johann goethe 2 l Que tal termos um pouco mais de humildade?

"Não há nada mais terrível do que a ignorância ativa".

Johann Goethe, pensador alemão (1749-1832).

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É cada vez mais raro alguém responder "não sei" quando lhe pedem uma previsão sobre o que vai acontecer.

O mais comum é ouvir gente enrolando, chutando ou simplesmente mentindo, o outro nome da pós-verdade da moda. Viramos todos Nostradamus?

Parece que perdemos a capacidade de ouvir, admitir que o outro pode ter razão.

Neste começo de ano de tantas incertezas no mundo todo, um tempo propício para a reflexão, acho que está nos faltando, acima de tudo, um pouco de humildade para aceitarmos nossas próprias fraquezas e deficiências na hora de emitir verdades e juízos definitivos.

Isso vale tanto para pessoas comuns como para doutores em geral e líderes políticos de todas as latitudes.

Humildade no caso não deve ser entendida como sinal de submissão diante dos que estudaram mais ou têm mais poder.

Ao contrário, trata-se de uma postura de vida positiva e necessária para encontrarmos juntos soluções coletivas diante dos grandes desafios que se colocam à nossa frente neste mundão conflagrado.

Ninguém é dono da verdade, embora tantos se manifestem cheios de razão.

Parafraseando Berthold Brecht, ainda para ficar nos velhos pensadores alemães, pobre do país que precisa de salvadores da pátria.

Nem todas as ciências são exatas, nem todos os acadêmicos são sábios, nem todas as universidades são Sorbonnes.

Se tivermos a humildade de reconhecer que estamos todos no mato sem cachorro, já é um bom começo para sairmos do atoleiro em que nos metemos e procurar terra firme.

Políticos, por mais poderosos que sejam, não podem tudo. Ninguém pode tudo.

Jornalistas, nós deveríamos aprender a perguntar mais, conversar mais com nosso público, em vez de querer antecipar as respostas.

Acho que foi por isso que Deus nos deu dois ouvidos e só uma boca.

Lembro sempre daquela célebre dúvida do Einstein, outro alemão (acho que hoje estou muito germânico, talvez por saudades da minha mãe, que fosse viva teria feito 100 anos na semana passada), ao perguntar a seu anfitrião, durante uma visita ao Brasil, por que ele fazia tantas anotações.

"É que sempre que tenho uma boa ideia, tenho que anotar logo para não esquecer. O senhor não faz isso?"

"Não, meu amigo, não preciso. Eu só tive uma boa ideia na vida", respondeu-lhe o criador da Teoria da Relatividade.

Ter dúvidas, fazer muitas perguntas, pesquisar nos livros e no Google não é sinal de insegurança. Longe disso: mostra como é preciso ter humildade para não dizer besteira.

Quanto mais certezas uma pessoa tem, mais terá dificuldades para aprender alguma coisa nova.

Quanto mais um cretino levantar a voz para mostrar que está certo, mais chances terá de falar bobagem.

Vocês já repararam como as pessoas em geral estão falando mais alto e gritam em maiúsculas em seus comentários nas redes sociais?

Outra categoria que vem ganhando força e prestígio é a dos autonomeados ombudsman da vida e do trabalho alheios.

Mesmo que ninguém peça a opinião deles, fornecem-na gratuitamente, com a força de um 11º mandamento.

Basta ver as barbaridades que algumas das nossas autoridades públicas disseram nestes primeiros dias de 2017.

Quando não se tem nada a dizer, melhor é manter obsequioso silêncio, um dos ensinamentos da humildade.

Certa vez, viajando pelo interior da Bahia com a família, minhas filhas brincaram comigo ao ver a placa de uma pequena cidade chamada Humildes.

"Vamos deixar o papai lá e na volta a gente pega ele...".

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