lll Dilma e Marina, tão iguais e tão diferentes

Quem um dia poderia imaginar, até poucos anos atrás, que teríamos neste momento, a 45 dias das eleições, duas mulheres disputando quem vai ser a próxima presidente da República do Brasil?

Por uma dessas boas sortes do destino, tive a oportunidade de trabalhar com ambas durante os dois primeiros anos do governo Lula, em que elas foram ministras de Estado e eu secretário de Imprensa da Presidência. Aprendi a admirá-las pela força com que defendem suas convicções, muitas vezes opostas, e posso dizer que ficamos bons amigos.

As vidas da economista mineira Dilma Vana Rousseff, 66, e da ambientalista acreana Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, 56, tão iguais e tão diferentes, dariam um belo e emocionante filme.

Não gosto de fazer comparações entre pessoas, e muito menos julgá-las, nem é este o objetivo deste texto. Quero apenas contar um pouco do que sei sobre a trajetória e a personalidade destas duas figuras absolutamente incomuns, que construíram seus próprios caminhos com muita luta, determinação e sofrimento, cada uma do seu jeito.

Conheci Marina primeiro, nas campanhas presidenciais do Lula, lá pelo final dos anos 80 do século passado, e logo ela me chamou a atenção nos vários encontros dos "povos da floresta", em Rio Branco, no Acre, por sua figura frágil, ar místico, voz fina, mas sempre firme, cabelos presos e figurinos étnicos, muito carismática.

Conversei com Dilma pela primeira vez no período de transição do governo FHC para o de Lula, no final de 2002, quando trabalhamos juntos no prédio do Centro Cultural do Banco do Brasil. Não era de dar intimidade a ninguém, sempre muito séria e objetiva em suas roupas de executiva, cabelos armados, só falava de trabalho, carregando planilhas e seu inseparável laptop.

Figuras humanas bem diferentes, como se pode notar, mas também com muitas coisas em comum. Elas não gostam de ser contrariadas, sempre carregam verdades definitivas, parecem estar cumprindo uma missão terrena ou divina. O mundo delas se divide entre quem manda e quem obedece. Não tem conversa. Por isso mesmo, não custaram a se estranhar logo nos primeiros meses de governo.

As divergências entre elas eram muitas, mas podem ser resumidas num ponto- chave: Dilma era o que se pode chamar de desenvolvimentista, ao lutar por grandes obras e projetos no Ministério de Minas e Energia, batendo de frente com o conservacionismo de Marina, que sempre se dedicou a defender com unhas e dentes o meio ambiente, desde os tempos de líder seringueira ao lado de Chico Mendes.

Em razão disso, não foram poucas as vezes em que Marina foi se queixar a Lula e pedir demissão do cargo. Acabou ficando até meados de 2008. Saiu do governo e, ao mesmo tempo, do PT, para se candidatar a presidente da República pelo PV, em 2010, quando enfrentou Dilma pela primeira vez, e acabou provocando um segundo turno na eleição, ao obter 19% dos votos, tornando-se a grande surpresa daquela campanha.

Dilma tinha assumido a chefia da Casa Civil, o cargo mais importante do governo depois do presidente, em 2005, no auge da crise do mensalão, em que foi chamada para ocupar o lugar de José Dirceu. Poucos meses depois, Lula me confidenciou que tinha encontrado nela a candidata ideal para disputar a sucessão dele. No papel de gerente geral do governo, foi convocada por Lula para comandar o PAC no segundo mandato, principal bandeira da sua primeira campanha eleitoral disputada na vida. E assim se tornou a primeira mulher eleita presidente da República, um projeto que nunca fez parte da sua vida.

Ao contrário, Marina não pensa em outra coisa desde que deixou o PT. Sem espaço no PV após a campanha de 2010, resolveu criar seu próprio partido, chamado de Rede Sustentabilidade, para concorrer novamente em 2014, mas não conseguiu o registro a tempo de disputar as eleições. Com seu grupo de seguidores, conhecidos por "marinistas" e "sonháticos", resolveu se abrigar provisoriamente no PSB de Eduardo Campos, que já estava em campanha presidencial e a recebeu de braços abertos para ser sua vice. Do outro lado, não se conhecem "dilmistas".

Como aconteceu nos seis anos em que conviveram na Esplanada dos Ministérios, disputando posições e projetos diferentes no governo Lula, montadas em suas certezas, que não abrem muito espaço para o diálogo e o contraditório, agora Marina e Dilma estão frente a frente outra vez. A última pesquisa Datafolha mostra que ambas podem ir para o segundo turno, hoje numa situação de empate técnico, com leve vantagem de Marina, prometendo luta renhida até o final.

Quem ficou numa situação bastante difícil foi o tucano Aécio Neves, único homem ainda na disputa entre os candidatos competitivos. Ensanduichado entre duas mulheres, vai ter que bater nelas para cavar um lugar no segundo turno, ou ficará fora dele, e isso não pega bem num país machista como o nosso, onde ainda está em vigor a Lei Maria da Penha. Como esse filme vai acabar, eu não sei, mas certamente viveremos fortes emoções nos próximos 45 dias. Preparem seus corações!

