dilmanova Como explicar este fenômeno Dilma, que sobe no Ibope?

Para quem lê, vê e ouve diariamente os principais veículos da imprensa brasileira, a popularidade da presidente Dilma Rousseff deveria estar abaixo do res do chão. Depois de apanhar sem dó nem piedade feito cão sem dono da mídia familiar tucana, antes, durante e, principalmente, depois de ser reeleita presidente da República, eis que a pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira mostra que aconteceu tudo exatamente ao contrário do que a feroz oposição comandada pela dupla FHC-Aécio poderia esperar.

Como os analistas e especialistas de plantão irão explicar que a aprovação ao governo Dilma, em meio à enxurrada de denúncias de corrupção na Petrobras, não só não tenha caído, como ainda subiu dois pontos? Entre os entrevistados pelo Ibope, em pesquisa encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), o índice de "ótimo" ou "bom" passou de 38% para 40%, enquanto a avaliação negativa caiu de 28% em setembro para 27% em dezembro.

A aprovação pessoal da presidente subiu para 52% (era de 45% em setembro) e a desaprovação caiu de 46% para 41%. O índice dos que confiam em Dilma também cresceu: de 45% passou para 51%, e o dos que não confiam nela caiu na mesma proporção, de 50% para 44%.

A própria reeleição de Dilma, apesar de todos os ventos contrários, já poderia ser considerada algo entre o milagre e o fenômeno. Melhorar seus índices no Ibope, então, depois de tudo o que aconteceu nas últimas semanas, em que a presidente não teve um único minuto de trégua, o que é?

Peço a ajuda dos caros leitores do Balaio para responder a esta pergunta intrigante, já que ela foge à minha pobre capacidade de análise. O mais incrível é que 44% dos entrevistados avaliaram que a maioria das notícias divulgadas neste período foram desfavoráveis a Dilma (este índice era de 32% em setembro).

Se, mesmo assim, a maioria aprovou a presidente, de duas uma: a imprensa já não está com essa bola toda, e a população encontrou outras formas para se informar fora da grande mídia, ou Dilma é mesmo um fenômeno de resiliência que ainda não foi explicado pelos livros dos nossos sábios cientistas políticos.

Como explicar?

 

 

 

 

 

 

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diretas Está faltando alguém como Dante de Oliveira

Se todos quisessem, poderíamos fazer deste grande país uma grande Nação.  

(Tiradentes, citado na epígrafe do meu livro Explode um novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas, Editora Brasiliense, 1984)

 

Na introdução deste livro, sob o título "A Travessia da Esperança", escrevi 30 anos atrás:

O sonho aconteceu em novembro de 1983. Vinha voltando para casa, depois de um almoço de domingo com a família no sítio do meu irmão, em Cotia, pertinho de São Paulo, e nem prestava muita atenção na conversa das três meninas no carro.

O ano estava chegando ao fim _ mais um ano, sem nenhuma perspectiva de mudança, sem esperanças, só lamentos por toda parte (...) Era preciso mudar tudo, começar de novo, virar o Brasil de cabeça para baixo. Mas de que jeito?

A única bandeira que pintava no horizonte escuro, acenando timidamente, era a das eleições diretas _ o primeiro passo, sabíamos todos, para a reconstrução deste rico e belo País, dilapidado, humilhado, torturado, quase dizimado pela ditadura dos últimos vinte anos, mas ainda de pé, com vergonha na cara. 

Chegando em casa, nem esperei para saber o resultado do jogo do meu time, e fui logo pra máquina escrever aquilo que tinha sonhado de olhos abertos: por que a Folha de S. Paulo, o último jornal liberal do país, não empunhava de uma vez esta bandeira das eleições diretas, como fazia a imprensa, antigamente, quando se apaixonava por uma causa?

***

Não se vive sem sonhos, mas também ninguém pode viver de ilusões. Nas voltas que a vida dá, estamos novamente vivendo um tempo desesperançado como aquele do final de 1983. Escrevi sobre isso no post anterior ("Clima está mais para fim de feira do que festa") e, por isso, fui muito criticado por alguns fieis leitores aqui do Balaio. Me acusaram de desencanto, pessimismo, desânimo, baixo astral.

Em resposta a eles, lembrei-me desta época cinzenta na travessia da ditadura para a democracia, quando buscávamos uma bandeira para unificar a luta pelo fim da ditadura _ e de tudo o que aconteceu depois. Em janeiro do ano seguinte, já havia milhares de pessoas nas ruas clamando por eleições diretas para presidente da República, algo que só aconteceria cinco anos mais tarde, em 1989.

Demorou, mas a semente estava plantada e, a partir daí, o país entraria no mais longo ciclo democrático e de pleno respeito às liberdades públicas da nossa jovem República. Devemos isso a milhões de pessoas  que inundaram as ruas e praças deste imenso país, sob a liderança de um homem chamado Ulisses Guimarães, que escreveu no prefácio do meu livro: "Poesia é encontrar uma árvore esquecida à beira de uma estrada e glorifica-la".

