tarifa 1024x716 E o que podemos esperar depois do dia 15?

Junho de 2013: será que estas cenas vão se repetir?

Só se fala disso: em todas as rodas de conversa, nas rádios e nos jornais, nos botecos e nas igrejas, nas famílias e nas feiras, no governo e na oposição, o assunto agora se resume ao que pode acontecer durante as manifestações marcadas para domingo, dia 15. A maioria nem sabe direito do que se trata exatamente, mas não tem dúvidas de que é alguma coisa de protesto grande contra Dilma, o PT e "tudo isso que está aí".

O próprio governo federal parece não ter a menor ideia do tamanho que esses atos poderão ganhar, mas agora até a presidente Dilma Rousseff mostra estar bastante preocupada. Depois do panelaço de domingo passado e dos palavrões e das vaias que ela ouviu nesta semana ao chegar a um evento em São Paulo, a ficha finalmente caiu.

A presidente resolveu montar um plantão de emergência e já convocou seus principais ministros para acompanhar as manifestações perto dela em Brasília. Ficarão sem folga no fim de semana Aloizio Mercadante, da Casa Civil, José Eduardo Cardozo, da Justiça, Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral, Thomas Traumann, da Comunicação, e até o ministro da Defesa, Jaques Wagner.

Enquanto isso, a oposição partidária liderada pelo PSDB faz que vai, mas não vai, no seu tradicional estilo plantado em cima do muro. Deixou a mobilização por conta de duas dezenas de grupos montados nas redes sociais, como Vem pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line, e vai ficar na janela para ver o que acontece. Durante toda a semana, o ex-candidato presidencial e senador tucano Aécio Neves repetiu que apoia as manifestações, mas não irá às ruas para evitar a vinculação dos "protestos espontâneos da população" com partidos políticos.

Antes que a quarta-feira terminasse, porém, Aécio deu uma entrevista à rádio Jovem Pan, espécie de porta-voz oficial dos movimentos contra a presidente Dilma, em que admitiu mudar de ideia. "Sou um cara de rompantes. Quem sabe na hora eu não resisto?". O único partido que assumiu abertamente o apoio ao "Fora Dilma", até agora, foi o Solidariedade, do bélico e impagável deputado Paulinho da Força, sempre ele.

Agora que a crise está transbordando dos plenários e gabinetes para as ruas, passam para segundo plano a CPI da Petrobras, a Lista do Janot, as intermináveis delações premiadas de doleiros e outros corruptos assumidos na operação Lava Jato, e até as lambanças na coordenação política do governo.

Personagens carimbados como Renan, Cunha, Mercadante, Levy, Zé Agripino e outros frequentadores dos telejornais vão ter que abrir espaço para novas celebridades ainda anônimas, mas que certamente vão aparecer surfando nas manifestações.

O massacre é tamanho na mídia e nas redes sociais que não ouço ninguém falar no outro ato marcado para esta sexta-feira pela CUT e movimentos sociais ligados ao PT, em defesa da Petrobras, da reforma política e do governo eleito em outubro. Inverteram-se os papéis entre vidraça e estilingue.

É melhor esperar para ver o que acontece. Estou mais preocupado é com o dia 16 para saber como o país reage às manifestações, a depender das dimensões que elas ganharem ou não. Os protestos vão se multiplicar, como aconteceu em 2013? Até onde irão? Com o mau humor generalizado da população, a falência do sistema político-partidário e a ausência de lideranças respeitadas na sociedade civil, tudo pode acontecer _ e neste cenário de barata voa não costuma ser coisa boa. Até rimou...

E o caro leitor arrisca algum palpite?

 

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"Não adianta nada tirar a Dilma. Vai fazer o que depois? Impeachment é uma bomba atômica. É pra dissuadir, não pra jogar" (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso).

"Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer" (senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

Em mais um colóquio promovido nesta segunda-feira (9) no Instituto Fernando Henrique Cardoso para decidir o destino da Presidente Dilma Rousseff, com a nonchalance de quem está programando um fim de semana em Paris, os caciques tucanos desembarcaram das marchas do "Impeachment Já" programadas para o próximo domingo, deixando órfãos na estrada os marchadeiros e marchadeiras do golpe anunciado.

Ato contínuo, em evento no Palácio do Planalto, Dilma tocou pela primeira vez no assunto e foi ao ataque, no mais incisivo discurso que fez desde a posse no segundo mandato.

"Eu acho que há que caracterizar razões para o impeachment e não o terceiro turno das eleições. O que não é possível no Brasil é a gente não aceitar a regra do jogo democrático. A eleição acabou, houve primeiro e segundo turno. Terceiro turno das eleições para qualquer cidadão brasileiro não pode ocorrer a não ser que se queira uma ruptura democrática".

Nem é nova a ideia do sangramento proposta pelo senador paulista, candidato derrotado à vice-presidência da República na chapa de Aécio Neves. Em 2005, no auge do mensalão, quando setores mais radicais da oposição queriam o impeachment de Lula, o próprio FHC tinha defendido essa tese, afinal adotada pelo PSDB. E Lula acabou sendo reeleito no ano seguinte.

Agora, no momento em que Dilma enfrenta uma conjugação de crises em seu governo, que mal a deixa respirar, mais uma vez Dilma recorre ao seu criador e padrinho. Os dois marcaram um almoço para daqui a pouco em São Paulo. No cardápio, o trivial variado desses momentos: possíveis mudanças no ministério para aumentar a participação do PMDB (sempre ele...), intensificar as viagens da presidente pelo país e discutir a dificuldade do PT em lidar com protestos como o panelaço de domingo passado e os atos marcados para o próximo.

