tb Se depender da TV, esta eleição acaba empatada

Costumava-se falar antigamente que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado. O mesmo se pode dizer agora da primeira semana da propaganda eleitoral obrigatória: se depender só do que vimos na televisão até agora, todos os candidatos têm a mesma chance de ganhar e de perder, e vai acabar tudo tudo em zero a zero.

São 110 minutos de horário político por dia, fora as inserções de 30 segundos distribuídas ao longo da programação _ um verdadeiro massacre de mau gosto, mesmice, teatro mambembe, total ausência de propostas viáveis para o país, com o desfile de candidatos maquiados, uma chatice sem fim. Estamos assistindo a um "circo de horrores", a perfeita definição do meu colega Zé Simão, o mais sério comentarista político do país.

As campanhas são ricas, não faltam recursos,  os mais modernos equipamentos e marqueteiros de grife, mas os programas, de uma forma geral, são pobres, indigentes mesmo. Fico pensando como conseguem gastar tanto dinheiro para apresentar produtos tão ruins. Colocar Dilma fazendo macarrão na cozinha, cuidando do jardim e do cachorro, para "humanizar a imagem", é algo tão amador que chega a ser um desrespeito com a presidente e os eleitores.

Pois é, nem o PT escapa da mediocridade, justamente o partido que em outras épocas chamava a atenção pela criatividade dos seus programas, produzidos muitas vezes por equipes de voluntários e equipamentos emprestados. Os primeiros programas de Dilma, com suas imagens aéreas apoteóticas mostrando grandes obras em construção e um texto ufanista, me fizeram lembrar das "reportagens" de Amaral Neto exibidas pela TV Globo no auge da ditadura militar. Só faltou usar o slogan do "Brasil Grande".

Sem emoção e sem humor, sem mostrar e dar voz aos anônimos que fazem a grandeza do país, características dos antigos programas petistas, o latifúndio de 12 minutos em cada bloco que a aliança liderada pelo PT mostra na televisão não tem alma nem rumo, é uma repetição de cenas e discursos de Dilma e Lula, que já não comovem ninguém. O programa repetiu até imagens da campanha de 2010, o que é inconcebível num programa de televisão destinado a surpreender o telespectador, apresentar algo novo e projetar o futuro, renovar as esperanças do eleitor.

Se o objetivo era mostrar o que mudou para melhor na vida dos brasileiros nestes quase 12 anos de PT no governo federal, por que não fazer um programa jornalístico, mandando repórteres aos quatro cantos do país para mostrar e ouvir os principais beneficiados por estas mudanças? Sairia bem mais barato e teria muito mais efeito do que a presidente ou um locutor falar bem do seu próprio governo.

Com um terço do tempo de Dilma, o programa do tucano Aécio Neves atinge melhor seus objetivos: apresentar o candidato do PSDB como principal crítico do governo petista, mostrar um governante bem sucedido em Minas, com a imagem de pacato pai de família, o genro em quem a mãe da moça pode confiar. Se isso passa por verdadeiro ou não, é outro problema.

Dona de apenas dois minutos em cada bloco, a única novidade apresentada pelos marqueteiros de Marina Silva em sua estreia na quinta-feira foi tirar o xale da candidata. O resto é tudo igual à campanha de 2010, em que ela, com menos tempo ainda, conseguiu quase 20 milhões de votos e forçou um segundo turno na eleição presidencial. Fora o discurso da sustentabilidade, o nome do partido próprio que Marina ainda não conseguiu criar, e que a maioria das pessoas não sabe o que quer dizer, o que mais a líder conservacionista tem a oferecer ao país para melhorar a vida dos brasileiros?

Como de costume, pontificam entre os nanicos as "línguas de aluguel", nas eternas participações especiais do democrata-cristão Eymael e do aerotrem Fidelix, cada vez mais furiosos ao bater no governo Dilma, no que são acompanhados pelos "revolucionários" PCO, PCB, PSTU e PSOL, a extrema esquerda que faz apenas papel de figurante.

A mesma pergunta dirigida a Marina poderia ser feita a todos os outros candidatos que invadiram nossas televisões abertas e jogaram grande parte dos telespectadores/eleitores nos braços dos canais pagos. Resultado: em relação à campanha de 2010, o horário político já provocou a queda de 32% na audiência das nossas principais emissoras, enquanto os canais pagos, que não exibem a propaganda eleitoral, batem recordes, chegando à soma de 18,4 pontos na quarta-feira.

Nem vou falar dos inacreditáveis blocos destinados a candidatos a deputados e senadores porque tenho vergonha. O padrão Tiririca se espalhou pelo vídeo, com a campanha ganhando ares de deboche, a começar pelos nomes de fantasia dos candidatos, mas vou deixar isso aos cuidados do nosso caro Macaco Simão, que está cada vez mais imperdível.

 

 

 

 

 

 

 

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foto 11 Antes de começar, campanha de Marina entra em crise

Não deu outra. Bem que avisei, desde o primeiro dia, que isso não daria certo.  Antes mesmo de começar a campanha, no dia em que foi ungida candidata a presidente pelo PSB, Marina Silva abriu a primeira grande crise na estranha aliança ambientalista-socialista, ao bater de frente com o pessebista histórico Carlos Siqueira, que era uma espécie de José Dirceu de Eduardo Campos, coordenador-geral da campanha presidencial do ex-governador pernambucano, que morreu num acidente aéreo na semana passada. Como escrevi aqui outro dia, o mundo de Marina se divide entre quem manda e quem obedece. Quem manda é ela. Siqueira não obedeceu e já caiu fora.