Quem descobriu esta árvore foi Dante de Oliveira, jovem deputado federal do Mato Grosso, em primeiro mandato, que apresentou um projeto de emenda constitucional propondo a volta das eleições diretas para presidente da República. A princípio, ninguém levou muito a sério a iniciativa do principiante, nem mesmo o seu partido. Achavam que Dante era muito sonhador, não botavam fé no seu projeto. Ao final desta travessia, porém, a emenda ganharia o seu nome e acabaria mudando a História do nosso país.

Pois agora, neste momento de crise que o país está vivendo, às vésperas de um novo ano e de um novo mandato presidencial, falta justamente uma bandeira capaz de mobilizar os desesperançados, e alguém como Dante de Oliveira para tomar a iniciativa de apresentar um consistente projeto de reforma política, disposto a convencer pelo menos o seu próprio partido de que esta é a única saída viável e democrática para o atual impasse político que dividiu o país ao meio.

Boto fé que logo poderá aparecer este jovem político sonhador e um líder do porte do doutor Ulisses para levar adiante algo que outros já tentaram, em várias propostas de reforma política, que repousam placidamente nos escaninhos do Congresso Nacional. A hora é agora.

Mais difícil será encontrar um veículo como a Folha de S. Paulo, aquela da campanha das "Diretas Já!" de 1984, para se tornar o porta-voz deste grande anseio nacional. Da minha parte, só me resta repetir o que tenho dito até cansar no Jornal da Record News. Só tem um jeito de continuarmos sonhando, sem desanimar e sem ceder às ilusões: reforma política já!

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Está feia a coisa. Dentro da margem de erro de 50 pontos para mais ou para menos, nossos astrólogos políticos e analistas econômicos de plantão são unânimes em prever que 2015 será um ano tenebroso, muito pior do que 2014. "Mas dá para piorar?", podem contestar os otimistas. "Sempre dá", responderão os urubólogos.

Uma coisa é certa: a duas semanas do final do primeiro governo Dilma e do início do segundo, o clima no país nesta passagem de ano está mais para fim de feira do que para posse festiva. Governo novo sempre significa uma renovação de esperanças, mas nunca vi tamanho baixo astral como agora.

Para completar, Brasília não tem a menor condição de receber visitas no dia 1º de janeiro, data marcada para a reposse de Dilma. De lá, informa meu velho amigo Valdo Cruz, um jornalista sério: "A capital do país está um caos. O mato toma conta do centro da cidade, e o lixo se cumula em algumas ruas. Servidores em greve fecham avenidas e causam enormes engarrafamentos. Falta medicamento em hospitais, e alunos perdem aulas em dia de provas (...) Ruas esburacadas, obras paradas, greve de ônibus tornando a vida de quem depende de transporte público um inferno".

Se, ao contrário das expectativas, vierem muitos mandatários ilustres do exterior neste feriadão universal, será um vexame. E aqui dentro, diante deste cenário desolador, quem vai se abalar a sair de casa e gastar uma nota preta para ir a Brasília só para ver Dilma passando a faixa para ela mesma?

A verdade é que, recolhida a um silêncio obsequioso e preocupante frente à brutal crise que derrete a Petrobras, a presidente Dilma Rousseff também não ajuda nada a melhorar este clima. A montagem do seu novo ministério é um verdadeiro anticlímax, com os nomes sendo anunciados a conta-gotas, repetindo os mesmos erros nos métodos de fatiamento do poder entre aliados cada vez mais famintos, sem levar em conta a qualificação dos nomeados e os interesses maiores do país, com a solitária exceção da equipe econômica.

No restante, vamos ter mais do mesmo, com o PMDB dando as cartas e controlando o jogo no comando do Congresso. Pelo jeito, não mudarão nem as moscas farejando os cofres públicos. Depois, não adianta reclamar, nem se queixar da imprensa. A presidente está plantando para o futuro os mesmos pepinos podres que vem colhendo agora, sem mudar a horta de lugar.

Só quem tem bons motivos para ficar muito satisfeitos e cheios de esperanças num futuro melhor são os de sempre: as excelências federais, estaduais e municipais, de todas as latitudes e poderes, que já garantiram um belo aumento salarial nos seus contracheques em 2015. Está para ser aprovado no Congresso Nacional um reajuste de 34,4% em relação a fevereiro de 2010, o que vai nos custar mais R$ 3,8 bilhões por ano para ter as autoridades mais bem pagas do mundo.

Como o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que recebem o teto do funcionalismo público, deve ir para R$ 35,9 mil, e os nobres parlamentares querem ganhar a mesma coisa, o efeito cascata vai beneficiar 16 mil desembargadores e juízes, igualmente promotores e procuradores, além do exército de 60 mil vereadores e mais de 1.000 deputados estaduais, entre outros. Entram na roda também os salários da presidente Dilma Rousseff, do vice Michel Temer e dos seus 39 ministros.

Temos nós algum motivo para comemorar? A única "notícia boa" desta segunda-feira em São Paulo, só para se ter uma ideia da inhaca, é que a Sabesp foi autorizada a retirar mais água do volume morto dos reservatórios do Alto Tietê, o que dará uma sobrevida de dois meses ao abastecimento da região leste da área metropolitana. Como diria o Milton Leite, que beleza!

