marin CBF devia proibir TVs de mostrar futebol europeu

Foi uma semana de muito futebol na televisão, esta que passou. Como meu time, o São Paulo, já foi eliminado do Paulistinha, pude acompanhar neste domingo vários jogos sem ficar nervoso nem me irritar, só pelo prazer de ver o esporte mais popular do mundo.

Depois de assistir a algumas partidas da Liga dos Campeões da Europa durante a semana e os melhores momentos das finais dos campeonatos estaduais brasileiros, confesso que me deu vontade de chorar. É covardia. Parece até que o futebol daqui e o de lá são esportes diferentes. Lá, se joga sempre para a frente, em busca do gol; aqui, para os lados ou para trás.

Como já dizia o velho Parreira, gol no futebol brasileiro é detalhe _ um detalhe cada vez mais raro. Pelos resultados, dá para se ter uma ideia da pobreza das finais nos principais Estados. Em São Paulo, o Palmeiras ganhou do Santos por 1 a 0, mesmo placar da vitória do Vasco contra o Botafogo, no Rio. Em Minas, com Atlético e Caldense, e no Rio Grande do Sul, com o Gre-Nal de sempre, os jogos terminaram 0 a 0.

Mais do que resultados, estes números poderiam ser as notas do futebol mostrado pelas oito equipes. Nenhum jogador, nenhum técnico, nenhum time conseguiu se destacar. A mediocridade foi socializada.

E o que mais poderíamos esperar de um futebol que continua sendo comandado pelos Marins e Marco Polos da vida, legítimos herdeiros de Ricardo Teixeira, cartolas bons de negócios, particulares principalmente, mas que ficaram na poeira do campo esportivo?

O que nós vimos nos gramados nativos neste domingo é o retrato da decadência dos seus dirigentes, não muito diferentes dos personagens da cena política de Brasília. Mesmo assim, e apesar da lambança da seleção de Felipão na Copa do ano passado, temos cada vez mais crianças apaixonadas por seus times, que vibram nas vitórias e choram nas derrotas.

Será que ao tratarem do futebol apenas como um comércio _ muito mal administrado, por sinal _ nossos cartolas em nenhum momento são capazes de pensar no sofrimento que provocam nos nossos pequenos torcedores?

Já que não tem outro jeito, e para evitar comparações que só nos humilham e não deixam esperanças, bem que a CBF poderia pensar em proibir as emissoras de televisão de transmitirem jogos dos times europeus.

Aquele trágico 7 a 1 do jogo contra a Alemanha no Mineirão foi apenas o início do fim dos bons tempos em que Pelé e Garrincha, que nunca jogaram na Europa, faziam a alegria do nosso povo. Agora, temos que nos contentar em admirar o futebol dos outros.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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foto 3 Até aonde vai poder paralelo de Cunha e Gilmar?

Cada vez que acompanho pela televisão entrevistas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e do ministro Gilmar Mendes, do STF, custo a acreditar no que vejo e ouço. As palavras simplesmente não combinam com a expressão dos rostos, como se eles próprios não acreditassem no que falam e pensem que do outro lado da tela só existam idiotas.

O poder paralelo que os dois criaram e ampliam a cada dia _ diante do vazio político deixado pelo governo e pela oposição, pelo parlamento e pelos partidos _ é tamanho que Cunha e Gilmar não se vexam de partir para o deboche. Só pode ser. Fica até difícil identificar quem é um e quem é outro que está falando, de tal forma eles estão afinados numa parceria a serviço do conservadorismo mais retrógrado e arbitrário reinante no país, com o apoio entusiasmado dos conglomerados da grande mídia reunidos no Instituto Millenium.

A dupla está solidamente unida em torno da defesa do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, pela terceirização e precarização do mercado de trabalho, a favor da "PEC da Bengala", que prorroga a aposentadoria dos ministros do STF para 75 anos, e tudo o mais que possa impedir o avanço e promover o retrocesso institucional, político e social do país.

Mandam, simplesmente, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, as duas instituições que hoje decidem o destino dos brasileiros. Com o poder que acumulam, podem amanhã resolver revogar a Lei Áurea e aprovar a implantação da pena de morte.

