O papel do rádio na fábrica da desconstrução

Desconstrução virou a palavra da moda. Foi muito utilizada para criticar a propaganda negativa do PT contra a candidatura Marina Silva. Como ando muito de táxi, acompanho diariamente as atividades de uma outra fábrica de desconstrução, bem mais antiga e poderosa, que não está no radar dos nossos analistas e da qual quase ninguém fala.

Refiro-me ao papel desempenhado pelas rádios nesta campanha eleitoral. Temos no país três rádios sediadas em São Paulo e que operam em rede nacional, dedicadas dia e noite a baixar a ripa nos governos e políticos progressistas de qualquer latitude.

Recrutados em sua maioria na mídia impressa, proliferam no dial os "comunicadores populares" e  "comentaristas políticos e/ou econômicos", com um discurso que repete o pensamento único das suas empresas e não dá espaço para controvérsias: é pau no governo, desde que o governo não seja tucano.

Não importam o fato nem o assunto, você já sabe o que vai ouvir naquelas vozes indignadas de quem veio ao mundo para salvar a humanidade da danação eterna. Lembram aqueles pregadores do apocalipse que gritam na praça da Sé, mesmo que ninguém pare para ouvi-los. Só que estes têm uma audiência seleta e cativa.

Quando se fala de "conversa de motorista de táxi", sempre que alguém conta uma história cabeluda, detonando alguma figura pública sem necessidade de comprovação, pode ter certeza que a matéria prima vem do que ele ouviu no rádio do carro, e nada mais é do que a reprodução do que divulgam estes comunicadores e comentaristas clonados em série.

Depois, seus passageiros vão repetir estas mesmas histórias nos botecos de esquina ou nas salas de espera, nos salões chiques ou nos pagodes, garantindo que são verdadeiras. Se você lhes perguntar de onde tiraram isso, vão dizer que ouviram no rádio (ou então que viram na internet, na retroalimentação das notícias multimídia). É o círculo vicioso da fábrica de desconstrução, que gerou a famosa lenda da "mansão do Lula no Morumbi", repetida até hoje à exaustão pelos taxistas mais antigos.

Claro que não se pode generalizar, que há honrosas exceções à regra, e faço questão de citar como exemplos José Paulo de Andrade e Salomão Esper, ambos veteranos profissionais da Rede Bandeirantes, de quem muitas vezes posso discordar, mas sempre respeito. Não se trata de afinidade política ou ideológica, mas apenas de ter caráter e honestidade profissional.

Em épocas de beligerância eleitoral como estamos vivendo neste momento, muita gente subestima o poder do rádio e sua capacidade de multiplicação de boatos e infâmias, instrumento de propaganda permanente, geralmente a serviço do que há de mais conservador, reacionário e intolerante na sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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foto Aécio lava a égua em SP, surfando na onda anti PT

Cada dia é um dia, com uma noite no meio. Ainda bem. Que o digam os institutos de pesquisa, que nunca erraram tanto como nesta eleição. O Ibope errou feio até na boca de urna no final da tarde de domingo, em que anunciou a vitória de Dilma Rousseff por 44 a 30 contra Aécio Neves, uma diferença, portanto, de 14 pontos.

Só que quando as as urnas foram apuradas e o resultado final anunciado, no começo da noite, o placar registrava 42 a 34 a favor de Dilma, apenas 8 pontos à frente de Aécio, que perdeu na sua Minas Gerais, mas lavou a égua em São Paulo, como dizem os nossos caipiras, que mais uma vez reelegeram Geraldo Alckmin.

"Desenha-se um segundo turno entre Dilma e Aécio", foi o título do post que publiquei no já longínquo dia 18 de julho, antes da morte de Eduardo Campos e da assunção de Marina Silva. Muitos leitores não gostaram e me criticaram porque, naquele momento, ainda acreditavam na possibilidade da reeleição da presidente já no primeiro turno. Pela primeira vez, Dilma (44%) e Aécio (40%) apareciam numa situação de empate técnico na simulação de segundo turno feita pelo Datafolha.

No dia 28 de agosto, duas semanas após a tragédia aérea com Eduardo Campos, tudo tinha mudado: a campanha eleitoral foi varrida pelo furacão Marina Silva, que disparou nas pesquisas, chegou a abrir 10 pontos de vantagem sobre Dilma na simulação de segundo turno do Datafolha, e ameaçou liquidar a fatura já na primeira rodada. Neste dia, não escrevi sobre pesquisas, mas fiz um relato sobre o que senti andando pelas ruas de São Paulo.

"Ódio contra o PT em São Paulo é assustador", foi o título  da matéria publicada a cinco semanas das eleições, que começava com o desabafo de um taxista:

"Eu tenho tanto ódio contra o PT que,  se tiver uma eleição entre o PT e o PCC, eu voto no PCC".

A frase dava bem uma ideia do sentimento de boa parte dos eleitores paulistas nos poucos dias que faltavam de campanha na região em que o PT registra os mais altos índices de rejeição do país. A pouco mais de um mês da eleição, 47% dos entrevistados responderam ao Datafolha que não votariam em Dilma de jeito nenhum. Parece que ninguém no Palácio do Planalto deu atenção a estes alertas.