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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promotor Hora da verdade: governo Dilma quebra dois tabus

O promotor Deltan Dallagnol

Tínhamos, até outro dia, dois tabus inamovíveis:

* Nunca saberemos quem cometeu os crimes de lesa-humanidade durante a ditadura militar porque os generais não vão deixar mexer neste assunto.

* A turma do colarinho branco, que pode pagar bons advogados, nunca irá para a cadeia.

Nesta semana histórica que está chegando ao fim, o governo da presidente Dilma Rousseff quebrou os dois tabus de uma vez. Quem me chamou a atenção para este fato foi a carta de um leitor _ e, cada vez com maior frequência, as seções de leitores dos jornalões me servem de pauta, mais do que o noticiário. Na Folha desta sexta-feira, o Claudio Janowitzer, do Rio de Janeiro, escreveu:

"A divulgação do extenso relatório da Comissão Nacional da Verdade deve ser saudada por todos os brasileiros. Finalmente são trazidos à tona atos escabrosos que foram encobertos por mentiras e dissimulações. A apuração da verdade é sempre benvinda e esperemos também que esta mesma busca ajude o Brasil a sair do atoleiro de podridões financeiras que estão sendo reveladas pela operação Lava Jato. Jamais seremos um país justo e forte se negarmos isso".

Em tudo que li até agora sobre o relatório final da Comissão Nacional da Verdade e as ações da Operação Lava Jato, Janowitzer foi o único a juntar estas duas pontas, que podem significar o início do fim da impunidade em que viviam os poderosos deste país, civis ou militares, de colarinho branco ou fardados, desde a vinda de D. João 6º ao Brasil.

Um dia apenas depois da CNV nominar os 377 responsáveis por torturas praticadas pelo regime militar, o Ministério Público Federal denunciou criminalmente 36 pessoas, sendo 24 delas ligadas a seis das maiores empreiteiras do país envolvidas no escândalo da Petrobras, e determinou o ressarcimento de mais de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos.

Nunca antes, como diria o Lula, isto havia acontecido na nossa história. Claro que não foi Dilma sozinha, como pessoa física, quem derrubou de uma penada estes dois antigos tabus, mas foi o seu governo quem criou a CNV, dando-lhe plena autonomia para atuar, e garantiu ao Ministério Público, ao Judiciário e à Polícia Federal a mesma autonomia para investigar quem quisesse, em absoluto respeito à independência entre os poderes, algo antes não muito comum em nossa vida republicana.

"Começamos a romper com a impunidade de poderosos grupos que têm se articulado contra o interesse do país há muitos anos", anunciou o procurador Deltan Dallagnol, um dos responsáveis pelas investigações da Operação Lava Jato. "As investigações não param por aqui".

É a primeira vez que não apenas corruptos são denunciados, mas também os corruptores, até aqui sempre preservados nos casos de corrupção que há séculos abalam e sangram as instituições nacionais.

Com todos os problemas que enfrenta na política, na economia e na montagem do seu novo ministério, finalmente a presidente Dilma Rousseff tem todos os motivos do mundo para comemorar estas duas vitórias, que poderão representar um divisor de águas na vida brasileira para que, daqui para a frente, todos sejam, de fato, como determina a Constituição, iguais perante a lei.

Pode ser o fim do "sabe com quem está falando?" e do "leve vantagem em tudo". Em uma semana, o país mudou. Pelo menos, perdeu o medo de enfrentar a dura realidade.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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dilma Vamos virar a página da vergonha e olhar para o futuro

Depois de 2 anos e 7 meses de trabalho, o maior mérito do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, entregue nesta quarta-feira à presidente Dilma Rousseff, foi o de ter sido divulgado agora, exatamente no momento em que neogolpistas e viúvas da ditadura militar estão se assanhando nas ruas e nas redes sociais, querendo trazer de volta um período de triste memória, esta página de vergonha da nossa História, que está na hora de ser virada.

Alguns leitores, editores e amigos estranharam que eu não tivesse tratado mais deste tema aqui no Balaio, mas tenho mesmo uma grande dificuldade para ficar remoendo um passado de sofrimento, tanto na vida do país como na minha vida familiar, que gostaria de sepultar na lembrança, para poder me ocupar melhor do presente e do futuro.

Tanto por parte de pai como de mãe, sou filho de famílias que foram perseguidas nos seus países de origem, na Europa, sobreviveram às atrocidades das duas grandes guerras mundiais e vieram parar aqui no Brasil em busca de paz.

Sou o primeiro brasileiro da família, nascido apenas duas semanas após meus pais desembarcarem de um navio de refugiados no porto de Santos, e tenho muito orgulho disso. Na minha infância, em casa, os mais velhos evitavam falar dos tempos de guerra para evitar que os sofrimentos deles passassem para os filhos e netos.

Por isso, ao escrever meu livro de memórias, Do Golpe ao Planalto, em meados da década passada, tive muita dificuldade para resgatar minhas origens familiares, cavoucando documentos e cartas amarelecidos pelo tempo que meus pais guardaram, mas nunca haviam me mostrado.

Até hoje, evito lembrar da morte de meu pai, muito jovem, quando eu tinha 12 anos. Lido muito mal com estas lembranças e entendo perfeitamente o choro da presidente Dilma neste trecho do seu discurso no Palácio do Planalto, ao receber o relatório histórico:

"Afirmei que o Brasil merecia a verdade, que as novas gerações mereciam a verdade, e, sobretudo, mereciam a verdade aqueles que perderam familiares, parentes, amigos, companheiros e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo, e sempre, a cada dia".

