0d667dea95ce24c00f158076790dd11c Contra golpistas, ato defende a reforma política

Na direção oposta aos golpistas do terceiro turno que desfilaram sábado seu rancor pela avenida Paulista, pregando o impeachment de Dilma e a volta dos militares, movimentos populares liderados pela CUT e pelo MST convocaram para esta terça-feira, às 18 horas, no mesmo local, um ato em defesa do Plebiscito Oficial pela Reforma Política.

A concentração foi marcada para o vão central do Masp, em frente ao Parque Trianon. No mesmo horário, outras manifestações estão marcadas em Pernambuco, Distrito Federal, Ceará, Minas Gerais e Paraíba.

Uma consulta popular promovida por mais de 400 organizações sociais entre os dias 1º e 7 setembro recolheu mais de 7,7 milhões de votos a favor de uma constituinte exclusiva para reformar o sistema político.

Os organizadores do movimento protocolaram na quinta-feira passada (30), na Câmara Federal, um decreto legislativo para convocar uma assembleia constituinte exclusiva para a reforma política. Nada disso você viu ou verá noticiado na grande imprensa familiar.

"Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político?": esta é a questão central para que os eleitores respondam sim ou não no plebiscito popular.

Como já vimos nos primeiros movimentos pós-eleição na semana passada, se depender do Congresso Nacional, a reforma política não sairá nunca _ e, se vier apenas dos parlamentares, será ainda pior do que o sistema atualmente em vigor.

O PMDB, comandado na prática pelo atual presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e por Eduardo Cunha, líder do partido, que está em campanha para substituí-lo, já encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça a Proposta de Emenda Constitucional 352/2013, que trata da reforma política.

A PEC 352 tem como principal objetivo despolitizar o país, manter o poder nas mãos do mesmo esquema de poder e transformar os partidos em meras quitandas eleitorais, mais do que já são.

Um exemplo disso é que se alinhou ao ministro Gilmar Mendes, do STF, sempre ele, a favor do financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas. Proposta da OAB, que defende o financiamento público e proíbe o financiamento privado, que está na raiz de todos os casos de corrupção que assolam o país há anos, já foi aprovada pela maioria dos ministros do STF, mas ainda não entrou em vigor porque Mendes pediu vistas, há mais de seis meses, e até hoje não devolveu o processo.

É isto que está em jogo neste momento: a pressão popular para produzir uma legítima reforma do sistema político-partidário-eleitoral, que seja do interesse de toda a sociedade, contra a judicialização da política e a politização do Judiciário, promovida pela bancada de Mendes no STF, em aliança com os setores mais retrógados do Congresso Nacional.

Eles não querem mudar coisa nenhuma porque, do jeito que está, é bom demais para eles, instrumento de controle fundamental para manterem o poder de fato, independentemente de quem seja o presidente da República eleito.

E o caro leitor do Balaio, o que pensa de tudo isso? É melhor deixarmos a reforma política nas mãos dos políticos, ou chegou a hora de sairmos novamente às ruas em defesa da democracia participativa que devolva o poder aos seus legítimos donos, ou seja, nós?

 

 

 

 

 

 

 

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Está feia a coisa. Para onde olharmos, só vemos problemas, tanto na política como na economia. Podemos resumir a origem destes nossos desafios do momento a apenas dois: o governo, que acaba de ser reeleito, e a oposição, que não se conforma com a derrota. Após passar três belos dias no Fórum das Letras de Ouro Preto, em Minas Gerais, volto à vida real mais preocupado do que quando saí de São Paulo.

O que aconteceu, apenas uma semana após a reeleição da presidente Dilma Rousseff?

Há um clima pesado de conspiração, tanto no Congresso Nacional como nas ruas. Sabemos que muitos eleitores votaram em Dilma, menos pelas qualidades da presidente e de seu governo, e mais contra Aécio, para evitar a volta dos tucanos de FHC ao poder. Outros tantos votaram em Aécio contra Dilma, para tirar o PT de Lula do poder. Me arrisco até a dizer que estes eleitores foram a maioria. Talvez esteja aí a raiz das más notícias que assolam o país, mesmo depois de encerrada a guerra eleitoral.

Nas ruas, já se pede abertamente o impeachment da presidente e a volta dos militares _ ou seja, prega-se o golpe. No Congresso, com a faca nos dentes, parlamentares derrotados nas urnas formam frente suprapartidária para impor derrotas ao governo, comandada estranhamente por um deputado do principal partido da base aliada,  Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já em campanha para ser presidente da Câmara.

okok Para voltarmos ao pré 64 só faltam os militares

"Impeachment Já!".

"SOS Forças Armadas".

"Impugnação ou intervenção militar".

"Fora ladrão do PT. Fora Dilma e Lula".

"Vai para Cuba!".

Em faixas, camisetas e gritos, estas foram as palavras de ordem que mobilizaram cerca de duas mil pessoas no "desfile cívico" do último sábado, na avenida Paulista, apenas seis dias depois do segundo turno e na véspera do dia de Finados.

Não é assustador? Marchas contra a corrupção e o comunismo (outras menores foram promovidas em mais 20 cidades brasileiras no mesmo dia) para pedir o impeachment da presidente recém reeleita: o que falta ainda neste roteiro macabro para voltarmos ao clima de pré-64, o golpe cívico-midiático-militar que derrubou João Goulart e afundou o país na sua mais longa e tenebrosa ditadura?

