Cacei uma boa história para contar neste dia de Natal. Como não encontrei, já estava desistindo de escrever (tem dia em que é melhor não escrever nada para não aborrecer os leitores), quando me lembrei de dona Augusta e da sua casa cheia de crianças, "órfãs de pais vivos", como ela dizia.

Foi uma bela reportagem que caiu nas minhas mãos, na Folha de 1981, e de lá para cá não me apareceu outra história melhor para simbolizar o espírito desse dia que reúne as famílias em torno de uma árvore para se lembrar do nascimento do menino Jesus, 2013 anos atrás.

No meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto _ uma vida de Repórter" (Companhia das Letras), reproduzo na página 104 um pequeno trecho da matéria.

Duas antigas lavradoras da fazenda do pai do ex-governador Adhemar de Barros, em São Manuel, que haviam migrado para São Paulo, sabiam de um drama que não as deixava dormir direito. Elisa, a mais nova, dez anos atrás, trabalhava na maternidade do Hospital das Clínicas e contou à sua irmã Augusta, doméstica diarista, o drama de Neusa, também empregada, que teve seu filho numa radiopatrulha e, ao receber alta, não tinha para onde ir. "Se você aparecer com criança aqui em casa eu te mando embora", advertira a patroa, logo no início da gravidez. Augusta decidiu ficar com Marcelo. Naquela véspera de Natal, já eram dezesseis as crianças abrigadas na modesta casa de dois cômodos, cozinha e banheiro, todos filhos de empregadas domésticas com o mesmo drama de Neusa.

177509813 Na casa de dona Augusta, crianças “órfãs de pais vivos”

Por onde andarão hoje dona Augusta, Neusa, o menino Marcelo e as outras quinze crianças que ela levou para casa e tratava como filhos com a ajuda de vizinhos? Nunca mais as vi. Só sei que, naquele ano, quando a reportagem foi publicada, chegou tanto presente enviado por leitores que faltou espaço na mesa e em volta da árvore de Natal. Pelo menos uma vez por ano, as pessoas costumam ficar mais generosas, mas para gente como dona Augusta todo dia é dia de ajudar os outros, a sua própria razão de viver.

Feliz Natal a todos, muita força, saúde e coragem em 2014. Agora vou descansar alguns dias com a família e volto no dia 7 de janeiro, ou a qualquer momento, caso aconteça algo de importante neste período.

 

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90410306 Carta de Natal aos amigos presos: por aqui, tudo igual

Caros Delúbio, Genoino e Zé,

nestes dias que antecedem o Natal, tenho pensado muito em vocês. Pelas voltas que a vida dá e o destino leva, como este ano não será possível dar um abraço em cada um, escrevo esta carta para contar como anda a vida por aqui.

Para não dizer que continua tudo absolutamente igual, como está aí no título, pela primeira vez na história a seleção de handebol feminino do Brasil ganhou o título mundial, com um técnico dinamarquês, jogando contra as donas da casa, em Belgrado, na Sérvia. Foi bonita a festa das meninas.

Fora isso, vocês não estão perdendo grande coisa. Parece que o Brasil já entrou no piloto automático de fim de ano, com a rotina das notícias se repetindo irritantemente. Denúncias continuam sendo publicadas a granel em todas as latitudes, mas investigações que envolvem tucanos se arrastam a passos de tartaruga. A CPI do trensalão na Assembleia Legislativa de Geraldo Alckmin, já devidamente blindada, arrasta-se a passos de tartaruga manca. Do mensalão tucano em Minas, então, nem se fala mais.

O cerco contra o Zé continua implacável. Não querem mesmo que ele trabalhe fora da cadeia, como prevê o regime semiaberto, nem para tomar conta de uma biblioteca. Para dar uma ideia do clima de intolerância e perseguição que persiste, o "Painel do Leitor" da Folha desta segunda-feira publica uma carta da presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia, Regina Céli de Sousa, para advertir:

"Em relação a emprego oferecido a mensaleiro, informamos que o exercício da profissão de bibliotecário é privativo do bacharel em biblioteconomia, conforme a legislação determina (...) As infrações à legislação são passíveis de autuação, procedimentos administrativos e criminais, quando necessários, com aplicação das devidas penas".

Ou seja, pedem a aplicação de novas penas a quem já foi condenado, quer trabalhar e está há mais de um mês no regime fechado. A vida é dura, como costumava dizer o Zé.

Outro dia, saindo do elevador de casa na hora do almoço, um vizinho veio me interpelar sobre o que estava acontecendo com o trânsito todo parado há horas na nossa rua, provocando uma sinfonia de buzinas.

"Olha aí o que os teus amigos Haddad e Lula fizeram: esburacaram todo o nosso bairro só para a gente não poder andar". Fiquei tão perplexo com a ira do provecto senhor que nem respondi nada e fui saber o que estava acontecendo. Houve um vazamento de gás numa obra da Sabesp e a Comgas recomendou o fechamento da Ministro na esquina com a Lorena, no Jardim Paulista.