É exatamente isto que sinto quando me pedem para relembrar, em repetidas entrevistas para documentários e trabalhos acadêmicos, os tempos do golpe cívico-militar-midiático de 1964, que este ano completou 50 anos, o mesmo tempo que tenho de jornalismo.

Sim, o Brasil merecia a verdade, cara presidente Dilma, e agora a temos por inteira, com a identificação dos responsáveis pelas atrocidades cometidas e a descrição da cadeia de comando de uma política de Estado, a começar pelos cinco generais-presidentes (Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo), como eram chamados os ditadores naquele tempo, todos já mortos.

Cabe agora a nós, sobreviventes, cuidarmos do presente e olharmos para o futuro, sem revanchismos nem ódios, mas também sem medo de enfrentar os inimigos da democracia, que continuam à espreita, esperando só uma chance de voltar ao poder.

Pena que tenhamos demorado tanto para enfrentar o que outros países, que enfrentaram a mesma tragédia, já resolveram há muito tempo. Antes tarde do que nunca, Dilma em boa hora criou a coragem que os presidentes civis que a antecederam não tiveram para mandar investigar os crimes de lesa-humanidade aqui perpetrados e nominar 377 pessoas como responsáveis por eles.

Devemos isso ao trabalho incansável, do qual sou testemunha, de seis brasileiros da melhor qualidade humana e honradez profissional, cujos nomes devemos guardar para sempre: Pedro Dallari, José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti Filho, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro e Rosa Maria Cardoso da Cunha.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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jornalistas1 Afinal, onde estão estas ameaças à nossa liberdade?

Antes de começar a escrever na manhã desta quarta-feira, olho debaixo da mesa, abro as portas dos armários, tiro os livros das estantes, tomo todos os cuidados para me certificar de que não tem nenhum agente secreto à espreita querendo cercear minha liberdade de expressão.

De onde ressurgiu de repente esta síndrome de pânico da censura, que desaparecera da minha vida em 1975, quando o general-presidente Ernesto Geisel fez o favor de tirar seus homens das oficinas do centenário Estadão, onde eu trabalhava e eles por sete anos cortavam as matérias que a gente escrevia?

Acho que fiquei muito impressionado com as ameaças que ouvi de alguns colegas na noite da entrega dos prêmios aos "Cem mais Admirados Jornalistas Brasileiros", uma iniciativa das empresas Jornalistas&Cia. e Maxpress, baseada numa pesquisa feita junto a 2 mil executivos de Comunicação Corporativa num universo de 55 mil profissionais em atividade no país.

Segundo alguns destes profissionais admirados e premiados que, sem citar fatos nem entrar em maiores detalhes, fizeram discursos inflamados sobre a gravidade do momento para a nossa profissão, diante das ameaças governamentais à liberdade de imprensa e expressão, a volta da censura estava logo ali na esquina, com as tropas só esperando uma ordem para invadir as redações, como fizeram na noite de 13 de dezembro de 1968 no Estadão, quando boa parte dos 600 convidados que lotavam o salão do Clube Homs, na avenida Paulista, nem havia nascido ou não tinha a menor ideia do que foi o Ato Institucional Nº 5.

A partir do alerta sobre os perigos iminentes feito por um colega de Brasília, cujo nome não me lembro, vários outros premiados viram-se como que na obrigação de também tocar no assunto, na mesma linha de editoriais e colunas publicados nos últimos tempos pela imprensa familiar tucana, na linha de "o preço da liberdade é a eterna vigilância", a máxima do udenismo que voltou à moda na recente campanha eleitoral.

De onde tiraram isso? Não encontro nenhuma razão objetiva, nenhum fato novo concreto, qualquer sinal de que a liberdade de imprensa esteja correndo perigo no Brasil, um país que vive hoje o mais longo período democrático e de pleno respeito às liberdades públicas da nossa História.

Gostaria que me citassem um só caso em que a liberdade dos jornalistas e das suas empresas sofreu qualquer restrição por parte do governo federal, direta ou indiretamente, desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2003, quando eu era o Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Já naquela época, qualquer tentativa de se debater a necessidade da criação de um novo marco regulatório para as comunicações sociais, que vivem a mais profunda revolução desde a invenção da prensa de Gutemberg, faz mais de 500 anos, era imediatamente taxada de tentativa de controlar a imprensa e promover a volta da censura. Só para lembrar: a legislação em vigor data do tempo da televisão em branco e preto, lá nos idos dos anos 1960. Para os barões da mídia, que continuam os mesmos daquele tempo, é simplesmente proibido tocar neste assunto.

Pensei em falar disso quando me chamaram ao palco, já perto da meia noite. Mas, como cada "admirado" só tinha 15 segundos para os agradecimentos, e eu estava acompanhado de alguns dos meus netos, todos nós com sono, achei melhor deixar para lá, e curtir o resto da festa.