É exatamente isto que explica a disparada de Aécio Neves na reta final, atropelando Marina Silva, ao jogar no voto útil para derrotar o PT, e abrir uma enorme vantagem sobre Dilma no maior colégio eleitoral do país: foram 10,1 milhões de votos contra 5,8 milhões para Dilma Rousseff.

Nem Fernando Henrique Cardoso, nas duas vezes em que derrotou Lula no primeiro turno, abriu tamanha vantagem em São Paulo. E foi o que derrubou as previsões dos institutos de pesquisa, o ponto fora da curva em relação às eleições presidenciais anteriores.

Porque Dilma ganhou de novo onde o PT costuma ganhar (Norte-Nordeste, Minas e Rio) e perdeu onde costuma perder (no Sul e Sudeste). Só que, desta vez, a sua vitória foi bem menor do que no primeiro turno de 2010 (8 milhões de votos a menos).

Faz tempo que o eleitorado brasileiro está dividido em dois _ os que votam a favor e os que votam contra o PT _ só que, desta vez, a disputa está muito mais acirrada e o segundo turno promete uma "batalha sangrenta", como previu um bandeiroso porta-voz do Instituto Millenium, que só faltou sapatear de alegria, ao vivo, na TV.

Para se ter uma ideia do clima, no dia em que o velho amigo Ancelmo Gois reproduziu, em seu twitter do Globo.com, o post do Balaio com a frase do taxista, dizendo que votaria até no PCC para derrotar o PT, o leitor Junior Guerra respondeu:

"Vamos pegá-los para tirar o fígado e jogar pros cachorros".

Preparem-se para o que virá. Estamos voltando aos tempos da peleja de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas. Só espero que ninguém se mate.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Atualizado às 12h45

Daqui a pouco, às 16h30, estarei participando junto com Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão da cobertura das apurações, no programa especial do Jornal da Record News, que pode ser sintonizado nos canais 78 da NET e 179 do SKY. Nos vemos lá.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

Acabaram de sair as novas pesquisas do Ibope e do Datafolha, pouco antes de começar o futebol neste sábado à tarde.

Desta vez, os dois institutos anunciaram, logo de cara, os índices dos votos válidos, que mostram, pela primeira vez, Aécio na frente de Marina, e a presidente Dilma a um passo da reeleição no primeiro turno.

No Ibope, Dilma chega a 46%, Aécio tem 27% e, Marina, 24%.

No  Datafolha, Dilma tem 44%, Aécio, 26%, e Marina, 24%.

Para liquidar a fatura no primeiro turno, o que parece possível nesta véspera da eleição, mas é difícil de acontecer, Dilma precisa de 50% dos votos válidos mais um. Pode bater na trave.

De qualquer forma, estas pesquisas servem para mostrar, nos últimos momentos de campanha, que Marina Silva era fogo de palha, Aécio não estava morto e Dilma era bem mais forte do que os números dos institutos apontavam até a semana passada.

É sempre assim: à medida em que se aproxima a abertura das urnas, as pesquisas procuram chegar mais próximas da verdade dos eleitores.

Uma coisa é certa: mesmo que não liquide a fatura já no primeiro turno, a presidente Dilma Rousseff entrará no segundo com larga vantagem sobre Aécio ou Marina.

Neste quadro, não há antecedentes, desde a redemocratização, de uma inversão de resultados.

Em resumo: Dilma é mais favorita do que nunca, em qualquer circunstância, tanto no primeiro como no segundo turno. Caminha para a reeleição.

Em tempo:

Veja pirou

Estava esperando para ver a capa desta semana da Veja, revista da qual sou antigo assinante. Qual seria a nova bala de prata?

Que nada, nenhuma denúncia contra o PT, mas uma capa simplesmente inacreditável, totalmente sem noção, sem nexo, sem pudor, de um nonsense total.

Não se tata de opção ideológica ou partidária, mas de absoluta falta de bom senso editorial.

É o que dá entregar o comando da revista a quem não é do ramo.

Com a chamada "A cartada final", Veja conseguiu dar uma capa na véspera da eleição presidencial, sem a foto da presidente Dilma Rousseff, franca favorita à reeleição.

A capa destaca as fotos dos combativos adversários Marina Silva e Aécio Neves no debate da Globo, "o último duelo para decidir quem enfrenta Dilma Rousseff no segundo turno", sem sabermos nem se haverá segundo turno, como mostram as pesquisas acima.

Dilma é sujeito oculto, ausente da capa.

Dá para acreditar nisso?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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essa Não sei quem vai ganhar, mas a imprensa já perdeu

Por onde passei nestas últimas semanas e meses, lá vinha a pergunta inevitável: quem você acha que vai ganhar as eleições? Invariavelmente, respondia que não poderia responder com qualquer certeza, até porque, se soubesse, ficaria rico. O pessoal da jogatina na bolsa e no dólar pagaria qualquer preço para saber a resposta correta.

