"A eleição presidencial mais parelha dos 125 anos de República deixa o país dividido entre os que produzem e pagam impostos e os beneficiários de programas sociais. O desenho esboçado no primeiro turno, com a divisão do país em dois grandes blocos, recebeu traços mais fortes: grosso modo, o Norte-Nordeste perfilado ao PT, o Sudeste-Sul-Centro/Oeste com a oposição. Fica evidente que o país que produz e paga impostos _ pesados, ressalte-se _ deseja o PT longe do Planalto, enquanto aquele Brasil cuja população se beneficia dos lautos programas sociais _ não só o Bolsa Família _ financiados pelos impostos, não quer mudanças em Brasília, por razões óbvias".

Engana-se quem atribuir a análise acima ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na mesma linha da que o ex-presidente já havia feito ao final do primeiro turno das eleições presidenciais.

Desta vez, o pensamento único dos que dividem o Brasil entre quem produz e os vagabundos que vivem de bolsas está no editorial do jornal carioca O Globo, sob o título "A Mensagem das Urnas", publicado em sua edição desta terça-feira _ de resto, é o que está na raiz das manifestações racistas e preconceituosas contra os nordestinos que invadiram as redes sociais desde que foi anunciada a vitória de Dilma Rousseff na noite de domingo.

Grosso modo, como diria o jornal, os números finais divulgados pelo TSE desmentem esta teoria. Vamos a eles.

Quem assegurou a vitória do PT foram exatamente os eleitores do Sul e Sudeste, que deram 26,6 milhões dos votos totais obtidos por Dilma, ou seja, mais de 2 milhões de votos a mais do que os obtidos por ela no Norte e Nordeste, com 24,5 milhões de votos.

Ao contrário do que afirmam o editorial de "O Globo" e dez entre dez analistas da grande mídia, isto significa que Dilma recolheu 48,8% dos seus 54,5 milhões de votos na chamada região "rica e produtiva" do Sul e Sudeste, e 45% vieram do "pobre e dependente" eleitorado do Norte e Nordeste.

Quem diz e escreve o contrário, como se fosse a verdade absoluta das coisas, é porque não conhece o Brasil e se baseia nos mapas eleitorais produzidos nas eleições americanas, em que o candidato leva todos os votos dos delegados de Estados onde venceu as eleições.

Aqui não é assim. Nos mapas publicados pela imprensa brasileira, o Rio Grande do Sul, por exemplo, onde Aécio Neves venceu, aparece em azul, mas lá Dilma conseguiu 46,47% dos votos, quer dizer, quase a metade. No Rio de Janeiro, que aparece em vermelho no mapa, aconteceu o contrário: Dilma venceu, mas Aécio teve 45,06% dos votos.

Se prestassem mais atenção nos números do TSE, editorialistas, sociólogos e analistas perceberiam que não é o país que está dividido ao meio, geográfica e socialmente, mas apenas os votos dos partidos, que se espalharam por todos os Estados, com predominância de um ou outro candidato, dando na soma final a vitória a Dilma por uma diferença de apenas 3 milhões de votos.

Assim, não se pode afirmar que quem derrotou o candidato tucano foi o Nordeste, onde o PSDB sempre foi muito fraco e o PT é hegemônico. Mais justo seria buscar as razões da derrota de Aécio em Minas Gerais, Estado por ele governado durante oito anos, que agora aparece em vermelho no mapa. Era de lá que o PSDB planejava sair com uma vantagem de três milhões de votos, exatamente o que lhe faltou para vencer as eleições. E lá Aécio acabou ficando com 548 mil votos a menos do que Dilma. "Nem na pior projeção pensamos nesse resultado, após o Aécio sair do governo com 92% de aprovação", lamentou-se Marcus Pestana, presidente do PSDB mineiro.

Não é justo, portanto, colocar a culpa nos nordestinos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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dilma ok Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

2002, 2006, 2010, 2014.

Nas últimas quatro eleições presidenciais, a velha mídia familiar brasileira fez o diabo, vendeu a alma e foi ao fundo do poço para derrotar o PT de Lula e Dilma.

Perdeu todas.

Desta vez, perdeu também a compostura, a vergonha na cara e até o senso do ridículo.

Teve até herdeiro de jornalão paulista que deu uma de black bloc e foi sem máscara à passeata pró-Aécio em São Paulo, chamada de "Revolução da Cashmere" pela revista britânica "The Economist", carregando um cartaz com ofensas à Venezuela.

Antigamente, eles eram mais discretos, mas agora perderam a modéstia, assumiram o protagonismo.

Agora, não adianta rasgar as pregas das calças nem sapatear na avenida Faria Lima. "The game is over", como eles gostam de dizer em bom inglês.

Se bem que alguns já pregam o terceiro turno e pedem abertamente o impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff, que derrotou o candidato deles, o tucano Aécio Neves, por 51,6% a 48,4%. Endoidaram de vez. E não é para menos: ao final do segundo mandato de Dilma, o PT terá completado 16 anos no poder central, um recorde na nossa história republicana.

aecio Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

Só teremos nova eleição presidencial daqui a quatro anos. Até lá, terão que esperar no banco de reservas do poder os herdeiros dos barões de imprensa e seus sabujos amestrados, inconformados com o resultado das urnas, se é que vão sobreviver aos novos tempos da mídia democratizada. Cegados pela intolerância, ainda não se deram conta de que já nem elegem nem derrubam mais presidentes. Alguns ficaram parados em 1932 ou 1964, por aí. Vivem ainda em tempos passados, dos quais o Brasil contemporâneo não tem saudades. Devo-lhes informar que o país mudou, e não é mais o mesmo dos currais midiáticos de meia dúzia de famílias, hoje abrigadas no Instituto Millenium.

