pedestre Nas calçadas, os perigos da vida pedestre

Experimente andar distraído, sem olhar atentamente para a frente e todos os lados ao mesmo tempo, nas calçadas de São Paulo. É uma verdadeira gincana, em que o número de perigos e obstáculos aumenta a cada dia, sem falar nos buracos, desníveis no calçamento e obras de sempre.

Vendi meu último carro faz mais de cinco anos. Motorista idoso e barbeiro, reconheço, cada vez mais revoltado com o transito, deixei de dirigir. Para a minha segurança e a dos outros,  aderi à vida pedestre, o que só me fez bem. Quando preciso ir mais longe, vou de táxi ou pego uma carona no carro da minha mulher. Não sinto a menor falta. Hoje, se me dessem um carro de presente, agradeceria a gentileza e continuaria andando a pé.

Cena paulistana: logo ao sair do portão do meu prédio na segunda-feira e botar o pé na calçada, quase fui abalroado por dois transeuntes que vinham de cabeça baixa, digitando furiosamente seus celulares. Consegui escapar, passando pelo meio dos dois. É pedestre atropelando pedestre. Na primeira esquina, quase fui derrubado por um motoqueiro que passou buzinando com o farol vermelho.

Nem é preciso atravessar a rua para correr riscos. No mesmo quarteirão, você pode cruzar com matilhas de cachorros tocados por seus passeadores, carros saindo e entrando de garagens, sem parar para ver se tem algum ser vivente passando na frente. Apesar do festival de ciclovias implantadas pela prefeitura nos últimos tempos, alguns donos de belas bikes preferem passear na segurança das calçadas. Como ainda não há faróis ali para disciplinar o trânsito de ciclistas e pedestres, corre-se outro risco de ser atropelado por ambos pois todo mundo se sente o dono da rua.

Malcuidadas e abandonadas tanto pelos donos de imóveis como pelo poder público, as calçadas paulistanas viraram uma terra de ninguém. Foi-se o tempo em que o cidadão se sentia seguro ao caminhar até a padaria ou o banco próximos da sua casa.

Certa vez, numa das ruas mais chiques dos Jardins, um motorista celerado avançou a mil na faixa de pedestres num domingo de manhã e quase atropelou metade de minha família, incluindo um bebê no carrinho e minha sogra nonagenária. Soltei um palavrão, apontando a faixa de pedestres, o cara ficou bravo: "Tá pensando o que? Que vocês estão em Londres?", vociferou.

E assim vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

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ER7 RN JRN STF 570kbps 2015 04 0204b19921 110f 403d a1fa 26dcaf2db410 thumb1 Todo o poder ao supremo ministro Gilmar Mendes

O supremo ministro Gilmar Mendes deve estar com dificuldades de leitura. Segundo levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas, o ex-advogado geral da União no governo FHC, por ele nomeado para o Supremo Tribunal Federal, é o campeão de atrasos na devolução de processos trancados por pedidos de vista: em média, leva 409 dias.

O regimento interno do tribunal prevê um prazo de duas sessões ordinárias para que os ministros possam estudar melhor os processos sobre os quais não se sintam habilitados a proferir o voto, mas ninguém no STF leva isso muito a sério, tanto que alguns chegam a levar anos para devolvê-los _ e nada acontece com quem descumpre a norma.

O abuso é tamanho que, em março, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, determinou ao plenário dar prioridade ao julgamento de processos suspensos por pedidos de vista, mas seus colegas parecem não ter dado a menor bola.

Advogado, professor e dono de escola, Gilmar Mendes, mato-grossense de Diamantino, 59 anos, comporta-se faz muito tempo como o mais poderoso ministro do tribunal, qualquer que seja o seu presidente. De onde vem tanto poder?

Em abril do ano passado, a maioria já tinha decidido, por 6 votos a 1, pela proibição do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, quando Mendes, que é a favor, resolveu pedir vistas. Até hoje, 8 de junho de 2015, não o devolveu, e o julgamento continua suspenso, sem prazo para entrar novamente na pauta. Alegando que se trata de um "caso complexo", o ministro simplesmente engavetou o processo e ainda justifica: "Até foi bom ter demorado, porque identificamos problemas relevantes que não tinham merecido um melhor debate".

