Sou do tempo em que o futebol, nosso time ganhando ou perdendo, era sempre uma festa. Só senti medo no estádio uma vez, quando fui com meu falecido pai ver a final entre o São Paulo e o Corinthians na decisão do campeonato paulista de 1957. O time dos "pó de arroz", como chamavam o meu São Paulo, ganhou de 3 a 1, sem choro nem vela, mas a imagem que me ficou foi a da briga generalizada entre as torcidas naquela que ficou conhecida como a "tarde das garrafadas". A partir daí proibiram entrar com garrafas nos estádios.

No meio da confusão, perdi-me do meu pai e só fui reencontrá-lo depois do jogo, bastante machucado. No dia da inauguração do Morumbi, em 1960, ele tinha morrido pouco tempo antes, e eu fui lá representá-lo. O futebol, quer dizer o nosso time, era a grande ligação que eu tinha com o velho, nossa maior cumplicidade.

Estou me lembrando deste tempo antigo agora, ao ler a história de um jovem torcedor do Santos, Marcio Barreto de Toledo, pai de um menino de seis meses, que saiu de casa no domingo para ver o jogo contra o São Paulo, e não voltou mais: foi barbaramente assassinado por torcedores do "pó de arroz" num ponto de ônibus, só porque estava com a camisa do seu time.

torcedor Quando o futebol se torna um risco de morte

O que aconteceu com a gente nesse meio tempo? Tem razão o Jânio de Freitas quando constata na sua coluna de hoje na Folha, sob o título "Brasil embrutecido":

"Estamos no Brasil em um agravamento de brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificável como violencia urbana. E não basta dizer que nada é feito contra tal processo. O que se passa, de fato, é que nem sequer o notamos".

O pior é isso: a nossa indiferença diante dos dramas humanos que se repetem, até no futebol e no carnaval, como vimos no caso do celerado que avançou com seu carro nos foliões dos blocos que tomaram a Vila Madalena neste final de semana.  Com a política voando no piloto automático, sem sair do lugar e sem nos dar esperanças de mudanças, deveríamos nos preocupar mais com estas pequenas grandes tragédias do cotidiano em que vidas estão em jogo.

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dilma e lula Eraldo Peres 10022011 AP Três bons motivos para Lula não ser candidato

Como eu ia dizendo quando fui atropelado por um buraco no meio da rua, que me estraçalhou o braço direito e me deixou quase um mês fora de combate, não há a menor chance de Lula voltar a ser candidato a presidente, a não ser que Dilma desista da reeleição.

O ex-presidente tem pelo menos três bons motivos para matar no nascedouro esta história de "volta Lula", que vira e mexe ressurge no noticiário:

* Seria reconhecer o fracasso do governo da presidente Dilma e, por tabela, dele mesmo e do  PT, já que foi Lula quem a lançou e bancou em 2010. Além disso, não há no momento nenhum motivo para se jogar nesta aventura. O balaio de novas pesquisas divulgadas neste final de semana mostram, em resumo, que Dilma seria reeleita no primeiro turno, apesar de todas as dificuldades que o governo enfrenta e da intensa campanha de mídia para impedir a sua reeleição.

* Caso seja candidato, e caso seja eleito, o que ninguém pode lhe assegurar, mesmo sendo ainda o político mais popular do país, quem garante que teria as mesmas condições internas e externas para,  ao final de um hipotético terceiro mandato, deixar o Palácio do Planalto com a consagradora aprovação de mais de 80% dos brasileiros? Para que arriscar seu lugar já garantido na História?

* Por fim, mas não menos importante, há a questão da sua lealdade com Dilma _ e vice-versa _ que nenhuma intriga foi capaz de abalar até agora. E, além de tudo, pegaria muito mal Lula desmentir agora o que vem repetindo nos últimos três anos: que a presidente é a sua candidata em 2014.

Não falei com Lula nem com Dilma, nem tenho fontes sobrenaturais, mas pelo que conheço dos dois, depois de tantos anos de convivência, posso assegurar que este cenário não muda por mais que tentem jogar um contra o outro. Lula é Dilma.