Nesta véspera da mais disputada eleição presidencial dos últimos muitos anos, estava nesta manhã cinzenta de sábado navegando pelos portais em busca das últimas informações, quando encontrei um texto de Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa, do grande Alberto Dines, que resume bem o que penso neste momento e me dispensa de ter que escrever muito, pois, confesso, estou cansado desta campanha, uma disputa de baixo nível, que em nenhum momento conseguiu mobilizar corações e mentes.

Sob o título "A verdade na boca da urna", meu amigo e vizinho Luciano foi direto ao ponto:

"Seja qual for o resultado da votação de domingo, pode-se dizer que a imprensa sai como a grande perdedora, porque não conseguiu colocar seu candidato predileto em condições de vencer a eleição. Até este momento, mesmo o mais otimista entre os adeptos da candidatura de Aécio Neves considera altamente improvável que ele consiga coletar os votos para superar o primeiro turno com potencial para levar consigo uma porcentagem significativa de apoios ente os adeptos de Marina Silva.

Na coluna "Panorama Político" do Globo (entregue ao competente e correto Ilimar Franco), lê-se que, se a ex-ministra não for para o segundo turno, seus correligionários vão se dividir, com uma parte aderindo ao PSDB e outra voltando ao ninho petista, onde as carreiras de Eduardo Campos e de Marina Silva foram geradas. Em  outra coluna do mesmo jornal, também se pode apreciar como a derrota iminente pode afetar o senso crítico, em um texto que dá voz a teorias conspiratórias e prevê uma grave crise institucional no próximo governo.

Embora possa parecer ocioso repetir as evidências de que as grandes empresas de comunicação agem como uma organização partidária, convém discutir o uso que fazem dos institutos de pesquisa, como referência de uma objetividade que de fato não existe. Uma coisa é a coleta de dados e a complexidade das análises que são produzidas por profissionais a serviço dessas organizações. Outra coisa é o conjunto de informações que os editores selecionam para levar ao público.

Observe-se, por exemplo, como, segundo o Ibope, a taxa de rejeição da presidente Dilma Rousseff caiu de 36% no dia 25 de agosto para 29% na quinta-feira. Se isso é real, trata-se de um fenômeno de comunicação. Na verdade, esse número sempre coincidiu com os 23% a 29% dos que consideram seu governo "ruim ou péssimo", que, no contexto brasileiro, é o critério mais confiável para definir o núcleo duro da oposição.

A mídia tradicional passou toda a campanha tentando ampliar esse campo, em sua cruzada contra o partido que governa o país desde 2003, mas falhou mais uma vez".

Volto eu. Agora, já no desespero, à beira de um ataque de nervos, leio que alguns porta-vozes do Instituto Millenium deram para desconfiar até da segurança das urnas eletrônicas, um sistema de votação e apuração respeitado em todo o mundo. Ridículo.

Só nos resta votar. Neste domingo, a partir das 16h30, estarei ao lado de Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão acompanhando a marcha das apurações na Record News (canal 78 na NET).

Até lá.

 

 

 

 

 

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1604803 10152525256786638 7418396291520710597 n Campanha termina como começou com Dilma favorita

Do mesmo jeito que começou, e depois de muitas reviravoltas, a campanha presidencial terminou nesta quinta-feira (2) com as últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha mostrando ampla vantagem de Dilma Rousseff, tanto no primeiro como no segundo turno, se houver.

Após 87 horas de propaganda eleitoral na televisão, a disputa se limita neste momento ao segundo lugar, brigado pau a pau entre Marina e Aécio, para ver quem será o desafiante da presidente candidata à reeleição.

A análise completa das pesquisas dos dois institutos para a eleição presidencial e a situação nos principais Estados estão aqui, no Jornal da Record News.

Vamos então direto  ao debate da Globo, que ao final de duas horas de bate-boca não apresentou nada que possa alterar os números mais recentes das pesquisas em que Aécio aparece subindo e Marina caindo, semana a semana, desde o início de setembro, quando ela chegou a abrir 20 pontos de vantagem sobre o tucano (agora são apenas três no Datafolha).

Como se ninguém fosse perceber, o bem produzido espetáculo comandado por William Bonner para impedir a reeleição de Dilma, no último debate do último dia de campanha, manteve o roteiro das campanhas anteriores: candidatos levantando a bola entre eles e todos batendo no PT.

Desta vez, os nanicos laranjas, que só serviriam para fazer figuração, dominaram a cena e nem disfarçavam seu papel neste "reality show" político. Os coadjuvantes perderam a modéstia e viraram protagonistas, com destaque para o pastor Everaldo, que roubou o posto ocupado por Levy Fidelix no debate da Record.

Apesar de seu discurso homofóbico, Everaldo, todo sorriso, chamou Aécio de "meu querido", ao convocá-lo para responder no púlpito, antes mesmo que o moderador sorteasse o tema da pergunta que deveria fazer, como se já estivesse tudo combinado.

A exemplo do que  aconteceu nas intervenções de outros nanicos, o pastor não se preocupou em perguntar nada, mas apenas em atacar Dilma e ajeitar a bola para o candidato do PSDB bater no gol. Com ares de grande estadista de inícios do século passado, o candidato do PSC, que se apresenta como porta-voz da família brasileira, comportava-se como se estivesse mesmo disputando a eleição para valer.

