A um ano do início da campanha municipal de 2016, o quadro sucessório na maior cidade do país está completamente indefinido. Ainda não se sabe sequer se o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, muito mal avaliado em todas as pesquisas, será candidato à reeleição.

A única novidade no cenário até agora, em relação à campanha anterior, é a volta da ex-prefeita Marta Suplicy, que deixou o PT no final do ano passado, mas ainda não sabe para onde vai.

Depois de dar como certa sua ida para o PSB, e até preparar festa de filiação, a ex-prefeita, ex-ministra e atual senadora entabulou negociações com o PMDB de Michel Temer, que não se mostrou muito interessado, e agora ela faz mistério sobre o seu destino.

Por enquanto, a única certeza é que o comunicador Celso Russomanno, atual deputado federal pelo PRB, será novamente candidato. Em 2012, ele foi a grande surpresa da campanha eleitoral, chegando a liderar a corrida por várias semanas, à frente de José Serra e deixando bem para trás o candidato do PT. No fim, Serra e Haddad foram para o segundo turno.

Como de costume, os tucanos ainda não encontraram um candidato. Ou melhor, o PSDB tem vários, que já estão se lançando à disputa interna, mas na verdade não conta com nenhum nome competitivo até agora. Serra, também como de costume, já garantiu que desta vez não vai entrar na disputa.

Fiel da balança, o PMDB pode compor chapa com o PT, indicando para vice Gabriel Chalita, atual secretário municipal de Cultura. Ou lançar candidatura própria, mais uma vez com Paulo Skaf, eterno presidente da Fiesp, que gostaria mesmo é de ser candidato a governador.

As fichas ainda não estão na mesa, mas a roleta já começou a girar nos bastidores. Após todos os escandalos com doações empresariais de campanha, este é outro fator de indefinição das candidaturas. Quem vai bancar esta corrida eleitoral?

Façam suas apostas.

 

 

 

 

 

 

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cunha eduardo 800 É hora de baixar a bola e pensar mais no país

Após anunciar o rompimento e ameaçar "explodir o governo", Eduardo Cunha foi para o tudo ou nada. Ocupou o centro do palco da mídia o dia inteiro. E terminou esta sexta-feira isolado no PMDB, sem receber o apoio nem da bancada suprapartidária do baixo clero que ele montou para se eleger e comandar a Câmara como bem quis _ pelo menos, até agora.

Quem vai querer ficar daqui para a frente ao lado do "homem-bomba", como bem definiu minha colega Chris Lemos, aqui mesmo no R7?

O tal pronunciamento em rede nacional de ontem à noite foi um completo fiasco. O objetivo claro era assustar o governo e o país, mas foi uma peça tão tosca e burocrática, na forma e no conteúdo, para mostrar seus próprios feitos, que fez lembrar os piores momentos de Amaral Neto, também conhecido como Amoral Nato, jornalista e marqueteiro da ditadura militar, a quem o atual presidente da Câmara lembra muito.

Tudo que Cunha conseguiu foi provocar um "barulhaço" de protesto contra ele próprio em várias capitais e receber críticas generalizadas de seus pares do PMDB e até das oposições partidárias e midiáticas, aquelas que aceitam qualquer coisa para desgastar o governo.

Agora, ele, que queria usar o "pronunciamento" para se lançar como candidato a presidente da República em caso de afastamento de Dilma Rousseff, corre o risco até de ser obrigado a deixar cautelarmente a presidência da Câmara, em medida que pode ser adotada pelo procurador-geral Rodrigo Janot, por ameaça a testemunhas. Cunha sabe disso.

Dos males, o menor: o Congresso entrou em recesso neste sábado. Por duas semanas, é hora de baixar a bola e pensar mais no país, embora seja difícil pedir isso a Eduardo Cunha e aos demais políticos, tanto do governo como da oposição, que agora só pensam em salvar a própria pele. A luta do poder pelo poder pode levar o país à ruína, apenas três décadas após a reconquista da democracia.

