"A situação está ficando psico escalafobética", constata o filósofo José Simão, mais sério analista político do país. Está ficando, não, já ficou, meu caro Simão, como você pode constatar ao ver as imagens desta quarta-feira na Câmara, com as cenas dos bate-paus do deputado Paulinho da Força, um dos generais da banda do presidente Eduardo Cunha, baixando as calças diante das excelências que votavam mais um pedaço do ajuste fiscal.

Peço até desculpas aos nobres profissionais do picadeiro, por chamar de circo este espetáculo deprimente montado em Brasília, que está atingindo um nível inédito de degradação dos nossos costumes políticos.

As votações de ontem mostraram que não temos mais partidos políticos, situação e oposição, esquerda e direita, virou tudo uma mixórdia só. De um lado, importantes líderes do PT, como o deputado Vicentinho, votaram contra o governo; de outro, o PSDB votou em bloco a favor de mudanças no fator previdenciário das aposentadorias, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Pairando acima de tudo, pontifica a bancada suprapartidária do baixo clero comandado por Eduardo Cunha.

Nada tem de engraçado este circo, apesar das cenas de pastelão protagonizadas por parlamentares e a tropa de choque da Força Sindical, cada vez mais ousada e inimputável na sua tarefa de desmoralizar de vez o Congresso Nacional, diante da atitude passiva de quem deveria zelar pelo respeito às instituições.

O pacote do ajuste fiscal amarrado pelo ministro Joaquim Levy está sendo retalhado a cada nova sessão de votação, diante da total ausência de articulação política do governo, agora entregue ao vice Michel Temer. A esta altura do campeonato, já nem sei o que está valendo ou não, mas é certo que o que sobrar do pacote não será suficiente para tirar o país do buraco das contas públicas.

O pior, no entanto, ainda está por vir. Sempre dá para piorar, como demonstram as últimas iniciativas de Eduardo Cunha, a começar pelo monstrengo de projeto de reforma política  cevada por uma comissão especial montada à sua imagem e semelhança, que obedece unicamente ao seu comando.

Trata-se de uma reforma de fancaria para deixar tudo como está, mantendo o que o sistema político brasileiro tem de pior, como o financiamento privado de campanhas, e introduzindo algumas jabuticabas novas apenas para eternizar o poder dos grupos de interesse que já mandam na Câmara. Vai tudo ser aprovado, claro, sem emendas.

Só isso não basta. Aliado ao presidente do Senado, Renan Calheiros, também ele investigado pela Operação Lava Jato, Cunha quer aprovar emendas que permitam a reeleição da dupla na presidência das duas Casas do Congresso, na mesma legislatura, o que atualmente é vedado e, ao mesmo tempo, impedir a recondução ao cargo do procurador geral da República, Rodrigo Janot, já decidida pela presidente Dilma Rousseff.

Pensando bem, meu caro colega José Simão, isto está ficando mais para casa dos horrores do que circo de cavalinhos, com engolidores de fogo ameaçando queimar a lona da democracia.

E vamos que vamos. Para onde?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Na guerra política, PSDB e mídia ficam com o mastro na mão

Luiz Fachin

O placar não deixa dúvidas, como diziam os locutores esportivos: 20 a 7 pela aprovação de Luiz Fachin. Este foi o resultado da guerra política instalada há meses em torno da nomeação do novo ministro do STF indicado pela presidente Dilma Rousseff.

Já noite alta de terça-feira, depois de mais de 11 longas horas de sabatina, que mais parecia um interrogatório policial promovido pela bancada da oposição liderada por Ronaldo Caiado (DEM-GO), a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal anunciou a vitória parcial _ ainda falta a votação em plenário, na próxima terça-feira _ do governo Dilma.

Se o nome de Fachin tivesse sido rejeitado, as manchetes dos jornais atribuiriam a derrota a Dilma Rousseff. Como foi aprovado, significou mais uma derrota para a oposição tucana e a grande mídia familiar, que propugnam o impeachment da presidente desde o final da eleição do ano passado.

No vale tudo para desgastar o governo, o preenchimento da vaga de Joaquim Barbosa no STF foi apenas mais um capítulo desta guerra sem fim que, neste momento, revela um claro esvaziamento da campanha do "Fora Dilma". No que realmente interessa, Dilma ganhou todas as batalhas até aqui: a aprovação do orçamento e da primeira etapa do ajuste fiscal na Câmara e agora a vitória na CCJ do Senado.