Este último debate serviu apenas para explicar os motivos do favoritismo de Dilma, menos por seus próprios méritos e mais pela mediocridade dos adversários, apesar de todos os problemas enfrentados pelo seu governo, que não é nenhuma Brastemp.

Muito à vontade no ambiente global, como se estivesse num programa de auditório, Aécio se sentiu até no direito de pedir aplausos à plateia quando fez um elogio ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Cada um ali procurava desempenhar seu papel determinado pelos roteiristas.

O verde Eduardo Jorge, fazia o de clown simpático, sem maiores compromissos com o resultado das eleições, mais preocupado em marcar posições comportamentais para arrancar risos da plateia e promover memes nas redes sociais.

A radical Luciana Genro, do PSOL, jogava seus cabelos revoltos para todos os lados tentando chocar a burguesia com seu sorriso de Barbie da maturidade.

O inacreditável Levy Fidelix, com seus cabelos e bigodes exageradamente pintados, anunciava o apocalipse se não fosse ele o eleito para o lugar de Dilma.

O prestativo pastor Everaldo, a serviço da direita mais primitiva, procurava apenas ajudar Aécio a levar Aécio ao segundo turno, se possível tirando dele a presidente Dilma.

A indignada ambientalista Marina Silva, com um demagógico discurso populista no melhor estilo do "Tea Party" americano, fazia-se de vítima dos poderosos, no papel de "mulher, negra e pobre", como se queixou em entrevista à CNN.

Deixando um pouco de lado o gênero folgazão de garoto de praia, Aécio jogou seus últimos trunfos tentando incorporar um Carlos Lacerda básico, mas não convenceu muito no novo papel de defensor da moral e dos bons costumes públicos.

A Dilma, atacada por todos os lados, só restou ser cada vez mais Dilma, a gerentona brava e implacável, que não leva desaforo para casa, cheia de números e rasa de ideias novas para despertar as esperanças do eleitorado.

Não aguento mais ouvir a voz esganiçada de nenhuma delas nem ver a canastrice de nenhum deles. Ainda bem que acabou.

O que está em disputa, na verdade, não é o varejo dos tiros trocados nos debates sobre a governança e as lambanças na Petrobras, mas a quem caberá tomar conta, pelos próximos quatro anos, do tesouro do pré-sal, que tanta cobiça desperta tanto aqui dentro como lá fora.

Diante deste quadro, que projeta uma guerra feroz no segundo turno, se eu tivesse que pedir para algum deles tomar conta dos meus netos, não teria nenhuma dúvida. Chamaria a Dilma. Só não pode perder a paciência e bater nas crianças.

Para não variar, a mais brilhante análise desta reta final de campanha foi feita pelo José Simão:

"E a Dilma pode ser reeleita, mas pela margem de erro pode ser presidente da Argentina ou da Venezuela".

Vamos agora, com muita calma, aguardar a abertura das urnas no domingo e saber qual foi a decisão de sua excelência, o eleitor.

Bom final de semana e bons votos para todos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

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lula1 Há 25 anos, Lula X Collor e o povo nas ruas

"O teeeeempo passa....", como dizia o lendário narrador esportivo Fiori Gigliotti, que era daquele tempo.

Pois é, amigos, está fazendo exatamente 25 anos que fomos às urnas eleger pelo voto direto nosso presidente da República, pela primeira vez desde a ditadura, que durou mais de duas décadas. Foi também a primeira vez que a minha geração pode exercer este direito. Antes disso, a última vez em que isso tinha acontecido foi em 1960, o ano em que meu pai morreu, e elegemos Jânio Quadros, que renunciou oito meses após a posse. O vice João Goulart assumiu o lugar dele e foi derrubado por um golpe cívico-midiático militar, em 1964.

Faz tanto tempo que já tinha até me esquecido desta efeméride. Quem me lembrou foi o colega Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual, ao me entrevistar sobre o que aconteceu no inesquecível ano de 1989. Dá para passar vários dias contando histórias vividas naquela campanha, que colocaria frente a frente meu amigo Lula e Fernando Collor, o "caçador de marajás", no segundo turno, disputado palmo a palmo até o final. Collor teve 35 milhões dos votos e Lula ficou com 31 milhões.

Como os leitores não terão tempo nem saco para ler um texto muito longo sobre episódio tão antigo, desisti de fazer uma pesquisa nos meus próprios livros para relembrar aqui apenas fragmentos da minha memória afetiva.

Subi neste trem no final de 1988, ao voltar de uma viagem a trabalho, quando era repórter do finado "Jornal do Brasil", e resolvi fazer uma visita ao Lula, então deputado constituinte, que estava se recuperando de uma cirurgia no apêndice, no Hospital Sírio-Libanês.

Sem maiores delongas, como é do seu estilo sertanejo, depois de falar rapidamente da cirurgia, foi direto ao assunto:

"Te prepara, Ricardinho (chamavam-me assim quando era jovem). Te prepara porque no ano que vem eu vou ser candidato a presidente da República e você vai ser meu assessor de imprensa".

Tomei um susto e, a princípio, desdenhei do convite, ou melhor, da intimada.