 

 

 

 

 

 

 

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 Com Marina, PSB sobe, mas Aécio e Dilma não caem

Como já se podia prever, a primeira pesquisa pós-tragédia mostra um crescimento do PSB, com Marina Silva em lugar de Eduardo Campos. A surpresa foi outra: Dilma Rousseff e Aécio Neves  não perderam nenhum voto, ficando exatamente onde estavam na pesquisa anterior  (ver matéria no R7).

Politicologos, pesquisólogos, futurólogos e profetas em geral, passaram os últimos dias especulando sobre quem perderia mais votos para Marina, se Dilma ou Aécio. Pois erraram todos, como mostra a pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira. Por isso, acho melhor fazer previsões só depois do fato consumado, como ensinava Marco Maciel, velho sábio pernambucano.

Eduardo Campos tinha 8% na última pesquisa e Marina Silva surge agora com 21%, um vigoroso crescimento de 13 pontos percentuais para o candidato da chamada "terceira via". De onde vieram então estes votos?

É só fazer algumas contas bem simples.

Em julho, o contingente de eleitores sem candidato que votariam em branco ou nulo era de 13%; não sabiam quem escolher eram 13% e aqueles dispostos a sufragar candidatos nanicos chegavam a 8%. Somando tudo, dava 35% de eleitores que não votariam em Dilma, Aécio e Eduardo.

Agora, a soma deste contingente de eleitores é de 22%: 9% ainda não sabem; 8% preferem votar branco ou nulo e apenas 5% em nanicos.

A diferença entre uma pesquisa e outra é de 13 pontos percentuais, portanto — ou seja, exatamente o total de intenções de voto (21%) que Marina tem a mais do que Eduardo Campos registrava (8%), às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, que começa amanhã.

Claro que a tragédia aérea em que o presidenciável do PSB morreu na quarta-feira passada deve ter forte influência nestes números que provocam uma reviravolta no quadro sucessório, mas há outros motivos a se levar em conta.

Assim como acontece com os acidentes aéreos, mudanças bruscas de rota são causadas por um conjunto de fatores, e não um só. Neste caso, não podemos esquecer o "recall" de Marina Silva, que teve 19% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2010, depois de trocar o PT pelo PV para ser candidata, apenas dois a menos do que nesta pesquisa de agosto de 2014, a 47 dias da eleição.

A entrada de Marina na campanha como candidata a presidente ungida pela família Campos e pelo PSB também não foi surpresa para ninguém, como já havia antecipado aqui na última sexta-feira (ver post).

Além disso, Marina tinha 27% das intenções de voto em abril, na última vez em que seu nome apareceu na lista de candidatos nas pesquisas, antes da oficialização da chapa do PSB encabeçada por Eduardo, com a ex-senadora no papel de vice.

A troca do presidenciável do PSB, da forma trágica como aconteceu, foi um fato tão inesperado que torna agora mais difícil o trabalho dos analistas do futuro, mas não deve ser atribuída à "providência divina", como fez Marina Silva na sexta-feira.

Na verdade, ela não embarcou no voo fatídico de Eduardo porque não queria se encontrar com o correligionário Márcio França para evitar constrangimentos. Márcio era o responsável pela agenda daquele dia na Baixada Santista, seu principal reduto eleitoral, e pela aliança do PSB com o PSDB em São Paulo, o que lhe garantiu o lugar de vice na chapa do governador Geraldo Alckmin.

Administrar agora estas alianças heterodoxas firmadas por Eduardo contra a vontade de Marina — no Rio, por exemplo, o PSB apoia Lindberg Farias, do PT, para governador — é agora um dos primeiros desafios de Marina, que pode crescer ainda mais nas próximas pesquisas, diante do clima emotivo que tomou conta da campanha após os comoventes funerais de Eduardo Campos, no Recife, que duraram todo o domingo, e deram à candidata do PSB o protagonismo na mídia.

Neste primeiro momento, Marina já aparece um ponto à frente de Aécio (21% a 20%), no primeiro turno, e com uma vantagem de quatro pontos sobre Dilma (47% a 43%) num agora quase inevitável segundo turno. Se acontecer, e o adversário de Dilma for Aécio, a presidente derrotaria o tucano por 47% a 38%.

Ao mesmo tempo, uma informação que passou meio escondida nas análises da pesquisa, mas pode influir nas próximas, mostrou o crescimento de 6% nos índices de aprovação do governo Dilma, que passaram de 32% de ótimo e bom, em julho, para 38%, agora, enquanto a avaliação de ruim e péssimo registrava uma queda também de 6% (caiu de 29% para 23%).

Muita calma nesta hora. Melhor é esperar a poeira assentar e avaliar a repercussão dos primeiros programas dos candidatos na televisão, em que Dilma tem o dobro do tempo dos seus dois adversários somados. A próxima pesquisa do Ibope só está prevista para setembro.

 

 

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essa essa Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Com milhares de bandeiras, camisetas, faixas, adesivos e balões, palavras de ordem e punhos erguidos, a missa campal celebrada pela morte de Eduardo Campos, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, na praça da República, no Recife, na manhã deste domingo, deu início para valer à campanha eleitoral de 2014.