A grande diferença entre o que muitos de nós vivemos há 50 anos, quando a maioria dos manifestantes não havia nascido, e o que está acontecendo agora, é que os militares continuam recolhidos aos seus quarteis, em obsequioso silêncio, dedicados às suas tarefas constitucionais, sem dar ouvidos às vivandeiras udenistas redivivas.

Em compensação, temos agora o inacreditável ministro Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de líder da oposição no Supremo Tribunal Federal, acenando com os perigos de uma "Corte Bolivariana", expressão que cunhou (sem trocadilho) para atacar o governo do PT, que poderá ter nomeado 10 dos 11 componentes do tribunal até o final do novo mandato, em 2016.

É tudo tão esquisito que, na ausência de Marina Silva, que sumiu, sua fiel escudeira Neca Setubal, pedagoga e uma das donas do Itaú, assumiu o papel de líder da oposição da terceira via: "E ainda falam no Luiz Carlos Trabuco para ministro da Fazenda!", queixou-se ela, ao falar do seu principal concorrente, o presidente do Bradesco.

Como já disse no Jornal da Record News, na quarta-feira passada, a derrota imposta ao governo pela Câmara, ao derrubar a proposta de criação dos conselhos populares, pode ter sido apenas a primeira de um movimento muito maior, que vem ganhando corpo no Congresso Nacional, para isolar o PT, e impedir a presidente de governar.

Este mesmo Eduardo Cunha citado acima, um remanescente da tropa de choque de Fernando Collor e principal desafeto de Dilma no primeiro mandato, já convocou para esta terça-feira uma reunião do seu  "blocão", formado, além do PMDB, por parlamentares do PTB, PR, PSC, Solidariedade e de partidos nanicos, que ele ajudou a eleger, para consolidar sua candidatura e acertar os próximos passos com o único objetivo de infernizar a vida do governo neste pouco tempo que resta da atual legislatura.

"Espera só para ver o próximo...", costumava brincar meu amigo Ulysses Guimarães, o "Sr. Diretas", principal líder da oposição à ditadura, quando lhe perguntavam se ele não achava o Congresso daquela época o pior que já tivemos. A profecia pode se repetir agora, ao analisarmos o novo Congresso que assume em fevereiro de 2015, com 28 partidos representados na Câmara, o que torna o país simplesmente ingovernável.

Enquanto isso, Dilma se retirava de cena para tirar alguns dias de folga numa praia da Bahia, o que é muito justo, mas deixa o país em suspense e só serve para alimentar o chamado "terceiro turno", com boatos e ameaças catastrofistas, para alegria das patéticas contrafações de Carlos Lacerda assumidas pelos veteranos da tropa de Blogs & Colunas, e dos jovens aloprados das redes sociais, que não aprenderam nada, na escola nem na vida, sobre o que foi 1964.

"Os brasileiros que viveram o período de 1964 têm o dever de alertar a sociedade para o lugar aonde querem nos levar, e que a triste experiência da ditadura militar não se repita nunca mais", escreve Celso Gualtieri, de Belo Horizonte, Minas Gerais, em carta publicada nesta segunda-feira no "Painel do Leitor" da Folha. Tem toda razão o leitor. É o que penso também.

Dilma Rousseff não pode alegar que foi reeleita há apenas uma semana para retardar indefinidamente o anúncio de nomes e medidas do novo governo, já que está no poder há quase 12 anos (oito como ministra e quatro como presidente da República). Não tem nada que esperar até a nova posse, em 1º de janeiro, para tranquilizar e devolver confiança e esperança ao país que lhe deu a vitória nas urnas.

Será que Dilma não pensou nisso antes, ou seja, no que deveria fazer imediatamente após a apuração dos votos, já que corria o sério risco de ser reeleita?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Conto ao senhor é o que sei

e o que o senhor não sabe;

mas principal quero contar

é o que eu não sei se sei,

e que pode ser

que o senhor saiba

(Guimarães Rosa, em "Grande Sertão Veredas")

ouropreto Em Ouro Preto, tocam os sinos e o cão fica uivando

OURO PRETO (MG) _ Final da tarde de sexta-feira, hora da Ave Maria.

Da sacada do hotel, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, vejo chegando a procissão para a missa das seis. Atrás dela, imponente, vem a banda, chamando o povo. Os sinos tocam freneticamente, para desespero de um vira-lata, perfilado do outro lado da rua, guardando seu dono, que a tudo assiste e ouve, impassível.

O cão fica uivando como um danado, acompanhando o bimbalhar dos sinos.  É uma relação sonora de causa e efeito tão direta e sincronizada como nunca havia visto antes. Algo que só Guimarães Rosa poderia nos explicar, se ainda estivesse entre nós.

Sem ele, fica muito mais difícil entender Minas Gerais.

Por acidente de percurso, viajei pouco este ano. Por razões do destino que desconheço, todas as cinco vezes em que saí de São Paulo vim para Minas. O que isso significa? Também não sei.

Estou nesta terra ao mesmo tempo misteriosa e bela, subindo e descendo escadas e ladeiras sem fim, para participar da 10ª edição do Fórum das Letras, como é chamada a feira do livro de Ouro Preto, que reúne jornalistas-escritores com estudantes e leitores.