Sem a bandeira do impeachment, a oposição e a mídia ficaram literalmente com o mastro na mão. Vão fazer e falar o que daqui para a frente? Promover mais panelaços, marchas a Brasília, abrir mais CPIs, ou simplesmente espernear nos microfones do Congresso Nacional?

As derrotas impostas ao governo até agora o foram pela dupla de "aliados" Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os peemedebistas que presidem Câmara e Senado _ e não pelos tucanos e seus aliados midiáticos. Não tem preço ver a cara desenxabida dos coleguinhas na televisão, ao comentar os motivos de mais um fracasso em sua cruzada anti-Dilma.

Enquanto isso, o governo chinês anuncia na próxima semana um pacote de US$ 53 bilhões em investimentos nos projetos de infraestrutura no Brasil. E, em algum lugar perdido do centro-oeste, a caminho de Brasília, a "Marcha pela Liberdade" comandada por um napoleão mirim recebia a adesão entusiasmada do líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, o único tucano que ainda não desistiu de derrubar o governo. Sampaio prometeu se incorporar ao grupo de vinte marchadeiros na reta final da caminhada.

Os grandes caciques do PSDB, que realmente contam, estavam ontem em Nova York, enquanto Fachin era sabatinado, participando de mais uma homenagem ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso promovida pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Os senadores José Serra, Aécio Neves e Tasso Jereissati, além dos governadores Marconi Perillo, de Goiás, e Pedro Taques (PDT-MT), preferiram ouvir de perto o discurso em que FHC criticou a política econômica do atual governo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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bicicleta São tantas notícias... E a bike fica ali só me olhando...

Todo dia de manhã é a mesma cena. Ela olha pra mim, eu olho pra ela, e nada acontece. Ligo o computador, depois de já ter lido os jornais. Daqui a pouco vou cuidar dela, penso sempre, mas raramente cumpro a promessa que fiz a mim mesmo quando descobri que estava ficando muito sedentário e, portanto, gordo. Fiquei com medo de andar nas calçadas depois da queda que sofri na rua onde moro no começo do ano passado e já me fez passar por duas cirurgias no braço.

Ganhei o aparelho de presente de aniversário em março e o instalei num lugar de honra do escritório, bem na entrada, para não me esquecer de pedalar todos dias. De lá para cá, porém, a bike ergométrica tem sido mais um enfeite, embora ainda não a tenha transformado em cabideiro de roupas, como fez meu irmão, que já ganhou três e não as pedala nunca.

Ela é bem simples, pequena e bonita, do jeito da mulher que eu gosto. Não me pede nem cobra nada, fica na dela, só esperando um pouco da minha atenção, na eterna concorrência com as notícias que não param de acontecer.

Habituei-me a atualizar este blog logo depois que acordo e tomo café, mas ainda não consegui mudar a rotina. O certo seria fazer primeiro os exercícios e depois cuidar do serviço de cada dia: escolher um assunto, entre tantos, e escrever um comentário.

Hoje, por exemplo, fiquei dividido entre os acontecidos da vida real, geralmente relegados a segundo plano, e as intermináveis novelas da disputa política _ dois mundos cada vez mais distantes um do outro. Qual escolher?

Olho para a bicicleta de vez em quando, mas ela não pode me ajudar. Por deformação de ofício, na maioria das vezes me decido por temas políticos, que acabam se impondo nas manchetes, como se tudo nas nossas vidas dependesse apenas das excelências de Brasília. Não conheço outro país no mundo que dedique tanto tempo e espaço ao noticiário político, tornando o cidadão personagem secundário da grande aventura humana.

Vai ver que é por isso que só agora ficamos sabendo do drama da saúde pública no Ceará, onde 429 pacientes estão neste momento sendo atendidos no chão dos corredores dos hospitais de Fortaleza. "Estamos trabalhando numa guerra. Profissionais levam, às vezes, medicamentos de casa", contou à repórter Patrícia Britto a presidente do sindicato dos médicos cearenses, Mayra Pinheiro.

Enquanto isso, nós, jornalistas e políticos, estamos há semanas discutindo a indicação do advogado Luiz Fachin para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, que está sendo submetido a uma beligerante sabatina no Senado na manhã desta terça-feira, com final ainda imprevisível. São duas guerras bem diferentes, a do STF e a dos hospitais de Fortaleza, como se estivessem sendo travadas em países distantes sem relações diplomáticas. Um não sabe o que está acontecendo no outro.