Mais de 100 mil pessoas participaram do ato religioso, que se transformou num grande comício, o primeiro deste ano, tomando as ruas próximas, com milhares de materiais de campanha de Eduardo e Marina sendo distribuídos à população. "Não vamos desistir do Brasil", a última frase de Eduardo em entrevista à televisão, na noite anterior à queda do avião em Santos, rapidamente se transformou no lema da campanha de Marina Silva, que só terá sua candidatura presidencial oficialmente lançada pelo PSB na próxima quarta-feira.

ok Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

Sol e chuva, religião e política, comoção e cantoria, tudo se misturou numa grande festa para as câmeras da televisão, em que lágrimas se alternavam com gritos de "Eduardo guerreiro do povo brasileiro" e candidatos de todas as latitudes viraram "papagaios de pirata", demorando-se diante do caixão e postando-se ao lado de parentes de Eduardo, como se fossem da família.

A missa durou uma hora e meia, mas o velório começou de madrugada e iria até a hora do enterro marcado para o final da tarde. Filas quilométricas formaram-se desde cedo sobre as pontes em volta do palácio, com caravanas vindas do interior. Teve repórter de TV que se empolgou tanto, a ponto de chamar todas as autoridades presentes de "chefes de Estado". Portais da grande imprensa familiar registraram que a presidente Dilma foi recebida com vaias, mas esqueceram-se de dizer nos títulos que ela também foi muito aplaudida.

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A presidente Dilma e o ex-presidente Lula chegaram juntos à tenda armada diante do palácio onde foi armado o velório. Discreta e visivelmente emocionada, a agora candidata Marina Silva não entrou no clima de comício, e se manteve em silêncio quase todo o tempo. O tucano Aécio Neves, por enquanto o principal opositor de Dilma, chegou atrasado.

dilma Missa de Eduardo dá início à campanha de Marina

As palavras emoção e multidão foram repetidas milhares de vezes por narradores e repórteres, que já não sabiam mais o que falar. A mãe de Eduardo, Ana, a mulher, Renata, e os cinco filhos recebiam ao mesmo tempo e da mesma forma os cumprimentos de políticos e gente do povo.

Chamou a atenção de todos uma jovem senhora estrategicamente postada atrás dos celebrantes da missa, comandados pelo arcebispo de Olinda, d. Fernando Saburido. De vestido negro e enormes óculos escuros, passou a missa toda ajeitando os longos cabelos e digitando freneticamente no celular até ser retirada por seguranças do alvo das câmeras, que a todo momento mostravam as bandeiras eleitorais de Eduardo e Marina com o número 40 e uma pomba, símbolo do PSB, que muitos não conheciam.

Descansa em paz, Eduardo, que por aqui a guerra está só começando.

 

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essa s Marina Silva é o nome e Alckmin já está reeleito

De volta à lida política, 48 horas após a tragédia de Santos, dois pontos se destacam no noticiário desta sexta-feira (15) e só o imponderável poderá impedir que sejam confirmados pelos fatos: a ex-senadora Marina Silva será a candidata a presidente em substituição a Eduardo Campos na coligação liderada pelo PSB, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, está praticamente reeleito em primeiro turno, segundo o último Datafolha.

Com o apoio da família de Eduardo, do mercado, dos nanicos partidos aliados e da mídia grande, Marina só não será a candidata se não quiser. Uma das poucas pessoas do cenário político nacional a guardar obsequioso luto e respeitoso silêncio pela morte do companheiro de chapa, Marina Silva só irá se manifestar após o enterro, previsto para domingo, mas a sua indicação é dada como certa, até por absoluta falta de opção do PSB, que não tem outro nome de expressão nacional.

Como candidata a vice, a ex-senadora do Acre e ex-ministra do governo Lula já era, desde o primeiro momento, a solução natural para assumir a candidatura a presidente. Se Eduardo a havia escolhido pessoalmente para ser a sua eventual substituta, não faria sentido o PSB escolher outro nome, por mais que algumas lideranças do partido tenham restrições a Marina.

Nem seria necessário o comovente esforço despendido pelo mercado e pela mídia, que nunca tiveram tanto e desabrido protagonismo numa campanha presidencial, para defender a indicação de Marina como adversária de Dilma e Aécio no dia 5 de outubro. Agora, meus amigos, vale tudo para levar a eleição ao segundo turno e, se possível, impedir a reeleição de Dilma, mas tem gente com pressa para definir quem é o mais forte candidato anti-PT.

Leiam esta nota publicada na coluna Painel, da Folha, que mostra bem a degradação a que chegaram os costumes políticos no País:

"Choque _ Um banco de investimentos encomendou pesquisa telefônica para medir a intenção de voto em Marina na quarta-feira, dia do acidente. A enquete foi cancelada porque muitos eleitores se recusaram a responder".

Quer dizer, não respeitam mais ninguém, nem os mortos, nem os eleitores. Na mesma edição, o jornal faz questão de não deixar dúvidas: "Para forçar 2º turno, mercado torce por ex-senadora _ Investidores apostam que candidatura dificultaria a reeleição de Dilma e poderia abrir espaço para Aécio Neves".

E se Marina abrir tanto espaço que pode deixar Aécio para trás? Não importa. A esta altura, qualquer nome serve para impedir o quarto governo seguido do PT. Também sou a favor da alternância do poder, tanto no País como nos Estados, mas há modos e modos de se atingir os objetivos.

