1900133 682060468519919 394992797 n FHC agora dá uma de radical para entrar na onda

Pegou muito mal. Sempre tão preocupado com sua biografia e de como vai passar para a História, mais do que com qualquer outra coisa, FHC deixou de lado o bom senso e a moderação habituais para dar uma de surfista radical ao pedir a renúncia da presidente Dilma Rousseff.

O que deu no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do alto dos seus 84 anos, para sair dos confortos das palestras e dos diagnósticos sociológicos, para entrar de cabeça na rinha política, onde já pontificam os Aécios, Cunhas, Bolsonaros e Caiados?

São muitas as possíveis razões para explicar esta guinada, mas a principal me parece ser o medo de perder o bonde, as manchetes e o controle do alto tucanato, mais dividido do que nunca.

Depois de lançar nas redes sociais o repto para a presidente renunciar ou reconhecer seus erros, FHC convocou Alckmin e Aécio para uma conversa em seu apartamento de Higienópolis, com o objetivo de "alinhar o discurso" do PSDB.

Missão impossível, já que as estratégias dos dois são opostas e quem conhece Dilma sabe que ela não é mulher de renúncias.

Inconformado até agora com a derrota nas eleições presidenciais, o senador mineiro Aécio Neves quer porque quer novas eleições já, seja a que pretexto for, para aproveitar o recall de outubro e a sua liderança nas pesquisas divulgadas este ano. Até saiu às ruas e subiu num carro de som no domingo para se apresentar como candidato desde já.

Mais mineiro do que ele, o governador paulista Geraldo Alckmin não tem pressa. Quer empurrar a procissão até 2018, na esperança de superar até lá as crises do seu governo nas áreas de segurança e abastecimento de água, mostrar serviço e tornar-se um nome nacionalmente conhecido.

Os dois pré-candidatos tucanos, na verdade, já estão em campanha, o que deixou FHC bastante preocupado com as divisões internas. Para completar, correndo por fora, o eterno candidato José Serra já anda abanando as asas para os lados do PMDB.

Num eventual governo Michel Temer, caso a crise se agrave ainda mais, ele estaria disposto a assumir o papel que foi do próprio Fernando Henrique Cardoso, como ministro da Fazenda, no mandato tampão de Itamar Franco, após a queda de Fernando Collor.

Desta vez, a presidente Dilma respondeu na lata, ao dizer que FHC e seus tucanões só querem "pegar carona" e "tirar proveito" das manifestações de rua.

Em outras ocasiões, o ex-presidente tucano até saiu em defesa da legitimidade do mandato de Dilma e da sua honra pessoal, argumentando que ela não é a principal responsável pela crise ética que estamos passando, mas apenas uma vítima das práticas do "lulopetismo".

Como se fosse um editorialista do Estadão e dos demais porta-vozes do Instituto Millenium na mídia amiga dele, FHC tenta afastar Dilma de Lula, que é o verdadeiro alvo do momento.

Tirar o ex-presidente Lula da vida pública e impedir que ele possa voltar nas eleições de 2018 é o único objetivo que une a oposição partidária e midiática, mais até do que o afastamento imediato de Dilma Rousseff.

Um possível terceiro mandato de Lula, hoje menos provável, é tudo o que FHC não quer nesta guerra particular que os dois travam para ver quem vai aparecer mais bonito nas fotos da História.

Em sua defesa, o tucano pode alegar que o petista fez a mesma coisa com ele, em 1999, no primeiro ano do seu segundo mandato, quando enfrentava índices de rejeição ao seu governo semelhantes aos de Dilma. Na mesma linha do que FHC faz hoje, disse Lula na ocasião, usando quase as mesmas palavras: "Renúncia é um gesto de grandeza e FHC não tem esta grandeza".

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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cisterna Quem ganha com a seca são só os caminhões pipa

Foto: Carolina Martins/09.05.2014/R7

Quem já nasceu numa casa com água nas torneiras, como eu e a grande maioria dos leitores, não tem ideia do que é enfrentar um período de seca no semiárido nordestino.