Na verdade, ele estava esperando que um aliado, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, conseguisse aprovar antes a sua reforma política, que constitucionaliza as doações privadas, na esperança de tornar sem efeito qualquer decisão do STF. Aprovada na Câmara, a emenda ainda precisa ser votada no Senado.

"Os ministros criaram uma prerrogativa para si que consiste no poder individual de vetar o julgamento de qualquer processo que seja submetido a votação pelo colegiado", disse ao repórter Frederico Vasconcelos, da Folha, o pesquisador Ivar Hartmann, da FGV Direito-Rio, coordenador do projeto "Supremo em Números".

Um bom exemplo desta distorção, que serve apenas para obstruir decisões no plenário, é a ação da Procuradoria Geral da República sobre uma lei estadual do Rio, que cria uma série de privilégios para magistrados, destinando dinheiro público para o pagamento de auxílios em educação, saúde e alimentação. O processo está no gabinete do ministro Luiz Fux desde maio de 2012.

Como ninguém cobra o cumprimento de prazos, o processo do mensalão tucano, que é de 1998, até hoje não foi julgado, e dois réus já escaparam por prescrição de possível pena ao completarem 70 anos. Além de historicamente lenta, nossa Justiça acaba sendo também seletiva.

 

 

 

 

 

 

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 O que Del Nero está esperando para cair fora?

João Havelange e seu ex-genro Ricardo Teixeira, que mandaram na Fifa e na CBF nos últimos 40 anos, como se fossem seus donos, já tinham dançado. Confundiram entidades privadas com propriedades particulares. O herdeiro do espólio, José Maria Marin, está em cana na Suíça. Joseph Blatter foi obrigado a renunciar antes que a polícia chegasse. A casa caiu. Em meu comentário no Jornal da Record News de terça-feira (vídeo abaixo), sugeri que Marco Polo Del Nero, o atual presidente da CBF, siga o exemplo do capo do futebol mundial, e também caia fora rapidinho.

Aos 74 anos, este inexpressivo advogado paulista, que se tornou mais conhecido por desfilar em iates acompanhado de exuberantes namoradas jovens, com idade para serem suas netas, sem nunca ter feito nada de relevante no submundo da cartolagem, deveria se fingir de morto e sair de fininho, antes que seja tarde demais. E é melhor não sair do Brasil, pois aqui, com a polícia e a justiça que temos, ele estará mais seguro.

Basta ver o que aconteceu com Ricardo Teixeira, que está solto até hoje. Obrigado a deixar a presidência da CBF em 2012, e desde então investigado pela Polícia Federal, só esta semana, depois que o FBI arrombou o bunker da Fifa, ele foi indiciado pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e falsidade ideológica. Embora o processo seja mantido em grau máximo de sigilo _ nem a identidade do juiz responsável pode ser divulgada _ ficamos sabendo que, apenas em 2014, durante a Copa no Brasil, Teixeira movimentou mais de R$ 460 milhões. Imaginem quanto seria se ele não estivesse sendo investigado... Qual a razão de tanto sigilo?

Antes mesmo de assumir a presidência da CBF, poucas semanas atrás, Del Nero já era investigado pelo Ministério Público Federal, no Rio, para apurar se houve irregularidades na compra de dois apartamentos de alto luxo na Barra da Tijuca, no Rio. Primeiro, ele comprou um duplex por R$ 1,6 milhão e, poucos meses depois, resolveu arrematar outro na cobertura do mesmo prédio, por R$ 5,2 milhões, adquirido de Wagner Abrahão, velho parceiro comercial da CBF e do ex-presidente Ricardo Teixeira. É tudo um mistério.

Afinal, quem pagou todas estas propinas milionárias para tanta gente, a mando de quem, com que objetivo?

Como vemos, este é um assunto cada vez mais para o noticiário policial do que para o esportivo, que até está sumindo dos nossos jornais. Ninguém mais fala de futebol, só do escândalo. Antes tarde do que nunca, graças ao FBI, a podridão do esporte mais popular do mundo, nossa grande paixão, em que o Brasil já foi soberano, está vindo a público e, quem sabe, a gangue toda vá passar o resto de suas vidas atrás das grades. Resta saber quem assumirá a massa falida no lugar deles.