Ao sentar em cima do processo que proíbe o financiamento privado de campanhas, depois de pedir vistas há mais de um ano, Gilmar Mendes faz questão de deixar claro que é ele quem determina a pauta do STF e o ritmo das votações, sem ser contestado pelos demais ministros, e que só vai devolvê-lo quando quiser. Quer dar tempo para que Eduardo Cunha aprove antes a reforma política da lavra dele que pretende impor ao país.

Basta ver o que Gilmar disse durante palestra feita em São Paulo na sexta-feira: "A ação voltará ao plenário, estamos examinando todos os aspectos. É uma matéria bastante complexa, talvez estejamos dando uma resposta muito simples. Nós temos que saber antes o que o Congresso está discutindo, qual é o modelo eleitoral, para saber qual é o modelo de financiamento adequado".

Cinismo e hipocrisia à parte, o fato é que o STF já tinha decidido esta questão por ampla maioria (6 a 1), proibindo o financiamento empresarial, quando Gilmar Mendes pediu vistas e assim impediu que o processo chegasse ao final da votação.

Não é difícil entender tanto empenho da dupla em manter a situação atual, que está na raiz de todos os escândalos de corrupção de todos os governos nesta relação promíscua entre o poder público e as grandes empreiteiras denunciadas na Operação Lava Jato. Pois é exatamente daí que vem o poder do ministro e do deputado, sempre a serviço dos grandes grupos econômicos contra o interesse dos trabalhadores.

"O projeto que a Câmara mandou ao Senado mostra, na prática, um Congresso terceirizado aos interesses dos financiadores de campanha", disse muito bem, resumindo a opera, o deputado Rubens Jr. (PC do B - MA), ao criticar o projeto de lei que permite as terceirizações também nas atividades-fim das empresas, aprovado esta semana na Câmara, como queriam as entidades empresariais defendidas por Cunha.

O Senado Federal acaba sendo o único obstáculo para impedir que o poder paralelo de Cunha e Gilmar se transforme em poder absoluto. Por isso, não contente em controlar a Câmara com mãos de ferro, a bordo da bancada suprapartidária que ajudou a eleger em outubro, agora Cunha quer mandar também no Congresso Nacional, o que provocou a imediata reação de Renan Calheiros, presidente do Senado, dando início a uma guerra verbal entre os dois caciques peemedebistas.

Renan, que não descarta segurar o texto da terceirização no Senado até o final do seu mandato na presidência, em janeiro de 2017, deixou claro: "Do jeito que foi aprovada na Câmara, a proposta representa uma "pedalada" contra os direitos dos trabalhadores. Vamos fazer uma discussão criteriosa no Senado. O que não vamos permitir é que se aprove nada contra as conquistas dos trabalhadores a toque de caixa. Essa matéria tramitou durante 12 anos na Câmara dos Deputados. No Senado, vai ter uma tramitação normal"

Cunha, retrucando, com uma ameaça: "Pau que dá em Chico também dá em Francisco. Engaveta lá, engaveta aqui. A convalidação dos benefícios na Câmara vai andar no mesmo ritmo que a terceirização no Senado. O que vamos fazer é sentar em cima das coisas deles também".

Após ser alvo de novos protestos, que já se tornaram comuns nas últimas semanas, Eduardo Cunha disse nesta sexta-feira, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, que não tem "medo de cara feia". De fato, quem tem de ficar com medo de Cunha e Gilmar somos nós e a jovem democracia brasileira.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

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São Paulo 1024x670 Acredite: um dia de boas notícias e esperança

Pode até parecer estranho, quase inacreditável o título desta coluna. Em meio a mais uma enxurrada de más notícias, que podem ser encontradas em todos os jornais e portais, e não vou repetir aqui, eu encontrei duas que me deixaram feliz e renovaram minhas esperanças. Nada como um dia após o outro, com uma noite no meio, claro.

