okok Tudo é culpa do governo. Mas de qual governo?

Com a água, ou melhor, a falta d´água batendo no seu pescoço, e como não temos eleições neste ano, finalmente o eterno governador paulista Geraldo Alckmin resolveu agir: a partir desta quinta-feira (8), quem gastar mais do que a média do consumo nos últimos 12 meses vai ter que pagar multa pesada, que pode chegar a 100% sobre o valor da conta.

Quando ainda estava em campanha pela reeleição, e conseguiu esconder até onde pôde o perigo de colapso no abastecimento de água, com a ajuda da imprensa amiga, o tucano tinha feito exatamente o contrário: prometeu descontos para quem gastasse menos.  Só que, agora, não tem mais jeito de fugir do problema. Mesmo com a utilização do segundo volume morto do reservatório, o Sistema Cantareira está com apenas 6,8% da sua capacidade, o índice mais baixo registrado desde o início da estiagem.

Nem as fortes chuvas deste verão foram capazes de melhorar a situação. Ao contrário, as águas continuaram baixando nas represas e Alckmin começa mais um governo do mesmo jeito que terminou o anterior, correndo atrás do prejuízo. Ainda não ouvi ninguém falar em estelionato eleitoral.

A crise da água, as estradas do litoral norte torturando os turistas, o desmatamento fora de controle, a violência crescente, nada é capaz de atingir a invulnerabilidade do governador teflon. Nada é com ele.

Além de sua figura raramente aparecer no noticiário sobre as variadas crises que assolam São Paulo, há uma outra explicação para este fenômeno. Para a maioria dos eleitores, tudo é culpa do governo, sim, mas quando se pergunta de qual deles está falando, a maioria responde errado.

Em outubro passado, no mês da eleição, quando o instituto Datafolha perguntou de quem era a responsabilidade pela crise no abastecimento de água em São Paulo, 53% dos entrevistados responderam que era do governo federal e da prefeitura. Ou seja, a culpa era do PT, de Dilma e Haddad.

Tive um bom exemplo desta ignorância generalizada sobre as atribuições das três instâncias de governo, quando abriram um enorme buraco no asfalto aqui ao lado de casa. Até escrevi um post sobre o assunto quando a obra começou. Foi no início da Copa do Mundo, lembro-me bem. Seis meses depois, a obra ainda não tinha terminado, pois era um buraco que andava, subindo a alameda Ministro Rocha Azevedo, em direção à avenida Paulista, e deixando o trânsito congestionado o dia todo.

"Olha aí a porcaria do PT... Todo dia é isso e o prefeito não faz nada...", blasfemou o motorista de táxi com a veemência dos que têm certeza do que falam. Ainda pedi que ele olhasse na placa da Sabesp colocada no caminhão junto à obra, mas ele não queria nem saber. "E daí? Essa porcaria da Sabesp não é da prefeitura?".

De nada adiantou lhe explicar que Sabesp é a sigla da empresa de saneamento básico de São Paulo, controlada pelo governo estadual. O homem estava enfurecido, e assim continuou a viagem, xingando o prefeito e o PT. O taxista só sintoniza a rádio Jovem Pan. Alckmin, como se sabe, foi reeleito com um pé nas costas.

O governo federal tem culpa, sim, mas por não tornar obrigatório em todos os currículos escolares o ensino de noções básicas de cidadania. Por exemplo, ensinar quais são as responsabilidades dos governos federal, estaduais e municipais, e quais as atribuições dos três Poderes da República (para quem não se lembra, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário).

Fica a sugestão para o Datafolha fazer uma outra pesquisa sobre este tema. Desconfio que a absoluta maioria da população não saberá as respostas corretas. E é assim que as pessoas votam, eleição após eleição. Depois, reclamam dos governos e dos políticos que acabaram de eleger.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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k Qual é, afinal, a agenda da oposição para 2015?

Por absoluta falta de assunto, a imprensa e as oposições em geral poderiam dar férias coletivas aos seus colaboradores. Cada vez que termino de ler o tedioso noticiário do dia, lembro-me da célebre frase do filósofo Ronald Golias, um gênio que faz muita falta nos dias atuais: "A humanidade não está se comportando bem..."

Ontem, ao retornar de breve recesso, tratei aqui das desventuras da primeira semana do governo Dilma 2 e suas perspectivas pouco animadoras para 2015, praticamente concentradas no acerto das contas públicas entregue às mãos de tesoura do ministro Joaquim Levy.

Hoje, quarta-feira, quando olho para o lado oposto do espectro político partidário-midiático, o cenário também não é nada animador. Mais de dois meses após a sua quarta derrota consecutiva em eleições presidenciais, a oposição continua mais perdida do que cachorro em dia de mudança. Atira para todos os lados, mas não acerta uma bala no alvo capaz de lhe render manchetes e o respeito dos eleitores.

Quer apenas impedir que a presidente Dilma inicie seu segundo governo e, se possível, derrubá-la. Para isso, vale tudo: pedir mais CPIs da Petrobras, vazar novas denúncias, apelar aos seus aliados no Supremo Tribunal Federal comandado pelo onipresente Gilmar Mendes, hoje o principal líder da oposição real, ao lado da grande mídia familiar, enquanto o impagável Eduardo Cunha não assume a presidência da Câmara.