"Não tenho magoa nenhuma dela, apenas acho que quando se está numa instituição como hospedeira, como ela é, tem que respeitar a instituição, não se pode querer mandar na instituição. Ela que vá mandar na Rede dela, porque, no PSB, mandamos nós", desabafou o ex-chefe da campanha de Eduardo nesta quinta-feira, ao deixar a reunião do PSB com partidos coligados, em Brasília, para oficializar a nova chapa presidencial.

O que todo mundo já sabia, mas era escondido pela grande imprensa familiar, que queria garantir um segundo turno na eleição presidencial, Siqueira botou para fora a guerra surda da aliança de Eduardo com Marina: "Acho que ela não representa o legado de Campos. Eu não vou fazer campanha pra ela porque eles eram muito diferentes, politicamente, ideologicamente, em todos os sentidos."

Para o lugar de Siqueira, Marina autocraticamente nomeou Walter Feldman, seu fiel aliado, fundador do PSDB e secretário de vários governos tucanos. O último cargo público que ocupou, antes de trocar o PSDB pelo PSB, quando ajudava Marina a criar a Rede Sustentabilidade, que não deu certo, foi o de "Secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos" da Prefeitura de São Paulo. Alguém pode imaginar o que seria isso?

Tratava-se de uma bela mordomia em Londres, que durou seis meses e foi custeada pelos nossos impostos, em que Feldman foi encarregado de acompanhar as Olimpíadas na Inglaterra para dar sugestões à Prefeitura de São Paulo, na época comandada por Gilberto Kassab, sucessor e aliado do tucano José Serra. Como as próximas Olimpíadas serão sediadas no Rio, e não em São Paulo, ninguém entendeu até agora qual era o objetivo da sinecura de Feldman em Londres. É desse tipo de gente que Marina está cercada, incluindo herdeiras de bancos, economistas tucanos e altos empresários de cosméticos.

Em seu relatório final sobre seu trabalho em Londres entregue à prefeitura de São Paulo, Feldman concluiu com o seguinte ensinamento, no melhor estilo Marina Silva: "As atividades que envolvem um grande contingente populacional devem ter toda a área de prevenção e análise de riscos, planejamento, agregação e uma retaguarda especializada, com experiência internacional, para monitorar, dar suporte e formar uma rede de ação, a qual, desenvolvida em São Paulo, deverá atuar como fio condutor para o Brasil". Maravilha!

Entenderam? Pois é isso que nos espera nas propostas a serem apresentadas por Marina Silva na campanha presidencial, a julgar pelas ininteligíveis propostas que a candidata e seus fiéis seguidores apresentaram até agora. Salve-se quem puder,  ou quem tiver juízo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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marina Beto é o vice de Marina: que diferença faz?

Daqui a pouco, na tarde desta quarta-feira, o PSB vai oficializar a sua nova chapa presidencial, com Marina Silva e Beto Albuquerque. Sem outra alternativa viável para apresentar como candidato a presidente em lugar do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, morto em acidente aéreo há uma semana, o partido só tinha mesmo que adotar a solução natural para a cabeça de chapa, uma vez que Marina era sua vice.

Também não houve muitas discussões para se chegar ao nome do deputado gaúcho Beto Albuquerque, líder do partido na Câmara, um vice de consenso encontrado pelo PSB, que agrada tanto a Marina como à família Campos. Chegou-se a cogitar para o cargo a indicação da viúva Renata, mãe dos cinco filhos de Eduardo, mas a ideia logo foi abandonada por razões familiares e políticas.

Com um filho de seis meses que requer seus cuidados, Renata, considerada por Roberto Amaral, presidente do PSB, "a candidata dos sonhos", não teria condições de se dedicar à campanha, enquanto Marina precisava de alguém que lhe abrisse as portas entre os poderosos empresários do agronegócio, exatamente o setor onde Albuquerque atua e recolhe os recursos para as suas campanhas. Os ruralistas, como se sabe, torcem o nariz diante do nome da ex-ministra de Meio Ambiente do governo Lula, uma adversária histórica dos donos das terras.

Pensando bem, que diferença faz o nome do vice na campanha? Quantos brasileiros sabem dizer hoje quem é o vice de Dilma, ou o companheiro de chapa do tucano Aécio Neves? Se em lugar de Beto, tivessem indicado Juca, Joãozinho ou Genésio, quantos votos a mais ou a menos eles trariam para Marina? Se fosse Renata a escolhida, aí sim, poderia influenciar o eleitorado, com o ingrediente emocional da tragédia aérea que comoveu o país, e era isso que os adversários mais temiam.

"Ninguém vota em vice", costumava dizer José Alencar, vice de Lula nos dois mandatos _ ele próprio, ironicamente, uma exceção à regra. O ex-metalúrgico reunia bons motivos ao batalhar muito para ter o grande empresário mineiro numa chapa unindo capital e trabalho, uma forma de espantar os temores dos donos do dinheiro. Deu certo.

Na historia brasileira do último meio século, porém, candidatos a vice não foram decisivos em campanhas, mas tiveram papel de destaque após as eleições, ao assumirem, por diferentes motivos, o cargo dos titulares. Basta lembrar, por exemplo, de João Goulart, que ocupou a cadeira no Palácio do Planalto quando Jânio pirou e se mandou de Brasília; de José Sarney, que ficou no lugar de Tancredo Neves, o presidente que nunca foi, abatido por um câncer na véspera da posse, e de Itamar Franco, o substituto do impichado Fernando Collor.

A própria Marina Silva foi escolhida como vice por ser considerada uma grande carreadora de votos para Eduardo Campos, mas não foi isso que se viu. Ao morrer, Eduardo tinha apenas 8% das intenções de voto. Dias depois, na primeira pesquisa pós-tragédia, Marina já aparecia com 21%.