"Não vai dar, Lula. Eu nunca fui assessor de imprensa, não gosto disso, sou repórter especial do JB, ganho bem, estou satisfeito no jornal, não sou nem filiado ao PT...", ainda tentei resistir.

"Não enche o saco, pô. Eu também nunca fui candidato a presidente da República".

De fato, não só ele não tinha sido candidato, como sequer havia votado para presidente, já que temos mais ou menos a mesma idade.

Incentivado por colegas, advertido por outros sobre os riscos para a minha carreira, e com todo o apoio da família, antes do final do ano já estava trabalhando com Lula na campanha, ganhando umas dez vezes menos do que no jornal, mas estava feliz. A direção do JB, graças ao Ricardo Setti, tinha me concedido uma licença não remunerada.

E lá fomos nós rodar o Brasil de ponta a ponta, de cabo a rabo, várias vezes. Quase seis anos após o movimento das Diretas Já, o Brasil parecia palco de uma grande festa democrática, agora com final feliz. Em sua matéria no site da RBA, Nuzzi registra que eram 22 candidatos (hoje temos 11) para 70 milhões de brasileiros aptos a votar, metade do atual eleitorado. Não existia celular, nem internet, nada disso, não tínhamos jatinho nem grana, e até alugar uma casa para instalar o comitê foi uma novela.  Era tudo feito no gogó, na unha e no papel.

Montagem politicos Há 25 anos, Lula X Collor e o povo nas ruas

Para vocês terem uma ideia do clima na época, no mesmo ano de 1989 em que cairia o Muro de Berlim, por aqui vivíamos ainda os tempos da Guerra Fria. "Conservadores assombravam a população com fantasmas como o comunismo (...) A eleição de 1989, para o conservadorismo, ainda acenava com a ameaça esquerdista "Brizula", junção dos nomes de (Leonel) Brizola e Lula", escreveu Vitor Nuzzi.

Fui falar com um empresário amigo meu, dono de vários imóveis, para ver se ele emprestava ou alugava alguma casa para instalarmos o comitê, mas ele negou na hora, alegando que, se o Lula ganhasse a eleição, tomariam a propriedade dele. "Era tudo muito difícil. O que nos animava era a militância. Era tudo muito improvisado. Muitos comícios... Estou cansado até hoje... E também era uma grande festa, que, para mim, pareceu uma continuação da Campanha das Diretas. A gente sabia que estava participando de um momento histórico", lembrei ao repórter.

Por absoluta falta de aptidão para o novo ofício, brigava muito com o Lula quase todo dia. Logo em minha estreia na função de assessor, interrompi uma gravação de TV porque não tinha gostado de uma palavra usada pelo candidato e pedi para começar tudo de novo. Em Rio Branco, no Acre, durante um Encontro dos Povos da Floresta, onde conheci Marina Silva, interrompi um discurso de Lula para informa-lo do assassinato de um seringueiro. "Nunca mais me faça isso na vida. Você estragou meu discurso, esqueci o que estava falando...".

A grande diferença que sinto em relação à campanha presidencial de agora, é que, em 1989, para onde a gente fosse, o povo estava nas ruas, fazendo comício no meio do mato ou nas beiras dos rios na Amazônia. Caminhadas, carreatas, comícios-relâmpago ou monumentais showmícios (mais tarde proibidos), muitas bandeiras, buzinas, faixas, adesivos por toda parte, pessoas cantando os jingles de campanha, camisetas dos candidatos, ninguém ficava indiferente, e a gente não parava nem para dormir nem para comer.

Esse último item era o principal motivo das minhas divergências com o candidato. Alegava para Lula que ficar muito tempo sem comer deixa a gente com mau hálito e o Tancredo Neves, de tanto querer ser presidente, descuidou da saúde, e morreu na véspera da posse.

Tinha dia que acordava num lugar que não lembrava qual era e nem o que tinha ido fazer lá. Passei praticamente o ano todo fora de casa. A equipe de imprensa na primeira fase era formada por mim mesmo, depois dobrou, quando chegou o incansável Sergio Canova para me ajudar. O esquema funcionava assim: eu acompanhava o candidato em todas as viagens e ditava pelo orelhão, de onde estivesse, um relato das atividades do dia para o Canova, em São Paulo, que distribuía o material por telex para as principais redações.

Apoiado pela grande mídia, na falta de opção melhor, Collor espalhava o terror pelo país, ameaçando com um "derramamento de sangue", caso Lula ganhasse a eleição. Cada vez que eu conseguia passar um fim de semana no meu sítio, em Porangaba, voltava mais assustado: os vizinhos estavam com medo de perder suas terras, que seriam divididas com os mais pobres, assim como suas galinhas, cavalos e bicicletas, e o que mais tivessem. A boataria era terrível. Nos centros urbanos, a conversa era que Lula tomaria e dividiria casas e apartamentos "com a baianada", e até quem tinha "carro próprio" corria riscos.

Foi uma tremenda baixaria até o final. "O Lula nunca deixou responder no mesmo nível. Ele nunca aceitou o vale-tudo", recordei na conversa com Nuzzi. Para enfrentar a superestrutura de marketing e a frota de jatinhos do adversário, contávamos com um pequeno exército brancaleone, indo todo fim de noite a jantares para "angariar fundos". "Era um grande mutirão. Tinha muitos voluntários da grande imprensa que nos ajudavam na produção dos programas. E todo mundo dava palpite. Era mais amador, mais coletivo".

