2017 06 09T215133Z 1298781313 RC16129BB380 RTRMADP 3 BRAZIL POLITICS Sinto saudades do Brasil sem sair do Brasil

"O Brasil está no mapa mas não está no mundo, carente de ação externa e sucumbido à humilhação de país carcomido pela corrupção" (Jânio de Freitas, em sua coluna de domingo na Folha).

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Nos últimos tempos, tenho sentido uma danada e estranha saudade do Brasil, vivendo aqui mesmo, ou exatamente por isso.

É bem pior do que aquela saudade de 40 anos atrás, quando deixei o país para ser correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha antes da reunificação, ainda nos tempos do Muro de Berlim.

Sem pensar duas vezes, aceitei no ato o convite da editora Dorrit Harazim porque a barra por aqui estava pesando para mim em 1977, depois de algumas reportagens que escrevi no Estadão sobre corrupção e tortura no regime militar.

Com mulher e duas filhas pequenas, ainda sem completar 30 anos, deixei as malas numa pensão no centro de Bonn, a então capital, e saí para trabalhar porque já tinha uma pauta me esperando sobre o sequestro de um avião por terroristas.

Foi uma mudança de vida muito radical. Nem deu tempo de pensar no que me esperava pela frente, vivendo agora num outro mundo completamente diferente do nosso.

Por que estou me lembrando disso tudo agora?

Num agradável almoço de sábado no apartamento do jornalista mineiro Alberto Villas, outro auto-exilado na Europa daquela época, falamos muito das saudades que sentíamos do Brasil, tão longe e tão perto daqui.

Este é o tema do seu livro Afinal, o que viemos fazer em Paris?, que já li três vezes porque me faz recordar o mesmo período em que vivemos fora do Brasil.

Voltando para casa, constatei que havia uma grande diferença entre a saudade sentida naquele tempo e a de agora, e resolvi escrever este texto.

No auge da ditadura, tempos de Médici e Geisel, a gente sabia que um dia aquela desgraça iria acabar, e voltaríamos a viver num país livre, alegre, festeiro, sem censura e sem tortura, tomando cachaça no boteco, sem medo do guarda da esquina.

Era só uma questão de tempo. Havia esperanças na nossa saudade, muitos planos para quando os generais fossem embora e a democracia voltasse.

Hoje, apenas três décadas após a redemocratização, aquele país com que sonhávamos em Bonn e Paris, simplesmente não existe mais. E não tem volta.

Perdemos não só a esperança, mas a alma, a vergonha na cara, o modesto orgulho de termos nascido nesta terra abençoada, mas ultimamente abandonada por Deus.

Joguei a toalha ao acompanhar durante quatro dias, por dever profissional, o massacre  daquela pantomina encenada esta semana no julgamento do TSE.

Nem sei mais o que dizer sobre o que está acontecendo, sem ver nenhuma perspectiva de que as coisas possam mudar tão cedo. Entramos num beco sem saída.

Nunca me senti tão triste na vida nem quando caminhava sozinho, perdido nas trilhas geladas da Floresta Negra coberta de neve, pensando que poderia estar vagabundeando numa praia ensolarada cercado de amigos ou comendo pizza no balcão da velha padaria Estrela do Butantã.

Vida que segue.

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