E vou parando por aqui nesta minha volta ao batente porque meu braço já está doendo nesta primeira tentativa de retomar os trabalhos interrompidos pelo destino. Já estava sentindo falta de todos os fiéis leitores deste Balaio. Muito obrigado pela força que vocês me deram, pelas muitas mensagens de carinho e por não se esquecerem de mim.

Fiquei com medo de não conseguir voltar a escrever, mas Deus e os médicos foram muito bons comigo. Vida que segue.

 

 

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Publicado em 03/02/14 às 15h41

Aos leitores e amigos do Balaio

64 Comentários

kotscho Aos leitores e amigos do Balaio

Olá a todos! Aqui é a Mariana Kotscho, filha do Ricardo. A pedido dele, estou escrevendo para agradecer  pelas centenas de mensagens que recebeu desejando uma rápida recuperação da cirurgia no braço direito a que foi submetido após sofrer uma queda na rua. As mensagens vieram de várias partes do Brasil pelo Balaio, por e-mails e pelo meu FB (porque ele mesmo não tem...)

A volta ao Balaio, infelizmente, não será tão rápida como ele gostaria. Com vários pinos e placas no braço para reconstituir o cotovelo, que continua imobilizado, os médicos recomendaram só retornar ao batente daqui a 4 semanas. Se depender dele, pelo que conheço da figura, certamente voltará antes - tanto aqui no Balaio, como no Jornal da Record News.

Meu pai gostaria de agradecer também a dedicação dos competentes ortopedistas Sérgio Luiz Checchia, Hélio Leal Pires e João Roberto Rosa, à equipe chefiada pelo seu amigo Roberto Kalil Filho e a toda turma do décimo andar do Hospital Sirio Libanês.

E, em especial, mandar um forte abraço para a jovem Carol, que o socorreu na rua logo após o acidente e tomou as primeiras providências.

Agora, um pedido de filha aos queridos pais: muita atenção por onde andam nesta cidade de calçadas e ruas esburacadas. E, por favor, saiam sempre com documentos. Meu pai estava sem os dele, voltando pra casa após almoçar na casa da minha irmã Carolina. Se ele não estivesse consciente, o socorro teria sido bem mais complicado.

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Publicado em 29/01/14 às 17h43

Ausência temporária

65 Comentários

Amigos do balaio,

Sofri um acidente e precisei passar por uma cirurgia. Já estou bem, mas ainda impossibilitado de postar no blog.

Em alguns dias estou de volta.

Desde já, agradeço pela compreensão.

Até breve!

 

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diretas Os quatro meses de 1984 que mudaram a cara do Brasil

Foram exatos apenas quatro meses: de 25 de janeiro, dia do primeiro grande comício, em São Paulo, a 25 de abril de 1984, em Brasília, quando a emenda das "Diretas Já" foi derrotada no Congresso Nacional.

Depois de 20 anos de regime militar, o povo saiu às ruas para reconquistar o direito de escolher seu presidente da República em eleições diretas. O movimento acabou se transformando na maior manifestação de massas da nossa história e mudou a cara do nosso país, com o povo brasileiro, pela primeira vez, assumindo o papel de protagonista do seu próprio futuro.

Trinta anos atrás, a esta hora, no final da manhã, estava saindo de casa cheio de esperanças para me juntar à multidão que tomou a praça da Sé, apesar da forte chuva que caia na cidade. Mais que um comício com as principais lideranças políticas da oposição, da sociedade civil e da nossa cultura, sob o comando do grande amigo Osmar Santos, o "locutor das Diretas", a campanha mostrou ali o que aconteceria nas semanas seguintes, tomando as ruas e praças de todo o país: uma grande festa, unindo o povo em um só grito para dar um basta à ditadura.

Como repórter, tive a oportunidade de acompanhar toda a campanha, do começo ao fim e, como todo mundo, fiquei arrasado quando faltaram apenas 22 votos para a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que restituía as eleições diretas, na trágica madrugada de 25 para 26 de abril. Em depoimento ao projeto "Memória Coletiva", criado pelo jornalista Paulo Markun, em 2011, contei como foi a cobertura das Diretas Já, que também está no meu livro Explode um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas, publicado pela Editora Brasiliense (acho que ainda pode ser encontrado na internet).