Ex-secretário estadual nos governos gaúchos dos petistas Olívio Dutra e Tarso Genro, que deixou em 2012, para se dedicar à campanha de Eduardo, Beto Albuquerque tem 51 anos. No governo Lula, lutou pela aprovação da medida provisória dos transgênicos, que Marina combatia.

Socialista histórico, nunca teve outro partido fora do PSB. No próximo final de semana, ele já estará ao lado de Marina numa caminhada no Recife, o primeiro ato de campanha da nova chapa. Para o PSB, a partir de hoje, começa tudo de novo, a um mês e meio das eleições presidenciais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lll Dilma e Marina, tão iguais e tão diferentes

Quem um dia poderia imaginar, até poucos anos atrás, que teríamos neste momento, a 45 dias das eleições, duas mulheres disputando quem vai ser a próxima presidente da República do Brasil?

Por uma dessas boas sortes do destino, tive a oportunidade de trabalhar com ambas durante os dois primeiros anos do governo Lula, em que elas foram ministras de Estado e eu secretário de Imprensa da Presidência. Aprendi a admirá-las pela força com que defendem suas convicções, muitas vezes opostas, e posso dizer que ficamos bons amigos.

As vidas da economista mineira Dilma Vana Rousseff, 66, e da ambientalista acreana Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, 56, tão iguais e tão diferentes, dariam um belo e emocionante filme.

Não gosto de fazer comparações entre pessoas, e muito menos julgá-las, nem é este o objetivo deste texto. Quero apenas contar um pouco do que sei sobre a trajetória e a personalidade destas duas figuras absolutamente incomuns, que construíram seus próprios caminhos com muita luta, determinação e sofrimento, cada uma do seu jeito.

Conheci Marina primeiro, nas campanhas presidenciais do Lula, lá pelo final dos anos 80 do século passado, e logo ela me chamou a atenção nos vários encontros dos "povos da floresta", em Rio Branco, no Acre, por sua figura frágil, ar místico, voz fina, mas sempre firme, cabelos presos e figurinos étnicos, muito carismática.

Conversei com Dilma pela primeira vez no período de transição do governo FHC para o de Lula, no final de 2002, quando trabalhamos juntos no prédio do Centro Cultural do Banco do Brasil. Não era de dar intimidade a ninguém, sempre muito séria e objetiva em suas roupas de executiva, cabelos armados, só falava de trabalho, carregando planilhas e seu inseparável laptop.

Figuras humanas bem diferentes, como se pode notar, mas também com muitas coisas em comum. Elas não gostam de ser contrariadas, sempre carregam verdades definitivas, parecem estar cumprindo uma missão terrena ou divina. O mundo delas se divide entre quem manda e quem obedece. Não tem conversa. Por isso mesmo, não custaram a se estranhar logo nos primeiros meses de governo.

As divergências entre elas eram muitas, mas podem ser resumidas num ponto- chave: Dilma era o que se pode chamar de desenvolvimentista, ao lutar por grandes obras e projetos no Ministério de Minas e Energia, batendo de frente com o conservacionismo de Marina, que sempre se dedicou a defender com unhas e dentes o meio ambiente, desde os tempos de líder seringueira ao lado de Chico Mendes.

Em razão disso, não foram poucas as vezes em que Marina foi se queixar a Lula e pedir demissão do cargo. Acabou ficando até meados de 2008. Saiu do governo e, ao mesmo tempo, do PT, para se candidatar a presidente da República pelo PV, em 2010, quando enfrentou Dilma pela primeira vez, e acabou provocando um segundo turno na eleição, ao obter 19% dos votos, tornando-se a grande surpresa daquela campanha.

Dilma tinha assumido a chefia da Casa Civil, o cargo mais importante do governo depois do presidente, em 2005, no auge da crise do mensalão, em que foi chamada para ocupar o lugar de José Dirceu. Poucos meses depois, Lula me confidenciou que tinha encontrado nela a candidata ideal para disputar a sucessão dele. No papel de gerente geral do governo, foi convocada por Lula para comandar o PAC no segundo mandato, principal bandeira da sua primeira campanha eleitoral disputada na vida. E assim se tornou a primeira mulher eleita presidente da República, um projeto que nunca fez parte da sua vida.

Ao contrário, Marina não pensa em outra coisa desde que deixou o PT. Sem espaço no PV após a campanha de 2010, resolveu criar seu próprio partido, chamado de Rede Sustentabilidade, para concorrer novamente em 2014, mas não conseguiu o registro a tempo de disputar as eleições. Com seu grupo de seguidores, conhecidos por "marinistas" e "sonháticos", resolveu se abrigar provisoriamente no PSB de Eduardo Campos, que já estava em campanha presidencial e a recebeu de braços abertos para ser sua vice. Do outro lado, não se conhecem "dilmistas".

Como aconteceu nos seis anos em que conviveram na Esplanada dos Ministérios, disputando posições e projetos diferentes no governo Lula, montadas em suas certezas, que não abrem muito espaço para o diálogo e o contraditório, agora Marina e Dilma estão frente a frente outra vez. A última pesquisa Datafolha mostra que ambas podem ir para o segundo turno, hoje numa situação de empate técnico, com leve vantagem de Marina, prometendo luta renhida até o final.

Quem ficou numa situação bastante difícil foi o tucano Aécio Neves, único homem ainda na disputa entre os candidatos competitivos. Ensanduichado entre duas mulheres, vai ter que bater nelas para cavar um lugar no segundo turno, ou ficará fora dele, e isso não pega bem num país machista como o nosso, onde ainda está em vigor a Lei Maria da Penha. Como esse filme vai acabar, eu não sei, mas certamente viveremos fortes emoções nos próximos 45 dias. Preparem seus corações!

