joaquim Sem um Plano B, só resta a Dilma segurar o Levy

O Ministro Joaquim Levy

Por mais sapos que tenha de engolir, só resta mesmo à presidente Dilma Rousseff defender seu plenipotenciário ministro Joaquim Levy, como fez nesta segunda-feira, em Capanema, no Pará, ao dizer que ele "foi mal interpretado" em mais uma declaração polêmica sobre os rumos da política econômica do governo.

A partir do momento em que jogou todas as suas fichas do segundo mandato no pacote de ajuste fiscal embrulhado pelo ministro da Fazenda, até pela ausência de qualquer outro projeto de governo, Dilma não tem escolha: ou banca Levy até o fim ou correrá o risco de ver o país perder o grau de investimento, derrubando o último pau da barraca.

O problema agora não é mais saber quais são os limites da presidente, mas adivinhar até onde a paciência do ministro aguenta o "fogo amigo" do PT e das centrais sindicais, e as intermináveis negociações com deputados, senadores, governadores, prefeitos, empresários e o resto do mundo. E se Levy jogar a toalha?

Promovido simultaneamente a czar da economia e articulador político de um governo sem plano de voo em plena tempestade, o técnico que fez carreira no sistema financeiro carrega sozinho nos ombros o destino de 200 milhões de brasileiros, com suas famílias ameaçadas pelas nuvens de desemprego, inflação e juros altos, recessão, paralisia nos investimentos e nenhuma agenda positiva à vista no horizonte.

Em Capanema, a 152 quilômetros de Belém, Dilma foi entregar as chaves de mais 1.032 unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, uma das principais bandeiras do seu primeiro governo. Fora isso, o que temos? Mais médicos, mais bolsas, quer dizer, tudo mais do mesmo. É muito pouco para os imensos desafios de um país como o nosso, menos na opinião do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, que mandou ver: "Na história do Brasil e do mundo ninguém fez mais do que a presidente Dilma".

O pior é que a presidente pode mesmo estar acreditando nisso, revelando um preocupante alienamento da realidade, como demonstrou ao defender o pacote fiscal e tentar minimizar as muitas crises que seu governo enfrenta:

"Uma coisa é ajustar o Orçamento e outra é reformar tudo. Nós não temos que reformar tudo. O Brasil é muito maior do que esses problemas que estamos passando. O Brasil está enfrentando dificuldades, mas são passageiras".

Tomara que ela esteja certa e disponha de informações que nós não temos para demonstrar tanta tranquilidade e otimismo. É disso que o país precisa, mas é vital que os desejos não se descolem da realidade dos fatos.

Na vida real, Joaquim Levy vai enfrentar nesta terça-feira uma outra batalha decisiva na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em que tentará um acordo para a correção das dívidas de estados e municípios com a União, que poderá provocar uma sangria de mais R$ 3 bilhões na arrecadação do governo.

Além disso, o ministro terá que se empenhar nas negociações para manter os cortes nos benefícios trabalhistas e sociais e evitar que o pacote do ajuste fiscal seja desfigurado no Congresso.

Caso Levy não seja bem sucedido neste duplo papel de articulador político e econômico do governo, enfrentando feras feridas como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o que já está ruim pode piorar muito, pois a presidente não tem um Plano B.

É Levy ou Levy, ajuste fiscal ou ajuste fiscal, tudo ou nada. Quero estar enganado, mas pressinto que estamos apenas no início de uma crise profunda na vida nacional, que não promete acabar tão cedo, ainda que o pacote levítico seja integralmente aprovado, o que constituiria verdadeiro milagre.

Entre a canonização e o naufrágio de Joaquim Levy, que de bobo não tem nada, mas não parece possuir dons divinos, navega o barquinho de cada um de nós em busca de um porto seguro. Ele sempre poderá dizer que tentou de tudo, mas, infelizmente, não deu. E Dilma e nós o que vamos fazer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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"Sete em cada dez jovens tendem a aceitar suborno em forma de presente _ Maioria dos profissionais de até 24 anos hesita em denunciar corrupção, indica pesquisa".

A manchete do R7 neste domingo, em matéria assinada pela colega Joyce Carla (ver íntegra no link), baseada em pesquisa da ICTS Protiviti, empresa de consultoria e serviços, é a meu ver a mais grave ameaça para o futuro do país, já assolado por tantos casos de corrupção e de sonegação de impostos, os grandes ralos do dinheiro público.

Acima de todas as outras, estamos vivendo uma profunda crise de caráter, de valores e de princípios. É inevitável associar esta preocupante pesquisa sobre o perfil ético dos jovens profissionais das corporações brasileiras com as denúncias divulgadas esta semana sobre a quadrilha que agia no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf, em que algumas das maiores empresas brasileiras criaram uma espécie de parceria público-privada para lesar o Tesouro Nacional em bilhões de reais, deixando no chinelo o que foi apurado até agora pela Operação Lava-Jato.

Os recursos das empresas contra autuações da Receita Federal eram julgados por servidores da Fazenda junto com representantes do sindicalismo patronal. "Nenhum outro país digno de menção tem um sistema semelhante", constata Elio Gaspari em seu artigo dominical na Folha.

Os números são assustadores, segundo os dados revelados pelo jornalista. "No Carf tramitam 105 mil processos com R$ 520 bilhões em autuações contestadas. A PF já achou 70 processos com desfechos suspeitos. Nove extinguiram cobranças que iam a R$ 6 bilhões. Se procurarem direito acharão cinco cobranças que valiam R$ 10 bilhões e viraram pó".

Entre as grandes empresas investigadas citadas em reportagem do Estadão, estão os bancos Bradesco (R$ 2,7 bilhões), Santander (R$ 3,3 bilhões), Safra (R$ 767 milhões), BankBoston (R$ 106 milhões) e Pactual, e mais Ford, Mitsubishi, BR Foods, Camargo Correa, Light e Petrobras. Segundo o jornal, o grupo RBS, afiliado da Rede Globo, está sendo investigado pelo pagamento de R$ 15 milhões para que sumisse do mapa um débito de R$ 150 milhões. São tantos milhões e bilhões desaparecidos nesta selva da terra de ninguém que a gente corre o risco de se perder.

