Para onde ir?

Já tem muita gente pensando nisso, depois de mais uma semana de cão em São Paulo, sem água e sem luz por boa parte do tempo, enchentes diárias e reservatórios secos, trânsito caótico, árvores e postes caídos, obras e consertos intermináveis, mau humor generalizado, as pessoas se tratando mal. E a cidade ainda está meio vazia, com muita gente de férias.

Quem vive aqui sabe bem do que estou falando. Como será quando todo mundo voltar e o inverno chegar? Nem quero pensar nisso, mas ao subir mais uma vez a escadaria do prédio no escuro (a bateria da luz de emergência só dura duas horas), voltei a pensar num sonho antigo e recorrente.

Quando me perguntam qual é o sonho, quais são meus planos nestes anos que me restam de vida, sempre respondo na lata: é ir morar em João Pessoa, a pacata e bela capital da Paraíba. Nem sei explicar quais são os motivos, já que não tenho lá amigos nem parentes, nada em especial que me faça escolher este canto do mundo para viver.

lll Todo mundo tem um sonho. O meu é João Pessoa

Foto: Prefeitura Municipal de João Pessoa

Nas minhas andanças pelo país como repórter, que já me levaram a todos os Estados brasileiros, capitais e interiores, sem exceção _ até a Fernando de Noronha já fui, ficava pensando  onde gostaria de ficar de vez quando me aposentasse.

Minhas escolhas mudaram várias vezes ao longo deste último meio século, porque esta nossa terra tem muitas cidades bonitas e acolhedoras. Já conheci também lugares incríveis em boa parte do mundo, mas viver fora do Brasil, nem pensar.

De uns tempos para cá, fixei-me em João Pessoa, onde já tinha ido muitas vezes, sempre a trabalho. Em 2013, finalmente, consegui passar lá dez dias de férias _ e me encantei, definitivamente.

Não descobri lá nenhuma praia do outro mundo, um restaurante espetacular, alguma atração turística imperdível. Acho que o que mais me atraiu foi exatamente isso: a simplicidade do lugar e das pessoas.

É difícil explicar. Parece que é todo mundo igual, não tem gente que quer se mostrar mais importante do que o outro, ninguém quer te enganar e os nativos parecem sempre disponíveis para uma conversa, sorriem de graça. A vida flui mansamente, sem atropelos, cada coisa no seu lugar e no seu tempo certo.

Outro dia, no final de um almoço com amigos da minha idade, o papo era sobre sonhos, planos, projetos de vida. Claro que falei de João Pessoa. Falei até que, ao final do meu contrato, iria pedir à Record minha transferência para a emissora da Paraíba.

Pois não é que um diretor da empresa levou minha conversa a sério? Quando o reencontrei, semanas depois, no mesmo lugar, ele me chamou de lado, e confidenciou: "Já estou encaminhando aquele teu pedido". Nem me lembrava qual era, mas ele não esqueceu.

Tenho agora um pequeno problema: convencer minha mulher, as filhas, os genros e os netos a irem junto comigo... Já estou aposentado faz mais de dez anos, continuo com dois empregos, o tempo voa cada vez mais rápido, sei que tenho menos tempo pela frente do que para trás. Será que um dia vou conseguir?

Acho que minha única chance é chegar o dia em que todos seremos, simplesmente, obrigados a ir embora daqui. Eu, pelo menos, já sei para onde ir.

E você, caro leitor do Balaio?

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

geraldo O racionamento já existe, descobre Alckmin agora

Não nos diga, caro governador Geraldo Alckmin... Quer dizer que tudo o que o senhor falou antes sobre a gravíssima crise da água em São Paulo, que não é de hoje, era só para enganar os eleitores? Que o digam os flagelados da Vila Madalena, o bairro mais boêmio de São Paulo, com seus bares e restaurantes sempre lotados, que nos últimos dias chegaram a ficar até 16 horas por dia sem água e agora são obrigados a fechar mais cedo.

Já reeleito, surfando na desinformação, vejam o que Alckmin disse, com todas as letras, no dia 24 de outubro, dois dias antes do segundo turno, quando fazia campanha para o tucano Aécio Neves, que ainda estava no páreo das eleições presidenciais de 2014:

"O abastecimento de água está garantido na região metropolitana de São Paulo. Não tem racionamento e não tem desabastecimento".