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Duas pesquisas divulgadas na semana passada por Ibope e Vox Populi sobre como os brasileiros se sentem em relação ao futuro mostram como a grande mídia joga contra o país para desgastar o governo, ao privilegiar e exagerar no noticiário negativo.

Para 41% dos brasileiros, segundo o Ibope, a imprensa mostra a situação econômica do país mais negativa do que na realidade o cidadão percebe. "Isso revela que os níveis de contradição entre a realidade e o que a mídia publica chegaram a graus altíssimos", constata Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, em entrevista a Helder Lima, da Rede Brasil Atual.

Esta contradição apontada por Leal Filho pode ser explicada pelos números da "Pesquisa Brasileira de Mídia 2014", também do Ibope: 75% dos 18.312 entrevistados em 848 municípios nunca lê jornal e 85% nunca lê qualquer revista. Apenas 6% dos brasileiros leem jornais diariamente. Acrescento: é este noticiário, porém, que serve de matéria prima e alimenta os comentários das redes sociais nas novas plataformas da mídia eletrônica.

Na mesma linha, pesquisa nacional do Vox Populi sobre sentimentos e expectativas a respeito da economia  revela que a opinião pública vive um pesadelo. Quase metade da população estima uma inflação mensal superior a 20% até o final do ano e apenas 7% dos entrevistados sabem que hoje menos de dez indivíduos em cada cem estão desempregados, enquanto 38% imaginam que a proporção de brasileiros sem emprego já ultrapassa os 40%.

"A nova pesquisa mostra que a quase totalidade dos brasileiros depois de ser bombardeada durante tanto tempo com a noção de "crise", perdeu a capacidade de enxergar com realismo a situação da economia", analisa Marcos Coimbra, do Vox Populi, em artigo publicado na última edição da revista Carta Capital, sob o título "A crise e suas interpretações".

Na abertura do texto, Coimbra se pergunta: "Quanto mal uma mídia partidarizada pode causar a um País? Que prejuízos a irresponsabilidade dos veículos de comunicação traz à sociedade?"

E ele mesmo responde mais adiante: "Todos sabem quão importante é o papel das expectativas na vida econômica. Quando a maioria se convence de que as coisas não vão bem, seu comportamento tende a produzir aquilo que teme: a desaceleração da economia e a diminuição do investimento público. A "crise" é, em grande parte, provocada pelas expectativas".

Os números do Ibope confirmam o que diz Coimbra: enquanto os dados das pesquisas mais recentes indicam uma inflação anual em torno de 8%, uma em cada três das 2.002 pessoas ouvidas não sabe apontar corretamente quais são os atuais níveis. Para 19%, ela já estaria acima dos 12% ao ano.

"Há uma contradição entre a realidade e o que é pauta. Essa contradição se mantém há muito tempo, e agora num grau de distanciamento muito maior. E isso explica a percepção da sociedade e do cidadão revelada nesses números".

Como se estivessem participando juntos de um debate, os dois analistas chegam às mesmas conclusões sobre diferentes pesquisas, e Coimbra lembra um ponto importante: "Ninguém defende que a população seja mantida na ignorância em relação aos problemas enfrentados pela economia. Mas vemos outra coisa. A mídia hegemônica deseduca ao deformar a realidade e por nada fazer para seus leitores e espectadores desenvolverem uma visão realista e informada do País. Fabrica assustados para produzir insatisfeitos".

Em 1968, o ano do AI_5, o golpe dentro do golpe, Caetano Veloso já cantava em "Alegria, Alegria":

O sol nas bancas de revista

Me enche de alegria e preguiça

Quem lê tanta notícia

Eu vou...

E vamos que vamos. Para onde?

***

Em tempo: como todos os anos, a exemplo das nossas excelências, saio do ar neste feriadão de Corpus Christi, para participar do retiro espiritual dos Grupos de Oração, que desta vez será em Itamonte, Minas Gerais, uma região belíssima.

Na segunda-feira, dia 8, estarei de volta, certamente mais esperançado com a vida. Bom descanso a todos. Estamos precisando...

Vida que segue.

 

 

 

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aluga se Como esta crise vai mudando até as paisagens

Ao ir à minha banca de jornal na semana passada (pois é, ainda tenho esse hábito...), dei de cara com uma faixa que me deu tristeza. Nela estava escrito: "Passo o ponto _ Tratar aqui". O ponto é o bar sem nome do "seu" Zé, um legítimo português do Algarve, que está ali faz mais de trinta anos, e se tornou uma referência no bairro.