É a terceira que vez que sou convidado e cada vez me encanto mais com o que ouço e vejo. Sob o comando de duas mulheres incríveis, Guiomar de Grammont e Marta Maia, o Fórum consegue reunir no mesmo lugar, todos juntos,  autores que dificilmente você consegue encontrar dando sopa por aí.

Este ano, já encontrei Lira Neto, o grande jornalista-historiador, best-seller da trilogia de Getúlio, Mario Prata, Audálio Dantas, Paulo Markun e Geneton Moraes Neto, entre muitos outros amigos famosos. Todos participamos de diversas mesas sobre jornalismo e literatura, tendo como tema central os 50 anos do golpe militar de 1964.

Nem sei se foi por culpa do tema, mas o fato é que  o Estado de Minas,  principal jornal do Estado e, de longe,  certamente, a  pior publicação editada nas capitais brasileiras, resolveu ignorar um dos mais respeitados eventos literários do país. Nos três dias em que estou aqui, só neste sábado o jornalão mineiro se dignou a dar a primeira matéria sobre o Fórum das Letras _ assim mesmo, para tratar apenas de dois autores estrangeiros.

Talvez isso ajude a entender porque o tucano Aécio Neves, por duas vezes governador do Estado, tenha perdido as eleições para presidente exatamente em Minas Gerais, ao contrário de Juscelino Kubitschek, o último mineiro eleito para o cargo (Itamar Franco só assumiu como vice do cassado Fernando Collor).

Correção: em comentário enviado às 4h36 de domingo, a leitora Katia Gerab Baggio, de Belo Horizonte, me corrige: "Lembro que Dilma nasceu em Belo Horizonte e só saiu de Minas quando já era uma jovem estudante de Economia da UFMG, sob perseguição das forças repressivas da ditadura militar. Apesar de ter se radicado no Rio Grande do Sul, não deixou de ser mineira".

Ainda bem que tenho bons e atentos leitores... Este erro, porém, não muda o que escrevi na sequência, mostrando as diferenças entre as campanhas de Aécio e Juscelino.

Em 1955, na direção oposta, JK teve votação insignificante em São Paulo e ganhou de lavada em Minas, o que lhe assegurou a vitória. Com todo o apoio da imprensa e dos institutos de pesquisa mineiros, que em safras eleitorais proliferam mais do que duplas sertanejas em Goiás, Aécio conquistou um latifúndio de votos em São Paulo, e pensou que nem precisava fazer campanha por estas bandas. Sairia daqui aclamado presidente com monumental vantagem de milhões de votos. Pois acabou perdendo em Minas e, por consequência, a presidência do Brasil. Aécio acreditou demais na sua própria propaganda, na imprensa servil e nas fantasiosas pesquisas mineiras.

Só o cão uivante não explica tudo, claro, mas serve para a gente refletir sobre estes segredos roseanos das terras e das gentes de Minas Gerais, e as relações de causa e efeito entre a imprensa, a mesma que apoiou alegremente o golpe cívico-militar de 1964, e a política dos dias atuais. Uma coisa pode ajudar a outra, mas também pode iludir, não dura para sempre.

Bom final de semana a todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lolo Exclusivo: Quem elegeu a Dilma foi o Lobão?

Juro que este é meu último comentário sobre as razões que levaram à reeleição de Dilma Rousseff. É minha contribuição para os analistas que ainda estão quebrando a cabeça para entender o que aconteceu no último domingo.

Como ninguém ainda pensou nisso, sugiro que se leve em conta também o "fator Lobão" _ o cantor, vejam bem, não o ministro.

Entusiasmado cabo eleitoral de Aécio Neves no meio artístico, algumas semanas antes da eleição, como vocês se recordam, Lobão anunciou que deixaria o país se Dilma fosse eleita. Teve gente nas redes sociais que até convocou uma festa de despedida para o cantor, no agora famoso aeroporto de Cláudio.

Ainda não se tem um levantamento científico sobre os votos dados a Dilma pelo eleitorado que queria aproveitar a chance para se livrar desta figura patética, meio quarta-feira, com aparência de doentinho fora da casinha, mas como a decisão aconteceu por estreitíssima margem de votos, sempre é bom levar em consideração todos os fatores possíveis de terem interferido no resultado, além da capa-panfleto daquela revista.

Pois não é que apenas algumas horas após a vitória de Dilma, feito um D. Pedro redivivo, Lobão voltou atrás e anunciou que, para o bem do povo, não irá mais embora do Brasil? Que poderemos fazer agora para que ele cumpra sua promessa, ou vamos ter que esperar quatro anos pela próxima eleição? Vamos ter que continuar vendo e ouvindo Lobão?

Sem paciência para tanto, já tem colunistas inconformados com o resultado discutindo os rumos do "terceiro turno", e alguns mais aloprados propondo abertamente o impeachment de Dilma, alegando que o país foi vítima da propaganda enganosa de Lobão.

Como os amigos podem reparar, estou urgentemente precisando de uma folguinha, depois deste verdadeiro massacre que foi acompanhar a campanha eleitoral. A partir de amanhã, vou dar também um descanso aos caros comentaristas do Balaio: estarei em Ouro Preto, Minas, para participar do tradicional Fórum das Letras, onde poderei tratar de outros assuntos mais amenos, além de reencontrar velhos amigos "feirantes", habitués destes eventos livrescos, que reúnem escritores e leitores e estão se espalhando como febre por todo o país, o que é muito bom.