Esta, com certeza, deve ter sido a última campanha romântica da política brasileira, sem cabos eleitorais remunerados, marqueteiros de grife, caminhões de dinheiro, frotas de jatinhos e helicópteros. Foi praticamente uma continuidade da Campanha das Diretas, com os mesmos líderes políticos nos nossos palanques. No segundo turno, só faltou o velho doutor Ulysses, um erro político, que mais tarde Lula admitiria.

Hoje, Collor, impichado em 1992, é um fiel parceiro do PT na base aliada do governo e está praticamente reeleito senador por Alagoas. Lula, duas vezes presidente, é o principal cabo reeleitoral de Dilma Rousseff, com chances de ganhar já no primeiro turno

Por falar nisso, nem comentei as últimas pesquisas do Datafolha e do Ibope divulgadas na noite desta terça-feira, que mostram Dilma abrindo a vantagem, tanto no primeiro como no segundo turnos, mas não tem cabimento, nestes meus tempos de multimídia, repetir aqui por escrito o que comentei ontem com o Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News, até porque, não mudou nada de lá para cá.

O vídeo está aqui:

Perdão, leitores, acabei escrevendo demais e, olhem, não passei nem do aperitivo. Para quem se interessar, mais histórias sobre esta campanha presidencial pioneira após a redemocratização podem ser encontradas no meu livro de memórias: Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter (Companhia das Letras, 2006). 

Apesar de tudo, como vocês podem constatar neste livro, o Brasil de hoje é outro país _ muito melhor, em todas as áreas, quaisquer que sejam os índices sociais e econômicos consultados. Só permanecem os mesmos o apodrecido sistema político-partidário-eleitoral e os métodos dos donos da mídia familiar e seus porta-vozes.

Dos presidentes civis que tivemos de lá para cá, cada um escreveu seu capítulo nesta história da jovem democracia brasileira, que é de todos nós: Sarney consolidou o regime democrático, Collor abriu os mercados, Itamar e FHC garantiram a estabilidade econômica com o controle da inflação, Lula e Dilma promoveram a inclusão social e deram início a um processo de distribuição de renda. No domingo, já iremos para a nossa sétima eleição direta no pós-64.

Falta muito ainda para vivermos num país civilizado, justo e decente, como nos mostra a atual campanha eleitoral, mas valeu a pena ter vivido estes últimos 25 anos de plena democracia, esta que todos nós estamos ajudando a construir.

Vida que segue.

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Vou dar um tempo na cobertura da campanha eleitoral porque as novas pesquisas (Ibope e Datafolha) só deverão ser divulgadas na noite desta terça-feira. Seria como fazer comentário sobre um jogo de futebol antes da gente saber o resultado. Melhor é esperar um pouco e aproveitar para falar de coisa boa, que também tem no nosso País.

E pode até ser visto na nossa televisão, entre tantas desgraças e violências, denúncias e baixarias. Zapeando tarde da noite, fui surpreendido pelas belas imagens do "Zapping", programa apresentado por Vera Viel, que é exibido às segundas, depois do Jornal da Record News, onde eu trabalho.

Já tinha começado a passar a reportagem de Renata Alves sobre o Brasil bonito que ela descobriu em Capela, interior de Alagoas, a 60 quilômetros de Maceió, mas estava tão saborosa que, apesar do sono, resolvi ver até o fim. Valeu a pena.

caldo Um Brasil bonito também pode ser visto na TV

Conta a história do famoso caldinho de feijão e galinha preparado e servido há 40 anos por seu Newton e sua mulher, dona Dalva. Caldinhos a gente encontra por toda parte no meu querido nordeste brasileiro, mas este é especial, a começar pelo incomum horário de funcionamento do boteco: abre pontualmente às 9 da manhã e, ao meio dia, chova ou faça sol, os donos colocam todo mundo para fora. O expediente acaba exatamente na hora em que a concorrência começa a servir o almoço.

O lugar vive lotado de gente que vem de cidades vizinhas e até da capital alagoana, uma agradável viagem de apenas 50 minutos. A equipe de reportagem da Record caminha pelas ruas desta cidade de 17 mil habitantes, limpinha e arrumada, até chegar ao personagem principal, que se diverte com o trabalho, e não conta de jeito nenhum o segredo dos seus caldinhos de galinha e de feijão, que eles servem misturados ou separados. Para acompanhar, farinha, pimenta e uma cervejinha _ e está feita a festa da freguesia.

caldo3 Um Brasil bonito também pode ser visto na TV
O que mais me chamou a atenção nesta reportagem, além do inusitado do tema, foi o ar de felicidade de todas as pessoas que aparecem na tela. Com suas roupas simples porém decentes, calçando tênis, sandálias ou chinelos de dedo, parecem saídos de algum vilarejo dinamarquês com o PIB umas 50 vezes maior.

