ok Dilma, Aécio e Eduardo: 2014 já tem a largada definida

Com a desistência de José Serra, anunciada esta semana, e Marina Silva recolhida a um segundo plano como coadjuvante de Eduardo Campos, 2014 vai começar tendo a largada da corrida sucessória definida e três candidatos já em campanha, embora o início oficial, segundo o calendário do TSE, esteja marcado para o dia 6 de julho.

Em resumo: mesmo com a entrada de um ou outro figurante nanico, a disputa se dará mesmo entre a presidente Dilma Rousseff, do PT, o senador tucano Aécio Neves e o governador pernambucano Eduardo Campos, presidente do PSB.

Ainda que Marina permaneça à frente de Eduardo nas próximas pesquisas, não aposto um centavo que o governador cederá a candidatura presidencial a ela, que aparece em segundo lugar, e é a única que poderia provocar um segundo turno, pelos levantamentos divulgados até agora.

Dilma entra na corrida com larga vantagem, oscilando com 40 % das intenções de votos, o dobro de Aécio, que tem o dobro de Eduardo, ainda lutando para sair dos índices de um dígito. Na verdade, o jovem candidato do PSB entra nesta disputa de olhos voltados já para 2018, com o objetivo principal de marcar posição e tornar seu nome nacionalmente mais conhecido. Se conseguir mais do que isso, será lucro, o que, no momento, é pouco provável.

O embate principal, por tudo o que se viu e ouviu nas movimentações dos três candidatos nos últimos dias, se dará mais uma vez entre PT e PSDB. Tanto Dilma como Aécio escolheram um ao outro como o adversário principal a combater, enquanto Eduardo corre por fora, mais preocupado por enquanto na construção de palanques e alianças do que em bater no governo do qual participou até outro dia.

A esperança dos candidatos de oposição de mudar o quadro atual,  favorável à reeleição de Dilma, se baseia mais em obstáculos que o governo poderá enfrentar, em ano de dificuldades econômicas e possíveis protestos durante a Copa do Mundo, do que propriamente em alguma ideia nova ou proposta viável capaz de cativar os 66% de eleitores que gostariam de ver mudanças no país.

A presidente termina este ano de baixo crescimento com muita desconfiança dos investidores e perspectivas modestas, mas apresentando indicadores positivos naqueles quesitos que falam mais de perto ao bolso e ao coração do eleitor: emprego e renda. Segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira, o desemprego caiu para 4,6%, o menor índice da série histórica iniciada em 2002, e a renda média do trabalhador brasileiro cresceu 3% em relação a outubro do ano passado. A inflação deve fechar o ano em 5,85%, mais uma vez dentro da meta.

Em seu encontro de fim de ano com os jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Planalto, Dilma tocou num ponto sensível: "Há uma tendência de olhar o copo meio vazio. Isso é complicado, porque uma parte da economia é expectativa. Se você instila desconfiança isso é muito ruim".

Não foi por outro motivo que, ao apresentar seu genérico esboço de programa de governo esta semana, Aécio Neves dedicou boa parte do discurso a falar o que os empresários queriam ouvir, já que andam de bico com Dilma, por conta, segundo eles, de uma exagerada intervenção do governo na economia. O chamado mundo do trabalho só entrou no programa na última hora, por sugestão de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, provável aliado de Aécio na disputa presidencial. Até agora, o PSDB está sozinho na parada. O PPS velho de guerra aderiu ao PSB e o DEM ainda está esperando para ver o rumo dos ventos.

Diante disso, a oposição e seus parceiros na grande mídia procuraram investir em caminhos alternativos para desgastar Dilma, e o principal deles é anunciar e incentivar grandes protestos nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo, tentando repetir o que aconteceu em junho passado, quando as grandes manifestações de rua abalaram seriamente a popularidade da presidente.

Só fatos novos e muito graves poderão romper a atual hegemonia petista, que completaria 16 anos no governo central, caso se confirme a vitória de Dilma. Fora isso, a única coisa certa é que o Carnaval em 2014 cai no final de fevereiro, início de março, o que fará o ano político começar mais tarde. E aí logo vem a Copa do Mundo, depois as eleições, as festas de final de ano e, então, 2015 já estará batendo na porta.

Feliz 2015!

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ABr270213DSC 5950 Paulo Skaf no ar: candidato é do PMDB ou da Fiesp?

Enquanto em Brasília os meritíssimos ministros do Supremo Tribunal Federal ainda estão decidindo como pode ser feito o financiamento de campanhas eleitorais, um candidato atípico  já fez sua opção, sem dúvida bastante original. Presidente da Fiesp, a poderosa federação das indústrias de São Paulo, e candidato do PMDB a governador do Estado, o empresário Paulo Skaf criou por conta própria o financiamento público-privado de campanha.

Quem costuma ver comerciais de televisão fica sem saber se o candidato é do PMDB ou da Fiesp, já que a campanha embaralha tudo. Só este ano, o peemedebista já torrou R$ 32 milhões de reais de verbas do Sesi-Senai para se promover. As duas entidades do chamado Sistema "S" são ligadas à Fiesp e financiadas com isenção fiscal dado às empresas.

Ou seja, quem fica com a conta somos nós, já que os gastos com estas generosas campanhas na TV são pagos com o dinheiro que o governo deixa de arrecadar dos nossos impostos. Fica a pergunta: quantas outras obras poderiam ter sido feitas pelo Sesi-Senai com esta montanha de dinheiro gasto em promoção pessoal?

