9cfdeojot7 1cow7d56yn file Contra tudo e contra todos, Dilma resiste

Foi uma atrás da outra: vai faltar energia, a Copa vai ser um vexame, a base aliada vai debandar, a CPI da Petrobras vai ser um escândalo, a inflação vai estourar, a economia está indo para o brejo, Dilma vai despencar. Só notícias negativas anteciparam cada nova pesquisa, mas os números teimam em não confirmar as previsões catastróficas dos "analistas independentes" e especialistas em geral.

Desde o começo do ano, é sempre a mesma história e, no entanto, qualquer que seja a desgraça, Dilma continua lá firme no mesmo lugar, enquanto seus concorrentes ficam praticamente empacados nas pesquisas. É um fenômeno de resiliência eleitoral que eu mesmo não consigo entender e muito menos explicar.

Afinal, Dilma Rousseff luta contra tudo e contra todos ao mesmo tempo, com a maior parte do empresariado, do Congresso e da mídia, e até uma parte do PT, fazendo o possível para criar obstáculos e impedir que a presidente se reeleja, pouco podendo contar com a ajuda dos candidatos do partido aos governos estaduais.

A nova pesquisa presidencial do Ibope, divulgada na noite de quinta-feira, confirmou o que falei ao Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News. Nem o aeroporto público-privado de Cláudio, construído nas terras da família quando Aécio Neves era governador de Minas, nem a denúncia sobre a "farsa da CPI da Petrobras", ressuscitada para atacar Dilma Rousseff, alterariam dramaticamente os números desta semana.

Em relação a julho, como acontece desde abril, tudo ficou dentro das margens de erro: Dilma permaneceu com os mesmos 38%, Aécio foi de 22% para 23% e Eduardo Campos passou de 8% para 9%. O índice de Dilma é igual à soma de todos os seus adversários, o que ainda permite prever uma decisão no primeiro turno (faltaria apenas um voto), até porque a presidente tem um latifúndio de tempo na propaganda eleitoral. .

Denúncias, por mais bombásticas que sejam, não afetam o humor dos eleitores como em outros tempos quando a mídia hegemônica construía e destruía candidaturas conforme seus interesses. O destino de Dilma continua dependendo dos rumos da economia, que, a continuar como está, ainda pode levar a eleição ao segundo turno. Neste caso, a disputa seria bastante acirrada entre o PT e o candidato anti-PT —  ao que tudo indica, o tucano Aécio Neves. A dupla Eduardo-Marina até agora não emplacou.

A aprovação do governo Dilma subiu três pontos de uma pesquisa para outra, de 44% para 47%, renovando as chances de Dilma garantir a reeleição num turno só. A desaprovação caiu um ponto, de 505 para 49%. E, a não ser que aconteça alguma catástrofe ou um grave fato novo na economia, tudo deverá continuar mais ou menos como está até o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, no dia 19 de agosto.

Convido os caros leitores do Balaio a me ajudarem a entender este fenômeno da resistência de Dilma Rousseff num clima hostil a ela: como explicar?

De vez em quando, a gente acerta. Vida que segue.

 

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poluição Está difícil até de respirar neste deserto paulista

Em São Paulo, o que está ruim sempre pode ficar pior, tornando a vida mais insuportável na maior cidade do país. Agora, se já estava faltando água em muitas casas, bairros e cidades do Estado, ficou difícil até de respirar neste clima de deserto que prevê para esta quinta-feira o dia mais seco do ano.

Não é exagero o que estou dizendo: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alerta que a umidade relativa do ar pode cair aos 10%. Para se ter uma ideia do que isso representa, níveis de umidade abaixo de 12% levam ao estado de emergência, segundo os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS).

A poluição em São Paulo nos últimos dias pode ser vista a olho nu, dá para se pegar com a mão, nem é preciso fazer muitas medições. Basta abrir a janela e respirar fundo para começar a tossir, sentir a garganta seca e os olhos ardendo. "Com isso, dentro de casa, as pessoas devem manter a janela fechada e cuidar da hidratação", recomenda o pneumologista Pedro Genta, do Hospital Beneficência Portuguesa, em entrevista ao repórter Fabrício Lobel, da "Folha". E quem precisa sair à rua para trabalhar?  Está difícil. Crianças e idosos, como eu, sofrem mais.