"Estou pagando para trabalhar. Por R$ 200 mil, passo na hora, não aguento mais", disse-me ele, sem entrar em maiores detalhes. Ia lá de vez em quando, para tomar uma cervejinha na calçada nos dias de calor, e conversar com sua freguesia de gente simples _ empregados de condomínios, pedreiros, carpinteiros, garçons, aposentados, pessoas que moram ou trabalham na vizinhança.

Outro dia, duas mulheres passando na calçada me chamaram a atenção. A mais alta era loira, de traços finos, aparência de secretária bem sucedida. A seu lado, caminhava a moça morena, baixinha, roupas simples, cabelos presos. Uma parecia ser patroa da outra, mas eram colegas de trabalho.

As duas estavam carregando baldes, vassouras e detergentes. Pareciam novatas no ramo da faxina terceirizada. Com a maior dignidade, empunhando seus novos instrumentos de trabalho, encontraram uma forma alternativa de ganhar a vida nestes tempos de crise. Fazer o que? Ficar em casa vendo televisão e reclamando da inflação, do desemprego e dos políticos safados?

Diante daquelas cenas e das notícias dos jornais e revistas, achei que era hora de pegar a estrada e ver outras paisagens. Alguns leitores têm atribuído o pessimismo e desesperança dos meus textos nos últimos meses ao fato de morar em São Paulo, onde o clima anda realmente muito pesado desde a última campanha eleitoral, e só vem piorando.

Apesar do frio e da chuva, fui para a praia, coisa que não fazia há muito tempo. Fim de mês, grana curta, desta vez já esperava não encontrar congestionamentos pelo caminho, como antes era comum em qualquer final de semana, mas não podia imaginar que estivesse tudo tão livre, quase sem carros e sem gente, de São Paulo a São Sebastião.

Lá estavam as barracas de frutas da Mogi-Bertioga, oferecendo seus produtos encalhados para ninguém. Na Boracéia, desta vez não encontrei os índios de uma aldeia próxima que ficam à beira da estrada vendendo seu artesanato, plantas e palmitos. Em Maresias, reduto do campeão Gabriel Medina, desta vez não vi pranchas e surfistas em penca, apesar da ressaca do mar de ondas altas de até três metros.

Nos centros comerciais desertos, estava cheio de faixas anunciando promoções e descontos, muitas placas de vende-se e aluga-se, uma liquidação geral. Até a moda de casamentos na praia foi atingida: o movimento das festas de noivas, me disseram, caiu 70%, em pleno mês de maio. Quiosques de praia, supermercados, padarias, restaurantes, pousadas, tudo uma calmaria só.

Além de números, estatísticas e índices econômicos, esta crise vai mudando também as paisagens físicas e humanas e, pelo jeito, não adianta pegar a estrada para mudar de cenário e de conversa.

Vida que segue.

Em tempo: recomendo aos caros leitores do Balaio o artigo "O império do senso comum", do Chico Alencar, publicado nesta segunda-feira na página 3 da Folha. É uma belíssima reflexão sobre os tempos que estamos vivendo, para além do varejo do dia a dia da política, que aponta os desafios a serem enfrentados, sem nunca perder a esperança. Chico é meu amigo, professor de História e deputado federal do PSOL do Rio de Janeiro. Não percam.

 

 

 

 

 

 

 

 

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961500 28052015  wdo99471 Reforma política caminha para não sair do lugar

Quem esperava da "Reforma Cunha" profundas mudanças no sistema político-partidário-eleitoral do país, que está com o prazo de validade vencido, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Desse mato não vai sair coelho.

Até agora, foi muita espuma e muito barulho para tudo ficar no mesmo lugar. O voto distrital caiu, mas o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, depois de reverter a derrota da véspera, conseguiu aprovar a emenda que realmente lhe interessava: a inscrição constitucional do financiamento privado de campanhas, tal como temos hoje, e o STF ameaçava proibir.