Desde o ano passado, aliás,  milhares de paulistanos também já sabem o que é viver sem água, um risco que todos ainda corremos na maior cidade do país, se não voltar a chover logo e muito.

Vi esta tragédia de perto nas dezenas de viagens a trabalho que fiz por sertões nordestinos para mostrar a luta pela sobrevivência de quem nunca teve água encanada em casa.

Esta paisagem começou a mudar nos últimos anos com a construção de 750 mil cisternas pelo programa  Água para Todos do governo federal.

Vocês não podem imaginar a alegria das famílias beneficiadas quando chega a água limpa que antes tinham que buscar a quilômetros de distância, e muitas vezes não encontravam nem nos açudes barrentos.

Numa destas longas viagens, junto com o fotógrafo Jorge Araújo, da Folha, e o pessoal do ASA (Articulação do Semiárido), um conjunto de entidades nacionais e estrangeiras que se dedicam a ajudar os sertanejos, acompanhei a vida de milhares de pessoas mudando. Era uma festa, como se todos tivessem ganho na loteria.

Pois agora a festa está acabando, e esta conquista civilizatória pode não beneficiar novas famílias. Do ano passado para cá, a verba do Água para Todos foi cortada praticamente pela metade (de R$ 333 milhões para R$ 174 milhões), no auge de mais uma seca brava que atinge quase todo o Nordeste.

"Esse é um tema que não pode sair da pauta do governo e da sociedade, nem ser alvo de cortes com o ajuste fiscal", adverte Valquíria Lima, uma das coordenadoras do ASA, ouvida por outro repórter da Folha, João Pedro Pitombo, certamente bem mais jovem do que eu, em mais uma reportagem sobre o drama da seca, tantos anos depois.

Quem ganha com isso, mostrou Pitombo, são os "pipeiros", os donos de caminhões-pipa que receberam R$ 2,4 bilhões do governo federal nos últimos três anos para abastecer as casas da zona rural do semiárido aonde ainda não chegaram as cisternas.

Quantas novas cisternas poderiam ter sido construidas com este dinheiro? Sobrevive, pois, para nossa tristeza, a tão falada "indústria da seca", que sempre rendeu muito dinheiro e votos, e eu imaginava ter acabado.

Só este ano, foram gastos R$ 453 milhões com esta solução de emergência que se eterniza. "Desistir, nunca. A gente sempre tem que caminhar nesta vida e não perder a fé em Deus", ensinou ao repórter o agricultor Gonçalo Vieira Ferreira, 71 anos, que está preparando a terra mais uma vez, em Juazeiro, no norte baiano, mesmo depois de perder a safra quatro anos consecutivos por causa da seca.

Enquanto Gonçalo ainda espera pela sua cisterna, 6.705 caminhões de "pipeiros" continuam circulando por 780 cidades nordestinas em situação de emergência desde 2012. Até quando veremos isso?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Pesquisa Data Popular: para 92%, todo político é ladrão

Vou retomar a nossa conversa por onde parei no domingo:

"Nesta segunda-feira, todos os nossos problemas continuarão do mesmo tamanho. As novas manifestações serviram apenas para confirmar que as oposições oficiais, virtuais e midiáticas continuam sem nenhuma proposta concreta para o País e enfrentam também uma carência de lideranças. Parece que o povo está cansado disso".

A confirmar o que queria dizer, foi divulgada na última sexta-feira uma nova pesquisa do Instituto Data Popular, de Renato Meirelles, que ouviu 3 mil eleitores entre os dias 1º e 4 de agosto, em 152 municípios, e revelou os seguintes números:

*  92% dos eleitores concordam com esta frase: "Todo político é ladrão".

* 71% avaliam que os partidos de oposição ao governo "agem por interesse próprio, não pelo bem do país".

* 62,5% não apontam ninguém capaz de tirar o país da atual situação.

Quer dizer, os manifestantes que saíram novamente às ruas de todo o País, para protestar contra Dilma, Lula, o PT e a corrupção em geral, sabem o que não querem mais, mas não têm a menor ideia do que colocar no lugar, e a maioria não confia em ninguém, a não ser no juiz Sergio Moro e sua Operação Lava Jato, como mostram as imagens.