Quando vi o tal vizinho passar na rua à tarde, fui lhe dizer quem estava interditando a rua: duas companhias estaduais, que trabalham sob a responsabilidade do governador Geraldo Alckmin (ver correção no final do texto). Portanto, o atual prefeito e, muito menos, o ex-presidente não tinham nada a ver com isso. Disse-lhe para se informar melhor antes de dizer bobagens e fazer cobranças indevidas. O sujeito balançou a cabeça e continuou andando. Para quem lê nossos jornais e revistas, não importam os fatos.

Por falar em Lula, fui almoçar com ele uns dias atrás, lá no instituto, e o encontrei disposto e bem de saúde, animado com o grupo de estudos que formou para discutir propostas que preparem o país para o futuro, já de olho nas comemorações do bicentenário da Independência, em 2022. Ter projetos e fazer planos para o futuro é o que mantém a gente vivo, com ânimo para enfrentar as dificuldades do presente.

Ah, não sei se vocês já estão sabendo, tem uma novidade que não chega a ser bem uma novidade: José Serra desistiu da terceira candidatura à Presidência, se é que desistiu mesmo, e o Aécio Neves apresentou um esboço de programa de governo, que não agradou muito nem à imprensa amiga, com exceção daquela apartidária e isenta revista semanal. Para mim, o principal adversário da Dilma em 2014 será mesmo o Eduardo Campos, ainda mais se conseguir convencer a Marina Silva a ser a sua vice. Melhor é esperar para ver o que acontece, já que as chapas só devem ser definidas lá para março, abril.

Vida que segue. Saúde e força pra vocês neste Natal e em todos os dias de 2014.

Um forte abraço,

Ricardo Kotscho

Em tempo/correção:

O bom de ter amigos bem informados é que eles não nos deixam errar sozinhos.

Ao contrário do que escrevi sobre a Comgás no texto acima, a informação correta me foi enviada pelo competente jornalista Carlos Brickmann:

"A Comgás não é estatal, não. É particular. O acionista majoritário é a British Gás, ou a British Petroleum. Já a Sabesp é do Governo do Estado, mesmo, e anuncia pesadamente no Brasil inteiro para que todos saibam que, se quiserem ter em Xambioara do Oeste um sistema de águas e esgotos igual ao dela, é só transferir a cidade para São Paulo e tudo bem".

Obrigado, Carlinhos.

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Em tempo (atualizado às 17h de 22.12.2013):

Acabei de saber agora há pouco, enquanto estava na estrada, que as meninas do handebol do Brasil ganharam de 22 a 20 da Sérvia, em Belgrado, e conquistaram o inédito titulo de campeãs mundiais.

Ganhar na casa do adversário, com a torcida toda contra, dá ainda mais sabor e valor a esta vitória de um esporte ainda pouco valorizado no Brasil.

Quem sabe, agora, com o título nas mãos, as nossas campeãs mundiais ganhem mais atenção das autoridades esportivas e dos patrocinadores.

Nove jogos, nove vitórias, sem perder o pique e sem fazer firula.

Parabéns, meninas do handebol!

***

É o grande assunto do esporte brasileiro neste final de ano: a jornada épica das meninas do handebol feminino que disputam neste domingo a final do Mundial em Belgrado, na Sérvia, pela primeira vez na história.

O que me leva a escrever sobre este assunto, já tratado exaustivamente nas colunas dos meus competentes colegas Álvaro José e Mylena Ceribelli, aqui no R7, é fazer a inevitável comparação com o que aconteceu esta semana com os rapazes do Atlético Mineiro na semifinal do Mundial no Marrocos.

Ganhar ou perder faz parte de qualquer jogo, o problema é saber como se ganha ou se perde. As meninas ganharam oito partidas e estão invictas jogando com o coração na boca, lágrimas nos olhos e a valentia da mulher brasileira batendo no peito, enquanto o time de Cuca se apequenou diante do Raja Casablanca, como se não estivesse em disputa um título mundial.

41sqz40qt8 4okj31vnaq file Rapazes do Atlético devem aprender com moças do handebol

Jogando de ladinho, fazendo firulas no meio de campo, como se estivesse cumprindo tabela no Campeonato Mineiro, até que saiu barato para o Atlético perder por apenas 3 a 1 do modesto time dos donos da casa, que fizeram como as meninas no handebol: brigaram por cada bola, lutaram até o último minuto e agora vão enfrentar o poderoso Bayern alemão na grande final, às 17h30 da tarde deste sábado.

8o8450r72 fmt8phuv8 file Rapazes do Atlético devem aprender com moças do handebol

A diretoria do Atlético poderia aproveitar este período de férias para obrigar seus jogadores a assistir todos os dias aos jogos da seleção feminina de handebol (estão na internet) para aprender a honrar a camisa que vestem e respeitar a brava torcida do Galo mineiro.

E o sempre triste Cuca, que agora vai ganhar uma fortuna na China, deveria, antes de mais nada, fazer um estágio com o dinamarquês Morten Soubak, técnico da seleção brasileira, para saber como tirar da letargia e motivar o time numa disputa tão importante como o Mundial de Clubes.