E ela lá parada, só olhando, à espera de que eu largue deste computador e cuide do corpo, já que a cabeça e a alma não estão se entendendo. Faço um sinal de já vou, e aqui coloco um ponto final.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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manifestante Votei em Dilma e fui assessor do Lula. E daí?

Cena do Fla-Flu político

"Você não é o Kotscho, aquele da televisão? Te vi ontem..."

A abordagem começa mais ou menos assim, depois vem a inevitável pergunta: "O que você acha que vai acontecer?" A maioria nem espera a resposta, que, aliás, não tenho, e já vai logo dizendo o que pensa da situação, já que agora somos um país em que todo mundo entende de política, economia e até de quem deve ou não ir para o Supremo Tribunal Federal.

Pois é, depois de velho, agora estou ficando famoso, sendo reconhecido em lugares públicos, por culpa do Jornal da Record News, do Heródoto Barbeiro.  Como tudo na vida, isso tem o seu lado bom, o reconhecimento profissional, e o lado ruim, a perda da privacidade. Alguns até pedem para tirar selfies...

Nunca tinha acontecido isso comigo antes, nos longos anos em que trabalhei na imprensa escrita. Como sou comentarista político na TV, as pessoas querem falar de política, claro.

E como o clima de Fla-Flu da última campanha eleitoral não acaba nunca, principalmente aqui em São Paulo, onde todo mundo já tem suas opiniões definitivas, quase todas condenando o governo petista, geralmente só querem saber quando e como a presidente vai cair, pois já não têm dúvidas disso.

Para quem me acompanha há mais tempo, e lê este Balaio desde que foi criado, faz quase oito anos, não é novidade o que escrevi no título deste artigo. Nunca mudei de lado nem escondi o que penso, e sempre fui franco com os leitores, internautas e, agora, telespectadores, procurando preservar a minha liberdade e independência profissional.

Só que tem gente que, simplesmente, não aceita o fato de eu sempre ter votado no PT e trabalhado como assessor do ex-presidente Lula, chegando a ocupar o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação nos primeiros dois anos do seu governo.

Deixei o Palácio do Planalto há mais de dez anos, em novembro de 2004, por razões estritamente pessoais, e me orgulho do trabalho que fiz lá, mas até hoje o pessoal me cobra quando algo de errado acontece no governo federal, em qualquer área, como se eu fosse responsável pela crise que estamos vivendo: "Ah, mas você votou na Dilma, é amigo do Lula..." E daí? Qual é o crime?

Outro dia, um motorista de táxi até estranhou quando, no meio de uma conversa _ sobre política, claro _ eu disse em quem tinha votado nas últimas eleições. "Nossa, você é o primeiro que entra nesse carro e confessa que votou na Dilma. Não tem mais ninguém com coragem pra falar isso...".

Não só eu, mas outros 54 milhões de brasileiros votaram em Dilma na eleição de outubro, e meu voto vale tanto quanto o de qualquer um deles, ou seja, um voto. Sumiram todos?

Sei que hoje tem muito mais gente contra do que a favor do governo, com largos e justos motivos para se queixar, mas não me arrependo do meu voto, diante das opções que a urna eletrônica me oferecia naquele momento, pois, ao contrário de outros jornalistas, não tenho o dom de prever o futuro e me limito a ver e contar o que está acontecendo, que é o ofício do repórter. Nada me garante que, se a oposição tivesse vencido, o Brasil estaria hoje vivendo dias melhores.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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FOLHA Jornal tenta criar fato novo para o impeachment

Ao contrário do que parece, não é que o PSDB, dividido internamente, para não variar, tenha desistido de pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o único projeto do partido desde que perdeu a quarta eleição seguida para o PT nas eleições de outubro.

O que separa as alas do partido formadas por velhos caciques e jovens deputados não é uma questão de princípios, mas apenas de timing. A turma dos cabelos pretos, mais açodada, quer derrubar o governo o mais rápido possível, enquanto os cabelos brancos preferem esperar por uma oportunidade melhor, o chamado "fato novo" nas investigações da Operação Lava-Jato.

Uns e outros podem ter encontrado este fato novo na manchete da Folha de S. Paulo" de sábado: "Empreiteiro afirma ter doado a Dilma por temer retaliação _ Dono da UTC pagou R$ 7,5 mi para campanha eleitoral em 2014; repasses foram legais, diz PT".