Abaixo, reproduzo um trecho do depoimento sobre como terminou a noite em Brasília, após a derrota da emenda, que Markun publicou em seu site sob o título "A pior lembrança do cronista das diretas: o choro de Torloni":

 

A primeira imagem que vem, Markun, não é uma boa lembrança, mas a da derrota, porque às vezes a gente se esquece que a campanha acabou sendo vitoriosa só cinco anos depois, mas naquele ano, no 25 de abril de 1984, no dia da votação da emenda Dante de Oliveira, o sentimento foi de uma enorme frustração, de uma enorme tristeza, e de revolta.

Naquele momento, jornalistas como eu e vários outros _ só a Folha mandou uns dez enviados especiais pra Brasília naquele dia pra acompanhar a votação _ ficaram indignados. A emenda foi derrotada pelos que se ausentaram do plenário, se esconderam em seus gabinetes, e nós vimos esses caras depois da votação (...) saindo meio escondidos  dos gabinetes pra ir embora. E nós xingamos esses caras, nem me lembro quem eram, xingamos e tal, e tivemos que ir para a sucursal escrever as nossas matérias.

Até aconteceu uma coisa curiosa no caso da equipe da Folha porque nos apressaram para enviar o material, mas a votação terminou tarde, de madrugada, e nós combinamos ali que ninguém iria mandar nada enquanto não tivesse o resultado do jogo.

Corremos o risco e deu certo, porque o Estadão, que fechou mais cedo, deu a seguinte manchete: "Faltam votos para a aprovação das diretas". Eles fecharam no horário, meia-noite e tal, sem o resultado da votação, e nós da Folha saímos tarde pra burro, mas com o resultado, e o jornal rapidamente se esgotou nas bancas _ o que salvou o nosso emprego...

Queriam rodar mais exemplares, só que o pessoal da oficina já tinha ido embora. E a imagem que me ficou é do restaurante Piantella, muito conhecido em Brasília, reduto de jornalistas, de políticos, de todo mundo, dos artistas que participaram ativamente da campanha, alguns chorando.

Eu me lembro nitidamente da Christiane Torloni, que estava inconsolável. O país todo foi às ruas, parecia uma grande festa cívica e tal, e com um desfecho melancólico. mas que, tempos depois, daria nessa jovem democracia que nós vivemos hoje. Ali foi o divisor de águas, um marco na nossa história.

 

 

No prefácio do meu livro, que ele escreveu a mão, Ulisses Guimarães, o "Senhor Diretas", grande comandante daquela companha, escreveu um breve texto sob o título "O batismo é do povo". O manuscrito dele, enviado antes da votação no Congresso Nacional, foi a maior homenagem que já recebi na vida. Por isso, peço licença aos leitores para transcreve-lo aqui num dia que me trás à lembrança bons momentos e velhos amigos.

 

"Poesia é encontrar uma árvore esquecida à beira de uma estrada e glorificá-la".

O jornalista de raça é um mágico. Transfigura o anônimo em notável, celebra o desapercebido, enquadra o texto no contexto. Enquanto nós nos limitamos a olhar, ele vê as coisas, pessoas, a paisagem. Vê e conta.

Ricardo Kotscho é jornalista raçudo. O jornalismo está no seu sangue e no seu destino.

Andei com ele por praças e ruas deste infindável país. Entupidas de gente, de berros e de gestos de revolta e de esperança. Quando lia suas reportagens na Folha de S. Paulo ficava surpreendido e encantado.

Como é que o Ricardo viu aquele jovem frenético, registrou a originalidade daquele dístico, enxergou aquela mulher chorando, ouviu daquele velho as histórias de outros comícios e outros personagens?

Ele não se absorve nas estrelas do acontecimento. Sua pena é também alto-falante da multidão, assegura-lhe o papel de personagem no grande e terrível drama social brasileiro.

Osmar Santos é o locutor das diretas. Fafá de Belém é a cantora das diretas. Ricardo Kotscho é o cronista das diretas. O batismo é do povo. Leia este livro. Assim verificará que, mais uma vez, o povo tem razão.

Brasília, 18 de abril de 1984

Deputado Ulisses Guimarães

Bom fim de semana a todos e que São Paulo tenha uma bela festa no seu aniversário de 460 anos. Viva São Paulo!