Só resolvi escrever sobre este assunto agora, depois de ler nota publicada no Observatório da Imprensa pelo meu amigo Luciano Martins Costa, um dos premiados, sob o título "O fantasma bolivariano". Faço minhas as palavras do sempre brilhante colega, que também não entrou na onda do efeito manada assustada daquela noite, e foi o único a registrar o que aconteceu em sua coluna:

"Na hora dos agradecimentos, foi das mesas onde se concentravam figuras conhecidas das grandes empresas de comunicação que brotaram os raros discursos com teor político: como num jogral, personalidades da escrita, do rádio e da TV desfiaram no palco seus temores e seu repúdio a uma suposta ameaça à liberdade de imprensa, que estaria pairando sobre o universo midiático. Foi quase um manifesto de solidariedade ao credo patronal: o Brasil estaria à beira de ver ressuscitar a censura do período militar, agora por conta de um regime "bolivariano" em Brasília".

"As frases de sentido dúbio insinuavam esta aleivosia, que vem sendo repetida por outros jornalistas menos categorizados do que aqueles _ os pitbulls remunerados para radicalizar o discurso partidário da imprensa _ colocando respeitados profissionais no papel pouco edificante de incutir naquele ambiente festivo um viés que _ por imposição ética do jornalismo _ só deve ser exposto em circunstância que permita o contraditório".

"Além do mais, foi uma manifestação de pouca educação, visto estarem todos ali para uma celebração, não para uma dessas passeatas que levam à Avenida Paulista os desafetos da democracia".

"A demonstração de corporativismo em seu sentido mais raso teve frases de efeito que beiravam a sabujice. Mas nada disso estragou a festa. O evento de Jornalistas&Cia. talvez seja o último lugar onde jornalistas brasileiros postados em campos ideológicos opostos podem trocar amabilidades, ainda que alguns não tenham entendido o espírito da coisa".

Nada tenho a acrescentar ou objetar.

jornalistas Afinal, onde estão estas ameaças à nossa liberdade?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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audalio3 Pois é, quem diria, Audálio Dantas está na moda

O jornalista Audálio Dantas

O tempo passa, o tempo voa, o tempo não perdoa, mas ele continua aí firme e forte, na batalha. Aos 85 anos de idade e 60 de profissão, em plena atividade, o jornalista Audálio Dantas, alagoano de Tanque D´Arca, testemunha e protagonista da nossa História, prepara-se para receber esta noite mais um premio pelo conjunto da obra. Muito justo.

Audálio está entre os "Cem Mais Admirados Jornalistas Brasileiros" que receberão seus troféus nesta noite de segunda-feira, em São Paulo. Prêmios e homenagens já fazem parte da sua rotina, principalmente nestes últimos anos, mas o de hoje é especial: foi baseado numa pesquisa inédita promovida pelas empresas Maxpress e Jornalistas & Cia., com mais de dois mil executivos de Comunicação Corporativa de todo o país, em votação direta, num universo que reúne 55 mil jornalistas profissionais.

Firme nos gestos e lhano no trato, Audálio foi e é mestre e exemplo de várias gerações de jornalistas. Repórter por gosto e vocação, está fora do mainstream da grande imprensa desde o final dos anos 1970, quando foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e nele teve papel central na denúncia do assassinato do nosso colega Vladimir Herzog, tema do livro As duas guerras de Vlado Herzog _ Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil, que lhe valeram os prêmios "Jabuti" (Livro-reportagem e Livro do Ano de não ficção) e "Intelectual do Ano" (Juca Pato), em 2013.

Somos amigos desde esta época, mas nunca tive a oportunidade de trabalhar junto com ele numa redação. Foi em feiras de livros, debates, seminários e nas diretorias e conselhos de entidades sindicais que passei a admirar cada vez mais este cidadão brasileiro, que teve papel fundamental na longa e penosa trajetória da ditadura à democracia, sempre fiel a seus princípios, colocando os interesses da sociedade acima daqueles da sua vida pessoal. Sei o quanto isto lhe custou, e ainda está custando, mas nunca o vi reclamar da vida. Ao contrário, está sempre disposto a encarar o próximo desafio, ao lado da inseparável Vanira, sua mulher, geralmente em atividades não remuneradas, sua especialidade.

"Você está ficando muito rabugento", queixou-se ele, com razão, na última vez em que viajamos juntos para participar do Fórum das Letras de Ouro Preto, em novembro. Para Audálio, ao contrário, não tem tempo ruim, mesmo tendo enfrentado seríssimo problema de saúde no ano passado. Não fosse por seus cabelos branqueados já faz tempo, ninguém seria capaz de adivinhar a idade desta figura, sobre a qual, alias, ainda há controvérsias.

Esta é apenas uma das muitas lendas que se criaram em torno dele, tantas quanto as reportagens e os livros que escreveu, desde que começou a trabalhar como repórter da Folha da Manhã ( hoje Folha de S. Paulo). Uma das suas primeiras reportagens premiadas foi uma entrevista "não dada" por Guimarães Rosa, quando o escritor veio lançar Grande Sertão: Veredas em São Paulo. Sem conseguir falar com Rosa, Audálio ficou fuçando em torno da mesa em que ele dava autógrafos, anotando as respostas dadas aos leitores e copiando algumas dedicatórias.