Em São Paulo, por exemplo, não há motivos para preocupações de quem só defende a alternância do poder em Brasília:  com 55% dos votos na pesquisa divulgada hoje, Alckmin está praticamente reeleito, depois de duas décadas de domínio tucano no maior colégio eleitoral do País.

O empresário Paulo Skaf, do PMDB, com 16%, e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, do PT, com 5%, continuam onde estão há muito tempo: empacados, sem mostrar força para qualquer reação, a apenas 50 dias da abertura das urnas e às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Com o trágico fato novo da morte de Eduardo Campos, os partidos agora precisam correr para refazer suas estratégias de campanha e o resultado da eleição presidencial torna-se absolutamente imprevisível. Estão todos esperando, sofregamente, pela primeira pesquisa Datafolha com Marina em lugar de Campos, que deverá ser divulgada já neste final de semana para acalmar o mercado e a mídia.

Vida que segue.

 

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futebol Muricy, Ceni e Aidar: os retratos da decadência

Como me recuso a entrar neste Fla-Flu sobre quem ganha e quem perde na corrida presidencial com a morte de Eduardo Campos, num país em que já tem jornalista lançando candidatos prediletos e chapas impossíveis, e fundos abutres especulando na Bolsa antes mesmo do velório, ainda chocado diante do que aconteceu repito o que escrevi logo após o trágico acidente: perdemos todos, perdeu a democracia brasileira, tão carente de novas lideranças políticas (ver post anterior). Acho melhor escrever sobre futebol e dar tempo ao tempo.

Diante de 7 mil testemunhas, na noite chuvosa e gelada de quarta-feira, em pleno estádio do Morumbi, o meu São Paulo passou diante do modesto Bragantino _ time que está na zona de rebaixamento da Série B _ um dos maiores vexames da sua gloriosa história. Perdeu só por 3 a 1, só assistindo o adversário jogar, fazendo lembrar aquela vergonha dos 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa. Aconteceu com o São Paulo, mas é o retrato da decadência do futebol brasileiro, que ontem abateu também Fluminense e Internacional, todos eliminados da Copa do Brasil.

Sou são-paulino desde pequeno, mas confesso que fiquei feliz vendo a alegria dos modestos jogadores do Bragantino, que comemoraram a vitória como se fosse o título do mundial de clubes. Impotente diante do que acontecia em campo, Muricy olhava para o banco de reservas, balançava a cabeça e não fazia nada, tão patético como Felipão diante da Alemanha e da Holanda.

Com o melhor e mais caro elenco do país, Muricy muda a escalação e o esquema a cada jogo, mas não consegue montar um time que preste.  E Rogério Ceni não desiste: levou mais dois belos frangos para fazer companhia aos inúteis Pato e Ganso na granja do Morumbi. Com sua valente arrogância, o presidente Carlos Miguel Aidar sumiu de cena quando tudo começou a dar errado, seguindo o exemplo de José Maria Marin. Herdeiro de uma dinastia de cartolas cheios de soberba que controlam o São Paulo há séculos, como os Havelange-Teixeira-Marin fazem na CBF, Aidar ficou conhecido como um sujeito que compra caro e vende barato, pois dinheiro não é problema (para ele, claro).

Deu pena ver o marrento Muricy, de quem sempre fui admirador de carteirinha, mas está com o prazo de validade vencido, balbuciando na entrevista coletiva após o jogo, sem ter o que dizer, no melhor estilo Felipão, tentando explicar o inexplicável. Felipão fez mal ao nosso futebol não só na seleção, mas pelos efeitos negativos deixados para este pobre Brasileirão, que a cada rodada vai perdendo audiência e público.

Quem vai ter a humildade de reconhecer tudo isso e propor uma verdadeira revolução no nosso futebol, a começar pelas equipes de base, aposentando cartolas, treineiros e ex-jogadores em atividade, para dar lugar aos novos? Alemanha, França e tantos outros países fizeram isso há muitos anos _ e se deram bem. Por que não nós também?

 

 

 

 

 

 

 

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Eduardo Campos Foto Hélio Campos Mello1 Eduardo decidiu ser candidato ainda em 2012

Foto: Hélio Campos Mello

Perdeu a política brasileira, já tão pobre. A morte de  Eduardo Henrique Accioly Campos, aos 49 anos, é uma tragédia não apenas para a família, os amigos e os seus eleitores, mas também para o país. Meu sempre cordial amigo Eduardo era a melhor expressão das nossas novas lideranças políticas, tão raras neste Brasil do século 21. Descobri isso quando fiz com ele duas longas entrevistas, em 2010 e 2012, as primeiras de repercussão nacional, quando ainda era um líder regional.

"Um político do futuro" foi o título da capa da revista Brasileiros, em outubro de 2010, com uma bela foto de Leo Caldas. Nesta primeira entrevista, conversei com ele durante horas, em seu gabinete no Palácio do Campo das Princesas, dias antes da eleição geral de 2010, em que já despontava como o novo campeão de votos. Combinamos que a entrevista só seria publicada se as urnas confirmassem as pesquisas.