 

 

 

 

 

 

 

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 Com Marina, PSB sobe, mas Aécio e Dilma não caem

Como já se podia prever, a primeira pesquisa pós-tragédia mostra um crescimento do PSB, com Marina Silva em lugar de Eduardo Campos. A surpresa foi outra: Dilma Rousseff e Aécio Neves  não perderam nenhum voto, ficando exatamente onde estavam na pesquisa anterior  (ver matéria no R7).

Politicologos, pesquisólogos, futurólogos e profetas em geral, passaram os últimos dias especulando sobre quem perderia mais votos para Marina, se Dilma ou Aécio. Pois erraram todos, como mostra a pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira. Por isso, acho melhor fazer previsões só depois do fato consumado, como ensinava Marco Maciel, velho sábio pernambucano.

Eduardo Campos tinha 8% na última pesquisa e Marina Silva surge agora com 21%, um vigoroso crescimento de 13 pontos percentuais para o candidato da chamada "terceira via". De onde vieram então estes votos?

É só fazer algumas contas bem simples.

Em julho, o contingente de eleitores sem candidato que votariam em branco ou nulo era de 13%; não sabiam quem escolher eram 13% e aqueles dispostos a sufragar candidatos nanicos chegavam a 8%. Somando tudo, dava 35% de eleitores que não votariam em Dilma, Aécio e Eduardo.

Agora, a soma deste contingente de eleitores é de 22%: 9% ainda não sabem; 8% preferem votar branco ou nulo e apenas 5% em nanicos.

A diferença entre uma pesquisa e outra é de 13 pontos percentuais, portanto — ou seja, exatamente o total de intenções de voto (21%) que Marina tem a mais do que Eduardo Campos registrava (8%), às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, que começa amanhã.

Claro que a tragédia aérea em que o presidenciável do PSB morreu na quarta-feira passada deve ter forte influência nestes números que provocam uma reviravolta no quadro sucessório, mas há outros motivos a se levar em conta.

Assim como acontece com os acidentes aéreos, mudanças bruscas de rota são causadas por um conjunto de fatores, e não um só. Neste caso, não podemos esquecer o "recall" de Marina Silva, que teve 19% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2010, depois de trocar o PT pelo PV para ser candidata, apenas dois a menos do que nesta pesquisa de agosto de 2014, a 47 dias da eleição.

A entrada de Marina na campanha como candidata a presidente ungida pela família Campos e pelo PSB também não foi surpresa para ninguém, como já havia antecipado aqui na última sexta-feira (ver post).

Além disso, Marina tinha 27% das intenções de voto em abril, na última vez em que seu nome apareceu na lista de candidatos nas pesquisas, antes da oficialização da chapa do PSB encabeçada por Eduardo, com a ex-senadora no papel de vice.

A troca do presidenciável do PSB, da forma trágica como aconteceu, foi um fato tão inesperado que torna agora mais difícil o trabalho dos analistas do futuro, mas não deve ser atribuída à "providência divina", como fez Marina Silva na sexta-feira.

Na verdade, ela não embarcou no voo fatídico de Eduardo porque não queria se encontrar com o correligionário Márcio França para evitar constrangimentos. Márcio era o responsável pela agenda daquele dia na Baixada Santista, seu principal reduto eleitoral, e pela aliança do PSB com o PSDB em São Paulo, o que lhe garantiu o lugar de vice na chapa do governador Geraldo Alckmin.

Administrar agora estas alianças heterodoxas firmadas por Eduardo contra a vontade de Marina — no Rio, por exemplo, o PSB apoia Lindberg Farias, do PT, para governador — é agora um dos primeiros desafios de Marina, que pode crescer ainda mais nas próximas pesquisas, diante do clima emotivo que tomou conta da campanha após os comoventes funerais de Eduardo Campos, no Recife, que duraram todo o domingo, e deram à candidata do PSB o protagonismo na mídia.

Neste primeiro momento, Marina já aparece um ponto à frente de Aécio (21% a 20%), no primeiro turno, e com uma vantagem de quatro pontos sobre Dilma (47% a 43%) num agora quase inevitável segundo turno. Se acontecer, e o adversário de Dilma for Aécio, a presidente derrotaria o tucano por 47% a 38%.

Ao mesmo tempo, uma informação que passou meio escondida nas análises da pesquisa, mas pode influir nas próximas, mostrou o crescimento de 6% nos índices de aprovação do governo Dilma, que passaram de 32% de ótimo e bom, em julho, para 38%, agora, enquanto a avaliação de ruim e péssimo registrava uma queda também de 6% (caiu de 29% para 23%).

Muita calma nesta hora. Melhor é esperar a poeira assentar e avaliar a repercussão dos primeiros programas dos candidatos na televisão, em que Dilma tem o dobro do tempo dos seus dois adversários somados. A próxima pesquisa do Ibope só está prevista para setembro.

 

 

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essa essa Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Com milhares de bandeiras, camisetas, faixas, adesivos e balões, palavras de ordem e punhos erguidos, a missa campal celebrada pela morte de Eduardo Campos, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, na praça da República, no Recife, na manhã deste domingo, deu início para valer à campanha eleitoral de 2014.