Além das características inatas de repórter que nunca desiste da pauta, Audálio sempre levou uma grande vantagem sobre a concorrência: sabe escrever, e escreve muito bem. Outra vantagem que levava nas redações é que saia para fazer uma matéria e voltava com várias, sobre os mais diversos assuntos. Nunca foi um especialista em nada. Claro que não dá para resumir neste breve texto os seus 60 anos de carreira, com passagens marcantes pelas revistas O Cruzeiro e Realidade.

Uma das passagens mais marcantes da longa trajetória de Audálio foi a descoberta, durante uma reportagem, da fantástica personagem Carolina Maria de Jesus, favelada que se tornou escritora, com o best-seller Quarto de Despejo, editado também no exterior.

Nas voltas que a vida dá, foi deputado federal pelo extinto MDB e primeiro presidente eleito pelo voto direto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde ainda atua como conselheiro, atividades que lhe renderam o Premio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU.

De tão boas, suas reportagens acabaram transformadas em livros, a começar por O Circo do Desespero, vindo depois O Chão de Graciliano, O Menino Lula e muitos outros. Até o mês passado, foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação e agora trabalha em diversos projetos na área cultural, entre eles um programa de entrevistas na televisão, que ainda está negociando. É membro da Comissão Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo e da Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas Brasileiros, entre muitas outras atividades.

Se tem mesmo um jornalista admirável neste país, sem dúvida é o tal de Audálio Dantas, que nunca sai de moda... Jornalista não tem muito o hábito de falar bem de outro jornalista, mas hoje acordei disposto a abrir uma exceção.

Valeu, velho Audálio!

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lobao 1024x682 Aécio vai à praia, Serra reaparece e Lobão reclama

Foto: DARIO OLIVEIRA/ AGÊNCIA ESTADO

 

"Cadê os parlamentares? Cadê o Aécio, cadê o Caiado? Estou pagando de otário!".

A queixa do roqueiro performático Lobão, agora transformado em garoto propaganda das manifestações contra o governo, tinha sua razão de ser. Afinal, foi o próprio candidato derrotado Aécio Neves, em pessoa, acompanhado por outros expoentes tucanos, quem convocou o protesto de sábado, na avenida Paulista, em São Paulo.

Era o quinto ato (favor não confundir com o Ato Institucional nº 5 dos militares, de 1968, o golpe dentro do golpe) contra Dilma, o seu governo e o PT, depois das eleições. Se tivesse lido a coluna de Ancelmo Gois publicada no jornal O Globo, no mesmo dia, Lobão teria a resposta nesta nota:  "Descanso _ Aécio e família descansam em Santa Catarina, onde ele obteve dois terços dos votos". Ninguém é de ferro.

Quer dizer, Aécio convocou a turma e, em seguida, se mandou para a praia, deixando Lobão na mão. Na avenida, sua tropa ficou dividida entre os que pregavam a volta dos militares e os que apenas queriam denunciar corrupção na Petrobras para impedir que Dilma assuma seu segundo mandato. Para surpresa geral, quem apareceu foi outro senador, o paulista José Serra, que andava sumido, principal antagonista de Aécio dentro do PSDB.

Já na reta final da caminhada, que reuniu entre 5 mil (segundo Folha e Estadão) e 8 mil pessoas (para O Globo), conforme o veículo e o PM ouvido pela reportagem, Serra subiu num carro de som e mandou ver, num tom misterioso: "As coisas não vão se resolver em uma semana, um mês ou um ano. Mas precisamos estar prontos para o imprevisto, para o improvável. Não há história sem fatos inesperados", alertou, sem entrar em detalhes. Serra acompanhou a ala principal dos manifestantes pacíficos, que foram até a praça Roosevelt, na região central, enquanto a dissidência pró-golpe seguia em direção ao Comando Militar do Leste, no Ibirapuera.

Na véspera da votação das mudanças na LDO, na madrugada de quinta-feira, em que a oposição mais uma vez saiu derrotada, Aécio foi mais duro do que seu rival, ao mesmo tempo premonitório e ameaçador: "Nós vamos perder, mas vamos sangrar estes caras até de madrugada". Aécio, que nem chegou a votar contra o governo, limitou-se a publicar uma foto do protesto em seu facebook.

Na manifestação do final da tarde de sábado, não correu sangue, mas enquanto o chefe descansava em Santa Catarina, seus seguidores mostraram os dentes em cartazes e palavras de ordem: "Fora, Dilma!" e "Impeachment! Fora, PT!" eram os mais democráticos.

O governo Dilma, como sabemos todos, está cheio de problemas para montar a equipe do segundo mandato, mas se depender desta oposição, agora liderada por Aécio Neves, podemos ficar tranquilos. Pela demonstração dada no quinto ato de protesto, esta oposição faz oposição a si mesma.

Até Lobão já está irritado com seus novos líderes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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feliz Me dê um motivo para ficar mais otimista em 2015

Na contramão da maioria dos meus amigos e das pessoas com quem convivo no lar, no trabalho e no bar, sempre fui um otimista, daqueles que chamam de inveterado. Alguns me consideram ingênuo ou romântico demais, na melhor das hipóteses, pois há também os que me acham apenas um perfeito idiota.