 

 

 

 

 

 

 

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essa Barbosa passeia em Paris, faz compras e critica colegas

Fiel ao lema "a lei sou eu", parafraseando o célebre "L´État c´est moi" de Luis XIV, o rei sol da França, país onde se encontrava nesta quarta-feira, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, entre um passeio e outro por Paris e a inevitável parada para fazer compras na Galeries Lafayette, resolveu criticar seus colegas ministros que ficaram no Brasil, por não terem assinado ainda o mandado de prisão do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP) durante as suas férias.

"Qual é a consequência concreta disso? A pessoa condenada ganhou quase um mês de liberdade a mais. Eu, se estivesse como substituto, jamais hesitaria em tomar esta decisão. Eu não podia praticar estes atos porque já estava voando para o exterior. Não é ato de Joaquim Barbosa. O ministro que estiver de plantão pode, sim, praticar o ato. O que está havendo é uma tremenda personalização de decisões que são coletivas, mas querem transformar em decisões de Joaquim Barbosa", disparou, falando dele mesmo na terceira pessoa. O presidente do STF não se referiu à situação do ex-deputado Roberto Jefferson, também condenado, que continua solto, sem mandado de prisão expedido.

Primeiro, a ministra Carmem Lúcia e, esta semana, o ministro Ricardo Lewandowski, que o substituíram, não concordam com Barbosa e preferiram esperar a volta dele ao STF, marcada para o próximo dia 3, quando termina o recesso do Judiciário. O clima promete esquentar na retomada dos trabalhos no STF.

A assinatura do mandado de prisão de Cunha não é a única polêmica que envolve a vilegiatura de Joaquim Barbosa pela Europa. Mesmo estando de férias, Barbosa recebeu R$ 14 mil em diárias para fazer duas palestras, a primeira delas, com duração de meia hora, marcada para amanhã na Universidade de Paris-1, e a outra, semana que vem, em Londres.

"Eu acho isso uma tremenda bobagem. Nós temos coisas muito mais importantes a tratar. É uma coisa muito pequena. Veja bem, você viaja para representar seu país, para falar sobre as instituições do Brasil e vocês estão discutindo diárias?", reclamou ao repórter Graciliano Rocha, da "Folha", que o encontrou na saída de uma universidade em Paris. E ainda o questionou: "Quando é que na história do Brasil o presidente do Poder Judiciário teve as oportunidades que eu tenho de viajar pelo mundo para falar sobre um poder importante da República?.

Caberia perguntar também o que nós, cidadãos contribuintes, que pagamos as despesas, ganhamos com isso.

 

 

 

 

 

 

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kotscho PSDB apela à baixaria para atacar Mercadante

Em nota publicada no site oficial do partido, na terça-feira, e escondida do noticiário da grande imprensa, o Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos políticos e econômicos do PSDB, atacou de forma grosseira o ministro da Educação Aloizio Mercadante, que deverá assumir a chefia da Casa Civil do governo de Dilma Rousseff no próximo mês.

No final do texto escrito por um anônimo, que é assinado apenas pelo instituto, sob o título "Professor Mercadante" _ Análise do ITV, depois de desqualificar as ações de Mercadante na Educação, o PSDB afirma: "Pelo que se percebe, currículo é o que não falta para o novo ocupante do cargo que já abrigou gente como José Dirceu, Erenice Guerra e a própria Dilma. Um celeiro de talentos como estes merece ter Aloizio Mercadante".

Dias atrás, quando o Facebook oficial do PT atacou no mesmo tom o presidenciável Eduardo Campos, do PSB, e sua aliada, a ex-ministra Marina Silva, a mesma imprensa ficou indignada e dedicou um bom espaço para criticar os termos utilizados numa nota apócrifa, mas desta vez apenas o site "Brasil 247" noticiou a agressão gratuita dos tucanos ao partido da presidente Dilma Rousseff e seu ministro. A direção do PT repudiou a nota contra Campos e tomou providências para que na campanha fatos como este não se repitam.

Na nota do ITV, o PSDB lembra episódios de campanhas passadas envolvendo o ministro Mercadante, para concluir: "Trata-se de expertise preciosa dentro do modo petista de fazer política". Sobrou até para a presidente Dilma: "A presidente Dilma Rousseff deu início ontem à única reforma que é capaz de fazer: a dança das cadeiras ministeriais para turbinar seus planos de reeleição".