Seus principais líderes, o mineiro Aécio Neves e o paulista José Serra, simplesmente sumiram de cena, assim como o paranaense Álvaro Dias, eterno porta-voz da turma sempre à disposição de câmeras e microfones.

Aécio e Serra limitam-se a dar alguns pitacos reativos a cada discurso ou ação do governo, em notas oficiais ou plantadas em colunas amigas. Estão a reboque de figuras menores e mais assanhadas como os Agripinos, Goldmans, Bolsonaros, Imbassahys, Freires, Lobões, e todas estas figurinhas carimbadas do colunismo do pensamento único do Instituto Millemium, que parecem saídas da Velha República, com aquelas imponentes barbas, calvas cultivadas e cabeleiras brilhantinadas, adornadas por suas meigas coleguinhas.

O fato é que, até agora, esta oposição brasileira _ ao contrário, por exemplo, do que acontece com os republicanos, que disputam palmo a palmo com os democratas as discussões de projetos importantes no Congresso americano _ ainda não conseguiu produzir sequer uma agenda alternativa para o país, em nenhuma área, e se limita a alimentar uma guerra permanente contra o governo petista para evitar nova derrota em 2018.

Por isso, batem em Dilma, mas querem mesmo é atingir Lula, se possível mata-lo politica ou fisicamente, para que ele não ouse se candidatar de novo. É só isso que lhe interessa. O país que se dane. A única agenda da oposição é evitar que Dilma governe e Lula volte. Ficar vinte anos fora do poder, para estes antigos donos da pátria, é simplesmente inadmissível. Por mais fraco que possa ser o governo reeleito, a oposição é ainda pior.

O PSDB até tem um centro de altos estudos, o Instituto Teotônio Vilela, mas ali você não vai encontrar nada além de artigos e entrevistas dos tucanões de sempre. Na aba de "notícias", só duas foram publicadas este ano, ambas na terça-feira: uma sobre programas sociais do governo tucano do Paraná e outra de parlamentares do partido criticando o discurso de posse de Dilma Rousseff na semana passada.

Antes disso, a última notícia de 2014 fora publicada no dia 9 de dezembro, reproduzindo uma matéria de O Globo, sobre a proposta de atualização do programa partidário apresentada por Aécio Neves.

Enquanto isso, a velha mídia oligárquica vai ocupando o lugar que deveria ser dos partidos de oposição. Mesmo perdendo audiência e circulação, obrigada a entregar o comando editorial a terceiros ou a retirar bustos de seus fundadores do saguão de prédios que vão aos poucos se esvaziando de redações, os barões da imprensa não perdem a empáfia.

Isso não é bom para a democracia brasileira. Tanto quanto um governo Dilma 2 melhor do que o Dilma 1, precisamos de uma oposição mais responsável, propositiva e consequente do que esta que está aí, rancorosa, sectária e cada vez mais medíocre.

Se o PT está em crise, não é esta nova versão da UDN quem vai nos salvar.

 

 

 

 

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ds Dilma 2 começa como Dilma 1 acabou: quase tudo igual

A presidente Dilma Rousseff tomou posse no segundo mandato e, em seguida, voou de volta para a praia na Base Naval de Aratu, na Bahia. Bem faz ela, mas eu já estou aqui de novo para mais um ano de batente. Pensei muito nestes dias, mil coisas, sobre o que deveria escrever no meu primeiro post de 2015, mas este detalhe me chamou a atenção: deve se tratar de caso único no mundo em que  um novo governo começa sem a presença do presidente, ou melhor, da presidenta da República.

Dilma só deve voltar a Brasília na quinta-feira. Até lá, os 39 ministros por ela escalados vão tateando, tentando adivinhar o que a presidente gostaria que eles fizessem em seus cargos. O primeiro já se deu mal. Nelson Barbosa, do Planejamento, levou um chega pra lá da presidente ao anunciar estudos para novos cálculos do aumento do salário mínimo, e foi obrigado a se desmentir já no dia seguinte à sua posse.

Foi apenas o primeiro sinal de que o governo Dilma 2 começa quase da mesma forma como o Dilma 1 chegou ao fim: dando trombadas, patinando, sem que a distinta plateia, até o momento, saiba o que podemos de fato esperar deste segundo mandato.

Entre os discursos da campanha, da vitória e da posse, e a dura realidade a ser enfrentada com as contas da economia em frangalhos e a base aliada num clima de barata voa, há um abismo a ser vencido.

Lamento informar, mas em seus erráticos movimentos para montar a nova equipe, a presidente conseguiu quase uma unanimidade _ unanimidade contra ela. Do PT ao PMDB, passando pela penca de nanicos abrigados no novo ministério e colunistas simpáticos ao governo, parece que ninguém, fora do mercado financeiro, ficou satisfeito com as escolhas, incluindo nesta conta as lideranças da sociedade civil e do movimento social, que asseguraram a vitória dela em outubro.

