dilma coletiva ny 20110921 Novo Ibope dá vitória de Dilma no primeiro turno

Em tempo (atualizado às 12h10): o Ibope acabou de confirmar os números antecipados abaixo que dão vitória a Dilma no primeiro turno.

Os números do novo Ibope que será divulgado nesta quinta-feira (22) vazaram às 7h13 da manhã, em nota publicada por Lauro Jardim, na coluna Radar, do portal da revista Veja: Dilma Rousseff subiu de 37% para 40%; Aécio Neves, de 14% para 20% e, Eduardo Campos, de 6% para 11%. Pastor Everaldo tem 3% e os outros nanicos juntos outro tanto. Ou seja, Dilma tem três pontos a mais do que seus adversários somados (37%).

O que isso quer dizer?

* Em meio a um tornado de greves selvagens e protestos violentos, a presidente candidata à reeleição não só parou de cair como subiu três pontos, fora da margem de erro, garantindo a vitória em primeiro turno, se as eleições fossem hoje, ao contrário do que apontaram as últimas pesquisas do Datafolha e do Sensus.

* Seus dois principais adversários também cresceram, reduzindo os índices de brancos, nulos e indecisos apontados pelas pesquisas anteriores. Aécio chegou ao patamar dos 20 pontos, ainda bem abaixo dos últimos candidatos tucanos nesta altura da campanha, e Eduardo, pela primeira vez, aparece com dois dígitos no Ibope.

* A se confirmarem estes números, a recuperação de Dilma surge num momento crucial da campanha, em que são definidas as alianças e, portanto, a divisão do tempo de TV, quando dissidentes da base aliada já ameaçavam abandonar o barco da presidente candidata à reeleição e setores do PT ainda insistem no "volta, Lula".

* Analistas, colunistas e cientistas políticos agora vão quebrar a cabeça para explicar como a presidente conseguiu inverter a curva que apontava para baixo nas pesquisas mais recentes, com o seu governo acuado pelo bombardeio de notícias negativas na mídia e pelas manifestações anti-Copa, que geraram um clima de mau humor e mal-estar generalizados na população, principalmente nas grandes cidades, onde os especuladores do mercado financeiro já estavam salivando, esfregando as mãos à espera de novas quedas da presidente nas pesquisas.

* A maior exposição de Dilma, que agora viaja, inaugura obras e faz discursos quase todos os dias, aliada à repercussão do programa do PT na televisão, em que o partido mostrou as realizações do governo, foram logo as causas apontadas para esta guinada, mas só elas não explicam os números do novo Ibope.

* Mais importante do que tudo, foi outro número divulgado hoje: a taxa de desemprego em abril caiu para 4,9%, o menor índice da série histórica para esta época do ano. Emprego e renda são, como sabemos, os paus da barraca do governo petista que resistem a todos os achaques na área econômica.

Em resumo: as esperanças da oposição midiática-financeira-partidária concentram-se agora cada vez mais em tentar desgastar o governo com a CPI da Petrobras e os protestos contra a Copa do Mundo, que começa daqui a três semanas. Ao mesmo tempo, há um movimento claramente organizado para deflagrar campanhas salariais todas ao mesmo tempo, como no transporte público, na educação e nas polícias, para levar o caos às grandes cidades.

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FOTO 1 Greve selvagem e banditismo sindical: quem paga por isso?

Estamos sendo vítimas há dois dias de uma greve selvagem promovida pelo banditismo sindical de uma dissidência dos motoristas de ônibus e todos se perguntam quando isso vai parar. Ninguém sabe. Até agora, ninguém foi preso. São Paulo, a maior cidade do país, virou uma terra de ninguém, onde impera o vale-tudo. Ônibus são abandonados, muitos atravessados no meio da pista, nos principais corredores de trânsito, com o pisca-ligado e pneus furados, sem as chaves no contato. Isso é crime, mas ninguém faz nada, a polícia só assiste placidamente ao vandalismo organizado.

Dois milhões de paulistanos foram diretamente atingidos pela falta de transporte, mas outro tanto ficou preso no caos dos congestionamentos, que desde terça-feira nos impedem de chegar ao trabalho e voltar para casa, ir à escola ou ao médico. Quem vai pagar por isso?