É bom, porém, os tucanos não se afobarem outra vez, correndo para dar entrevistas sobre "a gravidade das acusações" contra o PT que o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, teria feito a procuradores da Lava Jato, porque não é a primeira vez que vaza esta nova jabuticaba jurídica de "pré-delação". Em janeiro, a revista Veja já havia publicado uma denúncia na mesma linha baseada em documento que Pessoa teria feito na cadeia, envolvendo o tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva, hoje ministro da Secretaria de Comunicação Social.

Preso em novembro do ano passado e há alguns dias em prisão domiciliar, Pessoa estaria negociando desde janeiro um acordo de delação premiada que ainda não foi feito, apesar das pressões explícitas de setores da mídia e dos partidos de oposição. O problema todo é que até agora o possível delator não apresentou fatos concretos e provas do que diz, segundo admite o próprio jornal que deu a manchete:

"Pessoa descreveu de forma vaga sua conversa com Edinho, mas afirmou que havia vinculação entre as doações eleitorais e seus negócios na Petrobras".

Em nota, o PT voltou a afirmar que todas as doações à campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014 foram feitas de acordo com a legislação e lembrou que suas contas foram aprovadas por unanimidade na Justiça Eleitoral.

O objetivo destes vazamentos seletivos sobre o que se passa no front da Justiça Federal em Curitiba, além de vincular diretamente a campanha da presidente Dilma Rousseff à corrupção na Petrobras para sustentar o pedido de impeachment, agora é atingir também o ex-presidente Lula para evitar que ele possa voltar a ser candidato, outra obsessão dos tucanos. Sem provas e sem citar fontes, o jornal publica esta acusação que teria sido feita pelo empresário:

"O empreiteiro disse que deu R$ 2,4 milhões à campanha de Lula, via caixa dois (na disputa pela reeleição em 2006). O dinheiro teria sido trazido do exterior por um fornecedor de um consórcio formado pela UTC com as empresas Queiroz Galvão e Iesa e entregue em espécie no comitê petista".

Disse como, a quem, aonde, quando, em que circunstâncias? Como já se tornou rotina na cobertura da Operação Lava-Jato, tudo é vago e colocado no condicional, não há resposta para estas perguntas, não se apresentam provas e as fontes são sempre anônimas, mas o conjunto da obra cumpre sua tarefa de municiar os porta-vozes da oposição, sempre em busca de um fato novo para pedir o impeachment da presidente, criminalizar o PT, colocar o governo na defensiva e tirar Lula da disputa sucessória.

Como disse esta semana o Jô Soares sobre os movimentos dos caciques tucanos, eles pensam que é só tirar a Dilma e colocar o Aécio no lugar dela. Não é bem assim, pelo menos para quem acredita nas regras do jogo da democracia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Se cobrir, vira circo; se cercar, vira hospício. A velha expressão popular nunca foi tão adequada para explicar o que aconteceu na noite de quarta-feira na Câmara, com o picadeiro do toma-lá-dá-cá armado durante a votação do pacote fiscal do governo, um festival de traições generalizadas, fisiologia explícita, agressões físicas e palhaçadas a cargo da "trupe de choque" uniformizada do deputado Paulinho da Força Sindical.

Só que ali ninguém rasga dinheiro. A moeda de troca _ a oficial, pelo menos _ são os cargos federais que estão sendo rateados pelo coordenador político do governo, o vice Michel Temer, na longa batalha pela aprovação da medida provisória 665, primeira parte do ajuste fiscal que muda a concessão de direitos trabalhistas e previdenciários.

Ao final, o governo venceu. Foi uma vitória sofrida, por um placar bastante apertado (252 a 227), mas pelo menos afastou-se o perigo iminente da ingovernabilidade, caso o pacote do ministro da Fazenda,  Joaquim Levy, fosse rejeitado.

O placar demonstrou não só a divisão do plenário da Câmara, mas também o clima de barata voa reinante nos partidos. Aliados votaram contra o governo ou se ausentaram, enquanto oposicionistas ferozes votaram a favor do pacote fiscal.

Para se ter uma ideia da zorra reinante na votação, vamos aos números.

Embora a bancada tenha fechado questão, nove deputados do PT, o partido da presidente,  não compareceram à sessão e um votou contra. No PMDB, o principal partido aliado, 13 deputados do total de 64 votaram contra o governo. Quer dizer, os dois principais partidos do governo, que passaram a semana se estranhando, quase empataram no número de traições.