Mais de 100 mil pessoas participaram do ato religioso, que se transformou num grande comício, o primeiro deste ano, tomando as ruas próximas, com milhares de materiais de campanha de Eduardo e Marina sendo distribuídos à população. "Não vamos desistir do Brasil", a última frase de Eduardo em entrevista à televisão, na noite anterior à queda do avião em Santos, rapidamente se transformou no lema da campanha de Marina Silva, que só terá sua candidatura presidencial oficialmente lançada pelo PSB na próxima quarta-feira.

ok Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Sol e chuva, religião e política, comoção e cantoria, tudo se misturou numa grande festa para as câmeras da televisão, em que lágrimas se alternavam com gritos de "Eduardo guerreiro do povo brasileiro" e candidatos de todas as latitudes viraram "papagaios de pirata", demorando-se diante do caixão e postando-se ao lado de parentes de Eduardo, como se fossem da família.

A missa durou uma hora e meia, mas o velório começou de madrugada e iria até a hora do enterro marcado para o final da tarde. Filas quilométricas formaram-se desde cedo sobre as pontes em volta do palácio, com caravanas vindas do interior. Teve repórter de TV que se empolgou tanto, a ponto de chamar todas as autoridades presentes de "chefes de Estado". Portais da grande imprensa familiar registraram que a presidente Dilma foi recebida com vaias, mas esqueceram-se de dizer nos títulos que ela também foi muito aplaudida.

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A presidente Dilma e o ex-presidente Lula chegaram juntos à tenda armada diante do palácio onde foi armado o velório. Discreta e visivelmente emocionada, a agora candidata Marina Silva não entrou no clima de comício, e se manteve em silêncio quase todo o tempo. O tucano Aécio Neves, por enquanto o principal opositor de Dilma, chegou atrasado.

dilma Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

As palavras emoção e multidão foram repetidas milhares de vezes por narradores e repórteres, que já não sabiam mais o que falar. A mãe de Eduardo, Ana, a mulher, Renata, e os cinco filhos recebiam ao mesmo tempo e da mesma forma os cumprimentos de políticos e gente do povo.

Chamou a atenção de todos uma jovem senhora estrategicamente postada atrás dos celebrantes da missa, comandados pelo arcebispo de Olinda, d. Fernando Saburido. De vestido negro e enormes óculos escuros, passou a missa toda ajeitando os longos cabelos e digitando freneticamente no celular até ser retirada por seguranças do alvo das câmeras, que a todo momento mostravam as bandeiras eleitorais de Eduardo e Marina com o número 40 e uma pomba, símbolo do PSB, que muitos não conheciam.

Descansa em paz, Eduardo, que por aqui a guerra está só começando.

 

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essa s Marina Silva é o nome e Alckmin já está reeleito

De volta à lida política, 48 horas após a tragédia de Santos, dois pontos se destacam no noticiário desta sexta-feira (15) e só o imponderável poderá impedir que sejam confirmados pelos fatos: a ex-senadora Marina Silva será a candidata a presidente em substituição a Eduardo Campos na coligação liderada pelo PSB, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, está praticamente reeleito em primeiro turno, segundo o último Datafolha.

Com o apoio da família de Eduardo, do mercado, dos nanicos partidos aliados e da mídia grande, Marina só não será a candidata se não quiser. Uma das poucas pessoas do cenário político nacional a guardar obsequioso luto e respeitoso silêncio pela morte do companheiro de chapa, Marina Silva só irá se manifestar após o enterro, previsto para domingo, mas a sua indicação é dada como certa, até por absoluta falta de opção do PSB, que não tem outro nome de expressão nacional.

Como candidata a vice, a ex-senadora do Acre e ex-ministra do governo Lula já era, desde o primeiro momento, a solução natural para assumir a candidatura a presidente. Se Eduardo a havia escolhido pessoalmente para ser a sua eventual substituta, não faria sentido o PSB escolher outro nome, por mais que algumas lideranças do partido tenham restrições a Marina.

Nem seria necessário o comovente esforço despendido pelo mercado e pela mídia, que nunca tiveram tanto e desabrido protagonismo numa campanha presidencial, para defender a indicação de Marina como adversária de Dilma e Aécio no dia 5 de outubro. Agora, meus amigos, vale tudo para levar a eleição ao segundo turno e, se possível, impedir a reeleição de Dilma, mas tem gente com pressa para definir quem é o mais forte candidato anti-PT.

Leiam esta nota publicada na coluna Painel, da Folha, que mostra bem a degradação a que chegaram os costumes políticos no País:

"Choque _ Um banco de investimentos encomendou pesquisa telefônica para medir a intenção de voto em Marina na quarta-feira, dia do acidente. A enquete foi cancelada porque muitos eleitores se recusaram a responder".

Quer dizer, não respeitam mais ninguém, nem os mortos, nem os eleitores. Na mesma edição, o jornal faz questão de não deixar dúvidas: "Para forçar 2º turno, mercado torce por ex-senadora _ Investidores apostam que candidatura dificultaria a reeleição de Dilma e poderia abrir espaço para Aécio Neves".

E se Marina abrir tanto espaço que pode deixar Aécio para trás? Não importa. A esta altura, qualquer nome serve para impedir o quarto governo seguido do PT. Também sou a favor da alternância do poder, tanto no País como nos Estados, mas há modos e modos de se atingir os objetivos.

Em São Paulo, por exemplo, não há motivos para preocupações de quem só defende a alternância do poder em Brasília:  com 55% dos votos na pesquisa divulgada hoje, Alckmin está praticamente reeleito, depois de duas décadas de domínio tucano no maior colégio eleitoral do País.

O empresário Paulo Skaf, do PMDB, com 16%, e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, do PT, com 5%, continuam onde estão há muito tempo: empacados, sem mostrar força para qualquer reação, a apenas 50 dias da abertura das urnas e às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Com o trágico fato novo da morte de Eduardo Campos, os partidos agora precisam correr para refazer suas estratégias de campanha e o resultado da eleição presidencial torna-se absolutamente imprevisível. Estão todos esperando, sofregamente, pela primeira pesquisa Datafolha com Marina em lugar de Campos, que deverá ser divulgada já neste final de semana para acalmar o mercado e a mídia.