Duas décadas depois, de disputarem a presidência da República pela primeira vez, Lula e FHC voltam à ribalta da cena política, a demonstrar a falência de lideranças tanto no PT como no PSDB, na busca de soluções para este impasse político que pode empurrar o país para uma grave crise institucional. Mais do que ninguém, os dois principais políticos em atividade no país sabem que, quando o povo vai para a rua, os desdobramentos se tornam imprevisíveis.

dilma lula planalto 500 FHC desiste de tirar Dilma, que chama Lula

fhc ok FHC desiste de tirar Dilma, que chama Lula

A ausência de novos líderes representativos da sociedade fica clara na organização dos protestos contra Dilma no dia 15, apoiada pelos tucanos, mas em que eles não pretendem mostrar as caras, com a exceção do senador Aloysio Nunes, que já confirmou presença. Na nossa história recente, das Diretas Já ao impeachment de Collor, quando ainda não existiam as redes sociais, sempre foi o PT quem esteve à frente das manifestações, que agora mobilizam a população contra o partido, após 12 anos de governos petistas.

Logo após a vitória de Dilma no segundo turno, em outubro, três grupos saíram às ruas com carros de som para protestar contra a presidente eleita: "Vem pra Rua", "Revoltados On Line" e um grupo que defendia o golpe e a volta dos militares ao poder, com o apoio da família Bolsonaro. O nome mais conhecido à frente dos manifestantes "pacíficos" era o do cantor Lobão, que já tirou o time.

De lá para cá, já são 20 grupos diferentes se organizando contra o governo, entre eles uma certa "Onda Azul", o único abertamente ligado ao PSDB. Apresentando-se como empresário, Rogério Chequer, líder do "Vem pra Rua", movimento que recebeu o apoio de José Serra, explica que não há uma agenda comum. "Podemos fazer muitas coisas juntos, mas não há nada definido. Conversamos com todos os grupos, como conversamos com todos os partidos. Quer dizer, quase todos." Além do antipetismo, o que une estes grupos? Para Chequer, é o desejo de mudança. "Só não pode ser golpe ou intervenção militar", esclarece.

São tantas bandeiras e reivindicações diferentes, como aconteceu nas manifestações de junho de 2013, que a Polícia Militar resolveu dividir em blocos a manifestação marcada para a avenida Paulista. Como uma escola de samba que desfila em alas, vai ter de tudo, dos que defendem o impeachment de Dilma aos que querem uma intervenção militar, como o "SOS Forças Armadas".

Nos últimos dias, alguns líderes mais ajuizados começaram a se perguntar o que aconteceria com um eventual impedimento da presidente. Assumiria o PMDB de Temer, Renan e Cunha? E se tivermos novas eleições? Quais outros partidos, além do PT e PSDB, que se revezam há 20 anos no poder, lançariam candidatos? O que sobra? O PP de Maluf e Bolsonaro? O PSD de Kassab? O PPS do Roberto Freire? O DEM de Caiado e Zé Agripino?

Quem tiver outras sugestões de nomes pode mandar para o Balaio.

Em tempo: houve uma  alteração na agenda da presidente Dilma Rousseff. O encontro com Lula, que estava marcado para a hora do almoço, em São Paulo, foi transferido para a noite, em Brasília.

 

 

 

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Ao mesmo tempo em que a presidente Dilma Rousseff ocupava rede nacional de TV, na noite de domingo, para pedir paciência e apoio da população ao seu governo, em boa parte das principais cidades brasileiras a resposta foi dada com panelaços, buzinaços, palavrões, gritos histéricos de "Fora Dilma e "Fora PT", rojões, luzes piscando nos apartamentos, deixando a impressão de uma revolta generalizada.

Como nosso País é muito grande e eu moro em São Paulo, na região dos Jardins, o principal reduto tucano, é preciso tomar muito cuidado para não generalizar o que aconteceu durante os 15 minutos do pronunciamento da presidente.

Por isso, logo cedo, perguntei à dona Edite, uma senhora baiana que trabalha com minha família faz mais de vinte anos, se houve algum protesto semelhante no bairro dela, o Jardim João 23, na periferia da zona oeste paulistana. Pelo seu relato, e eu não tenho nenhum motivo para duvidar, lá foi tudo igual.

Já no começo da madrugada desta segunda-feira, a direção do PT reagiu às manifestações de protesto, divulgando nota em que denuncia "uma orquestração com viés golpista que parte principalmente da burguesia e da classe média alta". Segundo o partido da presidente, o "panelaço fracassou em seu objetivo" e o protesto foi financiado pelos partidos de oposição.

De uma coisa podemos ter certeza: depois que inventaram as redes sociais, nada mais acontece por acaso, de forma espontânea. Durante todo o fim de semana, os diferentes movimentos que organizam as marchas do "Impeachment Já!", programadas em 200 cidades brasileiras para o próximo domingo, foram os mesmos que convocaram seus seguidores a participar do panelaço durante o discurso de Dilma na TV. O resto fica por conta do espírito de manada estimulado pelos pit bulls da imprensa.

panelaço Dilma pede paciência, ouve panelaço e PT acusa golpe

Bairros de São Paulo se manifestam fazendo "panelaço" enquanto Dilma se pronuncia na TV. Alguns edifícios também apagavam e acendiam as luzes em protesto / Reprodução/YouTube

Enganam-se, porém, os estrategistas do governo se acreditarem nesta versão conspiratória do PT de que tudo não passa de rugidos da elite branca, os tais "coxinhas tucanos", inconformados com a derrota nas eleições de outubro, e que o povão está satisfeito da vida. Não está.