Para começar, depois de levar dois chocolates do velho adversário só este ano, na noite de quarta-feira o São Paulo quebrou uma invencibilidade de 25 jogos do Corinthians e se classificou para a próxima fase da Libertadores. Estava difícil aguentar o corintiano Heródoto Barbeiro...

Já tinha até desistido de torcer pelo meu time,  que dava raiva de ver jogar, sem alma e sem talento, apenas cumprindo tabela. Só resolvi ver o jogo por solidariedade à minha neta Bebel, de oito anos, uma são-paulina fanática que nunca perde a fé e vai dormir com o uniforme do time nos dias de vitória. Pois é, de repente, ganhamos, quando poucos acreditavam que era possível ganhar do imbatível Corinthians de Tite. Ainda bem que as coisas mudam de um dia para outro.

Se assim é no futebol, pode ser também em outras áreas mais importantes num momento em que a desesperança toma conta dos brasileiros. Por uma feliz coincidência, na manhã desta quinta-feira, em que pude finalmente saborear o noticiário esportivo, tinha uma reunião marcada do conselho do "Todos Pela Educação", um movimento criado há quase 10 anos, em outro momento de crise.

Como um dos seus fundadores,  fiquei feliz em mais uma vez encontrar gente disposta a ajudar seu país, sem esperar nada em troca, nesta rara e rica experiência de um trabalho conjunto organizado entre representantes das grandes empresas do país e do poder público, em todos os níveis, com o objetivo nada modesto de garantir educação de qualidade a todos os brasileiros até 2022, ano do bicentenário da Independência.

Faltam apenas sete anos, e temos ainda um longo caminho a ser percorrido para atingir as metas definidas por este movimento formado de voluntários do qual fazem parte empresários, educadores, profissionais liberais e gestores públicos.

Para sabermos o que está sendo feito e o muito que ainda falta, foi criado o Observatório do PNE, programa do governo federal lançado no ano passado, uma iniciativa de 21 organizações ligadas à Educação, sob a coordenação do "Todos Pela Educação", que tem como objetivo monitorar os indicadores referentes às 20 metas do Plano Nacional de Educação e respectivas estratégias. Para obter as informações basta acessar:

www.opne.org.br

A plataforma oferece também análises sobre a situação das metas, desafios e políticas públicas educacionais relevantes, assim como diversos materiais de referência. A intenção é atrair gestores públicos, educadores e pesquisadores e, especialmente, ser um instrumento à disposição da sociedade para que todos possam acompanhar e cobrar o cumprimento do plano.

Para vocês terem ideia de como é possível unir os contrários em torno de uma boa causa, um dos grandes colaboradores deste movimento é justamente o corintiano Heródoto Barbeiro, que hoje não foi à reunião porque certamente estava ainda se recuperando da implacável derrota.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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implicante 300x185 Site anti PT revela modus operandi dos probos tucanosAs informações que vão aos poucos pingando sobre o site "Implicante", contratado por uma mesada de R$ 70 mil paga pelo governo do Estado de São Paulo para atacar o PT nas redes sociais, revelam como funciona o modus-operandi dos probos e intocáveis tucanos paulistas na área da comunicação.

Trata-se de uma verdadeira parceria público-privada-conjugal em que os caciques tucanos agem com a mão do gato na sua cruzada anti-PT. Quem banca a farra, que já dura desde maio de 2013,  no final das contas, somos nós, os contribuintes. Não sai barato: pelo valor da mesada, dá R$ 1.680.000,oo em dois anos.

O esquema foi montado  quando a jornalista Cristina Ikonomidis, ex-secretária adjunta de Comunicação Institucional do ex-governador José Serra, trabalhava na Secretaria de Cultura do governador Geraldo Alckmin.

Na função de chefe de comunicação da Cultura, Cristina estava lá quando a empresa Appendix Comunicação, criada pelo advogado e blogueiro Fernando Gouveia, que usa o pseudônimo "Gravataí Merengue", e é responsável pelo site "Implicante", foi contratado pela Propeg, uma das três grandes agências que cuidam da publicidade oficial do governo Alckmin.