O campeão foi o PDT do ministro do Trabalho, Manoel Dias, em que toda a bancada de 19 deputados votou contra a medida provisória. No PP, foram 18 traições, quase metade da bancada de 39 e, no PTB, exatamente a metade (12 dos 24).

Em compensação, 8 dos 22 deputados do DEM de Ronaldo Caiado, o mais radical partido oposicionista, votaram a favor do governo. O curioso é que o PSDB, que sempre defendeu as medidas neoliberais adotadas pelo ministro Levy, foi o único da oposição que votou em bloco contra o pacote fiscal, "em defesa dos direitos dos trabalhadores", a grande bandeira histórica do PT.

Teve de tudo, até chuva de dinheiro lançada pela Força Sindical sobre o plenário, com cédulas de "petrodólares", que traziam fotos de Dilma e Lula. As excelências se divertiram e, no final do espetáculo, até promoveram um panelaço, em mais um capítulo deprimente rumo à desmoralização do Congresso Nacional.

No meio da baixaria, reapareceu a figura do deputado suplente Roberto Freire, dono do PPS, ex-candidato a presidente da República, que partiu para cima da deputada Jandira Feghalli, do PC do B, durante uma discussão com Alberto Fraga (DEM-DF), um expoente da "bancada da bala". Inconformada, a deputada reagiu em seu Facebook e prometeu recorrer à Justiça. Trecho do seu relato:

"Parece que as noites da Câmara não têm como piorar nesta Legislatura. Sim, fui agredida fisicamente pelo deputado Roberto Freire durante discussão da medida provisória 665 agora há pouco. Pegou meu braço com força e o jogou para trás. O deputado Aberto Fraga, não satisfeito com a violência flagrada, disse que "quem bate como homem deve apanhar como homem", vindo na minha direção. Fazia menção a mim. É assustador o que esta acontecendo nesta Casa (...) Vou acionar judicialmente o senhor Fraga pela apologia inaceitável".

E assim vamos que vamos. Para onde?

 

 

 

 

 

 

 

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luz Depressão cívica: qual é a utopia, o que faremos?

"O que nós, eu e você, sem utopias, podemos fazer para realmente começar a mudar este cenário?"

Quem me mandou esta pergunta foi o jovem leitor Thiago André, de 20 anos, em comentário publicado às 14h01 de terça-feira, a respeito do post anterior "Aonde isso vai parar?", pergunta mestre de Dilma".

Como muita gente está se fazendo as mesmas perguntas neste momento difícil e nebuloso que estamos vivendo, repasso-as aos demais leitores para que, pensando juntos, possamos encontrar as respostas, em vez de ficarmos aqui só fazendo sempre os mesmos diagnósticos assustadores sobre a crise, sem sair do lugar, sem apontar caminhos, sem buscar novas utopias.

Alguns amigos já estão fazendo isso. Em artigo divulgado no mesmo dia, sob o título "Depressão cívica", Frei Betto levantou algumas questões:

"Perante o desgaste dos partidos, surgem propostas de formar frentes suprapartidárias, congregando militantes de diferentes partidos e movimentos sociais. Rumo a quê? Qual a proposta capaz de aglutinar distintos segmentos da nação? Apenas evitar a retomada do poder central pela direita?"

E arriscou apontar possíveis caminhos:

"Ora, isso já se fez na reeleição de Dilma. Sem um projeto histórico capaz de encarnar princípios éticos inquestionáveis, reorganizar a esperança das bases populares e sinalizar efetivas mudanças estruturais, não creio que haveremos de enxergar luz no fim do túnel".

Já fizemos isso juntos no passado, ao nos mobilizarmos nos movimentos pela Anistia, pelas eleições diretas e pela Constituinte, quando estes projetos históricos também não passavam de utopias, em que no início poucos acreditavam.

A grande diferença é que, naquele tempo, nos estertores da ditadura militar, tínhamos no país grandes lideranças, mais à esquerda ou à direita do espectro político, no Congresso Nacional e na sociedade civil, todas empenhadas na luta comum pela redemocratização do país.

No debate que o artigo provocou, concordei com os caminhos levantados por Frei Betto para enxergarmos uma luz no final do túnel, mas em resposta a ele levantei outras questões:

"Só uma pergunta: quem vai liderar este processo? Por onde recomeçar, se não temos mais líderes nem liderados, e os partidos faliram? Quem tem as respostas, os caminhos?"

