Deixei de escrever sobre a campanha eleitoral esta semana porque a cada dia baixa mais o nível das campanhas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, e isto me deixa triste. Pra falar a verdade, nem tenho o que falar.

A cinco dias da definição do segundo turno, a discussão sobre os problemas e o futuro das nossas grandes cidades cedeu lugar a panfletos apócrifos, ofensas pessoais e agressões físicas.

Não foi certamente para isso que o país foi às ruas em 1984 e inundou o  país nas maiores manifestações populares de nossa história para lutar por eleições diretas.

A baixaria das campanhas acaba se refletindo também na radicalização cada vez maior dos leitores/eleitores, que vão deixando os argumentos de lado e partem para o tudo ou nada, apenas se preocupando em desqualificar e atacar os adversários de domingo.

Uma exceção à regra foi a mensagem que recebi agora há pouco da leitora paulistana Liane Rossi , historiadora e funcionária pública, que defende a candidatura de Marta Suplicy com argumentos civilizados, que podem ser úteis á reflexão dos visitantes do Balaio. 

Em tempo: o espaço aqui está aberto para defensores de outros nomes que defendam seus candidatos sem ofender os outros.

A mensagem de Liane Rossi: 

Queridos,
 
Gostaria de pedir um voto de confiança, não em mim, nem no PT, nem em Marta. É um voto de confiança na cidadania que pessoas muito pobres, a quem nunca conheceremos, que vivem em lugares muito distantes, onde nunca iremos, podem obter com a vitória de Marta Suplicy.

Não precisamos nos enfiar nos recônditos da miséria desta cidade pra saber disso, porque temos informação. E isso é bom, ter informação, uma vida confortável, e nunca perder de perspectiva quem mais precisa da Prefeitura, quem depende do Estado pra tudo.
O que não é bom será privar essas pessoas de uma vida melhor, da possibilidade de cidadania, somente porque nos ressentimos da perda de nossas ilusões e sonhos de uma vida _ no meu caso, de trabalho apaixonado desde os 16 anos, no movimento secundarista.

O que eu quero pedir é que neste domingo a gente vote com consciência de que não tem mensalão, cuecão, dossiê, conta de caseiro ou qualquer coisa que nos faça perder o foco da luta da nossa juventude: melhor distribuição de renda, atendimento das demandas sociais, governo voltado pra quem precisa mais.

Posso me dar ao luxo de dizer que na minha vida pouca implicância tem a vitória de Marta ou Kassab, mas na minha história de vida, faz muita diferença. Nas crenças que escândalos não destroem, faz muita diferença.

Por isso, me atrevo a pedir o voto em Marta. Por isso, não perdi as esperanças. Porque tenho orgulho do país que elegeu o torneiro mecânico que me encantou nas greves do ABC e que me encanta com os tão criticados programas de inclusão, chamados de assistencialistas, justamente chamados, e justamente criados, porque o papel do Estado é assistir ao cidadão, prover, cuidar e permitir que se desenvolva e deixe de receber passivamente e passe a cobrar.

Um beijo

Liane

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Quando lhe perguntam sobre a importância da sua obra para a arquitetura brasileira, o grande Oscar Niemeyer, firme e forte às vésperas de completar 101 anos, costuma responder com uma grande lição para todos nós:

"Importante, meu filho, não é a arquitetura... Importante é a vida..."

Para ele, a arquitetura é apenas um instrumento, um meio de expressar seus conhecimentos e sentimentos, não é um fim em si mesmo, não é uma razão de viver. É justamente o contrário: suas razões de viver é que fazem da sua arquitetura uma arte única e admirada.

Para mim, o homem é sempre mais importante do que sua obra, qualquer que seja seu tamanho. Assim também encaro o jornalismo, que exerço com paixão desde a adolescência, a ponto de minha mulher às vezes reclamar dizendo que me dedico mais à profissão, sua grande rival, do que a ela.

Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, já trabalhei em diferentes meios e plataformas, como se diz hoje em dia, e agora estou aqui na internet cuidando deste Balaio, ainda aprendendo a lidar com esta grande novidade nas comunicações humanas.

"Kotscho, logo se vê que você é novo nisso!", escreveu-me com toda razão o "Leitor Atento", um comentarista habitual deste espaço, ao me criticar pelo post de ontem sobre o anonimato na web que ainda me incomoda neste trabalho.

Para provar que é bobagem minha reivindicação pedindo que os leitores se identifiquem com nome e sobrenome, "Leitor Atento" usou um outro nick: "Carlos Alberto Barbosa Dantas". De fato, este parecia ser verdadeiro...

Foram cerca de 100 leitores até agora há pouco que se manifestaram sobre o texto "A lei e a covardia dos anônimos da web", que escrevi em resposta a um estudante que me questionou sobre este tema durante um debate ontem de manhã na Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

A maioria, como constatou a leitora Rita, defendeu os nicks, quer dizer, a necessidade de manter o anonimato na internet pelas mais variadas razões. O primeiro a se manifestar, o leitor José da Silva, me deu um motivo no qual nunca havia pensado: muitos comentaristas escrevem do seu local de trabalho e não querem deixar rastros que possam chamar a atenção de seus chefes.

O post acabou provocando uma boa discussão entre os próprios leitores, que é uma das razões de ser deste Balaio: estimular o debate sobre temas que são de interesse de todos nós.