O script único do "Fora!" adotado desta vez pelos diferentes movimentos e amplificado durante todo o dia pela mídia, ao contrário do que vimos na Campanha das Diretas e no impeachment de Collor, nada sinalizou para o dia seguinte, muito menos para o futuro.

"O relevante é perguntar o que vem agora que o público já deixou a rua", escreveu mestre Clóvis Rossi em sua coluna na Folha desta segunda-feira. E admite: "Eu não sei, até porque sou incapaz de fazer previsões, a não ser sobre o passado _ e, no Brasil, até o passado pode surpreender".

Arrisca, porém, dar um palpite: ""Pouco ou nada de realmente significativo decorrerá dos protestos". Ou seja, a mesma conclusão a que cheguei no post anterior. Estou em boa companhia.

Se juntarmos as palavras de ordem gritadas nas manifestações com os resultados da pesquisa do Data Popular, o que resta é uma imensa sensação de vazio institucional, um abismo entre eleitos e eleitores, as ruas e os gabinetes.

Como mudar este cenário melancólico se 92% dos brasileiros acham que todos os nossos políticos são corruptos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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passeata1 Protestos: o que vai mudar no dia seguinte? Nada

Foto: André Borges /Frame/Estadão Conteúdo

Está acabando mais um dia de protestos. Pouco mais de seis da tarde deste domingo, 16 de agosto, as bandeiras, os balões, cartazes e bonecos já foram recolhidos, e o pessoal volta para suas casas. Alguns carros passam buzinando e ouvem-se vuvuzelas ao longe, como após o encerramento dos jogos de futebol.

O número de participantes em cada cidade varia de um portal para outro, mas uma constatação é comum em todos eles: as manifestações foram menores do que as de março e abril, embora a aprovação do governo tenha caído drásticamente neste período e aumentado na mesma proporção o tamanho da crise.

Sob o apoteótico título "A marcha da História", um dos porta-vozes do Instituto Millenium previu em sua coluna: "As manifestações marcadas para este domingo darão hoje a dimensão da crise que estamos vivendo, e o tamanho das massas nas ruas será decisivo para os desdobramentos políticos, mas não definitivo".

A julgar pelo "tamanho das massas" vistas nas principais capitais, apesar dos esforços de repórteres de TV e rádio de algumas emissoras de notícias, nas ruas desde cedo para ajudar a enche-las, poder-se-ia então concluir que a dimensão da crise diminuiu, mas nem o governo deve estar pensando nesta hipótese.

"Um domingo decisivo na vida dos brasileiros",  anunciou outro arauto do fim do mundo. A esta altura, mais uma vez, depois de passarem as últimas semanas promovendo os protestos e analisando suas consequências, eles devem estar se perguntando: onde foi que erramos?

Além do visível esvaziamento do "movimento das ruas" em relação aos eventos anteriores, a única novidade foi a aparição ao vivo do ex-presidenciável e atual presidente do PSDB, senador Aécio Neves, em Belo Horizonte. Subiu em dois caminhões de som, repetiu os mesmos discursos raivosos contra o governo, ficou meia hora entre os manifestantes, e foi embora. Nada que mude o rumo da História.

Na verdade, passada a régua no fim do dia, o que restou? O que vai mudar na vida dos brasileiros no dia seguinte? Pensando bem, nada.

Nesta segunda-feira, todos os nossos problemas continuarão exatamente do mesmo tamanho.  As novas manifestações serviram apenas para confirmar que as oposições oficiais, virtuais e midiáticas continuam sem nenhuma proposta concreta para o País e enfrentam tambem uma carência de lideranças. Parece que o povo está ficando cansado disso.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A ideia proposta no título desta coluna não é minha, nem dos leitores que enviaram dezenas de sugestões de pauta, atendendo ao pedido que fiz no post anterior, a quem agradeço.

É da dona Mara, minha mulher, que é quem cuida das contas aqui de casa.