Outro amigo, o jovem Thomas Ferreira Jensen, ativista dos movimentos sociais e colega dos nossos Grupos de Oração, me respondeu:

"A luz no fim do túnel será a soma dos milhares de vaga-lumes que piscam país afora. Em associações de bairro, grupos de jovens, cooperativas, inclusive em coletivos dentro de partidos políticos de esquerda. É uma turma que já não busca um líder, mas que vive formas autogestionárias de organização e assim constrói formas novas de trabalho de base, de formação, de resistência, algo na linha do Podemos da Espanha".

Tinha ouvido pela primeira vez a expressão "depressão cívica", empregada pela escritora Adélia Bezerra de Menezes,  no domingo, ao resumir o que estava sentindo, durante um jantar do nosso grupo no qual só se falou de crise.

É a mesma coisa que senti ao ler o dramático depoimento que me foi enviado no final da tarde de ontem pelo pequeno empresário Robson Oliveira, um antigo participante do Balaio, que desistiu de escrever comentários para o blog diante do clima de beligerância criado na disputa eleitoral. Escreveu ele:

"Boa noite Ricardo, desculpe te incomodar novamente, mas tenho visto como a situação está ficando a cada dia mais preocupante. Visto e sentido isso. Recentemente, minha filha mais velha perdeu o emprego e eu, depois de 15 anos, finalmente tive que fechar minha pequena fábrica.

A situação está terrível, meu amigo, só não aparece por causa dos acordos sindicais que ainda seguram mesmo as taxas de emprego. O que importa agora, Ricardo, não é essa guerra estúpida nas redes. O que importa é: o que faremos?

Quem tem algum plano que ao menos sinalize alguma melhora ou um retrato mais confortante dessa piora? Ninguém assume os erros, ninguém se prontifica a reconhecer que cometeu falhas, ninguém quer saber de, antes de apontar os paralelepípedos nos olhos alheios, verifique os pneus velhos nos seus.

Quando a situação era, de certa forma, confortável, o que vimos foi uma prepotência sem tamanho que agora se volta contra seus próprios criadores.

A continuar dessa forma, sem qualquer plano, sem qualquer esperança de sair do atoleiro que se aproxima, vai começar a "faltar pão nessa casa"... e o ditado, mais uma vez, se fará verdadeiro".

Como ninguém é dono da verdade nem da última palavra, o único caminho que vejo é exatamente esse aberto pela fantástica oportunidade que a internet nos dá: procurarmos juntos as formas de sairmos dessa depressão cívica e realimentarmos nossas vidas de fé e de esperança. Uma hora, as crises sempre acabam passando. Já atravessamos muitas outras e sobrevivemos.

Por isso, peço à turma boa do Balaio que participe dessa busca, mas não envie mensagens para meu e-mail pessoal. É importante que todos saibam o que os outros estão pensando, utilizando a área de comentários. Com a palavra, vocês.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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prof3 Aonde isso vai parar?, pergunta mestre de Dilma
"Aonde isso vai parar?", pergunta o mestre João Manuel Cardoso de Mello, que foi professor da presidente Dilma Rousseff e de toda uma geração de economistas brasileiros na Unicamp.

E ele mesmo responde, em entrevista a Eleonora de Lucena, da Folha:

"Não haverá recuperação. As apostas para o PIB vão de _ 1,5% a _ 3%. No ano que vem, não recupera. Alguém investe um centavo? Os bancos estão cortando crédito, os juros, subindo, uma loucura".

Aos que estão me achando muito pessimista, recomendo a leitura das projeções feitas por Cardoso de Mello para a economia brasileira, neste momento em que o governo joga tudo na aprovação do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy, que está para ser votado no Congresso. "Isso entra na cabeça de alguém? Ele dá um choque de câmbio, um choque de custos, faz corte de gastos. Vai produzir uma recessão brutal. Está produzindo. Está tudo parado".

Nas contas do professor, o desemprego ameaça chegar a 12% este ano e, em consequência, a aprovação da presidente Dilma pode cair para 7%. O cenário que ele aponta é assustador: "As demissões ainda não começaram porque existem os acordos coletivos. Em maio e junho, vai começar a demissão em massa (...) A alta dos juros está paralisando a construção civil residencial. Não tem investimento em construção pesada, está se desmontando a cadeia de óleo e gás, a indústria continua encolhendo".

E quem está ganhando com tudo isso? Só quem pode ser otimista hoje em dia e não reclamar da vida são os bancos. Nesta mesma terça-feira, foi divulgado o lucro do Itaú Unibanco, que subiu quase 30% no primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período de 2014, chegando a R$5,7 bilhões. Na semana passada, saiu o balanço do Bradesco, onde trabalhava o ministro Levy, também mostrando um belo crescimento do lucro (23%) de um ano para outro (mais de R$ 4 bilhões).