A vida não pode ser feita só de política. É fundamental que a gente não perca o bom humor para não perder a fé.

Até a volta.

 

 

 

 

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"A eleição presidencial mais parelha dos 125 anos de República deixa o país dividido entre os que produzem e pagam impostos e os beneficiários de programas sociais. O desenho esboçado no primeiro turno, com a divisão do país em dois grandes blocos, recebeu traços mais fortes: grosso modo, o Norte-Nordeste perfilado ao PT, o Sudeste-Sul-Centro/Oeste com a oposição. Fica evidente que o país que produz e paga impostos _ pesados, ressalte-se _ deseja o PT longe do Planalto, enquanto aquele Brasil cuja população se beneficia dos lautos programas sociais _ não só o Bolsa Família _ financiados pelos impostos, não quer mudanças em Brasília, por razões óbvias".

Engana-se quem atribuir a análise acima ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na mesma linha da que o ex-presidente já havia feito ao final do primeiro turno das eleições presidenciais.

Desta vez, o pensamento único dos que dividem o Brasil entre quem produz e os vagabundos que vivem de bolsas está no editorial do jornal carioca O Globo, sob o título "A Mensagem das Urnas", publicado em sua edição desta terça-feira _ de resto, é o que está na raiz das manifestações racistas e preconceituosas contra os nordestinos que invadiram as redes sociais desde que foi anunciada a vitória de Dilma Rousseff na noite de domingo.

Grosso modo, como diria o jornal, os números finais divulgados pelo TSE desmentem esta teoria. Vamos a eles.

Quem assegurou a vitória do PT foram exatamente os eleitores do Sul e Sudeste, que deram 26,6 milhões dos votos totais obtidos por Dilma, ou seja, mais de 2 milhões de votos a mais do que os obtidos por ela no Norte e Nordeste, com 24,5 milhões de votos.

Ao contrário do que afirmam o editorial de "O Globo" e dez entre dez analistas da grande mídia, isto significa que Dilma recolheu 48,8% dos seus 54,5 milhões de votos na chamada região "rica e produtiva" do Sul e Sudeste, e 45% vieram do "pobre e dependente" eleitorado do Norte e Nordeste.

Quem diz e escreve o contrário, como se fosse a verdade absoluta das coisas, é porque não conhece o Brasil e se baseia nos mapas eleitorais produzidos nas eleições americanas, em que o candidato leva todos os votos dos delegados de Estados onde venceu as eleições.

Aqui não é assim. Nos mapas publicados pela imprensa brasileira, o Rio Grande do Sul, por exemplo, onde Aécio Neves venceu, aparece em azul, mas lá Dilma conseguiu 46,47% dos votos, quer dizer, quase a metade. No Rio de Janeiro, que aparece em vermelho no mapa, aconteceu o contrário: Dilma venceu, mas Aécio teve 45,06% dos votos.

Se prestassem mais atenção nos números do TSE, editorialistas, sociólogos e analistas perceberiam que não é o país que está dividido ao meio, geográfica e socialmente, mas apenas os votos dos partidos, que se espalharam por todos os Estados, com predominância de um ou outro candidato, dando na soma final a vitória a Dilma por uma diferença de apenas 3 milhões de votos.

Assim, não se pode afirmar que quem derrotou o candidato tucano foi o Nordeste, onde o PSDB sempre foi muito fraco e o PT é hegemônico. Mais justo seria buscar as razões da derrota de Aécio em Minas Gerais, Estado por ele governado durante oito anos, que agora aparece em vermelho no mapa. Era de lá que o PSDB planejava sair com uma vantagem de três milhões de votos, exatamente o que lhe faltou para vencer as eleições. E lá Aécio acabou ficando com 548 mil votos a menos do que Dilma. "Nem na pior projeção pensamos nesse resultado, após o Aécio sair do governo com 92% de aprovação", lamentou-se Marcus Pestana, presidente do PSDB mineiro.

Não é justo, portanto, colocar a culpa nos nordestinos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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dilma ok Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

2002, 2006, 2010, 2014.

Nas últimas quatro eleições presidenciais, a velha mídia familiar brasileira fez o diabo, vendeu a alma e foi ao fundo do poço para derrotar o PT de Lula e Dilma.

Perdeu todas.

Desta vez, perdeu também a compostura, a vergonha na cara e até o senso do ridículo.

Teve até herdeiro de jornalão paulista que deu uma de black bloc e foi sem máscara à passeata pró-Aécio em São Paulo, chamada de "Revolução da Cashmere" pela revista britânica "The Economist", carregando um cartaz com ofensas à Venezuela.

Antigamente, eles eram mais discretos, mas agora perderam a modéstia, assumiram o protagonismo.

Agora, não adianta rasgar as pregas das calças nem sapatear na avenida Faria Lima. "The game is over", como eles gostam de dizer em bom inglês.