A enorme distância entre os discursos triunfalistas e a realidade ficou evidente quando olhamos as fotos do evento da posse no Palácio do Planalto: não consegui identificar ali nenhum nome representativo da classe artística, dos meios acadêmicos e religiosos, das entidades sindicais e estudantis ou da agricultura familiar, setores tradicionalmente aliados do PT. Os VIPs que apareceram nas colunas eram todos grandes empresários, com exceção de dois dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, além dos políticos de sempre, é claro.

Na ausência física da presidente em Brasília e da definição clara das principais metas da política econômica do novo governo, toda a responsabilidade e as esperanças do país foram depositadas nas mãos do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que, até o momento em que escrevo, na manhã desta terça-feira, não foi contestado pela sua chefe.

"Não podemos procurar atalhos e benefícios que impliquem redução acentuada da tributação para alguns setores, sem considerar seus efeitos na solvência do Estado. Possíveis aumentos em alguns tributos serão também considerados", anunciou Levy ao tomar posse na Fazenda, dizendo exatamente o que o mercado esperava dele.

Diminuir a despesa e aumentar a receita: este é o único caminho possível para colocar ordem nas contas públicas cada vez mais deficitárias. Como fazer isso, porém, é que são elas. Dilma já prometeu várias vezes que pretende perpetrar o milagre de fazer tudo o que for preciso para promover o chamado ajuste fiscal, desde que não se cortem os benefícios sociais e não haja aumento de inflação, mas apenas do PIB.

Cortar custos, sacrificando empregos e salários, sempre é mais fácil, como vemos nos processos de "reengenharia" na iniciativa privada, mas para aumentar a arrecadação ninguém fala em taxação das grandes fortunas e combate à sonegação fiscal das empresas oligopolistas, como bem lembrou meu colega Ricardo Melo em sua coluna semanal na Folha, sob o apropriado título "Chamem o síndico".

Como Dilma, aos 67 anos, a mesma idade que estou para completar, não vai mudar sua personalidade forte nem abrir mão das suas certezas absolutas, o melhor que a presidente tem a fazer no momento, para tranquilizar a tripulação e os passageiros desta nau à deriva chamada Brasil, é convocar imediatamente uma reunião com todos os seus ministros, definir as tarefas de cada um e afinar os discursos.

Ao final do encontro, ela poderia convocar uma rede nacional de rádio e televisão e anunciar, finalmente, preto no branco, sem frases de marqueteiros ou mera declaração de intenções, o que, quando e como pretende fazer para inaugurar seu novo governo.

Que suas reflexões nas águas da bela praia da Viração, na ilha dos Frades, a ajudem a encontrar os melhores caminhos.

Vida que segue. E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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rc Roberto Carlos é um sedutor ou conquistador?

Manhã de quarta-feira nublada em São Paulo, véspera de Natal.

Pois é, ontem me despedi de vocês, dando por findos os trabalhos deste ano, mas já estou aqui de novo. Fiquem tranquilos: não vou aborrecer ninguém falando do ministério X-Tudo do governo Dilma 2, tema da conversa com Heródoto Barbeiro e Nirlando Beirão, no Jornal da Record News desta terça-feira (ver link no site do JRN, aqui ao lado, na coluna da esquerda do blog).

Acho que já não consigo passar um dia sem escrever, virou costume  _ ainda mais, depois de assistir ao emocionante especial natalino de Roberto Carlos. Faz uns 40 anos que não perco este programa por nada no mundo, quase o mesmo tempo em que vivo com a mesma mulher, a Marinha, que também é dos tempos da Jovem Guarda, embora não pareça.

Quando nos casamos, lá no distante ano de 1972, tínhamos os dois a coleção completa dos discos deste cantor e, até hoje, não entramos num acordo. Namoramos muito ouvindo Roberto Carlos nos drive-in da época (espécie de motel dentro do carro) e, depois, em nossa casa. E ainda não entramos num acordo. Afinal, Roberto Carlos é um sedutor ou um conquistador?

Nem sei direito qual é a diferença, mas tanto no disco como na televisão "esse cara" tem o dom de seduzir e conquistar. Ninguém consegue ficar indiferente ouvindo suas músicas, mesmo quem não gosta dele.

Na primeira metade dos anos 1980, quando era repórter da Folha, pedia ao pessoal da Ilustrada para escrever a crítica do programa anual dele na TV Globo. Escrevia sempre mais ou menos a mesma coisa, porque este show natalino também é imutável, tão previsível como a chegada de Papai Noel _ e , agora, de Paul McCartney.

Aliás, estes dois parecem ter o mesmo gosto pela eternidade, não são simples mortais como nós. Naquela época, pegava até mal um repórter do primeiro caderno como eu escrever sobre um cantor como Roberto Carlos, ainda considerado brega pelos intelectuais do andar de cima e os heróis da resistência, que ainda sonhavam com a revolução.

Eram tempos de governo militar e de lutas pela redemocratização do país, nas quais eu estava engajado até o pescoço. E daí? O que tinha uma coisa a ver com a outra? Mas eu era mesmo, e não escondia, muito fã dele, como antes fui de Moacir Franco, Mazzaropi e Tonico e Tinoco, e sou até hoje.