Pois ficamos sabendo agora, nas palavras do próprio governador, que o abastecimento não só não estava garantido, como já vivíamos o racionamento de água desde março, só que a culpa não era dele.

"O racionamento já existe. Quando a ANA determina, quando ela diz que você tem que reduzir de 33 para 17 metros cúbicos por segundo a retirada de água do Cantareira, é óbvio que você já está em restrição".

ANA é a sigla da Agência Nacional de Águas, órgão regulador do governo federal. Por ironia das ironias, foi lá que Alckmin recrutou o novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, que preparou a população para o pior: além do racionamento em determinados horários, como já existe, poderemos também ter em breve o rodízio no fornecimento de água aos bairros.

Quer dizer, depois da comporta arrombada, Alckmin foi pedir ajuda financeira ao governo federal e de lá trouxe o homem que agora é responsável por evitar o colapso, pois o Sistema Cantareira, segundo ele, pode secar de vez até março, com o atual nível das chuvas, abaixo da média dos anos anteriores.

"Sim, podemos chegar a ter um rodízio. Torcemos para que não, mas pode chegar", alertou Kelman, em longa entrevista à imprensa na quarta-feira. Foi a primeira vez em que uma autoridade do governo estadual procurou falar a verdade à população. E até Alckmin foi obrigado a admitir o que até ontem procurava esconder.

Além de torcer pela chuva, finalmente a Sabesp parece realmente mais preocupada em tomar providências concretas para minimizar as agruras da população de São Paulo do que com os dividendos dos seus acionistas. Chegamos a este ponto, depois de anos de descaso e falta de planejamento dos sucessivos governos tucanos.

De nada adianta agora querer atribuir à ANA a "restrição da pressão hídrica", o outro nome do racionamento em tucanês, medida determinada no começo do ano passado, quando a crise já se agravava e a água começava a faltar nas torneiras dos paulistanos.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

dilma galeria livros tl Por onde andará Dilma? Tomou posse e sumiu

Nesta quarta-feira, 14 de janeiro, faz duas semanas que a presidente Dilma Rousseff tomou posse solene no seu segundo mandato e, em seguida, sumiu do mapa. Posso estar enganado, mas até hoje não se viu sua presença em nenhuma solenidade oficial ou evento público. Não há registro de imagens nem de qualquer manifestação da presidente, além de notas oficiais.

Por onde andará Dilma, o que estará pensando do que vem acontecendo no Brasil e no mundo? Por que não foi à grande manifestação contra os atentados que reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas, domingo, em Paris, com a presença de mais de 40 chefes de Estado e de governo? É no mínimo estranho este silêncio, difícil entender esta ausência. Se tudo estivesse em paz neste começo de ano, tudo bem. O problema é que não está, nem aqui, nem lá fora.

Uma consulta à agenda presidencial divulgada nas redes oficiais do governo dá conta apenas de umas poucas audiências a ministros, nos palácios da Alvorada e do Planalto. Ao voltar da Bahia, na quarta-feira passada, o primeiro ministro que Dilma recebeu foi Jaques Wagner, da Defesa, às 9h30 e às 17h30. No mesmo dia, a presidente recebeu também o secretário-geral, Miguel Rossetto, e o presidente do PT, Rui Falcão.

Nesta segunda-feira, foi a vez de Gilberto Kassab, das Cidades, e Joaquim Levy, da Fazenda. Levy seria recebido novamente no dia seguinte, além de Nelson Barbosa, do Planejamento, e Valdir Simão, da CGU. Para hoje, a agenda previa encontros apenas com Arthur Chioro, da Saúde, e Luciano Coutinho, presidente do BNDES.

Como se pode ver, até agora, com a exceção de Kassab, só o PT esteve com Dilma, ninguém do PMDB.

Davos ou La Paz? A polêmica sobre para aonde iria a presidente na próxima semana, em sua primeira viagem internacional, só acabou ontem, com o anúncio oficial de que ela irá à posse de Evo Morales, que assume o terceiro mandato presidencial na Bolívia, e enviará para o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que é quem vem anunciando as primeiras medidas do novo governo.