Só o talento não basta, como acaba de provar mais uma vez o Ronaldinho Gaúcho.

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"O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil. Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar mais antigo tem duas famílias, tem uma amante, duas. É um negócio. Eu sou um policial feio, feio pra c***, a gente ia pra Floresta (no Sertão), para estes lugares. Quando chegávamos lá, colocávamos o colete, as meninas ficavam tudo sassaricadas. Às vezes tinham namorado, às vezes eram mulheres casadas. Pra elas é o máximo tá dando pra um policial. Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima, é coisa de doido".

Foi desta forma, acreditem, que o Secretário de Defesa Social de Pernambuco, delegado Wilson Damázio, respondeu à pergunta da repórter Fabiana Moraes, do Jornal do Commercio de Recife, sobre as denúncias de estupros contra meninas praticados por policiais militares.

Outro trecho da entrevista:

"Desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? Lógico que a homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge do padrão de comportamento da família brasileira tradicional. Então, em todo lugar tem coisa errada, e a polícia...né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?"

No mesmo dia da publicação destas inacreditáveis declarações, após nota assinada por 25 entidades da sociedade civil e da oposição que repudiaram as declarações "machistas" e "homofóbicas" do secretário da Defesa Social, Wilson Damázio pediu desculpas à sociedade pernambucana e deixou o cargo: "Para proteger o governo e o seu legado, informo que já coloquei o cargo à disposição do governador Eduardo Campos", que rapidamente aceitou o pedido de demissão.

O estrago na imagem do governo do presidenciável pernambucano, no entanto, já estava feito. A entrevista correu como rastilho de pólvora pelas redes sociais, ganhou destaque nos portais de alguns grandes jornais nacionais e mostrou a contradição entre a teoria e a prática dos nossos políticos.

Enquanto  Eduardo Campos roda pelo país pregando a "nova política", ao lado da refinada ambientalista Marina Silva, fiel defensora dos bichos e das matas, um secretário que trabalhava num importante cargo do seu governo desde abril de 2010, ou seja, faz três anos e meio, diz estas barbaridades típicas dos velhos coronéis sertanejos, carregadas de preconceitos e leviandades, como  se as mulheres fossem as responsáveis pelas violências que sofrem dos policiais que deveriam prover sua segurança.

Será que, durante este tempo todo, o governador e os secretários pernambucanos não perceberam nada de estranho no comportamento e no modo de pensar deste capitão do mato redivivo?

Quando o assunto ferveu em Recife, Eduardo e Marina estavam em Salvador, na Bahia, participando da filiação da ex-ministra do STJ Eliana Calmon ao PSB. Por essas ironias da vida, durante a cerimônia, Eduardo aproveitou para criticar a "aliança conservadora" do governo da presidente Dilma Rousseff, em contraposição às forças políticas "historicamente presentes nas lutas democráticas", representadas por ele mesmo e a sua aliada Marina _ e, até ontem, claro, pelo delegado Wilson Damázio, que não é propriamente um sinal de modernidade democrática.

Com todo o respeito ao meu amigo governador Eduardo Campos, este triste episódio não permitiria que ele respondesse protocolarmente à carta de demissão do secretário, agradecendo a Damázio "pelos bons serviços prestados". Dele, em nome da "nova política", poderíamos esperar outra atitude, condenando a agressão cometida por seu auxiliar contra as mulheres pernambucanas. A política também é feita de símbolos e de atitudes emblemáticas, exige um mínimo de coerência.

Em defesa de Haddad

Pelo tipo de gente que anda atacando ferozmente o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que já critiquei neste espaço, vejo-me como cidadão na obrigação de sair em sua defesa e torcer para que ele supere logo o atual momento de dificuldades em sua administração, conseguindo a aprovação do aumento do IPTU, que considero socialmente muito justo e fundamental para enfrentar as mazelas históricas da cidade.

Se os abutres e aproveitadores estão de um lado, eu estarei sempre do outro. Força, prefeito.

 

 

 

 

 

 

 

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ok Dilma, Aécio e Eduardo: 2014 já tem a largada definida

Com a desistência de José Serra, anunciada esta semana, e Marina Silva recolhida a um segundo plano como coadjuvante de Eduardo Campos, 2014 vai começar tendo a largada da corrida sucessória definida e três candidatos já em campanha, embora o início oficial, segundo o calendário do TSE, esteja marcado para o dia 6 de julho.

Em resumo: mesmo com a entrada de um ou outro figurante nanico, a disputa se dará mesmo entre a presidente Dilma Rousseff, do PT, o senador tucano Aécio Neves e o governador pernambucano Eduardo Campos, presidente do PSB.

Ainda que Marina permaneça à frente de Eduardo nas próximas pesquisas, não aposto um centavo que o governador cederá a candidatura presidencial a ela, que aparece em segundo lugar, e é a única que poderia provocar um segundo turno, pelos levantamentos divulgados até agora.