A própria presidente Dilma reconheceu em sua fala que os brasileiros têm "o direito de se preocupar e se irritar". É o que sinto por toda parte, em todas as classes sociais: uma crescente e difusa irritação com o governo, a presidente e o PT. O tal do povão está perdendo a paciência já faz tempo, como registrei aqui mesmo em post publicado no dia 28 de agosto do ano passado _ bem antes das eleições presidenciais, portanto. Sob o título "Ódio contra o PT em São Paulo é assustador", conto o que ouvi de um motorista de táxi:

"Eu tenho tanto ódio contra o PT que, se tiver uma eleição entre o PT e o PCC, em São Paulo, eu voto no PCC".

De lá para cá, este sentimento só fez crescer, agora com a adesão de eleitores da própria presidente, que temem perder direitos e empregos por conta do pacote de ajuste fiscal lançado no começo do segundo mandato, como é fácil verificar pela desaprovação do governo nas pesquisas.

"Agora a coisa virou pessoal", constatou o leitor Fernando Peres, em mensagem enviada às 6h10 de hoje, ao comentar os protestos da noite de domingo. Posso estar enganado, claro, mas tenho a impressão de que uma grande parte da população, e não só de São Paulo, pelo que tenho lido nas redes sociais, já não quer mais nem ouvir o que a presidente tem a dizer pelo simples e bom motivo de ter perdido a confiança nela e em sua equipe de governo.

Conto com a ajuda dos demais leitores deste Balaio para termos uma ideia melhor da dimensão do que de fato aconteceu nos protestos contra a presença de Dilma na televisão, algo para mim inédito na história política brasileira.

Como foi no seu bairro, na sua cidade? O que você espera dos atos marcados para o próximo domingo? O que pode acontecer?

Tem hora em que é melhor o jornalista perguntar do que tentar explicar tudo e adivinhar o futuro.

É a vez de vocês buscarem as respostas. Escrevam, participem, me ajudem!

E vamos que vamos.

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Untitled 2 O país está mais uma vez nas mãos do PMDB

Trinta anos após a morte de Tancredo Neves, que antes da posse deixou o cargo para o vice José Sarney (ex-Arena e ex-PDS), primeiro e último presidente da República do PMDB, o principal partido da transição da ditadura para a democracia está novamente dando as cartas no poder central.

Quanto mais fraco o governo, mais forte fica o PMDB, o fiel da balança nestas últimas duas décadas em que PSDB e PT se revezaram no Palácio do Planalto.

Com brevíssimos intervalos, o antigo partido de Ulysses Guimarães, hoje comandado pelo vice Michel Temer e os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e Eduardo Cunha, da Câmara, integrou todos os governos após a redemocratização. Só meu amigo Nelson Jobim, por exemplo, foi ministro de três deles: de FHC, de Lula e Dilma.

Por maior que seja seu poder, até hoje ninguém descobriu qual é o projeto do PMDB para o país, aonde seus líderes querem chegar. Este talvez seja o segredo do seu longevo sucesso: o PMDB só tem projeto de poder, quanto mais, melhor.

É por isso que agora, antes mesmo da inclusão dos nomes de Renan e Cunha na lista dos políticos investigados na Operação Lava-Jato, os peemedebistas abriram guerra contra governo Dilma-2, que tentou reduzir os espaços do partido no segundo mandato. Sabe-se lá por quais misteriosos desígnios, a presidente resolveu montar um governo à sua imagem e semelhança, reforçando o papel de partidos menores, como o PSD de Gilberto Kassab, distanciando-se do PMDB e do PT, e do seu criador e mentor Lula. E deu no que deu.

Em apenas dois meses, Dilma conseguiu transformar sua folgada maioria no Congresso em minoria. Quem comanda a oposição agora é o PMDB velho de guerra, o primeiro a pular do barco que começou a fazer água, como é de sua tradição e costume. Mais do que adversários descontentes com a divisão de cargos e verbas, os dois peemedebistas comandantes do Congresso são agora inimigos declarados e furiosos.

"O governo quer sócio na lama", disparou Eduardo Cunha neste sábado, indignado como todos os políticos limpinhos que apareceram na lista do Janot. "Sabemos exatamente o jogo político que aconteceu. O procurador agiu como aparelho visando à imputação política de indícios como se todos fossem partícipes da mesma lama. É lamentável ver o procurador, talvez para merecer sua recondução, se prestar a esse papel."

Na mesma linha de tiro, Renan deu uma ideia do nível do debate daqui para frente: "Dilma só soube que o Aécio estava fora da lista na noite de terça, quando o Janot entregou os nomes para o Supremo. Ficou p... da vida. Aí a lógica foi clara: vazar que estavam na lista Renan e Eduardo Cunha. Por quê? Porque querem sempre jogar o problema para o outro lado da rua".

Para quem acompanha a política brasileira, por dever de ofício, há mais de 50 anos, dá um certo cansaço e um profundo desânimo ver a repetição dos mesmos enredos, pois nada mais parece capaz de nos espantar.  Se já é difícil governar o país tendo o PMDB como aliado, é fácil imaginar como será com o PMDB na oposição.

A gravidade do quadro político chegou a tal nível de combustão que já se voltou a falar até num diálogo entre PT e PSDB na tentativa de salvação da lavoura. Esquece-se quem ainda acredita nisso que o PSDB é apenas uma costela do PMDB, consequência de um racha do partido em São Paulo, quando era comandado por Orestes Quércia, o que provocou a saída de FHC, Mario Covas, José Serra e Franco Montoro, entre outros, para a criação da nova sigla da socialdemocracia.