A Operação Zelotes, deflagrada na quinta-feira, investiga os crimes de advocacia administrativa, tráfico de influência, corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Um estudo feito por procuradores da Fazenda Nacional, que já comentei aqui, estima que, em 2015, a sonegação de impostos deve bater na casa dos R$ 500 bilhões.  Se todos pagassem o que devem, em lugar de contratar bons advogados e pagar propinas, o governo federal certamente nem precisaria brigar tanto pelo seu pacote fiscal, que se destina mais a cortar gastos do que em aumentar a arrecadação.

Com estes exemplos vindos do andar de cima, não espanta a conclusão a que chegou Maurício Reggio, sócio-diretor do ICTS. "As pessoas estão acostumadas a pensar a corrupção como algo de fora, dos políticos, das autoridades. Não percebem as próprias atitudes. Com isso, têm um padrão para fora e não para si próprios". Dos 8.712 profissionais de 121 empresas pesquisadas, 82% admitiram aceitar atos antiéticos e 68% hesitam em denunciar casos de corrupção dos quais tomam conhecimento. Talvez muitos deles possam ser encontrados nas ruas e nas redes sociais nas manifestações contra a corrupção.

É esta desenfreada hipocrisia nacional que está minando os alicerces da nossa jovem democracia e colocando em risco o nosso futuro como Nação civilizada.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok1 Geração 68, de vitoriosa a derrotada

Faço parte da geração 68, como ficou conhecida a dos estudantes libertários que viraram o Brasil e o mundo de cabeça para o ar naquele ano do século passado, contestando todas as hierarquias e estruturas de poder, sem ter ideia de onde pretendiam chegar. Sabiam o que não queriam mais, mas não se entendiam sobre o que exatamente sonhavam colocar no lugar.

Pintava de tudo naqueles movimentos estudantis, das barricadas de Paris às grandes passeatas no Rio _ comunistas, trotskistas, anarquistas, hippies do paz e amor, guerrilheiros urbanos, porra-loucas e insatisfeitos em geral.

Tinha acabado de entrar na faculdade, na primeira turma da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, criada um ano antes. Voltei lá esta semana para participar de um debate junto com Heródoto Barbeiro, meu colega no Jornal da Record News, que comemorou na segunda-feira sua milésima edição no ar.

Para mim, foi um verdadeiro choque cultural. Nada mais restava daquele agito permanente em que os alunos ficavam mais fora do que dentro das salas de aula, pintando cartazes e faixas, fazendo discursos inflamados contra o reitor, a polícia, os americanos, a ditadura militar, o diabo a quatro.

Confesso que não tinha na época a menor consciência política e gostava mesmo era da farra, das festas, das paqueras, das intermináveis conversas no Rei das Batidas, um bar que existe até hoje na entrada da Cidade Universitária.

Já trabalhava na época como estagiário do Estadão, o principal jornal brasileiro naquele tempo, onde tinha entrado no mesmo mês em que passei no vestibular. Como viajava muito para fazer reportagens, comecei a frequentar cada vez menos a faculdade, que não consegui terminar até hoje.

Agora, ao entrar na sala, onde os alunos do professor Santoro já nos aguardavam, tive uma sensação estranha. Todos em silêncio, comportadamente sentados, pareciam esperar o início de uma missa. Do lado de fora, nenhum sinal ou som fazia lembrar a escola onde estudei quase meio século atrás. A ECA-USP velha de guerra, um dos principais focos dos confrontos dos anos 60, lembrava a sede de uma repartição pública.

Imaginava encontrar um clima bem diferente após as manifestações do Fla-Flu político dos últimos dias. Nos debates de que participei quando era aluno, os palestrantes passavam o maior sufoco. Eram contestados a todo momento. Desta vez, porém, depois de uma hora de conversa, me dei conta de que só Heródoto e eu falamos, sem ninguém nos interromper para discordar de nada. Até comentei isso para dar uma provocada na turma, que ficou só olhando para a minha cara como se eu fosse um extraterrestre.

Com o entusiasmo de sempre, Heródoto falava das maravilhas das novas tecnologias e eu da minha paixão pela reportagem, relembramos fatos históricos, arriscamos previsões sobre o futuro da profissão. Quando chegou a vez das perguntas, ninguém tocou nas profundas crises que o país está vivendo em todas as áreas. Na verdade, nem eram perguntas, mas apenas comentários sobre teorias da comunicação e mercado de trabalho, algo bem limitado ao que costumam discutir em sala de aula. É como se não estivessem preocupados com o que acontece fora das fronteiras da universidade.

À noite, na TV, quando comentamos nosso encontro na ECA, me dei conta de uma diferença fundamental que aconteceu neste meio tempo: somos de uma geração que dedicou boa parte de suas vidas à luta coletiva, queríamos mudar o país e o mundo, e fomos vitoriosos ao ajudar a derrotar a ditadura e a dar início a um processo de distribuição de renda, que tornou nosso país mais livre e menos injusto.

Hoje, noto um comportamento mais egoísta, em que os jovens estão preocupados com a carreira e a próprio sobrevivência, na base do cada um por si e Deus por todos. Em algum ponto, nós falhamos. Não conseguimos repassar para as novas gerações valores como a solidariedade, a ousadia, o inconformismo, a capacidade de sonhar e mudar o estabelecido para a construção de uma sociedade mais generosa. Desapareceu do mapa uma palavra chamada idealismo (não confundir com ideologia).

Pior do que isso: não fomos capazes de criar novas lideranças nem deixamos herdeiros políticos, tanto que o país continua dividido entre FHC e Lula, trinta anos após a redemocratização do país, nem de manter vivo o espírito que mobilizou os movimentos sociais em torno das lutas pela anistia, pela Constituinte, pelas liberdades públicas. Ou alguém sabe quem são esses "líderes" cevados nas redes sociais que apareceram nas manifestações de março? De onde surgiram, quais são suas histórias, que representatividade têm, quais são seus projetos de país? É um mistério.