Esta greve, deflagrada à revelia do sindicato da categoria, que já havia fechado um acordo com as empresas, aceitando 10% de aumento salarial, não tem líderes nem interlocutores, assim como os black blocs mascarados, mas seria muito fácil identificar os responsáveis, se esta fosse a vontade dos responsáveis pela segurança pública.

O controle das garagens de 14 viações que paralisaram 10 dos 33 terminais de ônibus da capital nesta quarta-feira, deve ter registrado quais motoristas saíram com quais veículos nas últimas 48 horas. Basta a polícia comparar com os ônibus que foram abandonados nas ruas e levar todos presos para a delegacia mais próxima.  Estranhamente, nenhuma empresa se manifestou sobre isso até o começo da tarde.

Os prejuízos causados à indústria e ao comércio, obrigados a fechar suas portas ou dispensar os funcionários mais cedo, são incalculáveis, assim como os transtornos causados aos cidadãos contribuintes, impedidos de exercer seu sagrado direito de ir e vir.

Sem aviso prévio, a bandidagem sindical resolveu parar a cidade e deixou atônitas as autoridades do município e do Estado. O governador Geraldo Alckmin, como de hábito, manteve um obsequioso silêncio. Já o prefeito Fernando Haddad acusou os grevistas de utilizar "tática de guerrilha" e ameaçou recorrer ao Ministério Público, à Polícia Federal e à Polícia Civil de São Paulo, que hoje também estava em greve. Providências concretas, nenhuma, a não ser suspender o rodízio de veículos.

Os passageiros dos ônibus que conseguiram sair das garagens e estavam circulando foram cercados por piqueteiros agindo livremente em vários pontos da cidade, ameaçando depredar os veículos, como informou o R7, às 15h28.   A 20 dias da Copa, é este o clima de guerra campal na cidade-sede do jogo de abertura entre Brasil e Croácia, no Itaquerão, estádio que ainda está em obras.

A quem está me achando muito pessimista, peço o favor de me dar pelo menos um motivo de otimismo. Agradeço desde já.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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esse Pesquisas silenciam sobre eleições para governadores

Quase toda semana sai uma, ou mais de uma pesquisa sobre a eleição presidencial. Nesta quinta-feira, o Ibope já deve divulgar um novo levantamento. Enquanto isso, embora no mesmo dia 5 de outubro tenhamos também eleições para governadores, nem me lembro quando foi publicada a última pesquisa dos grandes institutos sobre a situação dos candidatos nos Estados.

Este estranho silêncio de Datafolha e Ibope já chamou a atenção de muitos leitores deste Balaio, que não conseguem entender os critérios dos donos dos números, cada vez mais responsáveis pela divisão de recursos privados para financiamento de campanhas, alianças e, principalmente, o milionário tempo de televisão.

Procurei no Google para ver se tinha perdido alguma coisa importante de pesquisas sobre eleições estaduais. O último Datafolha que encontrei sobre a eleição para governador em São Paulo, por exemplo, é de começo de dezembro do ano passado. Os quatro principais candidatos estavam assim: Alckmin, 43%; Skaf, 19%; Kassab, 8%, e Padilha, 4%.

Na mesma época, a presidente Dilma Rousseff, segundo todas as pesquisas, estava reeleita já no primeiro turno. De lá para cá, Dilma caiu na intenção de votos e na avaliação do seu governo, enquanto os dois candidatos de oposição mostravam uma curva ascendente, como vimos nas manchetes das últimas semanas.

Será que a situação em São Paulo, ao contrário da eleição presidencial, continua a mesma, com a liderança folgada do governador Geraldo Alckmin, depois de todos os problemas com o abastecimento de água, o aumento da criminalidade e, portanto, da insegurança nos últimos meses? Nem se sabe se o ex-prefeito Gilberto Kassab será mesmo candidato, já que está negociando aliança tanto com os tucanos como com o PMDB e ignoramos qual foi o possível efeito no eleitor da propaganda dos partidos na televisão.