Quando agosto chegar, todas as crises continuarão do mesmo tamanho, mas urge que lideranças da sociedade civil se unam em torno de um projeto para a retomada do debate político em outros termos, mais civilizados, que permita a construção de um projeto nacional voltado para a retomada do crescimento econômico num clima menos belicoso.

Cuidado com o andor. Somos todos responsáveis pelo destino do nosso país. Como as nuvens negras e os meteoritos, os Cunhas passam.

E vida que segue.

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cunha Para onde você vai, a nuvem preta vai atrás

Foto: Antônio Cruz / ABr / CP

"Cunha anuncia hoje rompimento com governo de Dilma", informa a manchete do R7 na manhã desta sexta-feira de inverno na praia.

Pretendia dar um semana de folga também aos leitores, na esperança de que algo pudesse mudar, mas não tem jeito. De nada adianta ficar sem comprar jornais, deixar o computador desligado, passar longe da TV.

A imensa nuvem negra, que cobre o cenário político, mesmo em dias de sol, vai atrás, onde quer que você vá.  Basta olhar para a cara das pessoas, ouvir as conversas, ver comércios fechados em plena temporada de férias.

Até os netos aqui em casa vieram me perguntar: "Vô, o que vai acontecer com a Dilma?

Todo mundo quer saber: e agora, o que pode acontecer com a gente, com o país?

Após ser acusado por um delator da Lava Jato de ter pedido propina de US$ 5 milhões, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, comunicou a Michel Temer, vice-presidente da República, que anunciará esta noite o rompimento dele com o governo, em cadeia nacional de rádio e televisão, que já estava marcada.

Era o que faltava para dar contornos ainda mais dramáticos à crise política e econômica que se alastra pelo Brasil desde o início do ano, deixando a presidente Dilma Rousseff cada vez mais isolada.

Nem com o seu mentor Lula ela poderá contar muito, já que o ex-presidente agora terá que cuidar também da sua própria defesa. Na mesma tarde de quinta-feira em que Cunha era acusado por dois delatores, o Ministério Público Federal anunciou que Lula está sendo formalmente investigado por suposto tráfico de influência para beneficiar a empreiteira Odebrecht no exterior.

E o que pretende Eduardo Cunha com o rompimento, que já vinha ameaçando há dias, ao responsabilizar o governo pela inclusão do seu nome nas investigações e denúncias da Operação Lava Jato, que se aprofundam a cada dia, e já ameaçam provocar uma crise institucional sem precedentes no nosso país?

Ele não deverá dar essa resposta em seu pronunciamento no rádio e na TV, claro, pois a dissimulação é uma das suas características, mas só posso imaginar uma explicação: ele quer ver o circo pegar fogo para ver se escapa da Justiça no meio da confusão.

Até a Grécia já encontrou uma saída emergencial para a crise esta semana, mas nós nos afundamos nela cada vez mais, sem que ninguém seja capaz neste momento de ver uma luz no final do túnel. Faltam-nos lideranças, no governo e na oposição, faltam-nos partidos de verdade, faltam-nos propostas para uma saída pacífica, falta-nos tudo.

Restam apenas incertezas, e tenho apenas uma certeza: aconteça o que acontecer, não será bom para ninguém.

 

 

 

 

 

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Previsão do tempo político: temperatura em queda e sol entre nuvens. Depois de chegar ao ponto de ebulição máxima na semana passada, a temperatura da crise caiu alguns graus nas últimas horas.

Colaboraram para isso a queda da Bolsa na China, que ganhou as manchetes mundiais, a viagem da presidente Dilma para participar da reunião dos Brics na Rússia e o feriado de 9 de Julho em São Paulo (aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932).

Para o governo Dilma, que tenta sair das cordas, a trégua é bem vinda e pode durar mais algumas semanas. Com parlamentares e magistrados se preparando para o obsequioso recesso de meio de ano, as decisões do Tribunal Superior Eleitoral, sobre as contas da campanha eleitoral da presidente, e do Tribunal de Contas da União, que analisa as "pedaladas fiscais", deverão ficar mesmo para agosto, ao que tudo indica. As oposições também poderiam aproveitar para baixar a bola e planejar com mais juízo os próximos passos.