Não deu outra: "Campeão de votos entre os candidatos a governador (82,84% dos votos válidos em Pernambuco), Eduardo Campos reafirma a mais simbólica de todas as mensagens emitidas pelas urnas de 3 de outubro: a política brasileira está mudando de geração. E está mudando para valer", escrevi na abertura da matéria.

Voltaria ao Recife em 2012, em meio à cobertura da campanha municipal daquele ano, para um almoço com seu eterno assessor de imprensa, o Evaldo Costa, uma das heranças que recebeu do avô, Miguel Arraes, que também morreu num dia 13 de agosto.

Mal pisamos no saguão do aeroporto dos Guararapes, o fotógrafo Hélio Campos Mello e eu, a brava equipe da Brasileiros, tocou meu celular. "O governador está convidando vocês para almoçar com ele", avisou a gentil secretária Rosa, que nos explicou como chegar ao Centro de Convenções, onde Eduardo Campos estava despachando, enquanto o Palácio do Campo das Princesas passava por uma reforma. O almoço só terminaria às cinco da tarde.

Saí dali com a certeza de que o então governador de Pernambuco seria candidato a presidente da República já em 2014. "Lula X Eduardo Campos _ a guerra dos padrinhos no Recife", foi o título da matéria, que mostrava o início e as causas do afastamento de ambos, em 2012, nesta mesma época do ano.

Meu objetivo era apenas fazer uma reportagem sobre a disputa eleitoral entre PT e PSB, mas a conversa tomou um rumo diferente, com um verdadeiro desabafo de Eduardo, que nem esperava pelas perguntas para falar da mágoa que estava sentindo do velho amigo e aliado. O governador sabia que eu também era um velho amigo de Lula, pois trabalhamos juntos _ ele, como ministro da Ciência e Tecnologia, e eu, como Secretário de Imprensa, nos dois primeiros anos do governo do PT. Talvez por isso mesmo tenha sido tão franco e direto, como se poderá ver em alguns trechos da matéria que reproduzo abaixo:

O clima esquentou de vez no começo de agosto, quando o presidente nacional do PT, Rui Falcão, deputado estadual em São Paulo, deu uma entrevista ao Jornal do Commercio, de Pernambuco, em que fala do caráter nacional da disputa: "É uma questão de honra para nós ganhar a eleição no Recife". Se ainda não era, passou a ser uma questão de honra também para Eduardo Campos, que não consegue falar com seu amigo Lula desde o começo de julho, quando tiveram um rápido encontro em São Paulo, depois de definidas as duas candidaturas. De olho em 2014, o que ambos os partidos negam, o fato é que a disputa eleitoral no Recife acabou jogando em campos opostos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o herdeiro político de Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco, fiel aliado do PT desde a primeira eleição presidencial, em 1989.  

(...) De bom humor e animado como sempre, o governador pernambucano mostrou apetite para repetir o prato e falar de política durante o longo almoço com cardápio trivial: peixe ao molho de maracujá, bife a rolê, arroz enfeitado e panqueca de ricota com espinafre. Para acompanhar, sucos de frutas da terra e refrigerantes. Só depois do cafezinho, conforme o combinado, peguei caderno e caneta e fui direto ao assunto desta reportagem: como ele está analisando o cenário da disputa de 2012, principalmente nas capitais onde se enfrentam PT e PSB, tendo como pano de fundo a sucessão presidencial em 2014. "A eleição é apenas municipal, sempre foi assim, mas eu sei que todo mundo quer fazer agora alguma ligação que remeta a 2014".

Como bom nordestino, Eduardo não se recusou a fazer esta ligação, contando com detalhes como se chegou à ruptura, por telefone, quando ele ligou para o ex-presidente:

"Estou falando do gabinete onde o doutor Arraes recebeu os milicos, não sou homem de ser enquadrado por ninguém. Posso ser convencido, mas enquadrado, não". Foi neste ponto , depois de vários desencontros, que se deu a ruptura entre os dois velhos amigos, um magoado com o outro. E começaram os ataques mútuos de líderes dos dois partidos pela imprensa, que só pioraram as coisas, a ponto de Eduardo não conseguir mais falar com o ex-presidente. "As informações chegam filtradas a Lula, que fica isolado lá no instituto dele, falando com assessores e dirigentes do PT, como Rui Falcão, e só quer saber da eleição em São Paulo. Eu esperei até o último dia para conseguir um entendimento com o PT daqui, ficamos de conversar, mas tive que escolher um candidato no meu partido porque já estávamos correndo o risco de perder a eleição para a direita, com a cidade sangrando e o PT brigando. Acharam que eu estava blefando".

Agora que todos sabemos que Eduardo não era de blefar, vamos lembrar outro episódio.

Atendendo ao conselho de Dilma, o governador ligou para Lula, mas lhe disseram que o ex-presidente estava num sítio descansando e só poderia entrar em contato depois do dia 20 de julho. "Estamos no dia 24 de agosto e até hoje ele não ligou..."

Até hoje, por mais que seja provocado por jornalistas, Eduardo jamais falou mal de Lula, embora tenha feito muitos ataques ao governo de Dilma Rousseff durante a campanha presidencial. Como os dois não se falavam pessoalmente, o diálogo era feito por intermediários, o que só gerava mais futricas. Um deles relatou a Eduardo uma frase que teria ouvido de Lula:

"Eu queria fazer o Eduardo presidente pela minha mão, na hora certa, mas agora ele resolveu chegar lá sozinho".