A resposta do PT veio em outra nota assinada pelo líder do partido na Câmara, José Guimarães, que foi direto ao ponto: "Tucanos, na falta de projeto para o país e desorientados diante dos sucessivos êxitos dos governos do PT desde 2003, apelam para palavreado tosco e destituído de fundamentação".

Cabe agora ao presidente do PSDB, senador Aécio Neves, virtual candidato do partido nas eleições deste ano, vir a público para se manifestar sobre a nota do ITV e dizer se concorda ou não com os termos empregados por seus correligionários. Por coincidência, ou não, o ataque tucano surge poucos dias depois de um integrante da tropa de choque do partido, Xico Graziano, diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso e ex-chefe de gabinete do ex-presidente, ser indicado por Aécio para comandar a área de internet na campanha presidencial. Quem dirige o ITV atualmente é o deputado federal Sergio Guerra, ex-presidente do PSDB.

Com a palavra, Aécio Neves e os leitores do Balaio.

 

 

 

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rolezinho Notícias engasgadas nos 30 anos das Diretas Já

Reforma ministerial com o PMDB querendo mais boquinhas e chantageando o governo; a polêmica dos "rolezinhos" e "rolezões" agitando a polícia e os sociólogos; mais mortes no presídio macabro de Pedrinhas; a corrupção sem corruptos nas investigações sobre o cartel do metrô paulistano; as obras inacabadas da Copa; o time do São Paulo dando vexames em diferentes categorias; o cai-não-cai da Portuguesa: antes de completar um mês de vida, 2014 já está parecendo um ano velho, começando exatamente como 2013 terminou, sem novidades capazes de emocionar os caros leitores.

É um festival daquilo que o brilhante Tutty Vasques, o Zé Simão do Estadão, chama de "notícias enguiçadas", aquelas que giram sempre em torno do mesmo eixo e não saem do lugar. Sem que tenha surgido até agora sequer a musa do verão carioca, em sua coluna de hoje Tutty constata, sob o título "Agenda positiva", que "o banho de espuma é a grande novidade das praias cariocas". Descobrir a origem da espuma branca passa a ser nos próximos dias o desafio dos pauteiros do  jornalismo investigativo.

O quadro é tão desalentador para quem vive de contar novidades que o principal fato político do ano até agora foi a nomeação de Aloizio Mercadante para a Casa Civil, o que não chega a ser propriamente uma novidade. Meu amigo Aloizio desta vez ganhou por W.O., quer dizer, não tinha concorrente.

Outro coleguinha, Ilimar Franco, do Globo, garimpou esta pérola para preencher o espaço da sua coluna diária: "As reformas que o Brasil anseia (...) melhor ambiente trabalhista, maior sustentabilidade para a Previdência". A autoria é do Instituto Teotônio Vilela, que provocou este comentário do colunista: "Texto enigmático (Reforma do Nada) distribuído pelos tucanos".

Você pode percorrer todo o noticiário impresso ou navegar pelos portais que não sai muito disso: mais do mesmo. Agora, pelo menos vamos ter uma trégua na novela da reforma ministerial, já que a presidente Dilma vai passar uma semana fora do país e só volta no meio da semana que vem. Como os poderes Legislativo e Judiciário continuam gozando de suas merecidas férias, a tendência só é aumentar o vazio e deixar o espaço livre para as tais "notícias enguiçadas".

 Notícias engasgadas nos 30 anos das Diretas Já

Procurado por vários colegas para falar sobre os 30 anos da campanha das Diretas Já _ você percebe que está ficando velho quando dá mais entrevistas do que faz... _ me dei conta da grande diferença do clima que vivemos neste 2014 daquele que marcou a passagem de 1983 para 1984.

Mais de 70 entidades da sociedade civil e partidos políticos de oposição ao regime militar haviam se reunido durante vários meses para organizar o evento do dia 27 de novembro de 1983, em frente ao estádio do Pacaembu, que deveria marcar o lançamento da campanha das Diretas Já. Mas este primeiro ensaio fracassou, com apenas 15 mil pessoas reunidas na praça Charles Miller. Entre outros motivos, porque os partidos de oposição estavam e o movimento pelas eleições diretas para presidente da República dividiram as atenções com um ato no mesmo local contra a intervenção americana na Nicarágua e o clássico Santos e Corinthians, disputado na mesma tarde.