Melhor assim. Ninguém aguenta mais viver em crise permanente. Outro dia propus aqui que deveríamos todos pensar um pouco mais no que estamos fazendo com o nosso país, no governo, no Congresso, no Judiciário e nas redes sociais, em meio a esta insana guerra política que não tem hora para acabar, como os velhos carnavais.

Afinal, com a derrocada do mercado chinês, que perdeu um terço do seu valor em poucos dias, a crise agora pode se tornar global, com graves consequências para a nossa já fragilizada economia. Principal parceiro comercial do Brasil, a China também era a maior esperança para o país receber investimentos em infraestrutura, e agora ninguém sabe o que pode acontecer.

O que está ruim sempre pode piorar, como estamos aprendendo a cada dia, mas não custa nada guardar nosso pessimismo para dias melhores, como costuma brincar o amigo Frei Betto. Até porque, cara feia e mau humor não resolvem nenhum dos nossos problemas e só servem para contaminar ainda mais nossos já rasos mananciais de esperança.

Em tempo: deixo esta breve reflexão antes de também dar uma trava no batente. Vou tirar dez dias de folga para ficar longe do computador e das notícias, com a família na praia, só olhando para o mar, atento aos sinais do tempo e das marés. Volto no dia 20.

E vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Leio na coluna da colega Keila Jimenez, aqui no R7, que o ex-jogador, comentarista de TV e empresário Ronaldo Nazário, conhecido por Fenômeno, acaba de ganhar como cliente o ator Alexandre Nero, da Globo. Vai administrar a carreira do ator, o que quer dizer: cuidar de participação em eventos, comerciais, filmes, premiações.

A agência de Ronaldo, chamada "9ine",  que já tem sob contrato a atriz Paola Oliveira, o jogador Neymar e o lutador Júnior Cigano, entre outros famosos, negocia com mais quatro grandes atores.

O que mais me chamou a atenção foi o alto preço cobrado por estes serviços: até 20% dos valores recebidos em cada um deles. Pode-se imaginar o que isto representa para o faturamento da empresa do Fenômeno, pois todos são muito bem remunerados e cobram caro por trabalhos extras.

Já faz tempo que o Brasil está se tornando o paraíso destes intermediários. Eles estão em toda parte. Por trás, por exemplo, da guerra entre os taxistas e o aplicativo Uber, que oferece carros de luxo sem taxímetro, estão dois destes tipos, bastante poderosos.

De um lado, os donos do serviço Uber, que ficam com 20% das tarifas cobradas por motoristas autônomos pelas corridas; de outro, os proprietários das frotas de táxi _ entre eles, grandes empresários e políticos famosos. Em regime de semiescravidão, os frotistas chegam a pagar diárias de R$ 190 para usar os táxis, ou seja, já começam o dia devendo uma nota e, para levar algum para casa, cumprem jornadas de 14 a 16 horas no volante rodando pela cidade.

Se formos mais longe, vamos encontrar  intermediários que pontificam nos grandes escândalos da política e do futebol. Pois o que são figuras como o hoje célebre Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, e o bem-sucedido empresário J. Ávila, dono da Trafficc e de emissoras de televisão, ambos réus confessos, se não intermediários entre corruptos e corruptores?

Muito tempo atrás, fiz uma reportagem sobre os muitos intermediários entre os produtores de hortifrutigranjeiros e os consumidores finais, passando por transportadores, Ceasas e atacadistas. No trajeto entre a horta e o supermercado ou a feira, o valor de um repolho chegava a ser multiplicado por dez. A parte do leão ficava com os intermediários.

Pensando bem, são muitos os intermediários de alguma coisa _ corretores de imóveis, comerciantes, vendedores de lojas, feirantes, concessionárias de veículos, agentes de artistas e atletas _ entre os que produzem e os que compram. Nós mesmos, jornalistas, somos intermediários entre os fatos e os leitores, ouvintes, telespectadores. A diferença está entre atuar dentro ou fora da lei.

O problema maior deste paraíso nativo dos que gostam de levar vantagem em tudo é a ganância _ o valor cobrado e os meios utilizados na intermediação, lícita ou ilícita, que pode levar à fortuna e ao poder, mas também arruinar carreiras e levar à cadeia. Que o diga José Maria Marin.