Sob o comando da grife de Duda Mendonça, o candidato anfíbio é uma estrela constante nos comerciais destas entidades, em que ele sempre aparece sorridente, ao lado de crianças felizes, inaugurando obras do Sesi-Senai. De vez em quando, no mesmo estilo, o personagem também aparece em comerciais do PMDB.

Neste último final de semana, Skaf ocupou os intervalos das principais emissoras de TV para faturar, em nome da Fiesp, a paternidade da decisão da Justiça que suspendeu a cobrança do aumento do IPTU. Detalhe: quem entrou primeiro com o recurso na Justiça foi o PSDB, partido de oposição na cidade, enquanto a bancada do PMDB na Câmara Municipal votou a favor do aumento do IPTU.

Para Paulo Skaf, pouco importa. O que interessa é levar vantagem em tudo, ainda mais agora que ele fez uma completa reforma na fachada, com o vistoso implante de uma cabeleira negra. Além de falar aos que criticaram o aumento do IPTU, o líder empresarial aproveitou também para se dirigir aos órfãos dos protestos de junho: "Acabou o tempo em que o Brasil aceitava tudo de braços cruzados, sem lutar pelos seus direitos".

Skaf é reincidente. Nas eleições passadas para governador, em 2010, também sob a batuta de Duda Mendonça, Skaf adotou o mesmo esquema, só que o partido era outro: o Partido Socialista Brasileiro, de Eduardo Campos, o que causou uma certa estranheza. Afinal, deve ter sido o primeiro caso de presidente da Fiesp defendendo o socialismo. Teve por volta de um milhão de votos.

Agora, já mais conhecido, depois de outros quatro anos de propaganda do Sesi-Senai, sempre tendo o candidato como atração principal, Paulo Skaf surge em segundo lugar nas pesquisas, que, por enquanto, apontam para a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

E vai ficar tudo por isso mesmo? Ninguém vai entrar com uma representação no TSE contra este dublê de líder empresarial e candidato, que utiliza verbas públicas alocadas pelo governo federal no sistema "S" para fazer sua campanha a governador? É justo isso?

Quem tiver as respostas pode enviar aqui para o nosso Balaio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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serra aecio ae 20100403 g Serra sai de fininho da campanha do eu sozinho

O título até rimou, mas é o melhor resumo da ópera bufa protagonizada nos últimos meses pelo ex-pré-candidato José Serra, do PSDB. Não poderia ter sido mais melancólico o anúncio da sua desistência num texto de módicas sete linhas publicado em seu Facebook, às 19h56 desta segunda-feira, que reproduzo abaixo, tal como foi escrito:

"Para esclarecer a amigos que têm me perguntado:

Como a maioria dos dirigentes do partido acha conveniente formalizar o quanto antes o nome de Aécio Neves para concorrer à Presidência da República, devem fazê-lo sem demora. Agradeço a todos aqueles que têm manifestado o desejo, pessoalmente ou por intermédio de pesquisas, de que eu concorra novamente".

serra ok Serra sai de fininho da campanha do eu sozinho

Pouco depois, ele entrou em contato com o portal UOL para desmentir a informação já publicada em todos os meios eletrônicos. Como assim?

Se ele sugere que o partido "formalize o quanto antes o nome de Aécio Neves", é porque está tirando o time de campo, por absoluta falta de apoio, tanto dentro como fora do PSDB.

Demorou para cair a ficha de Serra, que passou meses vagando pelo país a bordo de uma campanha do "eu sozinho", sem ter a seu lado nenhuma liderança importante do PSDB, apenas para falar mal do governo, e agora resolveu sair de fininho da disputa, embora ainda queira deixar uma porta aberta.

Nas pesquisas por ele citadas, o ex-governador de São Paulo, que foi duas vezes derrotado ao tentar a Presidência da República, fazendo lembrar a "Viúva Porcina", lendária personagem de Regina Duarte, aquela "que foi sem nunca ter sido", Serra levava uma pequena vantagem sobre Aécio, mas os seus índices de rejeição eram tão altos que inviabilizavam a candidatura.

Foi isso, a meu ver, mais do que tudo, que levou Serra a colocar sua mensagem no Facebook, um dia antes de Aécio Neves apresentar as diretrizes do seu futuro programa de governo (ver matéria "Aécio lança projeto para eleição 2014" aqui no R7).

Com isso, o ex-pré-candidato acabou roubando espaço do seu adversário tucano no noticiário dos jornais, no mesmo momento em que se tornou público o rompimento de Aécio com seu marqueteiro, o antropólogo Renato Pereira.

O que era para ser uma terça-feira festiva do PSDB, com o objetivo de colocar o bloco de Aécio Neves nas ruas, acabou ofuscada, mais uma vez, por problemas internos do partido e da candidatura.

Para completar, o antigo aliado Roberto Freire, do PPS, do alto dos seus 16 segundos de TV e meia dúzia de deputados, resolveu oficializar o apoio do seu partido a Eduardo Campos, do PSB, que disputa uma vaga com o tucano no segundo turno, com o pragmático argumento de que é "mais fácil ganhar com Campos do que com Aécio".