O quadro não é muito diferente no Rio de Janeiro, onde Ibope e Datafolha ainda não divulgaram pesquisas feitas este ano. A única que achei é do Instituto Gerp, publicada no final de abril, em que o quadro ainda estava bem indefinido, com o senador Marcelo Crivella, do PRB, liderando a pesquisa (18%), seguido de Anthony Garotinho (13%), Lindbergh Farias, do PT, (8%), o ex-prefeito Cesar Maia, do DEM, (7%) e o governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB, com 6%. Quase metade do eleitorado (45%) ainda não tinha candidato; 23% responderam que não votariam em nenhum deles e 22% estavam indecisos.

Em Minas, os últimos números que encontrei são ainda mais antigos e datam de agosto do ano passado. Segundo o desconhecido Instituto MDA, Fernando Pimentel, do PT, liderava a corrida mineira, com 38,1%; Clésio Andrade, do PMDB, que nem vai ser candidato, tinha 10,4% e, Pimenta da Veiga, do PSDB, 3,6%. Os eleitores que não indicaram nenhum dos candidatos chegavam a 53,7%.

Desta forma, até agora, tateando na escuridão das pesquisas, é impossível fazer uma previsão sobre o desempenho dos principais partidos nos três maiores colégios eleitorais do país, que serão fundamentais também na disputa para a presidência da República.

Qual o motivo deste longo silêncio dos grandes institutos, tão ativos na campanha presidencial, quando se trata das disputas estaduais? Antigamente, terminava-se dizendo: cartas para a redação. Agora, é mais fácil: se alguém souber a resposta, pode escrever na área de comentários do Balaio.

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 Por que tantos saem de casa só para barbarizar?

Pode ser jogo de futebol, parada gay ou um show de rock. A maioria das pessoas vai só para se divertir, mas tem cada vez mais gente que sai de casa só para barbarizar. Fico assustado ao ver que neste último final de semana, em São Paulo, tivemos pelo menos 18 arrastões na Virada Cultural, deixando dois baleados, dois esfaqueados e mais de 100 presos. É por isso que cada vez menos gente tem coragem de sair de casa para ir a estes eventos.

Sempre tivemos brigas em lugares tomados por multidões e onde corre muita bebida, mas eram casos isolados, nada programado ou planejado. Quem não gosta de muvuca, como eu, simplesmente não vai. Só que o que estamos vendo agora são vândalos organizados que se aproveitam da situação para infernizar a vida dos outros, mesmo os que estão apenas de passagem, tentando chegar a algum destino.

Quase todo final de semana, ruas e avenidas são interditadas por algum motivo, as vias em torno de estádios e casas de espetáculos ficam intransitáveis, somando-se àquelas improvisadas em ciclovias. Claro que todo mundo tem o direito de se divertir, mas desse jeito o espaço público vai ficando menor, tornando uma verdadeira gincana o simples ato de tentar circular pela cidade.

Já era assim durante a semana, mas de uns tempos para cá também aos sábados e domingos é difícil chegar no horário aos nossos compromissos. Como o transporte público é indigente, em breve teremos um carro por habitante e assim ninguém mais vai conseguir trafegar pela cidade, facilitando a ação dos bandos que fazem arrastões nos congestionamentos, armam barricadas e, por qualquer motivo, ateiam fogo aos ônibus.

A tudo assistimos bestificados, sem saber direito o que está acontecendo. Não me arrisco a responder à pergunta do título, até porque, não tenho a menor ideia. Só gostaria de entender. Sei que ruas e calçadas tornaram-se verdadeiras armadilhas, em que bandidos, carros e buracos disputam para ver quem faz mais vítimas. Vamos pedir socorro a quem? De vez em quando, tenho a impressão de que estamos numa guerra permanente de todos contra todos e esqueceram de me avisar para ficar em casa.

Só me resta dizer: pobre São Paulo, que fizeram de ti.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Como perguntar não ofende, gostaria que alguém me respondesse:

* Quando Gilmar Mendes vai devolver o processo que veta o financiamento de empresas privadas em campanhas eleitorais, que já foi aprovado por 6 a 1 pela maioria do STF, no momento em que o ministro pediu vista e impediu o final do julgamento no começo de abril? Só depois das eleições para que não possa entrar em vigor já este ano?