A esta altura, o que os líderes dos dois partidos teriam a dizer uns aos outros, em que termos seria costurado um pacto pela governabilidade? Não há a menor chance, como deixou bem claro o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos mais entusiasmados com as marchas pelo impeachment marcadas para o próximo domingo: "A condição para tirar o Brasil da crise é tirar o PT do poder". Qualquer semelhança com o que acontece no Oriente Médio não é mera coincidência.

Este é o clima. Pobre país.

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 Renan e Cunha vão escolher quem vai julgá los

Calma, pessoal, muita calma nesta hora. Quem estava querendo ver sangue na Operação Lava-Jato, e ficou frustrado com a lista anunciada pelo ministro Teori Zavascki, que já tinha vazado por todo lado, ainda vai ter que esperar um bocado de tempo até que acabem as investigações solicitadas pelo procurador-geral Rodrigo Janot, sejam feitas as denúncias e saiam as primeiras sentenças no STF, se é que um dia isso acontecerá (o mensalão tucano até hoje não foi a julgamento).

Pelos cálculos do experiente ministro Marco Aurélio Mello, que conhece todos os escaninhos do STF, levará pelo menos três anos para que o processo seja concluído, ou seja, isto deve coincidir com a campanha presidencial de 2018.

Por mais revoltados que estejam com o governo federal e o procurador-geral Rodrigo Janot, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e Eduardo Cunha, da Câmara, não têm motivos para se preocupar tanto com seus destinos nos inquéritos abertos na noite de sexta-feira contra 34 parlamentares suspeitos de envolvimento com o esquema de corrupção da Petrobras.

Com o controle absoluto do Congresso Nacional nas suas mãos, os peemedebistas Renan e Cunha podem se dar ao luxo de escolher quem vai julgá-los politicamente nos conselhos de ética (na Justiça, é outra história, que ainda vai demorar bastante).

Na Câmara, o bloco suprapartidário formado por Eduardo Cunha ocupará praticamente a metade das cadeiras (9 no total de 21 titulares) do Conselho de Ética, que toma posse na próxima quarta-feira. Se não ficar satisfeito com alguma decisão, o investigado Cunha ainda poderá recorrer à poderosa Comissão de Constituição e Justiça, que é presidida pelo fiel aliado Arthur Lira (PP-AL), um dos 22 parlamentares do partido de Maluf incluídos no pacote de Janot/Teori.

Também Renan Calheiros tem tudo para dar um tranquilo passeio pela Comissão de Ética do Senado, onde conta com folgada maioria, ainda mais agora que virou herói também da oposição, depois de afrontar a presidente Dilma Rousseff, ao devolver a medida provisória da desoneração das folhas de pagamento.

Cunha e Renan estão possessos com o governo Dilma, acreditando piamente de que foi o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, quem convenceu Janot a colocar seus nomes na lista. Para se vingar do procurador-geral, os dois pretendem apresentar propostas na Câmara e no Senado com o objetivo de impedir a recondução de Janot ao cargo, lembrando que o mandato dele termina em setembro. É o Senado, afinal, quem aprova ou não o nome indicado pela presidente da República a partir de uma lista tríplice apresentada pelo Ministério Público Federal.

A guerra entre o Planalto e a cúpula do Congresso está só começando. Eduardo Cunha até já mudou de ideia sobre um pedido de impeachment contra a presidente Dilma. Depois de dar várias declarações em defesa do cargo da presidente, garantindo que é contrário à proposta defendida por setores da oposição, agora o presidente da Câmara já admitiu a aliados próximos que poderá acolher o pedido, a depender do tamanho das manifestações pelo "Impeachment Já" marcadas para o próximo dia 15.

Além disso, Cunha corre para aprovar em segundo turno a chamada "PEC da Bengala", que aumenta para 75 anos a idade-limite para a aposentadoria dos ministros do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de impedir Dilma de indicar cinco novos nomes no segundo mandato.

Com a atual composição, Renan e Cunha nunca tiveram maiores problemas no STF. E Renan já mandou avisar à presidente Dilma que não aceitará qualquer nome apoiado por José Eduardo Cardozo para a vaga do ex-ministro Joaquim Barbosa, que se aposentou há seis meses. Para fazer sua defesa no STF, Renan não vai nem gastar dinheiro do seu bolso: já indicou para esta tarefa o advogado-geral do Senado, Alberto Cascais, que é pago com os impostos que nós pagamos.

Por mais barulho que a aliança midiática do Instituto Millenium tenha feito desde que começaram os vazamentos das delações premiadas, pelo menos até o momento em que escrevo o mundo ainda não acabou com a divulgação dos nomes dos políticos investigados na Operação Lava-Jato.

Por falar nisso, tem alguém investigando quem é o responsável por estes vazamentos seletivos de partes dos processos que corriam sob segredo de Justiça?

E vamos que vamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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torneira E do escândalo da água do Alckmin ninguém fala mais?

As águas de março fechando o verão já estão quase indo embora e as torneiras de São Paulo continuam com a corda no pescoço. Final de março foi o prazo dado pelo governador Geraldo Alckmin para implantar o rodízio que prevê quatro dias sem água por dois com no abastecimento da Sabesp na região metropolitana, e agora ninguém mais fala no assunto.

De repente, como que por encanto, o escândalo da falta d água na maior cidade do país foi desaparecendo do noticiário, substituído por planos, projetos, obras de emergência e providências variadas adotadas pelo governo estadual, como se os reservatórios estivessem cheios e o problema definitivamente resolvido. Enquanto isso, continuamos tomando água do volume morto do Sistema Cantareira, cujo nível permanece estacionado em torno de 11%, mesmo após as últimas chuvas.