Somos ao mesmo tempo vitoriosos e derrotados. Ganhamos nas lutas do passado, mas fomos derrotados na construção do futuro. Por isso, chegamos ao final de um ciclo político, com a falência do chamado presidencialismo de coalizão da Nova República, esta zorra federal instalada em Brasília e tão distante do Brasil real, colocando em xeque o futuro da própria democracia representativa pela qual tanto lutamos.

Nas voltas que a vida dá, nos livramos do jugo dos militares e caimos nas mãos do PMDB dos Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Está na hora de começarmos tudo de novo.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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assustado Mais desemprego, renda menor e inflação subindo

As más notícias na economia não param de chegar. Nada é surpreendente, mas o quadro negativo torna-se assustador. E os números são oficiais , divulgados pelo IBGE e pelo Banco Central.

Pelos indicadores desta quinta-feira, temos:

* a taxa de desemprego subiu pelo segundo mês consecutivo, chegando a 5,9% em fevereiro;

* pela primeira vez desde 2011, a renda média dos trabalhadores caiu 0,5%, baixando para R$ 2.163;

* as previsões para a inflação deste ano apontam para 7,9%, bem acima do teto da meta, que é de 6,5%;

* a última estimativa para o PIB em 2015, segundo os números do Banco Central, indica uma queda de 0,5%.

Precisa mais? Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, o governo Dilma-2 ainda se dá ao luxo de brigar com o PMDB só porque o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, quer porque quer criar mais um novo partido para desidratar os outros.

Depois alguns leitores do Balaio ainda reclamam que estou muito pessimista e crítico demais com a presidente.

Alguém tem um bom argumento a me oferecer para mudar de ideia sobre o atual momento que estamos vivendo?

Quem tem alguma notícia boa?

 

 

 

 

 

 

 

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renan e cunha Dupla Renan & Cunha deita e rola sobre o governo

Dá até dó. Quando parecia que o governo Dilma-2 finalmente poderia dar uma respirada, com a manutenção do grau de investimento do país, a dupla Renan Calheiros & Eduardo Cunha desfechou nesta terça-feira uma blitzkrieg para inviabilizar o ajuste fiscal.

Em várias frentes, a dupla infernal do PMDB atuou de forma coordenada para aumentar as despesas e diminuir a arrecadação do governo, exatamente o oposto do que o ministro da Fazenda Joaquim Levy vem tentando fazer para colocar ordem nas contas públicas, como garantiu à agência de risco Standard & Poor´s.

A maior derrota do governo foi imposta pela Câmara, que aprovou por 389 votos a favor e duas abstenções, uma sonora goleada, o projeto que autoriza a renegociação do índice de correção das dívidas estaduais e municipais com a União. Ou seja, vai entrar menos dinheiro nos combalidos cofres federais, o que obrigará o governo a fazer novos cortes de despesas. Ainda falta a votação no Senado, mas ali não tem risco: Renan vai garantir mais uma vitória sobre Dilma.

O placar da votação serve para mostrar também que, com quase três meses de governo Dilma-2, já foi para o espaço a ampla maioria que a chamada "base aliada" garantia ao governo. E vem mais por aí: o PMDB já avisou que, do jeito que está, o pacote fiscal não passa.

São várias as razões que foram levando os impagáveis Renan & Cunha a empurrar o PMDB, antes o principal partido aliado, para a oposição. Nenhuma delas, é claro, tem a ver com o interesse nacional, mas todas são fruto de mágoas acumuladas desde antes da posse, durante a formação do segundo governo Dilma.

A começar pela montagem do ministério e da eleição para a presidência da Câmara, uma verdadeira lambança dos articuladores políticos do Palácio do Planalto, que procuraram esvaziar o PMDB para fortalecer os novos aliados Gilberto Kassab e Cid Gomes, a cada passo o governo e o PT mais e mais foram se isolando no Congresso Nacional.

A dupla do barulho simplesmente odeia os ministros Aloizio Mercadante e Pepe Vargas, os homens encarregados pela presidente para cuidar das relações com os parlamentares, que Dilma teima em manter nos seus postos. Não tem diálogo possível.

A gota d`água veio com a divulgação do nome dos dois encabeçando a Lista do Janot, aquela dos políticos investigados na Operação Lava-Jato. Mesmo sem ter provas ou evidências concretas, Renan & Cunha cismaram que foi Dilma quem articulou para incluí-los na relação do procurador-geral, deixando-os simplesmente enfurecidos.

Daqui para a frente, qualquer que seja agora a iniciativa do governo, os dois estarão do lado oposto, junto ao PSDB, como já acontece na CPI da Petrobras. O enfrentamento chegou a tal ponto que agora, toda semana, contra a sua vontade, o ex-presidente Lula se vê obrigado a ir a Brasília para fazer o papel de bombeiro.

Bem que Lula gostaria de ficar longe desta confusão, guardando-se para 2018, mas ele, melhor do que ninguém, sabe que, se não fizer alguma coisa agora, o governo e o PT podem ir juntos para o vinagre, perdendo o apoio dos eleitores a cada nova pesquisa.

O protagonismo dos presidentes da Câmara e do Senado na cena política, aliados a amplos setores da mídia e do Judiciário no combate ao governo, cresce de tal forma que deixa no acostamento a oposição oficial do PSDB e outras legendas menores, tornando-as irrelevantes. Com "aliados" assim, Dilma nem precisa de oposição.

Não bastasse tudo isso, o grande estrategista Gilberto Kassab e sua turma foram ao TSE para pedir a recriação do PL, um novo partido de proveta destinado a tirar parlamentares do PMDB e de outros partidos de oposição, exatamente a causa inicial do enfrentamento de Renan & Cunha com o governo. "Com certeza, isso agravará o quadro político", reagiu Eduardo Cunha imediatamente, assim que soube da manobra.

A barafunda política em Brasília chegou a tal ponto que, agora, é o PMDB velho de guerra, sempre faminto por verbas e cargos, quem propõe a redução dos 39 ministérios pela metade e se coloca contra o corte de benefícios trabalhistas e previdenciários.

Fico aqui a me perguntar: o que falta ainda o governo fazer para piorar as coisas?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ddd Ponha se no lugar de Dilma: O que você faria?