* Quando o governo paulista vai admitir que, apesar da inauguração do volume morto, já está faltando água em várias regiões do interior e da capital do Estado? Só depois das eleições? Não seria mais correto iniciar já um racionamento programado, antes que a situação se agrave ainda mais e não tenhamos mais água para racionar?

* Quando é que os internautas cada vez mais ensandecidos para ver quem é mais grosseiro no Fla-Flu em que se transformou a disputa política vão se convencer de que as redes sociais não são portas de banheiro?

* Quando é que oposição e situação vão parar de se acusar mutuamente e começarão a discutir os reais problemas do país na campanha eleitoral, apontando caminhos e renovando esperanças em lugar de jogar a culpa de todos os nossos males no adversário?

* Quando o governo Dilma vai sair da toca para enfrentar com ações e argumentos a ofensiva da mídia e da oposição? Só depois das eleições?

* Quando é que vão parar as manifestações contra a Copa do Mundo no Brasil? Só depois da Copa? Ou das eleições?

* Quando é que vai ser julgado o mensalão tucano e o cartel do trensalão em São Paulo? Só depois que os crimes prescreverem?

* Quando é que os ministros Mercadante e Mantega começarão a falar a mesma língua? Só depois das eleições?

Teria muitas outras perguntas a fazer neste domingo cinzento de outono, mas se alguém puder me tirar as dúvidas acima já ficarei bem satisfeito.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Torcida contra Copa é menor do que a da Portuguesa

O que aconteceu? Anunciadas pomposamente como o "Dia Internacional de Lutas Contra a Copa" por líderes sem cara e sem nome, as manifestações de protesto programadas nesta quinta-feira em todo o País e até no exterior, terminaram num retumbante fracasso e, mais uma vez, em atos de vandalismo. Luta mesmo se deu apenas entre black blocs e policiais, um vexame.

Aconteceu que este foi apenas mais um factoide midiático. Não apareceram mais do que 1.500 combatentes no Rio e em São Paulo; outros 2.000, em Belo Horizonte, 100, em Curitiba, 200, em Porto Alegre, 300, em Fortaleza, 100, em Salvador, e por aí foi. Ou seja, somando tudo, tinha menos gente do que num jogo da Portuguesa e mais policiais e jornalistas do que manifestantes.

Estão desmoralizando até os protestos. Agora, qualquer um, por qualquer motivo, pode fechar a avenida Paulista, região onde fica o maior complexo hospitalar do País. Logo de manhã, um grupo de ex-funcionários do Idort, que cuida dos telecentros da prefeitura paulistana, achou-se no direito de desfilar pela avenida, no horário de maior movimento, para cobrar salários atrasados. E o que nós temos a ver com isso?

Claro que, criado o clima e montado o cenário, movimentos de sem-teto e diversas categorias profissionais em campanha salarial, de policiais a professores, passando por metalúrgicos arrebanhados pelo impagável Paulinho da Força, principal aliado do candidato Aécio Neves, aproveitaram-se da ampla cobertura da imprensa para fechar ruas e avenidas em mais um dia de baderna e caos nas principais cidades do País.

Em Recife, foi pior. A exemplo do que já havia acontecido na Semana Santa em Salvador, durante a greve da Polícia Militar, em poucas horas, sete pessoas foram assassinadas, começaram os saques e o pânico tomou conta das ruas, com comércio e escolas fechando as portas. Foram convocadas tropas da Força Nacional e, mais uma vez, o Exército, enquanto o candidato Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, postava na rede social uma foto da família viajando de jatinho a caminho de São Paulo.

Vamos ter Copa, mas não vamos ter mais nenhum dia de paz até as eleições. São tantos interesses em jogo nesta antevéspera da Copa, juntando os político-eleitorais com os daqueles que querem apenas azucrinar a vida dos outros e aos que se aproveitam do momento para chantagear os governos, que o direito de ir e vir está provisoriamente suspenso. Nada indica que, apesar do fracasso de ontem, as manifestações possam parar por aí.