O médico explica que o clima seco torna mais frequentes as crises de doenças respiratórias, como asma, enfisemas e bronquite. Aí chegamos a outro gargalo: se, em tempos normais, os postos de saúde e hospitais já não dão conta de atender a população, no momento em que São Paulo se equipara ao Atacama, no Chile, considerado como o deserto mais seco do mundo, que ontem marcou 12% de umidade relativa do ar, quem é que vai cuidar das vítimas da poluição?

A capacidade dos reservatórios do Sistema Cantareira já está abaixo dos 15%, com volume morto e tudo. Estamos há tempos tomando lama tratada e nada indica que a situação possa melhorar tão cedo. Em compensação, a Sabesp, empresa controlada pelo governo do Estado, que deveria ser responsável por garantir o abastecimento de água, distribuiu no ano passado quase R$ 2 bilhões em dividendos aos seus acionistas, e investiu pesado em propaganda, como se pudéssemos escolher o fornecedor de água para as nossas torneiras.

Como não tenho ações da Sabesp, só me resta sonhar em um dia poder morar nalguma praia do nordeste e ficar lá tomando água de coco, ouvindo de longe as notícias assustadoras do Sul Maravilha, o paraíso que antigamente fazia o povo da região querer vir para cá. Está tudo virando de cabeça para o ar, e a gente só assistindo... Pois é, vai ficando nais difícil até de respirar neste deserto de homens e ideias chamado São Paulo, pobre São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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petrobras A farsa da CPI: por que oposição foge das perguntas?

Um detalhe que me intriga nesta denúncia sobre a "farsa da CPI" feita pela revista "Veja", segundo a qual perguntas e respostas teriam sido combinadas entre parlamentares governistas e funcionários da Petrobras interrogados na Comissão Mista, e logo transformada no novo escândalo da campanha eleitoral: por que, então, deputados e senadores da oposição, que tanto batalharam para investigar a maior empresa do país, não levantaram as questões que julgam necessárias?

Se a base aliada promoveu um jogo de cartas marcadas, como sempre acontece em qualquer CPI do mundo onde o governo tem maioria no Congresso, admitindo-se que sejam verdadeiras todas as revelações feitas pela revista oposicionista, bastaria que os parlamentares liderados pelo PSDB e DEM comparecessem às sessões para provar que os diretores da Petrobras estavam mentindo, apresentando provas de que eles sabiam estar causando grandes prejuízos à empresa no episódio da compra da Refinaria de Pasadena, e apontando os responsáveis.

Ninguém poderia imaginar que eles também aliviassem a barra dos depoentes e, assim, o país ficaria sabendo o que realmente aconteceu. Por que eles fugiram das perguntas e deixaram o palco livre para os governistas montarem a "farsa da CPI"? Agora, não adianta alegar que os governistas estavam em ampla maioria nas comissões criadas na Câmara e no Senado. Isto eles já sabiam bem antes da instalação da CPI mista. E ninguém poderia impedir que fizessem suas perguntas.

Em primeiro lugar, respondo, porque uns e outros estavam mais preocupados com a Copa no Brasil; depois, criaram um "recesso branco" para cuidar das suas campanhas, do qual ainda não voltaram, e provavelmente não o farão antes das eleições, não dando quórum para que a Comissão Mista pudesse se reunir. O fato é que estes parlamentares e candidatos da oposição, que agora aparecem injuriados sapateando na mídia, ameaçando ir à Justiça, demonstraram este tempo todo foi muita vagabundagem e pouco interesse em se preparar para os interrogatórios, como muito bem constata Jânio de Freitas, em sua coluna na "Folha" desta terça-feira, sob o título "O banal faz escândalo".

"Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio [um dos coordenadores da campanha do presidenciável tucano Aécio Neves, acrescento]".

E conclui Jânio de Freitas, um dos meus mestres no jornalismo: "Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral".

Tudo, na verdade, está virando "pasto eleitoral", ou alguém acredita que a verdadeira preocupação do PSDB e do DEM é zelar pela boa administração da Petrobras, que esteve sob o comando deles por oito anos?

 

 

 

 

 

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foto 1 Mal começa a campanha e já vão para o tapetão

Não tem jeito. Mal começou oficialmente a campanha eleitoral, ainda sem qualquer debate político sobre planos de governo, e os partidos dos dois principais candidatos a presidente da República, Dilma Rousseff, do PT, e o tucano Aécio Neves, já anunciaram que vão à Justiça denunciar um ao outro. O roteiro é o mesmo de sempre: a imprensa faz uma denúncia e, imediatamente, PT e PSDB correm para o tapetão na tentativa de abalar ou inviabilizar o adversário.