Procuro sempre ver o lado bom das pessoas e das coisas, mas, convenhamos, ultimamente anda difícil encontrar motivos e argumentos. Os mais otimistas que encontro pela frente se baseiam na esperança de que pior do que está não pode ficar.

Depois de acompanhar o frege que aconteceu esta semana no Congresso Nacional (ver meu comentário no Jornal da Record News de quinta-feira), com as baixarias, ofensas e rabos de arraia, tanto dos parlamentares do governo como da oposição, fica até difícil dizer quem se saiu pior nesta batalha inglória. No entanto, o pior é que os dois lados comemoraram o resultado. Dilma, mais uma vitória, e Aécio, mais uma derrota.

Curioso este nosso país, em que os vitoriosos saem da arena com cara de derrotados e, os derrotados, com cara de vitoriosos. Pelo menos, é assim que são vistos pelos "analistas independentes" da imprensa e da academia. O mote da moda agora é ganhar perdendo e perder ganhando, seja lá o que isso quer dizer.

O fato é que, somando tudo o que aconteceu, com a aprovação do projeto de lei da flexibilização da meta fiscal, depois de 18 horas de uma sessão que começou na manhã de quarta e terminou no final da madrugada de quinta-feira, restou mais uma vez a certeza de que, com o atual sistema político-partidário-eleitoral, nosso país é simplesmente ingovernável. Não há o menor risco de melhorar, se tudo continuar como está, com 30 partidos disputando 39 ministérios.

Quem se saiu vitorioso, na verdade, mais uma vez, não foi o PT nem o PSDB, mas o PMDB velho de guerra. Ao final, foram os caciques liderados por Michel Temer que garantiram a aprovação do projeto do governo e, assim, aumentaram seu cacife na formação do novo ministério, que já nasce velho, a julgar pelos primeiros nomes confirmados. Desse jeito, repito: tem alguma chance de mudar alguma coisa no segundo governo de Dilma?

A presidente Dilma também não ajuda a imagem do governo Dilma ao condicionar a liberação de mais R$ 444 milhões para as emendas parlamentares à aprovação da mudança no superávit fiscal _ e, ainda por cima, faze-lo por decreto publicado no Diário Oficial. Quem teve esta ideia de jerico?

Tem razão o Heródoto Barbeiro de me perguntar por que este furdunço todo, se o governo tem ampla maioria, tanto na Câmara como no Senado. Tem, mas não tem, como sabemos todos, e a cada votação é aquele barata voa que só revela a total falta de articulação política no Palácio do Planalto e nas suas relações com o Congresso Nacional.

Esperamos todos que Joaquim Levy possa mesmo botar ordem nas contas públicas e arrumar a casa na economia, mas ainda não consegui descobrir quem vai exercer o mesmo papel na área política. Dilma já deixou claro que não é do ramo e não gosta desta coisa de negociar com partidos e políticos, só que alguém terá que fazer isso para que o país não corra o risco, mais adiante, de enfrentar uma séria crise institucional. Se depender da oposição do agora lacerdista Aécio Neves, isso não demora, como ele revelou em seus inflamados discursos dos últimos dias.

O que nos espera em 2015? Conto com a colaboração dos caros leitores deste Balaio para que me deem bons motivos, argumentos inteligentes e razões fortes para não perdemos a esperança. Fazer cara feia e ficar reclamando da vida não resolve nada, e cenas deprimentes como as desta última semana em Brasília só vão se repetir.

 

 

 

 

 

 

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aecio1 Oposição derrotada parte para o vale tudo contra Dilma

É como se Aécio Neves dissesse para Dilma Rousseff, ao final desta opera bufa em que encarna Carlos Lacerda à beira de um ataque de nervos: "Tudo bem, eu perdi a eleição, não vou ser mais presidente, mas você também não vai governar. Nós não deixaremos".

Vai ficando mais claro a cada dia que o objetivo real da oposição é um só: criar o clima e as condições necessárias para que a presidente reeleita Dilma Rousseff não assuma o segundo mandato e, se isso acontecer, impedi-la de governar o país pelos próximos quatro anos.

A guerra deflagrada contra a votação do projeto de lei para autorizar mudanças na meta fiscal de 2014, que terminou nesta madrugada de quinta-feira, com mais uma vitória do governo, foi apenas o pretexto imediato utilizado pelas oposições mobilizadas no Congresso Nacional, no Judiciário e na mídia para uma ofensiva golpista sem precedentes.

* No Congresso Nacional _ O vale tudo começou na noite de terça-feira, quando uma tropa de choque oposicionista invadiu as galerias e tentou impedir a votação no grito e na marra. Eram apenas uns 30 bate-paus ensandecidos, gritando as mesmas palavras de ordem utilizadas nas recentes manifestações da avenida Paulista, em São Paulo, enquanto parlamentares do PSDB e do DEM, entre outros menos votados, ocupavam a tribuna com ataques irados contra Dilma e o PT, mas foi o suficiente para que, diante da baderna promovida pelos arruaceiros, o presidente do Senado, Renan Calheiros, suspendesse a sessão.