Policiais de todo o País, civis, militares, federais e rodoviários, já estão ameaçando fazer uma greve conjunta na próxima quarta-feira, dia 21. Em Pernambuco, os PMs pedem módicos 50% de aumento, ao passo que no Rio motoristas e cobradores se contentam com 40%. Num país em que a inflação está abaixo do teto de 6,5%, caso as reivindicações de todas as categorias em greve sejam atendidas, o que é inviável, os aumentos provocariam uma disparada nos preços para a alegria da turma que joga no quanto pior, melhor, que sabemos bem maior do que a torcida da Portuguesa. Aí certamente serão programadas novas manifestações, agora contra a inflação.

Aonde querem chegar? Só espero que outubro chegue logo.

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helio kotscho O desafio de escrever sem ir aonde o povo está

Hélio Campos Mello (à esquerda, claro) e Ricardo Kotscho fazendo reportagem

Todo artista tem de ir aonde o povo está (verso da música "Nos Bailes da Vida", de Milton Nascimento).

"Você tem de viajar mais pelo Brasil", aconselhou-me o velho amigo fotógrafo e editor Hélio Campos Mello, antes de começar a reunião de pauta da revista "Brasileiros", onde também trabalho, na última terça-feira.

Parceiros de incontáveis reportagens pelos fundões do país publicadas em diversos veículos, desde o final dos anos 70 do século passado, Hélio e eu sempre procuramos mostrar a vida real e os personagens que não estão na mídia. Por isso, ele estava preocupado com meu pessimismo de uns tempos para cá. Sempre brigamos muito, mas num ponto nunca discordamos: nossa imprensa, em seu partidarismo, acaba não mostrando a realidade em que vivem os brasileiros.

Neste caso, Hélio tem toda razão.  Mesmo sendo o criador e editor responsável pela revista de reportagens que este mês completa seis anos nas bancas, nunca deixou de viajar para ver de perto o que está acontecendo e contar em imagens e textos sua própria visão dos fatos. Por isso, continua sendo um otimista inveterado, sempre descobrindo coisas boas mesmo em momentos e situações de dificuldades como os que estamos vivendo nesta antevéspera de Copa do Mundo no Brasil.

Comigo acontece exatamente o contrário: imobilizado ao sofrer uma queda na rua no final de janeiro, que moeu meu cotovelo direito, ainda em tratamento, sem poder viajar para lugar nenhum, de repórter de rua, que sempre fui, virei comentarista sedentário, comendo pelas mãos dos outros, ou seja, no que leio e vejo na grande mídia, como quase todo mundo, aliás, e ouço nas conversas pelos quarteirões próximos ao meu prédio.

Na solidão do meu escritório em casa, fazendo exatamente o que sempre critiquei nos meus colegas jornalistas, sem poder ir aonde o povo está, acabo ficando desesperançado diante do avanço do noticiário negativo, me perguntando todo dia se vale mesmo a pena escrever sobre tantas desgraças sem ver uma luz no horizonte. Não é só artista, como diz o Milton em sua bela canção, que foi uma espécie de hino na Campanha das Diretas, mas nós jornalistas também deveríamos seguir seu conselho e tirar a bunda da cadeira.

Por morar atualmente no Jardim Paulista, o reduto mais conservador e tucano da cidade, encontro muita gente de mau humor, reclamando de tudo, só metendo o pau no governo, nos vizinhos, no trânsito, dos motoristas de táxi a grandes empresários, e é claro que o que escrevo acaba sendo influenciado por tudo isso porque, como sabemos, nenhum homem é uma ilha.

Leitores mais antigos do Balaio, que costumavam elogiar meu trabalho no blog, agora cada vez mais me criticam por entrar na pilha do catastrofismo da imprensa grande _ e os leitores geralmente costumam ter razão, como escrevi logo na apresentação deste espaço, seis anos atrás. Não mudei uma vírgula no que penso, continuo achando que não podemos brigar com os fatos, por mais que eles nos desagradem, mas reconheço que não é possível nada estar acontecendo de bom neste nosso país de 200 milhões de habitantes, 8,5 milhões de quilômetros quadrados, sétima economia do mundo.

De outro lado, por mais que eu seja são-paulino, não posso negar que o time está jogando muito mal, o elenco não convence, a diretoria pisa na bola e o técnico já viveu dias melhores, até porque isso não vai influenciar no resultado do jogo. Não adianta nada, como estamos cansados de saber, culpar os adversários e reclamar da imprensa corintiana.

