essa ok Eles já estão abusando da nossa paciência

Ainda bem que falta apenas uma semana. Assim como eu, acredito que ninguém mais aguenta ver as caras e bocas e ouvir as vozes de Dilma Rousseff e Aécio Neves repetindo sempre as mesmas coisas, dia após dia, para provar que o outro é pior. Debates e a overdose de propaganda eleitoral no rádio e na televisão se limitam a elencar corrupções e desmazelos sem fim dos governos do PSDB e do PT nos últimos 20 anos. O que vai sobrar disso?

Para quem ainda consegue assistir a este espetáculo de desconstrução mútua, resta a impressão de que estão em disputa a presidência da Petrobras e o governo de Minas, não o futuro do Brasil. Foi assim, mais uma vez, no debate de domingo à noite na TV Record.

Como os dois já não têm mais nada de novo a nos dizer, acabam sempre voltando aos mesmos cardápios dos seus marqueteiros fornecidos ao longo de toda esta interminável campanha eleitoral. Desta vez, como suas pesquisas internas mostraram que pegou muito mal junto ao eleitorado o vale tudo de baixarias do debate anterior, Aécio e Dilma resolveram deixar as respectivas famílias de fora e tentaram discutir suas propostas.

Não conseguiram, porém, passar de platitudes básicas ao disputar a paternidade do Bolsa Família, pregar o combate à corrupção e à inflação, ambos a favor da água encanada e da energia elétrica. Aécio chegou até a citar uma reportagem do jornal O Globo sobre a volta da inflação. Poderia ser mais discreto.

Assisti ao penúltimo debate apenas por dever de ofício para chegar à conclusão de que esta campanha presidencial de 2014 só serviu para escancarar a falência do atual sistema político-partidário do país e o esgotamento deste formato de democracia representativa, que afasta os eleitores dos eleitos e clama por uma renovação de lideranças e de ideários.

Por mais diferentes que sejam suas trajetórias de vida, ideologias e projetos para o país, os dois candidatos finalistas são igualmente autoritários, chatos, previsíveis, burocráticos no pensamento e lentos na ação mobilizadora. Que me perdoem pela franqueza, mas ambos são de dar sono e nos tiram até a vontade de votar.  Eles já estão abusando da nossa paciência.

Desse jeito, ao invés de conquistar os indecisos para desempatar o jogo, Dilma e Aécio vão acabar provocando um aumento de votos nulos, brancos e abstenções, os chamados "eleitores de ninguém" que, somados, atingiram 29% dos 143 milhões de brasileiros aptos a votar no primeiro turno. Que esperanças ainda podem nos dar Aécio, o irônico do sorriso sarcástico, e Dilma, a implacável superiora dona das verdades?

Entramos na última semana do combate eleitoral diante de duas realidades bem distintas e de desfecho imprevisível, que podem ser decisivas no domingo: de um lado, o vazamento programado na imprensa das delações premiadas sobre a Petrobras, tendo como alvo o PT de Dilma; de outro, o iminente colapso do abastecimento de água em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, que pode abalar o tucanato de Aécio.

Seja qual for o resultado final, constato que temos hoje, basicamente, dois grandes problemas: os candidatos e os partidos. Como não dá para importar candidatos nem existe democracia fora dos partidos, espero que o próximo presidente e a sociedade brasileira tenham como prioridade absoluta a reforma política. Sem isto, tudo o mais será jogar conversa fora.

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Numa disputa tão acirrada quanto esta, em que os dois candidatos chegam em empate técnico à reta final, os debates e programas eleitorais na televisão têm um papel decisivo, o derradeiro momento para conquistar os eleitores indecisos que farão a diferença. A esta altura, se eu fosse candidato me dedicaria só a estas duas agendas e cancelaria o resto.

Se depender do programa de televisão, com os dez minutos reservados para cada lado, não tenho dúvida: vai dar Aécio Neves no próximo domingo.  Cheguei a esta conclusão depois de acompanhar boa parte dos programas, desde o início da campanha oficial e, principalmente, pelo que vi na noite de sábado.

Claro que mil outros fatores podem influir na decisão do eleitor e levar Dilma Rousseff a conquistar a reeleição, mas isto com certeza não se dará por conta da propaganda do horário político na televisão. Ao contrário, a presidente pode ganhar apesar dele, pois se trata de uma das piores e menos criativas produções já levadas ao ar pelo PT, em seus mais de 30 anos de história.

Desta vez, aconteceu tudo ao contrário das três eleições anteriores em que o PT derrotou o PSDB também na televisão. Parece até que os dois partidos trocaram de marqueteiros um com o outro. Nem sei quem são os criadores do programa tucano, mas em 2014 eles levaram larga vantagem ao vender seu peixe, lembrando o ritmo, os jingles, a riqueza de imagens e o alto astral das velhas produções petistas, centradas na emoção, que brilhavam mesmo quando o partido perdia as eleições.

dilma Se depender do programa de TV, vai dar Aécio

Seria injusto, a meu ver, atribuir a responsabilidade apenas à grife do marqueteiro João Santana e sua equipe, que comandaram os programas de TV nas últimas três vitoriosas campanhas petistas, já que no governo Dilma só quem manda é Dilma, e ela não ouve ninguém.