Dilma entra na corrida com larga vantagem, oscilando com 40 % das intenções de votos, o dobro de Aécio, que tem o dobro de Eduardo, ainda lutando para sair dos índices de um dígito. Na verdade, o jovem candidato do PSB entra nesta disputa de olhos voltados já para 2018, com o objetivo principal de marcar posição e tornar seu nome nacionalmente mais conhecido. Se conseguir mais do que isso, será lucro, o que, no momento, é pouco provável.

O embate principal, por tudo o que se viu e ouviu nas movimentações dos três candidatos nos últimos dias, se dará mais uma vez entre PT e PSDB. Tanto Dilma como Aécio escolheram um ao outro como o adversário principal a combater, enquanto Eduardo corre por fora, mais preocupado por enquanto na construção de palanques e alianças do que em bater no governo do qual participou até outro dia.

A esperança dos candidatos de oposição de mudar o quadro atual,  favorável à reeleição de Dilma, se baseia mais em obstáculos que o governo poderá enfrentar, em ano de dificuldades econômicas e possíveis protestos durante a Copa do Mundo, do que propriamente em alguma ideia nova ou proposta viável capaz de cativar os 66% de eleitores que gostariam de ver mudanças no país.

A presidente termina este ano de baixo crescimento com muita desconfiança dos investidores e perspectivas modestas, mas apresentando indicadores positivos naqueles quesitos que falam mais de perto ao bolso e ao coração do eleitor: emprego e renda. Segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira, o desemprego caiu para 4,6%, o menor índice da série histórica iniciada em 2002, e a renda média do trabalhador brasileiro cresceu 3% em relação a outubro do ano passado. A inflação deve fechar o ano em 5,85%, mais uma vez dentro da meta.

Em seu encontro de fim de ano com os jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Planalto, Dilma tocou num ponto sensível: "Há uma tendência de olhar o copo meio vazio. Isso é complicado, porque uma parte da economia é expectativa. Se você instila desconfiança isso é muito ruim".

Não foi por outro motivo que, ao apresentar seu genérico esboço de programa de governo esta semana, Aécio Neves dedicou boa parte do discurso a falar o que os empresários queriam ouvir, já que andam de bico com Dilma, por conta, segundo eles, de uma exagerada intervenção do governo na economia. O chamado mundo do trabalho só entrou no programa na última hora, por sugestão de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, provável aliado de Aécio na disputa presidencial. Até agora, o PSDB está sozinho na parada. O PPS velho de guerra aderiu ao PSB e o DEM ainda está esperando para ver o rumo dos ventos.

Diante disso, a oposição e seus parceiros na grande mídia procuraram investir em caminhos alternativos para desgastar Dilma, e o principal deles é anunciar e incentivar grandes protestos nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo, tentando repetir o que aconteceu em junho passado, quando as grandes manifestações de rua abalaram seriamente a popularidade da presidente.

Só fatos novos e muito graves poderão romper a atual hegemonia petista, que completaria 16 anos no governo central, caso se confirme a vitória de Dilma. Fora isso, a única coisa certa é que o Carnaval em 2014 cai no final de fevereiro, início de março, o que fará o ano político começar mais tarde. E aí logo vem a Copa do Mundo, depois as eleições, as festas de final de ano e, então, 2015 já estará batendo na porta.

Feliz 2015!

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ABr270213DSC 5950 Paulo Skaf no ar: candidato é do PMDB ou da Fiesp?

Enquanto em Brasília os meritíssimos ministros do Supremo Tribunal Federal ainda estão decidindo como pode ser feito o financiamento de campanhas eleitorais, um candidato atípico  já fez sua opção, sem dúvida bastante original. Presidente da Fiesp, a poderosa federação das indústrias de São Paulo, e candidato do PMDB a governador do Estado, o empresário Paulo Skaf criou por conta própria o financiamento público-privado de campanha.

Quem costuma ver comerciais de televisão fica sem saber se o candidato é do PMDB ou da Fiesp, já que a campanha embaralha tudo. Só este ano, o peemedebista já torrou R$ 32 milhões de reais de verbas do Sesi-Senai para se promover. As duas entidades do chamado Sistema "S" são ligadas à Fiesp e financiadas com isenção fiscal dado às empresas.

Ou seja, quem fica com a conta somos nós, já que os gastos com estas generosas campanhas na TV são pagos com o dinheiro que o governo deixa de arrecadar dos nossos impostos. Fica a pergunta: quantas outras obras poderiam ter sido feitas pelo Sesi-Senai com esta montanha de dinheiro gasto em promoção pessoal?

Sob o comando da grife de Duda Mendonça, o candidato anfíbio é uma estrela constante nos comerciais destas entidades, em que ele sempre aparece sorridente, ao lado de crianças felizes, inaugurando obras do Sesi-Senai. De vez em quando, no mesmo estilo, o personagem também aparece em comerciais do PMDB.