A campanha presidencial, desta forma, vai rolando com denúncias e pesquisas eleitorais (o próximo Ibope deve sair já na quinta-feira), distante dos eleitores que, até agora, não mostraram o menor interesse pela disputa que decide os destinos do país para os próximos quatro anos.

Após participar nesta segunda-feira da abertura do 13º Congresso Brasileiro do Agronegócio, Aécio Neves qualificou de "extremamente grave" denúncia feita pela revista "Veja" sobre o que chamou de "farsa na CPI da Petrobras". O candidato defendeu uma investigação "a fundo" e anunciou que ainda na tarde de hoje o PSDB anunciará que "medidas judiciais pretende tomar".

Já no final de semana, o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, candidato a vice, havia antecipado que o partido estava estudando o encaminhamento de representações ao Ministério Público e ao Senado, solicitando a apuração dos fatos, por envolver servidores do Congresso Nacional e funcionários do Palácio do Planalto. O PSDB também quer saber se a presidente Dilma Rousseff "tinha conhecimento do esquema".

"Acho que o PSDB faz as representações que quiser fazer em Brasília. É uma questão que deve ser respondida pelo Congresso", retrucou a presidente Dilma Rousseff, ao ser indagada sobre a denúncia por jornalistas, durante visita a uma unidade de saúde na periferia de Guarulhos, em São Paulo.

A guerra eleitoral na Justiça começou na semana passada depois que a "Folha" denunciou a construção de um aeroporto com dinheiro do governo de Minas em terras da sua família durante o segundo mandato de Aécio Neves como governador. O PT e o comando da campanha de Dilma decidiram levar o caso à Justiça e pedir investigações sobre a obra ao Ministério Público Federal.

O contra-ataque veio rápido com a reportagem da revista publicada no último fim de semana, que mostra um jogo de cartas marcadas na CPI da Petrobras, depois de Aécio passar vários dias se explicando sobre a construção do aeroporto, até admitir que o utilizou algumas vezes, embora ainda não tenha sido homologado pela ANAC.

E é neste fogo cruzado de denúncias e pedidos de investigações que petistas e tucanos, em lugar de apresentar propostas para melhorar o país, querem provar que os adversários foram piores para o Brasil. Também é uma forma de ambos ocuparem o espaço com noticiário negativo sobre o principal oponente, deixando fora do jogo Eduardo Campos, do PSB,  o candidato da terceira via que ficou empacado nas pesquisas. Quem sabe este cenário muda, ou não, quando começar a propaganda eleitoral no rádio e TV daqui a duas semanas. Pelo que se viu até aqui dos dois lados que ocupam o poder central há duas décadas, o nosso futuro não é nada animador.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 A tendência do jornalismo é o nicho de mercado

O jornalista Glenn Greenwald

"Não há jornalistas sem opinião. A questão é se você as expõe ou finge que não as tem e engana seus leitores".

Também acho. O autor da frase é o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que se tornou uma celebridade no nosso meio, ao revelar os documentos secretos vazados pelo ex-agente da NSA Edward Snowden.

Em debate sobre os rumos do jornalismo no penúltimo dia da Flip, em Paraty, o autor de "Sem lugar para se esconder" tocou num ponto em que há tempos venho pensando: a tendência cada vez maior da criação de nichos de mercado de opinião na imprensa, de que é exemplo o Fla-Flu a que assistimos nesta campanha eleitoral. Melhor até seria falar em reserva de mercado.

O problema, para mim, é quando o jornalista deixa de lado a informação e ocupa seus espaços no papel ou na tela com panfletos político-partidários, sem nenhum compromisso com os fatos e a verdade, para defender um ou outro candidato, um ou outro governo, um ou outro país em guerra, um ou outro time de futebol. São os que torturam os números de pesquisas, distorcem declarações entre aspas, recusam-se a admitir erros.

Você já sabe o que vai ler quando vê o nome do autor, não importam o assunto, a época, o lugar. Num jornalismo como o brasileiro, em que os veículos da nova ou velha mídia são cada vez mais indiferenciados, seguidores de um pensamento único no noticiário e nos editoriais, a concorrência feroz agora se dá entre colunistas e/ou blogueiros que disputam estes nichos de mercado.