Contribui para isso também, como acontece com outros jornalistas do cotidiano, que não fazem parte do exército do Instituto Millenium, a falta de informações e argumentos do governo para fazer o contraponto a este verdadeiro massacre de más notícias, já que secaram as minhas fontes no Palácio do Planalto, e ninguém quer mais falar, nem mesmo em off, para defender o governo e mostrar o chamado outro lado da realidade.

Limitam-se a me mandar a agenda e os discursos da presidente Dilma Rousseff.  Assim fica difícil mudar o disco das CPIs, pesquisas, bate-bocas eleitorais, protestos, obras inacabadas e superfaturadas, greves, denúncias, inflação, violência incontrolada e nuvens negras em geral que nos tiram o sol.

Em sua carta do editor na edição de abril, o valente e indestrutível Hélio Campos Mello, apenas um dia mais novo do que eu, mas muito mais disposto para enfrentar esta guerra de extermínio movida contra quem pensa diferente, foi buscar até uma palavra em alemão para qualificar a turma do quanto pior, melhor:

"Na Alemanha, há uma palavra que sintetiza esse tipo de maldade doentia. É schadenfreude, que significa alegria com a tragédia alheia. O prazer no insucesso dos outros". Na mesma linha, lembra o editor, os argentinos têm um ditado que diz: "No basta ser feliz, es necessário también que los demás sean desgraciados".

Como já brincava Tom Jobim, o sucesso dos outros no Brasil parece uma ofensa pessoal. É preciso tudo dar errado, que o fracasso seja total, para não faltarem manchetes nos jornais de amanhã.

"A cabeça pensa e o coração sente de acordo com o chão onde a gente pisa", repetia sempre, em seus discursos pelo país afora, outro amigo dos tempos antigos, o ex-presidente Lula, para explicar porque viajava tanto.

Assim que puder voltar a viajar, prometo trazer para vocês notícias sobre um outro país, também chamado Brasil, onde não faltam boas histórias. Também preciso delas.

 

 

 

 

 

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greve ok1 Greves, protestos, caos no Rio: é a Copa chegando

Garagem da empresa Nossa Senhora de Lourdes, no bairro da Penha, região oeste do Rio de Janeiro

Com apenas 10% da frota de ônibus em circulação, linhas de trens e metrô superlotados, e mais 75 ônibus depredados, a população do Rio enfrentou outra manhã de caos nesta quarta-feira, a exatos 30 dias da abertura oficial da Copa do Mundo no Brasil.

Para quinta-feira, já estão programadas manifestações de protesto em todo o país e até no exterior, organizados pelos "Comitês Populares da Copa", que anunciam um "Dia Internacional de Lutas" com convites em inglês, espanhol, italiano e francês.

As greves se alastram não só pelo Rio mas em diferentes pontos do país, atingindo até os funcionários dos museus mantidos pelo Ministério da Cultura, que fazem parte da programação turística dos visitantes estrangeiros. Em São Paulo, além do protesto marcado para este dia na avenida Paulista, haverá passeatas dos sem-teto e estão previstas greves no transporte público.

Como vem sendo fartamente divulgado pela grande mídia e por redes sociais nos últimos meses, trata-se de um movimento muito bem organizado para criar um clima de guerra no país às vésperas e durante a Copa. Já tem muita gente com medo até de sair de casa nestes dias. O objetivo foi alcançado. O planejamento que faltou na Copa foi eficiente nos protestos.

O clima é o oposto daquele vivido nas ruas do país em festa quando foi anunciado, em 2007, que o Brasil sediaria a competição. Esqueceram-se que a Copa do Mundo sempre coincide com eleições presidenciais no Brasil. O atraso nas obras faraônicas prometidas à Fifa, torrando um caminhão de dinheiro público, e as denúncias de superfaturamento, acabaram servindo como combustível para as manifestações de protesto, que começaram em junho do ano passado, chegam esta semana ao ápice e não devem parar antes do dia das eleições.