Diante da gravidade dos acontecimentos nas últimas 48 horas que antecederam a votação, a partir da publicação da capa-panfleto da revista "Veja", a última "bala de prata" do arsenal de infâmias midiáticas para mudar o rumo das eleições, não dá agora para simplesmente fingir que nada houve, virar a página e tocar a bola pra frente, como se isso fosse algo natural na disputa política. Não é.

Caso convoque uma rede nacional de rádio e televisão para anunciar os rumos, as mudanças e as primeiras medidas do seu novo governo _ o que se tornou um imperativo, e deve ocorrer o mais rápido possível, para restaurar a normalidade democrática no país ameaçada pelos pittbulls da imprensa _ a presidente Dilma terá que tocar neste assunto, que ficou de fora do seu pronunciamento após a vitória de domingo: a criação de um marco regulatório das comunicações.

No seu brilhante artigo "Dilma 7 X 1 Mentira", publicado pela Folha nesta segunda-feira, o xará Ricardo Melo foi ao ponto:

"Além do combate implacável à corrupção e de uma reforma política, a tarefa de democratizar os meios de informação, sem dúvida, está na ordem do dia. Sem intenção de censurar ou calar a liberdade de opinião de quem quer que seja. Mas para dar a todos oportunidades iguais de falar o que se pensa. Resta saber qual caminho Dilma Rousseff vai trilhar".

A presidente reeleita, com a força do voto, não precisa esperar a nova posse no dia 1º de janeiro de 2015. Pode, desde já, demitir e nomear quem ela quiser, propor as reformas que o país reclama, desarmando os profetas do caos e acabando com este clima pesado que se abateu sobre o país nas últimas semanas de campanha.

Pode também, por exemplo, anunciar logo quem será seu novo ministro da Fazenda e, imediatamente, reabrir o diálogo com os empresários e investidores nacionais e estrangeiros, que jogaram tudo na vitória do candidato de oposição, especulando na Bolsa e no dólar, e precisam agora voltar à vida real, já que eles não têm o hábito de rasgar dinheiro. Queiram ou não, o Brasil continua sendo um imenso mercado potencial para quem bota fé no seu taco e acredita na vitória do trabalho contra a usura.

O povo, mais uma vez, provou que não é bobo.

Valeu a luta, Dilma. Valeu a força, Lula.

Vida que segue.

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Em tempo: URGENTE (atualizado às 18H30 de sábado, véspera da eleição)

Saíram agora há pouco, no final da tarde deste sábado, as novas e últimas pesquisas presidenciais.

Ibope: Dilma 53 X Aécio 47

Datafolha: Dilma 52 X Aécio 48

Este domingo promete fortes emoções até o final.

Acompanhe tudo na cobertura da Record News (canal 78 da NET), onde estarei, ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão, a partir das 17 horas.

***

Em tempo (atualizado ao meio dia de sábado, véspera da eleição):

acabei de ler tudo o que os outros escreveram hoje e decidi não escrever nada por não ter encontrado nenhum fato novo importante que o justifique, além dos factóides de sempre.

Faltam menos de 24 horas. Boa sorte amanhã para nós todos e viva a democracia brasileira.

Ricardo Kotscho

***

Em busca de uma razão para explicar a nova onda vermelha de Dilma e o derretimento de Aécio, na antevéspera da eleição presidencial, a velha imprensa familiar criou uma narrativa comum que, de tão fantástica, lembra a literatura de cordel: "A Peleja do PT Malvado contra o Pobre Tucano".

Dava até pena de ver experimentados profissionais se contorcendo nas cadeiras dos telejornais noturnos, visivelmente contrariados, diante das novas pesquisas divulgadas no final da tarde desta quinta-feira, que apontavam a reeleição de Dilma no domingo, por uma diferença entre 6 e 8 pontos dos votos válidos. Ver análise sobre os números do Datafolha e do Ibope neste link:

O chororô do pensamento único vinha acontecendo já há alguns dias, desde que o Datafolha e o Vox Populi mostraram Dilma na frente de Aécio, no início da semana, pela primeira vez no segundo turno, e foi chegando próximo à histeria, diante da confirmação da inversão das curvas nas novas pesquisas, abrindo a boca do jacaré.

Tudo era culpa do "PT Malvado": baixo nível, jogo sujo, má-fé, mentiras, leviandades, agressividade, terrorismo, desconstrução. Ou seja, acusa-se o adversário pelas dificuldades enfrentadas por Aécio na reta final da campanha, depois de entrar com a bola toda no segundo turno. Engraçado que falam de baixaria e violência contra o candidato deles como se não tivessem passado os últimos 12 anos batendo sem dó nem piedade em Lula, na Dilma e no PT, com ou sem razão. E como se o tucano não tivesse usado as mesmas armas.