Fico pensando de onde tiraram esta estética ufanista que lembra os cinejornais do Jean Manzon nos tempos do "Brasil Grande" dos governos militares, com sua profusão de imagens apoteóticas de grandes obras, números grandiosos, projetos e mais projetos, colocando a própria presidente como protagonista onipresente no programa, em lugar de dar mais voz aos brasileiros anônimos, contando as mil e uma histórias dos que melhoraram de vida nos governos de Lula e Dilma. Não sou especialista em marketing político, mas sei que é sempre melhor os outros falarem bem da gente do que nós mesmos ficarmos mostrando a toda hora como somos ótimos. O programa de Aécio soube fazer isto muito bem.

Além de Dilma não ser propriamente uma política carismática e ter dificuldades de expressão, fica muito chato repetir discursos e cenas ao longo de toda a campanha na televisão. Teria saído bem mais barato, e certamente seria bem mais eficiente investir em jornalismo, em reportagens de campo, surpreendendo o telespectador a cada dia ao mostrar o que mudou na vida real dos brasileiros, em lugar de martelar slogans e imagens computadorizadas de propaganda baseados unicamente nas pesquisas qualitativas que o mago Santana sempre carrega debaixo do braço para justificar suas decisões.

Agora faltam apenas seis programas, os 60 minutos finais de televisão, para que Aécio e Dilma se dediquem ao papel que qualquer candidato a qualquer cargo, em qualquer época, deve assumir: ser um vendedor de esperanças, não um pregador de realizações passadas. Se possível, fazer isso com bom humor e muita emoção.

aecio na tv Se depender do programa de TV, vai dar Aécio

A análise publicada acima sobre os programas eleitorais na televisão nada tem a ver com meu voto, que sempre foi para o PT, desde que o partido existe, como sabem todos os que me acompanham, e eu nunca escondi, pois defendo que todos os profissionais, e também seus veículos, deveriam deixar claro de que lado estão, acabando com esta hipocrisia de neutralidade, apartidarismo, independência editorial e outras  bobagens.

Como jornalista, porém, não faço campanha a favor nem contra ninguém, até porque acho que acabou esta história de "formadores de opinião". Somos hoje igualmente todos emissores e receptores de informações e opiniões, ninguém mais é dono da verdade. Tá claro?

A propósito, lembro de um episódio do início dos anos 80. Às vésperas da primeira eleição direta para governadores de Estado, em 1982, ainda durante a ditadura, o dono da Folha, meu velho e bom amigo Octavio Frias de Oliveira, solicitou aos repórteres especiais do jornal envolvidos na cobertura da campanha que escrevessem pequenos artigos assinados declarando em quem iriam votar. Não fomos nós que pedimos isso, foi ele quem sugeriu, para demonstrar, na prática, o democrático pluralismo de opiniões que levou o seu jornal a ser o maior do país, como é até hoje.

Em tempo:

Não percam o debate na TV Record

É hoje, a partir das 22 horas, o terceiro debate do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Com apresentação dos competentes amigos Adriana Araújo e Celso Freitas, a transmissão da TV Record com os bastidores do debate começa às 20h30.

Imperdível!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Até parece que começou a faltar água de um dia para outro e o racionamento ainda é uma possibilidade remota.

Quem vive em São Paulo sabe que já faz meses que o desabastecimento atinge quase todas as regiões da capital e do interior do Estado, e o racionamento está implantado na prática, sem aviso prévio, para não prejudicar a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

Garantida a vitória do tucano, na semana seguinte, a imprensa paulista abriu as comportas e o assunto ganhou as manchetes e até editoriais foram publicados com cobranças ao governo do Estado, mas já era tarde demais.

Agora, o que se discute é o prazo para que aconteça o colapso no abastecimento, se não voltar a chover logo, e muito.

Antes que algum idiota sem modéstia invada este espaço e venha de dedo em riste me acusando de estar colocando na imprensa e no governo estadual a culpa pelo calor e pela estiagem histórica, esclareço que não se trata disso, mas é evidente que Alckmin e sua mídia aliada são cúmplices ao esconder da população por tanto tempo as dimensões da catástrofe hídrica que assola o Estado mais rico do país.

Esse comportamento de avestruz me fez lembrar o que aconteceu quando uma epidemia de meningite se alastrou pelo país nos anos 70, no auge do regime militar. Por determinação da censura federal, ordens foram disparadas de Brasília para proibir toda a mídia nacional de sequer tocar no assunto. Oficialmente, a epidemia não existiu, embora muita gente tenha morrido de meningite.