Vida que segue.

 

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futebol Muricy, Ceni e Aidar: os retratos da decadência

Como me recuso a entrar neste Fla-Flu sobre quem ganha e quem perde na corrida presidencial com a morte de Eduardo Campos, num país em que já tem jornalista lançando candidatos prediletos e chapas impossíveis, e fundos abutres especulando na Bolsa antes mesmo do velório, ainda chocado diante do que aconteceu repito o que escrevi logo após o trágico acidente: perdemos todos, perdeu a democracia brasileira, tão carente de novas lideranças políticas (ver post anterior). Acho melhor escrever sobre futebol e dar tempo ao tempo.

Diante de 7 mil testemunhas, na noite chuvosa e gelada de quarta-feira, em pleno estádio do Morumbi, o meu São Paulo passou diante do modesto Bragantino _ time que está na zona de rebaixamento da Série B _ um dos maiores vexames da sua gloriosa história. Perdeu só por 3 a 1, só assistindo o adversário jogar, fazendo lembrar aquela vergonha dos 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa. Aconteceu com o São Paulo, mas é o retrato da decadência do futebol brasileiro, que ontem abateu também Fluminense e Internacional, todos eliminados da Copa do Brasil.

Sou são-paulino desde pequeno, mas confesso que fiquei feliz vendo a alegria dos modestos jogadores do Bragantino, que comemoraram a vitória como se fosse o título do mundial de clubes. Impotente diante do que acontecia em campo, Muricy olhava para o banco de reservas, balançava a cabeça e não fazia nada, tão patético como Felipão diante da Alemanha e da Holanda.

Com o melhor e mais caro elenco do país, Muricy muda a escalação e o esquema a cada jogo, mas não consegue montar um time que preste.  E Rogério Ceni não desiste: levou mais dois belos frangos para fazer companhia aos inúteis Pato e Ganso na granja do Morumbi. Com sua valente arrogância, o presidente Carlos Miguel Aidar sumiu de cena quando tudo começou a dar errado, seguindo o exemplo de José Maria Marin. Herdeiro de uma dinastia de cartolas cheios de soberba que controlam o São Paulo há séculos, como os Havelange-Teixeira-Marin fazem na CBF, Aidar ficou conhecido como um sujeito que compra caro e vende barato, pois dinheiro não é problema (para ele, claro).

Deu pena ver o marrento Muricy, de quem sempre fui admirador de carteirinha, mas está com o prazo de validade vencido, balbuciando na entrevista coletiva após o jogo, sem ter o que dizer, no melhor estilo Felipão, tentando explicar o inexplicável. Felipão fez mal ao nosso futebol não só na seleção, mas pelos efeitos negativos deixados para este pobre Brasileirão, que a cada rodada vai perdendo audiência e público.

Quem vai ter a humildade de reconhecer tudo isso e propor uma verdadeira revolução no nosso futebol, a começar pelas equipes de base, aposentando cartolas, treineiros e ex-jogadores em atividade, para dar lugar aos novos? Alemanha, França e tantos outros países fizeram isso há muitos anos _ e se deram bem. Por que não nós também?

 

 

 

 

 

 

 

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Eduardo Campos Foto Hélio Campos Mello1 Eduardo decidiu ser candidato ainda em 2012

Foto: Hélio Campos Mello

Perdeu a política brasileira, já tão pobre. A morte de  Eduardo Henrique Accioly Campos, aos 49 anos, é uma tragédia não apenas para a família, os amigos e os seus eleitores, mas também para o país. Meu sempre cordial amigo Eduardo era a melhor expressão das nossas novas lideranças políticas, tão raras neste Brasil do século 21. Descobri isso quando fiz com ele duas longas entrevistas, em 2010 e 2012, as primeiras de repercussão nacional, quando ainda era um líder regional.

"Um político do futuro" foi o título da capa da revista Brasileiros, em outubro de 2010, com uma bela foto de Leo Caldas. Nesta primeira entrevista, conversei com ele durante horas, em seu gabinete no Palácio do Campo das Princesas, dias antes da eleição geral de 2010, em que já despontava como o novo campeão de votos. Combinamos que a entrevista só seria publicada se as urnas confirmassem as pesquisas.

Não deu outra: "Campeão de votos entre os candidatos a governador (82,84% dos votos válidos em Pernambuco), Eduardo Campos reafirma a mais simbólica de todas as mensagens emitidas pelas urnas de 3 de outubro: a política brasileira está mudando de geração. E está mudando para valer", escrevi na abertura da matéria.

Voltaria ao Recife em 2012, em meio à cobertura da campanha municipal daquele ano, para um almoço com seu eterno assessor de imprensa, o Evaldo Costa, uma das heranças que recebeu do avô, Miguel Arraes, que também morreu num dia 13 de agosto.

Mal pisamos no saguão do aeroporto dos Guararapes, o fotógrafo Hélio Campos Mello e eu, a brava equipe da Brasileiros, tocou meu celular. "O governador está convidando vocês para almoçar com ele", avisou a gentil secretária Rosa, que nos explicou como chegar ao Centro de Convenções, onde Eduardo Campos estava despachando, enquanto o Palácio do Campo das Princesas passava por uma reforma. O almoço só terminaria às cinco da tarde.

Saí dali com a certeza de que o então governador de Pernambuco seria candidato a presidente da República já em 2014. "Lula X Eduardo Campos _ a guerra dos padrinhos no Recife", foi o título da matéria, que mostrava o início e as causas do afastamento de ambos, em 2012, nesta mesma época do ano.