Passando a régua, de concreto, a única mudança real no atual cenário foi o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos. Para deputados e senadores, a reeleição continua valendo, é claro, porque eles não vão jogar contra o próprio patrimônio. E esta era a mudança mais importante que o país clamava para arejar o ambiente político e permitir o surgimento de novas lideranças.

Das propostas que ainda estão para ser votadas, só a cláusula de barreira, que impediria a multiplicação geométrica das legendas, poderia representar um freio na festa do caqui em que se transformou a nossa salada partidária, mas esta dificilmente será aprovada.

Por uma razão muito simples: os partidos nanicos somam 98 votos na bancada de Cunha e o presidente da Câmara, que precisa manter a maioria no plenário, já prometeu nada fazer para aprovar esta emenda, que restringe o acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral. Ameaçados de extinção, os pequenos partidos estão unidos pela sobrevivência.

Como se podia prever, teremos, na verdade, uma contrarreforma, para adiar às calendas o que realmente precisaria ser feito em defesa da democracia representativa, no sentido de  aproximar eleitores de eleitos, governantes de governados. Cada qual continuará vivendo em países diferentes, assegurados os privilégios do andar de cima e o poder das empresas financiadoras das campanhas eleitorais, que são quem realmente manda no Congresso Nacional. A nós, contribuintes, só caberá pagar a conta. Nada de novo no front.

E vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Que vexame! Veja o fracasso dos marchadeiros

Eles programaram uma entrada triunfal em Brasília, esperando reunir pelo menos 40 mil pessoas nesta quarta-feira, ao final da "Marcha pela Liberdade", organizada pelo Movimento Brasil Livre, que saiu de São Paulo e levou 33 dias para percorrer 1.175 quilômetros a pé, com o objetivo de protocolar um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A Polícia Militar do Distrito Federal preparou uma operação especial para receber a multidão em frente ao Congresso Nacional. Coordenador da operação, o tenente coronel Frederico Santiago levou uma tropa de 150 homens e deixou de prontidão outros 2 mil militares. Quando a grande manifestação chegou, havia um PM para cada dois marchadeiros, segundo relato do repórter Leandro Prazeres.

"Nossa estimativa foi feita com base no que as organizações passaram para a Secretaria de Segurança Pública. Não entendo nada de política, mas não sei como eles chegaram a esse número. De qualquer forma, estamos a postos", anunciou o tenente coronel Santiago.

Liderada por um pivete, a marcha que pretendia mobilizar simpatizantes, atrair a adesão popular ao longo da caminhada e ser recepcionada por caravanas vindas de outras cidades, não chegou a reunir 300 pessoas na rampa do Congresso, onde foi recebida apenas por alguns  líderes da oposição do porte de Carlos Sampaio, Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado.

Foi um monumental fracasso, que só não acabou ignorado pela mídia porque alguns coordenadores do grupo conseguiram ser recebidos pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que este ano já havia recusado sumariamente outros três pedidos de impeachment, mas prometeu encaminhar o pedido do MBL "para análise técnica" da sua assessoria jurídica.

Quando saíram de São Paulo, os marchadeiros de Kim Kataguiri, estudante de 19 anos, sonhavam alto, como ele anunciou pelo "Facebook: "No dia 27 de maio ocupemos a frente da Câmara para que os congressistas se sintam pressionados a atender a nossa pauta".

O MBL logo ganharia a adesão do deputado suplente Roberto Freire, presidente do PPS, que escreveu em seu Twitter: "Vamos mobilizar todos os partidos de oposição e oposicionistas de todos os partidos para a Marcha e o ato em BSB".

Nada disso aconteceu. Nenhum grande cacique tucano foi visto dando apoio à tragicômica aventura dos marchadeiros. Só apareceu uma faixa empunhada por anônimos atrás da mesa onde Cunha se reuniu com os lideres do MBL, em que se lia: "O PSDB saúda a Marcha pela Liberdade - Vocês são exemplos da cidadania e esperança para um Brasil livre da corrupção".