Como Freire, fiel seguidor de José Serra, não rasga dinheiro e gosta de surfar numa boa onda, é bom Aécio se precaver. O único objetivo de Serra daqui para a frente pode ser o de atazanar a vida dele, dando o troco pela falta de apoio do mineiro às suas campanhas presidenciais.

Desta forma, a nove meses e meio das eleições de 2014, o PSDB ainda não conseguiu fechar aliança com nenhum outro partido. Agora é esperar pelas próximas pesquisas para se saber se era mesmo a sombra de Serra que atrapalhava a campanha de Aécio ou se desta vez os tucanos correm o risco, pela primeira vez nos últimos 20 anos, de ficarem fora do segundo turno por falta de um candidato competitivo.

Fernando Henrique Cardoso, que ganhou duas vezes de Lula no primeiro turno, patrono da candidatura de Aécio, deve ter ficado feliz com a decisão de Serra _ se é que ela foi mesmo para valer.

Para quem já chegou a registrar em cartório a garantia de que não seria candidato a governador, durante sua campanha a prefeito de São Paulo, na década passada, e acabou sendo, tudo é possível. Só não se deve esperar um entusiasmado apoio de José Serra a Aécio Neves. Aí também já seria pedir demais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Aécio Neves faz um inventário de terra arrasada

 

 

Aos leitores,

reitero mais uma vez que este blog não publica comentários que tratam da vida pessoal de homens públicos, sejam eles candidatos ou não, seja qual for o partido.

Não adianta perder tempo tratando de assuntos que estão fora do debate político.

Grato pela compreensão,

Ricardo Kotscho

***

É claro que não se deve esperar de um candidato de oposição elogios e mesuras com quem está no poder e quer a reeleição. Oposição é oposição, governo é governo, já dizia o velho conselheiro. Seria razoável, no entanto, que um pretendente ao cargo máximo da Nação exponha, com clareza, onde o país está dando certo e o trabalho deve ter continuidade, onde está errando e precisa ser consertado e o que falta ser feito para o povo viver melhor.

Nada disso se encontra no artigo "Para mudar o Brasil", do candidato Aécio Neves, publicado nesta segunda-feira na nobre página 2 da Folha, uma espécie de amostra grátis da "declaração de princípios programáticos" que o tucano pretende anunciar solenemente amanhã em Brasília. Trata-se, na verdade, de um inventário das mazelas nacionais, como se o Brasil fosse uma terra arrasada, onde é preciso começar tudo de novo.

Aécio adverte logo no início que "não se trata de um diagnóstico técnico ou de um programa de governo, mas de reivindicações, cobranças, expectativas e sentimentos vindos dos quatro cantos do país, que constituem pontos de partida para o aprofundamento do diálogo com os brasileiros".

Após contar que ouviu "profissionais e militantes das mais diversas causas" (não diz quais), o senador mineiro afirma: "Constatamos que as urgências de dez anos atrás permanecem as mesmas de hoje. E vimos surgir novos desafios".

Ou seja, o país não fez mais nada desde que os tucanos deixaram o poder. Na visão de Aécio, em suas andanças na pré-campanha eleitoral, o Brasil ficou congelado no tempo, só produzindo desgraças, como podemos ver em alguns exemplos abaixo reproduzidos:

"Testemunhamos a luta diária das famílias nordestinas, vítimas e reféns da seca e os limites do atual projeto de gerenciamento de pobreza extrema, sem horizonte concreto capaz de libertar e habilitar uma nova cidadania". Como se fará isso?

"Fomos impactados pela tragédia de milhares de vidas perdidas impunemente nas grandes cidades, em um país que não tem sequer um arremedo de política nacional de segurança, e pelo desastre cotidiano de um sistema de saúde abandonado em macas pelos corredores de hospitais superlotados, em filas imensas, em demora, desvios e desrespeito". Quais seriam as soluções?

"Foi possível ver de perto, no Centro-Oeste, a contradição entre a alta produtividade brasileira da porteira para dentro e os gargalos da infraestrutura precária que se eternizaram da porteira para fora, travando nosso desenvolvimento". Dez anos atrás, como era?

"É desolador constatar o declínio da indústria de transformação e a extinção dos melhores empregos e como fazem falta ao país o direito básico do cidadão de ter acesso a uma educação de qualidade, os anos perdidos em escolaridade e uma mão de obra mais qualificada". Não custava nada, por exemplo, reconhecer que o país tem hoje os mais baixos índices de desemprego da sua história  e os mais altos de renda, mas ainda é pouco.

"Descortina-se um país inteiro ainda a ser construído, que demanda a superação do 'nós e eles', estimulado pelo poder central, e a construção de uma inédita convergência em torno das grandes causas nacionais". Tudo bem, beleza, mas por que os tucanos não fizeram isso nos oito anos em que ficaram no Palácio do Planalto?

Só falta, enfim, combinar tudo isso com Sua Excelência, o eleitor, como lembra hoje nota do site político 247: "Aécio quer ganhar o PIB, antes dos eleitores. O senador mineiro e presidenciável do PSDB deve contemplar reivindicações de empresários no pré-programa do partido para as eleições de 2014(...) Aécio deve focar em uma reforma da política de intervenção estatal na economia, criticada pelo setor privado".

De fato, Aécio, assim como Eduardo Campos, já mantiveram longas reuniões com o empresariado nacional, em São Paulo, Rio e Brasília. Aécio tem mais um jantar hoje marcado pelo ex-ministro Armínio Fraga com o PIB do Rio de Janeiro.