A maior obra implantada por Alckmin neste período foi um tal de "comitê de gestão de crise", que passou a pautar a imprensa amiga e sumir com as questões incômodas para o eterno governador paulista, que esta semana se deu ao desfrute de comentar um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff. E o dele? Por acaso não é crime de responsabilidade deixar a população da maior cidade do país ameaçada de ficar sem água por falta de planejamento e investimentos na área de abastecimento comandada pela Sabesp?

"Alckmin planeja parceria privada para reduzir desperdício de água", dá em manchete de página a Folha desta sexta-feira, em mais uma reportagem sobre as maravilhosas ideias lançadas pelo governador, depois que não tinha mais jeito de esconder a gravidade do problema. A cada dia, o governo solta mais um factoide do "comitê de gestão de crise" para o deleite de quem gosta de ser enganado.

Nem se pode mais falar em racionamento, rodízio e nas dezenas de bairros onde falta água desde outubro do ano passado. Agora, tudo é só "crise hídrica", como se este fosse apenas um acidente de percurso do destino provocado pela má vontade de São Pedro.

Só no dia 13 de fevereiro, já com todos os bairros da capital paulista sofrendo as consequências da redução de pressão de água, o governador Alckmin saiu dos seus confortos para promover a primeira reunião do "Comitê da Crise Hídrica" com prefeitos e entidades civis das cidades atingidas, um ano depois que os reservatórios começaram a esvaziar.

Na vida real, fora dos gabinetes que abrigam as infindáveis reuniões para discutir medidas de prevenção de incêndio numa casa que está pegando fogo, os paulistanos que moram em regiões mais altas e distantes dos reservatórios já convivem com o drama das torneiras secas faz muito tempo.

E vamos que vamos.

 

 

 

 

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ok Avenida Paulista e Parque Augusta: cadê o Haddad?

Passo por lá quase todos os dias e não acredito no que estou vendo. Desde o início do ano, com o começo das obras da ciclovia na avenida Paulista, os quatro quilômetros do principal cartão postal da cidade estão irreconhecíveis. Com o canteiro central e duas pistas cercados por tapumes de ponta a ponta, da Consolação à praça Oswaldo Cruz, reduzindo o espaço para carros e ônibus, o trânsito virou um inferno em toda a região, um desrespeito à paisagem urbana da cidade e aos seus moradores, que não foram consultados.

Será que o novidadeiro prefeito Fernando Haddad tem andado por lá a pé para ver o que está acontecendo na área que concentra alguns dos principais hospitais de São Paulo? Aqui e ali, algumas pequenas máquinas paradas, meia dúzia de operários conversando nas esquinas, pouquíssima gente trabalhando. Outro dia, no meio da chuva, foram pintar algumas faixas de vermelho e vazou tudo para as pistas, sujando carros e pedestres.

O custo desta aberração urbanística está orçado em R$ 15 milhões e o prazo para a sua conclusão é de seis meses, mas no ritmo atual aquilo não termina no atual mandato de Haddad, que é candidato à reeleição.

O pior é que a ciclovia corre o risco de ser paralisada. O Tribunal de Contas do Município de São Paulo já está investigando irregularidades na contratação desta obra feita sem licitação, com base numa "Ata de Registro de Preços", sem a elaboração de um projeto básico. O vice-presidente do TCM e relator dos processos, Edson Simões, comunicou a Secretaria Municipal de Transportes sobre as irregularidades apontadas pela auditoria, solicitando esclarecimentos urgentes.

"A nossa defesa é que nós podemos fazer por ata porque a ata é um tipo de licitação, é só uma questão formal que está sendo discutida", defendeu-se o prefeito. Questão formal ou não, o  que deveria ser discutido nem são os aspectos burocráticos e legais do contrato, mas a própria necessidade de construção desta ciclovia, dos custos nela envolvidos e das sequelas que trará para a mobilidade urbana. Será que São Paulo não tem outras demandas mais urgentes?

Andando mais alguns quarteirões, o prefeito poderia aproveitar o passeio para ver o que está acontecendo no Parque Augusta, uma das poucas áreas verdes remanescentes na região central, que vive ameaçada de se transformar em mais um pombal de concreto.

ssss Avenida Paulista e Parque Augusta: cadê o Haddad?

Nesta quarta-feira, a Polícia Militar cumpriu o mandado de reintegração de posse da área, que há um mês estava ocupada por 500 ativistas ambientais, exatamente para evitar a construção de três grandes torres de edifícios pelas construtoras Setin e Cyrekla, que já tiveram a obra aprovada pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). Que bela preservação!

A desocupação do terreno, com a participação do Batalhão de Choque, levou mais de três horas. Já que Haddad não apareceu por lá nem mandou representantes _ ele não gosta de se envolver nestas questões menores _, os ativistas foram até a prefeitura para pedir uma audiência, mas não conseguiram ser recebidos.

Ao mesmo tempo em que a prefeitura se omite, o Ministério Público já abriu inquérito para investigar irregularidades no projeto para a construção das torres. "Seria uma temeridade aprovar um projeto com tantas supostas irregularidades e com a possibilidade de compra ou desapropriação do terreno", justifica o MP.

A desapropriação do terreno custaria R$ 70 milhões, e a prefeitura não pode alegar falta de dinheiro, já que não para de abrir ciclovias e ciclofaixas pela cidade inteira, sem qualquer planejamento ou consulta aos moradores. Só na Paulista, afinal, são R$ 15 milhões (sem os inevitáveis aditivos...), que poderiam servir ao menos para pagar a entrada na compra do terreno.