Teve gente que entendeu o texto como uma intimidação aos leitores anônimos, a exemplo de J. Luis, que enviou comentário às 8h08 de hoje.

Nem sempre os leitores têm razão. Ele diz que um filho meu estuda com o dele no mesmo colégio, o que é meio impossível, porque só tenho filhas e as duas já se formaram na faculdade faz muito tempo.

Alguns explicaram que usam nicks e não se identificam por medo "dos petistas" em geral ou de sofrer represálias por parte de outros leitores. Não é fácil: enquanto uns me propõem que eu faça uma varredura no Balaio para deletar comentários xulos e ofensivos, contratando um moderador, outros temem que sejam censuradas opiniões contrárias às minhas _ o que é um absurdo, como podem comprovar os próprios leitores que frequentam este espaço.

"Num debate de idéias o que vale é a mensagem, não o emissor", defende Dante Pessoa, nome que ele mesmo diz se tratar de pseudônimo. Victor Hugo de Oliveira justificou o anonimato pela mesma razão do voto ser secreto nas eleições: "Aqui na internet se ouve o que se quer e o que não se quer". Até aí tudo bem.  

Mas Tato de Macedo, que também tem um blog, exagerou: mandou até seu telefone e endereço junto com número de RG. Tem de tudo nos comentários, alguns muito bem escritos e fundamentados, como o de Bento Bravo, que faz boas análises todo dia de manhã aqui no Balaio, defendendo suas idéias sem ofender ninguém.

O leitor Mauro Chazanas resumiu o que eu gostaria de dizer ao encerrar esta nossa primeira conversa do dia: é importante todos preservarmos o bom humor. Porque, como diria o sábio Niemeyer, importante é a vida, a internet é só um meio.

  

 

 

 

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Uma coisa que sempre me incomodou muito na internet, mesmo antes de começar a escrever nela, é a covardia dos comentaristas anônimos, que se escondem sob pseudônimos, alcunhas, niks, apelidos, codinomes e o diabo a quatro.

Há os mais preguiçosos que se assinam simplesmente assim: "Anônimo". Já vi blogs em que praticamente todos os comentaristas escondem suas verdadeiras identidades das mais diversas formas. Gostaria de saber: por que?

Um estudante me perguntou o que achava disso durante o debate de que participei esta manhã sobre "Caminhos da Reportagem" na Semana de Jornalismo promovida pela Faculdade Cásper Líbero.

É difícil explicar as coisas que nem entendo _ por isso, fico me perguntando. O que leva uma pessoa a gastar seu tempo emitindo opiniões o dia inteiro em blogs e se recusar a assumir a própria identidade? Tem vergonha ou medo do que escreveu?

O que eu não sabia era que a Constituição Federal de 1988 já trata destes casos, como li esta semana num texto que me enviou, para um livro que estou fazendo, o Advogado-Geral da União, o amigo José Antonio Toffoli. Diz o texto constitucional com todas as letras:

"Estabelece no Capítulo dos direitos e deveres individuais e coletivos a liberdade de manifestação do pensamento, vedado o anonimato (inciso IV do art. 5º).

"Prevê como antídoto a qualquer abuso eventualmente cometido o direito de resposta proporcional ao agravo, além da indenização pelos danos materiais ou morais à imagem (inciso V do art. 5º)".

Será que sabem disso os que despejam anonimamente seus ataques rasteiros e preconceitos doentios na internet? Sabem eles que hoje há recursos tecnológicos para  descobrir a origem das mensagens criminosas, mesmo quando anônimas, e que a Justiça já está processando e punindo seus autores?

Desde que comecei a escrever em jornal, em meados do século passado, sempre batalhei para que minhas matérias fossem assinadas, de preferência na primeira página _ e eram tempos de ditadura militar, em que os jornalistas corriam muitas vezes risco de vida no exercício do seu trabalho.

Justo agora, que vivemos o mais longo período de liberdades públicas desde o final do Estado Novo, e uma avenida sem fim se abre na internet para que todos possam manifestar democraticamente suas opiniões, sem censura, não consigo entender esta febre do anonimato que se espraia pela web.

No texto de apresentação deste Balaio, comuniquei aos leitores que não pretendia fazer nenhum tipo de moderação porque o grande barato deste novo meio de comunicação é justamente a garantir a liberdade para cada um falar o que sabe, pensa, sente, gosta ou desgosta, gerando discussões e debates.

Deu certo nos primeiros dias, mas depois fui obrigado a pedir ajuda aos meus colegas do iG  para filtrar os comentários quando um bando de cachorros loucos sob diferentes pseudônimos entrou aqui xingando e ofendendo todo mundo.

Mesmo assim, apesar das providências tomadas, o leitor Fernando Cesar em seu comentário das 19h25 de 17/10 cobrou-me uma nova varredura: 

"Como um espaço democrático é mal utilizado. O grande culpado é o sr. blogueiro que não faz uma varredura dos comentários de baixo nível".

Ao contrário de alguns concorrentes, não me importo quando os leitores me criticam ou escrevem comentários agressivos, chamando-me, no mínimo, ora de petista, ora de tucano. Acho que faz parte do jogo. Só não aceito ataques a terceiros, que às vezes escampam.

Pra falar bem a verdade, nem posso me queixar porque a absoluta maioria dos comentários aqui postados são, na forma e no conteúdo, bem mais civilizados e bem escritos do que os que leio por aí na concorrência.