Tanto Aécio como Eduardo investiram muito nos encontros com empresários este ano, o que talvez explique a sofreguidão com que a oposição e sua mídia aliada combatem o projeto contra o financiamento privado de campanhas, que está em votação no Supremo Tribunal Federal. Até agora, o placar está 4 a 0 contra o financiamento privado, que é o que interessa aos candidatos de oposição. Por mais poderosos que sejam, os donos do PIB não têm tantos votos assim.

É preciso chegar ao coração do eleitor por outros meios e não será, certamente, o escolhido por Aécio para encerrar este artigo na Folha: "É hora de somar forças para a construção coletiva de um novo projeto para mudar de verdade o Brasil". Isto poderia ser subscrito por qualquer candidato, a qualquer cargo, em qualquer época, em qualquer lugar. Que novo projeto é esse, ainda não sabemos.

Aécio prometeu que vai anunciar amanhã "as primeiras ideias recolhidas em encontros regionais, que, acreditamos, podem representar as bases de uma nova agenda para o Brasil".  Aguardemos, pois. A campanha eleitoral, que já começou, está precisando exatamente disso: novas ideias, e não antigas lamúrias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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torcedores Agora somos todos da Portuguesa desde criancinhas

Torcedores da Portuguesa fazem protesto na Avenida Paulista (Foto: LEVI BIANCO/BRAZIL PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

Passamos o ano ouvindo falar em judicialização da política, com o Supremo Tribunal Federal ocupando o vazio deixado pelo Congresso Nacional, como acontece ainda agora nesta discussão sobre financiamento privado de campanha, tema de comentário que fiz quinta-feira no Jornal da Record News (ver no site do JRN aqui ao lado).

E chegamos ao final do ano sob o império da judicialização do futebol: a partir das 15 horas desta segunda-feira, como acontece desde o século passado, o Fluminense dos doutores vai tentar novamente ganhar no "tapetão" dos tribunais esportivos o que não foi capaz de conquistar no campo de jogo.

A vítima da hora é a Portuguesa de Desportos, que pode perder quatro pontos, acusada de ter utilizado por alguns minutos um jogador que estava suspenso num jogo que já não valia mais nada.

O time paulista alega que foi uma falha de comunicação do seu advogado, indicado, aliás, pela própria CBF. Se a Portuguesa cair e o Fluminense ficar na primeira divisão, seria caso de monumental injustiça _ mais uma, neste país onde as leis valem de acordo com os interesses de quem as aplica.

Por isso, amigos corintianos, são-paulinos, santistas, palmeirenses e torcedores de todos os times de São Paulo, amanhã deveremos ser da Portuguesa desde criancinhas. No último sábado, mais de 300 torcedores já fizeram um protesto na avenida Paulista contra o "STJD, a vergonha do Brasil", como se podia ler num dos cartazes.

Se havia mais de 300, é sinal de quem não eram só da torcida da Portuguesa, que é bem pequena, mas havia também gente de outros times. Os donos de padarias, em sua grande maioria torcedores da velha Lusa, ameaçam boicotar os produtos de patrocinadores do Brasileirão. Que mais podemos fazer para ajuda-los?

O Fluminense, velho freguês do "tapetão" do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, é protagonista de uma das maiores vergonhas da história do futebol brasileiro. Em 1996, terminou em 23º lugar o campeonato disputado por 24 times, mas permaneceu na elite  porque a CBF simplesmente detectou "alguns problemas de arbitragem" e salvou o time carioca.

No ano seguinte, o Flu finalmente foi rebaixado para a segunda divisão. De lá, após péssima campanha, como mostrou o R7 esta semana, caiu para a Série C e já corria o risco de se tornar um time "fora de série"... No jogo contra o São Raimundo, do Amazonas, pelo quadrangular final, que terminou empatado, o Fluminense ganhou os três pontos pelo mesmo motivo de agora: o adversário teria utilizado um jogador em situação irregular. Campeão da Série C, já no ano seguinte, como que por encanto, o Fluminense, a convite da CBF, subiu direto para a Primeira Divisão, e disputou a Copa João Havelange, nome do Brasileirão no ano de 2000.

Com todo este belo prontuário jurídico, o Fluminense entra como franco favorito na sessão do STJD que vai decidir o destino da Portuguesa.

O presidente do tribunal é Flávio Zveiter, que entrou no órgão justamente em 2000, depois de ser sabatinado pelo próprio pai, desembargador Luiz Zveiter, que acabaria afastado da presidência do STJD após denúncias recebidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2005.

"De tudo, resta dizer que a toga é inimiga de quem joga e que amanhã será mais uma data a ser lembrada como vergonhosa no dito país do futebol", conclui seu artigo, com muita propriedade, meu colega Juca Kfouri, em sua coluna deste domingo na Folha.

Outro colunista dos bons, Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sob o título "Gol de advogado", lembra, no mesmo jornal, que a expressão "tapetão" surgiu em 1969, quando o Fluminense conquistou o título carioca ao recorrer à Justiça Comum, numa decisão proferida pelo juiz Renato de Almeida Magalhães.