Neste último final de semana, Skaf ocupou os intervalos das principais emissoras de TV para faturar, em nome da Fiesp, a paternidade da decisão da Justiça que suspendeu a cobrança do aumento do IPTU. Detalhe: quem entrou primeiro com o recurso na Justiça foi o PSDB, partido de oposição na cidade, enquanto a bancada do PMDB na Câmara Municipal votou a favor do aumento do IPTU.

Para Paulo Skaf, pouco importa. O que interessa é levar vantagem em tudo, ainda mais agora que ele fez uma completa reforma na fachada, com o vistoso implante de uma cabeleira negra. Além de falar aos que criticaram o aumento do IPTU, o líder empresarial aproveitou também para se dirigir aos órfãos dos protestos de junho: "Acabou o tempo em que o Brasil aceitava tudo de braços cruzados, sem lutar pelos seus direitos".

Skaf é reincidente. Nas eleições passadas para governador, em 2010, também sob a batuta de Duda Mendonça, Skaf adotou o mesmo esquema, só que o partido era outro: o Partido Socialista Brasileiro, de Eduardo Campos, o que causou uma certa estranheza. Afinal, deve ter sido o primeiro caso de presidente da Fiesp defendendo o socialismo. Teve por volta de um milhão de votos.

Agora, já mais conhecido, depois de outros quatro anos de propaganda do Sesi-Senai, sempre tendo o candidato como atração principal, Paulo Skaf surge em segundo lugar nas pesquisas, que, por enquanto, apontam para a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

E vai ficar tudo por isso mesmo? Ninguém vai entrar com uma representação no TSE contra este dublê de líder empresarial e candidato, que utiliza verbas públicas alocadas pelo governo federal no sistema "S" para fazer sua campanha a governador? É justo isso?

Quem tiver as respostas pode enviar aqui para o nosso Balaio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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serra aecio ae 20100403 g Serra sai de fininho da campanha do eu sozinho

O título até rimou, mas é o melhor resumo da ópera bufa protagonizada nos últimos meses pelo ex-pré-candidato José Serra, do PSDB. Não poderia ter sido mais melancólico o anúncio da sua desistência num texto de módicas sete linhas publicado em seu Facebook, às 19h56 desta segunda-feira, que reproduzo abaixo, tal como foi escrito:

"Para esclarecer a amigos que têm me perguntado:

Como a maioria dos dirigentes do partido acha conveniente formalizar o quanto antes o nome de Aécio Neves para concorrer à Presidência da República, devem fazê-lo sem demora. Agradeço a todos aqueles que têm manifestado o desejo, pessoalmente ou por intermédio de pesquisas, de que eu concorra novamente".

serra ok Serra sai de fininho da campanha do eu sozinho

Pouco depois, ele entrou em contato com o portal UOL para desmentir a informação já publicada em todos os meios eletrônicos. Como assim?

Se ele sugere que o partido "formalize o quanto antes o nome de Aécio Neves", é porque está tirando o time de campo, por absoluta falta de apoio, tanto dentro como fora do PSDB.

Demorou para cair a ficha de Serra, que passou meses vagando pelo país a bordo de uma campanha do "eu sozinho", sem ter a seu lado nenhuma liderança importante do PSDB, apenas para falar mal do governo, e agora resolveu sair de fininho da disputa, embora ainda queira deixar uma porta aberta.

Nas pesquisas por ele citadas, o ex-governador de São Paulo, que foi duas vezes derrotado ao tentar a Presidência da República, fazendo lembrar a "Viúva Porcina", lendária personagem de Regina Duarte, aquela "que foi sem nunca ter sido", Serra levava uma pequena vantagem sobre Aécio, mas os seus índices de rejeição eram tão altos que inviabilizavam a candidatura.

Foi isso, a meu ver, mais do que tudo, que levou Serra a colocar sua mensagem no Facebook, um dia antes de Aécio Neves apresentar as diretrizes do seu futuro programa de governo (ver matéria "Aécio lança projeto para eleição 2014" aqui no R7).

Com isso, o ex-pré-candidato acabou roubando espaço do seu adversário tucano no noticiário dos jornais, no mesmo momento em que se tornou público o rompimento de Aécio com seu marqueteiro, o antropólogo Renato Pereira.

O que era para ser uma terça-feira festiva do PSDB, com o objetivo de colocar o bloco de Aécio Neves nas ruas, acabou ofuscada, mais uma vez, por problemas internos do partido e da candidatura.

Para completar, o antigo aliado Roberto Freire, do PPS, do alto dos seus 16 segundos de TV e meia dúzia de deputados, resolveu oficializar o apoio do seu partido a Eduardo Campos, do PSB, que disputa uma vaga com o tucano no segundo turno, com o pragmático argumento de que é "mais fácil ganhar com Campos do que com Aécio".

Como Freire, fiel seguidor de José Serra, não rasga dinheiro e gosta de surfar numa boa onda, é bom Aécio se precaver. O único objetivo de Serra daqui para a frente pode ser o de atazanar a vida dele, dando o troco pela falta de apoio do mineiro às suas campanhas presidenciais.