O título acima é inspirado no livro Ah, se eu fosse presidente _ O Brasil ideal na opinião de grandes brasileiros famosos e anônimos, organizado pelo jornalista Sidney Rezende, que acaba de ser lançado pela Alta Books Editora.

Ponha-se no lugar de Dilma: o que você, caro leitor, faria se fosse presidente?

É impressionante como agora todo mundo sabe o que a presidente Dilma Rousseff deve fazer para sair da encalacrada em que se meteu, da mesma forma como se comentava o que Felipão deveria fazer com a seleção brasileira durante a Copa do Mundo. Em lugar do "Fora Felipão", entrou o "Fora Dilma".

O nível das conversas é mais ou menos o mesmo. Nunca os brasileiros falaram tanto de política, a todo momento, em todo lugar, nem mesmo no auge do segundo turno da campanha presidencial do ano passado.

"Eu não quero saber de política, eu não gosto disso", cansei de ouvir até outro dia, quando o assunto surgia numa roda. Pois neste momento está acontecendo exatamente o contrário. Isto tem um lado bom, o interesse em discutir os destinos do país, e revela, ao mesmo tempo, um assustador desconhecimento sobre como funcionam nossas instituições.

Chuta-se para todo lado e qualquer boato ouvido no rádio, espalhado nos táxis ou lido nas redes sociais vira verdade absoluta. Tem gente que se gaba de não pagar mais impostos, "para não entregar meu suado dinheiro aos vagabundos do bolsa família", sem se dar conta de que está confessando um crime. Pelas leis em vigor, afinal, quem sonega pode ir para a cadeia

Este ano, os procuradores da Fazenda Nacional calculam que a sonegação de impostos baterá nos R$ 500 bilhões _ ou seja, pelo menos dez vezes mais do que o governo pretende economizar com o pacote fiscal. E todas as corrupções somadas não chegam nem perto desta sangria incontrolável do Tesouro Nacional, mas ninguém quer falar disso, não dá manchete.

Outros não fazem a menor distinção entre as diferentes responsabilidades constitucionais dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, atribuindo todos os nossos males, genericamente, ao "governo do PT", e colocando a culpa em Dilma Rousseff, que, diga-se a bem da verdade, contribuiu bastante para que chegássemos a esta situação.

Discussões histéricas e estéreis se multiplicam em todos os ambientes sociais, misturando ignorância e má-fé, como se o Brasil fosse acabar amanhã. Neste clima, confesso, estou pela primeira vez na vida preocupado com o futuro _ da minha família e do país.

Depois de ficar uma semana fora do Balaio e procurando me manter afastado do noticiário, em defesa da minha saúde mental, bastaram algumas horas na volta a São Paulo para sentir este ar pesado que nem as chuvas dos últimos dias conseguiram levar embora.

Cada um tem sua solução mágica para resolver todas as crises de uma vez, do impeachment da presidente à prisão de todos os políticos, da renúncia à volta dos militares ou a novas eleições, de um grande diálogo nacional ao encolhimento do ministério, do fechamento dos partidos à convocação do papa Francisco para dar um jeito no Brasil.

Além de economistas e técnicos de futebol, viramos agora todos estrategistas políticos, embora a maioria nem saiba do que se trata.

Virou o Samba do Indignado Doido.

Já que dar palpite não custa nada, eu mesmo pensei no que faria se fosse eleito presidente da República (Deus me livre!), atendendo ao pedido do Sidney Rezende para contribuir com o livro citado na abertura deste texto. Escrevi antes das eleições de outubro:

"Antes mesmo de tomar posse, chamaria os lideres de todos os partidos e representantes da sociedade civil para discutir um projeto de reforma política ampla, geral e irrestrita que seria enviado ao Congresso Nacional no primeiro dia do meu mandato. O ideal seria discutir os pontos centrais deste projeto durante a própria campanha eleitoral, o que nenhum candidato fez até agora. Sem isso, qualquer outra proposta de mudança no país seria inútil, mera demagogia, inviável. Com o atual sistema político-partidário-eleitoral, o Brasil é um país ingovernável, seja quem for eleito presidente da República".

Infelizmente, minhas piores premonições se confirmaram, bem mais cedo do que eu esperava.

Vida que segue.

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Caros leitores,

estarei ausente do Balaio a partir desta terça-feira, dia 17, por um motivo justo: vou cuidar da saúde.

Volto em uma semana, dia 24, ou a qualquer momento, em edição extraordinária (espero que não seja necessário).

Deixo com vocês uma reflexão sobre o nosso país e a nossa imprensa, do ponto de vista de um repórter que acompanhou tudo de perto nos últimos 50 anos.

Até lá.

Ricardo Kotscho

***

A convite da Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo, apresentei na manhã desta segunda-feira (16) uma aula magna para os cursos de Jornalismo, fazendo um balanço da minha carreira, da imprensa e da vida do País nestes últimos 50 anos.

Transcrevo abaixo o texto da palestra:

O PAÍS E A IMPRENSA NA ENCRUZILHADA

Ricardo Kotscho

Universidade Metodista/Aula Magna/16.3.2015

Bom dia,

Antes de mais nada, quero agradecer aos professores Eduardo Nunomura e Rodolfo Martino pelo honroso convite para estar com vocês aqui hoje.

Como não sou professor e não sei falar de improviso, vou ler este texto que preparei baseado num roteiro que eles me mandaram.

 1.   50 anos depois (1964-2014)

  Comecei minha carreira trabalhando em jornais de bairro de São Paulo no ano de 1964, logo após o golpe que jogou o país numa ditadura militar por longos 21 anos.

Já completei, portanto, 50 anos de profissão.

E sobrevivi, como vocês podem constatar...

Ponham-se agora no meu lugar e imaginem o que vocês poderiam dizer daqui a 50 anos, ao fazer um balanço do que se passou neste período, e ainda fazer uma projeção sobre o que pode acontecer nos próximos 50.

Pois foi mais ou menos o que me pediram. Não é fácil, mas vou tentar.