Perdoem-me os leitores, mas a história toda é meio confusa mesmo. Vamos por partes:

* Na semana passada, a Folha deu a primeira matéria sobre o "Implicante", que tem meio milhão de seguidores no Facebook e se especializou em difundir na rede notícias, artigos, memes, vídeos e montagens contra o PT e seus dirigentes, com vigorosa atuação na última campanha presidencial, aquela em que os tucanos tanto reclamaram da baixaria dos adversários. Na versão oficial, a Appendix foi contratada pela Propeg para fazer "revisão, desenvolvimento e atualização das estruturas digitais".

* Nesta quarta-feira, o jornal faz novas revelações: Cristina Ikonomidis, que deixou o governo em setembro de 2013, agora é sócia de Fernando Gouveia na empresa. E mais: pelo menos uma das ordens de serviço que liberaram pagamentos à Appendix foi assinada pelo jornalista Juliano Nóbrega, então secretário adjunto de Comunicação de Alckmin, o mesmo cargo que Cristina ocupara no governo Serra. Detalhe: Juliano é marido de Cristina, que agora é dona de 40% das ações da empresa de Gouveia.

* Nóbrega não soube dizer quem indicou o site do "Gravataí Merengue" para prestar serviços de comunicação ao governo do PSDB e diz que os pagamentos à Appendix faziam parte da sua função. Já o governo do Estado de São Paulo limita-se a terceirizar a responsabilidade, alegando que quem contratou a Appendix foi a Propeg, embora relatórios oficiais, a que a Folha teve acesso, revelem que o blogueiro presta contas diretamente à Subsecretaria de Comunicação, que autoriza os pagamentos à empresa.

Entenderam? É provável que esta "empresa de comunicação" de Gouveia e Ikonomidis não tenha sido a única contratada com as mesmas finalidades pouco republicanas pelas agências que servem ao governo de São Paulo.

Sob o título "Alckmin dá mesada a Dória", o blog do jornalista Paulo Henrique Amorim reproduz hoje contrato da mesma Sub-secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo, sob a rubrica "gastos com publicidade", destinando R$ 595.175,00 à "Doria Editora Ltda.", no período de março a setembro de 2014, o ano eleitoral.

Nada acontece por acaso. Fernando Gouveia, o Gravataí Merengue", a sua sócia Cristina Ikonomudis, casada com Juliano Nóbrega, e o promoter empresarial tucano João Doria Junior, profissionais da mais alta confiança de José Serra e Geraldo Alckmin, não têm mesmo do que reclamar da vida. Só revelam um modo tucano de operar a comunicação antipetista com o dinheiro do contribuinte.

E vamos que vamos. Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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tancredoneves 1024x1024 Lembranças de Tancredo Neves, 30 anos depois

O problema de ser testemunha da história e ficar velho na profissão é que tudo faz muito tempo. Por isso, neste 21 de abril em que registramos os 30 anos da morte de Tancredo Neves, mais uma vez recorro ao meu livro de memórias Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter (Companhia das Letras, 2006), em que o presidente eleito que não chegou a tomar posse é um dos personagens mais citados.

É impossível alguém contar a história deste último meio século do nosso país sem falar do grande articulador político que foi o mineiro Tancredo Neves e do papel fundamental que teve na transição da ditadura para a democracia nos anos 1980.

Tive a oportunidade de acompanhar toda a campanha das "Diretas Já", viajando o país inteiro como repórter da Folha, e depois seguir Tancredo em suas andanças pelo país na disputa que travou com Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, na última eleição indireta para presidente da República.

Dois momentos foram marcantes para mim nesta cobertura e os relembro abaixo, transcrevendo trechos do livro. O primeiro foi já no final da sua campanha, em 1984, em Belém do Pará, quando o encontrei sozinho assistindo à televisão no saguão do hotel, já tarde da noite, depois de participar de uma cansativa procissão da tradicional festa religiosa do Círio de Nazaré. A sua resistência física ao longo destas viagens pelo Brasil me deixava cada dia mais impressionado. Perguntei-lhe:

_ Dr. Tancredo, eu, que sou um pouco mais jovem, estou no bagaço. Como é que o senhor aguenta este pique?