Pois não é que poucas horas depois, por ironia do destino, dando um cavalo de pau na votação do dia anterior, Eduardo Cunha conseguiu aprovar a emenda que coloca na Constituição o financiamento privado de campanhas eleitorais? Parece ficção, mas é real, caros leitores.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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marin Do futebol de várzea à prisão, o Marin que conheci

Conheci José Maria Marin mais de 50 anos atrás, como repórter da "Gazeta de Santo Amaro", jornal de bairro da zona sul de São Paulo, onde iniciei minha carreira. Uma das minhas primeiras tarefas era reescrever a coluna semanal do Dr. Marin, como o chamavam, em que ele fazia a cobertura dos times de várzea da região. Naquela época, era apenas um advogado de província, muito amigo do dono do jornal. Chegou a jogar por pouco tempo como ponta direita do meu time, o São Paulo, depois de ralar em campos de terra da periferia.

Modesto de posses e com dificuldades no domínio da língua portuguesa, era um sujeito simples, afável, nada havia nele capaz de chamar a atenção. Quem conviveu com Marin no tempo da "Gazetinha", que circula até hoje, jamais poderia imaginar que aquele colunista varzeano chegaria a ser governador de São Paulo, assumiria a presidência da CBF, e acabaria sendo preso, aos 83 anos, no Baur ao Lac Hotel, em Zurique, na Suíça, junto com outros cartolas da Fifa, durante uma operação contra corrupção nos altos escalões do futebol mundial.

Quando já trabalhava no Estadão, reencontrei Marin como vereador, depois deputado estadual, sempre ligado ao malufismo e ao que havia de mais retrógrado e reacionário na política brasileira, então sob o alto comando dos generais. Comendo pelas beiradas, muito discretamente, acabou sendo eleito vice-governador de Paulo Maluf e, no final do mandato, assumiu o cargo por alguns meses quando o titular se afastou para se candidatar a deputado federal. Em pouco tempo, virou um homem rico.

Com a redemocratização do país, andou por um tempo sumido da política, dedicando-se aos negócios, e só voltou ao noticiário como presidente da Federação Paulista de Futebol, de onde pulou para a CBF e a Fifa. O céu era o limite, antes que a polícia chegasse, o que não me surpreendeu nenhum pouco. Pela sua trajetória e prontuário, até que este final de novela demorou muito a chegar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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aecio PSDB dividido: Nós não temos um projeto de país

Quem colocou o dedo na ferida, expondo a divisão interna do partido, não foi nenhum bolivariano inimigo, mas o próprio vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman, que enviou nesta terça-feira uma carta à direção da legenda na qual escreve com todas as letras o que está no título desta coluna:

"Nós não temos um projeto de país".

Já constatei isso várias vezes aqui no blog, mas parece que agora caiu a ficha dos tucanos, revelando uma divisão interna do maior partido da oposição, que a mídia amiga já não pode esconder. Para Goldman, ex-governador de São Paulo muito ligado a José Serra, o partido até agora não conseguiu explicar ao eleitorado o que teria feito se tivesse vencido as eleições presidenciais. Não fez isso durante toda a campanha eleitoral do ano passado e não apresentou nenhuma proposta nas recentes propagandas na televisão, limitando-se a detonar o governo petista.

O primeiro vice-presidente do partido reclamou também que "a falta de debate interno se agravou no período recente de Aécio Neves", que assumiu o comando do partido antes de se candidatar à presidência da República, depois de um longo domínio do alto tucanato paulista . Goldman lembrou que o PSDB não discutiu internamente até agora qual posição tomar nos debates sobre a reforma política e o ajuste fiscal proposto pelo governo.

Isso ficou claro na noite de terça-feira durante a votação do projeto de reforma política apresentado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Até o último momento, eternamente em cima do muro, os tucanos não sabiam o que fazer. Diante de mais um racha no partido, Aécio impediu que o PDSDB fechasse questão a favor do distritão defendido por Cunha. Resultado: 21 tucanos foram  a favor, mas 28 votaram contra.

D. Eduardo I derrotado

A defecção do PSDB, um aliado de ocasião do presidente da Câmara para desgastar o governo Dilma, contribuiu para a primeira grande derrota de D. Eduardo I e Único nos seus próprios domínios. O estilo imperial de Eduardo Cunha, tratorando até seus mais fieis aliados, levou-o a uma derrota humilhante e lhe mostrou que não pode tudo. Todo poder tem seus limites.

A sua proposta prioritária de adoção do voto distrital nas eleições parlamentares foi derrotada por 267 a 210, quando precisava de no mínimo 308 votos para mudar o sistema eleitoral. Até no PMDB lhe faltaram votos: 13 deputados do seu partido votaram contra a proposta de Cunha.