Tenho fé que, com o tempo, todos descobrirão que é bem melhor assinar com nome e sobrenome verdadeiros porque assim tem mais valor o que a gente escreve.

 

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Nos últimos quatro dias, peguei uma maratona de três palestras e debates para públicos diferentes sobre um mesmo tema: as relações da mídia com o poder e a sociedade.

Que eu me lembre, a imprensa brasileira nunca se viu tão questionada por sua freguesia _ quer dizer, todos nós ouvintes, leitores e telespectadores _ como nestes últimos tempos. Basta dar uma olhada nos comentários enviados para este Balaio e outros blogs de caráter jornalístico.

Sabemos que a mídia não gosta de falar da mídia, muito menos questionar a si própria, como faz com todos os outros setores da sociedade. São muito raros os espaços abertos nos veículos tradicionais para discutir seu próprio produto.

Mesmo nas seções reservadas aos leitores nos nossos jornalões, com exceção da "Folha", conta-se nas orelhas as correspondências com críticas à própria publicação.

Na manhã de sábado, ao lado de cinco colegas com diferentes experiências (Augusto Nunes, Pedro Cafardo, Josemar Gimenez, André Luiz Azevedo e Marco Damiani), participei de um workshop organizado para altos executivos do Bradesco interessados em saber como agir nas suas relações com a imprensa.

Ontem à noite, participei com o professor Eugenio Bucci, ex-presidente da Radiobras, sob a mediação de Suzana Singer, da "Folha", de um debate com alunos e ex-alunos do Colégio Santa Cruz, onde estudei, em que falamos da nossa experiência na área de comunicação do governo federal.

Acabei de chegar agora de um animado debate da Semana de Jornalismo num lotado auditório da Faculdade Cásper Líbero junto com a jovem repórter Gabriela Lian, da equipe de Caco Barcellos na TV Globo, sob a mediação do professor Igor Fuzer.

Nos três encontros, notei um grande interesse do público em saber não só como são produzidas as notícias, mas também quais as consequências da revolução provocada pela internet na vida dos orgãos da mídia tradicional, que andam com sua credibilidade seriamente questionada em diferentes ambientes.

Não é de hoje que venho notando uma crescente desconfiança de quem vai a estes debates promovidos por empresas e instituições de ensino em relação aos velhos dogmas de imparcialidade, neutralidade, objetividade e apartidarismo, historicamente defendidos pela chamada grande imprensa.

Se é que isto em alguma época existiu, o fato é que hoje o brasileiro já não aceita o prato feito que lhe é servido como verdade absoluta pela grande mídia e quer discutir, questionar, participar dos debates sobre como são feitas as salsichas da indústria da informação.

Sem querer ensinar o Pai Nosso ao vigário, penso que está mais do que na hora desta indústria criar novos canais de comunicação e participação que permitam ao seu leitorado e à sua audiência interagir com o produto de forma mais aberta e permanente, como já acontece nas novas mídias eletrônicas.

Mas não basta apenas ouvir. Acho que já está na hora de tomar alguma providência concreta antes que o bonde da história atropele os retardatários.     

 

 

 

 

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Na loucura das bolsas, das eleições aqui e ali, das pequenas e grandes tragédias cotidianas, muitas vezes a gente não fica sabendo do que realmente é importante saber entre a vida e a morte, o céu e a terra. 

Destes fatos, muitas vezes costumo ser informado mais pelos amigos no outlook do que nas navegações internéticas. Conto para isso com uma rede de correspondentes voluntários do Balaio, que aumenta a cada dia. 

Agora mesmo, por exemplo, recebo do repórter Chico Pinheiro, benemérito colega do Grupo de Oração e apresentador da TV Globo nas horas vagas, a notícia da morte do compositor Luiz Carlos da Vila, o grande poeta do samba.

Chico, ele próprio um poeta do jornalismo, tem um jeito muito dele de encarar as coisas da vida e da morte, sempre com muita paixão, um menino que ficou grande sem ficar bobo, mas sem nunca deixar de ser menino.

Segue a mensagem que ele mandou aos amigos, com direito à letra de três composições de Luiz Carlos da Vila (ainda preciso aprender como é que faz para colocar som no blog...): 

Queridos e queridas,

o Brasil perdeu hoje um grande poeta negro, um grande sambista, uma grande ave mansa.

Aos 59 anos, vai Luiz Carlos da Vila viver para sempre o seu Dia de Graça, na eterna manhã feliz, "do jeito que o Mestre sonhava ..."  

Quem não ouviu suas músicas não sabe das belezas que estão escondidas ali.

"Por um dia de Graça",  um dos hinos das "Diretas Já", é uma profunda manifestação de Esperança, oração que poderíamos proferir todos os dias neste Brasil.  

"Kizomba", samba-enredo que ele compôs para a Unidos de Vila Isabel (e venceu !) é a profissão de fé em Zumbi dos Palmares e na força transformadora da luta pela Libertação.

"Nas veias do Brasil" (gravada também por Beth Carvalho) é canto de amor-doação do preto velho que cura de graça, da mãe negra que amamenta amorosa os filhos do senhor da casa grande, na esperança de que o alimento dê a cada pequeno um coração para sempre sensível.