A Promotoria lembrou que a prefeitura poderia utilizar também as indenizações a serem pagas à prefeitura por recursos que o ex-prefeito Paulo Maluf é acusado de ter desviado dos cofres públicos entre 1993 e 1998. Os bancos Citibank e UBS, onde estes recursos foram depositados, já se comprometeram a pagar US$ 25 milhões à Prefeitura de São Paulo, o que dá R$ 71 milhões, exatamente o valor necessário para evitar que o Parque Augusta deixe de ser um bem público para se tornar mais um bom negócio da especulação imobiliária.

Se quer mesmo ser reeleito, seria bom que o prefeito Fernando Haddad, habitual frequentador de colunas sociais e defensor dos grafiteiros que emporcalham a cidade, saísse um pouco do seu gabinete e dedicasse mais tempo aos problemas e desafios reais da população.

A propósito, em lúcido artigo publicado esta semana no Estadão, o publicitário Roberto Duailibi pergunta: "Queremos ser a capital do grafite?". E responde: "Neste momento, as únicas pessoas felizes com o que está acontecendo creio que são os fabricantes de tintas e latas de spray, que nunca venderam tanto". E depois Haddad não gosta de ser chamado de "prefeito Suvinil"...

Uma cidade sofrida como São Paulo, já tão mal tratada e mal cuidada, merece ao menos mais respeito.

Em tempo: recebi, às 16h23 desta quarta-feira, 6.2.2015, mensagem do Grupo Máquina PR,  que reproduzo abaixo, enviada por Eduardo Castro, gerente de Marketing da Suvinil:

"Caro,

com mais de 50 anos de atuação no mercado, a Suvinil, marca de tintas imobiliárias da BASF, líder de mercado e referência no setor, não tem qualquer relação com ações que estão sendo colocadas em prática na cidade de São Paulo relatadas no post (Avenida Paulista e Parque Augusta: cadê o Haddad?), no Blog Balaio do Kotscho (R7), em 05 de março. Sendo assim, entende como inoportuna a associação da sua marca ao tema tratado no post".

Caro Eduardo Castro,

como você sabe, faz já alguns meses que este apelido dado ao prefeito Fernando Haddad pelo grande filósofo José Simão circula em toda a imprensa e na boca do povo.

Em todo caso, em respeito ao amigo e à empresa, fica o registro.

Abraços,

Ricardo Kotscho

 

 

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ok2 De pernas para o ar, Brasília assusta o Brasil

Em qualquer situação, ao fazer nossas escolhas, começamos sempre com 50% de chances de acertar e 50% de errar. É da natureza humana. Depende das opções que adotamos. Foge a esta regra o que acontece com o governo Dilma-2: desde a sua posse para o segundo mandato, isolada e autossuficiente, a presidente tem conseguido errar 100%.

Na montagem do ministério, no lançamento do pacote fiscal, na sua relação com os partidos da base aliada e com o Congresso Nacional, Dilma não acerta uma, não dá uma bola dentro. Conseguiu, em apenas dois meses, montar uma sólida unanimidade _ contra ela e seu governo.

O tsunami político-jurídico que virou a capital do País de pernas para o ar nesta terça-feira, com a entrega da aguardada lista do Janot ao STF, deixou escancaradas as fragilidades das nossas instituições, a ausência de lideranças confiáveis e as relações cada vez mais esgarçadas entre os três poderes. A cada dia mais, Brasília assusta o Brasil. Ninguém confia em mais ninguém e não há chances de melhorar.

Estamos todos navegando em mar revolto numa noite escura, sem termos a menor ideia de para onde estão nos levando. Quem disser que sabe o que vai acontecer nas próximas 48 horas ou no mês que vem está chutando, mentindo ou apenas torcendo.

Na verdade, ninguém tem condições de saber, nem a presidente Dilma, nem o taxista que me trouxe para casa já tarde da noite e que, depois de ouvir o noticiário no rádio, me perguntou: E agora, doutor, o que vai acontecer? "Sabe o que eu acho? No fim, não vai acontecer nada, eles sempre acabam se entendendo...", respondeu ele para si mesmo, entregue ao desencanto após uma longa jornada ao volante.

Eu só sei que, aconteça o que acontecer, mesmo que por absurdo seja nada, não seremos mais os mesmos, não dá mais para ir empurrando com a barriga, fazer de conta que política é assim mesmo, não tem mais jeito.

Tem, sim. É só dar logo nomes aos bois, acabar com os vazamentos seletivos, apontar e provar a culpa de cada um, esquecer a eterna farsa da conciliação pelo alto, desmontar o picadeiro da demagogia e lancetar este tumor que nos corrói o corpo e a alma.

De quê, afinal, Renan Calheiros e Eduardo Cunha são acusados? E baseados em que eles logo culparam a presidente Dilma por seus nomes terem aparecido na lista, mesmo que o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, até este momento, nove da manhã de quarta-feira, ainda não tenham confirmado nada oficialmente?

Ninguém aguenta mais tanta hipocrisia e falta de caráter, em nome da governabilidade que não temos, da estabilidade econômica que derrete e da falsa cordialidade transformada em crescente intolerância.

Vamos encarar a realidade: 30 anos após a redemocratização do País, o nosso sistema político-partidário-eleitoral está falido. Assim não há democracia que sobreviva com um mínimo de dignidade.