No show desta terça-feira, como em todos os outros, Roberto Carlos não quis brilhar sozinho no palco. Fez parcerias com o galã de novela Alexandre Nero, a belíssima ninfeta Sophie Charlotte e a nossa querida Alcione, cantando suas músicas em várias línguas e lembrando outros tempos.

Sedutor ou conquistador? Tanto faz, pois todo fim de ano é muito bom ouvir Roberto Carlos para lembrar os bons tempos vividos e sonhar com os próximos que virão. E é melhor ainda viver mais esta noite ao lado da mesma mulher, avó dos meus cinco netos, um mais bacana que o outro.

Como vocês sabem, passatempo de casal antigo é um ficar enchendo o saco do outro e discutir por bobagens como essa. É a hora de lembrar que sobrevivemos juntos a mais um ano, gostando das mesmas músicas. Tudo tem seu tempo e sua hora. Hoje prefiro falar de Roberto Carlos e, por isso, deixo publicada esta palpitante polêmica para os leitores debaterem nestes dias de folgas e festas de fim de ano. Quem é "esse cara", afinal?

Agora, vou cuidar de preparar o meu tender e prometo dar uma folga para vocês até o próximo dia 6. Cubram-se de glórias e divirtam-se!

 

 

 

 

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natal 25 de marco O que podemos esperar de 2015 com Dilma 2?

"Pior do que acreditar em Papai Noel é não acreditar em nada".

(Carlos Heitor Cony)

***

Para responder à pergunta que me faço no título deste texto de despedida de 2014, o ano que não começou e não tem prazo para acabar, minha primeira preocupação é não me deixar levar pelas previsões apocalípticas da maioria dos futurólogos nativos que anunciam um tempo tenebroso pela frente, sem chance de as coisas melhorarem em nosso país.

Claro que não devemos mais, na nossa idade, acreditar em Papai Noel, mas, se não acreditarmos em mais nada, como nos ensina o sábio Cony, como vamos fazer todos os dias de 2015 para encontrar motivos de levantar da cama e ir à luta, já que as nossas contas precisam ser pagas até o final de cada mês, com tempo bom ou ruim?

Em primeiro lugar, recomendo que a gente deixe de colocar todas as nossas expectativas e esperanças nas mãos do governo, de qualquer governo.

Acho que em nenhum outro lugar do mundo as pessoas e a imprensa vivam tanto em função do que os governantes e parlamentares fizeram ou deixaram de fazer como aqui no nosso Brasil. Para o bem ou para o mal, tudo depende de acertos ou erros de quem, afinal, foi eleito por nós.

E nós, qual a nossa responsabilidade?

Como explicar, por exemplo, qualquer que seja o nosso ramo de atividade, que muitos empregados e empregadores tenham prosperado neste conturbado ano de 2014, enquanto outros lamentem perdas?

Como explicar que, com um crescimento do PIB próximo de zero, contas externas no vermelho, inflação fora da meta, dólar disparado e a Petrobras derretendo na Operação Lava-Jato, tenham se mantido estáveis os índices de emprego e renda dos trabalhadores?

É muito difícil entender um país como o nosso, mais difícil ainda tentar explicar. Ilhada por más notícias na economia e encurralada pela velha mídia, com uma base aliada gelatinosa, a duras penas Dilma Rousseff conseguiu se reeleger para mais um mandato, mas a nove dias da cerimônia de posse o clima não é de festa nem de renovação de esperanças, como costuma acontecer nestas ocasiões.

Ao contrário, como já escrevi aqui outro dia, vivemos um tempo de incerteza e desesperança, sem saber o que e, pior, com medo do que pode acontecer.

Neste clima, é evidente que investidores relutam em investir e quem vive do trabalho assalariado sonha apenas em manter o seu emprego. Criam-se, desta forma, as condições para as profecias autorrealizáveis: se todo mundo acha que tudo vai dar errado, é possível que isso acabe mesmo acontecendo.

De nada adianta aqui ficar falando do que pode acontecer na política e na economia _ afinal, dentro da margem de erro das pesquisas e das previsões, pode acontecer de tudo ou pode não acontecer nada.

Mais importante é saber o que cada um de nós pode fazer para melhorar o astral e decidir o que quer fazer e esperar do próximo ano, independentemente de como será o novo/velho governo de Dilma 2, já que não resolve nada só ficar falando mal do governo. Aconteça o que acontecer, ninguém vai pagar minhas contas por mim.

"Como desejar um Feliz Ano-Novo?", pergunta-me o leitor Brasil de Abreu, depois de desfiar um rosário de problemas, no final da sua mensagem, enviada às 18h58 de segunda-feira. Muita gente tem me feito a mesma pergunta. Respondo com outra pergunta: Vamos fazer o quê? Desejar a todos um Péssimo Ano-Novo?

Se cada um fizer a sua parte e não ficar só olhando para o rabo do outro, já teremos dado um grande passo para desmentir todas as projeções catastrofistas que estão fazendo para o próximo ano. Pode parecer pouco, mas é tudo que nos resta fazer para não entregar os pontos antes de o jogo começar.