Recorri ao doutor Google para procurar respostas e, em poucos minutos de pesquisa, encontrei várias, que me deixaram deveras assustado com o tamanho do rombo provocado pela sonegação fiscal nas contas públicas, um assalto ao Erário sem precedentes, que bota todos os recentes escândalos de corrupção no chinelo, como atesta a BBC Brasil, em matéria assinada por Fernando Duarte.

"Evasão fiscal anual no Brasil equivale a 18 Copas do Mundo. Mesmo antes da disparada da cotação do dólar, US$ 280 bilhões já seria um número impressionante. Segundo uma pesquisa da Tax Justice Network (rede de justiça fiscal, em tradução livre, organização internacional independente com base em Londres, que analisa e divulga dados sobre movimentação de impostos e paraísos fiscais), este é o montante que o Brasil teria perdido, apenas em 2010, com a evasão fiscal _ em 2011, ano da divulgação do estudo, isso equivalia a R$ 490 bilhões".

Quanto será hoje? Cinco anos atrás, este valor já era quase cinco vezes maior, por exemplo, do que o orçamento federal para a Saúde em 2015.

"É bem maior do que os R$ 19 bilhões que a Polícia Federal acredita terem sido desviados da União por um esquema bilionário de corrupção envolvendo um dos principais órgãos do sistema tributário brasileiro, o Carf _ a agência responsável pelo julgamento de recursos contra decisões da Receita Federal, e que é o principal alvo da Operação Zelotes", calcula a matéria da BBC.

Ao contrário da Operação Lava Jato, que investiga a Petrobras e domina o noticiário político-policial desde março do ano passado, qualificado diariamente pela grande imprensa como "o maior escândalo de corrupção da história universal", a Zelotes apareceu e sumiu misteriosamente das manchetes, embora envolva valores infinitamente maiores. Por que não se usam nos crimes de sonegação fiscal os mesmos métodos e o mesmo rigor das investigações comandadas pelo juiz Sergio Moro, que já detonaram políticos importantes e as maiores empreiteiras do país?

Boa pergunta. Talvez seja porque não haja até aqui ninguém do PT envolvido nesta história. O Sergio Moro da Operação Zelotes era o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal em Brasília, que foi afastado do processo na semana passada, após barrar sistematicamente as investigações no inquérito aberto pela PF no mesmo mês de março do ano passado em que foi deflagrada a Lava Jato, e negar os pedidos de prisão temporária de 26 envolvidos, além de proibir o monitoramento de e-mails e escutas telefônicas, e determinar o sigilo dos processos "para evitar a desnecessária exposição da intimidade dos acusados".

Na matéria "Onde está o Moro da Operação Zelotes?", publicada esta semana pela Carta Capital, a revista lembra que, "de acordo com a Polícia Federal, uma quadrilha atuava no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, para reverter ou anular multas de forma ilícita".

Já foram confirmados prejuízos de R$ 6 bilhões e estão sendo ainda investigados 74 processos no valor de R$ 19 bilhões em dívidas não pagas, valor bem superior ao que até agora foi divulgado em desvios da Petrobras. Fora o resto, que ainda está sub-judice, aguardando julgamento no Carf, num total bem superior aos R$ 60 bilhões de ajuste fiscal defendido pelo ministro Joaquim Levy, que afundou o país numa grave crise política e econômica sem prazo para acabar.

Estão entre as empresas investigadas a RBS (maior afiliada da Rede Globo no País), Ford, Mitsubishi, BR Foods, Camargo Corrêa, Gerdau, Tim, Bradesco, Santander e Safra.

Curioso, como constata dona Mara, é que no caminhão de propostas para a salvação da lavoura, colocado para circular nos últimos dias, em Brasília, pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, e por ministros do governo federal, nenhuma contemple um combate rigoroso à sonegação fiscal.

Em resumo: se todos pagassem os impostos devidos, todos poderiam pagar menos, e o país não estaria enfrentando crise nenhuma.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O generoso aumento dos salários dos ministros do STF e de todo o Judiciário? A descriminalização do uso de drogas? Os últimos lances da Operação Lava Jato em sua 18ª fase? O pacote salvador do Renan? Ou a ciumeira do Cunha? O novo prazo que o TCU deu para as contas de Dilma? Os protestos de domingo? As vitórias do Corinthians e do São Paulo ou a nova derrota do Palmeiras? Táxis ou Uber?