Meu objetivo era apenas fazer uma reportagem sobre a disputa eleitoral entre PT e PSB, mas a conversa tomou um rumo diferente, com um verdadeiro desabafo de Eduardo, que nem esperava pelas perguntas para falar da mágoa que estava sentindo do velho amigo e aliado. O governador sabia que eu também era um velho amigo de Lula, pois trabalhamos juntos _ ele, como ministro da Ciência e Tecnologia, e eu, como Secretário de Imprensa, nos dois primeiros anos do governo do PT. Talvez por isso mesmo tenha sido tão franco e direto, como se poderá ver em alguns trechos da matéria que reproduzo abaixo:

O clima esquentou de vez no começo de agosto, quando o presidente nacional do PT, Rui Falcão, deputado estadual em São Paulo, deu uma entrevista ao Jornal do Commercio, de Pernambuco, em que fala do caráter nacional da disputa: "É uma questão de honra para nós ganhar a eleição no Recife". Se ainda não era, passou a ser uma questão de honra também para Eduardo Campos, que não consegue falar com seu amigo Lula desde o começo de julho, quando tiveram um rápido encontro em São Paulo, depois de definidas as duas candidaturas. De olho em 2014, o que ambos os partidos negam, o fato é que a disputa eleitoral no Recife acabou jogando em campos opostos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o herdeiro político de Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco, fiel aliado do PT desde a primeira eleição presidencial, em 1989.  

(...) De bom humor e animado como sempre, o governador pernambucano mostrou apetite para repetir o prato e falar de política durante o longo almoço com cardápio trivial: peixe ao molho de maracujá, bife a rolê, arroz enfeitado e panqueca de ricota com espinafre. Para acompanhar, sucos de frutas da terra e refrigerantes. Só depois do cafezinho, conforme o combinado, peguei caderno e caneta e fui direto ao assunto desta reportagem: como ele está analisando o cenário da disputa de 2012, principalmente nas capitais onde se enfrentam PT e PSB, tendo como pano de fundo a sucessão presidencial em 2014. "A eleição é apenas municipal, sempre foi assim, mas eu sei que todo mundo quer fazer agora alguma ligação que remeta a 2014".

Como bom nordestino, Eduardo não se recusou a fazer esta ligação, contando com detalhes como se chegou à ruptura, por telefone, quando ele ligou para o ex-presidente:

"Estou falando do gabinete onde o doutor Arraes recebeu os milicos, não sou homem de ser enquadrado por ninguém. Posso ser convencido, mas enquadrado, não". Foi neste ponto , depois de vários desencontros, que se deu a ruptura entre os dois velhos amigos, um magoado com o outro. E começaram os ataques mútuos de líderes dos dois partidos pela imprensa, que só pioraram as coisas, a ponto de Eduardo não conseguir mais falar com o ex-presidente. "As informações chegam filtradas a Lula, que fica isolado lá no instituto dele, falando com assessores e dirigentes do PT, como Rui Falcão, e só quer saber da eleição em São Paulo. Eu esperei até o último dia para conseguir um entendimento com o PT daqui, ficamos de conversar, mas tive que escolher um candidato no meu partido porque já estávamos correndo o risco de perder a eleição para a direita, com a cidade sangrando e o PT brigando. Acharam que eu estava blefando".

Agora que todos sabemos que Eduardo não era de blefar, vamos lembrar outro episódio.

Atendendo ao conselho de Dilma, o governador ligou para Lula, mas lhe disseram que o ex-presidente estava num sítio descansando e só poderia entrar em contato depois do dia 20 de julho. "Estamos no dia 24 de agosto e até hoje ele não ligou..."

Até hoje, por mais que seja provocado por jornalistas, Eduardo jamais falou mal de Lula, embora tenha feito muitos ataques ao governo de Dilma Rousseff durante a campanha presidencial. Como os dois não se falavam pessoalmente, o diálogo era feito por intermediários, o que só gerava mais futricas. Um deles relatou a Eduardo uma frase que teria ouvido de Lula:

"Eu queria fazer o Eduardo presidente pela minha mão, na hora certa, mas agora ele resolveu chegar lá sozinho".

Não chegou nem nunca chegará, mas nós todos ainda vamos sentir muita falta de políticos como Eduardo Campos, um cara que era capaz de falar e fazer o que seu coração mandava, sem querer levar vantagem em tudo.

***

Estava terminando de escrever este texto, com muita dificuldade, porque não consigo falar da morte de ninguém, depois da morte de meu pai, quando me ligou o Roberto Kalil, nosso médico e amigo comum, que me fez lembrar do que aconteceu com Ulysses Guimarães, outro político fora de série que morreu num acidente aéreo e desapareceu no mar de Angra dos Reis, não muito longe de Santos, onde caiu o jatinho que levava Eduardo Campos do Rio para o Guarujá. Chovia muito na região naquela hora, pouco antes das 10 da manhã.

Durante a Campanha das Diretas, em 1984, quase morri num avião ao lado de Ulysses _ e por culpa da teimosia do velho. Voávamos de Macapá, no Amapá, para Belém do Pará, atravessando um temporal amazônico. "Avião comigo não cai, jornalista, larga mão de besteira seu c...", desafiava-me ele, ao ver o medroso repórter rezando sem parar.

O piloto havia avisado logo cedo que não havia nenhuma condição de levantarmos voo, mas Ulysses tanto insistiu que partimos por volta das 11 da manhã. Logo depois da decolagem, com o avião jogando para cima, para baixo e para os lados, o "Senhor Diretas" começou a passar muito mal.