Vai Luiz Carlos da Vila, vai brilhar com a luz de Candeia, vai para  refletir sobre todos nós a beleza do sonho do Mestre, que agora podes contemplar, face a face. 

Pede a todos o santos e orixás que nos ensinem a descobrir a riqueza da Graça derramada sempre sobre todos e cada um de nós a cada dia. Axé !!!     

Com fraternura, Chico Pinheiro, repórter

Por um dia de Graça

Composição: Luiz Carlos da Vila

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o Mestre sonhava

O não chorar
E o não sofrer se alastrando
No céu da vida, o amor brilhando
A paz reinando em santa paz

Em cada palma de mão, cada palmo de chão
Semente de felicidade
O fim de toda a opressão, o cantar com emoção
Raiou a liberdade

Chegou o áureo tempo de justiça
Do esplendor, do preservar a natureza,
Respeito a todos os artistas !
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça
O povo todo em louvação
Por esse dia de graça

===================================================================

Kizomba, A Festa Da Raça

 

 

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Recebi e reparto com vocês as graves denúncias sobre a invasão do gado destruindo a selva na Amazônia, que recebi de João Meirelles Filho, diretor geral do Instituto Peabiru, em Belém, um dos melhores e mais dedicados brasileiros que encontrei nas minhas andanças pelo país.

Apesar de herdeiro de uma tradicional família de grandes pecuaristas de São Paulo, ele largou tudo para dedicar sua vida a salvar o que resta da floresta amazônica ameaçada pelos pastos que avançam a cada dia. Tudo o que ele escreve é coisa séria, faz a gente pensar _ e, se possível, agir.

Sob o título "Amazonia: Carnaval ou Quaresma?", Meirelles escreveu o texto, um verdadeiro libelo, que segue abaixo:

Para os cristãos o carnaval é o momento da ruptura, onde tudo pode, a folia sem limites. A quaresma, que lhe segue, é a quarentena da comiseração, do sacrifício, da meditação. A palavra carnaval origina-se do latim medieval, de carne levare – abstenção a carne.

A Amazônia dos últimos 40 anos, desde o golpe militar de 1964, é a Amazônia do tudo pode, do carnaval – pode matar índio, pode expulsar caboclo e quilombola, pode grilar terra, pode roubar madeira, pode abrir pasto pra boi, pode garimpar ouro, pode plantar soja, pode transformar castanhal em pasto. Tudo pode.

Deu no que deu: 70 milhões de hectares desmatados para pastarem os bois. É mais do que a soma dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo _ juntos!

Para que? Para gerar pífios 0,4% do PIB do Brasil, menos de R$ 10 bilhões, uma renda insignificante, seja pela enorme evasão fiscal, seja por uma atividade de baixa lucratividade e que nem aos pecuaristas vale a pena, que gera pouco menos de 200 mil empregos e não agrega valor à Amazônia. Mesmo a Amazônia nada pouco significa para a economia do Brasil: a renda anual é de R$ 71,8 bilhões, 3,4% do PIB do país.

Para a Amazônia só ficam os troféus - campeã mundial de desmatamentos e queimadas, campeã de escravização de mão de obra, campeã de desrespeito aos direitos humanos, campeã de exclusão digital, de doenças tropicais, de localidades sem bibliotecas.

Ao mesmo tempo, em quatro décadas, o Brasil transferiu 1/3 de sua boiada para a Amazônia e, nós, calados, assistimos a tudo sem nos indignarmos.

Hoje discutimos assuntos de segunda importância: se a Amazônia deve ter agricultura como soja ou cana-de-açúcar, que, juntas, não ocupam 5 milhões de hectares. Enquanto isto, não tratamos do grande problema da Amazônia, e do Brasil: a pecuária bovina, que ocupa 200 milhões de hectares do país e 70 milhões de hectares na Amazônia.

O boi é o carrapato do Brasil. Suga nossa seiva, nossa selva. O boi suga nossa inteligência, nossa capacidade de pensar, nossa capacidade de nos expressarmos enquanto Nação, nos encouraça – o Brasil é um pasto cercado de arame farpado por todos os lados.

A população da Amazônia, como sempre, nem de carne de qualidade e a baixo preço se beneficia – a carne é mais cara do que no Sudeste, de qualidade duvidosa e origem incerta (boa parte é oriunda de abate clandestino, o boi-mato). De toda carne da Amazônia só 15% fica na região. O restante é enviado aos outros retiros do Brasil: São Paulo e o Sudeste devoram a Amazônia.

De cada três bifinhos mastigados no Brasil, pelo menos um vem da Amazônia. Você já comeu a Amazônia hoje?

São mais de 75 milhões de cabeças de gado bovino na Amazônia. Em 1964, eram pouco mais de 3 milhões. Em 2020, se nada for feito, serão 200 milhões de cabeças.

Destas 75 milhões, pelo menos 10 milhões são de bois piratas – bois sem registro, sem vacina, sem controle, boi que não paga imposto, boi dentro de terra indígena e parque, que os donos escondem no fundo das invernadas, comercializados sem ninguém saber. A Secretaria da Receita Federal ao não revisar o Imposto Territorial Rural e o anexo 6 do imposto de renda – o formulário da atividade rural –perpetua esta situação.