Para começo de conversa, vivemos hoje a mais grave crise enfrentada pelo nosso país e pelo jornalismo desde que me conheço por gente.

O País e a imprensa estão numa encruzilhada.

Das decisões que tomarmos agora vai depender o futuro da nossa profissão e do nosso país.

Para onde estamos indo? Aonde queremos chegar?

Estas são as perguntas que devemos nos fazer. Encontrar as respostas é uma tarefa de todos.

Não dá para separar o profissional do cidadão, assim como a história recente do país é umbilicalmente ligada ao papel exercido pela imprensa em cada momento.

Com raríssimas exceções, a chamada grande imprensa teve uma participação decisiva na armação do golpe cívico-militar de 1964, assim como, duas décadas depois, teria importante papel no processo de redemocratização do país.

Escrevo antes das marchas programadas para este domingo, com o apoio ostensivo da mesma imprensa, que continua nas mãos dos mesmos donos, cada vez mais determinados a derrubar o governo eleito, assim como já fizeram antes com Getúlio e Jango.

Só espero que a história não se repita, nem como farsa.

 2. Vida de repórter

Atravessei a maior parte destes 50 anos trabalhando como repórter _ a melhor profissão do mundo, segundo Gabriel Garcia Marquez.

Dos jornais de bairro de Santo Amaro passei direto para o Estadão, o principal jornal brasileiro da época, em 1967, quando eu tinha 18 anos.

Entrei como estagiário e só recebi meu primeiro salário seis meses depois.

Quer dizer, pagava para trabalhar, graças à ajuda da minha mãe, que, aliás, não queria que eu fosse jornalista, como o pai dela.

No Estadão, onde fiquei mais de 10 anos e que foi minha grande escola (eu não terminei nenhuma faculdade), passei pelas mais diferentes funções, chegando a editor, chefe de reportagem e repórter especial.

Dali saí para ser correspondente do Jornal do Brasil na Europa por dois anos, e depois trabalhei em praticamente todos os principais veículos impressos e televisivos do país, com exceção da revista Veja.

Esta história é muito longa, poderia passar dias aqui contando, mas vocês podem encontra-la no livro “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, publicado pela Companhia das Letras, em 2006.

Neste resumo, prefiro falar da minha paixão pela reportagem, um amor à primeira vista e que nunca acaba.

Repórter será sempre o coração e a alma de qualquer redação, em qualquer plataforma. É a melhor maneira de você conhecer pessoas e lugares, descobrir novidades e ver a vida acontecendo para poder contar depois.

3.   Histórias humanas

 “Poesia é encontrar uma árvore esquecida à beira da estrada e glorifica-la.

O jornalista de raça é um mágico. Transfigura o anônimo em notável, celebra o desapercebido, enquadra o texto no contexto. Enquanto nós nos limitamos a olhar, ele vê as coisas, pessoas, a paisagem. Vê e conta”.

Esta é a melhor definição de repórter que já li na vida. Quem a escreveu a mão foi o velho amigo Ulysses Guimarães, no prefácio do meu livro “Explode um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas”, publicado pela Editora Brasiliense em 1984.

É chato falar da gente mesmo. Afinal, repórter é pago para escrever sobre a vida dos outros... Por isso, prefiro transcrever outro trecho do prefácio do doutor Ulysses em que ele fala do meu trabalho _ o maior prêmio que já recebi na vida.

“Andei com ele por praças e ruas deste infindável país. Entupidas de gente, de berros e de gestos de revolta e de esperança. Quando lia suas reportagens na Folha de S. Paulo ficava surpreendido e encantado.

“Como é que o Ricardo viu aquele jovem frenético, registrou a originalidade daquele dístico, enxergou aquela mulher chorando, ouviu daquele velho as histórias de outros comícios e outros personagens?

“Ele não se absorve nas estrelas do acontecimento. Sua pena é também alto-falante da multidão, assegura-lhe o papel de personagem no grande e terrível drama social brasileiro.

Brasília, 18 de abril de 1984

Deputado Ulisses Guimarães”.

Pois é, nada tenho a acrescentar: repórter é exatamente isso, não tem muito segredo.

Uma vez um jornalista acadêmico me criticou por só escrever “matérias humanas”. E eu lhe respondi, perguntando: e o que queria que eu fizesse, matérias animais, minerais, siderais, se nosso ofício é exatamente falar da aventura humana para humanos?

São cada vez mais raras estas matérias na nossa imprensa, e eu não sei dizer se isto se deve às empresas ou aos profissionais que não demonstram mais interesse e tesão em fazê-las.

Acho triste isso porque o Brasil é um país em que você tropeça em boas histórias, em qualquer lugar.

Estão só esperando alguém para conta-las. Pode ser você, que está aqui me ouvindo, por exemplo... Basta levantar a bunda da cadeira, largar o telefone e a internet, sair da redação e ir para a rua. Uma boa história sempre encontrará lugar para ser publicada, nem que seja só no teu Facebook.

4.   No lugar certo, na hora certa

Por insondáveis mistérios do destino, uma coisa que sempre me ajudou na carreira foi estar no lugar certo, na hora certa, tanto nos empregos como nas reportagens.

Isso não dependeu só de sorte, mas também da disposição de correr o risco de mudar quando não me sentia bem num lugar ou procurar um novo ângulo para uma velha história.

Até hoje, nunca fui demitido de um emprego. Nunca dei a nenhuma empresa o prazer de me mandar embora e me dei bem nas trocas que fiz, não tenho arrependimentos.

Assim, trabalhei nas principais redações do país nos melhores momentos das diferentes empresas e depois acabei voltando para algumas delas.

Certamente isso não aconteceu pelos meus belos olhos nem por ter bons amigos. Por mais que você já tenha feito, tem que estar sempre disposto a mostrar serviço, não recusar uma pauta, acreditar em todas.

Pautas raramente caem do céu. Quando comecei, nem pauteiro existia nas redações. É você que precisa correr atrás dos bons assuntos, ter iniciativa, ficar sempre antenado, cultivar fontes e chegar cedo para estar no lugar certo na hora certa.