Desta forma, a nove meses e meio das eleições de 2014, o PSDB ainda não conseguiu fechar aliança com nenhum outro partido. Agora é esperar pelas próximas pesquisas para se saber se era mesmo a sombra de Serra que atrapalhava a campanha de Aécio ou se desta vez os tucanos correm o risco, pela primeira vez nos últimos 20 anos, de ficarem fora do segundo turno por falta de um candidato competitivo.

Fernando Henrique Cardoso, que ganhou duas vezes de Lula no primeiro turno, patrono da candidatura de Aécio, deve ter ficado feliz com a decisão de Serra _ se é que ela foi mesmo para valer.

Para quem já chegou a registrar em cartório a garantia de que não seria candidato a governador, durante sua campanha a prefeito de São Paulo, na década passada, e acabou sendo, tudo é possível. Só não se deve esperar um entusiasmado apoio de José Serra a Aécio Neves. Aí também já seria pedir demais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Aécio Neves faz um inventário de terra arrasada

 

 

Aos leitores,

reitero mais uma vez que este blog não publica comentários que tratam da vida pessoal de homens públicos, sejam eles candidatos ou não, seja qual for o partido.

Não adianta perder tempo tratando de assuntos que estão fora do debate político.

Grato pela compreensão,

Ricardo Kotscho

***

É claro que não se deve esperar de um candidato de oposição elogios e mesuras com quem está no poder e quer a reeleição. Oposição é oposição, governo é governo, já dizia o velho conselheiro. Seria razoável, no entanto, que um pretendente ao cargo máximo da Nação exponha, com clareza, onde o país está dando certo e o trabalho deve ter continuidade, onde está errando e precisa ser consertado e o que falta ser feito para o povo viver melhor.

Nada disso se encontra no artigo "Para mudar o Brasil", do candidato Aécio Neves, publicado nesta segunda-feira na nobre página 2 da Folha, uma espécie de amostra grátis da "declaração de princípios programáticos" que o tucano pretende anunciar solenemente amanhã em Brasília. Trata-se, na verdade, de um inventário das mazelas nacionais, como se o Brasil fosse uma terra arrasada, onde é preciso começar tudo de novo.

Aécio adverte logo no início que "não se trata de um diagnóstico técnico ou de um programa de governo, mas de reivindicações, cobranças, expectativas e sentimentos vindos dos quatro cantos do país, que constituem pontos de partida para o aprofundamento do diálogo com os brasileiros".

Após contar que ouviu "profissionais e militantes das mais diversas causas" (não diz quais), o senador mineiro afirma: "Constatamos que as urgências de dez anos atrás permanecem as mesmas de hoje. E vimos surgir novos desafios".

Ou seja, o país não fez mais nada desde que os tucanos deixaram o poder. Na visão de Aécio, em suas andanças na pré-campanha eleitoral, o Brasil ficou congelado no tempo, só produzindo desgraças, como podemos ver em alguns exemplos abaixo reproduzidos:

"Testemunhamos a luta diária das famílias nordestinas, vítimas e reféns da seca e os limites do atual projeto de gerenciamento de pobreza extrema, sem horizonte concreto capaz de libertar e habilitar uma nova cidadania". Como se fará isso?

"Fomos impactados pela tragédia de milhares de vidas perdidas impunemente nas grandes cidades, em um país que não tem sequer um arremedo de política nacional de segurança, e pelo desastre cotidiano de um sistema de saúde abandonado em macas pelos corredores de hospitais superlotados, em filas imensas, em demora, desvios e desrespeito". Quais seriam as soluções?

"Foi possível ver de perto, no Centro-Oeste, a contradição entre a alta produtividade brasileira da porteira para dentro e os gargalos da infraestrutura precária que se eternizaram da porteira para fora, travando nosso desenvolvimento". Dez anos atrás, como era?

"É desolador constatar o declínio da indústria de transformação e a extinção dos melhores empregos e como fazem falta ao país o direito básico do cidadão de ter acesso a uma educação de qualidade, os anos perdidos em escolaridade e uma mão de obra mais qualificada". Não custava nada, por exemplo, reconhecer que o país tem hoje os mais baixos índices de desemprego da sua história  e os mais altos de renda, mas ainda é pouco.

"Descortina-se um país inteiro ainda a ser construído, que demanda a superação do 'nós e eles', estimulado pelo poder central, e a construção de uma inédita convergência em torno das grandes causas nacionais". Tudo bem, beleza, mas por que os tucanos não fizeram isso nos oito anos em que ficaram no Palácio do Planalto?

Só falta, enfim, combinar tudo isso com Sua Excelência, o eleitor, como lembra hoje nota do site político 247: "Aécio quer ganhar o PIB, antes dos eleitores. O senador mineiro e presidenciável do PSDB deve contemplar reivindicações de empresários no pré-programa do partido para as eleições de 2014(...) Aécio deve focar em uma reforma da política de intervenção estatal na economia, criticada pelo setor privado".

