumam discutir em sala de aula. É como se não estivessem preocupados com o que acontece fora das fronteiras da universidade.

À noite, na TV, quando comentamos nosso encontro na ECA, me dei conta de uma diferença fundamental que aconteceu neste meio tempo: somos de uma geração que dedicou boa parte de suas vidas à luta coletiva, queríamos mudar o país e o mundo, e fomos vitoriosos ao ajudar a derrotar a ditadura e a dar início a um processo de distribuição de renda, que tornou nosso país mais livre e menos injusto.

Hoje, noto um comportamento mais egoísta, em que os jovens estão preocupados com a carreira e a próprio sobrevivência, na base do cada um por si e Deus por todos. Em algum ponto, nós falhamos. Não conseguimos repassar para as novas gerações valores como a solidariedade, a ousadia, o inconformismo, a capacidade de sonhar e mudar o estabelecido para a construção de uma sociedade mais generosa. Desapareceu do mapa uma palavra chamada idealismo (não confundir com ideologia).

Pior do que isso: não fomos capazes de criar novas lideranças nem deixamos herdeiros políticos, tanto que o país continua dividido entre FHC e Lula, trinta anos após a redemocratização do país, nem de manter vivo o espírito que mobilizou os movimentos sociais em torno das lutas pela anistia, pela Constituinte, pelas liberdades públicas. Ou alguém sabe quem são esses "líderes" cevados nas redes sociais que apareceram nas manifestações de março? De onde surgiram, quais são suas histórias, que representatividade têm, quais são seus projetos de país? É um mistério.

Somos ao mesmo tempo vitoriosos e derrotados. Ganhamos nas lutas do passado, mas fomos derrotados na construção do futuro. Por isso, chegamos ao final de um ciclo político, com a falência do chamado presidencialismo de coalizão da Nova República, esta zorra federal instalada em Brasília e tão distante do Brasil real, colocando em xeque o futuro da própria democracia representativa pela qual tanto lutamos.

Nas voltas que a vida dá, nos livramos do jugo dos militares e caimos nas mãos do PMDB dos Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Está na hora de começarmos tudo de novo.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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