Um bom caminho é não ser arrogante, não achar que você já sabe tudo e se preparar bem antes de sair a campo, descobrir bons personagens e traçar um roteiro para não perder tempo.

Hoje, com o santo doutor Google, isso ficou muito mais fácil, e não é vergonha consulta-lo para saber como se escreve determinada palavra. Feio é escrever errado e não admitir o erro.

Uma vez, no final dos anos 1970, quando era correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, me mandaram cobrir uma importante reunião de chefes de Estado europeus na Dinamarca.

A discussão era sobre bombas de nêutrons, e eu não tinha a menor ideia do que se tratava. A reunião já tinha começado, não deu tempo de fazer uma pesquisa. Era um sábado à tarde, fui correndo para o aeroporto.

A reunião corria a portas fechadas e eu nem sei falar inglês. Estava no mato sem cachorro. Por sorte, encontrei lá um jornalista alemão, da revista “Der Spiegel”, que era especialista no assunto e me explicou tudo o que estava acontecendo. Mandei matéria no mesmo dia. E, além de garantir meu emprego, fui muito elogiado, acharam que eu era um gênio... Se eles soubessem...

5.   Amigo e assessor de Lula

Quando voltei da Alemanha, no final de 1978, fui trabalhar na revista IstoÉ com o Mino Carta e logo ele me mandou a São Bernardo do Campo para entrevistar um tal de Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, que eu não conhecia pessoalmente.

Para mim, Lula era só uma pauta, mas logo descobriria que São Bernardo, palco das grandes greves, tinha se transformado no principal centro de resistência à ditadura, atraindo todo tipo de gente em torno do sindicato.

Lula não foi muito com a minha cara. Como eu usava barba, e ele não, me chamou de “mais um intelectualzinho da USP que vem aqui pra me encher o saco”. Mas logo ficamos velhos amigos, graças ao Mino Carta e a um amigo comum, o Frei Betto.

Dez anos depois, fui visita-lo no hospital onde ele tinha feito uma cirurgia, pouco antes de começar a campanha presidencial de 1989, a primeira depois da volta das eleições diretas. Nossas famílias já eram muito próximas e acho que por isso ele me convidou para ser seu assessor de imprensa. Eu nem era filiado ao PT, como não sou até hoje.

Para encurtar a história, fui seu assessor em 1989, depois em 1994 e, finalmente, em 2002, quando Lula foi eleito e me chamou para ser seu secretário de Imprensa, cargo que ocupei por dois anos. Continuo seu amigo até hoje, mas temos nos falado pouco ultimamente.

Neste trabalho de assessor, conheci o outro lado do balcão e vi como é a conflituosa relação da imprensa com o poder.

Aprendi muito, tenho orgulho do trabalho que fiz no governo, mas não recomendo este serviço para ninguém. Não faz bem para a saúde nem para a alma. É melhor ser repórter.

6.   País melhor, imprensa pior

Olhando para trás, se for comparar o Brasil de quando comecei a trabalhar na profissão com o de hoje, só posso dizer que melhoramos muito nestes 50 anos, progredimos em todas as áreas da vida nacional, menos na imprensa.

Claro que os barões da imprensa e seus porta-vozes vão dizer exatamente o oposto. Para eles, o Brasil está se acabando, afundando na lama da corrupção, nunca esteve tão ruim. E a mídia brasileira, ao contrário, é a sétima maravilha do mundo _ moderna, independente, com profissionais da maior competência, o único orgulho nacional.

O fato é que, ao longo dos últimos anos, criou-se imenso abismo entre a imprensa e o país, um cada vez mais distante do outro, vivendo realidades completamente diferentes.

O Brasil real não está na mídia e a mídia fala outra língua, vive em outro país.

Encontram-se ambos agora numa encruzilhada. A partir do momento em que a grande imprensa assumiu oficialmente a liderança da oposição _ como anunciou a então presidente da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito _ tivemos um desequilíbrio na relação entre os poderes.

Chamada de quarto poder, a imprensa passou gradativamente a ocupar o papel dos outros três, querendo se tornar o primeiro e único. Passou a comandar a pauta política, a julgar o que é certo ou errado e a criar suas próprias leis, que podem ser resumidas numa só: a lei do mais forte.

Ao mesmo tempo, a informação se democratizou com o advento da internet e das novas mídias, a maior revolução nas comunicações humanas desde que o alemão Johannes Gutenberg inventou a imprensa, como a conhecemos hoje, cinco séculos atrás.

Podemos agora ser todos receptores e emissores de informações e opiniões, para o bem ou para o mal, dependendo do uso que fazemos deste instrumento. Isto não quer dizer que os jornalistas nos tornamos dispensáveis, muito ao contrário: na zona em que se transformou a blogosfera, nunca fomos tão necessários para apurar, selecionar e editar informações confiáveis.

Por isso, urge a criação de um marco regulatório das comunicações, para estabelecer regras do jogo claras e civilizadas. Mas este debate foi interditado pela velha mídia familiar, a mais retrógada do mundo, que ainda manda no Congresso Nacional e domina o Judiciário.

  1. O mercado e o futuro

Vamos agora apagar o cenário pouco animador descrito acima, mas que é a realidade destes dias difíceis que vivemos no momento, no país e na imprensa.

Não posso vender ilusões para vocês, nem brigar com os fatos.

O fato, porém, de ser assim hoje, não quer dizer que será assim amanhã e sempre.

Já foi muito pior, acreditem. Era muito mais difícil ser jornalista em 1964 _ quando o mercado era restrito a meia dúzia de redações em cada cidade e a liberdade foi-se tornando cada vez menor _, do que agora, que as novas mídias abriram infinitas possibilidades de trabalho.

Vamos fazer de conta que estamos em 2065.

Olhando para trás, o que veremos daqui a 50 anos?

É nisso que vocês precisam pensar e acreditar: não se contentem com o que existe, mas com o mundo que vocês poderão criar.

Na encruzilhada, estamos vivendo o final de uma, época em vários sentidos e latitudes _, da falência do velho sistema político à crise da velha imprensa.

Crise em grego quer dizer oportunidade. E é nos momentos de crise que surgem as oportunidades de mudança.