Para piorar, a pecuária da Amazônia gera desmatamento e queimadas, que tornam o Brasil um dos campeões do aquecimento global. Setenta e cinco por cento da contribuição brasileira ao efeito estufa vem do churrasco pirotécnico amazônico. Você, cidadão, gasta mais carbono ao comer seu bifinho do que com o uso de veículos automotivos ou passagens aéreas.

O governo insiste nesta conversa de controlar desmatamentos e queimadas e se comove no teatro de anunciar as cifras do ano. No entanto, esta medição é como verificar a febre do doente. A causa, mesmo, ninguém discute, especialmente em currais eleitorais de um Congresso Nacional, Assembléias Estaduais e Câmaras Municipais eminentemente pró-pecuaristas.

A verdadeira causa da destruição da Amazônia é o forte crescimento do consumo de carne no último meio século. E o Brasil oferece a Amazônia para ser o grande curral do planeta. Além do sambódromo do Rio e do bumbódromo de Parintins, agora a Amazônia é o bifódromo do Planeta.

A Amazônia tem água barata, tem terra barata, tem mão-de-obra barata e tem pouca fiscalização. Tanto faz se a produtividade é baixa (0,7 cabeças/hectare e menos de 100 kg de proteína animal/ha/ano), se é preciso usar agrotóxico no lombo dos bois, se a biodiversidade e a sociodiversidade são ignoradas, ou se o boi destrói as micro-bacias e polui o maior manancial de água doce do Planeta. Não há, em toda a Amazônia uma única propriedade de pecuária que cumpra 100% da lei brasileira.

Provavelmente, o que se queima de madeira, o que se desvia na festa da evasão fiscal, o que se perde por não se contabilizar e cobrar pelos serviços ambientais, e o que se desperdiça de recursos naturais, seja muitas vezes superior aos ridículos R$ 10 bilhões gerados pela pecuária bovina na Amazônia (comparem com os números da crise financeira global).

Além do mais, como somos um países de generosos, nossos bancos oficiais, o BNDES e o Banco da Amazônia à frente, com o dinheiro suado do contribuinte, são pródigos em ceder créditos vantajosos aos pecuaristas e frigoríficos (são mais de R$ 2 bilhões) e nosso governo apóia o IFC – International Finance Corporation (do Banco Mundial), quando empresta dinheiro (US$ 90 milhões) ao rupo Bertin para transformar a Amazônia em bife.

Este grupo é tão sofisticado que, recentemente, foi multado por não conseguir sequer controlar seus efluentes das modernas instalações industriais do matadouro de Marabá, Pará.

As próximas gerações não nos perdoarão por tamanho desprezo pela Amazônia e seus habitantes. Seremos aquela geração que preferiu trocar a Amazônia por mais um bifinho e um saco de carvão. Quando a próxima geração chegar teremos perdido metade, ou mais, da Amazônia porque temos preguiça de tratar o assunto com seriedade.

O que deve pensar de nós o restante do mundo quando nos vêem, pacientemente, transformar a maior floresta tropical do Planeta em picadinho? Será que não pensam assim: como podem os brasileiros, tão alegres no Carnaval, tão simpáticos, tão bonzinhos e inteligentes, aceitar entregar a Amazônia por tão pouco?

Como compreender que emprestamos imensas terras para zelosos fazendeiros, que deveriam servir como imensos castanhais e fontes eternas de madeira e, no fim do dia, há só currais e bois marcados a ferro com seus nomes.

Como entender a política de reforma agrária que transforma mais de 10 milhões de hectares de 3,6 mil projetos de assentamentos da Amazônia em pastos para boi, serrarias ilegais e carvoarias, e mantém na miséria a imensa maioria dos assentados?

Aceitemos nossa reles condição: somos os escravos da pecuária. A pecuária é o principal motor de destruição do Brasil. Foi ela que destruiu a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga e agora devora a Amazônia. O Estado de São Paulo, famoso por seus canaviais, ainda tem mais terra com boi do que para cana.

Toda a agricultura do Brasil não ocupa mais do que 58,1 milhões de hectares (49 milhões de hectares em culturas anuais de grãos, 6,7 milhões em cana, 2,4 milhões ha em café (IBGE, jan. 2008), outros 5 milhões de

hectares são com outras culturas (mandioca, algodão etc.) e há 7 milhões de hectares em florestas plantadas. Conclusão: o Brasil ocupa menos de 70 milhões de hectares com agricultura (8,2% do território nacional), enquanto o carrapato da pecuária se refestela na sua incompetência e já engole 25% do seu e do meu Brasil e agora quer avançar sobre a Amazônia e tomar 50% do Brasil.

Em termos mundiais a situação é ainda mais grave. A pecuária (e a área necessária para produzir comida pra boi) ocupa 40% das terras aráveis do Planeta (FAO, 2007). Isto porque a humanidade escolheu o boi como uma de suas principais fontes de proteína animal.

O boi, o pior conversor de energia que existe, precisa comer 7 kg de cereal para produzir 1 kg de carne. A comida que alimenta os boizinhos daria para saciar a fome de todo o planeta e sobraria arroz para o dia seguinte.

O problema é que o consumo de carne cresce de maneira astronômica. Enquanto o argentino e o norte-americano comem mais de 60 kg de carne bovina por ano, o brasileiro come mais de 36 kg e o chinês, magros 5 kg/ano. Se os chineses desejarem (e querem muito) dobrar seu consumo de carne, não há boi no planeta para saciá-los e aí teremos que decidir: vamos alimentar bois para os pratos chineses ou vamos tentar manter o angu do planeta Terra funcionando?