Apenas um mês depois, no dia 25 de janeiro de 1984, que foi um divisor de águas na nossa História, marco da redemocratização do país, agora com a oposição unida, mais de 300 mil pessoas lotaram a praça da Sé no primeiro grande comício das Diretas, que deu início ao maior movimento cívico já visto em nosso país. Com 30 anos a menos no lombo, vibrei com  o que vi e comecei deste jeito minha matéria, sob o título "Na Sé, um brado retumbante pelas diretas":

 

"Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas/De um povo heroico o brado retumbante."

Nunca, antes, em sua história de 430 anos completados ontem, São Paulo viu algo igual _ centenas de milhares de pessoas, transbordando da praça da Sé para todos os lados, horas debaixo de chuva, num grito uníssono: eleições diretas para presidente.

Nunca, antes, foram tão verdadeiros os versos do nosso Hino.

O brado engasgado na garganta durante vinte anos explodiu na praça da Sé. O pranto travado correu pelos rostos de gente muito vivida, os braços se ergueram, dando-se as mãos uns aos outros, toda gente cantando junto o Hino Nacional, no encerramento deste festa pelas eleições diretas _ a maior manifestação pública a que o Brasil já assistiu". 

 

A história completa deste e dos outros comícios que varreram o Brasil de ponta a ponta está no meu livro Explode um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas, lançado pela Editora Brasiliense, poucos dias após a derrota da Emenda das Diretas no Congresso Nacional. Naquele 21 de abril de 1984, faltaram apenas 22 votos para que os brasileiros voltassem a eleger diretamente seu presidente da República. A ditadura agonizou ainda por cinco anos, mas ali começou um novo momento da vida brasileira, o nosso mais longo período de democracia plena, Estado de Direito e respeito às liberdades públicas.

Dentro de alguns meses, teremos a sétima eleição direta para presidente após a redemocratização e nada melhor do que aproveitar esta entressafra de notícias para lembrar como tudo começou. O consagrado jornalista e escritor Laurentino Gomes (autor de 1808, 1822 e 1889)  situa neste momento de afirmação do povo brasileiro a verdadeira fundação da República, 95 anos após a Proclamação. Ali, pela primeira vez, o povo tomou o destino em suas mãos, foi o protagonista da História.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Com Mercadante, Casa Civil terá papel mais político

Em matéria sobre a reforma ministerial, o Balaio antecipou na terça-feira da semana passada, uma informação que foi confirmada em Brasília nesta segunda-feira: "A principal mudança é a ida de Aloizio Mercadante para a Casa Civil, no lugar de Gleisi Hoffmann, candidata ao governo do Paraná. O atual ministro da Educação vai ter um papel mais político do que administrativo, com a missão de fazer a ponte entre o governo, o PT e os partidos da base aliada, de olho na campanha eleitoral", escrevi no dia 14.

Dilma bateu o martelo no final de semana. A decisão foi  anunciada hoje pela presidente, no Palácio da Alvorada, em reunião com o ex-presidente Lula, da qual participaram, além de Mercadante, o chefe de gabinete da Presidência, Gilles Azevedo, e o ex-ministro de Comunicação Social, Franklin Martins.

A exemplo da função que Dilma desempenhava no governo Lula, Gleisi era uma espécie de coordenadora dos ministros, que cuidava do andamento dos projetos, em especial os ligados ao PAC. Na reforma ministerial que Dilma só deverá anunciar oficialmente no começo de fevereiro, depois de voltar de uma viagem a Davos, na Suiça, e a Cuba, que começa na quarta-feira, a Casa Civil volta a centralizar as articulações políticas, como acontecia no início do atual governo com o então ministro Antônio Palocci.

Senador eleito pelo PT de São Paulo em 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição presidencial, Mercadante estava sem mandato ao ser nomeado por Dilma no começo do governo para o Ministério da Ciência e Tecnologia, sendo transferido para a Educação, quando Fernando Haddad deixou o posto para se candidatar a prefeito de São Paulo. Caso Dilma seja reeleita, é certo que Mercadante deverá permanecer no posto para o qual está indo agora.