Eu mesmo, que já não sou tão jovem, mudei minha vida profissional faz dez anos, ao trocar a mídia impressa pela eletrônica.

Virei blogueiro e depois comentarista de televisão, coisas com que nunca tinha sonhado na vida.

E continuei fazendo reportagens para a revista  Brasileiros, que ajudei a criar, até onde a saúde permitiu.

Não senti nenhuma diferença ao trabalhar para diferentes meios. Para mim, tanto faz qual é a plataforma: eu tenho que ter uma boa história, uma novidade para contar.

Esta é a natureza da nossa profissão e isto nunca vai mudar: precisamos estar sempre de olhos e ouvidos bem abertos para ver e ouvir o que há de novo, algo capaz de surpreender nossos leitores, ouvintes, internautas ou telespectadores, tanto faz.

Se você não acha ou não gosta do emprego, inventa um, como costuma dizer o Mino Carta.

Hoje, com a internet, ficou muito mais fácil.

Deixem de lado os preconceitos e os medos, e fiquem bem atentos aos sinais do mercado, que mudam a toda hora.

Só para vocês terem uma ideia, a maioria dos empregos já não está nas redações dos grandes veículos, mas nas assessorias de imprensa, nas agências de comunicação, na imprensa comunitária e sindical _ ou mesmo em casa. Basta ter uma boa ideia e um computador razoável.

Sim, cada vez é maior o número de profissionais que criaram um nicho de mercado e ganham a vida sem precisar sair de casa.

É até engraçado eu dizer isso porque passei a vida toda dizendo que lugar de repórter é na rua.

Ainda acho, mas as coisas mudam e a gente tem que se adaptar à realidade.

Tem espaço para todo mundo em qualquer lugar. Só precisamos descobrir aonde, e ir atrás, definir o que a gente quer, estabelecer a nossa meta e a nossa ética.

O importante é fazer o que a gente gosta e ganhar um dinheiro para pagar as contas no fim do mês.

Não é a função, o cargo ou a empresa que vai fazer o bom profissional, é o contrário.

Nesta profissão, só não vale ser infeliz, ficar reclamando da vida.

Vocês escolheram a melhor profissão do mundo e vivem no melhor país do mundo.

Conheci, trabalhando, este país inteiro, de ponta a ponta, e boa parte do mundo. Sei do que estou falando.

Posso garantir a vocês que vale a pena ser jornalista e não é preciso sair do Brasil para ser feliz.

Espero que vocês possam dizer a mesma coisa daqui a 50 anos. Boa sorte!

Já falei demais.

Agora, vamos conversar.

Obrigado pelo convite.

Ricardo Kotscho

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paulista Governo não tem mais o que dizer; fim de um ciclo

Manifestantes reunidos na Avenida Paulista neste domingo

Acabei de participar há pouco de um Jornal da Record News especial, ao lado de Heródoto Barbeiro, Nirlando Beirão e Aldo Fornazieri, em que apresentamos um resumo e comentamos os principais fatos e desdobramentos deste dia 15 de março de 2015, quando 1,5 milhão de brasileiros foram às ruas para protestar contra o governo de Dilma Rousseff, marcando um divisor de águas na nossa vida política.

Ao sair de casa, na confusão da região próxima à avenida Paulista, fui abalroado por um carro que vinha de marcha-ré na contramão e ficou em cima do meu pé. Eu sei que vocês não têm nada com isso, mas preciso explicar o motivo deste texto atrasado, ligeiro e breve que publico abaixo.

Na abertura do programa, ouvimos o pronunciamento e a entrevista coletiva concedidos no final da tarde pelos ministros da Justiça, José Eduardo Cardoso, e da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, em nome da presidente, que passou a tarde reunida com seu gabinete de crise no Palácio da Alvorada.

Não queria estar na pele deles. Ficou claro que o governo não tem mais nada de novo para dizer diante do tamanho da crise e das manifestações que duraram o dia todo, em todas as regiões do país. E quem é contra o governo não tem mais paciência para ouvir. Tanto que, bem na hora em que eles começaram a falar, começou outro panelaço em  várias cidades do país.

Ficou claro no dia de hoje que está terminando mais um ciclo político no Brasil, o da Nova República, a do chamado presidencialismo de coalização. A corda está arrebentando por todo lado e parece que o governo federal e o Congresso Nacional ainda não se deram conta da gravidade do momento que estamos vivendo.

Foi também num dia 15 de março, exatamente 30 anos atrás, que comemoramos o fim da ditadura, com a posse que deveria ser de Tancredo Neves, o primeiro presidente civil pós-64, e que acabou sendo de José Sarney, que deu início ao ciclo.

O divisor de águas entre a ditadura e a democracia tinha sido a campanha das Diretas Já, em 1984. O último governo militar ainda se arrastou até o ano seguinte, mas o seu ciclo havia terminado.

A grande diferença entre estes dois 15 de março que ficarão na história é que, desta vez, não sabemos o que virá depois. Ao contrário de 1984, hoje não temos partidos nem lideranças políticas capazes de comandar o processo, nem a menor ideia do que acontecerá amanhã, nem depois de amanhã.

Pelas falas de Cardozo e Rossetto, ficamos com a impressão de que o governo Dilma esgotou sua munição e já não sabe mais o que fazer para acalmar as massas. Os dois falaram novamente em diálogo, que a presidente anunciou no dia da sua reeleição e até agora não colocou em prática nem dentro da própria base aliada, no pacote anticorrupção, prometido ainda durante a campanha eleitoral, na reforma política e no fim do financiamento privado.

Acontece que tudo isso já foi falado antes, e não se mostrou capaz de apontar horizontes nem devolver esperanças. Quem ainda quer diálogo com um governo sem rumo nem norte? Quem acredita em pacotes, sejam fiscais ou de combate à corrupção?

Reforma política depende dos políticos, muitos deles investigados na Lista do Janot. Os poderosos Gilmar Mendes, ministro do STF, que não devolve o processo, e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, já anunciaram que, por eles, o financiamento privado de campanhas, que está na raiz de todas as corrupções, nunca vai acabar.