Por isso, e apesar de tudo, desejo a todos os leitores do Balaio que me acompanharam ao longo de mais este ano que se vai, e não volta, um Feliz Natal e, se possível, boas notícias em 2015.

Volto no próximo dia 6 de janeiro.

E vida que segue.

 

 

 

 

 

 

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 Aécio baixa a bola e volta a ser mais Tancredo

Na reta final do segundo turno e após as eleições, o tucano Aécio Neves foi ficando cada vez mais radical, em nada lembrando o político cordato de outros carnavais. Partiu para o tudo ou nada contra Dilma _ e perdeu, mas não se conformou.

Aécio tinha um bom exemplo na família de político ponderado, que sabia ganhar ou perder. "Governo e oposição, acima dos seus objetivos políticos, têm deveres inalienáveis com nosso povo", ensinava Tancredo Neves, o ex-governador mineiro que foi presidente da República, sem nunca ter sido.

Em lugar de Tancredo, porém, Aécio preferiu adotar o modelito Carlos Lacerda dos anos 50 do século passado, adversário histórico do seu avô, um homem que lutou até o último dia ao lado de Getúlio Vargas contra os golpistas da UDN, os mesmos que chegariam com os militares ao poder em 1964. Estimulado pelo guru FHC e por blogueiros furiosos da velha mídia, o senador mineiro vestiu um figurino que não combinava com ele, e se deu mal.

Dois meses após a derrota, agora Aécio deu uma nova guinada nesta segunda-feira, em entrevista a Valdo Cruz e Daniela Lima, publicada na Folha. Deve ter pensado melhor sobre o que anda fazendo e falando. Sem deixar de desferir duras críticas à presidente reeleita Dilma Rousseff e ao seu governo, o candidato derrotado procurou se afastar do que chamou de "nossos black blocs", alguns companheiros de partido e de campanha que, em várias manifestações nas ruas e no Congresso, defenderam o impeachment e até a volta dos militares ao poder . "Fora da democracia, nada nos interessa", resumiu Aécio.

Melhor assim. Melhor para Aécio, para o seu partido e para o país. Na entrevista, o ex-governador mineiro se permitiu discordar até de FHC, que outro dia qualificou Dilma como uma presidente ilegítima.

"Não chego neste termo. Acho que é uma presidente apequenada pela forma como venceu as eleições e pela _ usando um termo adequado _ dependência da sua base. No momento em que era necessário um presidente que conduzisse o país, nós temos uma presidente conduzida. Ela começará o segundo mandato de uma forma pior do que termina o primeiro".

Em outro trecho, afirmou que "o governo vai provar do seu próprio veneno", ao falar da nova equipe econômica, que já anunciou a necessidade de aumentar impostos e cortar despesas. "Vamos conhecer o neoliberalismo petista..."

Quando os repórteres lhe perguntaram se existem elementos para o PSDB pedir o impeachment, discordou frontalmente de líderes do seu partido, como Carlos Sampaio, deputado federal paulista e uma espécie de advogado-geral dos inconformados, ao assumir o posto do impetuoso senador Álvaro Dias, do Paraná, que misteriosamente sumiu de cena.

No dia da diplomação da presidente reeleita, na sexta-feira, Sampaio chegou a apresentar um novo recurso ao TSE pedindo a cassação de Dilma e a entrega da faixa para Aécio. "Não, não trabalho com esta hipótese. Estamos fazendo aquilo que na democracia é permitido: acionar a Justiça pedindo investigação".

Aécio só não explicou o que exatamente deveria ser investigado, mas deixou claro que não pretende ir aos atos anti-Dilma que estão sendo programados até para a cerimônia da nova posse, dia 1º de janeiro, em Brasília.

Se Aécio prefere manter distância dos seus aliados sinceros mas radicais, resta saber o que dirão agora os líderes da tropa de choque oposicionista, comandada por figuras como o democrata Ronaldo Caiado, o ex-candidato a vice Aloysio Nunes, o ex-coordenador-geral da campanha presidencial José Agripino Maia, outro bravo democrata, o ensandecido capitão Jair Bolsonaro e o cantante Lobão, novo porta-voz do udenismo redivivo.

Esta turma e a banda de música da mídia panfletária vão ter que procurar outro líder. Que, certamente, não será Geraldo Alckmin, que até já confirmou presença na festa da posse de Dilma. Cada vez mais mineiro do que o próprio Aécio e mais moderado do que Tancredo Neves, o governador paulista, reeleito com expressiva votação no primeiro turno, já está perfilado para a corrida de 2018.

Para quem imaginava uma renhida disputa com Aécio para ver quem será o candidato tucano na sucessão de Dilma, a entrevista pode ter servido também de estímulo aos aliados de Alckmin. Perguntado se será candidato novamente em 2018, Aécio foi taxativo ao negar esta possibilidade:

"Não mesmo. Talvez já tenha cumprido o meu papel. O candidato vai ser aquele que tiver as melhores condições de enfrentar o governo. Meu papel é manter a oposição forte. O governador de São Paulo Geraldo Alckmin é um nome colocado e tem todas as condições".