E o Brasil, continuará a ser este grande curral, de fartas churrascarias ou faremos algo mais inteligente e sustentável sobre nosso futuro? É sobre esta Amazônia que precisamos discutir: a Amazônia sustentável, não a dos pecuaristas, pistoleiros, grileiros e ladrões de madeira: até quando seremos reféns desta porteira aberta /fronteira aberta? Até quando vamos ignorar o que se passa dentro das milhares de fazendas, onde tudo pode?

Será que não somos mais competentes em gerar renda por meios mais sustentáveis, a partir de sua biodiversidade, sociodiversidade e recursos naturais e produzir mais que R$ 10 bilhões?

Se só a Vale, uma única empresa privada, pretende investir R$ 20 bilhões na Amazônia em 5 anos, será que nós, brasileiros, não conseguimos decidir o nosso futuro?

Será que não conseguimos uma combinação de atividades sustentáveis a partir da floresta em pé, da recuperação das áreas degradadas com culturas permanentes, de uma aqüicultura cabocla, de uma mineração inteligente e de ecoturismo para valer?

O Brasil sairá da adolescência quando perceber que o boi é o carrapato que suga todas as nossas forças. O boi é o carrapato que faz um verdadeiro carnaval com a gente: tem mais boi do que gente neste Brasil.

Está na hora de reaprendermos a ser brasileiros. Cidadania começa em nossos pequenos atos: o que decidimos comer, por exemplo.

Está na hora de pilotarmos o carrinho de supermercado cientes de que cada escolha nossa constrói ou destrói a Amazônia. Se para o dono do supermercado tanto faz de onde vem a carne, para você talvez seja diferente. Pergunte, exerça seu direito de consumidor e cidadão.

Prepare a sua fantasia para o próximo carnaval – de curupira, saci-pererê – xô boi feio, o carnaval do ano inteiro - do açaí, do cupuaçú, do ecoturismo, da madeira certificada, do turismo consciente, da Amazônia digna e respeitada. Adeus ao carnaval do Brasil da boiada sem fim.

 

 

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Só agora que a tragédia de Santo André acabou, e todo mundo já falou e escreveu e faturou o que podia e o que não podia nas 100 horas daquela interminável agonia, atrevo-me a tratar do assunto, mas para falar de uma coisa bonita.

Sim, até nas maiores tragédias temos exemplos de vida em meio à morte. Claro que estou falando da decisão tomada pela família da menina Eloá Pimentel de doar todos os seus orgãos assim que foi constatada a morte encefálica. 

Em vez de ficarem discutindo se a polícia agiu certo ou errado nos deprimentes debates promovidos durante todo o domingo na televisão, exibindo à exaustão as derradeiras cenas da tragédia de Santo André, por que meus colegas não aproveitaram o belo exemplo da família de Eloá para divulgar informações sobre a campanha de doação de órgãos recentemente lançada pelo governo federal?

Por que não fizeram reportagens mostrando o drama de milhares de pacientes que estão neste momento nos hospitais e em suas casas esperando de outras famílias a grandeza dos parentes da menina de 15 anos que salvará outras vidas após a sua morte?

Contei aqui no mesmo Balaio, outro dia (ver posts anteriores), sem que nenhum outro veículo se interessasse pelo assunto, a exemplar história de dois tenentes-coronéis aviadores da FAB em que um doou seu rim para salvar a vida do outro.

Centenas de leitores enviaram comentários naqueles dias relatando seus dramas familiares com histórias similares de quem aguarda a doação de um orgão para poder voltar a levar uma vida normal.

Aquilo que passou despercebido para os profissionais da chamada grande imprensa, que se limitaram a registrar o fato neste fim de semana, chamou a atenção de um leitor da "Folha", Maurício Leal Dias, de Belém do Pará.

Abaixo, a carta do leitor publicada na edição do jornal nesta segunda-feira:

"Fico comovido com a atitude exemplar da família de Eloá, que, em um momento de tanta dor, possibilitou que outros possam dar continuidade às suas vidas, ao decidir doar os órgãos da adolescente.

Espero que este gesto sirva como estímulo para que outras famílias autorizem a doação de órgãos de seus entes queridos, pois, no Brasil de hoje, milhares estão sofrendo na fila de transplante". 

 

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O processo de transferência de profissionais da imprensa de papel para a internet vem acompanhada pela crescente migração de leitores. A multiplicação de brasileiros que já estão ligados à grande rede, que se aproxima de 50 milhões, ocorre no mesmo momento em que a circulação dos grandes jornais e das revistas semanais encontra-se congelada.

Os três grandes jornais nacionais _ Folha, O Globo e Estadão _, que muitos anos atrás chegaram a vender mais de 1 milhão de exemplares aos domingos, hoje estão estabilizados na casa dos 300 mil. Veja, a publicação de maior circulação, parou há muito tempo em 1 milhão de revistas vendidas por semana entre assinantes e venda nas bancas. 

Mais do que os grandes números, porém, o que a meu ver explica o fenômeno, que não é só brasileiro, mas mundial, é uma palavrinha-chave: interação.

Foi isto que mais me chamou a atenção desde a estréia deste Balaio, faz apenas cinco semanas: a cada dia, mais leitores entram aqui para comentar,  emitir opiniões, fornecer novas informações sobre os temas tratados. Parece que todo mundo agora não quer mais ser apenas receptor, mas também emissor de informações e opiniões. 