No Senado, seu parceiro Renan Calheiros, outro aliado-desafeto do governo, também saiu derrotado na primeira votação do pacote do ajuste fiscal em que foram aprovadas restrições ao seguro desemprego e ao abono salarial. O resultado foi bem apertado (39 a favor e 32 contra), mas representou mais uma vitória de Dilma-Temer contra Renan-Cunha na queda de braço travada entre o governo e o Congresso.

A cada dia sua agonia, no ganha e perde da guerra política, que parece não ter fim.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Reforma Cunha: poder da grana e partidos ameaçados

"Pior do que está não fica" era o slogan da primeira campanha do palhaço Tiririca a deputado federal, em 2010. Não só fica pior, como estamos vendo a cada dia, mas agora também corremos o risco de ter um parlamento cheio de Tiriricas, se for aprovada a "Reforma Cunha", que entra em discussão e votação nesta terça-feira na Câmara.

Insatisfeito com os resultados da Comissão Especial, que ele mesmo montou há três meses, para apresentar um projeto de reforma política, o presidente Eduardo Cunha, também conhecido como D. Eduardo I e Único, o imperador autoproclamado, nem esperou pelo relatório. Mandou jogar tudo fora, cancelou a sessão e resolveu levar a discussão diretamente para o plenário.

Com bancadas temáticas suprapartidárias sob o seu comando, que na prática já estão acabando com os partidos, Cunha controla perto de 300 votos, e precisa de apenas mais oito (60% do total de 513) para aprovar o que quiser.

Muitas propostas vão entrar em discussão, mas para o imperador do PMDB duas são prioritárias:

* Criar o "Distritão", sistema eleitoral pelo qual se elege apenas o deputado mais votado nas regiões em que serão retalhados os Estados e acaba com os votos na legenda. Partidos à parte, basta escolher um Tiririca bom de voto em cada distrito e despejar nele todos os recursos financeiros disponíveis. Programas partidários, compromissos ideológicos e os votos nos outros candidatos são simplesmente jogados no lixo.

* Manter o financiamento empresarial de campanhas, que permitiu a Cunha não só se eleger com folga, como também ajudar outros candidatos que hoje formam sua bancada particular suprapartidária. É a questão central da reforma política, pois mantém o mesmo sistema atual, que permite ao poder econômico formar suas bancadas temáticas, e está na raiz de todos os esquemas de corrupção vigentes no país. Já proibido por ampla maioria no STF, o financiamento privado só continua em vigor porque o ministro Gilmar Mendes pediu vistas e não devolveu o processo, à espera da reforma de Cunha, que pode aprovar a inclusão das doações privadas na Constituição.

A "Reforma Cunha" faz parte das suas "promessas de campanha" para se eleger presidente da Câmara, que incluem a construção de um novo anexo orçado em R$ 1 bilhão, com direito a shopping e tudo para o melhor conforto das excelências. O único objetivo desta turma é preservar seus interesses e, se possível, facilitar suas reeleições futuras, em parceria com o poder da grana. É o baixo clero no poder que, na hora de votar, só se faz uma pergunta: o que é melhor para mim?

Fora do baixo clero (ainda existe o alto clero?), agora liderado por Cunha, sobraram muito poucos.  Uma das raras exceções é o deputado fluminense Chico Alencar, do pequeno PSOL, que fez parte da Comissão Especial, e assim resumiu a ópera bufa:

"O que se pretende, na verdade, é fazer uma contrarreforma que assegure a constitucionalização do financiamento empresarial dos partidos".

Ou seja, na melhor das hipóteses, vai continuar tudo como está, à espera do próximo escândalo de corrupção. O país clama, há décadas, por uma profunda reforma política-partidária-eleitoral, mas desse congresso nada se pode esperar de bom. O que for aprovado lá é para melhorar a vida dos próprios parlamentares, não do povo que os elegeu. O abismo entre representados e representantes só aumenta.

Por isso mesmo, a direção da Câmara dos Deputados ignorou solenemente as milhões de assinaturas das propostas populares em defesa de uma reforma política democrática que foram apresentadas, desde o ano passado, pelas principais entidades da sociedade civil organizada.

E assim vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

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