Quanto mais radicais e agressivos, trocando argumentos por ofensas, numa campanha permanente a favor das suas "causas", mais eles ganham audiência e leitores, e criam verdadeiras seitas de seguidores fiéis. Com isso, os grandes jornais têm hoje, em suas versões impressas ou on-line, mais colunas do que a Grécia Antiga e sobra pouco espaço para as reportagens, que em outros tempos faziam a diferença entre um veículo e outro.

Sempre defendi, e pratiquei isso, que jornalista deve ter lado, ou seja, deixar claro o que pensa, mas não precisa ser, necessariamente, o lado do preconceito, da mentira, da arrogância, da grosseria, da manipulação, como temos visto por toda parte.

O resultado disso é que os leitores ficam sem saber o que, afinal, está acontecendo no Brasil e no mundo. Vira e mexe a imprensa é surpreendida pelos fatos porque vive brigando com eles, até mesmo em manchetes de jornal. Se os fatos contrariam minhas teses, danem-se os fatos, devem pensar estes escribas panfletários que podem estar fazendo qualquer coisa, menos jornalismo.

Fechados em seus aquários com ar condicionado e sem contato com a realidade, conversando sempre com as mesmas fontes, que pensam como eles, têm horror a sujar os sapatos e a conversar com anônimos. São "jornalistas" que não tomam sol nem chuva, escravos de suas verdades absolutas, não admitem contestação. Quem não pensa como eles é idiota, vendido, terrorista, canalha, biltre.

Rara exceção neste cenário de quem já tem uma velha opinião formada sobre tudo e sobre todos, o veterano Clóvis Rossi, que já fez reportagens quase pelo mundo todo e participou da mesa da Flip em que estava Glenn Greenwald, lembrou uma singela lição: ir para a rua ainda é a melhor forma de se exercer o jornalismo: "É a graça da profissão. O que me atrai mais nela é a possibilidade de ser testemunha ocular da história".

Pois os jornalistas dos nichos ou da reserva de mercado já não se conformam em ser testemunhas, querem eles ser os protagonistas da história. E quem são eles? É preciso nominá-los? São tantos que não lhes darei esta colher de chá _ até porque, não precisam, posto que têm o apoio irrestrito de seus patrões, de quem se tornaram alegres porta-vozes. Multimídias, já ocupam quase todos os espaços e horários nos veículos da comunicação hegemônica, e não param de se multiplicar. Haja nichos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Atualizado às 9h10 de 9.7

Caros leitores,

Participo, no próximo sábado, dia 9, do projeto "Entrevista Aberta", junto com o publicitário Eco Moliterno, eleito profissional de criação do ano, no Caboré 2013.

O debate começa às 11 horas e vai até as 13h30. O projeto é uma iniciativa do site "Jornalirismo" (www.jornalirismo.com.br), de Guilherme Azevedo, e tem o patrocínio da WMcCANN. A entrada é franca.

Endereço: Rua Groenlândia, 808, Jardim América, quase esquina com a avenida Nove de Julho.

***

buenos Que fizeram de ti, minha Argentina querida?

A primeira vez que saí do Brasil foi no final dos anos 60 do século passado, quando já trabalhava no "Estadão" e desembarquei na Argentina, para fazer a cobertura de um torneio de futebol do qual participavam o Santos de Pelé e o Boca Juniors.

Minha estreia na noite em Buenos Aires nunca mais esqueci na vida _ aquela sensação boa de estar sozinho em outro país, que fala outra língua e tem hábitos diferentes dos nossos, sem conhecer ninguém. Fui caminhando a esmo em busca de um restaurante, descobrindo um mundo novo a cada esquina, cruzando com um desfile de gente elegante e altiva nas calçadas largas e avenidas imponentes, bares, restaurantes, cinemas, teatros, bancas de jornal, floriculturas, tudo lotado, limpo e muito iluminado, fervendo madrugada adentro.

Pensei que tinha desembarcado em alguma capital da Europa dos meus antepassados, que só conhecia de fotos e filmes. Nada que fizesse lembrar o Terceiro Mundo de mendigos jogados nas calçadas, menores abandonados nas ruas pedindo esmolas, velhos mal agasalhados nos dias frios, pessoas andando com medo nas ruas inseguras e escuras. Me senti como criança entrando pela primeira vez na Disneylândia querendo descobrir tudo ao mesmo tempo. Era um outro mundo para mim.

Nunca tinha sido um bom aluno e pouco sabia da história da Argentina _ só que era um dos países mais ricos do mundo ao final da Segunda Guerra. Voltaria lá muitas outras vezes a trabalho, cada vez que estourava mais uma crise política ou econômica, ou a passeio. Por muito tempo, Buenos Aires foi meu destino predileto.