Agora, ninguém teve que dar ordens, a imprensa se autocensurou por conta própria. Preservado pelos jornalões paulistas, Alckmin pôde se dedicar tranquilamente à campanha reeleitoral e só reapareceu na última semana para tentar consertar as trapalhadas da presidente da Sabesp, Dilma Pena, que garantiu o abastecimento d´água somente até meados de novembro.

agua Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Com seu jeitão Pinda de ser estadista, o governador agiu como um bombeiro ministrando curso de prevenção de incêndios numa casa que já está pegando fogo. Mandou a empresa distribuir panfletos e enviar torpedos à população, pedindo para economizar água e prometendo descontos a quem atender aos apelos. Em tucanês castiço, explicou que podem acontecer "manobras técnicas emergenciais" e "situações de eventuais desabastecimentos".

"Sabesp informa: devido às altas temperaturas e aumento do consumo, solicitamos que ECONOMIZEM ÁGUA  para mantermos o abastecimento de SP", diz o SMA enviado aos clientes da empresa. Assim podemos ficar todos mais tranquilos. Com o nível do volume do Sistema Cantareira baixando para o índice de 3,9% da sua capacidade, agora vamos usar o volume morto do volume morto para manter o abastecimento até 2015. Quer dizer, se tudo der certo, estamos ferrados.

Enquanto o Cantareira cai para seu índice mais baixo, as temperaturas não param de subir: nesta quinta-feira, São Paulo registrou 37,8°C, um recorde de calor desde o início das medições em 1943, quando eu ainda não tinha nascido.

Num papo folgazão antes de dar uma entrevista ao jornalista Carlos Monforte, nos estúdios da Globo em Brasília, sem saber que a conversa já estava sendo transmitida para todo o país, o sincero ex-ministro Rubens Ricupero deu a receita para estas situações: "No governo, é assim: o que é bom a gente mostra; o que é ruim a gente esconde". Isto vale para os governos e vale para a mídia, que se limita a responder a uma pergunta básica, como sabe qualquer repórter novato: "Isso é bom para nosso candidato ou beneficia os adversários?".

A conversa entre Ricupero e Monforte aconteceu em meio à campanha presidencial de 1994, durante o governo de Itamar Franco. Vinte anos depois, a Lei de Ricupero continua em vigor.

Agora que já sabemos o tamanho da encrenca, o eventual amigo ou amiga que me lê já pensou para onde ir se acontecer o pior?

Apesar de tudo, bom final de semana a todos.

Leia mais sobre o assunto:

Com crise hídrica em SP, estocar galões de água vira rotina para paulistanos
Para especialista, reúso de água de esgoto minimizaria crise hídrica em São Paulo
Nível do Sistema Cantareira cai para 3,8%

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okok Lamento, caros leitores, mas acabou a magia

Escreve-me o leitor Hildemar Peixoto, em comentário enviado às 17h32 desta quinta-feira:

"Lamento muito não encontrar mais nos seus textos seu traço característico de esperança, consciência solidária e engajamento crítico! Tomara que não faça logo, logo, um manifesto pelo voto nulo!"

Também lamento, caro Hildemar. Gostaria muito que a realidade me permitisse voltar a sonhar e ter esperança, mas eu não sei fingir e vender falsas ilusões só para agradar aos leitores.

Nunca vi na minha vida uma campanha eleitoral tão sem graça como esta de 2014, tão desmobilizadora dos anseios populares, com candidatos tão fracos e discursos tão ocos, um baixo nível nos debates que está chegando ao nível do res do chão, só faltando os dois finalistas do segundo turno saírem no tapa e furarem o olho um do outro.

Resultado disso é que a atual campanha se limita à divulgação alucinada de pesquisas, aos debates que viraram combates e à guerra suja na internet, cada vez mais ensandecida, deixando a maioria do povo indiferente, só assistindo a tudo bestificado, como o historiador José Murilo de Carvalho escreveu sobre o dia da Proclamação da República.

Quase não se vê sinais de campanha nas ruas, não há alegria nem registros de grandes comícios, nada que lembre as grandes festas democráticas que marcaram as eleições brasileiras desde a volta das diretas, em 1989.

Sei que tudo mudou neste período, das relações humanas às relações políticas, e não quero ser saudosista, o tempo não volta. Apenas registro o que sinto, não sei escrever de outro jeito.

Por isso, pensei bem e decidi não escrever nada sobre o debate presidencial desta quinta-feira no SBT. Em respeito aos leitores e às suas famílias que acompanham este Balaio, não reproduzirei aqui o que foi dito na televisão, ao vivo, pelos dois candidatos. Foi um espetáculo deprimente.

Se for verdade metade do que um candidato falou do outro, em qualquer circunstância estaremos mal servidos, vamos ser governados por gente que não presta, que não inspira a menor confiança. Claro que Dilma e Aécio são pessoas e têm projetos de país bem diferentes, e só nos resta escolher um deles, mas não vejo nenhum entusiasmo dos eleitores em ir às urnas, a não ser os que são movidos pelo ódio contra o adversário, não por virtudes do seu candidato.

Lamento, caros leitores, ter que dizer isso, mas acabou a magia, como tem repetido sempre nos últimos dias meu bom amigo Ruy Brisolla, jovem produtor de cinema e parceiro de boteco. Em algum momento, perdemos as referências, não temos mais novas lideranças em nenhum setor da vida nacional, e só restou este melancólico vale tudo, enquanto a água não acaba.