Claro que isso não se deve só aos poderes do caldinho do seu Newton, mas acho que este clima retrata melhor do que qualquer análise de sociólogos e cientistas políticos o cenário encontrado no nosso país, a cinco dias das eleições presidenciais, com todas as pesquisas apontando o favoritismo da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição.

Para ninguém dizer que não falei de política, recomendo ver a reportagem completa no link abaixo, exibida originalmente no quadro "Achamos no Brasil" do "Domingo Espetacular", na TV Record, que explica bem o que quero dizer:

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levy ok Nelson tinha razão: idiotas estão perdendo a modéstia

"Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia".

A imortal frase acima, claro, não é minha, mas do grande Nelson Rodrigues, que morreu em 1980, e não sabe o que perdeu de lá para cá.

Vira e mexe meu amigo Nelson Jobim cita esta frase do seu xará ao comentar os assuntos da semana nos nossos encontros aos sábados aqui no boteco da esquina de casa.

Nunca, porém, esta perfeita definição de Nelson Rodrigues pôde ser tão bem aplicada como na participação do candidato Levy Fidelix no debate entre presidenciáveis promovido pela TV Record na noite deste domingo.

Antigamente, nos tempos de Nelson Rodrigues, estes tipos eram mais discretos, andavam pelos cantos, raramente se manifestavam e jamais se candidatariam a presidente da República.

A participação deste e de outros nanicos folclóricos na atual campanha presidencial serve apenas para demonstrar a falência do sistema político-partidário-eleitoral no nosso país. É triste e preocupante.

Quem já escreveu tudo a respeito deste deprimente episódio foi meu colega Marco Antonio Araújo, em seu blog "O Provocador" (ver link), publicado nesta segunda-feira, aqui mesmo no R7. Está lá tudo o que eu gostaria de escrever sobre o assunto.

Não vou nem repetir o que o homofóbico presidenciável disse no debate. Quem tiver estômago, pode ver a barbaridade neste link:

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Untitled 110 As boas ideias do Nizan para o papel do jornal

"Surpresa!", diz o título do texto de Nizan Guanaes, mentor e dono do ABC, o maior grupo publicitário do país, convidado nesta segunda-feira para ocupar o espaço de "Ombudsman por um dia", série publicada pela Folha para comemorar os 25 anos da criação do cargo de ouvidor dos leitores.

Como é uma raridade hoje em dia ser surpreendido pelo jornal, qualquer um, no sagrado ritual do café da manhã, parei de dar uma olhada por alto nas páginas e fui direto ler o que ele escreveu.

"Fica muito claro que os seres humanos do século 21 não querem só conversar sobre economia e política", destaca o "olho" da matéria, resumindo o que eu e muitos consumidores de informação pensamos sobre o papel dos jornais de papel neste mundo cibernético em que vivemos.

Diante da avassaladora concorrência dos meios eletrônicos, ficou cada vez mais difícil sermos surpreendidos por alguma novidade pelas publicações impressas, no dia seguinte ou no final de semana, depois de passarmos o tempo todo plugados em celulares e tablets e quetais, essa parafernália que não para de procriar, muitas vezes acompanhando ao mesmo tempo e ao vivo a cobertura dos principais acontecimentos pelos canais de notícias 24 horas na televisão.

Já faz tempo, ao participar de debates, palestras e seminários nas universidades, quando me pedem para definir os rumos da velha ou da nova mídia, respondo sempre que a natureza do nosso ofício não mudou nestes 50 anos em que ganho a vida como repórter: é contar uma novidade, uma história inédita, ou seja, surpreender o leitor, telespectador ou internauta, qualquer que seja a plataforma.

Por isso, fiquei tão satisfeito ao terminar de ler o artigo do Nizan, que traduziu com clareza e simplicidade exatamente o que penso como emissor e receptor de informações. Em resumo, este criador de reclames lança um apelo para que a imprensa faça o óbvio pela sua própria sobrevivência: saia dos gabinetes do poder e volte a tratar da vida real.

Um bom exemplo: "A vida, às vezes, parece que não é importante para o jornal. Não adianta falar de moda procurando escândalo financeiro na Versace. A mulher quer saber que sapato vai usar na próxima estação".

Espero, de coração, que os capos e editores da nossa velha imprensa de papel leiam com atenção este texto do criativo baiano (baiano criativo parece até redundância...) e parem de reclamar da vida. Assim como o cinema não acabou com o teatro, a televisão não acabou com o cinema e nenhum deles acabou com o livro, a internet não vai acabar com o jornal. Tem espaço para todo mundo, ninguém vai matar ninguém. O importante é ter uma boa história para contar e não alimentar vocação para o suicídio.

Valeu, Nizan.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma das histórias mais tristes e patéticas da história da imprensa brasileira está sendo protagonizada neste momento pela revista semanal "Veja", carro-chefe da  Editora Abril, que já foi uma das maiores publicações semanais do mundo.

Criada e comandada nos primeiros dos seus 47 anos de vida, pelo grande jornalista Mino Carta, hoje ela agoniza nas mãos de dois herdeiros de Victor Civita, que não são do ramo, e de um banqueiro incompetente, que vão acabar quebrando a "Veja" e a Editora Abril inteira do alto de sua onipotência, que é do tamanho de sua incompetência.

