faiscanovo Qual é a saída? É viver um dia de cada vez?

Sexta-feira, seis horas da manhã, 7 graus: escadaria ao lado do estádio do Pacaembu, zona nobre de São Paulo (Foto: Heródoto Barbeiro)

"Um dia de cada vez, que é pra não perder as boas surpresas da vida" (Clarice Lispector).

"Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido, aprendi a viver um dia de cada vez" (Renato Russo).

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Com a podridão da política e a economia em frangalhos, fica difícil encontrar alguma coisa boa para começar e animar o dia.

Por isso, conheço cada vez mais gente que, por uma questão de sobrevivência, simplesmente deixou de ler jornais e acompanhar o noticiário.

"Não quero mais saber disso, tenho que viver a minha vida, e dane-se o resto", ouve-se com frequência nas conversas por aí.

Quando a alienação e o egoismo imperam nas relações humanas, fica mesmo mais difícil encontrar uma saída para o conjunto da sociedade.

Se todo mundo passar a cuidar só da própria vida e do futuro da família, quem é que vai zelar pelos destinos da pátria comum?

O problema de quem não quer mais saber "falar de política" é que acaba sendo governado por quem gosta muito de política para fazer negócios e manter seu poder a qualquer preço.

No final da história, quem acaba pagando este preço somos todos nós, cada vez mais endividados.

Já são 61 milhões os brasileiros inadimplentes e mais de 5 milhões as empresas afundadas em dívidas, como mostrei ontem.

Mas hoje gostaria de mudar de assunto para pensar um pouco sobre o que estamos fazendo das nossas vidas e do nosso país.

Morreu gente de frio nesta madrugada de terça para quarta-feira em São Paulo, onde aumenta a população que dorme nas calçadas e acorda sem ter o que comer.

Não basta cobrar providências dos poderes públicos, que alegam falta de recursos para tudo, menos para comprar votos e salvar a própria pele.

Será que não temos nada a ver com isso? Vamos ficar todos encolhidos em casa debaixo de cobertores esperando o inverno e a crise passarem para ver o que sobrou?

E você está fazendo o que, além de escrever?, poderiam me perguntar os leitores deste blog, e eu também não saberia responder, pois não tenho a menor ideia nem de por onde começar a procurar uma saída.

Penso como Clarice Lispector, que é preciso viver um dia de cada vez; ao contrário de Renato Russo, porém, me sinto cada vez mais perdido, sem saber para onde ir.

Durante a maior parte da vida, participei das lutas coletivas da minha geração, no sindicato, na igreja, nos movimentos populares, movido pela esperança de que poderíamos, cada um e todos juntos, ajudar a melhorar o mundo em que vivemos.

Aos poucos, no entanto, sem nem perceber, ultimamente fui deixando de ir a debates, palestras, simpósios, esses lugares todos aonde as pessoas se reúnem para discutir saídas comuns.

Talvez seja por que se fale mais do passado do que do futuro, sem apontar um horizonte, um projeto de país, e não só de poder, sem partidos nem lideranças capazes de, pelo menos, sinalizar caminhos, em vez de ficar só um culpando o outro pelos desatinos do presente.

Se alguém souber onde isto está acontecendo, por favor me informe.

Já nem sei, a esta altura do campeonato, quais poderiam ser "as boas surpresas da vida" de que fala Clarice, além de ganhar na mega-sena acumulada que corre hoje.

Só nos resta viver um dia de cada vez, sim, mas precisamos fazer alguma coisa com essa vida que não seja só sobreviver biologicamente e sonhar com a loteria.

Vida que segue.

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