Sem tirar o olho da televisão, ele deu a receita:

_ Eu sou movido a vitamina "P", meu filho.

Era "P" de política e poder, explicou-me o velho político mineiro.

A vitamina deve ter acabado antes da hora. Eleito no Colégio Eleitoral em janeiro de 1985, a posse de Tancredo estava marcada para o dia 15 de março, mas na véspera ele seria internado às pressas no Hospital de Base de Brasília.

Após longa agonia no Instituto do Coração em São Paulo, foi sepultado em São João del Rey, onde nasceu. Eu estava lá. A matéria, que o jornal abriu na primeira página, sob o título "Tancredo enterrado à noite, após o adeus da sua cidade",  começava assim:

 

O toque de silêncio. Uma salva de 21 tiros de canhão. Apenas 200 pessoas no cemitério. A cidade recolhida, calada. Foi o ato final destes quarenta dias que abalaram o Brasil. Tancredo de Almeida Neves, o primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar, que morreu antes de tomar posse, foi enterrado às 22h54 de ontem, na sepultura número 84 do pequeno cemitério da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em São João del Rey, Minas Gerais.

O sepultamento estava inicialmente marcado para as 17 horas, mas foi adiado por determinação de dona Risoleta Neves para que todos os são-joanenses, que desde cedo formavam longas filas diante da igreja de São Francisco de Assis, pudessem ver o corpo do presidente. O esquife foi levado por irmãos da Ordem Terceira até a entrada do cemitério e entregue à família. Na frente, trazendo o caixão até a sepultura, vinham o presidente José Sarney e o filho Tancredo Augusto, enquanto a banda do Regimento Tiradentes tocava a marcha fúnebre de Chopin.

Os sinos da igreja de São Francisco de Assis, onde o corpo estava sendo velado desde as 11h30, dobraram mais forte.

 

Os poucos meses que separaram a grande festa cívica das "Diretas Já", da eleição, agonia e morte de Tancredo me fizeram pensar na época como o nosso grande país pode ter um destino ao mesmo tempo belo e trágico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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fhc FHC: uma voz de bom senso no golpe sem quartel

"Como pode um partido pedir impeachment antes de ter um fato concreto? Não pode".

Quem fez essa pergunta, e a respondeu em seguida, não foi nenhum dirigente do PT nem algum jurista renomado. Foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na palestra que fez neste domingo, no Fórum de Comandatuba, na Bahia, em que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi o principal assunto discutido entre os participantes do encontro, que reuniu empresários e políticos.

Voz isolada de bom senso neste golpe sem quartel que está em andamento, agora com o apoio do PSDB e de seu presidente, Aécio Neves, FHC foi enfático na defesa da legalidade:

"Impeachment não pode ser tese. Ou houve razão objetiva ou não houve razão objetiva. Quem diz se é objetiva ou não é a Justiça, a polícia, o tribunal de contas. Os partidos não podem se antecipar a tudo isso, não faz sentido. Você não pode fazê-lo fora das regras da democracia. Qualquer outra coisa é precipitação".

Podemos ou não concordar com o ex-presidente, mas é fato incontestável que ele tem tido a coragem de se manifestar quase diariamente, mesmo quando em desacordo com seus seguidores, enquanto outros lideres políticos nacionais se omitem no debate institucional neste momento grave vivido pela nossa jovem democracia.

Em artigo publicado na mesma edição da Folha que reproduziu as falas de FHC nesta segunda-feira, Aécio Neves foi na direção oposta:

"Nos últimos tempos a ideia de impeachment ganhou forte impulso na sociedade (...) Nesse debate, em pontos extremos, de um lado está o PT tachando de golpistas os que cobram providências. De outro, estão aqueles que veem no impeachment um valor absoluto. Defendem a tese a priori e buscam no dia a dia argumentos para sustenta-la".

De fato, no extremo representado pelos aliados de Aécio no PSDB e nos partidos nanicos que o apoiam, a reboque dos "movimentos de rua", a cada semana os Cunha Lima, Sampaio, Agripino Maia, Bolsonaro, Caiado, Roberto Freire e outros democratas da mesma estirpe encontram motivos diferentes e cada vez mais graves para derrubar a presidente e, se possível, acabar também com o seu partido.