Só para dar um exemplo: até hoje não temos o Orçamento da União para 2015, que deveria ter sido aprovado até o dia 22 de dezembro do ano passado. E o que faz o governo que, teoricamente, tem maioria nas duas Casas do Congresso? Ao mesmo tempo em que anuncia um rigoroso ajuste fiscal para equilibrar as contas, estuda a liberação de uma cota individual de R$ 10 milhões para as emendas parlamentares dos deputados novatos, que representam 45% da Câmara.

Sabem quanto vai nos custar isso? Mais algo em torno de  R$2,5 bilhões. Perdemos completamente a noção de valores _ tanto financeiros como éticos. Após um ano de investigações da operação Lava-Jato, que resultaram na bomba atômica da lista do Janot, apurou-se que o esquema envolvendo políticos, doleiros, empreiteiras e funcionários da Petrobras desviou no total ao menos R$ 2,1 bilhões da estatal. Ou seja, menos do que o governo federal pretende dar aos deputados novatos, sem falar que os reeleitos já tinham garantido uma verba de R$ 16 milhões para cada um.

Criou-se um abismo entre o país real e o país oficial, entre governantes e governados. As antigas lideranças já não têm mais nada de novo a dizer e não surgiram no lugar delas novas referências em nenhum setor da vida nacional. Estamos, literalmente, no mato sem cachorro.

Os partidos políticos, todos eles, que não param de se multiplicar, nada mais representam; o movimento social se amancebou com o poder, o poder já nada pode. A política se judicializou e o Judiciário se partidarizou. E a imprensa do pensamento único, que já foi o quarto poder, só pensa em assumir o papel de primeiro e único, e ocupar o espaço dos outros três.

Enquanto o Brasil oficial discutia o destino e as vinganças de Renan Calheiros e Eduardo Cunha contra o governo Dilma, e tentava descobrir quem são os outros 52 da lista do Janot, o Brasil real chorava a morte de José Rico, o cantor José Alves dos Santos, da célebre dupla sertaneja Milionário e Zé Rico.

Como dizem os versos da bela canção Estrada Vida imortalizada pela dupla, que ouvi milhares de garimpeiros cantando numa festa de sábado em Serra Pelada, no sul do Pará, no começo dos anos 1980, e nunca mais esqueci:

 

Nesta longa estrada da vida

Vou correndo e não posso parar

Na esperança de ser campeão

Alcançando o primeiro lugar

 

Pois é, apesar de tudo, não podemos parar.

Vida que segue, agora sem nosso ídolo Zé Rico.

 

 

 

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1423508207 Cortaram as asas do super Cunha em pleno voo

Com seus olhos sempre arregalados, a ave agourenta que sobrevoava soberana pelos céus de Brasília, no melhor estilo do corvo Carlos Lacerda, teve que fazer um pouso de emergência. As asas de Eduardo Cunha, o suprapartidário e plenipotenciário presidente da Câmara, foram cortadas em pleno voo.

O super-Cunha se empolgou demais com os poderes subitamente adquiridos em apenas um mês, e exagerou na dose, ao afrontar a opinião pública, com algo que soou como deboche num momento em que o País e os brasileiros enfrentam graves dificuldades econômicas.

Ao fornecer passagens aéreas de graça por conta da Câmara, ou melhor, com o nosso dinheiro, para os cônjuges dos parlamentares, entre outras benemerências, que custarão mais R$ 150 milhões por ano aos cofres públicos, o novo herói da oposição midiático-financeira e dos setores mais retrógrados da sociedade brasileira percebeu que já tinha ido longe demais.

"Não acho que foi precipitado nem que deveria tomar mais cuidado. Acho muito bom quando se faz uma atitude e pode ter tranquilidade de vir rever. Não somos imunes a críticas e possíveis erros", justificou, candidamente, ao anunciar, na segunda-feira, que os voos da alegria das românticas excelências estão temporariamente cancelados.

Que gracinha!, como diria minha velha amiga Hebe Camargo. Faz uma atitude? Vir rever? Garboso, Cunha recuou, mas não deu o braço a torcer, e ainda disse que a medida foi mal interpretada como regalia. "Foi uma repercussão muito negativa. Não houve entendimento correto". Quer dizer, somos todos burros.

Às vésperas da eleição na Câmara, Cunha encontrou tempo para ir a uma reunião de mulheres de parlamentares a quem garantiu a volta da "bolsa-esposa", que tinha sido suspensa em 2009. Durante sua campanha, ele prometeu mundos e fundos (os nossos fundos, claro) aos seus 512 colegas,  como se fosse candidato a presidente do sindicato dos deputados.

Entre outros projetos, o mais grandioso é a construção de um shopping center próximo ao prédio do Anexo 4 da Câmara. Como se quatro anexos à obra original de Niemeyer não fossem suficientes para abrigar os deputados, seus assessores e todas as mordomias, Cunha agora pretende erguer o Anexo 5, com três prédios, um plenário e o shopping numa parceria público-privada.

As PPPs foram criadas para permitir a participação da iniciativa privada em obras públicas, mas será que é este o caso? A construção está estimada no módico valor de R$ 1 bilhão que, para os padrões do presidente da Câmara, não deve representar muita coisa. "Ninguém vai fazer shopping com dinheiro público", garantiu. Mesmo que isto aconteça de fato, o que se pergunta é: para quê deputados precisam de um personal shopping em plena praça dos Três Poderes? Não têm mais o que fazer?

Nas horas vagas, o super-Cunha se dedica a aprovar projetos de sua autoria que criam o "Dia do Orgulho Heterossexual" e a punição, com reclusão de um a três anos de prisão, a quem cometer atos considerados discriminatórios contra heterossexuais num país em que 200 homossexuais são assassinados a cada ano.  Ao mesmo tempo, luta pela aprovação do Estatuto da Família que, entre outros retrocessos, veta a adoção homoafetiva.