Se bem que alguns já pregam o terceiro turno e pedem abertamente o impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff, que derrotou o candidato deles, o tucano Aécio Neves, por 51,6% a 48,4%. Endoidaram de vez. E não é para menos: ao final do segundo mandato de Dilma, o PT terá completado 16 anos no poder central, um recorde na nossa história republicana.

aecio Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

Só teremos nova eleição presidencial daqui a quatro anos. Até lá, terão que esperar no banco de reservas do poder os herdeiros dos barões de imprensa e seus sabujos amestrados, inconformados com o resultado das urnas, se é que vão sobreviver aos novos tempos da mídia democratizada. Cegados pela intolerância, ainda não se deram conta de que já nem elegem nem derrubam mais presidentes. Alguns ficaram parados em 1932 ou 1964, por aí. Vivem ainda em tempos passados, dos quais o Brasil contemporâneo não tem saudades. Devo-lhes informar que o país mudou, e não é mais o mesmo dos currais midiáticos de meia dúzia de famílias, hoje abrigadas no Instituto Millenium.

Diante da gravidade dos acontecimentos nas últimas 48 horas que antecederam a votação, a partir da publicação da capa-panfleto da revista "Veja", a última "bala de prata" do arsenal de infâmias midiáticas para mudar o rumo das eleições, não dá agora para simplesmente fingir que nada houve, virar a página e tocar a bola pra frente, como se isso fosse algo natural na disputa política. Não é.

Caso convoque uma rede nacional de rádio e televisão para anunciar os rumos, as mudanças e as primeiras medidas do seu novo governo _ o que se tornou um imperativo, e deve ocorrer o mais rápido possível, para restaurar a normalidade democrática no país ameaçada pelos pittbulls da imprensa _ a presidente Dilma terá que tocar neste assunto, que ficou de fora do seu pronunciamento após a vitória de domingo: a criação de um marco regulatório das comunicações.

No seu brilhante artigo "Dilma 7 X 1 Mentira", publicado pela Folha nesta segunda-feira, o xará Ricardo Melo foi ao ponto:

"Além do combate implacável à corrupção e de uma reforma política, a tarefa de democratizar os meios de informação, sem dúvida, está na ordem do dia. Sem intenção de censurar ou calar a liberdade de opinião de quem quer que seja. Mas para dar a todos oportunidades iguais de falar o que se pensa. Resta saber qual caminho Dilma Rousseff vai trilhar".

A presidente reeleita, com a força do voto, não precisa esperar a nova posse no dia 1º de janeiro de 2015. Pode, desde já, demitir e nomear quem ela quiser, propor as reformas que o país reclama, desarmando os profetas do caos e acabando com este clima pesado que se abateu sobre o país nas últimas semanas de campanha.

Pode também, por exemplo, anunciar logo quem será seu novo ministro da Fazenda e, imediatamente, reabrir o diálogo com os empresários e investidores nacionais e estrangeiros, que jogaram tudo na vitória do candidato de oposição, especulando na Bolsa e no dólar, e precisam agora voltar à vida real, já que eles não têm o hábito de rasgar dinheiro. Queiram ou não, o Brasil continua sendo um imenso mercado potencial para quem bota fé no seu taco e acredita na vitória do trabalho contra a usura.

O povo, mais uma vez, provou que não é bobo.

Valeu a luta, Dilma. Valeu a força, Lula.

Vida que segue.

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Em tempo: URGENTE (atualizado às 18H30 de sábado, véspera da eleição)

Saíram agora há pouco, no final da tarde deste sábado, as novas e últimas pesquisas presidenciais.

Ibope: Dilma 53 X Aécio 47

Datafolha: Dilma 52 X Aécio 48

Este domingo promete fortes emoções até o final.

Acompanhe tudo na cobertura da Record News (canal 78 da NET), onde estarei, ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão, a partir das 17 horas.

***

Em tempo (atualizado ao meio dia de sábado, véspera da eleição):

acabei de ler tudo o que os outros escreveram hoje e decidi não escrever nada por não ter encontrado nenhum fato novo importante que o justifique, além dos factóides de sempre.

Faltam menos de 24 horas. Boa sorte amanhã para nós todos e viva a democracia brasileira.

Ricardo Kotscho

***

Em busca de uma razão para explicar a nova onda vermelha de Dilma e o derretimento de Aécio, na antevéspera da eleição presidencial, a velha imprensa familiar criou uma narrativa comum que, de tão fantástica, lembra a literatura de cordel: "A Peleja do PT Malvado contra o Pobre Tucano".

Dava até pena de ver experimentados profissionais se contorcendo nas cadeiras dos telejornais noturnos, visivelmente contrariados, diante das novas pesquisas divulgadas no final da tarde desta quinta-feira, que apontavam a reeleição de Dilma no domingo, por uma diferença entre 6 e 8 pontos dos votos válidos. Ver análise sobre os números do Datafolha e do Ibope neste link:

O chororô do pensamento único vinha acontecendo já há alguns dias, desde que o Datafolha e o Vox Populi mostraram Dilma na frente de Aécio, no início da semana, pela primeira vez no segundo turno, e foi chegando próximo à histeria, diante da confirmação da inversão das curvas nas novas pesquisas, abrindo a boca do jacaré.

Tudo era culpa do "PT Malvado": baixo nível, jogo sujo, má-fé, mentiras, leviandades, agressividade, terrorismo, desconstrução. Ou seja, acusa-se o adversário pelas dificuldades enfrentadas por Aécio na reta final da campanha, depois de entrar com a bola toda no segundo turno. Engraçado que falam de baixaria e violência contra o candidato deles como se não tivessem passado os últimos 12 anos batendo sem dó nem piedade em Lula, na Dilma e no PT, com ou sem razão. E como se o tucano não tivesse usado as mesmas armas.