Gostava de tudo lá: das churrascarias e das cantinas, dos vinhos, dos cafés antigos, das casas de tango, dos luminosos coloridos piscando nos imensos teatros e cinemas, gostava até dos argentinos... Era uma festa permanente, vez ou outra interrompida por quedas de presidentes, greves, quebra-quebras, falências, concordatas, ditaduras militares, tanques nas ruas, assassinatos de presos políticos e até uma guerra contra a Inglaterra, por conta das ilhas Malvinas, das quais nunca havia ouvido falar.

Tantas fizeram, que o antigo encanto foi-se perdendo. Cada vez que ia de novo a Buenos Aires, dava para ver a decadência a olho nu, nem era preciso ler as manchetes dos jornais. Cabisbaixos e já não tão bem vestidos, os argentinos pareciam cansados de tantas crises, vendo a pobreza crescer por toda parte, onde antes havia fartura, casas e prédios agora mal cuidados, parques com ar de abandono, nada que lembrasse a Argentina que conheci quando Pelé deslumbrava o mundo e calava o estádio de La Bombonera, no coração do bairro boêmio da Boca.

Que fizeram de ti, minha Argentina querida?, perguntei-me algumas vezes esta semana ao acompanhar com tristeza o noticiário sobre mais uma crise econômica, o país falido não podendo pagar suas dívidas com os tais "fundos abutres", que poderiam inspirar mais um tango choroso.

Deixo para meus colegas mais estudados e informados, como meu velho amigo Clóvis Rossi, parceiro de tantas reportagens que fizemos juntos quando ele era correspondente em Buenos Aires, encontrar as respostas para explicar este destino trágico dos argentinos. Às vezes, penso que países são como pessoas, que se conformam em seguir um destino e, com tudo para dar certo na vida, acabam dando errado.

 

 

 

 

 

 

 

 

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esse ese Um em cada três eleitores está sem candidato

Em Minas Gerais, o índice dos eleitores que pretendem votar em branco ou nulo é de 13% e o dos que ainda não escolheram candidato chega a 31%, um total de 44%. Este número é próximo da soma das intenções de voto nos dois principais candidatos, que estão tecnicamente empatados, segundo o Ibope: Fernando Pimentel, do PT, com 25%, e Pimenta da Veiga, do PSDB, que tem 21%.

O desinteresse e o desencanto dos brasileiros nesta campanha de 2014, que ainda não deu sinais de vida nas ruas do país, a apenas dois meses e cinco dias da abertura das urnas, ficam evidentes também em São Paulo e no Rio de Janeiro, mostrando um quadro preocupante nos três maiores colégios eleitorais do país, onde vive 42% da população apta a votar em outubro.

A nova pesquisa do Ibope sobre eleições estaduais, divulgada na noite de quarta-feira, mostra que, em São Paulo, o total de entrevistados que declararam votar em branco, nulo ou não sabem é de 29% e, no Rio de Janeiro, este índice atinge 33%. Ou seja, um eleitor em cada três ainda está sem candidato.

A situação parece definida em São Paulo, onde o candidato tucano Geraldo Alckmin está praticamente reeleito no primeiro turno. Alckmin aparece com 50% das intenções de voto, enquanto os demais candidatos somados alcançam apenas 21%. A surpresa negativa desta campanha é o petista Alexandre Padilha, que continua empacado em 5%, tecnicamente empatado com cinco nanicos (a margem de erro é de três pontos percentuais).

Já no Rio, como em Minas, a disputa está embolada. Anthony Garotinho, do PR, continua na frente no eleitorado fluminense, com 21%,  tecnicamente empatado com  Marcelo Crivellla, do PRB (16%), e o governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB (15%). Com a máquina do governo nas mãos, o apoio de mais de 20 partidos e um latifúndio de tempo na propaganda da televisão, dificilmente Pezão deixará de ir para o segundo turno contra um dos seus dois principais adversários. Lindberg Farias, do PT, aparece atrás, com 11%.

Os números do Ibope para os candidatos a governador nestes três Estados, antes do início do horário eleitoral, dia 19 de agosto, não são nada bons para a campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff. Pimentel, Lindberg e Padilha estão bem abaixo do patamar de 30% que os candidatos do PT costumam registrar historicamente nesta altura da campanha.