De fato, Aécio, assim como Eduardo Campos, já mantiveram longas reuniões com o empresariado nacional, em São Paulo, Rio e Brasília. Aécio tem mais um jantar hoje marcado pelo ex-ministro Armínio Fraga com o PIB do Rio de Janeiro.

Tanto Aécio como Eduardo investiram muito nos encontros com empresários este ano, o que talvez explique a sofreguidão com que a oposição e sua mídia aliada combatem o projeto contra o financiamento privado de campanhas, que está em votação no Supremo Tribunal Federal. Até agora, o placar está 4 a 0 contra o financiamento privado, que é o que interessa aos candidatos de oposição. Por mais poderosos que sejam, os donos do PIB não têm tantos votos assim.

É preciso chegar ao coração do eleitor por outros meios e não será, certamente, o escolhido por Aécio para encerrar este artigo na Folha: "É hora de somar forças para a construção coletiva de um novo projeto para mudar de verdade o Brasil". Isto poderia ser subscrito por qualquer candidato, a qualquer cargo, em qualquer época, em qualquer lugar. Que novo projeto é esse, ainda não sabemos.

Aécio prometeu que vai anunciar amanhã "as primeiras ideias recolhidas em encontros regionais, que, acreditamos, podem representar as bases de uma nova agenda para o Brasil".  Aguardemos, pois. A campanha eleitoral, que já começou, está precisando exatamente disso: novas ideias, e não antigas lamúrias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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torcedores Agora somos todos da Portuguesa desde criancinhas

Torcedores da Portuguesa fazem protesto na Avenida Paulista (Foto: LEVI BIANCO/BRAZIL PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

Passamos o ano ouvindo falar em judicialização da política, com o Supremo Tribunal Federal ocupando o vazio deixado pelo Congresso Nacional, como acontece ainda agora nesta discussão sobre financiamento privado de campanha, tema de comentário que fiz quinta-feira no Jornal da Record News (ver no site do JRN aqui ao lado).

E chegamos ao final do ano sob o império da judicialização do futebol: a partir das 15 horas desta segunda-feira, como acontece desde o século passado, o Fluminense dos doutores vai tentar novamente ganhar no "tapetão" dos tribunais esportivos o que não foi capaz de conquistar no campo de jogo.

A vítima da hora é a Portuguesa de Desportos, que pode perder quatro pontos, acusada de ter utilizado por alguns minutos um jogador que estava suspenso num jogo que já não valia mais nada.

O time paulista alega que foi uma falha de comunicação do seu advogado, indicado, aliás, pela própria CBF. Se a Portuguesa cair e o Fluminense ficar na primeira divisão, seria caso de monumental injustiça _ mais uma, neste país onde as leis valem de acordo com os interesses de quem as aplica.

Por isso, amigos corintianos, são-paulinos, santistas, palmeirenses e torcedores de todos os times de São Paulo, amanhã deveremos ser da Portuguesa desde criancinhas. No último sábado, mais de 300 torcedores já fizeram um protesto na avenida Paulista contra o "STJD, a vergonha do Brasil", como se podia ler num dos cartazes.

Se havia mais de 300, é sinal de quem não eram só da torcida da Portuguesa, que é bem pequena, mas havia também gente de outros times. Os donos de padarias, em sua grande maioria torcedores da velha Lusa, ameaçam boicotar os produtos de patrocinadores do Brasileirão. Que mais podemos fazer para ajuda-los?

O Fluminense, velho freguês do "tapetão" do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, é protagonista de uma das maiores vergonhas da história do futebol brasileiro. Em 1996, terminou em 23º lugar o campeonato disputado por 24 times, mas permaneceu na elite  porque a CBF simplesmente detectou "alguns problemas de arbitragem" e salvou o time carioca.

No ano seguinte, o Flu finalmente foi rebaixado para a segunda divisão. De lá, após péssima campanha, como mostrou o R7 esta semana, caiu para a Série C e já corria o risco de se tornar um time "fora de série"... No jogo contra o São Raimundo, do Amazonas, pelo quadrangular final, que terminou empatado, o Fluminense ganhou os três pontos pelo mesmo motivo de agora: o adversário teria utilizado um jogador em situação irregular. Campeão da Série C, já no ano seguinte, como que por encanto, o Fluminense, a convite da CBF, subiu direto para a Primeira Divisão, e disputou a Copa João Havelange, nome do Brasileirão no ano de 2000.

Com todo este belo prontuário jurídico, o Fluminense entra como franco favorito na sessão do STJD que vai decidir o destino da Portuguesa.

O presidente do tribunal é Flávio Zveiter, que entrou no órgão justamente em 2000, depois de ser sabatinado pelo próprio pai, desembargador Luiz Zveiter, que acabaria afastado da presidência do STJD após denúncias recebidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2005.

"De tudo, resta dizer que a toga é inimiga de quem joga e que amanhã será mais uma data a ser lembrada como vergonhosa no dito país do futebol", conclui seu artigo, com muita propriedade, meu colega Juca Kfouri, em sua coluna deste domingo na Folha.

