Tristeza do tempo na morte de Antonio Candido

"Tenho procurado manter a atividade crítica ligada à vida do meu tempo" (Antonio Candido de Mello e Souza, em janeiro de 1944, na coluna "Notas de Crítica Literária", que publicava aos domingos na "Folha da Manhã", antigo nome da Folha de S. Paulo).

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Viver 98 anos não deve ser fácil, mas para ele parece ter sido uma agradável aventura.

Mais raro ainda é viver quase cem anos sem nunca mudar de lado, fiel às suas convicções, aos seus princípios, aos amigos e à sua própria obra literária, sem se queixar da vida nem nunca levantar o tom de voz para convencer ninguém.

Nascido no Rio, criado em Minas e formado em São Paulo, foi uma síntese desta brasilidade: divertido como os cariocas, contido como os mineiros e sério como os quatrocentões paulistas.

Dos muitos papéis que teve na vida, era como crítico literário que gostava de ser apresentado.

Candido nunca pediu que esquecessem o que escreveu, e ele escreveu muitos livros _ entre eles, alguns clássicos, como "Os Parceiros do Rio Bonito" e "Formação da Literatura Brasileira".

Tive o privilégio de ter conhecido Antonio Candido, de quem era amigo distante e admirador permanente, pelo exemplo de dignidade e honradez que deu à minha geração.

Por isso, embora não costume escrever necrológios sobre amigos, me vi no dever de falar dele na manhã deste sábado, que tinha reservado para descansar do computador.

Estivemos juntos na longa luta contra o arbítrio comandada por D. Paulo Evaristo Arns na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, entre tantas outras.

Nos intervalos das reuniões, gostava de falar com ele sobre como andava a vida em Porangaba, uma das cidades do velho interior paulista onde ele fez suas pesquisas para o livro sobre os parceiros do Rio Bonito.

Tenho um sítio à beira deste rio e lá eu li pela primeira vez o seu livro, na rede da varanda, quando comprei a terra no final da década de 1970.

Meu sonho literário era revisitar a obra de Candido para contar o que tinha mudado na vida do caipira paulista, meio século depois, desde o lançamento do seu livro, tema da tese de livre-docência que defendeu na USP, em 1954, e que só seria publicado dez anos mais tarde, já em plena ditadura.

Certa vez, passamos uma tarde inteira em sua casa de vila no Itaim falando das lembranças do tempo em que fez a sua pesquisa de campo.

Candido se empolgou tanto que até imitou personagens do livro, rabiscou desenhos, cantou músicas caipiras e mostrou como se dançava o Cururu, o ponto de partida da obra, como ele conta no primeiro parágrafo do prefácio:

"Este livro teve como origem o desejo de analisar as relações entre a literatura e a sociedade; e nasceu de uma pesquisa sobre a poesia popular, como se manifesta no Cururu _ dança cantada do caipira paulista _ cuja base é um desafio sobre os mais vários temas, em versos obrigados a uma rima constante (carreira), que muda após cada rodada".

Com as dicas do amigo, cheguei a preparar uma sinopse para a Companhia das Letras, e ele sempre me perguntava sobre o projeto, mas meu livro nunca seria escrito. Fiquei devendo isso a ele e a mim, mas nunca vou esquecer dos seus ensinamentos e da alegria do mestre ao oferecê-los.

É a melhor lembrança que guardo dele, um professor na acepção plena da palavra, mas que não fazia nenhuma questão de posar de professor.

Mais lembrava um contador de causos com um imaginário cigarro de palha no canto da boca.

Seu contemporâneo Carlito Maia costumava dizer: alguns vieram ao mundo a passeio; outros, a serviço.

Antonio Candido certamente veio ao mundo a serviço dos outros, nas diferentes frentes em que se destacou, mas nunca deixou de se divertir com isso.

E também nunca ligou para o que os outros falavam dele nestes tempos de tanta intolerância. Fundador e militante do PT até o fim da vida, foi muito cobrado por sua opção política, depois de passar boa parte da vida lutando contra duas ditaduras: a do Estado Novo de Getúlio Vargas e a do Golpe Militar de 1964.

Deve ter valido a pena, a considerar o que sobre ele disse à Folha quem melhor o conhecia, a sua filha Marina de Mello e Souza, depois de lembrar no velório que o pai sempre foi otimista, mas ultimamente andava triste:

"Acho que é o momento de pensar que já tivemos gente muito boa neste país, que trabalhou para construir um país democrático, de pensamento igualitário, onde as pessoas eram íntegras e generosas, que pensavam no bem comum. Ele era uma pessoa que pensava no bem comum acima de tudo, e nesse momento em que a gente vive, não só no país como no mundo, uma situação de extremo retrocesso de valores e de bens, que são muito diferentes do humanismo, ele era humanista acima de tudo".

A neta Laura Escorel, que morou com ele nos últimos quatro anos, contou como foi o fim, depois de quase uma semana internado no Hospital Albert Einstein, com uma crise gástrica:

"Estamos em paz, ele esteve lúcido até o fim e não sofreu".

Grande professor Antonio Candido, que morreu como viveu: em paz.

Vida que segue.

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