É triste, eu sei, mas sinto assim.

 

 

 

 

 

 

 

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Mapa Brasil Eleições 2014 vão deixar um país dividido

"A apenas 76 dias da abertura das urnas e 24 do início do horário eleitoral na televisão, Dilma Rousseff continua liderando as pesquisas, mas a presidente me parece cada vez mais sozinha na estrada, com a campanha à reeleição mostrando rachaduras no governo, no partido e na base aliada".

Assim começava o texto com o título "Dilma sozinha na estrada; Aécio vira vidraça", publicado aqui no Balaio no já longínquo dia 21 de julho, antes da morte de Eduardo Campos, e de todas as reviravoltas da campanha eleitoral, na mesma semana em que a Folha furou a barreira de proteção ao tucano e publicou a história do aeroporto construído com dinheiro público nas terras de titio pelo ex-governador de Minas Gerais.

Mais adiante, constatei no mesmo post: "A solidão de Dilma fica mais patente quando se nota que raros são os que saem em defesa das políticas do governo, mesmo entre seus ministros. Boa parte das lideranças empresariais e sindicais que apoiaram a presidente em 2010 agora está na moita ou pularam para o outro lado, como acontece com muitos aliados do PMDB, um partido ainda de caciques regionais que procuram, em primeiro lugar, salvar a própria pele".

Agora, a apenas 10 dias das eleições do segundo turno, o que vemos? Fenômeno de resiliência política, a presidente Dilma Rousseff resiste ao isolamento e chega à reta final em empate técnico com Aécio Neves, o candidato oficial da mídia, segundo as últimas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas na noite de quarta-feira. De uma semana para outra, nada mudou, com os dois institutos mostrando rigorosamente o mesmo placar em votos válidos: 51% a 49%.

Ou seja, mesmo jogando contra tudo e contra todos, batendo de frente com o empresariado paulista, o agronegócio sucroalcooleiro, a banca nacional e também a internacional, setores do sindicalismo e a mídia familiar nativa, tudo ao mesmo tempo, Dilma continua com chances de ser reeleita.

O resultado final ainda é absolutamente imprevisível, mas uma coisa já é certa: aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar, o próximo presidente da República vai assumir um país rachado ao meio, social, geográfica e politicamente, como mostram as pesquisas e, mais do que os índices de intenção de voto, é revelado pelo mapa dos eleitores que se dividem entre Aécio e Dilma.

São dois Brasis claramente opostos que estarão em confronto no dia 26, segundo os números do Datafolha: o de Dilma se concentra no Norte e Nordeste e tem renda familiar de até dois salários mínimos; o de Aécio lidera nas três outras regiões (centro-oeste, sudeste e sul) e em todas as demais faixas de renda.

Faltam ainda três debates (SBT, hoje à tarde; Record, no domingo, e Globo, na próxima quinta), que podem desempatar este jogo, já que os apoios recebidos por Aécio, inclusive a badalada adesão de Marina, e os ataques desfechados contra Dilma por conta das delações premiadas da Petrobras, até agora, não mudaram uma vírgula nas pesquisas, que continuam sendo estranhamente divulgadas no mesmo dia, com os mesmos números, aconteça o que acontecer.

Dilma e Aécio empatam até nos tiros que dão nos próprios pés: Aécio, ao entregar antecipadamente a economia ao controle do controverso Armínio Fraga, o homem do megainvestidor americano George Soros no Brasil, e Dilma, ao anunciar a saída de Guido Mantega, mas mantê-lo agonizante no cargo.

Tem certas coisas que você pode até pensar, mas só deve anunciar após a definição das urnas, como a decisão de Dilma de criar, finalmente, o marco regulatório da mídia, em seu possível segundo mandato, o que só serviu até agora para aumentar ainda mais a ira dos poderosos meios de comunicação do Instituto Millenium contra ela.

Na verdade, é esta questão da regulação da mídia, e mais ainda a do destino a ser dado ao tesouro do pré-sal, ambos temas até aqui ignorados nos debates, que mais despertam os interesses dos investidores nacionais e estrangeiros, os grandes apostadores neste cassino eleitoral. Os destinos do país nos próximos quatro anos e nos seguintes são apenas um detalhe, o pano de fundo para animar a torcida do Fla-Flu.

Enquete: e se a água acabar?

Ficou todo mundo assustado com as previsões apocalípticas feitas nesta quarta-feira pela Sabesp de que a água em São Paulo pode acabar já em meados de novembro. E aí, o que faremos?

Ainda não tinha pensado nisso, mas se as torneiras secarem mesmo de vez, para onde fugirei?

Há tempos venho alimentando o sonho de passar o que me resta de vida no Nordeste, mais particularmente em João Pessoa, na Paraíba, mas talvez tenha que antecipar os planos.

E você, caro leitor do Balaio? Já resolveu para onde ir? Tá na hora de pensar nisso.

As suas respostas poderão ajudar outros leitores a decidirem seu rumo.

Com ou sem água, é vida que segue. 