Se procurassem as razões da derrocada na própria campanha tucana, os "istas" e "ólogos" de plantão poderiam descobrir que as entrevistas desastradas de Fernando Henrique Cardoso sobre os eleitores do PT e de Armínio Fraga sobre bancos públicos foram mais danosas para Aécio do que todas as propagandas negativas do PT focadas no nepotismo e no patrimonialismo, tão coisas nossas.

ok1 A peleja do PT Malvado contra o Pobre Tucano

Em política, como sabemos, o papel de vítima indefesa diante do adversário malvado não funciona. O coitadismo nunca deu certo, o povo não aceita. Marina Silva que o diga. Lula e o PT só passaram a ganhar eleições quando perceberam que isso não dá voto.

Por acreditar demais na mídia amiga, Aécio parece ter levado um susto ao ver a ave de bico grande indo para o brejo, quando já posava de presidente eleito, e não se conformava de ter sido chamado de "filhinho de papai" pelo ex-presidente Lula: "Ver um ex-presidente sendo protagonista dessa campanha sórdida, e a meu ver criminosa, é lamentável", queixou-se.

Após visita a d. Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, Aécio ainda pediu aos seus eleitores que saiam no sábado vestidos com as cores da bandeira brasileira, sem se dar conta de que o mesmo apelo já tinha sido feito por Fernando Collor, pouco antes de ser afastado da Presidência da República, em 1992, acusado de corrupção.

"Nos aguardem. Domingo falarei com vocês como presidente eleito", anunciou o candidato tucano, após incorporar um Collor básico, que não combina com ele. Algum assessor deveria lembrá-lo que naquele episódio, em vez de verde-amarelo, o povo se vestiu foi de preto para protestar contra o então presidente.

Desta vez, a cor predominante nestas últimas horas de campanha eleitoral, fora de São Paulo, claro, é o vermelho. Por aqui também já bateu o desespero nos tucanos pouco antes da divulgação das pesquisas, como relata Nilson Hernandes, de O Globo, sobre o confronto entre tucanos e petistas diante do Teatro Municipal, no centro da cidade, envolvendo 500 apoiadores de Aécio:

"Ao se depararem com cerca de 50 petistas que faziam campanha para a presidente Dilma Rousseff, com bandeiras e distribuição de material de campanha, um dos cabos eleitorais de Aécio atirou uma bandeira em direção a um correligionário de Dilma. O militante petista, então, revidou contra o ônibus no qual os apoiadores do PSDB estavam embarcados. Nesse momento, cerca de dez militantes tucanos desceram e começaram a dar socos e pontapés contra os petistas, que também desferiram agressões contra os adversários".

Era previsível e até estava demorando: todo o clima de ódio e agressões do Fla-Flu eleitoral alimentado por pitbulls nas redes sociais e também por blogueiros da grande imprensa acabou chegando às ruas, em cenas que lembraram os recentes confrontos entre torcidas organizadas do futebol.

Uma nota pitoresca em meio à batalha final entre tucanos e petistas foi registrada pela revista britânica "The Economist", que apoia abertamente Aécio Neves, em despacho do seu correspondente Jan Piotrowski, sobre a manifestação tucana da véspera, que reuniu 10 mil pessoas no largo da Batata, em São Paulo.

Encantado com o que viu, o jornalista chamou o ato pró-Aécio de "Revolução da Cashmere", uma referência à lã macia usada em roupas caras. "Foi um espetáculo talvez sem precedentes na história das eleições e não apenas do Brasil. Vestidos com camisas com iniciais bordadas e bem passadas empunhavam bandeiras de Aécio. Socialites bem-vestidas protegidas por pashminas para se proteger do frio fora de época entoavam frases anti-PT. As únicas coisas que faltaram foram taças de champanhe e o próprio sr. Neves, que fazia campanha em Minas", escreveu o correspondente.

Agora, meus caros leitores, como diria o professor Heródoto Barbeiro em bom latim, "alea jacta est!". A sorte já está lançada, o jogo está jogado. Só faltam dois programas de televisão, na hora do almoço e à noite, e depois o debate na TV Globo. A campanha está acabando. Faltam menos de 48 horas para a abertura das urnas.

Bolão do Balaio

Continuem participando do "Bolão do Balaio", que está bombando por aqui desde ontem.

É bem simples: basta entrar na área de comentários e mandar seu palpite sobre o resultado final (votos válidos) que o TSE vai anunciar neste domingo, a partir das 20h.

A partir das 17h, estarei ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão aqui no R7 e na Record News acompanhando a marcha das apurações do segundo turno. Não percam.

Bons votos para todos.

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Politicos Cantores Diga me quem te apoia e te direi quem és

Ao contrário do que aconteceu em campanhas anteriores, quando tivemos uma luta feroz dos candidatos por apoios que pudessem multiplicar votos, desta vez a participação de artistas, atletas, intelectuais, líderes políticos e religiosos, e celebridades em geral, foi bem mais discreta.

A três dias da eleição, fiz uma rápida pesquisa no Google e reparei que, neste quesito, o candidato tucano Aécio Neves sai em vantagem, pelo menos no número de apoiadores anunciados ao longo do segundo turno, tanto que dedica boa parte do seu programa de televisão a eles.

Tem um muito de tudo nesta lista e, mesmo que, em seu conjunto, os apoios possam não ser decisivos na eleição de domingo, dão uma boa ideia do que pensa e defende o candidato, talvez até mais do que aquilo que Aécio fala nos debates.

Fui anotando aleatoriamente estes nomes e listo abaixo alguns deles entre os mais conhecidos do grande público.