Sobre o que devo escrever hoje? Algum desses assuntos vai interessar aos caros leitores, ou eles já estariam cansados de tudo isso?

Muito tempo atrás, quando ainda existia, o Jornal da Tarde deu uma capa em que sugeria "Escolha aqui a sua manchete" e listava uma série de títulos, sem dar destaque a nenhum deles.

Como a palavra da moda agora é interatividade, vocês decidem: qual é o principal assunto do dia? Se vocês estivessem no meu lugar, qual seria o título desta coluna?

À noite, vou fazer a mesma pergunta ao Heródoto Barbeiro, antes de começarmos o Jornal da Record News: sobre o que vamos falar hoje?

Participem, não se acanhem! Não paga nada.

Tem dias em que, se você não souber o que dizer, é melhor fazer perguntas.

Como se dizia antigamente, fico no aguardo.

Em tempo: me lembrei que hoje é dia 13, ainda por cima 13 de agosto, o mês do cachorro louco. Tudo ainda pode acontecer, ou não.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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caiado Quem vai liderar os protestos de domingo no País?

Foto: Reprodução/Facebook Ronaldo Caiado

Aécio Neves continua indeciso com seu habitual vai-não-vai. Nem sabe ainda em que cidade estará no próximo domingo, dia das manifestações contra o governo organizadas há várias semanas por todo o País, agora com o patrocínio oficial do PSDB.

Só que o principal partido da oposição está mais uma vez dividido. FHC, Serra e Alckmin, os outros três grandes hierarcas tucanos, por enquanto contrários ao "Fora Dilma", certamente não devem aparecer.

Da mesma forma, não está prevista a presença do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, o verdadeiro e mais explosivo líder oposicionista do momento.

As principais estrelas devem ser as mesmas das manifestações anteriores: Ronaldo Caiado, do DEM, Jair Bolsonaro, do PP, o cantor Lobão, representando a classe artística, e Paulinho da Força, do Solidariedade, que foi vaiado e não conseguiu discursar na primeira manifestação, em março.

Fora isso, teremos um enorme elenco de lideranças de ocasião, sem história e sem futuro, cujos nomes já nem me lembro, representando uma miríade de grupos com diferentes objetivos e palavras de ordem. Vai dos tucanos xiitas e seus seguidores, que querem novas eleições já, aos pregadores de um novo golpe militar.

Para se ter uma ideia de como o cenário político do Brasil empobreceu: nas grandes manifestações do "Fora Collor", em 1992, estavam nos palanques, se a memória não me trai, lideranças do porte de Ulysses Guimarães e Leonel Brizola, Lula e Fernando Henrique Cardoso, junto com os maiores nomes da sociedade civil organizada, da ABI, da CNBB e da OAB, do teatro, do cinema e da música popular brasileira, como na Campanha das Diretas.

Agora, quem comanda os protestos são grupos formados nas redes sociais, que só aparecem nestas horas: Avança Brasil _ Maçons BR, Acorda Brasil, Revoltados Online, Brasil Melhor, Nas Ruas, Pátria Amada, Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua, UND (União Nacionalista Democrática) e Endireita Brasil.

Pelos nomes, já dá para ter uma ideia do que nos espera se um dia estes protestadores, marchadeiros e paneleiros chegarem ao poder.

Até este momento, manhã de quarta-feira, ao contrário do que vimos nos dias que antecederam os protestos de março e abril, um estranho silêncio cerca os protestos de domingo fora da grande rede da web.

Embora a rejeição ao governo hoje seja maior, como mostram todas as pesquisas, não se vê nenhum sinal que possa indicar o tamanho das manifestações. Não ouço pessoas falando no assunto e os grandes veículos da imprensa mostram menos entusiasmo em convocar a população, com exceção de alguns blogueiros e comentaristas mais assanhados.