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eleicoes Dilma ou Aécio? Que tal Boechat para presidente?

Assim que acabam os debates, começam as intermináveis discussões sobre quem ganhou. Como ainda não existe nos estúdios de televisão placar eletrônico para apontar o resultado, a exemplo dos estádios de futebol, cada um dá a vitória para o candidato pelo qual torce e em quem pretende votar. E cada um sempre vai encontrar mil argumentos para justificar a sua escolha.

Não vou entrar nessa, apesar de ter feito anotações durante o debate inteiro, registrando na velha caneta os bons e maus momentos de Aécio Neves e Dilma Rousseff, que alternaram fortes ataques com pisadas de bola. Debate só decide eleição quando um dos candidatos vai a nocaute ou ganha por uma larga vantagem de pontos, o que não aconteceu na noite de terça-feira nos estúdios da Band.

Por isso, não vou aborrecer os leitores com um texto longo, mas apenas registrar alguns momentos que me chamaram a atenção. De todos eles, o principal foi o brilhante desempenho do moderador Ricardo Boechat, o mais premiado jornalista brasileiro da atualidade, entre outros motivos porque tem bom humor, é capaz de debochar dele mesmo e não se leva tão a sério como seus principais concorrentes.

Embora não faça pose de sabichão nem de interrogador policial, como se fosse também candidato, quem se saiu melhor neste debate foi Boechat, exatamente porque ficou no seu papel de apenas passar a palavra aos candidatos, deixando todo o protagonismo para eles. Ao todo, não deve ter ocupado mais de cinco minutos ao longo dos 90 de debate.

Não sei se o caro colega Boechat daria um bom presidente da República, mas me deu vontade de votar nele. Pelo menos, o Brasil iria se divertir mais do que com Dilma e Aécio, dois candidatos com um ponto em comum: são muito chatos. Quando falam, parece que ligam um gravador escondido no púlpito.

Algumas observações:

* Além de bater na mesma tecla da derrota de Aécio em Minas no primeiro turno, ao longo do debate, em todos os intervalos comerciais a propaganda de Dilma repetia o mote "Aécio _ Quem conhece não vota". Ficou redundante e cansativo igual aqueles anúncios de varejo que ficam martelando nos nossos ouvidos as mesmas mensagens.

* Aécio passou a maior parte do tempo defendendo seus dois governos em Minas, como se não estivesse em disputa o futuro do Brasil. Ficou mais uma vez amarrado aos refrões sobre desmandos na Petrobras e a corrupção no governo petista.

* Dilma, mais uma vez, se confundiu com tantos números e projetos que apresentava, desfiando milhares disso, milhões daquilo, bilhões disso outro, o que, convenhamos, não é muito conveniente para fazer a cabeça de quem passou o dia trabalhando e precisa acordar cedo no dia seguinte.

* Os dois falaram mais do "futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga", como se a vitória de Aécio já fosse certa, e se esqueceram do atual, Guido Mantega, um ex-ministro em exercício que já foi limado do cargo por Dilma.

* O tucano falou muito mais de Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente sempre escondido nas campanhas presidenciais de José Serra, do que Dilma citou Lula, desta vez relegado a um pé de página no debate.

* Como não poderia deixar de ser, ambos também falaram de educação, saúde, segurança e mobilidade urbana, o de sempre, mas os pontos altos do debate acabaram acontecendo quando começou a troca de insultos entre eles, embora tivessem prometido um "debate de alto nível" antes de Boechat dar início ao combate.

* "A senhora está sendo leviana!", disparou Aécio, mirando nos olhos de Dilma, quando a presidente levantou a história do aeroporto público construído nas terras do titio, mas ela só foi retrucar na mesma moeda no bloco seguinte: "Leviano é o senhor!". Um acusou o outro várias vezes de leviano e de mentiroso, mas acabou ficando tudo por isso mesmo. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

 

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Logos Quem está querendo enganar quem com estas pesquisas?

Tinha prometido a mim mesmo que procuraria não basear em pesquisas meus comentários neste segundo turno da disputa presidencial, até porque elas se mostraram pouco confiáveis na primeira rodada. Aquela história toda de margens de erro e nível de confiança de 95% virou folclore e motivo de piadas.

Só não dá para ignorar as disparidades mostradas pelos números dos diferentes institutos nestes primeiros dez dias da fase decisiva da campanha, o que me leva a perguntar: são os eleitores que decidiram desmoralizar as pesquisas ou são as pesquisas que resolveram tirar uma onda da nossa cara?

Porque não dá para levar a sério o que está acontecendo. Um dia, o instituto chamado Sensus anuncia que Aécio Neves já tem 17 pontos de vantagem sobre Dilma Rousseff _ ou seja, a eleição está praticamente decidida. Dois dias depois, outro instituto, o Vox Populi, informa que a diferença é de apenas 2 pontos, mas a favor de Dilma. Como é possível?