Em poucos minutos, logo após um novo post entrar no ar, começa o debate entre os leitores, muitas vezes até nem levando em conta o que escrevi, apenas se importando com o que eles próprios têm a dizer sobre o tema tratado. Mais do que apenas se informar, sinto que o leitorado quer participar do jogo da comunicação.

O ranking semanal que Folha e a Veja publicam sobre os assuntos mais comentados da semana, que acabei de ver agora, me levou a fazer um levantamento do Balaio. Fiquei bastante feliz com os números encontrados e, ao mesmo tempo, assustado com a dimensão que a coisa vem tomando.

Em mais de 40 anos de carreira, nunca tinha acontecido nada parecido comigo. Nos tempos em que a comunicação do público com os jornalistas só se dava pelos correios ou por telefone, acho que a vida toda não recebi tanta correspondência, quer dizer, tanto feedback dos leitores, como diziam meus professores na ECA.

São estes os números do Balaio comparados com os da Folha e da Veja sobre os três temas mais comentados pelos leitores na última semana (12 a 19 de outubro de 2008), até as 9h30 de hoje:

Balaio

Eleições _ 904

PM X Polícia Civil _ 786

Rádio Saudade FM _ 29

Total _ 1719

Folha

Eleições _ 370

Crise financeira _ 85

PM x Polícia Civil _ 43

Total _ 498

Veja

Crise global _ 20

Eleições _ 14

Lya Luft _ 9

Total _ 43

Como o leitor pode verificar, este jovem e modesto Balaio teve um retorno dos seus leitores muito acima do que os comentários somados recebidos pelo maior jornal e pela maior revista em circulação no país _ os dois juntos, diga-se.

Quem tiver alguma outra explicação sobre o que está acontecendo nesta migração das velhas mídias de papel para as novas mídias eletrônicas, por favor, sinta-se à vontade para comentar aqui mesmo.

Da minha parte, só tenho que agradecer a cada um em particular e a todos os leitores que desde o dia 11 de setembro fazem deste Balaio o seu espaço de discussão. Valeu, muito obrigado!

 

 

 

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Publicado em 18/10/08 às 18h43

Fernanda Torres e a dança da morte

12 Comentários

Recebi e divido com vocês "A dança da morte", um belo e comovente texto de Fernanda Torres sobre seu pai, Fernando Torres, que me foi enviado pela amiga jornalista Marilda Varejão, diretamente de Petrópolis, onde ela curte sua mais do que merecida aposentadoria:

A peça Seria Cômico Se Não Fosse Sério, de Friedrich Dürrenmatt, foi o
melhor espetáculo teatral que meus pais produziram em anos e anos de
parceria.

Baseada na Dança da Morte, do dramaturgo sueco August
Strindberg, ela se passa no início do século passado e conta a
história de um general aposentado, Edgar, e sua esposa, Alice, que
vivem às turras, isolados em um farol.

Um dia, o casal recebe a visita de um primo mafioso, que se esconde com eles no alto da torre. Depois de desassossegar a vida dos dois por doze vertiginosos rounds, o primo cafajeste se manda, devolvendo o par à sua mais derradeira solidão.

Jamais vou esquecer meu pai com barbas de Matusalém, vestido de
general da I Guerra, dançando furiosamente a Dança dos Boiardos. Era
sensacional. Lá pelo fim do espetáculo, Edgar se levantava louco,
altivo, e dizia:

– Agora vou dançar a Dança dos Boiardos!

E começava uma coreografia ensandecida, meio russa, meio gaúcha,
pulando em torno de uma espada no chão. Querendo exibir vigor ao primo
escroque da esposa, Edgar dança até o limite de suas forças e acaba
sofrendo um AVC. A peça termina com Edgar numa cadeira, seqüelado pelo derrame, e Alice arrumando a desordem da casa por causa da passagem do primo.

Era de uma beleza terrível, cortante, teatro com T maiúsculo. Quem viu
sabe. Como com teatro não se brinca, havia ali o prenúncio de algo que
viria a acontecer com meus pais anos depois, só que de maneira muito
mais doce, amorosa e redentora.

Minha mãe cuidaria dele, e ele dela; mais ela dele, por problemas de saúde, no terço final de seus 57 anos de casados. Uma amiga gostava de dizer que meu pai ainda estava vivo porque minha mãe e ele queriam assim.

Em 1986 meu pai sofreu um primeiro derrame, não detectado, durante a
representação da tragédia grega Fedra. Ele esqueceu o texto em cena e,
como a neurologia ainda engatinhava, levamos anos para entender que
não era um problema psíquico, mas físico, o início de sua dança da
morte, que levou vinte anos para acontecer.

Meu pai é um mistério tão grande para mim que fica difícil falar dele
numa crônica. Mas, como estou chegando à conclusão de que todo pai é
um mistério para os filhos, ao contrário das mães, que são desabridas,
arrisco aqui um modesto perfil.

Dono de um humor cortante, que seria cômico se não fosse sério, doce e
sádico, careta e maluco, velho e criança, meu pai foi produtor,
diretor e ator, um homem dedicado a todas as facetas do teatro.