Também são preocupantes os índices desta pesquisa para o presidenciável Eduardo Campos, do PSB, que perde feio em Pernambuco, seu principal reduto eleitoral. O principal candidato da oposição Armando Monteiro Filho, do PTB, apoiado pelo PT, está com 43%, contra apenas 11% de Paulo Câmara, o nome lançado por Campos para governador.

Mais do que os números do Ibope, porém, o que mais me chamou a atenção esta semana foi o levantamento divulgado pelo TSE sobre os novos eleitores. Em relação à eleição de 2010, caiu 31% o número de jovens entre 16 e 18 anos que vão votar pela primeira vez para presidente. Depois de tanta luta para que tivéssemos de volta as eleições diretas para a presidência da República, é triste descobrir que a juventude está se interessando cada vez menos pela política e não se anima nem mesmo a tirar o título eleitoral, que não custa nada.

 

 

 

 

 

 

 

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tecnicos Felipão e este milionário futebol dos professores

No capengante futebol brasileiro, dentro e fora de campo, com clubes sempre endividados, alguns quase falidos, pedindo socorro ao governo, e estádios semidesertos, a CBF e os "professores" da bola nadam em dinheiro. Ninguém deveria se surpreender com os R$ 4,1 milhões pagos pelo generoso José Maria Marin a Felipão por ter sido mandado embora da seleção, depois do vexame na Copa do Mundo (ver mais no blog do colega Cosme Rímoli).

Felipão e o coordenador Carlos Alberto Parreira ganhavam, cada um pouco, mais de R$ 900 mil por mês. Pode parecer muito para quem vive de salário, mas estes valores estratosféricos não constituem exceção nos nossos clubes, onde os "professores" não ganham muito menos do que isso, e nenhum dos "treinadores de ponta", sempre os mesmos, há muitos anos, ganha abaixo de R$ 500 mil.

Na maioria dos casos, eles ganham mais do que as estrelas do time. Pato, o jogador mais bem pago do país, que marcou apenas três gols em 16 jogos pelo São Paulo, ganha R$ 800 mil por mês (metade do salário ainda pago pelo Corinthians, que o emprestou ao time do Morumbi).

Eles se revezam no comando dos maiores clubes do país e são os principais responsáveis pelo futebolzinho mostrado no Brasileirão, com a honrosa exceção do Cruzeiro, de Marcelo Oliveira, que não faz parte da dança dos famosos e nunca foi cogitado para treinar a seleção.

Em seu comentário de terça-feira na CBN, antes da revelação de que Felipão ganhou esta fortuna na loteria esportiva da CBF, e depois do velho "professor" gaúcho acertar a volta ao Grêmio, o amigo Juca Kfouri chamou a atenção para um fato, ao mesmo tempo pitoresco e triste: há 19 anos, Felipão já era técnico do Grêmio; Luxemburgo, que acaba de retornar à Gávea, treinava o Flamengo; Abel Braga dirigia o Internacional, onde está de novo, e Muricy Ramalho era a novidade no São Paulo.

Precisa dizer mais alguma coisa sobre as razões da mesmice modorrenta mostrada em campo neste Brasileirão, que dá sono quando o Cruzeiro não joga? Parece que o discreto Marcelo Oliveira foi o único técnico brasileiro que assistiu à Copa no Brasil e entendeu alguma coisa. É por isso, que os maiores clubes do mundo levam nossos melhores jogadores embora e ninguém se interessa em contratar os milionários "professores", que vivem num mundinho à parte.

Nem técnicos são, na verdade, quanto mais professores, mas apenas folclóricos treineiros, que ficam se esgoelando à beira do gramado, xingando o juiz e os erros dos jogadores que não seguem seus "ensinamentos". Fazem apenas cena para a torcida, como se seus gritos  fossem ouvidos e fizessem alguma diferença em campo.

Ninguém, por exemplo, é mais são-paulino, do que o Muricy. Por isso, a torcida tricolor, inclusive eu, sempre pedem a sua volta quando o time vai mal, o que não tem sido raro. E neste seu novo retorno ao Morumbi o time continua mal, apesar do elenco de grandes craques, o maior do futebol brasileiro, que tem à disposição. Pergunto: tanto ele como os demais "professores" aqui citados fizeram quantos cursos de especialização e estágios nos grandes centros de treinamento do exterior nos últimos anos? Que novas táticas e técnicas desenvolveram?