Nunca tinha visto um governo começar assim. A presidente sumiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Em política, não existe vazio, já ensinavam os sábios mais antigos. Assim, nestas duas primeiras semanas de 2015, junto com as chuvas de verão, um calor dos infernos e as excelências maiores descansando em berço esplêndido, quem tomou conta da cena foi uma figura do segundo time, a ex-prefeita, ex-ministra e quase ex-petista Marta Suplicy. É a nova estrela da estação.

Só se fala dela nas rodas do poder que não saíram de férias, o que dá bem uma ideia da pobreza de ideias e da orfandade de lideranças no cenário político-midiático-partidário nacional. O que quer Marta, afinal, ao atirar para todo lado, depois de ser defenestrada do Ministério da Cultura?

Muito simples: sem espaço no PT, a ex-prefeita de São Paulo quer ser expulsa do partido para se abrigar em outra legenda e poder disputar novamente o cargo. O seu objetivo inicial era o PMDB, mas o prefeito Fernando Haddad, candidato à reeleição, foi mais rápido e fechou uma aliança com a ala de Michel Temer, entregando o cargo de secretário da Educação para Gabriel Chalita, que deve ser seu companheiro de chapa.

safe image Marta aproveita vazio da política e dá seu showzinho

Sem aliados de peso na sua empreitada de francoatiradora, além do marido Márcio Botelho, que pode entender de negócios, mas não de política, Marta resolveu ir à guerra montando seu showzinho particular, em que se limita a detonar o PT e seus principais líderes, de Dilma a Lula, passando por Mercadante e Rui Falcão, ao jogar um contra o outro, sem apresentar qualquer nova proposta política para a cidade ou para o país. Magoada e irada, Marta apenas quer porque quer voltar a ser prefeita e se vingar do seu antigo partido.

Restam-lhe opções menores, como o Solidariedade, do sempre oferecido Paulinho da Força, mas, no momento, ela está sozinha na estrada, aproveitando-se da entressafra do noticiário político para ocupar espaço, enquanto fevereiro não vem.

A direção do PT está numa sinuca de bico. Com Dilma e Lula guardando obsequioso silêncio desde o início do novo governo, o partido não pode responder aos ataques na mesma moeda, pois faria o jogo de Marta. Ao mesmo tempo, também não pode fingir que não está acontecendo nada.

Com o coração na mão, o mundo político só está à espera das bombas-relógio da Operação Lava Jato, que devem começar a explodir junto com a reabertura do Congresso Nacional. Aí ninguém mais vai falar de Marta, mas ela já terá feito seu estrago na desgastada imagem do partido que enfrenta hoje sua maior crise, após 12 anos de hegemonia no poder central.

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Manhã de domingo. A notícia mais chocante deste final da semana do terror que abalou o mundo não vem de Paris.

Vem de Maidiguri, cidade do nordeste da Nigéria, e está escondida no pé da página A14 da Folha, sob o título "Menina-bomba mata 20 em ataque na Nigéria _ Suspeita recai sobre grupo islâmico Boko Haram, que já causou mais de 13 mil mortes" e, recentemente, sequestrou mais de 200 meninas numa escola.

A matéria tem a assinatura anônima "Das agências de notícias" e não vem acompanhada de análises de especialistas sobre o atentado suicida provocado por uma menina de 10 anos num mercado lotado, que deixou 20 mortos, incluindo a criança, e 18 feridos.

Por uma trágica coincidência, é o mesmo número de mortes causadas em Paris nos ataques de três terroristas franco-argelinos contra o semanário "Charlie Hebdo" e um mercado judaico na região leste da cidade.

6d9p56q8x9 1nd7mjzitx file1 Os 20 mortos de Paris e os 20 de Maiduguri

Pelas ruas da “Cidade Luz”, estima-se que cerca de 1,5 milhão de populares acompanharam a homenagem / Foto: Reuters

Sobre este assunto já foram publicadas no mundo inteiro milhares de análises indignadas e definitivas feitas por jornalistas, professores e estudiosos das relações internacionais, tentando explicar as causas e consequências destes atos terroristas, o que me dispensa de fazê-lo.