Se eu fosse torcedor do Fluminense, teria vergonha de ver meu time ganhar assim. Juro que eu preferiria ver o meu São Paulo na Segunda Divisão, de onde foi salvo pelo Muricy e não por qualquer togado, do que passar o vexame de torcer por um time que não consegue se manter em pé com as próprias pernas.

 

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Já faz todo esse tempo? perguntei ao Odair Braz Junior, jovem editor do R7, que me alertou logo cedo: hoje é o aniversário de 45 anos do AI-5. Ele se lembrou do dia tristemente histórico, eu não. Pois é, agora parece que foi ontem, e a gente imaginava que nunca fosse acabar este Ato Institucional, o golpe dentro do golpe, que afundou de vez o país nas profundezas da ditadura militar (1964-1984).

Na noite de 13 de dezembro de 1968, eu trabalhava na redação do Estadão, então o mais importante jornal do país que fazia dura oposição ao regime, quando ouvimos pelo rádio o pronunciamento em que Costa e Silva anunciou o AI-5.

presidentes do brasil f 019 Parem as máquinas!, começa a longa noite do AI 5

Como não quero ser traído pela memória, reproduzo abaixo trecho do meu livro "Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter" (Companhia das Letras), uma "autobiografia autorizada", em que relato o que aconteceu naquela noite de terror e de muito medo para quem não nasceu para ser herói, como é o meu caso:

O pior ainda estava por acontecer. Na madrugada de 13 de dezembro, dia em que Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5, o principal editorial do jornal, na página 3, trazia o premonitório título "Instituições em Frangalhos". Informado por algum dos vários colaboradores do regime infiltrados na redação, o delegado Silvio Correia de Andrade, da Polícia Federal, invadiu a oficina, que dava para a rua Martins Fontes, e gritou a ordem: "Parem as máquinas!".

3 Parem as máquinas!, começa a longa noite do AI 5

Clique na imagem para ampliar

Em seguida, determinou aos policiais que o acompanhavam  a apreensão de todos os exemplares, já prontos para a distribuição. Pela primeira vez desde o golpe, o Estado deixou de circular. Logo cedo, Julio Neto e Ruy Mesquita foram se queixar ao governador Abreu Sodré, um amigo da família nomeado para o cargo pelos militares. Comunicaram-lhe que o jornal não mudaria sua linha editorial, agora de oposição aberta ao regime.

No começo da noite, dois policiais à paisana da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de segurança do Estado de São Paulo chegaram à redação para examinar o noticiário político". Era o início oficial da censura prévia. Enquanto eles se aboletavam em volta da mesa de Oliveiros Ferreira, o secretário de redação, nós nos reuníamos para ouvir o pronunciamento do general Costa e Silva num rádio portátil posto sobre a mesa de Clóvis Rossi (o então jovem editor e chefe de reportagem).

No silêncio do ambiente destacava-se a voz grave do general, que não deixava nenhuma dúvida nas suas palavras: meninos, a brincadeira acabou. O Brasil entrava no quinto ato. Era um golpe dentro do golpe _ a ditadura total, sem disfarces, com mais cassações de mandatos, fechamento do Congresso Nacional e fim das liberdades e dos direitos individuais, começando pela censura prévia.

Ao recordar este episódio, muitos anos depois, Oliveiros me contou que Carlão (Luiz Carlos Mesquita, irmão de Julio e Ruy), o nosso amigo diretor, só se zangou quando um contínuo serviu café aos censores. Voltei para a minha mesa e continuei a escrever, como se nada estivesse acontecendo. Sem alternativa, eu e minha turma terminaríamos outra noite na Jussara (uma casa noturna que se tornou familiar para nós). Professor da USP, estudioso dos assuntos militares, Oliveiros Ferreira previu um longo e feroz  período de ditadura.

Para azar de todos nós, e a desgraça da democracia brasileira, o velho e sábio mestre Oli estava certo.

E o caro leitor, principalmente os da minha geração, de que se lembra da noite de 13 de dezembro de 1968? Lembra onde estava, como foi?

***

Em tempo: estranhei o silêncio da grande imprensa, principalmente dos seus editorialistas, colunistas e blogueiros, sobre esta efeméride do AI-5.

Vale registrar que os principais meios de comunicação do país, quase todos, apoiaram vivamente o golpe de 1964.

Lembrar das nossas tragédias é importante para não repeti-las, como ficou claro no livro "Brasil Nunca Mais", que relata as maiores atrocidades deste período triste da nossa história.  

Em tempo 2: recomendo a todos a leitura dos comentários de Enio Barroso Filho e de Vitor Buaiz, ex-prefeito de Vitória e ex-governador do Espírito Santo, grande figura e meu velho amigo. São pessoas assim que fazem a grandeza deste Balaio. 

 

 

 

 

 

 

 

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ABr180613MCSP 7 2 Inferno astral de Haddad não tem dia para acabar

Peço licença ao Domingos Fraga, meu vizinho de mesa no Jornal da Record News e de coluna aqui no R7, para meter meu bedelho (a propósito: o que quer dizer bedelho?) nesta história do inferno astral vivido pelo prefeito Fernando Haddad em seu primeiro ano de mandato, que parece não ter dia para acabar.

Como passei boa parte do dia no dentista (gastei um terço da minha vida dormindo, um terço trabalhando e um terço no dentista), comecei a escrever a coluna mais tarde nesta quinta-feira e, quando fui ver o Fraga, já tinha escolhido o mesmo tema. Não importa. É que não tem outro assunto mais falado hoje na cidade _ no dentista, no restaurante ou no táxi _,  do que o conjunto de erros e más notícias que cercam o nosso prefeito.