Outro colunista dos bons, Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sob o título "Gol de advogado", lembra, no mesmo jornal, que a expressão "tapetão" surgiu em 1969, quando o Fluminense conquistou o título carioca ao recorrer à Justiça Comum, numa decisão proferida pelo juiz Renato de Almeida Magalhães.

Se eu fosse torcedor do Fluminense, teria vergonha de ver meu time ganhar assim. Juro que eu preferiria ver o meu São Paulo na Segunda Divisão, de onde foi salvo pelo Muricy e não por qualquer togado, do que passar o vexame de torcer por um time que não consegue se manter em pé com as próprias pernas.

 

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Já faz todo esse tempo? perguntei ao Odair Braz Junior, jovem editor do R7, que me alertou logo cedo: hoje é o aniversário de 45 anos do AI-5. Ele se lembrou do dia tristemente histórico, eu não. Pois é, agora parece que foi ontem, e a gente imaginava que nunca fosse acabar este Ato Institucional, o golpe dentro do golpe, que afundou de vez o país nas profundezas da ditadura militar (1964-1984).

Na noite de 13 de dezembro de 1968, eu trabalhava na redação do Estadão, então o mais importante jornal do país que fazia dura oposição ao regime, quando ouvimos pelo rádio o pronunciamento em que Costa e Silva anunciou o AI-5.

presidentes do brasil f 019 Parem as máquinas!, começa a longa noite do AI 5

Como não quero ser traído pela memória, reproduzo abaixo trecho do meu livro "Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter" (Companhia das Letras), uma "autobiografia autorizada", em que relato o que aconteceu naquela noite de terror e de muito medo para quem não nasceu para ser herói, como é o meu caso:

O pior ainda estava por acontecer. Na madrugada de 13 de dezembro, dia em que Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5, o principal editorial do jornal, na página 3, trazia o premonitório título "Instituições em Frangalhos". Informado por algum dos vários colaboradores do regime infiltrados na redação, o delegado Silvio Correia de Andrade, da Polícia Federal, invadiu a oficina, que dava para a rua Martins Fontes, e gritou a ordem: "Parem as máquinas!".

3 Parem as máquinas!, começa a longa noite do AI 5

Clique na imagem para ampliar

Em seguida, determinou aos policiais que o acompanhavam  a apreensão de todos os exemplares, já prontos para a distribuição. Pela primeira vez desde o golpe, o Estado deixou de circular. Logo cedo, Julio Neto e Ruy Mesquita foram se queixar ao governador Abreu Sodré, um amigo da família nomeado para o cargo pelos militares. Comunicaram-lhe que o jornal não mudaria sua linha editorial, agora de oposição aberta ao regime.

No começo da noite, dois policiais à paisana da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de segurança do Estado de São Paulo chegaram à redação para examinar o noticiário político". Era o início oficial da censura prévia. Enquanto eles se aboletavam em volta da mesa de Oliveiros Ferreira, o secretário de redação, nós nos reuníamos para ouvir o pronunciamento do general Costa e Silva num rádio portátil posto sobre a mesa de Clóvis Rossi (o então jovem editor e chefe de reportagem).

No silêncio do ambiente destacava-se a voz grave do general, que não deixava nenhuma dúvida nas suas palavras: meninos, a brincadeira acabou. O Brasil entrava no quinto ato. Era um golpe dentro do golpe _ a ditadura total, sem disfarces, com mais cassações de mandatos, fechamento do Congresso Nacional e fim das liberdades e dos direitos individuais, começando pela censura prévia.

Ao recordar este episódio, muitos anos depois, Oliveiros me contou que Carlão (Luiz Carlos Mesquita, irmão de Julio e Ruy), o nosso amigo diretor, só se zangou quando um contínuo serviu café aos censores. Voltei para a minha mesa e continuei a escrever, como se nada estivesse acontecendo. Sem alternativa, eu e minha turma terminaríamos outra noite na Jussara (uma casa noturna que se tornou familiar para nós). Professor da USP, estudioso dos assuntos militares, Oliveiros Ferreira previu um longo e feroz  período de ditadura.

Para azar de todos nós, e a desgraça da democracia brasileira, o velho e sábio mestre Oli estava certo.

E o caro leitor, principalmente os da minha geração, de que se lembra da noite de 13 de dezembro de 1968? Lembra onde estava, como foi?

***

Em tempo: estranhei o silêncio da grande imprensa, principalmente dos seus editorialistas, colunistas e blogueiros, sobre esta efeméride do AI-5.

Vale registrar que os principais meios de comunicação do país, quase todos, apoiaram vivamente o golpe de 1964.

Lembrar das nossas tragédias é importante para não repeti-las, como ficou claro no livro "Brasil Nunca Mais", que relata as maiores atrocidades deste período triste da nossa história.  

Em tempo 2: recomendo a todos a leitura dos comentários de Enio Barroso Filho e de Vitor Buaiz, ex-prefeito de Vitória e ex-governador do Espírito Santo, grande figura e meu velho amigo. São pessoas assim que fazem a grandeza deste Balaio. 

 

 

 

 

 

 

 

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