Nesta segunda década do século 21 no mundo globalizado, o que aconteceu esta semana em Paris é algo que foge à minha compreensão e ultrapassa de longe os limites dos meus parcos conhecimentos sobre a relação entre o fanatismo religioso, a política internacional, a liberdade de expressão, a xenofobia, a indústria de armas e os rumos da humanidade.

"O mundo tá dodói", resumiu um amigo, tão perplexo quanto eu diante das imagens e comentários que se repetiam sem parar na televisão ao longo dos últimos cinco dias. Já não deveria, a esta altura da vida, me assustar com mais nada, pois vivo num país em que seis pessoas, em sua maioria negros, são assassinadas por hora (foram mais de 53 mil mortes violentas em 2013).

Hoje, em Paris, mais de um milhão de pessoas deverão participar da "Marcha Republicana" no protesto contra os atentados atribuídos a radicais islâmicos, em ato oficial do governo francês, que contará com a presença de chefes de governo e de estado da Alemanha, Itália, Rússia, Espanha e do Reino Unido, entre outras nações.

O que me deixa intrigado como cidadão do mundo é esta reação seletiva entre o que aconteceu em Paris e os fatos de Maiduguri, que se repetem todos os dias na Nigéria, em vastas regiões da África e do Oriente Médio, sem que ninguém saia às ruas para condenar as guerras e pedir paz, com a honrosa exceção do papa Francisco.

Para mim, uma vida é uma vida é uma vida, todas têm o mesmo valor. Podem existir vivos de primeira ou segunda classe, mais ou menos importantes e simbólicos, mas os mortos são todos iguais. E é por todos eles que devemos chorar.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ok Sem água e sem luz, um dia de periferia nos Jardins

Chuva forte derruba árvores em São Paulo / Foto: Montagem/R7

A água acabou às quatro da tarde, como tem acontecido com frequência. Às seis, acabou a luz. Ruas alagadas, carros boiando, prédios sem elevador, restaurantes fechando, semáforos piscando, árvores e postes caídos no asfalto, um caos.

Em muitas regiões mais pobres da cidade estas cenas são habituais quando chegam as chuvas de verão e, na maioria das vezes, a gente nem fica sabendo, não dá manchete. Só que, desta vez, aconteceu no coração dos Jardins, a área mais nobre da maior cidade do país.

Antes que me chamem de preconceituoso, já vou logo confessando: faz mais de dez anos moro aqui, no Jardim Paulista, que viveu nesta quinta-feira seu dia de periferia. Enfim, poderão dizer os mais otimistas, vivemos na sociedade igualitária com que muitos sonhamos. Aos poucos, por toda parte, São Paulo vai virando um imenso subúrbio abandonado, acabando com os privilégios das minorias.

O que também tem seu lado bom. Sem energia, que até a meia noite não havia voltado, toda a parafernália eletrônica saiu do ar, tornou-se inútil. Até as luzes de emergência da escadaria pifaram e nem o filtro d´água funcionava, o que me obrigou a experimentar pela primeira vez a água de torneira oferecida pelo segundo volume morto do Cantareira. Por falta de opções, esticamos o jantar à luz de velas na cozinha e conversamos bastante sobre a vida, como há muito tempo não acontecia.

Às vésperas de completar 461 anos, a altaneira cidade de São Paulo dos bandeirantes, a "suíça brasileira", a "locomotiva do Brasil", onde tudo é maior e melhor, caiu na real. Vai ficando tudo nivelado por baixo, como o nível das águas lamacentas do Cantareira.

O governador tucano não cuidou dos reservatórios e preferiu investir a grana da Sabesp na Bolsa de Nova York. O prefeito petista, mais preocupado com as bicicletas, não cuidou dos bueiros entupidos, das ruas esburacadas, da manutenção das velhas árvores, das calçadas quebradas.

Certa vez, quando estava começando a carreira no Estadão dos anos 60 do século passado, pediram-me para escrever um artigo sobre o aniversário da cidade. O título era mais ou menos na linha "amo esta cidade com todo ódio", mostrando o que ela tem de bom e de ruim. De lá para cá, não sei dizer se aumentaram os motivos para sentir mais amor ou mais ódio. O fato é que continuo vivendo aqui, ou melhor, sobrevivendo, na cidade onde nasci.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

okok Tudo é culpa do governo. Mas de qual governo?