Pró-Aécio:

FHC, Lobão, José Serra, Neca Setúbal, a família de Eduardo Campos, Silas Malafaia, Zezé Di Camargo, Roger, Ronaldo Fenômeno, Romário, Alexandre Frota, Jorge Bornhausen, Dado Dolabella, Fagner, Roberto Freire, Luciano Hulk, Regina e Lima Duarte, Alberto Goldman, Walter Feldman, Paulinho da Força, Marina Silva, Levy Fidelix, Eymael, Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Coronel Telhada, além de setores organizados da mídia e do mercado, que não podem oficialmente declarar suas preferências.

Pró-Dilma:

Lula e Chico Buarque.

E precisa mais?

É aquela velha história: diga-me quem te apoia e te direi quem és.

E o caro leitor do Balaio declara seu apoio a qual dos dois candidatos?

Bolão do Balaio

Por falar em apoios e palpites nesta reta final, chegou uma boa ideia da leitora Maria do Rosário, enviada às 9h09 desta quinta-feira:

"Para animar um pouquinho mais este Balaio de Gatos, sugiro que façamos um bolão para que cada balaieiro dê o seu placar para domingo".

A própria leitora já abriu o bolão: cravou 56 a 44 para Dilma Rousseff.

Participe você também!

 

 

 

 

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A apenas cinco dias das eleições, mudou tudo de novo: nas pesquisas Datafolha e Vox Populi divulgadas na noite desta segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff bate Aécio Neves por 52% a 48% dos votos válidos, um empate técnico no limite da margem de erro, invertendo as curvas da semana passada. E a presidente volta a ser favorita para conquistar a reeleição no próximo domingo.

Minha análise sobre as novas pesquisas está neste link do Jornal da Record News, em conversa com Heródoto Barbeiro, logo após a sua divulgação:

Volto ao assunto no final deste texto. Antes, gostaria de me dirigir diretamente aos leitores do Balaio para comentar o que aconteceu aqui no nosso blog nestes últimos belicosos dias da mais beligerante campanha eleitoral que já acompanhei.

Advertência necessária

Cuidado, você pode não gostar do que vai ler.

Aos que me acusam de a cada dia mudar de posição e escrever uma coisa diferente, conforme meu humor, depois de já ter previsto o favoritismo de Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves em diferentes momentos, conforme as pesquisas, esclareço que estranho seria se fosse o contrário.

Se nada mudasse no cenário eleitoral, não precisaria atualizar este blog todos os dias, de domingo a domingo, o que me dá um trabalho danado. Poderia, simplesmente, deixar no ar o primeiro texto que escrevi sobre a campanha eleitoral, ainda no ano passado, e ir para a praia.

No final de tudo, apenas publicaria o resultado apurado nas urnas, sem medo de errar. Eu nunca mudei de posição nem de lado, desde que voltamos a ter eleições diretas para presidência da República, há exatos 25 anos. Sempre votei no mesmo partido, como sabem os leitores e o distinto público. Quem muda são as pesquisas, os fatos, é a realidade da campanha, do quadro eleitoral. Se alguém ainda tiver alguma dúvida, pode procurar nos arquivos deste blog ou no Google.

Um antigo repórter esportivo, nos anos 60 do século passado, ao comentar um jogo em que o São Paulo perdeu da Portuguesa, só escreveu sobre o time derrotado, e quase nada sobre o vencedor.

Este repórter fui eu.

De lá para cá, procurei separar o jornalista do torcedor, não só no futebol como em tudo na vida, incluindo aí a política. Às vezes, consigo; noutras, não. Coisas da vida, já que, apesar de todos os avanços da eletrônica neste período, ainda não consegui comprar um robô para escrever por mim.

Leitores/eleitores mais engajados e radicalizados, de um lado e de outro, estão confundindo cobertura jornalística de campanha eleitoral com propaganda eleitoral gratuita, tratando este espaço democrático oferecido pela internet como se fosse porta de banheiro de boteco.

Por mais que defenda a liberdade de expressão de todos, aqui ninguém vai me chamar de moleque nem me acusar de fazer propaganda enganosa. Não faço propaganda, nem enganosa, nem virtuosa. Faço jornalismo. Tudo tem que ter um limite. É uma questão de respeito, que exijo para mim e para os demais leitores do Balaio.

Ninguém é obrigado a ler, muito menos a concordar com o que escrevo. Estão, portanto, desde já dispensados os que esperam que eu escreva o que eles querem ler aqui, de acordo com suas preferências partidárias.

Em mais de 50 anos de carreira, ninguém nunca me disse o que devo ou não escrever, como devo ou não pensar, o que devo ou não defender _ nem meus editores e chefes nos principais veículos da imprensa brasileira por onde já passei, nem minha mãe. Ou melhor: tentar, até já tentaram, mas nunca conseguiram.

E não seria aqui, neste espaço pessoal que divido com os leitores, onde sou o único responsável pelo que é ou deixa de ser publicado, que eu daria este direito a terceiros. Sem chance. Prefiro errar ou acertar sozinho.