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"O Brasil vive não somente uma crise moral, mas também a da razão. Talvez prepare o caminho para outra, maior e fatal. Algo é certo: o Brasil não está maduro para o jornalismo honesto".

(Assim termina a coluna de Mino Carta, na Carta Capital desta semana, publicada sob o título "Gigolette em Estocolomo", que vale a pena ler).

***

Algo de revolucionário anda acontecendo na relação entre produtores e consumidores de informações em nosso país. Esta semana, por exemplo, destaquei uma contradição entre o bombardeio sem tréguas desfechado pela velha mídia familiar contra Dilma Rousseff e o PT, ao mesmo tempo em que a aprovação e a popularidade da presidente subiam no Ibope.

Chamo de velha mídia familiar os grandes grupos de comunicação comandados pelos herdeiros de meia dúzia de barões, em contraposição à nova mídia livre que se tornou possível, e não para de crescer, desde o advento da internet, que permitiu a todo mundo se tornar, ao mesmo tempo, emissor e receptor de informações e opiniões.

Trata-se, enfim, da democratização da mídia, com a multiplicação de plataformas e agentes, acabando com o poder dos donos da verdade e seus porta-vozes, os antigos "formadores de opinião", hoje hospedados no Instituto Millenium. 

A primeira vez em que notei esta clara oposição entre a nova e a velha mídia foi na campanha presidencial de 2010, quando o então candidato tucano José Serra batizou todos os que se opunham a ele de "blogs sujos", certamente para diferenciá-los dos "blogs limpinhos" e seus donos, que o apoiavam.

Desta forma, os jornalistas não alinhados ao tucanato estariam condenados ao opróbio, blogueiros sem ccredibilidade, mas, com bom humor, muitos deles até adotaram a classificação nos encontros que passaram a promover para unir forças.

A divisão das mídias voltou a ser feita esta semana pelo jornal Folha de S. Paulo, ao divulgar os gastos com publicidade feitos pelo governo federal e as empresas estatais, no período entre 2000 e 2013.

Na divisão do bolo, segundo o próprio jornal, os grandes grupos da velha mídia ficaram com R$ 8,66 bilhões, restando cerca de 0,5% deste valor para o que a Folha definiu como "mídia alinhada ao governo", ou seja, chapa-branca. 

Diante desta disparidade colossal, Mino Carta, com a agudez de costume, comentou em sua coluna:

"Dirá o desavisado: alinhados e mal pagos (...). Ao listar os pretensos alinhados e não qualificar os demais, a Folha nos atribui o papel de jornalistas de partido e com isso fornece outra prova: como sempre, obedece aos seus naturais pendores e, no caso, manipula a informação e omite a qualidade dos demais, alinhados de um lado só, guiados pelo pensamento único enquanto, hipócritas inveterados, declaram sua isenção, equidistância, pluralidade. Ou seja, inventam e mentem".

Por mais que estejam perdendo audiência e circulação, estes veículos da velha mídia mantêm poder e faturamento, graças a uma sólida aliança construída nos últimos tempos com alguns representantes das mais altas instâncias do Judiciário a serviço do tucanato, como vimos no episódio do mensalão e se repete agora com o que chamam de petrolão. 

Na verdade, esta tabelinha entre os nobres da mídia e da Justiça ocupa o espaço deixado pela oposição partidária, agora mais destrambelhada e perdida do que nunca no combate ao governo petista, como já admitiu a própria Associação Nacional dos Jornais (ANJ).

Já não dá para saber se é a mídia que pauta o Judiciário, ou vice-versa, na mesma data. Nem é preciso citar nomes, para não fulanizar a questão, tão descarada é a atuação de alguns dos líderes desta aliança, que se autonomeou defensora da ética, do bem e dos "brasileiros decentes" (em alguns casos, parece até brincadeira...).

Ou alguém pode acreditar que eles estão mesmo preocupados em combater os fichas sujas da política (até o nosso eterno Paulo Maluf voltou a ficar com a ficha limpa, graças à Justiça) e os desmandos na Petrobras, já que o único objetivo é privatizar nossa maior empresa, de preferência nas mãos de empresas estrangeiras?

Como escrevi aqui na sexta-feira, não faço nenhuma questão de ter razão. Basta-me escrever o que penso sem pedir licença a ninguém.

Agora, abro este espaço para que os caros leitores do Balaio ocupem meu lugar e também digam o que pensam sobre o assunto. Não precisam concordar comigo. Mídia livre é isso: cada um pensa e diz o que quer. Manifestem-se!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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acude3 Açude cheio, terra molhada e pasto verde: a vida voltando

Em tempo (atualizado às 9h30 de sábado, 20.12):

Como previsto no final deste texto, veio mais chuva, e muita, a noite toda.

Acordei com o barulho do açude transbordando. Formou-se uma bela cachoeira e surgiu um rio cortando o pasto, que não existia ontem na paisagem.

Muares e bovinos estão até sorrindo novamente, como poderia cantar o Roberto Carlos...

As águas de março do Tom chegaram em dezembro, antes do Natal, como um presente dos céus.

Viva a vida!