Teve coragem de largar a medicina, enfrentando o pai médico e político dos
tempos da política do café-com-leite, para fazer parte dessa profissão
etérea. Dizem que o estalo se deu no trote da faculdade, quando em
plena Cinelândia ele gritou: 'Fiat Lux!'.

E as luzes da praça se acenderam numa sincronicidade cósmica. Foi ali, logo de cara, que perdemos um médico e ganhamos um diretor. Devo a ele toda a minha curiosidade científica, devo a ele dizer o que penso, devo a ele o
cinema, a infância, Veneza, Machu Picchu, Buenos Aires e as montanhas
russas.

Devo ao meu pai tudo o que sou que não é ser atriz, e certamente devo ao meu pai a promessa de alguma serenidade diante da velhice e da morte.

Como ele adoeceu há muito tempo, as lembranças do homem de teatro, do
pai jovem e doidão, do barbudo enraivecido pela censura de Calabar se
misturam fortemente com as do Fernando de saúde frágil com quem
convivi nos últimos tempos.

É muito difícil para um filho lidar com a doença de seu pai. Por isso, gostaria de agradecer às muitas pessoas que nos ajudaram nesse período, em especial à Roberta, sua fisioterapeuta, aos enfermeiros Jorge e Cristiano e, acima de todos, à doutora Lúcia Braga, do Hospital Sarah Kubitscheck, que deu ao meu pai cinco, seis, dez anos a mais de vida, libertando-o dos especialistas em doenças, cortando catorze medicamentos e colocando no lugar o teatro, os barcos, o pingue-pongue e a vida; e à doutora Claudia
Burlá, geriatra, especialização cuja profundidade só fui entender na
noite em que meu pai morreu, em casa, conosco em torno dele, e com
ela.

Sem tubos, sem CTIs, sem prolongadores artificiais de respiração
ou batimentos cardíacos. Foi ela que mandou chamar a mim e ao meu
irmão, foi ela quem nos ajudou. A morte do meu pai foi uma experiência
tão caseira, humana, pacífica e acolhedora, apesar do sofrimento e da
dor, que me fez por alguns segundos achar que esse absurdo que é a
morte, afinal de contas, pode fazer parte da vida.

Um salva de palmas para ele. Foi um guerreiro discreto, forte e
corajoso. Espero conseguir ser assim quando chegar a hora de eu dançar
a minha Dança dos Boiardos.

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Muita gente me xingou quando escrevi aqui no Balaio na segunda-feira que, diante de todas as informações disponíveis, as eleições estavam praticamente decididas com a vitória por ampla margem do demo-tucano Gilberto Kassab em São Paulo. O quadro me parecia mesmo irreversível.

Fazer o que? Lamento que alguns amigos não tenham gostado do que escrevi, mas não posso brigar com os fatos. Agora mesmo, ao final de bom almoço com amigos no restaurante Sujinho, na rua da Consolação, passou por mim um dos coordenadores da campanha de Marta Suplicy e me virou a cara.

Na banca de jornais ao lado do restaurante, a manchete da "Folha" explicava o motivo da reação contrariada do robusto dirigente petista: "Kassab mantém vantagem sobre Marta _ Pesquisa Datafolha, a 1ª após a volta do horário eleitoral, mostra o prefeito 16 pontos à frente da ex-prefeita".

Logo na manhã seguinte à votação do primeiro turno, já escrevi aqui no Balaio que três ondas estavam se formando no fundo do mar eleitoral: Kassab, em São Paulo; Gabeira, no Rio, e Quintão, em Belo Horizonte. Claro que corria o risco de quebrar a cara, sabendo que muitos leitores poderiam confundir a análise dos fatos com meus desejos pessoais.

Agora, a oito dias da votação do segundo turno, o Datafolha confirma as ondas. Além de São Paulo, onde nada indica no momento qualquer possibilidade de mudança radical no cenário, também em Belo Horizonte os índices estão longe da margem de erro, com Leonardo Quintão, do PMDB, mantendo 10 pontos de vantagem sobre Márcio Lacerda, do PSB/PSDB/PT.

Apenas no Rio a situação está indefinida. O verde tucano Fernando Gabeira continua os mesmos dois pontos à frente de Eduardo Paes, do PMDB/PT, mas em situação de empate técnico (44 a 42).

O festival de baixarias promovido por Paes na campanha carioca, no melhor estilo Collor de preconceitos e ataques pessoais, não modificou a ordem dos fatores, assim como acontece com Marta Suplicy em São Paulo, que continua com os mesmos 37 pontos da pesquisa anterior, apesar de colocar em debate até o estado civil do adversário.

Quando parecia que já se haviam esgotado todos os recursos encontrados na sarjeta da política para virar o jogo a qualquer preço, leio no blog do Ricardo Noblat que a campanha de Marta gravou um depoimento com Nicéia Pitta, a rancorosa ex-mulher do ex-prefeito, de quem Kassab foi secretário, para detonar o adversário que lidera a pesquisa.

Não posso acreditar que esta gravação seja mesmo colocada no ar no programa do PT, reeditando o que fez Collor com uma ex-namorada do então candidato Lula, em 1989, às vésperas do ultimo debate dos dois na televisão. 

Por coincidência, amanhã à noite, Marta e Kassab voltam a ficar frente a frente em debate promovido pela TV Record. Quase 20 anos depois, o fantasma de Collor continua assombrando as eleições municipais de 2008. É muito triste.  

  

 

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