Ao mesmo tempo, a Volkswagen anunciou ontem que deu férias coletivas a 8 mil funcionários e parou a produção na sua fábrica do ABC, um símbolo da industrialização brasileira. Para completar o quadro, já foi aprovado na Câmara o projeto de terceirização que, para Cardoso de Mello, vai acabar com o mercado de trabalho.

"O estrago da terceirização é enorme em cima de uma crise deste tamanho. É uma devastação do mercado de trabalho. Vai desestruturar tudo e jogar os salários para baixo. É o que Levy quer: ajustar a relação salário/câmbio".

Para onde você olha, a situação vai se agravando a cada dia.

A epidemia de dengue já  matou 229 pessoas em todo o país (169 só em São Paulo). O próprio ministro da Saúde, Arthur Chioro, admitiu que o governo está enfrentando dificuldades para controlar o avanço da doença e reconheceu que a epidemia "é uma vergonha".  De fato, já foram notificados este ano 746 mil casos, um aumento de 234,2% em relação ao ano passado.

A Sabesp anunciou que a conta de água em São Paulo vai ficar 15% mais cara, bem acima da inflação, que foi de 4,6% desde o último aumento, em dezembro (o governo Geraldo Alckmin queria 22, 7%).

No mesmo trimestre em que os bancos comemoram o generoso aumento dos lucros, o número de brasileiros que entrou na lista de inadimplentes cresceu 1,5 milhão, chegando agora a  55,6 milhões de consumidores com o nome sujo na praça, ou seja, quatro em cada 10 adultos.

Como não sou banqueiro e vivo do meu salário, e não posso brigar com os fatos e os números, independentemente dos meus desejos, sinto-me mais preocupado depois ler as previsões sobre recessão e desemprego feitas pelo professor João Manuel Cardoso de Mello, de 73 anos, fundador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, sem achar razões para resgatar meu eterno otimismo de brasileiro que não desiste nunca.

Algum leitor do Balaio poderia me dar motivos?

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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lulanovo1 Lula está na mira, isolado no palanque e sem discurso

Lula discursa no dia 1 de maio (Foto: Ricardo Stuckert / 01.05.2015/ Instituto Lula)

Fiquei triste ao ver e ouvir o discurso de Lula neste 1º de Maio da CUT, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

Basta rever as imagens na internet. Em toda a sua longa trajetória, do sindicato ao Palácio do Planalto, Lula nunca ficou tão isolado num palanque, sem estar cercado por importantes lideranças políticas, populares e sindicais.

A presidente Dilma já tinha avisado que não viria, mas desta vez nem o prefeito Fernando Haddad apareceu. Só havia gente desconhecida a seu lado e, ainda por cima, um deles segurava o cartaz em que se lia "Abaixo Plano Levy - Ação Petista", mostrando o descompasso entre a CUT, o partido e o governo.

Também não me lembro de ter visto Lula falando para tão pouca gente, e tão desanimada, num Dia do Trabalhador. Não havia ali sinais de alegria e esperança em quem o ouvia, como me acostumei a acompanhar desde o final dos anos 70 do século passado, nas lutas dos metalúrgicos no ABC.

Lamento muito dizer, mas o discurso de Lula também não tem mais novidades, não aponta para o futuro. Tem sido muito repetitivo, raivoso, retroativo, sempre com os mesmos ataques à mídia e às elites, sem dar argumentos para seus amigos e eleitores poderem defendê-lo dos ataques.

Não que Lula deixe de ter caminhões de razões para se queixar da imprensa, desde que o chamado quarto poder resolveu assumir oficialmente a liderança da oposição e fechar o cerco contra os governos petistas. Só não podemos esquecer, porém, que foi com esta mesma mídia, com os mesmos donos, com as mesmas elites conservadoras, que nunca se conformaram com a mudança de mãos do poder, que o PT ganhou sucessivamente as últimas quatro eleições presidenciais.

Ao vê-lo e ouvi-lo agora, tive a sensação de estar assistindo ao ocaso de um ciclo mágico, que levou o líder operário ao poder e promoveu profundas transformações sociais em nosso país. Fica difícil até acreditar que, há apenas pouco mais de quatro anos, Lula deixava seu segundo governo com 80% de aprovação popular, aplaudido e reconhecido em todo o mundo como um líder vencedor.