Já pensaram nisso?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Presidente Dilma reage e avisa: governo não acabou

Ponham-se no meu lugar: por onde começar este texto, depois dos acontecimentos dos últimos dias e horas que, numa velocidade cada vez maior, levaram a guerra política à beira de uma crise institucional sem precedentes, trinta anos após a redemocratização do país?

Tinha ido dormir com a sensação de que o governo estava no chão e as oposições só contavam as horas para saber quando e como assumiriam o poder.

Acordei nesta terça-feira com a manchete da Folha em que a presidente Dilma Rousseff, na mais franca e contundente entrevista desde a primeira posse, reage ao cerco desfechado contra ela na última semana para avisar que o seu governo não acabou:

"O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar", desafiou, indignada com os que se movimentam para encurtar seu segundo mandato e promover um terceiro turno.

Já que ninguém se dispunha a isso, no governo, no PT e na base aliada, a presidente resolveu sair em sua própria defesa. Parece que finalmente ela se deu conta da gravidade da crise que já dura seis meses e atinge todos os setores da vida nacional. Abriu o coração, falou tudo o que estava entalado na garganta e desabafou, referindo-se a "certa oposição um tanto quanto golpista":

"Eu não vou terminar meu mandato por quê? Para tirar um presidente da República, tem que explicar por que vai tirar. Confundiram seus desejos com a realidade ou tem uma base real?".

Na festiva convenção promovida pelo PSDB no domingo, em que foi reeleito para a presidência do partido, o senador mineiro Aécio Neves, derrotado por Dilma nas urnas há apenas oito meses, já se apresentou como candidato a tomar seu lugar o mais rápido possível, com direito a jingle de campanha, claque, camisetas, e tudo.

A euforia dos tucanos era tanta que, ao perguntar a Fernando Henrique Cardoso quando seria a estreia do seu programa de televisão no Canal Brasil, Aécio ouviu a seguinte resposta do ex-presidente, em tom de brincadeira, é claro:

"Pelo ritmo que vai, quando estrear você já será presidente".

Esqueceram de combinar com o governador paulista Geraldo Alckmin, outro pré-candidato, que saiu da convenção enciumado com a babação de ovo sobre Aécio, e com o senador José Serra, que nas últimas semanas já está oferecendo seu passe ao PMDB, caso eles precisem de um nome para disputar as próximas eleições presidenciais.

Dividido como sempre e animado como nunca, o PSDB deu muita bandeira, mostrando que não está disposto a esperar até 2018. Sem apresentar qualquer proposta alternativa ao país para o enfrentamento da crise e jogando tudo apenas no desgaste da presidente, o partido oficial da oposição acabou dando munição aos que denunciam suas manobras golpistas, agora voltadas para os tribunais, com o descarado apoio da mídia hegemônica.

Com esta oposição, Dilma reuniu forças para sair da toca e ir ao ataque, no momento de maior isolamento e mais delicado do seu governo, em que apenas a lealdade do vice Michel Temer parece estar do seu lado.

Na surpreendente e corajosa entrevista concedida por Dilma a Maria Cristina Frias, Valdo Cruz e Natuza Nery, nenhum assunto ficou de fora, nem mesmo o boato espalhado na internet de que teria tentado o suicídio:

"Eu não quis me suicidar na hora que eles estavam querendo me matar lá (quando foi presa durante o regime militar), a troco de quê eu quero me suicidar agora?".

Para deixar clara sua disposição de resistir às tentativas golpistas e retomar a iniciativa da agenda, hoje nas mãos do líder de fato da oposição, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, durante toda a segunda feira a presidente manteve reuniões com a coordenação política do governo e líderes e presidentes dos partidos da base aliada.

Dois são os próximos desafios de Dilma: o julgamento das contas do governo, com as chamadas pedaladas fiscais, no TCU, e o das suas contas da campanha eleitoral, no TSE. É das decisões a serem tomadas nestes tribunais, possivelmente ainda este mês, que dependerão os próximos capítulos desta guerra política sem quartel, e sem fim à vista. Preparem seus corações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 05/07/15 às 11h31

Em defesa da internet e da democracia

90 Comentários

computador Em defesa da internet e da democracia

Caros amigos do Balaio,

faz tempo que não temos uma conversa, digamos mais pessoal, sobre os rumos do nosso blog, que completa sete anos em setembro.