Haddad está quase conseguindo uma unanimidade _ todos contra ele. Em meio às queixas cada vez mais raivosas de quem circula (ou melhor, não consegue mais circular) no trânsito caótico, agravado por obras viárias a granel abertas em pleno mês de dezembro, e das manifestações de sem-teto que se espalham por toda a cidade, até em frente ao prédio onde mora o prefeito, chegou a notícia de que a Justiça suspendeu o aumento do IPTU, a grande esperança de Haddad para mostrar serviço e melhorar sua imagem.

Deu tudo errado, como já mostrou o Fraga. Agora, Haddad corre o risco de ficar sem o dinheiro do imposto e ainda pagar o ônus de não ter comunicado corretamente à população quem será atingido ou não, e quanto, pelo novo IPTU.

Com o leite derramado, a prefeitura prometeu recorrer ao Supremo Tribunal Federal para manter o aumento, só que lá estes casos costumam ser decididos num prazo em torno de oito anos.

Um exemplo da prepotência do prefeito e da falta de diálogo com os diferentes setores da sociedade aconteceu outro dia durante um evento.

Haddad foi tirar satisfação com o presidente de uma importante entidade empresarial: "Por que vocês entraram com este processo contra o aumento do IPTU? O Kassab também aumentou este imposto e vocês nunca entraram com processo contra ele¨.

Surpreso com a atitude do prefeito, o cidadão que foi interpelado limitou-se a responder que sua entidade entrou duas vezes com ações na Justiça pelo mesmo motivo durante a administração de Kassab _ não contra o prefeito, mas contra a prefeitura, em defesa dos seus associados. Exatamente como agora.

Se Haddad tivesse conversado antes e explicado melhor suas razões a este e a outros lideres da sociedade civil paulistana, de estudantes a empresários, talvez pudesse evitar os protestos de junho, com o aumento das passagens de ônibus e, agora, com as ações contra o IPTU na Justiça.

O que não ajuda, com certeza, é fazer declarações como a que o prefeito deu hoje em entrevista coletiva ao criticar o poder econômico conservador da cidade:"Não vamos fazer mudança cosmética, vamos fazer profundas, estruturais, mesmo que descontentem esta classe conservadora".

Estamos todos de acordo com as mudanças estruturais e profundas, mas vai perguntar ao dono de uma lojinha, como o pai de Haddad já teve, se ele também se considera membro da "classe conservadora" por reclamar contra o aumento de 35% aplicado no comércio e na indústria.

Não se trata de um problema ideológico, caro prefeito, mas de ter ou não condições de arcar com este aumento numa quadra de retração da economia. O contribuinte merece pelo menos mais atenção, mais informações, mais acesso às grandes decisões que mexem com a vida da cidade.

Se apenas 18% da população aprovam seu governo, como mostrou o último Datafolha, índice semelhante ao do falecido Celso Pitta em seu primeiro ano de administração, alguma coisa deve estar muito errada na relação entre o prefeito e os cidadãos contribuintes _ e seria valorizar em demasia o poder da "classe conservadora".

Afinal, Haddad foi eleito recentemente pela ampla maioria da população, que acreditou nas suas propostas. Está na hora de colocá-las em prática e não ficar procurando culpados do lado de fora do seu gabinete.

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Prefeitos Manifestacao Camara 41311 Em vez de cortar custos, prefeitos só querem mais grana

Punhos erguidos, cara de bravos, dispostos à luta, avançando celeremente sobre o Salão Verde, o grupo de 300 prefeitos e vice-prefeitos que invadiu a Câmara nesta terça-feira só não foi confundido com uma torcida uniformizada partindo para cima da outra nas arquibancadas da Arena Joinville porque estavam todos de paletó e gravata, mas a cena era igualmente assustadora.

Mais uma vez, a tal "Marcha dos Prefeitos" foi a Brasília para pedir mais dinheiro do governo federal. Todo ano a cena se repete. À frente do grupo, como de costume, estava Paulo Ziulkoski, o eterno presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), com o discurso de sempre:

"Essa manifestação é o retrato de uma crise profunda que se abate sobre as prefeituras de todo o país. Os municípios ficaram totalmente ingovernáveis em função de uma política do governo federal, do Congresso e dos governadores, que é a questão federativa".

Os prefeitos querem aumentar de 23,5% para 25,5% a parcela de recursos da União destinada ao Fundo de Participação dos Municípios, historicamente a principal e muitas vezes única fonte de renda da maioria deles, que não se preocupam em aumentar a arrecadação própria e muito menos em cortar despesas, como bem lembrou meu colega Heródoto Barbeiro, no Jornal da Record News.

Poderiam aumentar para 50% esta parcela do FPM que, no ano que vem, eles estarão de novo em Brasília, reivindicando mais grana, sob o argumento de que os pobres municípios vivem falidos e não podem pagar o aumento do piso salarial dos professores nem têm dinheiro para o 13º salário do funcionalismo. Para os desfiles de Carnaval, no entanto, nunca faltam recursos, muitas vezes utilizados até para financiar o time de futebol da cidade.