E vamos que vamos.

Em tempo (atualizado às 14h05):

"A decisão unânime foi essa: revogação pura e simplesmente do ato", anunciou, agora há pouco, um constrangido Eduardo Cunha, após reunião da Mesa Diretora da Câmara, que acabou com esta mamata.

 

 

 

 

 

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mino carta 1024x769 Mino Carta resume a ópera: O suicídio do Brasil

Li agora o melhor resumo da ópera sobre o que está acontecendo no país. É o editorial desta semana do emblemático jornalista Mino Carta publicado na Carta Capital que está nas bancas. Em apenas uma pagineta de revista, ele dá uma bela resposta aos porta-vozes dos barões do poder midiático que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

"Aqui estão os responsáveis pela crise, após séculos de predação e escravidão", escreve Mino na introdução do imperdível texto, sob o título "O suicídio do Brasil", que eu gostaria de ter assinado, do qual reproduzo abaixo alguns trechos:

"Com a maior urgência o Brasil haveria de implorar por um New Deal para enfrentar a gigantesca crise em que o meteram. Caso se desse conta da necessidade, ainda assim faltariam um Roosevelt e um Keynes brasileiros para executá-lo".

(...)"No primeiro parágrafo deste editorial aludia ao Brasil como vítima. De quem? De Dilma? Da corrupção? Do Partido dos Trabalhadores? Vejamos. Dilma foi reeleita com vantagem de 5% dos votos sobre Aécio Neves. Vitória clara. A corrupção é doença crônica no País. O PT não cumpriu o que prometia e no poder portou-se com os demais. Ou seja, aqueles que mantêm a tradição partidária brasileira, vetusta ao contrário do tempo de vida do PT, nascido depois da reforma criada pela ditadura em 1979, e capaz, por mais de duas décadas, de se parecer com um partido de verdade, na melhor acepção democrática e republicana".

(...) "Não são poucos os brasileiros competentes e honestos. São, porém, minoria absoluta, e não podem fazer a diferença. Campo livre para a chamada elite, cujo empenho total foi e é manter de pé a casa-grande e a senzala. Ou, por outra, uma Idade Média dotada de computadores e celulares de infinitas serventias".

(...) "A nossa elite, a turma do privilégio, os correntistas do HSBC da Suíça e de quem sabe quantos mais paradeiros de dinheiro lavado e sonegado, é a única, inescapável vilã do entrecho. Sem empresas adequadas à tarefa, Roosevelt e Keynes não teriam condições de levar a cabo o New Deal salvador. Aqui, com o processo às nossas empreiteiras, assistimos ao suicídio imposto ao Brasil por cinco séculos de predação e três séculos e meio de escravidão".

(...) "Dois episódios desta semana são o perfeito retrato da sociedade que condena o Brasil ao suicídio. Trata-se dos moradores da casa-grande e de quantos sonham chegar lá e já agem como se fossem inquilinos. O juiz que se apossa do carro do réu. Os apupos dos frequentadores do Hospital Albert Einstein em São Paulo dirigidos contra o ex-ministro da Fazenda em visita a um amigo enfartado".

"Exemplos eficazes e aterradores, reveladores de uma sociedade que ostenta, a par de suas grifes, ignorância, parvoíce, vocação de trapaça, incapacidade crônica para a ironia e o senso de humor, prepotência e arrogância sem limites, hipocrisia e desfaçatez, velhacaria e vulgaridade. São estes os brasileiros que impõem o suicídio a um país favorecido pela natureza como nenhum outro".

Volto eu. Para quem imaginava que, após o fim da batalha eleitoral, o clima em São Paulo pudesse se tornar mais civilizado e o ar mais respirável, lamento informar que aconteceu exatamente o oposto. No principal reduto dos tucanos inconformados com a derrota, a cada dia apenas cresce o sentimento de ódio e vingança.

Ao contrário do que acontece nos países democráticos, onde um ganha, outro perde e a vida segue adiante, aqui na terra que se divide entre quem manda e quem abaixa a cabeça, onde confundem "cidadão de bem" com "cidadão de bens", querem simplesmente pegar a bola e anular o jogo.

Não é para menos numa sociedade de castas em que os donos de verdades absolutas, acima do bem e do mal, das leis e da boa educação, cercados de sabujos que só os chamam de "doutor", acham que podem tudo. Por isso, tenho certeza que nenhuma cidade do mundo tem mais "doutores" do que São Paulo. Deve ser também o único lugar onde jornaleiros são mais reacionários do que jornalistas "liberais", que, por sua vez, costumam ser mais realistas do que os reis seus patrões.

Tem razão o leitor Dias que enviou este comentário às 12h07 desta segunda-feira:

"Lamentável é persistir no Brasil a ladainha sobre os senhores de engenho em pleno século XXI. Ou o Brasil acaba com a anacrônica Casa Grande ou a anacrônica Casa Grande acaba com o Brasil, condenando-o ao passado".

Os senhores de engenho, caros Mino e Dias, apenas mudaram do campo para a cidade.

Em tempo: sobre o mesmo tema, e na mesma linha, não deixem de ler também o artigo semanal de Eliane Brum publicado no jornal espanhol "El Pais", sob o pedagógico título "A boçalidade do mal":

http:// brasil/elpais.com/brasil/2015/03/02/opinion/1425304702 871783.html

Alguém poderia me perguntar: por que estes dois grandes jornalistas brasileiros estão fora da grande imprensa brasileira?

 

 

 

 

 

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