***

Voltando aos fatos e aos números. De uma semana para outra, houve uma forte guinada nos índices de Dilma e Aécio, mas só no Datafolha, já que o Vox Populi, em seu levantamento anterior, já apontava dois pontos de vantagem para a presidente (51 a 49).

ok Dilma volta a ser favorita em nova virada

Em suas duas pesquisas sobre o segundo turno divulgadas na semana passada, tanto o Datafolha como o Ibope mostravam Aécio à frente de Dilma, exatamente com os mesmos números: também cravaram 51 a 49, só que no sentido inverso ao do Vox Populi, que foi o primeiro a apontar a vantagem da presidente. Nas várias outras pesquisas, a vitória de Aécio já era dada como certa, em levantamentos que eram reproduzidos na propaganda eleitoral do candidato.

Parece que o próprio tucano acreditou nisso, tanto que passou a se comportar nos debates com a soberba de presidente eleito, o que pode ter sido uma das razões de sua queda, não observada pelos analistas políticos que abundam na nossa imprensa.

Diante de tantas viradas nesta campanha, não vou me arriscar a analisar nem prever mais nada. Nem tenho a pretensão de achar, ao contrário de alguns leitores e muitos coleguinhas, que o que eu escrever vai dar ou tirar votos de algum dos candidatos. Aqui das arquibancadas, que é onde o repórter deve ficar, limito-me a ver o jogo e contar o que vi, sem influir no resultado.

Recomenda-se muita humildade e cabeça fria nesta hora porque o clima já está quente demais para o meu gosto. Eleição, por mais importante que seja, é apenas uma eleição. Como já dizia o grande Oscar Niemeyer, que também nunca mudou de lado, importante é a vida.

Vida que segue.

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essa ok Eles já estão abusando da nossa paciência

Ainda bem que falta apenas uma semana. Assim como eu, acredito que ninguém mais aguenta ver as caras e bocas e ouvir as vozes de Dilma Rousseff e Aécio Neves repetindo sempre as mesmas coisas, dia após dia, para provar que o outro é pior. Debates e a overdose de propaganda eleitoral no rádio e na televisão se limitam a elencar corrupções e desmazelos sem fim dos governos do PSDB e do PT nos últimos 20 anos. O que vai sobrar disso?

Para quem ainda consegue assistir a este espetáculo de desconstrução mútua, resta a impressão de que estão em disputa a presidência da Petrobras e o governo de Minas, não o futuro do Brasil. Foi assim, mais uma vez, no debate de domingo à noite na TV Record.

Como os dois já não têm mais nada de novo a nos dizer, acabam sempre voltando aos mesmos cardápios dos seus marqueteiros fornecidos ao longo de toda esta interminável campanha eleitoral. Desta vez, como suas pesquisas internas mostraram que pegou muito mal junto ao eleitorado o vale tudo de baixarias do debate anterior, Aécio e Dilma resolveram deixar as respectivas famílias de fora e tentaram discutir suas propostas.

Não conseguiram, porém, passar de platitudes básicas ao disputar a paternidade do Bolsa Família, pregar o combate à corrupção e à inflação, ambos a favor da água encanada e da energia elétrica. Aécio chegou até a citar uma reportagem do jornal O Globo sobre a volta da inflação. Poderia ser mais discreto.

Assisti ao penúltimo debate apenas por dever de ofício para chegar à conclusão de que esta campanha presidencial de 2014 só serviu para escancarar a falência do atual sistema político-partidário do país e o esgotamento deste formato de democracia representativa, que afasta os eleitores dos eleitos e clama por uma renovação de lideranças e de ideários.

Por mais diferentes que sejam suas trajetórias de vida, ideologias e projetos para o país, os dois candidatos finalistas são igualmente autoritários, chatos, previsíveis, burocráticos no pensamento e lentos na ação mobilizadora. Que me perdoem pela franqueza, mas ambos são de dar sono e nos tiram até a vontade de votar.  Eles já estão abusando da nossa paciência.

Desse jeito, ao invés de conquistar os indecisos para desempatar o jogo, Dilma e Aécio vão acabar provocando um aumento de votos nulos, brancos e abstenções, os chamados "eleitores de ninguém" que, somados, atingiram 29% dos 143 milhões de brasileiros aptos a votar no primeiro turno. Que esperanças ainda podem nos dar Aécio, o irônico do sorriso sarcástico, e Dilma, a implacável superiora dona das verdades?

Entramos na última semana do combate eleitoral diante de duas realidades bem distintas e de desfecho imprevisível, que podem ser decisivas no domingo: de um lado, o vazamento programado na imprensa das delações premiadas sobre a Petrobras, tendo como alvo o PT de Dilma; de outro, o iminente colapso do abastecimento de água em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, que pode abalar o tucanato de Aécio.

Seja qual for o resultado final, constato que temos hoje, basicamente, dois grandes problemas: os candidatos e os partidos. Como não dá para importar candidatos nem existe democracia fora dos partidos, espero que o próximo presidente e a sociedade brasileira tenham como prioridade absoluta a reforma política. Sem isto, tudo o mais será jogar conversa fora.

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Numa disputa tão acirrada quanto esta, em que os dois candidatos chegam em empate técnico à reta final, os debates e programas eleitorais na televisão têm um papel decisivo, o derradeiro momento para conquistar os eleitores indecisos que farão a diferença. A esta altura, se eu fosse candidato me dedicaria só a estas duas agendas e cancelaria o resto.

Se depender do programa de televisão, com os dez minutos reservados para cada lado, não tenho dúvida: vai dar Aécio Neves no próximo domingo.  Cheguei a esta conclusão depois de acompanhar boa parte dos programas, desde o início da campanha oficial e, principalmente, pelo que vi na noite de sábado.