Não chegou nem nunca chegará, mas nós todos ainda vamos sentir muita falta de políticos como Eduardo Campos, um cara que era capaz de falar e fazer o que seu coração mandava, sem querer levar vantagem em tudo.

***

Estava terminando de escrever este texto, com muita dificuldade, porque não consigo falar da morte de ninguém, depois da morte de meu pai, quando me ligou o Roberto Kalil, nosso médico e amigo comum, que me fez lembrar do que aconteceu com Ulysses Guimarães, outro político fora de série que morreu num acidente aéreo e desapareceu no mar de Angra dos Reis, não muito longe de Santos, onde caiu o jatinho que levava Eduardo Campos do Rio para o Guarujá. Chovia muito na região naquela hora, pouco antes das 10 da manhã.

Durante a Campanha das Diretas, em 1984, quase morri num avião ao lado de Ulysses _ e por culpa da teimosia do velho. Voávamos de Macapá, no Amapá, para Belém do Pará, atravessando um temporal amazônico. "Avião comigo não cai, jornalista, larga mão de besteira seu c...", desafiava-me ele, ao ver o medroso repórter rezando sem parar.

O piloto havia avisado logo cedo que não havia nenhuma condição de levantarmos voo, mas Ulysses tanto insistiu que partimos por volta das 11 da manhã. Logo depois da decolagem, com o avião jogando para cima, para baixo e para os lados, o "Senhor Diretas" começou a passar muito mal.

Com a experiência de um veterano piloto de muitos temporais, trocou de roupa no avião mesmo, se recompôs, e desceu em Belém todo pimpão, dando entrevistas, como se nada tivesse acontecido. Daquela vez sobrevivemos, mas havia outro temporal no caminho de Ulysses, e ele teimou em mandar o piloto do helicóptero levantar voo de Angra dos Reis para ir a São Paulo, quando não podia. Ainda bem que daquela vez eu não estava junto... O resto tudo agora é história.

***

Quem quiser saber mais sobre a vida, o pensamento e o estilo de Eduardo Campos pode acessar o arquivo: www.revistabrasileiros.com.br

Vida que segue, agora sem o Eduardo Campos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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FUP20120525073 Buraco G Sabesp busca petróleo em buraco no Jardim Paulista?

Manhã de segunda-feira. Assunto não falta. Só desgraça, claro, no Brasil e no mundo. Por isso, pensei em escrever sobre futebol, mas também não me animei, depois de ler a perfeita análise de Juca Kfouri sobre a rodada de domingo do Brasileirão, sob o título "Diga basta, torcedor!".

Disse tudo: "Daí, uma reflexão diante da miséria que assola nosso futebol: imagine o que acontecerá se o torcedor, pacificamente, qual Gandhi, deixar de ver os jogos? Resistência pacífica mesmo! Estádios ainda mais vazios que o habitual, audiência em queda, patrocinadores que gastam milhões para expor suas marcas em desespero, o que acontecerá? Imagine".

Pois posso imaginar, caro Juca, mas aí o que nos restará para fazer de mais emocionante nas velhas tardes de domingo?

Poderia escrever sobre o racionamento oficial de água, que atinge 2,1 milhões de paulistas, fora os não contabilizados. Ou sobre o ebola, que se alastra pela África, a nova trégua de 72 horas entre Hamas e Israel, enquanto palestinos continuam morrendo, entre eles um menino de 14 anos (não há registro de vítimas israelenses), o tiroteio na CPI da Petrobras, a grana correndo na campanha eleitoral, e por aí afora.

Também renderia uma boa matéria a ciclovia da avenida Sumaré, que foi pintada de vermelho, uma nova obra de Fernando Haddad, já chamado "Prefeito Suvinil", por espalhar faixas exclusivas pela cidade, tirando o espaço dos carros para dar lugar a bicicletas e ônibus, algo considerado politicamente correto. Desta vez, porém, o prefeito arrumou encrenca não só com os donos de carros (não é meu caso), mas com os pedestres, pois a ciclovia foi implantada no mesmo espaço antes reservado ao pessoal das caminhadas matinais.

Quando os assuntos são muitos, às vezes a gente se esquece do que está mais próximo da nossa janela, a exemplo da interminável novela urbana que venho acompanhando diariamente do meu privilegiado posto de observação.

Começou na mesma semana da Copa no Brasil. Com o som inconfundível das britadeiras, a Sabesp abriu pela enésima vez um buraco na alameda Ministro Rocha Azevedo, esquina com a alameda Lorena, no coração do Jardim Paulista, bairro nobre da cidade. Duas pistas foram fechadas com cones (não, o Fred não estava lá) e fitas. Logo, máquinas e caminhões de uma empreiteira terceirizada pela Sabesp se perfilaram para dar mãos à obra, provocando grandes congestionamentos e uma sinfonia de buzinas _ e, assim, do jeito que começou, continua tudo lá até hoje, dois meses depois, portanto, sem prazo para um final feliz.

Se alguém estiver interessado em entender os motivos da crise de desabastecimento de água em São Paulo, basta passar apenas algumas horas naquele lugar para conhecer o padrão Sabesp de qualidade, eficiência e respeito ao consumidor.