Alguém já viu em algum lugar, em qualquer época, a iniciativa de um prefeito de diminuir os custos da administração, demitindo funcionários fantasmas, cortando verbas para a Câmara Municipal e despesas com viagens e outras mordomias, cancelando shows e rodeios, que fazem a festa dos donos do poder nos pequenos municípios brasileiros?

Mesmo barradas pela segurança na entrada do salão, as excelências municipais continuaram avançando em direção ao gabinete do presidente da Câmara, Henrique Alves.

Queriam porque queriam ser recebidos porque se achavam no seu direito de autoridades dispostas a tudo para arrancar mais recursos, sem lhes passar pela cabeça que, em 2014, em vez de pedir mais, poderiam começar a gastar menos. Que tal?

No fim, para evitar mais confusão, Ziulkoski conseguiu ser recebido por Henrique Alves que, é claro, se comprometeu a dar prioridade às reivindicações dos prefeitos na tramitação das propostas de seu interesse. No ano que vem, podem ter certeza, as mesmas cenas vão se repetir, ainda mais que estaremos em plena campanha eleitoral.

 

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dilma e ex presidentes O simbólico voo de Dilma com os ex presidentes

No momento em que começo a escrever, pouco depois do meio dia desta terça-feira, eles já estão voltando para o Brasil, com uma escala em Luanda, capital de Angola. Não se pode dizer que foi um agradável passeio o inédito voo da presidente Dilma Rousseff com seus quatro antecessores vivos (Sarney, Collor, FHC e Lula, por ordem de entrada em cena) para o funeral de Nelson Mandela.

Os cinco saíram do Rio de Janeiro ao meio dia de segunda-feira, chegaram a Johannesburgo, na África do Sul, às duas horas da madrugada e já estavam de pé às oito da manhã de hoje para participar das cerimônias fúnebres.

Neste fulminante bate e volta, em que pela primeira vez Dilma conseguiu reunir os quatro ex-presidentes na mesma cerimônia, pouco importa o que eles tenham conversado, até porque, eu não sei _ e acho que nunca vamos saber exatamente o que foi falado.

O voo valeu mais pelo que tem de simbólico, já que na nossa política eventuais adversários muitas vezes são tratados como inimigos e não há uma tradição de cortesia entre os que já ocuparam o principal cargo do país, ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos.

Se por acaso faltou assunto, e o cansaço superou a vontade de conversar, certamente não faltaram lembranças para ocupar o tempo de voo. Assim de cabeça, lembro-me de algumas que devem ter passado pelas cabeças presidenciais ao olharem para o ilustre passageiro a seu lado.

Hoje, só Fernando Henrique Cardoso não faz parte da ampla aliança governamental em torno de Dilma, mas em outros momentos já foi bem diferente a relação entre os quatro ex-presidentes.

Por ordem cronológica, em 1989, Lula e Collor disputaram para ver quem batia mais no então presidente José Sarney, que assumiu o cargo por acaso com a morte do presidente eleito, Tancredo Neves, antes de tomar posse. Ambos chamavam Sarney de corrupto, no mínimo.

Venceu Collor e, dois anos depois, Lula e FHC estavam subindo nos mesmos palanques, que já haviam frequentado juntos na campanha das Diretas Já, para pedir o impeachment do presidente eleito, que foi cassado em seu terceiro ano de mandato. Corrupção do presidente também foi o tema que dominou os discursos dos dois.

Em lugar de Collor, assumiu o vice Itamar Franco, que chamou FHC para ser ministro _, primeiro, de Relações Exteriores e, depois, da Fazenda _ e o ajudou a se eleger presidente na sua sucessão, em que derrotou Lula no primeiro turno. Em 1998, FHC repetiu a dose e foi reeleito no primeiro turno contra Lula.

Até aí, no entanto, os dois tinham uma boa relação pessoal, que começou nas lutas contra a ditadura e se estreitou na campanha legislativa de 1978, em que Lula apoiou FHC nas eleições para o Senado.

Na campanha presidencial de 2002, em que Lula derrotou o tucano José Serra, mais ou menos candidato de FHC, não houve nenhum embate mais duro entre os dois. E levei mesmo a impressão de que FHC não ficou triste com a vitória de Lula.

Em 2003, depois de FHC lhe passar a faixa presidencial, Lula foi-se despedir dele na porta do elevador, deu-lhe um abraço, e disse: "Quero que você fique sabendo que deixa um amigo aqui no Palácio do Planalto".

Aos poucos, no entanto, no eterno embate entre PT e PSDB, os dois foram-se afastando e as críticas mútuas tornaram-se cada vez mais ácidas.

Nas voltas que a vida dá, em seu segundo mandato Lula acabou se aliando aos senadores José Sarney, do PMDB, e Fernando Collor, do PTB, e FHC assumiu o papel de principal líder da oposição, que exerce até hoje.

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde ex-presidentes não disputam mais eleições e deixam o dia a dia da vida partidária para se dedicar a outras causas, no Brasil quem já ocupou o Palácio do Planalto recusa-se a desencarnar do poder, como Lula anunciava que pretendia fazer ao final de seu governo.

Durante a conversa no avião, quem sabe, acertaram-se alguns ponteiros, tiraram-se a limpo diferenças e mágoas do passado e se evitaram cobranças tardias, que já não fazem mais sentido. Acho muito difícil, porém, que possam ter provocado qualquer mudança nas atuais relações partidárias e pessoais.