Àquela altura, Lula não precisava fazer nem provar mais nada. Já tinha passado para a história, em lugar nobre, e precisava apenas cuidar da saúde e da própria biografia. Prova do seu prestígio, elegeu e ajudou a reeleger sua sucessora.

Nos últimos tempos, porém, com o profundo desgaste sofrido pelo PT após os casos do mensalão e do petrolão, que abalaram o partido da estrela, Lula parece ter perdido os dons do mito que construiu ao longo das últimas três décadas. Política também é feita de símbolos e tornou-se simplesmente impossível descolar um do outro: para o bem ou para o mal, Lula é o PT e o PT é Lula.

Apesar do crônico conflito do PT com a mídia, que se transformou em confronto aberto e agora caminha para uma guerra de extermínio, até seis meses atrás, Lula ainda era apontado em todas as pesquisas, com larga vantagem sobre os demais, como o mais popular presidente da nossa história, em todos os tempos.

Até seus adversários admitiam que o "Volta, Lula" seria só uma questão de tempo. Por isso mesmo, ele entrou agora na mira da aliança midiática-política-jurídica formada para impedir que isso aconteça. Logo descobriram que de nada adiantava jogar todas as fichas das oposições para derrubar Dilma se, em caso de novas eleições, o ex-presidente puder ser candidato.

Nas mais recentes, Lula já não lidera as pesquisas para 2018, em várias regiões do país. Claro que a situação pode mudar até lá, mas a volta de Lula tornou-se bem mais difícil. Pode até chegar à vitória, nunca se sabe, mas um passeio, como se previa, não será mais.
O que aconteceu?
Como seu velho amigo e parceiro de tantas campanhas políticas, percorrendo várias vezes este nosso imenso país de ponta a ponta, também estou em busca de uma resposta. Talvez ele próprio não a tenha. A última vez que nos falamos, por telefone, foi às vésperas da eleição do ano passado. Parecia confiante na vitória do PT, como sempre.

De lá para cá, tanta água passou por debaixo da ponte, em tão pouco tempo, que, em algum lugar da estrada, perderam-se a velha confiança e a capacidade de dar a volta por cima, sem que Lula consiga encontrar um novo discurso capaz de mobilizar os jovens eleitores e os velhos companheiros que ficaram pelo caminho.

Vida que segue.

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 Beto Richa é o modelo tucano em estado bruto

Manifestante ferido no Paraná

Aos que não se conformam até hoje com a vitória de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais, o modelo adotado pelo governador tucano Beto Richa para enfrentar uma greve de professores no Paraná, na última quarta-feira, dá uma boa ideia do que poderia estar acontecendo no Brasil se Aécio Neves tivesse saído vencedor.

Os mais de 200 feridos ao final do ataque desfechado pela Polícia Militar de Richa são o retrato em estado bruto de uma forma de governar tornada padrão pelo PSDB, que já vimos também aqui em São Paulo, durante os protestos de junho de 2013, contra o aumento das passagens de ônibus.

As imagens de balas de borracha, sprays de pimenta e jatos d´água usados contra cerca de 15 mil manifestantes durante mais de duas horas, enquanto o governador permanecia em seu gabinete e alguns colaboradores comemoravam os ataques dos policiais, poderiam refrescar a memória dos que querem voltar ao tempo em que protestar contra o governo era correr risco de vida.

Até agora, os caciques tucanos e seus porta vozes acadêmicos e midiáticos, sempre tão falantes e inquisidores quando se trata de criticar o governo da presidente Dilma Rousseff, não se manifestaram para condenar a selvageria de Curitiba, que a grande imprensa chamou de confronto, mas na verdade terminou num massacre da PM contra os professores em greve. Cadê Aécio? Cadê FHC? Cadê Serra? Cadê os seus juristas de plantão? Cadê a indignação cívica?

Candidamente, no melhor estilo tucano, o governador Beto Richa alegou que a PM apenas reagiu aos ataques de black-blocs que tentavam invadir a Assembléia Legislativa. Para prender sete baderneiros _ bem menos do que os 17 policiais presos por se recusarem a atacar os professores _ colocaram em risco a segurança de milhares de pessoas e assim, democraticamente, conseguiram aprovar um projeto do governador que tira direitos dos trabalhadores, às vésperas deste triste 1º de Maio, o mais melancólico destes últimos anos.

Está ruim, mas poderia estar muito pior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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