Pouco importa a esta altura se o Brasil vai ganhar ou perder dentro de campo. Do lado de fora dos estádios, os governos, em diferentes níveis, e o país como um todo, já foram derrotados, com a ampla divulgação mundo afora das nossas mazelas, amplificadas pelas imagens de uma explosão de violência sem limites e sem prazo para acabar.

Os prejuízos causados por esta guerra sem quartel e sem líderes visíveis já estão sendo calculados. Os donos de shopping centers, por exemplo, estão calculando uma queda de 62% nas vendas durante a Copa, segundo pesquisa feita pelo Ibope Inteligência, mas o pior ainda está por acontecer.

Das 167 obras anunciadas, apenas 68 estão prontas, de acordo com levantamento feito pela "Folha". Outras 88 não serão entregues a tempo e 11 foram abandonadas, o que vai dificultar principalmente o acesso aos estádios, ou seja, a decantada mobilidade urbana, reivindicação que está na raiz da maioria dos protestos. Em muitas cidades, a situação não só não melhorou, como as obras inacabadas tornaram ainda mais caótico o trânsito, a exemplo de Cuiabá e Rio de Janeiro. O próprio governo federal admite que haverá problemas também nos aeroportos e nos serviços de telecomunicação dos estádios.

Diante deste quadro assustador apresentado diariamente pela imprensa, fica difícil ser otimista e se preparar para a grande festa que costuma acontecer nos períodos de Copa do Mundo. Uma rara exceção neste deserto é o meu amigo Nizan Guanaes, que não perde as esperanças. Na mesma edição da "Folha" de hoje, que prevê o pior, sob o título "Enchendo a bola do Brasil", o publicitário chega a fazer um apelo, depois de reconhecer todas as dificuldades que enfrentamos neste momento:

"Mas não faz sentido achar que festa de aniversário é hora adequada para mamãe e papai discutirem a relação, brigarem diante dos convidados". Também acho, mas vai convencer disso os black blocs e todos os celerados que já se preparam para atacar, só esperando uma voz de comando. Para eles, o Brasil que se dane. Quanto pior, melhor.

 

 

 

 

 

 

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esse ok Para atingir Dirceu, Barbosa pode atingir outros 100 mil presos

Em sua cruzada para deixar o ex-ministro José Dirceu encarcerado em regime fechado há quase seis meses, sem direito a trabalhar fora do presídio, embora pela pena aplicada ele tenha esse direito, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, pode atingir outros 100 mil presos em todo o país beneficiados pelo regime semiaberto.

A advertência foi feita pela Comissão de Acompanhamento Carcerário da OAB, que teme um efeito cascata na decisão de Barbosa. A entidade entende que a decisão do presidente do STF pode criar um efeito cascata, provocando uma crise no sistema carcerário, que já apresenta graves problemas de superlotação e não há vagas em colônias industriais ou agrícolas. . Outros nove condenados no processo do mensalão já receberam este benefício e poderão voltar para a cadeia.

Para o presidente da comissão, Adilson Rocha,"não se pode, em detrimento de um, sacrificar o sistema carcerário como um todo". Por isso, a OAB deverá ingressar com ação no STF para permitir que presos no regime semiaberto tenham direito ao trabalho externo. Rocha lembra que, mesmo para os que ainda não tenham cumprido 1/6 da pena, como quer Joaquim Barbosa, este é um direito já assegurado em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.

O advogado de José Dirceu, José Luiz Oliveira Lima, que na semana passada já havia apresentado recurso ao plenário do STF, afirma que no caso do ex-ministro a decisão de Barbosa  "põe em xeque o respeito aos direitos humanos. Não há como negar que estamos diante de uma série de medidas protelatórias que o mantém preso à margem da legalidade".

Rui Falcão, presidente nacional do PT, em nota oficial divulgada no final de semana, também saiu em defesa de José Dirceu: "Ao obstruir novamente de forma irregular e monocrática, o direito de José Dirceu cumprir a pena em regime semiaberto, o ministro Joaquim Barbosa comete uma arbitrariedade, tal como já o fizera ao negar a José Genoíno, portador de doença grave, o direito à prisão domiciliar. O PT protesta publicamente contra este retrocesso e espera que o plenário do STF ponha fim a este comportamento persecutório e faça valer a Justiça".