É sempre mais do mesmo, e assim a gente entende melhor porque a Alemanha na Copa meteu 7 a 1 na nossa seleção e só não fez mais porque ficou com pena dos rapazes assustados e perdidos em campo com aquela camisa amarela, que antigamente metia medo nos adversários.

 

 

 

 

 

 

 

 

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DST 1406587230 460 251 A campanha dos dois pesos e umas 19 medidas

A certa altura da sabatina, que mais parecia um interrogatório feito por quatro jornalistas de diferentes veículos, como se fossem um só, a presidente Dilma Rousseff deu uma pista de como pretende atuar nos debates eleitorais. Em 90 minutos de perguntas duras e respostas por vezes confusas, Dilma passou a primeira parte na defensiva, falando ao mesmo tempo das dificuldades econômicas do momento e das conquistas sociais do seu governo. Quase nada disse sobre as propostas e projetos para um novo mandato, que é o que o eleitor quer saber dos candidatos para definir seu voto.

A conversa seguiu em banho-maria até que foi levantado o inevitável assunto do mensalão petista. Dilma procurou ser didática e não subir o tom nas respostas, mas foi ao ataque: "Tem dois pesos e umas 19 medidas. Porque o mensalão foi investigado. Agora, o mensalão mineiro do PSDB, não foi. Quando foi o nosso caso, não pressionamos juiz, não falamos com procurador, não engavetamos o processo"

Um jornalista logo a corrigiu para lembrar que o mensalão tucano foi, sim, investigado, mas não julgado até agora (embora fosse um caso mais antigo). "E quando vai ser?...", perguntou Dilma, deixando implícita a resposta de que nunca será julgado, exatamente porque o Judiciário trabalha com dois pesos e umas 19 medidas.

O mesmo pode-se dizer também do comportamento da mídia na cobertura da campanha presidencial, em que as denúncias contra o PT e o governo nunca saem das manchetes, e os rolos mal explicados da oposição, que raríssimamente são investigados e publicados, como o do trensalão paulista, logo desaparecem do noticiário, como está acontecendo agora com o enrolado Aécioporto em Minas.

A economia dominou a maior parte da sabatina, com os jornalistas desfiando uma série de índices negativos nas últimas semanas, o que, segundo a presidente, está gerando um "pessimismo inadmissível". Dilma sabe que este será o grande desafio da sua campanha pela reeleição.

"Eu acho que o mesmo pessimismo que ocorreu com a Copa está acontecendo com a economia. E você sabe que na economia é mais grave, porque economia é feita de expectativa. Se alguém bota na cabeça que a situação está descontrolada..."

Dilma lembrou de forma indireta a manchete da "Folha", uma das organizadoras do evento, no dia da abertura da Copa: "Copa começa hoje com seleção em alta e organização em xeque". Vai ficar na história. Deu tudo ao contrário, como sabemos: a seleção foi humilhada dentro de campo e deu tudo certo na organização.

De fato, assim que acabou a Copa, revertendo as previsões catastróficas da mídia, começou mais uma campanha organizada pelo inefável Instituto Millenium para mostrar todos os dias que o país está indo à breca, com desindustrialização, inflação alta, crescimento baixo e ameaças de aumentar o desemprego, sem novos investimentos.

É o clima de baixo astral sonhado pela oposição para prejudicar a candidata do governo. Dilma estava inconformada com o episódio do bancão espanhol Santander que, na véspera, tinha distribuído uma carta a seus correntistas mais abonados, alertando-os que podem perder dinheiro se Dilma for reeleita diante da gravidade da situação econômica. Nesta hora, a Dilma velha de guerra perdeu a paciência e soltou os cachorros:

"É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política".

Conteúdo à parte, Dilma continua errando na forma, dando respostas muito longas, e assim acaba se atrapalhando, sem responder objetivamente às perguntas, como aconteceu no final, quando lhe perguntaram o motivo para guardar R$ 150 mil em espécie debaixo do colchão. É o hábito de responder ao repórter e não a quem está em casa, um defeito de comunicação que os marqueteiros presidenciais já poderiam ter corrigido.

Não tem que encarar o repórter, tem que olhar para a câmera, sabendo que por trás dela está um eleitorado ávido querendo saber o que cada candidato propõe de concreto para melhorar a vida no nosso país. Se os entrevistadores não perguntam, há que se encontrar uma forma para indtroduzir o assunto sempre que possível.

Nas três sabatinas até aqui promovidas, com Aécio, Eduardo e Dilma, falou-se muito de problemas do presente, denúncias do passado e muito pouco sobre o futuro, que deveria ser o eixo de qualquer campanha eleitoral, já que se trata sempre de uma renovação de esperanças, por maior que seja o desencanto.