Claro que mil outros fatores podem influir na decisão do eleitor e levar Dilma Rousseff a conquistar a reeleição, mas isto com certeza não se dará por conta da propaganda do horário político na televisão. Ao contrário, a presidente pode ganhar apesar dele, pois se trata de uma das piores e menos criativas produções já levadas ao ar pelo PT, em seus mais de 30 anos de história.

Desta vez, aconteceu tudo ao contrário das três eleições anteriores em que o PT derrotou o PSDB também na televisão. Parece até que os dois partidos trocaram de marqueteiros um com o outro. Nem sei quem são os criadores do programa tucano, mas em 2014 eles levaram larga vantagem ao vender seu peixe, lembrando o ritmo, os jingles, a riqueza de imagens e o alto astral das velhas produções petistas, centradas na emoção, que brilhavam mesmo quando o partido perdia as eleições.

dilma Se depender do programa de TV, vai dar Aécio

Seria injusto, a meu ver, atribuir a responsabilidade apenas à grife do marqueteiro João Santana e sua equipe, que comandaram os programas de TV nas últimas três vitoriosas campanhas petistas, já que no governo Dilma só quem manda é Dilma, e ela não ouve ninguém.

Fico pensando de onde tiraram esta estética ufanista que lembra os cinejornais do Jean Manzon nos tempos do "Brasil Grande" dos governos militares, com sua profusão de imagens apoteóticas de grandes obras, números grandiosos, projetos e mais projetos, colocando a própria presidente como protagonista onipresente no programa, em lugar de dar mais voz aos brasileiros anônimos, contando as mil e uma histórias dos que melhoraram de vida nos governos de Lula e Dilma. Não sou especialista em marketing político, mas sei que é sempre melhor os outros falarem bem da gente do que nós mesmos ficarmos mostrando a toda hora como somos ótimos. O programa de Aécio soube fazer isto muito bem.

Além de Dilma não ser propriamente uma política carismática e ter dificuldades de expressão, fica muito chato repetir discursos e cenas ao longo de toda a campanha na televisão. Teria saído bem mais barato, e certamente seria bem mais eficiente investir em jornalismo, em reportagens de campo, surpreendendo o telespectador a cada dia ao mostrar o que mudou na vida real dos brasileiros, em lugar de martelar slogans e imagens computadorizadas de propaganda baseados unicamente nas pesquisas qualitativas que o mago Santana sempre carrega debaixo do braço para justificar suas decisões.

Agora faltam apenas seis programas, os 60 minutos finais de televisão, para que Aécio e Dilma se dediquem ao papel que qualquer candidato a qualquer cargo, em qualquer época, deve assumir: ser um vendedor de esperanças, não um pregador de realizações passadas. Se possível, fazer isso com bom humor e muita emoção.

aecio na tv Se depender do programa de TV, vai dar Aécio

A análise publicada acima sobre os programas eleitorais na televisão nada tem a ver com meu voto, que sempre foi para o PT, desde que o partido existe, como sabem todos os que me acompanham, e eu nunca escondi, pois defendo que todos os profissionais, e também seus veículos, deveriam deixar claro de que lado estão, acabando com esta hipocrisia de neutralidade, apartidarismo, independência editorial e outras  bobagens.

Como jornalista, porém, não faço campanha a favor nem contra ninguém, até porque acho que acabou esta história de "formadores de opinião". Somos hoje igualmente todos emissores e receptores de informações e opiniões, ninguém mais é dono da verdade. Tá claro?

A propósito, lembro de um episódio do início dos anos 80. Às vésperas da primeira eleição direta para governadores de Estado, em 1982, ainda durante a ditadura, o dono da Folha, meu velho e bom amigo Octavio Frias de Oliveira, solicitou aos repórteres especiais do jornal envolvidos na cobertura da campanha que escrevessem pequenos artigos assinados declarando em quem iriam votar. Não fomos nós que pedimos isso, foi ele quem sugeriu, para demonstrar, na prática, o democrático pluralismo de opiniões que levou o seu jornal a ser o maior do país, como é até hoje.

Em tempo:

Não percam o debate na TV Record

É hoje, a partir das 22 horas, o terceiro debate do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Com apresentação dos competentes amigos Adriana Araújo e Celso Freitas, a transmissão da TV Record com os bastidores do debate começa às 20h30.

Imperdível!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Até parece que começou a faltar água de um dia para outro e o racionamento ainda é uma possibilidade remota.

Quem vive em São Paulo sabe que já faz meses que o desabastecimento atinge quase todas as regiões da capital e do interior do Estado, e o racionamento está implantado na prática, sem aviso prévio, para não prejudicar a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

Garantida a vitória do tucano, na semana seguinte, a imprensa paulista abriu as comportas e o assunto ganhou as manchetes e até editoriais foram publicados com cobranças ao governo do Estado, mas já era tarde demais.

Agora, o que se discute é o prazo para que aconteça o colapso no abastecimento, se não voltar a chover logo, e muito.

Antes que algum idiota sem modéstia invada este espaço e venha de dedo em riste me acusando de estar colocando na imprensa e no governo estadual a culpa pelo calor e pela estiagem histórica, esclareço que não se trata disso, mas é evidente que Alckmin e sua mídia aliada são cúmplices ao esconder da população por tanto tempo as dimensões da catástrofe hídrica que assola o Estado mais rico do país.