Isso não é nem novidade. Em 2006, durante a campanha de Lula pela reeleição, no auge do processo do mensalão petista, Jorge Bornhausen, então presidente do PFL, que depois virou DEM e agora está ameaçado de extinção, já havia pregado:

"Vamos acabar com essa raça. Vamos nos livrar dessa raça por, pelo menos, 30 anos".

Lula foi reeleito, elegeu Dilma, que se reelegeu recentemente, e quem acabou foi a carreira política de Bornhausen, que desapareceu do mapa antes do seu partido buscar a fusão com o PTB para não morrer.

No último debate do segundo turno da eleição presidencial de outubro, Aécio já havia incorporado o espírito de outros caçadores de marajás do passado e do presente, ao proclamar:

"Para acabar com a corrupção, é preciso tirar o PT do poder".

Mais de 54 milhões de eleitores não concordaram com o presidenciável tucano e deram a vitória a Dilma, mas o neto de Tancredo Neves, não se conforma até hoje.

Ao contrário do avô, que permaneceu fiel até o fim ao lado de Getúlio Vargas, vítima de um golpe militar que o levou ao suicídio no Palácio do Catete, para defender o presidente democraticamente eleito, Aécio agora não se peja de ficar ao lado dos abutres da democracia. Nesta cruzada das trevas, não terá a companhia de Fernando Henrique Cardoso.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Boletim médico: O Brasil está com dengue

"Como estão as coisas?", pergunto ao jovem filósofo popular Ruy Brisolla, também produtor de cinema, meu oráculo no bar da esquina, a Tabacaria Ranieri.

"O Brasil está com dengue", responde com firmeza, depois de pensar por alguns segundos. E nada mais diz. Nem precisa.

Ao terminar de ler o noticiário de jornais e revistas no fim de semana, parece que eu e o país levamos uma surra. Não sobrou pedra sobre pedra. O Ruy tem razão: os sintomas são semelhantes aos da dengue:

* febre alta com início súbito

* forte dor de cabeça

* perda do paladar e apetite

* tonturas

* náuseas

* extremo cansaço

* moleza e dor no corpo

Quando parecia que o governo Dilma -2 iria sair da UTI na semana anterior, começou tudo de novo, a febre voltou a subir. Por conta de novas denúncias por todo lado e da prisão do tesoureiro do PT, as oposições voltaram com tudo para fechar o cerco ao impeachment da presidente e já falam abertamente até na extinção do PT.

Pois até Aécio Neves já aderiu ao movimento. O único programa de governo do PSDB parece ser o de derrubar o governo do PT no tapetão, já que nas urnas não foi possível. Fala-se em impeachment com a naturalidade de quem dá um espirro.

E a presidente Dilma? Juro que não sei o que ela anda pensando da vida, até porque agora quem fala em nome do governo terceirizado são o Joaquim Levy e o Michel Temer.

Resultado, como já constatei aqui outro dia: vivemos um momento esquizofrênico da nossa história em que não temos nem governo nem oposição, e a Justiça, a polícia, os procuradores, a mídia, o Cunha e o Renan dão as cartas, disputando entre eles o espaço deixado vazio.

Enquanto isso, os casos de dengue que não são metafóricos disparam na vida real. Este ano, a dengue já fez 240% mais vítimas do que em 2014. São mais de 460 mil registros da doença  em todo o país, um número que cresce na proporção de 220 novos casos por hora.

Mais da metade do total de vítimas da dengue foi registrado em São Paulo, que já vive uma epidemia, com 257 mil casos confirmados, um aumento de 700% em relação a 2014, e o número de mortes no maior e mais rico Estado do país chegou a 122 nos primeiros três meses do ano.

E é assim que vamos chegando a mais um 22 de abril, 515 anos depois de Cabral.