Em São Paulo, principal reduto da oposição ao governo, os protestos ficarão concentrados na avenida Paulista, mas por questões de segurança não haverá passeata. A partir das 11h30 da manhã, os dez carros de som dos vários grupos deverão ser estacionados entre as ruas Augusta e Pamplona, e lá permanecer.

O que eles querem, afinal? Como cresceu nos últimos dias a movimentação de vários setores da vida nacional em defesa da legalidade e da democracia, o objetivo principal dos novos protestos agora se limita a tentar influenciar as decisões dos tribunais (TCU e TSE), que julgarão as contas da campanha e do governo da presidente Dilma Rousseff, e pressionar os congressistas a abrir um _ agora cada vez mais improvável _ processo de impeachment.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Procurando, a gente acha, mas não é fácil encontrar notícia boa, meu desafio de todos os dias. Alguns leitores já tinham me avisado nos comentários, mas foi só no blog independente do respeitado jornalista Kennedy Alencar que li este título: "Transposição das águas do São Francisco começa a funcionar".

Numa rara segunda-feira de calmaria, em que a Bolsa subiu e o dólar caiu pela primeira vez nos últimos dias, e o Senado apresentou uma "Agenda Brasil" com propostas concretas para enfrentarmos a crise econômica, este foi para mim o fato mais importante, embora tenha sido solenemente ignorado pela grande mídia.

As cenas das águas começando a correr nos canais de transposição do Velho Chico, uma obra reivindicada pelos nordestinos deste os tempos do Império, são sinais de vida e de esperança. Relata o Kennedy, meu velho amigo e parceiro dos bons tempos:

"A transposição das águas do São Francisco começou a funcionar. Na semana passada, foram feitos testes na EB1 (Estação de Bombeamento 1) em Cabrobó (PE).  Acionadas as bombas, foram captadas águas do São Francisco, e enviadas pelo canal que chega à Barragem do Tucutu, Eixo Norte da obra que fica no território pernambucano.

A obra da transposição teve início em 2007. Deveria ter ficado pronta em 2012. A tendência é que esteja completamente concluída até o ano que vem.

O Eixo Norte, que já está funcionando, é a primeira etapa da obra.

Auxiliares da presidente Dilma Rousseff estão finalizando detalhes para uma viagem dela à região até o fim do mês como parte da estratégia de reação à crise".

Assista ao vídeo:

 

De onde menos se espera

"As coisas vão melhorar", já vinham me dizendo alguns amigos nos últimos dias, mas ninguém com a mesma ênfase do casal Ciça (criadora das imortais tirinhas do Pato) e Zélio Alves Pinto, durante a agradável noitada de lançamento de mais dois livros do nosso inesgotável Frei Betto.

O curioso é que nenhum destes renitentes otimistas, por mais que se pergunte, apresenta fatos ou argumentos para justificar suas previsões. "Vai melhorar", limitam-se a repetir, mais movidos pela fé do que pela razão. Ter esperança significa acreditar no futuro, que é o que está faltando, por justificados e sofridos motivos, para a maioria dos brasileiros. Mal não faz.

Pois, ao ver o noticiário no fim da noite, encontrei um bom motivo para achar que eles podem ter razão. Muitas vezes, no fundo da desesperança, de onde menos se espera surgem boas novidades: um grupo de senadores do PMDB, sob o comando de Renan Calheiros, levou ao Palácio do Planalto um pacote de 28 medidas para o enfrentamento da crise econômica, na contramão da "pauta bomba" de Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que tem por único objetivo tornar o país ingovernável e escapar da Lava Jato.

Cunha deixou as manchetes nesta terça-feira, o que é outra boa notícia. Em seu lugar, apareceu a "pauta do bem", que elenca ações divididas em três áreas para a retomada do crescimento: negócios e infraestrutura, equilíbrio fiscal e proteção social. Dilma gostou da iniciativa, embora algumas medidas sejam polêmicas, como o aumento da idade mínima para aposentadoria e a cobrança de alguns atendimentos no SUS, de acordo com a faixa de renda.