Se procurassem as razões da derrocada na própria campanha tucana, os "istas" e "ólogos" de plantão poderiam descobrir que as entrevistas desastradas de Fernando Henrique Cardoso sobre os eleitores do PT e de Armínio Fraga sobre bancos públicos foram mais danosas para Aécio do que todas as propagandas negativas do PT focadas no nepotismo e no patrimonialismo, tão coisas nossas.

ok1 A peleja do PT Malvado contra o Pobre Tucano

Em política, como sabemos, o papel de vítima indefesa diante do adversário malvado não funciona. O coitadismo nunca deu certo, o povo não aceita. Marina Silva que o diga. Lula e o PT só passaram a ganhar eleições quando perceberam que isso não dá voto.

Por acreditar demais na mídia amiga, Aécio parece ter levado um susto ao ver a ave de bico grande indo para o brejo, quando já posava de presidente eleito, e não se conformava de ter sido chamado de "filhinho de papai" pelo ex-presidente Lula: "Ver um ex-presidente sendo protagonista dessa campanha sórdida, e a meu ver criminosa, é lamentável", queixou-se.

Após visita a d. Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, Aécio ainda pediu aos seus eleitores que saiam no sábado vestidos com as cores da bandeira brasileira, sem se dar conta de que o mesmo apelo já tinha sido feito por Fernando Collor, pouco antes de ser afastado da Presidência da República, em 1992, acusado de corrupção.

"Nos aguardem. Domingo falarei com vocês como presidente eleito", anunciou o candidato tucano, após incorporar um Collor básico, que não combina com ele. Algum assessor deveria lembrá-lo que naquele episódio, em vez de verde-amarelo, o povo se vestiu foi de preto para protestar contra o então presidente.

Desta vez, a cor predominante nestas últimas horas de campanha eleitoral, fora de São Paulo, claro, é o vermelho. Por aqui também já bateu o desespero nos tucanos pouco antes da divulgação das pesquisas, como relata Nilson Hernandes, de O Globo, sobre o confronto entre tucanos e petistas diante do Teatro Municipal, no centro da cidade, envolvendo 500 apoiadores de Aécio:

"Ao se depararem com cerca de 50 petistas que faziam campanha para a presidente Dilma Rousseff, com bandeiras e distribuição de material de campanha, um dos cabos eleitorais de Aécio atirou uma bandeira em direção a um correligionário de Dilma. O militante petista, então, revidou contra o ônibus no qual os apoiadores do PSDB estavam embarcados. Nesse momento, cerca de dez militantes tucanos desceram e começaram a dar socos e pontapés contra os petistas, que também desferiram agressões contra os adversários".

Era previsível e até estava demorando: todo o clima de ódio e agressões do Fla-Flu eleitoral alimentado por pitbulls nas redes sociais e também por blogueiros da grande imprensa acabou chegando às ruas, em cenas que lembraram os recentes confrontos entre torcidas organizadas do futebol.

Uma nota pitoresca em meio à batalha final entre tucanos e petistas foi registrada pela revista britânica "The Economist", que apoia abertamente Aécio Neves, em despacho do seu correspondente Jan Piotrowski, sobre a manifestação tucana da véspera, que reuniu 10 mil pessoas no largo da Batata, em São Paulo.

Encantado com o que viu, o jornalista chamou o ato pró-Aécio de "Revolução da Cashmere", uma referência à lã macia usada em roupas caras. "Foi um espetáculo talvez sem precedentes na história das eleições e não apenas do Brasil. Vestidos com camisas com iniciais bordadas e bem passadas empunhavam bandeiras de Aécio. Socialites bem-vestidas protegidas por pashminas para se proteger do frio fora de época entoavam frases anti-PT. As únicas coisas que faltaram foram taças de champanhe e o próprio sr. Neves, que fazia campanha em Minas", escreveu o correspondente.

Agora, meus caros leitores, como diria o professor Heródoto Barbeiro em bom latim, "alea jacta est!". A sorte já está lançada, o jogo está jogado. Só faltam dois programas de televisão, na hora do almoço e à noite, e depois o debate na TV Globo. A campanha está acabando. Faltam menos de 48 horas para a abertura das urnas.

Bolão do Balaio

Continuem participando do "Bolão do Balaio", que está bombando por aqui desde ontem.

É bem simples: basta entrar na área de comentários e mandar seu palpite sobre o resultado final (votos válidos) que o TSE vai anunciar neste domingo, a partir das 20h.

A partir das 17h, estarei ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão aqui no R7 e na Record News acompanhando a marcha das apurações do segundo turno. Não percam.

Bons votos para todos.

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Politicos Cantores Diga me quem te apoia e te direi quem és

Ao contrário do que aconteceu em campanhas anteriores, quando tivemos uma luta feroz dos candidatos por apoios que pudessem multiplicar votos, desta vez a participação de artistas, atletas, intelectuais, líderes políticos e religiosos, e celebridades em geral, foi bem mais discreta.

A três dias da eleição, fiz uma rápida pesquisa no Google e reparei que, neste quesito, o candidato tucano Aécio Neves sai em vantagem, pelo menos no número de apoiadores anunciados ao longo do segundo turno, tanto que dedica boa parte do seu programa de televisão a eles.