***

PORANGABA (SP) _ Ao chegar, no final da tarde desta sexta-feira, aqui no Sítio Ferino, batizado assim pelo antigo proprietário, o Zeferino Vaz, só encontrei coisa boa de se ver e quero contar logo a voces.

O açude construído por minha família, que nunca tinha visto o nível d´água baixar tanto, já está cheio até a tampa, escoando pelo vertedouro. Terra molhada, pasto verde, gado sadio _ a chuva, enfim, voltou.

Em mais de três décadas de Porangaba, pequeno e antigo município do interior paulista, às margens do rio Bonito, aquele da obra clássica de Antonio Candido, ainda não havia enfrentado uma seca brava como essa.

Teve vizinho que chegou a comprar carro tanque para dar de beber ao gado.  Até um mes atrás, lagos, rios, corregos, tanques, açudes, tudo estava secando, definhando.

Agora dá para ver e sentir a vida voltando ao seu lugar, por todos os cantos, até aonde a vista alcança. É impressionante como a natureza e os bichos se recuperam rapidamente. Por que com a gente não poderia também acontecer rápido assim?

Verdade que algumas árvores secaram de vez e morreram, mas logo viraram lenha, pau de  cerca, banquinho na varanda. Sítio é bom por isso: na roça, nada se perde. Dá para aproveitar tudo sempre, até a bosta do gado que ajudou a ressuscitar minha horta e o pomar.

E vem mais chuva pela frente, basta olha para o céu, mas as nuvens negras já não assustam; ao contrário, só animam todo mundo a arar a terra, mesmo que a melhor época para o plantio já tenha passado.

Às vezes, é preciso sair de São Paulo, até para respirar um pouco, sem medo, e descobrir que o ar limpo e as notícias boas também existem, embora a televisão ligada na sala, e as revistas e os jornais esquecidos sobre a mesa do jantar, só falem de desgraças.

Porangaba está cheia de lojinhas novas e o velho açougue do Valdir agora virou um minisupermercado.  Não encontrei ainda, juro pra vocês, pessoas reclamando da vida, que segue.

Se algum leitor também tiver alguma noticia boa para contar, não se acanhe: mande para o Balaio.

Bom final de semana a todos.

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 The game is over: Toffoli manda PSDB se calar

Dias Toffoli e Dilma na diplomação da presidente

Até usei meu parco inglês no título para ver se consigo me fazer entender melhor. Em bom português, o presidente do Superior Tribunal Eleitoral, ministro Dias Toffoli, foi direto ao ponto para não deixar margem a dúvidas, e mandou um duro recado aos tucanos inconformados:

"Eleições concluídas são, para o Poder Judiciário Eleitoral, uma página virada. Não haverá terceiro turno na Justiça Eleitoral. Que especuladores se calem. Não há espaço. Já conversei com a Corte e essa é a posição inclusive do nosso corregedor-geral eleitoral. Não há espaço para, repito, terceiro turno que possa vir a cassar o voto destes 54.501.118  eleitores".

Poucas horas antes da cerimonia de diplomação de Dilma Rousseff, na noite desta quinta-feira, para governar o país no período 2015-1018, os líderes do PSDB e seus advogados ainda fizeram mais uma tentativa de virar o jogo no tapetão, pedindo a cassação da presidente reeleita e a sua imediata substituição por Aécio Neves, o candidato derrotado nas urnas.

Pode parecer piada, mas foi exatamente isso que aconteceu, fazendo imaginar que Aécio já estava paramentado em casa, com seu melhor terno, só esperando o chamado para receber o diploma de presidente da República no lugar de Dilma.

Ao mandar os "especuladores" se calarem, o presidente do TSE procurou dar um fim à patética campanha desencadeada logo após a eleição pelas oposições partidário-midiáticas para impedir Dilma de assumir seu segundo mandato daqui a duas semanas.

No Jornal da Record News, transmitido também pelo R7, Heródoto Barbeiro lembrou bem que o papel da oposição é este mesmo, quer dizer, infernizar a vida do governo eleito, e que o PT também fez a mesma coisa quando os papéis eram invertidos, mas tudo tem sua hora e lugar. É verdade que alguns setores minoritários e radicais do PT lançaram uma campanha "Fora FHC" após a reeleição do tucano, no que foram prontamente desautorizados pela direção do partido. Só que isso aconteceu depois da posse dele no segundo mandato, não no ato da diplomação do presidente eleito, um ritual solene na democracia.

O recado embutido no discurso de Toffoli acabou sendo uma resposta ao pedido feito no mesmo dia pelo PSDB para a abertura de uma investigação judicial eleitoral contra Dilma, alegando supostos atos que teriam afetado a igualdade dos candidatos durante a campanha e acusando a presidente reeleita de utilizar a máquina pública e abusar do poder econômico.

Seria mais ou menos como se, no futebol, na festa da entrega das faixas ao campeão, algum advogado do time derrotado entrasse em campo com um pedido de liminar e simplesmente levasse o troféu para casa, alegando que o resultado foi injusto para seu clube.