Ao negar os reiterados recursos apresentados pela defesa de José Dirceu, Barbosa também contraria parecer favorável do procurador-geral Rodrigo Janot, baseando-se em boatos sobre privilégios concedidos ao ex-ministro, como o uso de telefone celular, o que nunca ficou comprovado.

Estes são os estranhos fatos de uma novela que parece não ter fim com o claro objetivo de manter o tema do mensalão petista no noticiário e o presidente do STF em evidência.

 

 

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mylton E lá se foi o nosso Myltainho, guerreiro do texto

Miúdo e franzino, meu amigo Myltainho era um valente e inconformado guerreiro na luta contra as injustiças sociais, a hipocrisia, as maracutaias, o autoritarismo, a intolerância, a violência, o mau-caratismo, todas estas desgraças das quais ainda não conseguimos nos livrar. Para combater tudo o que achava errado, usava como arma apenas as palavras, dono que era do melhor texto da imprensa brasileira, um incansável artesão forjado nas redações para transformar pedra bruta em finos diamantes.

Repórter, redator, editor, escritor, criador de publicações, Mylton Severiano da Silva se foi na noite de sexta-feira, aos 73 anos, em Florianópolis. À tarde, tinha ido ao médico, sentindo fortes dores no estômago. Receitaram-lhe um remédio e o mandaram de volta para casa. Pouco tempo depois, morreu de infarto. Acabou sendo vítima de uma das muitas mazelas que não se cansava de denunciar: a negligência e a incúria nos serviços de saúde.

Devo a este brasileiro de fé e compromisso com seu povo, meu primeiro emprego na grande imprensa, nos anos 60 do século passado. Se sou jornalista até hoje, ele é o culpado. Myltainho já era uma das estrelas da lendária revista "Realidade". Naquela manhã de segunda-feira, como só ele estava na redação, entreguei-lhe o bilhete do meu primo Klaus,  recomendando-me para um emprego na melhor publicação brasileira de todos os tempos. Era muita pretensão minha...

Por cima dos óculos de aro fino, olhou-me bem e abriu um sorriso, incrédulo, dizendo mais ou menos assim:.

"Meu filho, você é muito novo, está começando agora. Aqui só tem craque, é a seleção brasileira do jornalismo... Tem que ralar primeiro em jornal, depois você volta...".

Vendo minha cara de decepção, logo encontrou um jeito de ajudar e me encaminhou para o Estadão, ali perto, onde um amigo dele, Aloísio Toledo Cesar, era o chefe da reportagem da manhã. Comecei no mesmo dia, trabalhei mais de dez anos no jornal e estou ralando até hoje, mas a "Realidade" acabou bem antes que eu pudesse criar coragem de pedir novamente uma vaga naquele time.

Myltainho era assim: sempre solidário, disposto a ajudar os outros, mesmo que fosse um jovem desconhecido. Mais tarde, nos cruzamos em outras redações da vida, ficamos amigos, cúmplices e confidentes, rimos muito juntos nas vitórias e choramos as derrotas da nossa geração, na gangorra do último meio século. Humilde, sem nunca perder a altivez, só faltava ele pedir desculpas quando mexia num texto, invariavelmente para torna-lo melhor.

Foi tão rica sua trajetória como jornalista, iniciada aos nove anos, no "Terra Livre", publicação de Marília, no interior paulista, onde nasceu, com reportagem sobre as condições de trabalho numa fazenda da região, que não cabe contar esta história no espaço de um blog. Estou muito triste para continuar escrevendo sobre uma das figuras mais admiráveis que tive a ventura de conhecer neste ofício de contar histórias dos outros.

Para quem quiser saber mais sobre a vida e a obra de Mylton Severiano da Silva, recomendo a belíssima homenagem prestada a ele no comovente texto de Luana Shabib publicado pelo site da revista "Brasileiros", onde também trabalho:

http:/www.revistabrasileiros.com.br

O enterro está marcado para as 13 horas deste domingo no Cemitério Getshemani, no Morumbi, em São Paulo.

Vai com Deus e descansa em paz, meu velho e bom amigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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