colchoes Zito dos colchões: um industrial que não desiste

O que mais se ouve nos ambientes frequentados por empresários nativos, já faz muito tempo, bem antes da grande crise atual, é que o Brasil vive um profundo processo de desindustrialização e desnacionalização.

Diante desta realidade, nunca vi um deles apresentando um projeto ou iniciativa para reverter a situação. Habituados a viver das benesses do Estado, ficaram esperando que o Estado resolvesse seus problemas. E o Estado quebrou.

Assim, boa parte dos que conheço já desistiu da atividade industrial, vendeu o que tinha e virou rentista, enquanto os herdeiros buscavam novas oportunidades em outros países. Quem ainda não conseguiu fazer isso, sonha em fazer.

Claro que há honrosas exceções em todos os ramos de atividade,  que não só resistem ao cerco aqui como fazem planos para aumentar a produção de suas fábricas.

Um bom exemplo deste brasileiro que não desiste nunca e vai à luta encontrei hoje nas páginas da "Folha" numa bela reportagem de Ana Estela Sousa Pinto, sob o título "Corrida de Obstáculos", com a chamada:

"Zito abriu colchões de hotéis para ver como eram feitos, superou incêndio e dívidas e, 50 anos depois, pilota uma das fábricas mais modernas do setor".

Faz bem ler esta história da vida real contada por Zito a Ana Estela, em meio a mais uma semana morta por aqui, quando nossos luminares dos três poderes debandaram em peso para participar de congressos e seminários pelo mundo afora para discutir problemas brasileiros e o futuro do nosso país.

Se procurassem soluções, poderiam viajar e gastar bem menos ao ouvir empreendedores como José Carlos Christofoletti, 74, o seu Zito, que montou sua primeira fábrica num barracão com máquinas rudimentares que levava para vender numa carroça puxada por seu cavalo Periquito.

Meio século depois, sobrevivendo a todos os planos econômicos de Collor a Dilma, os presidentes impichados no período, viu sua empresa, a "ApoloSpuma", instalada em Itu, no interior paulista, com 450 funcionários, tornar-se uma das dez maiores fábricas de colchões do país.

Zito está neste momento procurando terreno para ampliar a produção.

As lições que Ana Estela ouviu dele, mostrando na prática como crescer em meio a dificuldades de toda ordem, poderiam ser colocadas em lugar de patos num quadro grande no salão nobre da Fiesp para motivar jovens e velhos industriais que só sabem reclamar do governo quando as coisas vão mal e pedir mais privilégios quando tudo vai bem. Abaixo, selecionei algumas delas, um decálogo de resistência industrial:

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* Em cinco, seis meses, já tínhamos dez funcionários. Logo adaptei uma carretinha na Vespa e aposentei o cavalo.

* Sou um cara bem medroso. Sabia que era limitado e que, se quisesse ir para a frente, tinha que buscar. Todo curso que aparecia eu fazia.

* Nos anos 1970, a espuma veio com tudo e resolvemos passar a fabricá-la em 1977. O preço dita a norma de tudo. Se continuasse comprando, não tinha preço. No Brasil, tem que produzir o que puder, senão é imposto em cima de imposto.

* A gente fazia a fábrica trabalhar dia e noite. Se uma máquina quebrasse de madrugada, os funcionários tinham ordem para ir bater na janela e eu ia arrumar. Era toda semana.

* De repente, em 2004, perdemos o maior cliente, de uma hora para outra. Mas a gente sabe que uma porta fecha, mas a outra abre. E compramos uma máquina de fazer molas que deu uma arrancada importante.

* Nunca pensei: "Ah, mas agora estou bem de vida". Mas hoje eu vejo que estou bem. Graças a Deus, meus filhos e genro vieram aqui e colocaram a empresa em outro patamar.

* Para fazer esta fábrica nova, peguei um financiamento do BNDES, a taxa era boa, mas parecia uma loucura. Compramos um equipamento de fazer espuma que é o melhor do país, poucos têm igual.

* A nova fábrica começou a funcionar há dois anos e meio, sem inauguração. A festa mesmo, fizemos agora, nos 50 anos da empresa (comentário meu: tudo isso aconteceu justamente em meio à recessão da economia).

* Atualmente durmo bem, mas, quando não tinha como pagar as contas no dia seguinte, acordava de madrugada e ficava remoendo. Neste país, infelizmente, tem disso.

* Uma coisa que me deixa triste é que no meu tempo havia muito jovem com disposição para arriscar e montar empresas. E vi muitos amigos meus pararem no meio do caminho, mesmo com vontade e determinação.  No meu sindicato havia 35 empresas. Hoje, ficaram duas, para ver a dificuldade.

***

Esta história me fez pensar: para manter as esperanças e sair da inhaca em que nos encontramos, precisamos de mais empresários como seu Zito e mais repórteres como Ana Estela, para contar as coisas boas do Brasil real, longe do Brasil oficial de Brasília e da avenida Paulista.

Vida que segue.

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