Esse comportamento de avestruz me fez lembrar o que aconteceu quando uma epidemia de meningite se alastrou pelo país nos anos 70, no auge do regime militar. Por determinação da censura federal, ordens foram disparadas de Brasília para proibir toda a mídia nacional de sequer tocar no assunto. Oficialmente, a epidemia não existiu, embora muita gente tenha morrido de meningite.

Agora, ninguém teve que dar ordens, a imprensa se autocensurou por conta própria. Preservado pelos jornalões paulistas, Alckmin pôde se dedicar tranquilamente à campanha reeleitoral e só reapareceu na última semana para tentar consertar as trapalhadas da presidente da Sabesp, Dilma Pena, que garantiu o abastecimento d´água somente até meados de novembro.

agua Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Com seu jeitão Pinda de ser estadista, o governador agiu como um bombeiro ministrando curso de prevenção de incêndios numa casa que já está pegando fogo. Mandou a empresa distribuir panfletos e enviar torpedos à população, pedindo para economizar água e prometendo descontos a quem atender aos apelos. Em tucanês castiço, explicou que podem acontecer "manobras técnicas emergenciais" e "situações de eventuais desabastecimentos".

"Sabesp informa: devido às altas temperaturas e aumento do consumo, solicitamos que ECONOMIZEM ÁGUA  para mantermos o abastecimento de SP", diz o SMA enviado aos clientes da empresa. Assim podemos ficar todos mais tranquilos. Com o nível do volume do Sistema Cantareira baixando para o índice de 3,9% da sua capacidade, agora vamos usar o volume morto do volume morto para manter o abastecimento até 2015. Quer dizer, se tudo der certo, estamos ferrados.

Enquanto o Cantareira cai para seu índice mais baixo, as temperaturas não param de subir: nesta quinta-feira, São Paulo registrou 37,8°C, um recorde de calor desde o início das medições em 1943, quando eu ainda não tinha nascido.

Num papo folgazão antes de dar uma entrevista ao jornalista Carlos Monforte, nos estúdios da Globo em Brasília, sem saber que a conversa já estava sendo transmitida para todo o país, o sincero ex-ministro Rubens Ricupero deu a receita para estas situações: "No governo, é assim: o que é bom a gente mostra; o que é ruim a gente esconde". Isto vale para os governos e vale para a mídia, que se limita a responder a uma pergunta básica, como sabe qualquer repórter novato: "Isso é bom para nosso candidato ou beneficia os adversários?".

A conversa entre Ricupero e Monforte aconteceu em meio à campanha presidencial de 1994, durante o governo de Itamar Franco. Vinte anos depois, a Lei de Ricupero continua em vigor.

Agora que já sabemos o tamanho da encrenca, o eventual amigo ou amiga que me lê já pensou para onde ir se acontecer o pior?

Apesar de tudo, bom final de semana a todos.

Leia mais sobre o assunto:

Com crise hídrica em SP, estocar galões de água vira rotina para paulistanos
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Nível do Sistema Cantareira cai para 3,8%

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okok Lamento, caros leitores, mas acabou a magia

Escreve-me o leitor Hildemar Peixoto, em comentário enviado às 17h32 desta quinta-feira:

"Lamento muito não encontrar mais nos seus textos seu traço característico de esperança, consciência solidária e engajamento crítico! Tomara que não faça logo, logo, um manifesto pelo voto nulo!"

Também lamento, caro Hildemar. Gostaria muito que a realidade me permitisse voltar a sonhar e ter esperança, mas eu não sei fingir e vender falsas ilusões só para agradar aos leitores.

Nunca vi na minha vida uma campanha eleitoral tão sem graça como esta de 2014, tão desmobilizadora dos anseios populares, com candidatos tão fracos e discursos tão ocos, um baixo nível nos debates que está chegando ao nível do res do chão, só faltando os dois finalistas do segundo turno saírem no tapa e furarem o olho um do outro.

Resultado disso é que a atual campanha se limita à divulgação alucinada de pesquisas, aos debates que viraram combates e à guerra suja na internet, cada vez mais ensandecida, deixando a maioria do povo indiferente, só assistindo a tudo bestificado, como o historiador José Murilo de Carvalho escreveu sobre o dia da Proclamação da República.

Quase não se vê sinais de campanha nas ruas, não há alegria nem registros de grandes comícios, nada que lembre as grandes festas democráticas que marcaram as eleições brasileiras desde a volta das diretas, em 1989.

Sei que tudo mudou neste período, das relações humanas às relações políticas, e não quero ser saudosista, o tempo não volta. Apenas registro o que sinto, não sei escrever de outro jeito.

Por isso, pensei bem e decidi não escrever nada sobre o debate presidencial desta quinta-feira no SBT. Em respeito aos leitores e às suas famílias que acompanham este Balaio, não reproduzirei aqui o que foi dito na televisão, ao vivo, pelos dois candidatos. Foi um espetáculo deprimente.

Se for verdade metade do que um candidato falou do outro, em qualquer circunstância estaremos mal servidos, vamos ser governados por gente que não presta, que não inspira a menor confiança. Claro que Dilma e Aécio são pessoas e têm projetos de país bem diferentes, e só nos resta escolher um deles, mas não vejo nenhum entusiasmo dos eleitores em ir às urnas, a não ser os que são movidos pelo ódio contra o adversário, não por virtudes do seu candidato.