Ambos os institutos, deve ser por acaso, são mineiros, mas isto não explica nada. Digamos que ambos sejam honestíssimos, competentes, totalmente independentes. O Sensus trabalha para a revista semanal IstoÉ, que apoia abertamente Aécio; o Vox Populi foi contratado pela Carta Capital, que já declarou voto em Dilma. Em comum, apenas por curiosidade, as duas revistas foram criadas e dirigidas por Mino Carta, em épocas bem distintas, o que também não ajuda a entender esta diferença de 19 pontos entre uma pesquisa e outra no intervalo de dois dias.

Mais intrigante ainda foi o que aconteceu na semana passada com o Ibope e o Datafolha, os dois principais institutos, que há 30 anos disputam a liderança do mercado pesquiseiro. Pela primeira vez, que eu me recorde, ambos divulgaram um empate técnico entre Dilma e Aécio, com números rigorosamente iguais.

No primeiro turno, tanto Ibope como Datafolha erraram feio tanto na campanha presidencial como nas disputas estaduais. Agora, parece que até desistiram de competir entre si. Dá para acreditar que os dois institutos entrevistaram as mesmas pessoas, no mesmo horário, nas mesmas regiões do país, para chegar a resultados idênticos? Será que não houve nenhum votinho diferente, para mais ou para menos?

Em vez de nos ajudar a entender um pouco o que se passa nesta campanha presidencial, de tantas ondas e reviravoltas, estes institutos todos só estão confundindo ainda mais as nossas cabeças e deixando pulgas atrás das orelhas.

Por isso, acho melhor mesmo seguir a minha intuição, que na primeira semana indicou uma agenda positiva para Aécio e negativa para Dilma, apontando a vantagem do tucano nos primeiros dias do segundo turno, como escrevi aqui antes da divulgação das primeiras pesquisas.

Agora, já não sei de mais nada, e é melhor fazer como aqueles velhos comentaristas esportivos, que não queriam se comprometer: pode ganhar Aécio, mas também pode ganhar Dilma e, se nenhum dos dois vencer, vai dar empate. Sim, pelo que já aconteceu de imprevisível e imponderável nesta campanha, não é impossível que os dois cheguem com o mesmo número de votos ao final da disputa. Seria mais difícil do que ganhar sozinho uma bolada da mega-sena, mas eu não duvido de mais nada.

E aí, como fazer para desempatar?

 

 

 

 

 

 

 

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aeroporto guarulhos hg 20110420 Sociedade bipolar é revelada pela campanha eleitoral

Na cacofonia provocada durante a campanha eleitoral pelas conversas de motoristas de táxi misturadas ao som das análises do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, revela-se também como nossa sociedade é bipolar, ao defender uma coisa e praticar exatamente o seu oposto.

Quem percebeu isso foi minha filha Mariana Kotscho, também veterana jornalista, que publicou um texto sobre o assunto em seu animado Facebook.

Reproduzo abaixo o que escreveu Mariana:

"Tem gente que reclama da criminalidade, mas compra drogas e assim alimenta o crime...

Tem gente que reclama da falta de água mas continua lavando a calçada com mangueira...

Tem gente que reclama da corrupção, mas não perde a oportunidade de comprar a carteira de motorista...

Tem gente que não trabalha, vive de renda, de herança, e diz que o bolsa família é que sustenta vagabundo...

Tem gente que fala em respeito, mas não perde a oportunidade de agredir o outro ou fazer piada racista...

Tem gente que diz que a vida dela tá péssima, mas mora em casa própria, frequenta as melhores escolas e os melhores hospitais e viaja pro exterior pelo menos duas vezes por ano...

E tem gente que em rede social fala que ama o povo nordestino, que somos todos brasileiros e, em grupos privados de whatsapp, manda um monte de vídeo acabando com o nordeste...

Tem gente que faz doação pra ajudar famílias pobres, mas se incomoda demais quando tem que se sentar ao lado delas no avião...

Ou seja, tem todo tipo de gente por aí...

E você, tem mais algum exemplo da bipolaridade da nossa sociedade?"

Volto eu.  Desde pequena, Mariana me surpreende e comove com o que fala e escreve, principalmente por seu agudo senso de justiça. Digo sempre que é uma prova da evolução da espécie... Também conheço um montão de gente desta sociedade bipolar, mas nunca tinha me dado conta da dimensão desta doença, que se alastra pelo país.

É isso que explica porque, aqui em São Paulo, a maioria dos eleitores quer não apenas derrotar Dilma e o PT nas urnas, mas também degolar a presidente e, se possível, acabar com o seu partido.

Quer dizer, a sociedade bipolar quer é "acabar com esta raça", como já dizia o grande democrata Jorge Bornhausen, aliado de Marina Silva e, agora, também de Aécio Neves.

Embora nesse meio seja comum a prática de sonegar impostos, há uma justificativa: "Não vou dar meu dinheiro para o governo alimentar estes vagabundos do Bolsa Família", cansei de ouvir nos últimos agitados dias da campanha eleitoral.