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Rossi 1024x512 Imprensa: Rossi e Setti, raros encontros de caráter e talento

Vida de repórter também tem coisas boas, não é só escrever sobre a cada vez mais degradada cena política brasileira e outras desgraças. Por um destes bons acasos do destino, esta semana tive a oportunidade de participar, em dois dias seguidos, de entrevistas com duas literalmente grandes figuras do jornalismo brasileiro, que já completaram meio século de profissão.

Participei da gravação do programa "Roda Viva" com Ricardo Setti, que está se aposentando e indo embora do Brasil e, ao lado da colega Luiza Villaméa, de uma longa entrevista com Clóvis Rossi, repórter e colunista da Folha _ dois raros e gratificantes encontros de caráter e talento reunidos nas mesmas pessoas. A entrevista com Rossi será publicada na edição de maio da revista Brasileiros e o "Roda Viva" com Setti, até o fim do mês ainda blogueiro da Veja.com, deve ir ao ar em três semanas, na TV Cultura.

Os dois são um pouco mais velhos do que eu e foram meus chefes em diferentes redações e momentos da carreira. Rossi foi o primeiro, quando entrei ainda menino na redação do Estadão, em 1967, época em que Setti começava no Jornal da Tarde, já extinto, assim como o Jornal do Brasil, onde os três trabalhamos mais tarde.

Pois é, estamos durando mais do que os jornais por onde passamos... A imprensa não costuma falar da imprensa, mas é sempre bom quando podemos contar a história de profissionais que fizeram do trabalho mais do que um ganha pão, uma razão de vida.

Cada um a seu modo, e pensando muitas vezes de forma diferente, Rossi e Setti são a prova viva de que é possível atravessar esta longa estrada fazendo reportagens pelo Brasil e pelo mundo mantendo os mesmos princípios e valores, sendo honestos consigo mesmos e com seus leitores.

Digo isso não porque são meus amigos, mas acho que somos amigos até hoje exatamente por acreditar que não basta ter talento nesta profissão. É preciso ter caráter, respeitar os fatos, ouvir os outros, corrigir imediatamente nossos erros, perseguir a verdade, mesmo sabendo que cada um tem a sua e não existe liberdade absoluta nem na casa da gente.

Precisamos é estar sempre a serviço da sociedade para contar o que está acontecendo no Brasil e no mundo _ de preferência, indo ao lugar dos fatos para ver de perto e ouvir em primeira mão as diferentes versões dos personagens da história.

Num momento em que percebo um sentimento de perplexidade diante dos rumos do país e da profissão nestes milhares de jovens que continuam lotando nossas escolas de jornalismo, apesar da não obrigatoriedade do diploma, recomendo que leiam os livros publicados por ambos e façam uma pesquisa no Google sobre a vida e a obra deles, já que experiências tão ricas e duradouras não cabem no espaço de um blog. E não deixem de ver os belos depoimentos dados por Clóvis Rossi e Ricardo Setti esta semana. Fica a dica.

Bom feriadão a todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Objetivo agora é impeachment e o fim do PT

Ronaldo Caiado

Após uma brevíssima trégua, as oposições voltaram com tudo esta semana, unindo partidos e "movimentos de rua" em defesa do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Só derrubar o governo, no entanto, já não basta. O objetivo agora é simplesmente defender a extinção do PT, como anunciou o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, durante o depoimento na CPI da Petrobras feito semana passada pelo tesoureiro do partido, João Vaccari, que foi preso pela Polícia Federal, na manhã desta quarta-feira.

Logo após a prisão, o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado, divulgou nota em que pede abertamente, sem meias palavras, o impeachment da presidente e o fim do partido que governa o país há mais de 12 anos:

"Diante desse cenário, tudo caminha para que o PT perca o registro de partido político. E, comprovado que a presidente Dilma fosse beneficiada por esse esquema em suas campanhas, será mais do que suficiente para ela perder o mandato por corrupção".

Na mesma linha, o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno, correu à imprensa para afirmar que as condições estão sendo criadas para o impeachment contra a presidente Dilma: "O povo na rua, a PF, o Ministério Público e o Judiciário agindo. Cada vez o cerco apertando mais. Será inevitável, no final, o processo de impeachment".