Tem um muito de tudo nesta lista e, mesmo que, em seu conjunto, os apoios possam não ser decisivos na eleição de domingo, dão uma boa ideia do que pensa e defende o candidato, talvez até mais do que aquilo que Aécio fala nos debates.

Fui anotando aleatoriamente estes nomes e listo abaixo alguns deles entre os mais conhecidos do grande público.

Pró-Aécio:

FHC, Lobão, José Serra, Neca Setúbal, a família de Eduardo Campos, Silas Malafaia, Zezé Di Camargo, Roger, Ronaldo Fenômeno, Romário, Alexandre Frota, Jorge Bornhausen, Dado Dolabella, Fagner, Roberto Freire, Luciano Hulk, Regina e Lima Duarte, Alberto Goldman, Walter Feldman, Paulinho da Força, Marina Silva, Levy Fidelix, Eymael, Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Coronel Telhada, além de setores organizados da mídia e do mercado, que não podem oficialmente declarar suas preferências.

Pró-Dilma:

Lula e Chico Buarque.

E precisa mais?

É aquela velha história: diga-me quem te apoia e te direi quem és.

E o caro leitor do Balaio declara seu apoio a qual dos dois candidatos?

Bolão do Balaio

Por falar em apoios e palpites nesta reta final, chegou uma boa ideia da leitora Maria do Rosário, enviada às 9h09 desta quinta-feira:

"Para animar um pouquinho mais este Balaio de Gatos, sugiro que façamos um bolão para que cada balaieiro dê o seu placar para domingo".

A própria leitora já abriu o bolão: cravou 56 a 44 para Dilma Rousseff.

Participe você também!

 

 

 

 

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A apenas cinco dias das eleições, mudou tudo de novo: nas pesquisas Datafolha e Vox Populi divulgadas na noite desta segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff bate Aécio Neves por 52% a 48% dos votos válidos, um empate técnico no limite da margem de erro, invertendo as curvas da semana passada. E a presidente volta a ser favorita para conquistar a reeleição no próximo domingo.

Minha análise sobre as novas pesquisas está neste link do Jornal da Record News, em conversa com Heródoto Barbeiro, logo após a sua divulgação:

Volto ao assunto no final deste texto. Antes, gostaria de me dirigir diretamente aos leitores do Balaio para comentar o que aconteceu aqui no nosso blog nestes últimos belicosos dias da mais beligerante campanha eleitoral que já acompanhei.

Advertência necessária

Cuidado, você pode não gostar do que vai ler.

Aos que me acusam de a cada dia mudar de posição e escrever uma coisa diferente, conforme meu humor, depois de já ter previsto o favoritismo de Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves em diferentes momentos, conforme as pesquisas, esclareço que estranho seria se fosse o contrário.

Se nada mudasse no cenário eleitoral, não precisaria atualizar este blog todos os dias, de domingo a domingo, o que me dá um trabalho danado. Poderia, simplesmente, deixar no ar o primeiro texto que escrevi sobre a campanha eleitoral, ainda no ano passado, e ir para a praia.

No final de tudo, apenas publicaria o resultado apurado nas urnas, sem medo de errar. Eu nunca mudei de posição nem de lado, desde que voltamos a ter eleições diretas para presidência da República, há exatos 25 anos. Sempre votei no mesmo partido, como sabem os leitores e o distinto público. Quem muda são as pesquisas, os fatos, é a realidade da campanha, do quadro eleitoral. Se alguém ainda tiver alguma dúvida, pode procurar nos arquivos deste blog ou no Google.

Um antigo repórter esportivo, nos anos 60 do século passado, ao comentar um jogo em que o São Paulo perdeu da Portuguesa, só escreveu sobre o time derrotado, e quase nada sobre o vencedor.

Este repórter fui eu.

De lá para cá, procurei separar o jornalista do torcedor, não só no futebol como em tudo na vida, incluindo aí a política. Às vezes, consigo; noutras, não. Coisas da vida, já que, apesar de todos os avanços da eletrônica neste período, ainda não consegui comprar um robô para escrever por mim.

Leitores/eleitores mais engajados e radicalizados, de um lado e de outro, estão confundindo cobertura jornalística de campanha eleitoral com propaganda eleitoral gratuita, tratando este espaço democrático oferecido pela internet como se fosse porta de banheiro de boteco.

Por mais que defenda a liberdade de expressão de todos, aqui ninguém vai me chamar de moleque nem me acusar de fazer propaganda enganosa. Não faço propaganda, nem enganosa, nem virtuosa. Faço jornalismo. Tudo tem que ter um limite. É uma questão de respeito, que exijo para mim e para os demais leitores do Balaio.

Ninguém é obrigado a ler, muito menos a concordar com o que escrevo. Estão, portanto, desde já dispensados os que esperam que eu escreva o que eles querem ler aqui, de acordo com suas preferências partidárias.

Em mais de 50 anos de carreira, ninguém nunca me disse o que devo ou não escrever, como devo ou não pensar, o que devo ou não defender _ nem meus editores e chefes nos principais veículos da imprensa brasileira por onde já passei, nem minha mãe. Ou melhor: tentar, até já tentaram, mas nunca conseguiram.