Em seu discurso, a presidente Dilma não fez referência à apelação do PSDB e procurou contemporizar, propondo um "pacto nacional contra a corrupção". Para ela, "cumprir a vontade popular é uma missão generosa que, em vez de oprimir, liberta e, em vez de enfraquecer, fortalece".

No trecho central da sua fala, a presidente também mandou um conselho à oposição:

"Como uma eleição democrática não é uma guerra, ela não produz vencidos. O povo, na sua sabedoria, escolhe quem ele quer que governe e quem ele quer que seja oposição, simples assim. Cabe a quem foi escolhido para governar, governar bem. Cabe a quem foi escolhido para ser oposição, exercer da melhor forma possível o seu papel. Mais importante e mais difícil do que saber perder, é saber vencer".

Que assim seja.

***

Com este texto, encerro, quase dois meses após a proclamação dos resultados pelo TSE, a minha participação na cobertura das Eleições 2014, que me ocuparam a maior parte do tempo durante todo este ano.

Não faço nenhuma questão de ter razão, nem em casa, nem no trabalho, nem no debate político. Só quero mesmo é ser feliz, com a consciência tranquila do dever cumprido da forma mais honesta possível, só escrevendo e falando o que penso, mesmo que ninguém concorde comigo.

Apanhei, como de costume, dos dois lados envolvidos na disputa, mas não me queixo. A vida de repórter é assim mesmo. Entre ser feliz e estar com a razão, ficarei com a primeira alternativa, sempre.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sou do tempo em que ir a Cuba era proibido para os brasileiros. Os dois países não tinham relações diplomáticas e no nosso passaporte vinha um aviso: eraobama Fim da Guerra Fria: vai ser bom para todo mundo permitido viajar para qualquer país do mundo, menos para a ilha caribenha.

Ao retornar de uma viagem clandestina, você poderia ser interrogado e preso. A primeira vez que me arrisquei a viajar para Havana foi em 1980, para participar de um encontro de intelectuais latino-americanos (jornalista era considerado intelectual...), junto com uma comitiva bastante variada de representantes das várias áreas da cultura nacional.

Para chegar lá, era preciso fazer uma triangulação, com conexão em Lima, no Peru, pegar o visto na embaixada cubana e, depois, seguir até o Panamá, aonde finalmente pegamos o voo para Havana. Ao desembarcar, me lembrei da primeira vez que cheguei a Salvador, na Bahia, nos anos 1960. Era tudo bastante parecido: o povo mulato e festeiro, muita música, mojitos servidos à vontade, danças, roupas coloridas. Nada, enfim, que lembrasse uma terrível ditadura comunista, destas que comem criancinhas, como aprendi lendo os nossos jornais.

Voltaria a Cuba, onde fiz muitos amigos, várias outras vezes, a passeio ou a trabalho, e vi de perto as diferentes fases pelas quais a ilha passou neste período, da bonança à penúria. Por isso, como tanta gente pelo mundo afora, fiquei muito feliz com o anúncio do reatamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, nesta tarde histórica de 17 de dezembro de 2014, dia do aniversário do papa Francisco, que completou 78 anos, e teve papel fundamental nas negociações que levaram a este desfecho.

A melhor notícia deste final de ano, que renova nossas esperanças de viver num mundo mais fraterno e menos belicoso, acabaria vindo de onde menos se poderia esperar, proclamada com orgulho pelos presidentes de dois países tão próximos e tão diferentes, inimigos até então irreconciliáveis, separados por apenas 200 quilômetros de mar.

"Todos somos americanos!", resumiu Obama, em bom castelhano, ao abrir os braços para o pequeno país de Raul Castro, com apenas 10 milhões de habitantes. Companheiro de muitas passagens por Havana, o amigo escritor Fernando Morais, um dos primeiros jornalistas brasileiros a desafiar a proibição de entrar em Cuba, ainda em 1975, no auge da ditadura militar brasileira, foi quem melhor definiu este acontecimento de grande repercussão mundial: "Não é só uma frase de efeito, mas a Guerra Fria acabou hoje, às 15h01".

De fato, a chamada Guerra Fria, que começou logo após o final da Segunda Grande Guerra, dividindo o mundo ao meio entre comunismo e capitalismo, perdeu sua razão de ser com a queda do Muro de Berlim, em 1989, mas veio se arrastando por mais 25 anos até os dias atuais, inclusive aqui no Brasil, como vimos ainda agora na última campanha eleitoral. "Vai para Cuba!", era um dos xingamentos mais comuns nas manifestações de tucanos contra a presidente Dilma Rousseff, acusada de ser amiga dos cubanos e de ter financiado o porto de Mariel, em Havana, com dinheiro do BNDES. Só falta agora chamarem Obama de comunista.

Pois agora, que a coragem dos presidentes Obama e Castro abriu caminho para o levantamento do embargo econômico contra Cuba, decretado pelos Estados Unidos 53 anos atrás, Mariel pode se tornar o símbolo de um novo tempo, em que a abertura dos portos possa ajudar a combater a intolerância ideológica que ainda inferniza boa parte do mundo. Vai ser bom para os Estados Unidos e para Cuba, claro, mas também para o Brasil e a América Latina, e o mundo todo que ainda sonha com a paz entre os povos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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