Com a água, ou melhor, a falta d´água batendo no seu pescoço, e como não temos eleições neste ano, finalmente o eterno governador paulista Geraldo Alckmin resolveu agir: a partir desta quinta-feira (8), quem gastar mais do que a média do consumo nos últimos 12 meses vai ter que pagar multa pesada, que pode chegar a 100% sobre o valor da conta.

Quando ainda estava em campanha pela reeleição, e conseguiu esconder até onde pôde o perigo de colapso no abastecimento de água, com a ajuda da imprensa amiga, o tucano tinha feito exatamente o contrário: prometeu descontos para quem gastasse menos.  Só que, agora, não tem mais jeito de fugir do problema. Mesmo com a utilização do segundo volume morto do reservatório, o Sistema Cantareira está com apenas 6,8% da sua capacidade, o índice mais baixo registrado desde o início da estiagem.

Nem as fortes chuvas deste verão foram capazes de melhorar a situação. Ao contrário, as águas continuaram baixando nas represas e Alckmin começa mais um governo do mesmo jeito que terminou o anterior, correndo atrás do prejuízo. Ainda não ouvi ninguém falar em estelionato eleitoral.

A crise da água, as estradas do litoral norte torturando os turistas, o desmatamento fora de controle, a violência crescente, nada é capaz de atingir a invulnerabilidade do governador teflon. Nada é com ele.

Além de sua figura raramente aparecer no noticiário sobre as variadas crises que assolam São Paulo, há uma outra explicação para este fenômeno. Para a maioria dos eleitores, tudo é culpa do governo, sim, mas quando se pergunta de qual deles está falando, a maioria responde errado.

Em outubro passado, no mês da eleição, quando o instituto Datafolha perguntou de quem era a responsabilidade pela crise no abastecimento de água em São Paulo, 53% dos entrevistados responderam que era do governo federal e da prefeitura. Ou seja, a culpa era do PT, de Dilma e Haddad.

Tive um bom exemplo desta ignorância generalizada sobre as atribuições das três instâncias de governo, quando abriram um enorme buraco no asfalto aqui ao lado de casa. Até escrevi um post sobre o assunto quando a obra começou. Foi no início da Copa do Mundo, lembro-me bem. Seis meses depois, a obra ainda não tinha terminado, pois era um buraco que andava, subindo a alameda Ministro Rocha Azevedo, em direção à avenida Paulista, e deixando o trânsito congestionado o dia todo.

"Olha aí a porcaria do PT... Todo dia é isso e o prefeito não faz nada...", blasfemou o motorista de táxi com a veemência dos que têm certeza do que falam. Ainda pedi que ele olhasse na placa da Sabesp colocada no caminhão junto à obra, mas ele não queria nem saber. "E daí? Essa porcaria da Sabesp não é da prefeitura?".

De nada adiantou lhe explicar que Sabesp é a sigla da empresa de saneamento básico de São Paulo, controlada pelo governo estadual. O homem estava enfurecido, e assim continuou a viagem, xingando o prefeito e o PT. O taxista só sintoniza a rádio Jovem Pan. Alckmin, como se sabe, foi reeleito com um pé nas costas.

O governo federal tem culpa, sim, mas por não tornar obrigatório em todos os currículos escolares o ensino de noções básicas de cidadania. Por exemplo, ensinar quais são as responsabilidades dos governos federal, estaduais e municipais, e quais as atribuições dos três Poderes da República (para quem não se lembra, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário).

Fica a sugestão para o Datafolha fazer uma outra pesquisa sobre este tema. Desconfio que a absoluta maioria da população não saberá as respostas corretas. E é assim que as pessoas votam, eleição após eleição. Depois, reclamam dos governos e dos políticos que acabaram de eleger.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

k Qual é, afinal, a agenda da oposição para 2015?

Por absoluta falta de assunto, a imprensa e as oposições em geral poderiam dar férias coletivas aos seus colaboradores. Cada vez que termino de ler o tedioso noticiário do dia, lembro-me da célebre frase do filósofo Ronald Golias, um gênio que faz muita falta nos dias atuais: "A humanidade não está se comportando bem..."