Mercadante é bastante ligado a Lula, de quem foi assessor econômico nas campanhas presidenciais, e candidato a vice em 1994, desde os tempos em que o ex-presidente comandava o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Professor da PUC e da Unicamp, no ano passado, tornou-se o principal interlocutor da presidente Dilma, que agora o leva para a Casa Civil.

 

 

 

 

 

 

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ER7 RN JR INTEGRA 570kbps 2014 01 15b7551823 dc7e 4767 883d 96aefe6964ed thumb Aécio não será candidato do tudo ou nada

Em abril de 2005, depois de ter deixado a Secretaria de Imprensa do governo Lula, fui a Ouro Preto para receber a Medalha da Inconfidência junto com mais um monte de gente. Após a bela festa, que se repete todo ano, o então governador mineiro Aécio Neves, já então um possível presidenciável do PSDB, confidenciou a alguns amigos no final de um almoço: "A presidência é destino, não basta querer. Para mim, um dia ser presidente da República não é uma obsessão, não é uma questão de vida ou morte, não vou mudar a minha vida por causa disso".

O candidato do PSDB, em 2006, acabou sendo o paulista Geraldo Alckmin e, quatro anos depois, José Serra voltou a disputar a presidência, desta vez contra Dilma Rousseff. No ano passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda o principal líder dos tucanos, decidiu que tinha chegado a vez de Aécio, e o convocou a ser candidato. O senador mineiro não recusou a missão, mas também não foi com muita sede ao pote, até porque Serra continuava articulando para ser novamente o candidato tucano.

Eleito presidente do partido, aos poucos Aécio foi conquistando o apoio da maioria das lideranças nacionais do PSDB e começou a viajar pelo país com mais desembaraço, sempre deixando claro que era apenas pré-candidato, empurrando para março a definição do nome. Mas, antes que 2013 acabasse, Serra acabou jogando a toalha e deixou o campo livre para ele.

A entrevista exclusiva que Aécio concedeu na noite de quarta-feira ao Heródoto Barbeiro e a mim, no Jornal da Record News e no R7 , confirmou a minha impressão de que o ex-governador mineiro não será um candidato do tudo ou nada, uma posição que reforçou ao dizer que não é daqueles políticos que só veem defeitos nos adversários e virtudes nos aliados. Sem deixar de fazer duras críticas pontuais ao atual governo - afinal, é um dos candidatos da oposição - Aécio reconheceu méritos nos que governaram o país nos últimos anos, desde seu conterrâneo Itamar Franco.

Quando Heródoto lhe perguntou se manteria programas do atual governo, como o "Mais Médicos", Aécio fez a crítica mais contundente: "Este programa é 80% propaganda e só tem 20% de efetividade para resolver os graves problemas de saúde do país.   Porque o mesmo governo que faz essa propaganda enorme do Mais Médicos é o governo que permitiu que nos últimos anos fossem fechados 13 mil leitos hospitalares no Brasil e deixou as Santas Casas em situação de miséria. Apresentar o Mais Médicos como solução para o problema da saúde pública é deslealdade para com os brasileiros".

Apesar disso, o pré-candidato afirmou que, caso eleito, manterá o programa, mas fará mudanças. O desafio de Aécio será explicar ao eleitorado quais as vantagens das mudanças que pretende fazer, já que o programa é apoiado por 84,3% da população, segundo a última pesquisa CNT (Confederação Nacional dos Transportes) divulgada em outubro.

Tranquilo e afiado nas respostas, citando muitos dados e números para dizer que o país vai mal e quer mudanças, Aécio evitou fazer críticas diretas a Dilma e Lula, mostrando um estilo mais "low profile" do que seus antecessores nas campanhas tucanas, o que pode indicar que este ano teremos uma disputa mais civilizada. Como o estilo de Eduardo Campos é semelhante ao de Aécio, e a última pessoa interessada num confronto mais radical seria a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, poderemos nesta campanha ter mais discussões sobre o futuro do país do que ataques entre os adversários. Melhor assim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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