E não seria aqui, neste espaço pessoal que divido com os leitores, onde sou o único responsável pelo que é ou deixa de ser publicado, que eu daria este direito a terceiros. Sem chance. Prefiro errar ou acertar sozinho.

***

Voltando aos fatos e aos números. De uma semana para outra, houve uma forte guinada nos índices de Dilma e Aécio, mas só no Datafolha, já que o Vox Populi, em seu levantamento anterior, já apontava dois pontos de vantagem para a presidente (51 a 49).

ok Dilma volta a ser favorita em nova virada

Em suas duas pesquisas sobre o segundo turno divulgadas na semana passada, tanto o Datafolha como o Ibope mostravam Aécio à frente de Dilma, exatamente com os mesmos números: também cravaram 51 a 49, só que no sentido inverso ao do Vox Populi, que foi o primeiro a apontar a vantagem da presidente. Nas várias outras pesquisas, a vitória de Aécio já era dada como certa, em levantamentos que eram reproduzidos na propaganda eleitoral do candidato.

Parece que o próprio tucano acreditou nisso, tanto que passou a se comportar nos debates com a soberba de presidente eleito, o que pode ter sido uma das razões de sua queda, não observada pelos analistas políticos que abundam na nossa imprensa.

Diante de tantas viradas nesta campanha, não vou me arriscar a analisar nem prever mais nada. Nem tenho a pretensão de achar, ao contrário de alguns leitores e muitos coleguinhas, que o que eu escrever vai dar ou tirar votos de algum dos candidatos. Aqui das arquibancadas, que é onde o repórter deve ficar, limito-me a ver o jogo e contar o que vi, sem influir no resultado.

Recomenda-se muita humildade e cabeça fria nesta hora porque o clima já está quente demais para o meu gosto. Eleição, por mais importante que seja, é apenas uma eleição. Como já dizia o grande Oscar Niemeyer, que também nunca mudou de lado, importante é a vida.

Vida que segue.

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essa ok Eles já estão abusando da nossa paciência

Ainda bem que falta apenas uma semana. Assim como eu, acredito que ninguém mais aguenta ver as caras e bocas e ouvir as vozes de Dilma Rousseff e Aécio Neves repetindo sempre as mesmas coisas, dia após dia, para provar que o outro é pior. Debates e a overdose de propaganda eleitoral no rádio e na televisão se limitam a elencar corrupções e desmazelos sem fim dos governos do PSDB e do PT nos últimos 20 anos. O que vai sobrar disso?

Para quem ainda consegue assistir a este espetáculo de desconstrução mútua, resta a impressão de que estão em disputa a presidência da Petrobras e o governo de Minas, não o futuro do Brasil. Foi assim, mais uma vez, no debate de domingo à noite na TV Record.

Como os dois já não têm mais nada de novo a nos dizer, acabam sempre voltando aos mesmos cardápios dos seus marqueteiros fornecidos ao longo de toda esta interminável campanha eleitoral. Desta vez, como suas pesquisas internas mostraram que pegou muito mal junto ao eleitorado o vale tudo de baixarias do debate anterior, Aécio e Dilma resolveram deixar as respectivas famílias de fora e tentaram discutir suas propostas.

Não conseguiram, porém, passar de platitudes básicas ao disputar a paternidade do Bolsa Família, pregar o combate à corrupção e à inflação, ambos a favor da água encanada e da energia elétrica. Aécio chegou até a citar uma reportagem do jornal O Globo sobre a volta da inflação. Poderia ser mais discreto.

Assisti ao penúltimo debate apenas por dever de ofício para chegar à conclusão de que esta campanha presidencial de 2014 só serviu para escancarar a falência do atual sistema político-partidário do país e o esgotamento deste formato de democracia representativa, que afasta os eleitores dos eleitos e clama por uma renovação de lideranças e de ideários.

Por mais diferentes que sejam suas trajetórias de vida, ideologias e projetos para o país, os dois candidatos finalistas são igualmente autoritários, chatos, previsíveis, burocráticos no pensamento e lentos na ação mobilizadora. Que me perdoem pela franqueza, mas ambos são de dar sono e nos tiram até a vontade de votar.  Eles já estão abusando da nossa paciência.

Desse jeito, ao invés de conquistar os indecisos para desempatar o jogo, Dilma e Aécio vão acabar provocando um aumento de votos nulos, brancos e abstenções, os chamados "eleitores de ninguém" que, somados, atingiram 29% dos 143 milhões de brasileiros aptos a votar no primeiro turno. Que esperanças ainda podem nos dar Aécio, o irônico do sorriso sarcástico, e Dilma, a implacável superiora dona das verdades?

Entramos na última semana do combate eleitoral diante de duas realidades bem distintas e de desfecho imprevisível, que podem ser decisivas no domingo: de um lado, o vazamento programado na imprensa das delações premiadas sobre a Petrobras, tendo como alvo o PT de Dilma; de outro, o iminente colapso do abastecimento de água em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, que pode abalar o tucanato de Aécio.

Seja qual for o resultado final, constato que temos hoje, basicamente, dois grandes problemas: os candidatos e os partidos. Como não dá para importar candidatos nem existe democracia fora dos partidos, espero que o próximo presidente e a sociedade brasileira tenham como prioridade absoluta a reforma política. Sem isto, tudo o mais será jogar conversa fora.

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