Neste trabalho diário de comentar o que está acontecendo no nosso país e no mundo, tanto eu como vocês já passamos por diferentes fases, vivemos muitos altos e baixos, aos trancos, barrancos e solavancos. De vez em quando, é bom dar uma freada de arrumação no burrico para ajeitar as melancias.

Aproveito este domingo cinzento de inverno em São Paulo, no dia mais frio do ano, para fazer um breve balanço, não só do que vejo por aqui, mas também em outros sítios da internet.

Estou cada vez mais assustado com o nível dos debates _ se é que se pode chamar de debates a troca feroz e insana de ofensas e acusações _ neste interminável Fla-Flu, que se acirrou durante a última campanha eleitoral e está chegando a níveis perigosos de intolerância e radicalização.

De tão repetitiva, esta guerra nas redes sociais está se tornando, além de tudo, muito chata, jogando fora o grande instrumento de democratização de informações e opiniões proporcionado pela internet.

Por isso, tenho procurado variar os assuntos nas últimas semanas, saindo um pouco da marcha batida da crise rumo ao brejo, na esperança de acalmar os ânimos e refletir sobre outros fatos da vida real, fora do dia a dia da disputa política. A vida, afinal, não pode ser só isso.

Com tristeza, noto que quase ninguém quer saber de parar um pouco para pensar no que estamos fazendo com nosso país. Estamos todos virando um bando de donos da verdade, que não admitem nem ouvir o que os outros pensam?

Pouco importa o que escrevo aqui _ e tenho a impressão de que muitos só leem o título _, pois cada um se sente no direito de usar a nossa democrática área de comentários para tratar do que bem entende na defesa das suas verdades absolutas.

Depois de tanto tempo de convívio, muitos ainda não se deram conta de que este não é um blog político destinado a jogar mais gasolina na fogueira ou a tentar apagar incêndios. Este é um blog jornalístico, que procura tratar de fatos relevantes ou não, discutir ideias e rumos. Não quero convencer nem converter ninguém a nada.

Nunca fui escravo da audiência nem escrevo para agradar leitores, muito menos a angariar seguidores, mas me dedico com afinco a ser honesto com eles, a procurar as versões mais próximas da realidade factual para que cada um possa formar sua própria opinião. E quando erro, como aconteceu recentemente na questão do aumento dos servidores do Judiciário, vocês são testemunhas disso, procuro me corrigir com a maior brevidade possível.

A vida inteira fui acima de tudo apenas um repórter e assim pretendo terminar minha carreira. Confesso que às vezes me dá um certo desânimo ao constatar que vou ficando cada vez mais isolado nesta minha profissão de fé no ofício de jornalista, sem adjetivos, que antes de tudo deve servir ao público.

Tanto nas velhas como nas novas mídias prolifera cada vez mais o discurso panfletário, à direita e à esquerda, sem compromisso com a sociedade para quem trabalhamos, que tem o sagrado direito de ser bem informada, com liberdade de expressão para todos e respeitando os princípios democráticos. Neste cenário sombrio, que já beira o fascismo, todos correm o risco de perder totalmente o que lhes resta de credibilidade. Cada vez mais gente não acredita no que lê.

Pois é exatamente isto que estamos colocando em risco ao misturar no mesmo balaio jornalismo e propaganda, interesses comerciais e políticos, de indivíduos ou de empresas. Lamento ter que deletar cada vez mais comentários preconceituosos, ofensivos e grosseiros, mas nem penso em fechar a área de comentários, como muitos dos meus colegas blogueiros já fizeram, por não suportarem mais este ambiente contaminado que faz mal à alma e ao estômago.

Afinal, a interação entre autores e receptores de informações, numa permanente troca de experiências de vida e diferentes visões do mundo, é a grande conquista desta verdadeira revolução promovida pelas redes sociais nas comunicações humanas.