É este o resumo da opera.

Vida que segue.

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Está explicada a demora na divulgação da lista dos nomes de 8.667 brasileiros encontrados nas contas secretas do HSBC da Suíça, que foi entregue ao jornalista Fernando Rodrigues. Graças ao trabalho dos repórteres Chico Otavio, Cristina Tardaguila e Ruben Berta, de O Globo, em parceria com o UOL, ficamos sabendo que entre eles aparecem as famílias de alguns barões da mídia, seus herdeiros e jornalistas famosos.

Ao todo, há pelo menos 22 empresários e sete jornalistas brasileiros entre os donos destas contas. Todos os que foram localizados pelo jornal negaram a existência das contas ou qualquer irregularidade.

Surgiram nos documentos, os nomes de proprietários do Grupo Folha/UOL, da família Frias; da família Saad, dona da Rede Bandeirantes, e de Lily de Carvalho, viúva de Roberto Marinho, do Grupo Globo, ambos já falecidos.

Os maiores valores encontrados estão nas contas da família Queiroz, dona da TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo no Ceará (em 2006/2007, eram US$ 83,9 milhões) e de Aloysio de Andrade Faria, do Grupo Alfa/Rede Transamérica (US$ 120,6 milhões).

Entre outros, aparecem também os nomes de Luiz Fernando Ferreira Levy, da família proprietária da "Gazeta Mercantil", que foi à falência e está sendo processada pelos antigos empregados; Dorival Masci de Abreu, da Rede CBS de rádios; Fernando João Pereira dos Santos, do grupo João Santos; João Lydio Seiler Bettega, dono das rádios Curitiba e Ouro Verde FM, do Paraná, e o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, do SBT, que tinha aplicados US$ 12,5 milhões em 2007..

Na lista dos sete jornalistas clientes do HSBC estão Arnaldo Bloch (O Globo); José Roberto Guzzo (Editora Abril); Mona Dorf (rádio Jovem Pan);  Arnaldo Dines, Alexandre Dines, Debora Dines e Liana Dines, filhos de Alberto Dines. Fernando Luiz Vieira de Mello (ex-Jovem Pan), falecido em 2001, teve uma conta encerrada em 1999. As contas de Bloch e Guzzo também estavam encerradas.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

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Atualizado às 17h50

Aos leitores:

neste domingo, a partir das 19 horas, estarei no Jornal da Record News (canal 78 na NET), ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão, para comentar as manifestações de protesto organizadas em todo o país contra o governo da presidente Dilma Rousseff. A emissora fará a cobertura completa durante todo o dia.

Na segunda-feira, a partir das nove da manhã, participarei de aula magna na Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo. O evento é destinado a todos os alunos de Jornalismo da instituição, mas estará aberto à comunidade. Inscrições podem ser feitas pelo e-mail:

rodolfo.martino@metodista.com.br

***

O Balaio errou. Sejam quais forem os números verdadeiros, se os da CUT, da Polícia Militar ou do Datafolha, foi grande a participação dos movimentos sociais organizados nos atos contra o impeachment e em defesa da presidente Dilma Rousseff, pelo menos em São Paulo, na tarde desta sexta-feira.

"Quem vai para as ruas defender Dilma-2?", perguntei no título do post anterior, fazendo uma previsão pessimista com base em declarações dadas na véspera pelos próprios organizadores da manifestação, como se pode ver na abertura da matéria.

A resposta foi dada por milhares de pessoas que foram às ruas, apesar da chuva forte. O tom predominante da manifestação foi a defesa da democracia contra o terceiro turno que vem sendo tentado de diferentes formas pelos derrotados nas eleições de outubro.

Como nas pesquisas eleitorais e suas famosas margens de erro de dois pontos para mais ou para menos, nem importam tanto os números discrepantes _ 12 mil, segundo a PM de Alckmin, 41 mil nos cálculos científicos do Datafolha ou os 100 mil anunciados pela CUT. Tirando a média, foi mais gente para as ruas do que o próprio governo esperava.

O clima nas ruas pode ser resumido em dois cartazes empunhados pelos manifestantes:

"Avante, Dilma, estamos na luta".

"Derrotados nas urnas, atacam a Democracia. Não ao golpe!".

Outros cartazes e faixas traziam críticas às medidas provisórias 664 e 665 do pacote fiscal, pediam plebiscito para fazer a reforma política e a reforma do judiciário, pena de morte para os corruptos, redução da taxa de juros, mas nenhuma era contra a presidente Dilma. Do outro lado, depois que a passeata pró-Dilma seguiu da avenida Paulista para a praça da República, apareceram apenas 60 gatos pingados com camisetas pretas do grupo "Revoltados Online", em defesa do impeachment.

Em outras 22 capitais, as manifestações foram fracas, mesmo segundo os números dos organizadores da CUT, do MST e da UNE, bem maiores do que os calculados pelas Polícias Militares dos Estados: no Rio, apenas 5 mil (1.500 para a PM); em Belo Horizonte, 10 mil (1.500 para a PM); Recife, 3 mil (700 para a PM); Salvador, 4,5 mil (1.800 para a PM) e 1.000 em Brasília, igual para os dois lados. Somando tudo, deu 169.800 em todo o país, segundo a CUT, e 26.050, para as PMs.

Para quem gosta de comparar números, a média do público pagante dos quatro clubes grandes no campeonato paulista deste ano é de 15 mil pessoas por partida, quase igual ao do Flamengo, no Rio (16 mil).

Será inevitável agora a comparação com as manifestações contra Dilma programadas para este domingo, em cerca de 70 cidades, organizadas por mais de 20 grupos organizados nas redes sociais, com objetivos políticos distintos e bandeiras variadas, que vão do combate à corrupção, passando pelo impeachment e até à pregação de um golpe militar.

Curioso é que todos se declaram apartidários. O PSDB informou que só apoia estes grupos à distância, sem participar da organização. Artistas globais e o tucano Aécio Neves divulgaram vídeos com textos semelhantes convocando a população para os protestos. "Vá para a rua defender o Brasil", pediu Aécio, mas ele mesmo ainda não sabe se vai.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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