manifestacao Palavras do ano: a indignação e a pós verdade

Brasileiros foram às ruas em 2016

Motivos certamente não faltaram no Brasil do esquecível ano de 2016 para todos ficarmos indignados.

Era de se esperar, portanto, que "indignação" fosse eleita a palavra do ano pelos brasileiros no levantamento promovido pela Cause, uma consultoria em gestão de causas, que pela primeira vez fez esta pesquisa no país.

Um grupo de intelectuais convidados pela consultoria selecionou cinco palavras que depois foram submetidas a votação on-line, de acordo com a composição da população segundo os dados do IBGE.

Beleza. O que me pergunto é no que resultou de concreto tanta indignação com tudo e com todos demonstrada em panelaços, manifestações, ocupações, faixas, patos e bonecos, protestos de todo tipo que atravessaram o ano.

Melhoraram os governos, os parlamentos, o transporte, a saúde, a educação e a segurança pública, os principais alvos dos manifestantes?

Acabaram a recessão, o desemprego, a corrupção e a sem-vergonhice generalizada nos altos e baixos escalões?

Os partidos políticos se regeneraram, surgiram novas lideranças para assumir o lugar dos rejeitados?

Os sociólogos dirão que se trata de um processo, que as coisas não mudam de um dia para outro.

Tudo bem, até concordo, mas pelo menos há de se apontar no horizonte um sinal sobre aonde os indignados querem chegar, como e com quem.

Por enquanto, as manifestações todas são "contra" ou "fora" alguém ou alguma coisa. E são a favor do quê, para qual destino querem nos levar?

Sem isso, o que predomina é a anomia social, que a qualquer momento pode descambar na anarquia.

Por mais que se critique a política e os políticos, ainda não inventaram outra forma de organizar a vida social num país democrático.

Na passagem de um ano para outro, está tudo muito nebuloso e, neste clima de incertezas, as pessoas se sentem inseguras para investir ou consumir, única forma de fazer a roda da economia voltar a girar.

Este fenômeno não é só brasileiro, espalha-se pelo mundo, como podemos constatar na escolha da palavra do ano na língua inglesa, segundo o dicionário da Universidade de Oxford: "pós-verdade".

Desconhecida até outro dia, a expressão é definida pelos editores do dicionário britânico como um adjetivo "relacionado a circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal".

O termo foi usado pela primeira em 1992 pelo dramaturgo servo-americano Sterve Tesich, mas só virou moda agora. De um ano para outro, o emprego do adjetivo aumentou 2.000% devido a discussões políticas, segundo o jornal inglês The Guardian.

Em outras palavras, pós-verdade é como a diferença entre notícia e versão, fato e boato, o oposto da verdade factual de que tanto fala Mino Carta. Pode também, simplesmente, significar mentira.

Não é o que é, mas o que você gostaria que fosse verdade, de acordo com as informações que circulam na imprensa tradicional ou nas redes sociais.

É o que aqui chamamos popularmente de Fla-Flu, uma interminável discussão entre donos da verdade (ou da mentira), conforme seus interesses e posições políticas.

Nesse sentido, a brasileira "indignação" e a britânica "pós-verdade" podem ter algo em comum, uma palavra do ano complementando a outra, como vimos recentemente na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e na campanha do Brexit que tirou o Reino Unido da União Europeia.

Em ambos os casos, foram decisivos os votos de eleitores indignados com sua condição econômica e social, que se sentiram excluídos da globalização e ameaçados pelos imigrantes.

Nos Estados Unidos e na Europa, como aqui, as pessoas sabem o que não querem mais, mas não fazem a menor ideia do que vem pela frente com as escolhas que fizeram.

 Palavras do ano: a indignação e a pós verdade

Ingleses nas ruas durante a votação que definiu a saída do país da União Europeia

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