Contribui muito para isso também a revolta das madames com os direitos conquistados pelos empregados domésticos. Reclamam que ficou difícil arrumar empregadas e, quando conseguem, elas pedem mil coisas, além do salário mínimo. A criadagem agora exige um monte de direitos, até o pagamento de horas extras,  imaginem só...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Inhotim e13987420202111 Três dias fora do ar entre o sonho e a realidade

Conforme o combinado (ver post anterior "Eleição agora está mais para Aécio do que para Dilma", publicado antes da divulgação das pesquisas), cá estou de volta à lida nesta ensolarada manhã de domingo em São Paulo. Quando acordo, a cidade ainda dorme, em silêncio, o que é coisa muito rara por aqui. Melhor assim.

Pelos comentários que li, alguns leitores ainda não entenderam, embora o Balaio já esteja há seis anos no ar, que este é um blog jornalístico, que tem opinião própria, mas não briga com os fatos. As coisas são como são, não como gostaria que fossem.

Todos sabem que sou são-paulino, como confesso no meu perfil publicado aqui ao lado. Se o time está bem, digo que está bem, o elogio; se está mal, sou obrigado a criticá-lo e a escrever que está mal. Gostaria que o São Paulo fosse campeão sempre, mas este ano tenho que reconhecer: o favorito disparado para ganhar o título é o Cruzeiro, jogando um futebol muito melhor do que o nosso. Escrever o contrário não influiria no resultado.

Dito isso, vamos voltar aonde nossa conversa parou na quinta-feira cedo, quando viajei para Minas Gerais e imergi num outro mundo, trocando a política pela cultura. Sem levar celular nem laptop, sem ver televisão nem ouvir rádio, e ficar bem longe de jornais e revistas, passei três dias flanando, vendo e falando de outras coisas, conversando com pessoas que não conhecia, todas de bem com a vida, sem pressa e sem compromisso.

Também não levei nem caderno e caneta para fazer anotações, como faço em todas as viagens, a passeio ou a serviço, muito menos gravador, utensílio que não costumo usar. Queria só ver, ouvir e sentir. Fiz muito bem, pois é um choque tão grande conhecer de perto o museu a céu aberto do Instituto Inhotim, espalhado por um fantástico jardim botânico de 110 hectares, a 55 quilômetros de Belo Horizonte, que leva algum tempo para a gente absorver e entender a dimensão do que é aquilo.

Talvez escreva uma reportagem mais adiante para a revista Brasileiros, pois este é um assunto tão grande que não cabe no blog. Por hoje, queria só compartilhar com vocês o sentimento de paz e liberdade que Inhotim nos dá, reunindo incríveis obras de arte de vanguarda, cultura popular, música brasileira da melhor qualidade, projetos educacionais e mata nativa preservada, tudo num só lugar.

Não tem nada igual no Brasil e, ao que eu saiba, no mundo. Tudo é pensado e cuidado para unir num só cenário a fantasia com a vida real. Para tentar explicar do que se trata, o Instituto Inhotim e seus patrocinadores já convidaram para conhecer o museu um monte de jornalistas, escritores, poetas, compositores e outros seres inúteis, e todos deram depoimentos apaixonados sobre este mundo mágico. É só procurar no Google.

Acho melhor vocês irem lá para ver com os próprios olhos o que eu vi, já que me sinto incapaz de descrever a dimensão do que é aquilo. Ou, então, vão ter que esperar pela publicação do livro sobre os dez anos de Inhotim, que foi entregue aos cuidados de um grande artista das letras, o Humberto Werneck.

Andando de carrinho elétrico por suas alamedas, fiquei me perguntando como pode tanta riqueza humana e cultural brotar no meio do nada, em tão pouco tempo, numa região pobre do interior mineiro, sem nenhuma interferência ou ajuda do poder público.

Com sua cabeleira branca e esvoaçante, que faz lembrar a figura do cantor Osvaldo Montenegro, em meio ao almoço, apareceu na minha mesa a resposta ao vivo: o empresário Bernardo Paz, 61 anos, ex-dono de mineradora, pai de seis filhos, que já vai logo contando toda a história do lugar, sem a necessidade de lhe fazer perguntas, com o entusiasmo típico de quem é apaixonado pelo que faz e tem o maior orgulho, com toda razão, pelo resultado da obra.

Como não tomei nota de nada, só me lembro de uma frase. "Eu poderia passar o resto da minha vida em Paris sem fazer nada porque o futuro da minha família está garantido. Mas não conseguiria, porque agora tenho um compromisso com Inhotim. Muita gente acha que só fiz esta obra porque sou rico, mas não é isso. Eu fiz porque sou um louco".

De fato, tem muitos ricos no Brasil, tem até demais, com dinheiro demais, que nunca pensaram em investir suas fortunas em cultura, sem esperar receber nada em troca, como é comum com os mecenas das artes que proliferam nos países civilizados de outras partes do mundo. Loucos, como sabemos, também não faltam por aqui, mas eles preferem se dedicar a outros ramos mais rentáveis, como a política, por exemplo. O desafio é juntar a fome com a vontade de comer.

Bernardo Paz, um maluco rico e genial, conseguiu. Só o fato de Inhotim despertar em cada visitante a esperança de um futuro melhor para nossos filhos, provar que sonhar um outro mundo é possível, e ver a alegria das crianças que por lá circulam com suas professoras, já vale a viagem.