"Esta é a casa do povo e o PT tem que aprender a conviver com o povo novamente nas galerias", defendeu Aécio, que há muito tempo não usava a palavra povo duas vezes na mesma frase. Eles voltaram mais enfurecidos na manhã de ontem, dispostos a impedir a entrada de deputados e senadores, agora acoitados por tipos como Ronaldo Caiado, revivendo seus tempos de líder da famigerada UDR, e Paulinho da Força, sempre o mesmo, entre outros baluartes da democracia, que dão sustentação à "nova oposição" liderada por Aécio Neves. Nem o ex-presidente da República José Sarney escapou do cerco, que o deixou bastante assustado, quando os manifestantes chutaram e tentaram virar o seu carro.

À tarde, os representantes do povo pró-Aécio, convocados pela rede social por entidades como "Movimento Brasil Livre e Democracia", "Revoltados Online" e "O Brasil despertou", que passaram o dia gritando "Fora PT", "PT roubou" e "Vá para Cuba", receberiam o reforço do indescritível cantor Lobão, que apareceu em Brasília para liderar um "movimento popular" contra a votação, e chegou a ir ao STF para pedir a liberação do acesso às galerias.

Em conversas reservadas com sua tropa, segundo a Folha de S. Paulo, o ex-governador mineiro já deu as instruções, para não deixar dúvidas: a ordem é "cumprir o objetivo de deixar o governo Dilma no chão". Caso o projeto de lei sobre flexibilização da meta fiscal não fosse aprovado, a estratégia tucana era denunciar Dilma por "crime de responsabilidade", para embasar um pedido de impeachment. Derrotados novamente, agora os aliados de Aécio jogam todas suas fichas nas denúncias dos delatores na Operação Lava-Jato, uma ação casada com vazamentos seletivos, para levar o "mar de lama" até o gabinete presidencial.

"Se comprovadas essas denúncias, estamos diante de um governo ilegítimo", disparou Aécio Neves, nosso Carlos Lacerda redivivo, agora em nova versão radical chique, em que chegou a perder o fôlego ao final de mais um discurso incendiário para impedir a votação da lei, depois de ter afirmado em entrevista que perdeu a eleição para uma "organização criminosa".

É em meio a este clima beligerante que a Câmara Federal se prepara para eleger o ínclito Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como seu novo presidente, em fevereiro. E é com a boa vontade dele que a oposição conta caso consiga formalizar o sonhado pedido de impeachment, para abreviar sua volta ao poder. É o presidente da Câmara, afinal, quem decide se o pedido será ou não acolhido para seguir adiante nas comissões e no plenário. Assim se fecharia o cerco programado.

* No Judiciário _ Enquanto juízes e delegados da Operação Lava-Jato, em Curitiba, vão soltando a cada dia novas denúncias de pagamentos de propinas por executivos de empreiteiras a emissários do PT e partidos aliados, em Brasília arma-se o ataque final para colocar na mira diretamente a presidente Dilma Rousseff e, se possível, também seu antecessor Lula, virtual candidato a voltar em 2018. Segundo o jornal O Globo, o ministro Gilmar Mendes, sempre ele, do STF, já está preparando uma "devassa" nas contas da campanha da reeleição.

A estratégia ganhou força com o depoimento do empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto em que ele afirmou ter feito pagamentos de propina em troca de contratos na Petrobras, na forma de "doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores", que teriam começado em 2010, quando Lula era o presidente e Dilma candidata à sua sucessão.

O alvo imediato é João Vaccari Neto, tesoureiro do PT nas campanhas de 2010 e 1014, citado nas delações feitas pelo doleiro Alberto Youssef e pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Com base nos vazamentos destas delações premiadas, lideres da oposição revezam-se nas tribunas da Câmara e do Senado, quase sem contestação dos aliados do governo, para denunciar que está "sob suspeita" o comando do país.

* Na mídia _ Para amarrar as pontas e fechar a roda, não poderia faltar o decisivo apoio da mídia tucano-familiar, que rasgou a fantasia, e há semanas dedica a maior parte dos seus noticiários à Operação Lava-Jato, como se nada mais estivesse acontecendo no país, colocado à beira do abismo.

Já não se sabe se é a mídia que pauta as oposições no Congresso e no Judiciário ou vice-versa, pois virou tudo uma coisa só, muito bem orquestrada, por sinal. As manchetes e os destaques dos veículos impressos ou eletrônicos parecem ser produzidos pela mesma pessoa, a partir de um comando central que atende pelo pomposo nome de Instituto Millenium.

Após uma brevíssima trégua, com a indicação de Joaquim Levy para comandar a economia no segundo mandato, parece que resolveram abrir todas as comportas para inundar o país com o "mar de lama", uma criação original de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas, agora ressuscitada por Aécio Neves, que parece ter trocado definitivamente o PSD conciliador do seu avô Tancredo Neves pela velha UDN golpista das vivandeiras de porta de quartel.

Neste cenário de vale tudo, de nada adianta a presidente Dilma tentar acalmar as feras fazendo seguidas concessões à direita derrotada nas urnas. Ela e Lula são e serão tratados como inimigos a serem abatidos, sem dó nem piedade. Após 12 anos de PT no poder central, a turbulência brava está só começando. Senhores passageiros, fechem as mesinhas à sua frente, amarrem os cintos e desliguem seus aparelhos eletrônicos.

Vida que segue. E seja o que Deus quiser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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