Em defesa da internet e da democracia, precisamos ser mais cuidadosos com o que escrevemos para preservar este maravilhoso espaço de liberdades públicas duramente conquistado. Aqui ninguém vai ganhar no grito. Comentários bem humorados serão sempre bem vindos, mas favor não confundir com deboches e brincadeiras cretinas. Não estamos interessados em saber o que um pensa do outro. Para mim, são todos iguais, não importam suas posições políticas.

Sem respeito à opinião alheia, perdemos todos, perde o país.

Vida que segue.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Acabei de assistir agora à belíssima festa da vitória do Chile, pela primeira vez campeão da Copa América, em pleno Estádio Nacional, aquele mesmo de tão tristes lembranças. Foi emocionante de ver, uma comemoração como faz muito tempo não acontecia no mundo do futebol.

No meio da torcida, ninguém parecia mais feliz do que a presidente Michelle Bachelet, com a camisa vermelha da sua seleção, sem seguranças por perto, balançando sem parar a bandeira chilena. Do torturador general Pinochet à democrata Bachelet, que grande diferença, que fantástica virada deu o Chile!

No palco armado à beira do gramado para a entrega de medalhas e troféus, os jogadores chilenos estavam cercados por suas famílias, carregando filhos no colo, enquanto a torcida, que superlotou o estádio, não parava de cantar e agitar bandeiras.

Para completar a alegria deste povo, a dramática vitória foi conquistada contra a Argentina, um inimigo histórico dentro e fora de campo. Depois dos 120 minutos sem gols na decisão disputada pau a pau, com muita garra, técnica e aplicação tática, o título veio nos pênaltis, fazendo justiça ao time do técnico Jorge Sampaoli, o argentino que deu outra cara ao futebol chileno nesta sua primeira grande conquista.

Viva o Chile, grande campeão da América!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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kotscho Um dia bem feliz com as crianças e os veteranos

Pode parecer até estranho alguém escrever um texto com este título hoje em dia. Já vou explicar. Sem nenhuma vontade de comentar todas estas notícias enguiçadas sobre Lava-Jato, Grécia, PMDB, ajuste fiscal, votações na Câmara, ciclovias, crises e desgraças em geral, peço licença aos caros leitores para falar de duas coisas boas que aconteceram comigo na quinta feira (por isso, não tive tempo de atualizar este Balaio).

De manhã, fui dar uma palestra sobre a ditadura militar. Seria apenas mais uma das muitas que já fiz na vida, não fosse a plateia absolutamente inédita para mim: 180 crianças na faixa de 11 a 12 anos, alunos da sexta série do ensino fundamental do Colégio Santa Cruz.

O que e como contar para eles o acontecido nesta página trágica da nossa história? Pois acreditem: durante duas horas, esta moçada permaneceu em silêncio, prestando muita atenção, anotando tudo e fazendo perguntas absolutamente procedentes num nível melhor do que o de muitas faculdades por onde tenho passado.

Ao lado do publicitário Antonio Prado Júnior, o Paeco, grande craque das pesquisas, fui ficando cada vez mais surpreso com o que via e ouvia naquele teatro do colégio, mas nada aconteceu por milagre ou acaso.  Antes do encontro, os alunos haviam assistido ao filme O ano em que meus pais saíram de férias, do Cao Hamburger, que se passa em 1970, ouvido seus pais e avôs, e lido textos indicados por seus dedicados professores, Joana, Manoela e Caco, os responsáveis pelo Projeto Memória.

Por isso, já sabiam muito mais sobre o assunto do que eu poderia imaginar, e a conversa fluiu, renovando minhas esperanças num futuro melhor para o nosso país. Ninguém pode desanimar quando vê o esforço que estas crianças fizeram para aproveitar bem o último dia de aula antes das férias de julho.

Paeco, que sofreu na pele as violências praticadas por militares e civis nos centros de tortura e nos presídios contra dissidentes do regime militar (não foi o meu caso), fez um relato pungente sobre o que acontece quando a gente perde os direitos e a liberdade.