E me dá uma tristeza danada, porém, uma enorme preguiça, quando volto à realidade, e começo a ler os jornais no avião da viagem de volta de Belo Horizonte para São Paulo, no fim da tarde de sábado. Constato que não perdi nada e também não fiz a menor falta. Continuava tudo absoluta e mediocremente igual, a mesma baixaria, com um lado mostrando os podres do outro, neste melancólico Fla-Flu eleitoral, cada vez mais violento e insano. De qualquer forma, faz bem à saúde dar um tempo nesta guerra em que todos só temos a perder, ganhe quem ganhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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foto 2 Eleição agora está mais para Aécio do que para Dilma

Em jogo disputadíssimo, o time que estava ganhando por 1 a 0 toma um gol no último minuto, e a decisão vai para a prorrogação, que já ninguém esperava. Com todo o gás, reanimado pela nova chance, o time que marcou no finalzinho vai para cima do adversário, que sentiu o baque. Em poucos minutos, faz mais três gols e leva a taça da Liga dos Campeões da Europa.

Isto aconteceu em maio deste ano, na final disputada entre dois grandes times espanhóis, em que o Real Madri acabou goleando o Atlético de Madri por 4 a 1 na prorrogação, quando o adversário já estava botando a mão na taça no tempo normal de jogo.

E é mais ou menos isso que se está vendo agora nos três primeiros dias de campanha do segundo turno da eleição presidencial. Carta fora do baralho a duas semanas da eleição, abandonado até por seus companheiros e aliados, o tucano Aécio Neves saiu do terceiro lugar, atropelou Marina Silva e disparou na reta final, levando a disputa com a petista Dilma Rousseff, candidata à reeleição, para um imprevisível segundo turno.

Agora, mudou tudo. Basta ver a cara dos dois finalistas. Dilma parece cansada, pesada, rouca, com um discurso burocrático em que vai chutando a esmo. Do outro lado, dá a impressão de que Aécio rejuvenesceu dez anos, está sempre sorridente, saltitante, falante, animado, quase eufórico.

Não é para menos, já que nas primeiras horas após o anúncio do resultado do primeiro turno no domingo, a campanha só trouxe boas notícias para Aécio e muito ruins para Dilma. Não estou prevendo nenhuma goleada _, por favor, não me entendam mal _, mas o jogo já esteve melhor para a presidente, como comentaria o Galvão Bueno.

Vamos aos principais fatos desta quarta-feira.

Do lado de Dilma, a inflação subiu e a previsão de crescimento do PIB caiu mais uma vez; aliados do PT são flagrados pela Polícia Federal com malas de dinheiro suspeito em Brasília; os dois homens-bomba do esquema denunciado na Petrobras depõem na Justiça Federal e produzem novos vazamentos na imprensa contra aliados do governo, e o presidente do partido, Rui Falcão, faz o favor de lançar agora a candidatura presidencial de Lula para 2018.  Precisa mais?

Já pelas bandas tucanas, só alegria: o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mandou arquivar a investigação criminal contra Aécio Neves ligada ao aeroporto construído em terras da sua família com recursos públicos; PSB e uma penca de nanicos anunciam apoio à sua candidatura, e o partido parece mais unido do que nunca, até com José Serra e outros tucanos paulistas participando ativamente da campanha, no embalo da onda antipetista criada no país, principalmente em São Paulo.

Para completar, além dos oito partidos que já a apoiavam no primeiro turno, nenhum outro aderiu até agora a Dilma, enquanto o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, um gênio, faz declarações desastrosas sobre o aumento do custo de vida, mandando o povo comer ovo e frango em lugar de carne, que está muito cara. Justo agora que o povão se acostumou a comer bife todo dia... Que maravilha!, completaria o Milton Leite. Assim Dilma nem precisa de adversários.

Viajo daqui a pouco para Minas Gerais, onde vou conhecer o museu a céu aberto de Inhotim, que todo mundo diz ser uma beleza. Por isso, escrevo antes de Marina Silva anunciar a sua escolha de Sofia para o segundo turno, e da divulgação das primeiras pesquisas Ibope e Datafolha, previstas para o começo da noite desta quinta-feira. Já saíram alguns números divulgados por institutos menores favorecendo Aécio, mas não quero me deixar guiar pelas pesquisas, que exageraram um pouco nas margens de erro no primeiro turno.

Melhor é seguir a intuição da gente, sentir o clima, conversar com as pessoas e descobrir para que lado o vento está batendo. Neste momento, está batendo a favor do candidato tucano _ fato inédito na abertura do segundo turno nas últimas quatro eleições presidenciais disputadas entre PT e PSDB.

Vida que segue.

Em tempo: não deixem de ler, na área de comentários, a análise enviada às 2h15 de hoje pelo leitor Robert Silva, professor de Filosofia da rede pública.  Vale a pena.

Como não vou nem levar meu laptop na viagem, só voltarei a liberar comentários e atualizar o blog na noite de sábado ou na manhã de domingo. Até a volta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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