O objetivo de todas elas é aumentar a arrecadação e diminuir as despesas do governo, como pretende o ajuste fiscal do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que elogiou o presidente do Senado: "Esta pauta sugerida pelo senador Renan Calheiros é a pauta do Brasil, indispensável para enfrentarmos a nova realidade econômica e superarmos a atual crise".

É melhor assim.

 

 

 

 

 

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 Um ano depois, a falta que faz Eduardo Campos

Foto: Elza Fiúza/10.7.2013/ABr

Eduardo Henrique Accioly Campos era o mais promissor, carismático e preparado líder da nova geração de políticos brasileiros, tão carente de lideranças.

Eu tinha chegado a esta conclusão depois de duas longas conversas com ele para fazer reportagens e entrevistas publicadas na "Brasileiros", nos anos de 2010 e 2012, que podem ser acessadas no arquivo digital da revista.

Esta semana, em que uma série de homenagens lembrará um ano da sua trágica morte em acidente aéreo, no início da campanha presidencial de 2014, poderemos refletir um pouco sobre a falta que ele nos faz.

Candidato a presidente, depois de ter governado Pernambuco por dois mandatos, Eduardo morreu muito moço _ faria 50 anos nesta segunda-feira, 10 de agosto _ mas falava e agia como um craque experiente, tocando a bola de primeira no gramado da política, conhecedor do seu ofício, aprendido desde menino com seu avô, Miguel Arraes, que também morreu num dia 13 de agosto.

"A nova cara da política" foi o título da matéria publicada na edição de novembro de 2010. Conversamos dias antes das eleições gerais daquele ano, em que ele já despontava como o grande campeão nacional de votos (teve 82,84%) na sua reeleição para governador. Ficou combinado que só publicaria a entrevista se as urnas confirmassem as pesquisas.  "Está na hora de fazer uma reforma para aproximar o povo da política", disse-me ele ao final do nosso papo, que atravessou a tarde no Palácio do Campo das Princesas. Saí de lá convencido que ele não tinha planos apenas para Pernambuco, mas para o país. Estava nascendo ali uma futura candidatura a presidente da República.

Mais certeza disso tive dois anos depois, quando fui conversar com ele sobre os rumos da campanha municipal de 2012, que ficou marcada pelo rompimento de Eduardo com o PT, seu antigo aliado na Frente Popular do Recife, após uma série de desencontros com o velho amigo Lula. "Lula X Eduardo Campos" foi o título desta reportagem. O candidato a prefeito apoiado pelo governador ganharia com folga do candidato do ex-presidente, que nem iria para o segundo turno.

Tinha marcado uma conversa com Evaldo Costa, seu fiel assessor de imprensa, uma das heranças que recebeu de Arraes, mas assim que desembarquei no aeroporto dos Guararapes a secretária de Eduardo me ligou avisando que o governador estava me esperando para o almoço no Centro de Convenções de Olinda, onde ele estava despachando, enquanto o Palácio do Campo das Princesas passava por uma reforma.

Um trecho da matéria:

"De bom humor e animado como sempre, o governador pernambucano mostrou apetite para repetir o prato e não parou de falar de política durante o longo almoço com cardápio trivial. Só depois do cafezinho, conforme o combinado, peguei meu caderno de anotações e a caneta e fui direto ao assunto desta reportagem: como ele está analisando o cenário da disputa de 2012, principalmente nas capitais onde se enfrentam PT e PSB, tendo como pano de fundo a sucessão presidencial em 2014".

Eduardo contou ao final como se deu o desenlace com Lula e o PT:

"Fiquei sabendo pela imprensa que o Humberto Costa (atual senador) seria o candidato do PT com João Paulo de vice". Inconformado, o então governador ligou para o ex-presidente: "Estou falando do gabinete onde o doutor Arraes recebeu os milicos, não sou homem de ser enquadrado por ninguém. Posso ser convencido, mas enquadrado, não".