Para se ter uma ideia da política editorial que levou a esta derrocada, vou contar uma história que ouvi de Eduardo Campos, em 2012, quando ele foi convidado por Roberto Civita, então dono da Abril, para conhecer a editora.

Os dois nunca tinham se visto. Ao entrar no monumental gabinete de Civita no prédio idem da Marginal Pinheiros, Eduardo ficou perplexo com o que ouviu dele. "Você está vendo estas capas aqui? Esta é a única oposição de verdade que ainda existe ao PT no Brasil. O resto é bobagem. Só nós podemos acabar com esta gente e vamos até o fim".

É bem provável que a Abril acabe antes de se realizar a profecia de Roberto Civita. O certo é que a editora, que já foi a maior e mais importante do país, conseguiu produzir uma "Veja" muito pior e mais irresponsável depois da morte dele, o que parecia impossível.

A edição 2.393 da revista, que foi às bancas neste sábado, é uma prova do que estou dizendo. Sem coragem de dedicar a capa inteira à "bala de prata" que vinham preparando para acabar com a candidatura de Dilma Rousseff, a uma semana das eleições presidenciais, os herdeiros Civita, que não têm nome nem história próprios, e o banqueiro Barbosa, deram no alto apenas uma chamada: " EXCLUSIVO - O NÚCLEO ATÔMICO DA DELAÇÃO _ Paulo Roberto Costa diz à Polícia Federal que em 2010 a campanha de Dilma Rousseff pediu dinheiro ao esquema de corrupção da Petrobras". Parece coisa de boletim de grêmio estudantil.

O pedido teria sido feito pelo ex-ministro Antonio Palocci, um dos coordenadores da campanha da então candidata Dilma Rousseff, ao ex-diretor da Petrobras, para negociar uma ajuda de R$ 2 milhões junto a um doleiro que intermediaria negócios de empreiteiras fornecedoras da empresa.

A reportagem não informa se há provas deste pedido e se a verba foi ou não entregue à campanha de Dilma, mas isso não tem a menor importância para a revista, como se o ex-todo poderoso ministro de Lula e de Dilma precisasse de intermediários para pedir contribuições de grandes empresas. Faz tempo que o negócio da "Veja" não é informar, mas apenas jogar suspeitas contra os líderes e os governos do PT, os grandes inimigos da família.

E se os leitores quiserem saber a causa desta bronca, posso contar, porque fui testemunha: no início do primeiro governo Lula, o presidente resolveu redistribuir verbas de publicidade, antes apenas reservadas a meia dúzia de famílias da grande mídia, e a compra de livros didáticos comprados pelo governo federal para destinar a esc0las públicas.

Ambas as medidas abalaram os cofres da Editora Abril, de tal forma que Roberto Civita saiu dos seus cuidados de grande homem da imprensa para pedir uma audiência ao presidente Lula. Por razões que desconheço,  o presidente se recusava a recebe-lo.

Depois do dono da Abril percorrer os mais altos escalões do poder, em busca de ajuda, certa vez, quando era Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, encontrei Roberto Civita e outros donos da mídia na ante-sala do gabinete de Lula, no terceiro andar do Palácio do Planalto."

"Agora vem até você me encher o saco por causa deste cara?", reagiu o presidente, quando lhe transmiti o pedido de Civita para um encontro, que acabou acontecendo, num jantar privado dos dois no Palácio da Alvorada, mesmo contra a vontade de Lula.

No dia seguinte, na reunião das nove, o presidente queria me matar, junto com os outros ministros que tinham lhe feito o mesmo pedido para conversar com Civita. "Pô, o cara ficou o tempo todo me falando que o Brasil estava melhorando. Quando perguntei pra ele porque a "Veja" sempre dizia exatamente o contrário, esculhambando com tudo, ele me falou: `Não sei, presidente, vou ver com os meninos da redação o que está acontecendo´. É muita cara de pau. Nunca mais me peçam pra falar com este cara".

A partir deste momento, como Roberto Civita contou a Eduardo Campos, a Abril passou a liderar a oposição midiática reunida no Instituto Millenium, que ele ajudou a criar junto com outros donos da imprensa familiar que controla os meios de comunicação do país.

Resolvi escrever este texto, no meio da minha folga de final de semana, sem consultar ninguém, nem a minha mulher, depois de ler um texto absolutamente asqueroso publicado na página 38 da revista que recebi neste final de semana, sob o título "Em busca do templo perdido". Insatisfeitos com o trabalho dos seus pistoleiros de aluguel, os herdeiros e o banqueiro da "Veja" resolveram entregar a encomenda a um pseudônimo nominado "Agamenon Mendes Pedreira".

Como os caros leitores sabem, trabalho faz mais de três anos aqui no portal R7 e no canal de notícias Record News, empresas do grupo Record. Nunca me pediram para escrever nem me proibiram de escrever nada. Tenho aqui plena autonomia editorial, garantida em contrato, e respeitada pelos acionistas da empresa.

Escrevi hoje apenas porque acho que os leitores, internautas e telespectadores, que formam o eleitorado brasileiro, têm o direito de saber neste momento com quem estão lidando quando acessam nossos meios de comunicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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