Ontem, ao retornar de breve recesso, tratei aqui das desventuras da primeira semana do governo Dilma 2 e suas perspectivas pouco animadoras para 2015, praticamente concentradas no acerto das contas públicas entregue às mãos de tesoura do ministro Joaquim Levy.

Hoje, quarta-feira, quando olho para o lado oposto do espectro político partidário-midiático, o cenário também não é nada animador. Mais de dois meses após a sua quarta derrota consecutiva em eleições presidenciais, a oposição continua mais perdida do que cachorro em dia de mudança. Atira para todos os lados, mas não acerta uma bala no alvo capaz de lhe render manchetes e o respeito dos eleitores.

Quer apenas impedir que a presidente Dilma inicie seu segundo governo e, se possível, derrubá-la. Para isso, vale tudo: pedir mais CPIs da Petrobras, vazar novas denúncias, apelar aos seus aliados no Supremo Tribunal Federal comandado pelo onipresente Gilmar Mendes, hoje o principal líder da oposição real, ao lado da grande mídia familiar, enquanto o impagável Eduardo Cunha não assume a presidência da Câmara.

Seus principais líderes, o mineiro Aécio Neves e o paulista José Serra, simplesmente sumiram de cena, assim como o paranaense Álvaro Dias, eterno porta-voz da turma sempre à disposição de câmeras e microfones.

Aécio e Serra limitam-se a dar alguns pitacos reativos a cada discurso ou ação do governo, em notas oficiais ou plantadas em colunas amigas. Estão a reboque de figuras menores e mais assanhadas como os Agripinos, Goldmans, Bolsonaros, Imbassahys, Freires, Lobões, e todas estas figurinhas carimbadas do colunismo do pensamento único do Instituto Millemium, que parecem saídas da Velha República, com aquelas imponentes barbas, calvas cultivadas e cabeleiras brilhantinadas, adornadas por suas meigas coleguinhas.

O fato é que, até agora, esta oposição brasileira _ ao contrário, por exemplo, do que acontece com os republicanos, que disputam palmo a palmo com os democratas as discussões de projetos importantes no Congresso americano _ ainda não conseguiu produzir sequer uma agenda alternativa para o país, em nenhuma área, e se limita a alimentar uma guerra permanente contra o governo petista para evitar nova derrota em 2018.

Por isso, batem em Dilma, mas querem mesmo é atingir Lula, se possível mata-lo politica ou fisicamente, para que ele não ouse se candidatar de novo. É só isso que lhe interessa. O país que se dane. A única agenda da oposição é evitar que Dilma governe e Lula volte. Ficar vinte anos fora do poder, para estes antigos donos da pátria, é simplesmente inadmissível. Por mais fraco que possa ser o governo reeleito, a oposição é ainda pior.

O PSDB até tem um centro de altos estudos, o Instituto Teotônio Vilela, mas ali você não vai encontrar nada além de artigos e entrevistas dos tucanões de sempre. Na aba de "notícias", só duas foram publicadas este ano, ambas na terça-feira: uma sobre programas sociais do governo tucano do Paraná e outra de parlamentares do partido criticando o discurso de posse de Dilma Rousseff na semana passada.

Antes disso, a última notícia de 2014 fora publicada no dia 9 de dezembro, reproduzindo uma matéria de O Globo, sobre a proposta de atualização do programa partidário apresentada por Aécio Neves.

Enquanto isso, a velha mídia oligárquica vai ocupando o lugar que deveria ser dos partidos de oposição. Mesmo perdendo audiência e circulação, obrigada a entregar o comando editorial a terceiros ou a retirar bustos de seus fundadores do saguão de prédios que vão aos poucos se esvaziando de redações, os barões da imprensa não perdem a empáfia.

Isso não é bom para a democracia brasileira. Tanto quanto um governo Dilma 2 melhor do que o Dilma 1, precisamos de uma oposição mais responsável, propositiva e consequente do que esta que está aí, rancorosa, sectária e cada vez mais medíocre.

Se o PT está em crise, não é esta nova versão da UDN quem vai nos salvar.