Na plateia, assistindo a tudo, orgulhoso, estava o padre José de Almeida Prado, que foi meu professor de Português numa das primeiras turmas do Santa Cruz, no final da década de 50 do século passado, e continua firme no batente, animando a moçada, já perto dos 90 anos.  Minhas filhas também estudaram lá e hoje estão no colégio três netos _ a mais velha, Laurinha, de 12 anos, é dessa turma. Foi ali que me formei cidadão e aprendi o que sei da vida.

À tarde, mais emoções. Fui escalado pelos colegas da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) para fazer o discurso em homenagem aos 50 anos de jornalismo de Clóvis Rossi, meu velho amigo, um grande mestre da profissão, com quem trabalhei em muitas redações ao longo das nossas já longevas carreiras.

No auditório lotado da Universidade Anhembi Morumbi, estavam dezenas dos mais importantes e respeitados profissionais do nosso ofício, mais lembrando um reencontro de veteranos de guerra. Fiquei olhando para eles e pensando: como podemos, com jornalistas tão bons, produzir atualmente uma imprensa tão mesquinha, que às vezes me dá até vergonha?

E vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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camara A farra continua: Câmara contrata 660 cabos eleitorais

Como se a gente estivesse nadando em dinheiro, os vereadores de São Paulo aprovaram esta semana a contratação de mais  660 (isso mesmo, seiscentos e sessenta) assessores. Cada gabinete das 55 excelências municipais já conta com 18 funcionários e, agora, terá direito a um total de 30, ao custo mensal de R$ 130 mil por vereador.

Heródoto Barbeiro ficou preocupado no Jornal da Record News de terça-feira porque, se todos forem trabalhar no mesmo dia,  o prédio correrá o risco de desabar, mas não tem perigo. Na proposta aprovada a toque de caixa, a um ano das eleições municipais, fica claro que os novos funcionários poderão trabalhar fora da sede do Legislativo nos escritórios políticos montados pelos vereadores em seus redutos eleitorais.

Ou seja: vão trabalhar mesmo como cabos eleitorais por nossa conta, sem ter que bater ponto, com direito a registro em carteira, salário, vale-refeição, vale-transporte e todos os outros benefícios que já recebem os atuais funcionários do Legislativo.

E o presidente da Câmara Municipal, Antonio Donato, do PT, ainda quer nos convencer que a farra da contratação, agora oficial, dos cabos eleitorais não vai aumentar as despesas porque a verba de gabinete continuará a mesma. A mágica consiste em pagar salários menores aos novos contratados (os atuais recebem em torno de R$ 2 mil por mês, com R$ 21 mil reservados para o chefe de gabinete).

Devem achar que todo mundo é besta para acreditar nesta lorota. Se estes cabos eleitorais fossem mesmo trabalhar na Câmara, nem haveria espaço para todos. O tamanho médio dos gabinetes é de 100 metros quadrados e, neste caso, os corredores ficariam apinhados como o dos hospitais públicos.

Por falar nisso, no mesmo dia em que a Câmara praticava mais este deboche com a população, ficamos sabendo que três dos maiores hospitais de atendimento gratuito na capital _ Santa Marcelina, Hospital São Paulo e Santa Casa _ passam por sérios problemas financeiros e ameaçam cortar os atendimentos por falta de recursos. A dívida do Hospital São Paulo, por exemplo,  atinge R$ 90 milhões. Já a da Santa Casa é de cerca de R$ 800 milhões. O Santa Marcelina, que atende gratuitamente a 300 mil pacientes por ano só no pronto socorro, tem um rombo mensal de R$ 3 milhões.

Enquanto isso, os nobres vereadores só se preocupam com a reeleição e preparam seus exércitos de cabos eleitorais para conquistar nosso voto. O projeto ainda pode ser vetado pelo prefeito Fernando Haddad, mas ele dificilmente fará isso porque esta foi uma iniciativa da sua própria base aliada e seus índices de aprovação também já estão próximos do volume morto. A meu ver, nem deveria ser candidato à reeleição para não passar vexame. Apenas sete vereadores, todos da oposição liderada pelos tucanos, votaram contra o aumento do número de assessores. O PT votou em bloco a favor.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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