Dois ou três operários por dia se revezam no buraco, que anda a cada semana, em direção à avenida Paulista, enquanto outros ficam olhando ou esperam sua vez nos caminhões, todos sem mostrar muita pressa. Nunca vi ali um engenheiro da empreiteira ou da Sabesp, algum fiscal da prefeitura, nada que pudesse sugerir a preocupação do poder público com o andamento da obra.

Muito menos alguma boa alma da Sabesp, que tem uma fornida equipe de comunicação e não poupa dinheiro com investimentos em propagada, preocupou-se em informar aos moradores o que, afinal, a companhia está fazendo ali, quanto tempo vai durar a "obra", qual o seu custo, nada.

Claro que cabe à empresa, controlada pelo governo do Estado, e com 49% das ações na Bolsa, teoricamente responsável pelo saneamento básico de 27,7 milhões de pessoas, cuidar da manutenção da sua rede subterrânea de água e esgoto, mas não custaria nada dar uma satisfação ao distinto público, assim como tomar providências para amenizar os transtornos e apressar a conclusão dos serviços. Os moradores da região e os leitores deste Balaio já ficariam satisfeitos se recebessem algumas informações sobre o destino do buraco.

Motoristas de táxi de um ponto próximo já especulam se a Sabesp não teria aderido aos programas do "pré-sal" e resolvido investir na prospecção de petróleo em pleno Jardim Paulista. Dia desses, quem sabe, jorra ali o chamado ouro negro e os acionistas privados poderão comemorar a subida das suas ações.

"Como a Sabesp não teve dinheiro para investir na manutenção e tem para distribuir lucros na bolsa de Nova York?", quer saber o vereador Laércio Benko, do PHS, que entrevistei semana passada na Record News, durante a série de sabatinas da emissora com os candidatos ao governo do Estado. Interessado em receber uma resposta, como nós também, Benko apresentou requerimento, que já foi aprovado, pedindo a instauração de uma CPI na Câmara Municipal para investigar a companhia.

Vamos esperar sentados, que de pé cansa. Com a palavra, a Sabesp.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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9cfdeojot7 1cow7d56yn file Contra tudo e contra todos, Dilma resiste

Foi uma atrás da outra: vai faltar energia, a Copa vai ser um vexame, a base aliada vai debandar, a CPI da Petrobras vai ser um escândalo, a inflação vai estourar, a economia está indo para o brejo, Dilma vai despencar. Só notícias negativas anteciparam cada nova pesquisa, mas os números teimam em não confirmar as previsões catastróficas dos "analistas independentes" e especialistas em geral.

Desde o começo do ano, é sempre a mesma história e, no entanto, qualquer que seja a desgraça, Dilma continua lá firme no mesmo lugar, enquanto seus concorrentes ficam praticamente empacados nas pesquisas. É um fenômeno de resiliência eleitoral que eu mesmo não consigo entender e muito menos explicar.

Afinal, Dilma Rousseff luta contra tudo e contra todos ao mesmo tempo, com a maior parte do empresariado, do Congresso e da mídia, e até uma parte do PT, fazendo o possível para criar obstáculos e impedir que a presidente se reeleja, pouco podendo contar com a ajuda dos candidatos do partido aos governos estaduais.

A nova pesquisa presidencial do Ibope, divulgada na noite de quinta-feira, confirmou o que falei ao Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News. Nem o aeroporto público-privado de Cláudio, construído nas terras da família quando Aécio Neves era governador de Minas, nem a denúncia sobre a "farsa da CPI da Petrobras", ressuscitada para atacar Dilma Rousseff, alterariam dramaticamente os números desta semana.

Em relação a julho, como acontece desde abril, tudo ficou dentro das margens de erro: Dilma permaneceu com os mesmos 38%, Aécio foi de 22% para 23% e Eduardo Campos passou de 8% para 9%. O índice de Dilma é igual à soma de todos os seus adversários, o que ainda permite prever uma decisão no primeiro turno (faltaria apenas um voto), até porque a presidente tem um latifúndio de tempo na propaganda eleitoral. .

Denúncias, por mais bombásticas que sejam, não afetam o humor dos eleitores como em outros tempos quando a mídia hegemônica construía e destruía candidaturas conforme seus interesses. O destino de Dilma continua dependendo dos rumos da economia, que, a continuar como está, ainda pode levar a eleição ao segundo turno. Neste caso, a disputa seria bastante acirrada entre o PT e o candidato anti-PT —  ao que tudo indica, o tucano Aécio Neves. A dupla Eduardo-Marina até agora não emplacou.

A aprovação do governo Dilma subiu três pontos de uma pesquisa para outra, de 44% para 47%, renovando as chances de Dilma garantir a reeleição num turno só. A desaprovação caiu um ponto, de 505 para 49%. E, a não ser que aconteça alguma catástrofe ou um grave fato novo na economia, tudo deverá continuar mais ou menos como está até o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, no dia 19 de agosto.

Convido os caros leitores do Balaio a me ajudarem a entender este fenômeno da resistência de Dilma Rousseff num clima hostil a ela: como explicar?

De vez em quando, a gente acerta. Vida que segue.