Com medo de perder o bonde, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, já havia saído dos seus confortos, na véspera, ao encontrar motivos "extremamente fortes" para defender o impeachment da presidente Dilma, tese que o partido, aconselhado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, havia deixado em stand by, à espera dos pareceres de seus juristas.

Aécio resolveu aderir ao neotucanato xiita liderado por Carlos Sampaio, que foi advogado da sua campanha presidencial, depois de receber representantes do "Vem para a Rua", um dos movimentos que levantaram a bandeira do "Fora Dilma" nas manifestações do último domingo.

"Impeachment não é uma palavra proibida. Impeachment não é golpe, é constitucional", justificou o candidato a presidente do PSDB derrotado nas eleições de outubro.

Os tucanos e suas linhas auxiliares não só não desistiram do terceiro turno como agora partiram para eliminar o adversário no parlamento, na mídia e nos tribunais.

Aceleraram o andamento do golpe, sim, pois é este o nome que se dá à tentativa de revogar os resultados das urnas por outros meios.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 O que é terceirização? Trabalhar mais e ganhar menos

A palavra é feia, mas ainda não inventaram outra melhor para expressar o que ela significa: sistema de aluguel de mão de obra para reduzir os custos das empresas, aumentando a carga de trabalho e diminuindo os salários dos empregados.

Em resumo, é isso. Enquanto todo mundo se distrai com as ações de Levy na economia e Temer na política, a Lava-Jato e os novos rumos dos movimentos pelo impeachment da presidente Dilma, nossos deputados, discretamente, sob o comando do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, estão armando aquilo que o sociólogo Ruy Braga chamou de "maior derrota dos trabalhadores desde o golpe de 1964".

Eu iria um pouco mais longe. Se terminar de ser votada nesta terça-feira, a Lei 4330, que regulamenta a mão de obra terceirizada, significará o enterro da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a grande conquista da Era Vargas, ao garantir os primeiros direitos sociais aos assalariados brasileiros.

Para se ter uma ideia do que está em jogo neste momento, é preciso citar alguns números. Estudos apresentados pelas centrais sindicais, que combatem a nova lei, mostram que os  terceirizados trabalham três horas a mais por dia do que os empregados formais para ganhar, em média, um salário 24% menor.  A diferença vai, é claro, para os bolsos dos empresários, tanto os que alugam como os que contratam mão de obra terceirizada.

Temos hoje no país 35 milhões de empregados formais e 13 milhões de terceirizados. Caso esta lei seja aprovada na Câmara, e depois no Senado, em pouco tempo a relação será certamente invertida porque nenhuma empresa vai querer pagar mais se pode gastar menos com seus funcionários.

Quando trabalhei no governo, no começo dos anos 2.000, tive um bom exemplo de como isto funciona: os motoristas terceirizados do Palácio do Planalto ganhavam até cinco vezes menos do que seus colegas contratados pela Câmara, do outro lado da praça dos Três Poderes, para executar o mesmo serviço.

Aluguel de mão de obra é mais ou menos a mesma intermediação que os antigos "gatos" faziam ao fornecer "boias-frias" para as lavouras de cana dos fazendeiros paulistas, que combateram Getúlio Vargas desde 1932 e nunca se conformaram com a derrota.

Se Paulo Skaf, presidente da Fiesp, e o deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, estão do mesmo lado, em defesa da Lei 4.330, os trabalhadores brasileiros que vivem de salário podem ter certeza de que coisa boa para eles não é. Terceirização pode ser traduzida por precarização do trabalho.

Na marcha batida para o retrocesso em que caminha o país, a terceirização ora regulamentada é apenas mais um passo, ao lado da redução da maioridade penal, do estatuto da família, do fim do estatuto do desarmamento e da reforma política congressual, que pretende constitucionalizar o financiamento empresarial das campanhas políticas.

Estão agora ameaçadas as conquistas sociais das últimas décadas, destinadas a diminuir a desigualdade e os preconceitos, para tornar o país mais contemporâneo do mundo civilizado. E parece que quase ninguém está se dando conta dos perigos deste processo, de volta à Idade Média.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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