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ds Dilma 2 começa como Dilma 1 acabou: quase tudo igual

A presidente Dilma Rousseff tomou posse no segundo mandato e, em seguida, voou de volta para a praia na Base Naval de Aratu, na Bahia. Bem faz ela, mas eu já estou aqui de novo para mais um ano de batente. Pensei muito nestes dias, mil coisas, sobre o que deveria escrever no meu primeiro post de 2015, mas este detalhe me chamou a atenção: deve se tratar de caso único no mundo em que  um novo governo começa sem a presença do presidente, ou melhor, da presidenta da República.

Dilma só deve voltar a Brasília na quinta-feira. Até lá, os 39 ministros por ela escalados vão tateando, tentando adivinhar o que a presidente gostaria que eles fizessem em seus cargos. O primeiro já se deu mal. Nelson Barbosa, do Planejamento, levou um chega pra lá da presidente ao anunciar estudos para novos cálculos do aumento do salário mínimo, e foi obrigado a se desmentir já no dia seguinte à sua posse.

Foi apenas o primeiro sinal de que o governo Dilma 2 começa quase da mesma forma como o Dilma 1 chegou ao fim: dando trombadas, patinando, sem que a distinta plateia, até o momento, saiba o que podemos de fato esperar deste segundo mandato.

Entre os discursos da campanha, da vitória e da posse, e a dura realidade a ser enfrentada com as contas da economia em frangalhos e a base aliada num clima de barata voa, há um abismo a ser vencido.

Lamento informar, mas em seus erráticos movimentos para montar a nova equipe, a presidente conseguiu quase uma unanimidade _ unanimidade contra ela. Do PT ao PMDB, passando pela penca de nanicos abrigados no novo ministério e colunistas simpáticos ao governo, parece que ninguém, fora do mercado financeiro, ficou satisfeito com as escolhas, incluindo nesta conta as lideranças da sociedade civil e do movimento social, que asseguraram a vitória dela em outubro.

A enorme distância entre os discursos triunfalistas e a realidade ficou evidente quando olhamos as fotos do evento da posse no Palácio do Planalto: não consegui identificar ali nenhum nome representativo da classe artística, dos meios acadêmicos e religiosos, das entidades sindicais e estudantis ou da agricultura familiar, setores tradicionalmente aliados do PT. Os VIPs que apareceram nas colunas eram todos grandes empresários, com exceção de dois dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, além dos políticos de sempre, é claro.

Na ausência física da presidente em Brasília e da definição clara das principais metas da política econômica do novo governo, toda a responsabilidade e as esperanças do país foram depositadas nas mãos do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que, até o momento em que escrevo, na manhã desta terça-feira, não foi contestado pela sua chefe.

"Não podemos procurar atalhos e benefícios que impliquem redução acentuada da tributação para alguns setores, sem considerar seus efeitos na solvência do Estado. Possíveis aumentos em alguns tributos serão também considerados", anunciou Levy ao tomar posse na Fazenda, dizendo exatamente o que o mercado esperava dele.

Diminuir a despesa e aumentar a receita: este é o único caminho possível para colocar ordem nas contas públicas cada vez mais deficitárias. Como fazer isso, porém, é que são elas. Dilma já prometeu várias vezes que pretende perpetrar o milagre de fazer tudo o que for preciso para promover o chamado ajuste fiscal, desde que não se cortem os benefícios sociais e não haja aumento de inflação, mas apenas do PIB.

Cortar custos, sacrificando empregos e salários, sempre é mais fácil, como vemos nos processos de "reengenharia" na iniciativa privada, mas para aumentar a arrecadação ninguém fala em taxação das grandes fortunas e combate à sonegação fiscal das empresas oligopolistas, como bem lembrou meu colega Ricardo Melo em sua coluna semanal na Folha, sob o apropriado título "Chamem o síndico".

Como Dilma, aos 67 anos, a mesma idade que estou para completar, não vai mudar sua personalidade forte nem abrir mão das suas certezas absolutas, o melhor que a presidente tem a fazer no momento, para tranquilizar a tripulação e os passageiros desta nau à deriva chamada Brasil, é convocar imediatamente uma reunião com todos os seus ministros, definir as tarefas de cada um e afinar os discursos.