Lamento, caros leitores, ter que dizer isso, mas acabou a magia, como tem repetido sempre nos últimos dias meu bom amigo Ruy Brisolla, jovem produtor de cinema e parceiro de boteco. Em algum momento, perdemos as referências, não temos mais novas lideranças em nenhum setor da vida nacional, e só restou este melancólico vale tudo, enquanto a água não acaba.

É triste, eu sei, mas sinto assim.

 

 

 

 

 

 

 

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Mapa Brasil Eleições 2014 vão deixar um país dividido

"A apenas 76 dias da abertura das urnas e 24 do início do horário eleitoral na televisão, Dilma Rousseff continua liderando as pesquisas, mas a presidente me parece cada vez mais sozinha na estrada, com a campanha à reeleição mostrando rachaduras no governo, no partido e na base aliada".

Assim começava o texto com o título "Dilma sozinha na estrada; Aécio vira vidraça", publicado aqui no Balaio no já longínquo dia 21 de julho, antes da morte de Eduardo Campos, e de todas as reviravoltas da campanha eleitoral, na mesma semana em que a Folha furou a barreira de proteção ao tucano e publicou a história do aeroporto construído com dinheiro público nas terras de titio pelo ex-governador de Minas Gerais.

Mais adiante, constatei no mesmo post: "A solidão de Dilma fica mais patente quando se nota que raros são os que saem em defesa das políticas do governo, mesmo entre seus ministros. Boa parte das lideranças empresariais e sindicais que apoiaram a presidente em 2010 agora está na moita ou pularam para o outro lado, como acontece com muitos aliados do PMDB, um partido ainda de caciques regionais que procuram, em primeiro lugar, salvar a própria pele".

Agora, a apenas 10 dias das eleições do segundo turno, o que vemos? Fenômeno de resiliência política, a presidente Dilma Rousseff resiste ao isolamento e chega à reta final em empate técnico com Aécio Neves, o candidato oficial da mídia, segundo as últimas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas na noite de quarta-feira. De uma semana para outra, nada mudou, com os dois institutos mostrando rigorosamente o mesmo placar em votos válidos: 51% a 49%.

Ou seja, mesmo jogando contra tudo e contra todos, batendo de frente com o empresariado paulista, o agronegócio sucroalcooleiro, a banca nacional e também a internacional, setores do sindicalismo e a mídia familiar nativa, tudo ao mesmo tempo, Dilma continua com chances de ser reeleita.

O resultado final ainda é absolutamente imprevisível, mas uma coisa já é certa: aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar, o próximo presidente da República vai assumir um país rachado ao meio, social, geográfica e politicamente, como mostram as pesquisas e, mais do que os índices de intenção de voto, é revelado pelo mapa dos eleitores que se dividem entre Aécio e Dilma.

São dois Brasis claramente opostos que estarão em confronto no dia 26, segundo os números do Datafolha: o de Dilma se concentra no Norte e Nordeste e tem renda familiar de até dois salários mínimos; o de Aécio lidera nas três outras regiões (centro-oeste, sudeste e sul) e em todas as demais faixas de renda.

Faltam ainda três debates (SBT, hoje à tarde; Record, no domingo, e Globo, na próxima quinta), que podem desempatar este jogo, já que os apoios recebidos por Aécio, inclusive a badalada adesão de Marina, e os ataques desfechados contra Dilma por conta das delações premiadas da Petrobras, até agora, não mudaram uma vírgula nas pesquisas, que continuam sendo estranhamente divulgadas no mesmo dia, com os mesmos números, aconteça o que acontecer.

Dilma e Aécio empatam até nos tiros que dão nos próprios pés: Aécio, ao entregar antecipadamente a economia ao controle do controverso Armínio Fraga, o homem do megainvestidor americano George Soros no Brasil, e Dilma, ao anunciar a saída de Guido Mantega, mas mantê-lo agonizante no cargo.

Tem certas coisas que você pode até pensar, mas só deve anunciar após a definição das urnas, como a decisão de Dilma de criar, finalmente, o marco regulatório da mídia, em seu possível segundo mandato, o que só serviu até agora para aumentar ainda mais a ira dos poderosos meios de comunicação do Instituto Millenium contra ela.

Na verdade, é esta questão da regulação da mídia, e mais ainda a do destino a ser dado ao tesouro do pré-sal, ambos temas até aqui ignorados nos debates, que mais despertam os interesses dos investidores nacionais e estrangeiros, os grandes apostadores neste cassino eleitoral. Os destinos do país nos próximos quatro anos e nos seguintes são apenas um detalhe, o pano de fundo para animar a torcida do Fla-Flu.

Enquete: e se a água acabar?

Ficou todo mundo assustado com as previsões apocalípticas feitas nesta quarta-feira pela Sabesp de que a água em São Paulo pode acabar já em meados de novembro. E aí, o que faremos?

Ainda não tinha pensado nisso, mas se as torneiras secarem mesmo de vez, para onde fugirei?

Há tempos venho alimentando o sonho de passar o que me resta de vida no Nordeste, mais particularmente em João Pessoa, na Paraíba, mas talvez tenha que antecipar os planos.

E você, caro leitor do Balaio? Já resolveu para onde ir? Tá na hora de pensar nisso.

As suas respostas poderão ajudar outros leitores a decidirem seu rumo.

Com ou sem água, é vida que segue. 

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