Por falar nisso, alguém já viu algum sinal de campanha eleitoral nas ruas, nas casas, nos carros do nosso país? Fora as propagandas em carros de candidatos a deputado, nem dá para imaginar que vamos ter eleições daqui a apenas 65 dias.

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok1 Como funciona a PPP aérea de Aécio em Minas

Para entender o título: PPP é a sigla que designa em todo o país as Parcerias Público Privadas, investimentos conjuntos de governos e empresas em obras e serviços de interesse de toda a sociedade.

Em Minas, o ex-governador Aécio Neves inovou durante seus oito anos de mandato, criando uma PPP muito particular. No caso dos agora famosos aeródromos reformados no interior do Estado, funciona assim: o poder público entra com a grana, e os donos de jatinhos, sem gastar um tostão, recebem o conforto de uma pista próxima à porteira das suas fazendas. É um programa que pode receber a sigla JAF (Meu Jatinho, Meu Aeroporto, Minha Fazenda).

Antes que completasse uma semana a denúncia feita pela "Folha" sobre a pista de R$ 14 milhões construída pelo governo mineiro na pequena cidade de Cláudio, onde a família do presidenciável tucano possui fazendas bem próximas, surgiu a informação de que um segundo aeródromo foi asfaltado em Montezuma, município ainda menor em que Aécio tem uma empresa agropecuária.

Claro que pode ser tudo mera coincidência, atendendo a todos os requisitos legais, mas o candidato não reagiu bem à primeira pancada que tomou da imprensa na campanha presidencial, e até agora está procurando o eixo para se livrar do incômodo.

"A obra foi feita dentro dos requisitos técnicos do programa de asfaltamento e melhorias dos aeroportos", disse o senador e ex-governador de própria voz, bastante gaguejante, quando saiu a primeira denúncia. Em seguida, procurou sair de cena e deixar as explicações para seus assessores, em notas oficiais e relatórios técnicos divulgados nas redes sociais.

Mais do que a coincidência dos locais escolhidos, chamam a atenção o fato de que até hoje as duas pistas utilizadas por Aécio, parentes e amigos, são consideradas clandestinas, pois não receberam autorização da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), e o alto custo das obras.

A pista asfaltada de Cláudio, construída quando ele era governador, na fazenda do seu tio-avô, Múcio Guimarães Tolentino, ex-prefeito da cidade, tem apenas um quilômetro de extensão, modestas instalações de apoio e atendimento, e é muito pouco utilizada. Segundo Tolentino, que contesta na Justiça a indenização que o governo quer pagar pela área desapropriada, apenas dois empresários costumam usar o aeródromo, duas vezes por semana.

Não se sabe quanto eles pagam pela utilização da pista, já que ela é ilegal e não tem quem possa cobrar. Para evitar a entrada de estranhos, as chaves ficam com a família do presidenciável.

Convenhamos que se trata de uma história no mínimo estranha, para quem começou a campanha fazendo pronunciamentos em defesa da ética na vida pública e ataques aos adversários dos governos petistas. O assunto já está sumindo do noticiário da mídia familiar, mas deve voltar a partir da segunda quinzena de agosto, quando começarem os debates na televisão e os programas eleitorais dos presidenciáveis.

Até lá, quem sabe Aécio Neves encontre alguma explicação mais razoável do que a "relevância econômica" de Cláudio, que possa convencer pelo menos os colunistas e blogueiros amigos para que o defendam com mais argumentos.

Se depender da imprensa, do Poder Judiciário e do Ministério Público de Minas Gerais, no entanto, esqueçam. Não se falará mais em aeródromos do projeto JAF. Mas ficará mais fácil entender o apoio entusiasmado e nada discreto que o candidato do PSDB recebe da grande mídia e do sistema financeiro, para evitar a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Que o diga o Santander, o bancão espanhol que na semana passada abriu o jogo em ataques à política econômica do governo federal numa carta enviada aos seus clientes mais abonados, mostrando os perigos que eles correm com um possível novo mandato da presidente. E agora é o bancão que corre o risco de perder clientes pela inconfidência de um "analista" sabujo, que já teria sido demitido.

Este é o jogo pesado que está sendo jogado no momento, a pouco mais de dois meses da eleição presidencial. Só não vê quem não quer.

 

 

 

 

 

 

 

 

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