Assim era Eduardo Campos. Impossível saber como seria hoje o Brasil se o avião dele não tivesse caído, mas certamente não seria o mesmo, este deserto de projetos e de ideias.  Tudo o que aconteceu depois, porém, reforçou minha certeza de que ele era o melhor, para o país, entre os quatro candidatos principais que disputaram a última eleição presidencial, como comentei com os amigos, após as nossas conversas no Recife, e pela experiência de ter trabalhado na mesma equipe (ele era ministro de Ciência e Tecnologia e eu Secretário de Imprensa) e morado no mesmo hotel, nos dois primeiros anos do governo de Lula.

"Se estivesse vivo, o desfecho e o quadro político e econômico não seriam diferentes. Mas ele seria uma voz equilibrada em meio ao caos, uma voz com reconhecimento nacional para ajudar a liderar a busca de um caminho", disse o presidente da Fundação João Mangabeira, ex governador Renato Casagrande, ao jornal O Globo.

Marina Silva, que era sua vice e assumiu o lugar de Eduardo na candidatura presidencial do PSB, foi na mesma linha: "Creio que Eduardo estaria percorrendo o país para conversar com as lideranças regionais, insistindo em temas como o pacto federativo e a reforma tributária, estaria na luta. Sua presença certamente daria mais qualidade à política brasileira".

Estas opiniões refletem a minha. E o que pensam a respeito os nossos caros leitores do Balaio?

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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kotscho Pai ausente, avô presente, o ciclo da vida

Foto: Arquivo Pessoal

O tempo que não tive para cuidar das filhas pequenas, hoje duas jovens senhoras, profissionais de respeito, tenho agora sobrando para acompanhar o crescimento dos meus cinco netos, minhas alegrias de viver.

Acho que isso aconteceu com a maioria dos jornalistas da minha geração. São os ciclos da vida.

O tempo passado não tem volta, mas sempre dá para aproveitar melhor o tempo que nos resta pela frente. É o que procuro fazer para compensar os anos de ausência.

Teve época em que só passava em casa, entre uma viagem e outra para fazer reportagens pelo Brasil e pelo mundo, para trocar de mala e pegar roupas limpas. Tinha tantas histórias para contar que mal sobrava tempo para ouvir as histórias da mulher e das crianças, que estavam deixando de ser crianças.

Quando saí de casa para cobrir a Copa do Mundo de 1974 na Alemanha, pelo Estadão, minha filha mais velha, a jornalista Mariana, estava começando a andar e falar. Dois meses depois, nem falava nem andava. No aeroporto de Congonhas, ao me ver, ela veio correndo e falando sem parar um monte de coisas que eu não entendia. Nem precisava. Bastavam o abraço e o sorriso dela.

Em 1977, quando fui contratado pelo Jornal do Brasil para ser correspondente na Alemanha, a família toda foi junto, claro. Carolina, a filha caçula, pequenininha, estava com febre e não saia do colo da mãe. Recém operado de hérnia, nem podia ajudar a carregar as malas.

O país estava convulsionado pelas ações terroristas do grupo Baader- Meinhof. Mal tive tempo de acomodar a família e as malas num hotel. Minha chefe, a Dorrit Harazim, grande figura, já estava me cobrando para mandar matéria no mesmo dia (conto mais sobre esta aventura no meu livro de memórias Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter, da Companhia das Letras).

Lembro destes dois episódios nesta véspera de Dia dos Pais para agradecer à agora vó Mara, por ter sido mãe e pai ao mesmo tempo, dando às nossas filhas a educação que fez delas duas mulheres fortes e vitoriosas em suas carreiras e na vida pessoal.

Nem faço questão de ganhar presentes amanhã. Só a existência destas três mulheres e dos netos que elas me deram é o melhor presente que a vida poderia me oferecer.

Um beijo para meu pai, o Nick, que também viajava muito e nos deixou muito cedo.

Bom domingo, feliz Dia dos Pais para todos.

Vida que segue.

Em tempo: não deixem de ler o belo texto sobre o mesmo tema publicado no blog do meu colega e amigo Nirlando Beirão, aqui mesmo no R7.

Nirlando presta um preito a seu pai, também chamado Nirlando Beirão, que não conheci, mas precisava ter conhecido. Grandes Nirlandos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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