 

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poluição Está difícil até de respirar neste deserto paulista

Em São Paulo, o que está ruim sempre pode ficar pior, tornando a vida mais insuportável na maior cidade do país. Agora, se já estava faltando água em muitas casas, bairros e cidades do Estado, ficou difícil até de respirar neste clima de deserto que prevê para esta quinta-feira o dia mais seco do ano.

Não é exagero o que estou dizendo: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alerta que a umidade relativa do ar pode cair aos 10%. Para se ter uma ideia do que isso representa, níveis de umidade abaixo de 12% levam ao estado de emergência, segundo os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS).

A poluição em São Paulo nos últimos dias pode ser vista a olho nu, dá para se pegar com a mão, nem é preciso fazer muitas medições. Basta abrir a janela e respirar fundo para começar a tossir, sentir a garganta seca e os olhos ardendo. "Com isso, dentro de casa, as pessoas devem manter a janela fechada e cuidar da hidratação", recomenda o pneumologista Pedro Genta, do Hospital Beneficência Portuguesa, em entrevista ao repórter Fabrício Lobel, da "Folha". E quem precisa sair à rua para trabalhar?  Está difícil. Crianças e idosos, como eu, sofrem mais.

O médico explica que o clima seco torna mais frequentes as crises de doenças respiratórias, como asma, enfisemas e bronquite. Aí chegamos a outro gargalo: se, em tempos normais, os postos de saúde e hospitais já não dão conta de atender a população, no momento em que São Paulo se equipara ao Atacama, no Chile, considerado como o deserto mais seco do mundo, que ontem marcou 12% de umidade relativa do ar, quem é que vai cuidar das vítimas da poluição?

A capacidade dos reservatórios do Sistema Cantareira já está abaixo dos 15%, com volume morto e tudo. Estamos há tempos tomando lama tratada e nada indica que a situação possa melhorar tão cedo. Em compensação, a Sabesp, empresa controlada pelo governo do Estado, que deveria ser responsável por garantir o abastecimento de água, distribuiu no ano passado quase R$ 2 bilhões em dividendos aos seus acionistas, e investiu pesado em propaganda, como se pudéssemos escolher o fornecedor de água para as nossas torneiras.

Como não tenho ações da Sabesp, só me resta sonhar em um dia poder morar nalguma praia do nordeste e ficar lá tomando água de coco, ouvindo de longe as notícias assustadoras do Sul Maravilha, o paraíso que antigamente fazia o povo da região querer vir para cá. Está tudo virando de cabeça para o ar, e a gente só assistindo... Pois é, vai ficando nais difícil até de respirar neste deserto de homens e ideias chamado São Paulo, pobre São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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petrobras A farsa da CPI: por que oposição foge das perguntas?

Um detalhe que me intriga nesta denúncia sobre a "farsa da CPI" feita pela revista "Veja", segundo a qual perguntas e respostas teriam sido combinadas entre parlamentares governistas e funcionários da Petrobras interrogados na Comissão Mista, e logo transformada no novo escândalo da campanha eleitoral: por que, então, deputados e senadores da oposição, que tanto batalharam para investigar a maior empresa do país, não levantaram as questões que julgam necessárias?

Se a base aliada promoveu um jogo de cartas marcadas, como sempre acontece em qualquer CPI do mundo onde o governo tem maioria no Congresso, admitindo-se que sejam verdadeiras todas as revelações feitas pela revista oposicionista, bastaria que os parlamentares liderados pelo PSDB e DEM comparecessem às sessões para provar que os diretores da Petrobras estavam mentindo, apresentando provas de que eles sabiam estar causando grandes prejuízos à empresa no episódio da compra da Refinaria de Pasadena, e apontando os responsáveis.

Ninguém poderia imaginar que eles também aliviassem a barra dos depoentes e, assim, o país ficaria sabendo o que realmente aconteceu. Por que eles fugiram das perguntas e deixaram o palco livre para os governistas montarem a "farsa da CPI"? Agora, não adianta alegar que os governistas estavam em ampla maioria nas comissões criadas na Câmara e no Senado. Isto eles já sabiam bem antes da instalação da CPI mista. E ninguém poderia impedir que fizessem suas perguntas.

Em primeiro lugar, respondo, porque uns e outros estavam mais preocupados com a Copa no Brasil; depois, criaram um "recesso branco" para cuidar das suas campanhas, do qual ainda não voltaram, e provavelmente não o farão antes das eleições, não dando quórum para que a Comissão Mista pudesse se reunir. O fato é que estes parlamentares e candidatos da oposição, que agora aparecem injuriados sapateando na mídia, ameaçando ir à Justiça, demonstraram este tempo todo foi muita vagabundagem e pouco interesse em se preparar para os interrogatórios, como muito bem constata Jânio de Freitas, em sua coluna na "Folha" desta terça-feira, sob o título "O banal faz escândalo".

"Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio [um dos coordenadores da campanha do presidenciável tucano Aécio Neves, acrescento]".

E conclui Jânio de Freitas, um dos meus mestres no jornalismo: "Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral".

Tudo, na verdade, está virando "pasto eleitoral", ou alguém acredita que a verdadeira preocupação do PSDB e do DEM é zelar pela boa administração da Petrobras, que esteve sob o comando deles por oito anos?

 

 

 

 

 

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