Ao final do encontro, ela poderia convocar uma rede nacional de rádio e televisão e anunciar, finalmente, preto no branco, sem frases de marqueteiros ou mera declaração de intenções, o que, quando e como pretende fazer para inaugurar seu novo governo.

Que suas reflexões nas águas da bela praia da Viração, na ilha dos Frades, a ajudem a encontrar os melhores caminhos.

Vida que segue. E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

rc Roberto Carlos é um sedutor ou conquistador?

Manhã de quarta-feira nublada em São Paulo, véspera de Natal.

Pois é, ontem me despedi de vocês, dando por findos os trabalhos deste ano, mas já estou aqui de novo. Fiquem tranquilos: não vou aborrecer ninguém falando do ministério X-Tudo do governo Dilma 2, tema da conversa com Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão, no Jornal da Record News desta terça-feira (ver link no site do JRN, aqui ao lado, na coluna da esquerda do blog).

Acho que já não consigo passar um dia sem escrever, virou costume  _ ainda mais, depois de assistir ao emocionante especial natalino de Roberto Carlos. Faz uns 40 anos que não perco este programa por nada no mundo, quase o mesmo tempo em que vivo com a mesma mulher, a Marinha, que também é dos tempos da Jovem Guarda, embora não pareça.

Quando nos casamos, lá no distante ano de 1972, tínhamos os dois a coleção completa dos discos deste cantor e, até hoje, não entramos num acordo. Namoramos muito ouvindo Roberto Carlos nos drive-in da época (espécie de motel dentro do carro) e, depois, em nossa casa. E ainda não entramos num acordo. Afinal, Roberto Carlos é um sedutor ou um conquistador?

Nem sei direito qual é a diferença, mas tanto no disco como na televisão "esse cara" tem o dom de seduzir e conquistar. Ninguém consegue ficar indiferente ouvindo suas músicas, mesmo quem não gosta dele.

Na primeira metade dos anos 1980, quando era repórter da Folha, pedia ao pessoal da Ilustrada para escrever a crítica do programa anual dele na TV Globo. Escrevia sempre mais ou menos a mesma coisa, porque este show natalino também é imutável, tão previsível como a chegada de Papai Noel _ e , agora, de Paul McCartney.

Aliás, estes dois parecem ter o mesmo gosto pela eternidade, não são simples mortais como nós. Naquela época, pegava até mal um repórter do primeiro caderno como eu escrever sobre um cantor como Roberto Carlos, ainda considerado brega pelos intelectuais do andar de cima e os heróis da resistência, que ainda sonhavam com a revolução.

Eram tempos de governo militar e de lutas pela redemocratização do país, nas quais eu estava engajado até o pescoço. E daí? O que tinha uma coisa a ver com a outra? Mas eu era mesmo, e não escondia, muito fã dele, como antes fui de Moacir Franco, Mazzaropi e Tonico e Tinoco, e sou até hoje.

No show desta terça-feira, como em todos os outros, Roberto Carlos não quis brilhar sozinho no palco. Fez parcerias com o galã de novela Alexandre Nero, a belíssima ninfeta Sophie Charlotte e a nossa querida Alcione, cantando suas músicas em várias línguas e lembrando outros tempos.

Sedutor ou conquistador? Tanto faz, pois todo fim de ano é muito bom ouvir Roberto Carlos para lembrar os bons tempos vividos e sonhar com os próximos que virão. E é melhor ainda viver mais esta noite ao lado da mesma mulher, avó dos meus cinco netos, um mais bacana que o outro.

Como vocês sabem, passatempo de casal antigo é um ficar enchendo o saco do outro e discutir por bobagens como essa. É a hora de lembrar que sobrevivemos juntos a mais um ano, gostando das mesmas músicas. Tudo tem seu tempo e sua hora. Hoje prefiro falar de Roberto Carlos e, por isso, deixo publicada esta palpitante polêmica para os leitores debaterem nestes dias de folgas e festas de fim de ano. Quem é "esse cara", afinal?

Agora, vou cuidar de preparar o meu tender e prometo dar uma folga para vocês até o próximo dia 6. Cubram-se de glórias e divirtam-se!

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com