Com a experiência de um veterano piloto de muitos temporais, trocou de roupa no avião mesmo, se recompôs, e desceu em Belém todo pimpão, dando entrevistas, como se nada tivesse acontecido. Daquela vez sobrevivemos, mas havia outro temporal no caminho de Ulysses, e ele teimou em mandar o piloto do helicóptero levantar voo de Angra dos Reis para ir a São Paulo, quando não podia. Ainda bem que daquela vez eu não estava junto... O resto tudo agora é história.

***

Quem quiser saber mais sobre a vida, o pensamento e o estilo de Eduardo Campos pode acessar o arquivo: www.revistabrasileiros.com.br

Vida que segue, agora sem o Eduardo Campos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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FUP20120525073 Buraco G Sabesp busca petróleo em buraco no Jardim Paulista?

Manhã de segunda-feira. Assunto não falta. Só desgraça, claro, no Brasil e no mundo. Por isso, pensei em escrever sobre futebol, mas também não me animei, depois de ler a perfeita análise de Juca Kfouri sobre a rodada de domingo do Brasileirão, sob o título "Diga basta, torcedor!".

Disse tudo: "Daí, uma reflexão diante da miséria que assola nosso futebol: imagine o que acontecerá se o torcedor, pacificamente, qual Gandhi, deixar de ver os jogos? Resistência pacífica mesmo! Estádios ainda mais vazios que o habitual, audiência em queda, patrocinadores que gastam milhões para expor suas marcas em desespero, o que acontecerá? Imagine".

Pois posso imaginar, caro Juca, mas aí o que nos restará para fazer de mais emocionante nas velhas tardes de domingo?

Poderia escrever sobre o racionamento oficial de água, que atinge 2,1 milhões de paulistas, fora os não contabilizados. Ou sobre o ebola, que se alastra pela África, a nova trégua de 72 horas entre Hamas e Israel, enquanto palestinos continuam morrendo, entre eles um menino de 14 anos (não há registro de vítimas israelenses), o tiroteio na CPI da Petrobras, a grana correndo na campanha eleitoral, e por aí afora.

Também renderia uma boa matéria a ciclovia da avenida Sumaré, que foi pintada de vermelho, uma nova obra de Fernando Haddad, já chamado "Prefeito Suvinil", por espalhar faixas exclusivas pela cidade, tirando o espaço dos carros para dar lugar a bicicletas e ônibus, algo considerado politicamente correto. Desta vez, porém, o prefeito arrumou encrenca não só com os donos de carros (não é meu caso), mas com os pedestres, pois a ciclovia foi implantada no mesmo espaço antes reservado ao pessoal das caminhadas matinais.

Quando os assuntos são muitos, às vezes a gente se esquece do que está mais próximo da nossa janela, a exemplo da interminável novela urbana que venho acompanhando diariamente do meu privilegiado posto de observação.

Começou na mesma semana da Copa no Brasil. Com o som inconfundível das britadeiras, a Sabesp abriu pela enésima vez um buraco na alameda Ministro Rocha Azevedo, esquina com a alameda Lorena, no coração do Jardim Paulista, bairro nobre da cidade. Duas pistas foram fechadas com cones (não, o Fred não estava lá) e fitas. Logo, máquinas e caminhões de uma empreiteira terceirizada pela Sabesp se perfilaram para dar mãos à obra, provocando grandes congestionamentos e uma sinfonia de buzinas _ e, assim, do jeito que começou, continua tudo lá até hoje, dois meses depois, portanto, sem prazo para um final feliz.

Se alguém estiver interessado em entender os motivos da crise de desabastecimento de água em São Paulo, basta passar apenas algumas horas naquele lugar para conhecer o padrão Sabesp de qualidade, eficiência e respeito ao consumidor.

Dois ou três operários por dia se revezam no buraco, que anda a cada semana, em direção à avenida Paulista, enquanto outros ficam olhando ou esperam sua vez nos caminhões, todos sem mostrar muita pressa. Nunca vi ali um engenheiro da empreiteira ou da Sabesp, algum fiscal da prefeitura, nada que pudesse sugerir a preocupação do poder público com o andamento da obra.

Muito menos alguma boa alma da Sabesp, que tem uma fornida equipe de comunicação e não poupa dinheiro com investimentos em propagada, preocupou-se em informar aos moradores o que, afinal, a companhia está fazendo ali, quanto tempo vai durar a "obra", qual o seu custo, nada.

Claro que cabe à empresa, controlada pelo governo do Estado, e com 49% das ações na Bolsa, teoricamente responsável pelo saneamento básico de 27,7 milhões de pessoas, cuidar da manutenção da sua rede subterrânea de água e esgoto, mas não custaria nada dar uma satisfação ao distinto público, assim como tomar providências para amenizar os transtornos e apressar a conclusão dos serviços. Os moradores da região e os leitores deste Balaio já ficariam satisfeitos se recebessem algumas informações sobre o destino do buraco.

Motoristas de táxi de um ponto próximo já especulam se a Sabesp não teria aderido aos programas do "pré-sal" e resolvido investir na prospecção de petróleo em pleno Jardim Paulista. Dia desses, quem sabe, jorra ali o chamado ouro negro e os acionistas privados poderão comemorar a subida das suas ações.

"Como a Sabesp não teve dinheiro para investir na manutenção e tem para distribuir lucros na bolsa de Nova York?", quer saber o vereador Laércio Benko, do PHS, que entrevistei semana passada na Record News, durante a série de sabatinas da emissora com os candidatos ao governo do Estado. Interessado em receber uma resposta, como nós também, Benko apresentou requerimento, que já foi aprovado, pedindo a instauração de uma CPI na Câmara Municipal para investigar a companhia.

Vamos esperar sentados, que de pé cansa. Com a palavra, a Sabesp.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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