Por seu gesto generoso, ao convidar os quatro para acompanhá-la no funeral de quem sempre pregou a paz, a presidente Dilma colaborou para pelo menos desanuviar um pouco o clima de Fla-Flu que já tomou conta do país, a pouco menos de dez meses das eleições presidenciais. Para ela, apesar da correria e do cansaço, certamente valeu a viagem.

Ponto para Dilma.

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"Nós não éramos assim", constata o amigo Washington Olivetto. Além de grande mestre da publicidade brasileira, ele é um livre pensador corintiano sempre atento ao que acontece à sua volta e preocupado com os rumos do país.

Tanto que, em plena manhã de sábado de dezembro, quando todo mundo vai às compras e às festinhas de fim de ano, Washington estava lá firme no auditório da Fnac de Pinheiros, em São Paulo, de bermudas e alpargatas, participando de uma entrevista aberta no encontro anual do "Jornalirismo", uma iniciativa do jovem Guilherme Azevedo, que procura aproximar os grandes nomes da comunicação dos profissionais e estudantes da área.

Com algum desalento e dor no seu coração de eterno otimista, tanto que nunca deixou de ser corintiano, Washington fez a constatação acima sobre as mudanças no comportamento do brasileiro ao comentar que ultimamente estamos ficando mais grosseiros _ agressivos e intolerantes, eu acrescentaria _ quando lhe perguntei o que dava e o que não lhe dava esperanças no futuro do Brasil.

Pai de dois filhos pequenos, claro que como todos nós ele espera entregar um país melhor a eles, mas o grande entrave que vê para isso é a falta de uma Educação de qualidade, que acaba sendo a causa principal das nossas deficiências e mazelas atuais e, ao mesmo tempo, caso melhore um dia, a maior das esperanças no futuro.

Já estava pensando em escrever sobre esta onda de grosseria que se espalha como uma onda pelo País em todas as áreas da sociedade, quando estourou neste final de semana a selvageria das duas torcidas nas arquibancadas da Arena Joinville, onde jogavam neste domingo Atlético Paranaense e Vasco pela última rodada do Brasileirão.

Vocês já devem ter visto as inacreditáveis imagens de torcedores literalmente se trucidando uns aos outros, correndo para todos os lados e atropelando quem encontravam pela frente, como se os "black blocs" tivessem chegado ao futebol sem máscaras. Não bastava derrubar o inimigo. Era preciso chutar-lhe a cabeça, esmagar-lhe os testítulos a pontapés, humilhá-lo e exterminá-lo, se possível.

 Os black blocs do futebol e a onda de grosseria

Nunca tinha visto nada parecido, a não ser nos comentários do Fla-Flu político na internet, embora seja crescente a violência nos nossos estádios, tanto que muitos deles estão interditados, o que levou o jogo do Atlético Paranaense contra o carioca Vasco para Joinville, em Santa Catarina.

Ali se chegou ao limite da estupidez humana e de um quadro de total descontrole dos que deveriam zelar pela nossa segurança, mas as pequenas agressões, grosserias e baixarias cotidianas estão por toda parte, da internet ao shopping, do trânsito congestionado das ruas aos aeroportos em colapso, das praias às padarias, todo mundo querendo passar na frente do outro e levar alguma vantagem, nem que seja a golpes de buzinadas ou cotoveladas.

Senhoras finas em seus carrões off-road que circulam soberanas pelas alamedas dos Jardins empunham o dedo médio a três por quatro e soltam palavrões dignos das arquibancadas cada vez que algo as incomoda no trânsito, já que as ruas não são mais só delas e ainda por cima estão sendo tomadas por faixas exclusivas de ônibus, dividindo o espaço com carros lentos e velhos, dirigidos por motoristas de primeira viagem.

briga no transito Os black blocs do futebol e a onda de grosseria

O que aconteceu no estádio de Joinville neste domingo, onde quatro torcedores ficaram feridos _ um deles em estado grave, com fratura no crâneo _ e seis acabaram presos é apenas o reflexo da deterioração das relações humanas numa sociedade que já foi cordata e gentil, pedia com licença, por favor, dizia obrigado, dava bom dia, boa tarde e boa noite, e se desculpava quando esbarrava sem querer em alguém.

Um exemplo disso foi o que aconteceu comigo outro dia quando estava chegando ao dentista. Ao tentar descer no terceiro andar, uma senhora robusta colocou-se diante da porta e ameaçou avançar em cima de mim. Disse-lhe com toda educação: "Se a senhora não sair da frente, eu não consigo descer e a senhora não vai conseguir entrar". Fez cara feia, mas, mesmo contrariada, acabou dando um passo atrás. Evitou-se assim um conflito de maiores proporções e o elevador continuou circulando normalmente. Quantas cenas semelhantes a essa não estarão acontecendo neste momento em sua cidade, meu caro leitor?

Se você tiver outros casos destas cenas de incivilidade que campeiam por aí nos dias que antecedem o jingle-bells, e que deveriam nos tornar mais fraternos e tolerantes, pode mandar aqui para o Balaio. Bons exemplos, se os há, também serão bem recebidos. Não podemos nunca perder as esperanças.

Espero que todos cheguem sãos e salvos pelo menos até o Natal. O Brasileirão já acabou, mas nunca se sabe o que pode nos acontecer na próxima esquina.

 

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