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8 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – Red Tails

Vocês já devem ter ouvido falar que Star Wars Episódio I esta para voltar em 3D muito em breve e que George Lucas não é mais o mesmo. Apaixonou-se novamente e por uma bela negra, Melody Hobson, que tanto o entusiasmou que resolveu produziu com seu próprio dinheiro, sem ajuda de qualquer estúdio ou outra fonte, um filme em homenagem a ela!

Um filme de ação Red Tails, com Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e uma certa Daniela Ruah (descendente de portugueses que faz uma italiana, único interesse romântico do filme)  sobre uma história pouco conhecida da Segunda Guerra: a ação dos pilotos negros na base de Tuskegee que mesmo sendo vitimas de racismo e discriminação agiram com coragem e heroísmo. (Houve em 1995 um telefilme da HBO que foi o primeiro a tocar no assunto Prova de Fogo/The Tuskegee Airmen, de Robert Markowitz, com Laurence Fishburne, John Lithgow e o mesmo Cuba Gooding).

red As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Originalmente Lucas iria dirigir, mas como o projeto está em desenvolvimento desde 1988, resolveu passar a realização para um diretor negro vindo de séries de tevê, Anthony Hemingway (nada a ver com o escritor). E como para Lucas dinheiro não tem importância, ele gastou 58 milhões de dólares na produção e mais 38 milhões no marketing!

Uma palavrinha sobre Melody, ela não é atriz, mas executiva. Nascida em Chicago, formada pela Universidade de Princeton em 1991, se tornou presidente da produtora Ariel e depois participou do Board de várias organizações culturais de sua terra natal, também do Instituto Sundance, da Starbucks, Esthée Lauder e outras. Incluindo a Dreamworks Animation! Ou seja, de boba não tem nada.

Aos 68 anos (que vai completar em maio), Lucas anunciou também que estava se aposentando (será que isso significa que a série Indiana Jones e o possível quinto episódio foram arquivados? Porque Steven Spielberg sempre afirma que tudo depende de seu amigo Lucas!). Na verdade, parece improvável agora que Star Wars Capitulo I esta de volta aos cinemas em Terceira Dimensão. É bom explicar bem: Não se trata da trilogia clássica que hoje virou Capítulos de IV a VI (feitos entre 1977 e 83), mas seu prequel (prólogo, mal traduzindo), que começa com este Capitulo I – A Ameaça Fantasma (1999) prossegue com Episódio II (O Ataque dos Clones, 2002) e conclui com A Vingança dos Sith (2005).

Tudo é facilitado porque Lucas desde aquela época já insistia em trabalhar com HD Alta Definição, ou o Sistema Digital que lhe facilitava muito os efeitos digitais. Aliás, de tal forma que muitas vezes a trilogia parecia um showroom dos efeitos mais do que uma boa história. Tem outra coisa: Lucas nunca teve problemas em mexer em seus trabalhos, atualizando os efeitos ou cortando coisas que envelheceram (ao contrario de Spielberg, que voltou atrás e jura que sua versão de ET em Blu-Ray será igual a dos cinemas, ele se arrependeu de cortar armas de fogo. Finalmente percebeu que um filme é o retrato de sua época e não deve ser censurado). Embora seja mais ligado em tecnologia (vide o sucesso de sua firma de efeitos especiais Industrial Light & Magic, e seus lançamentos em videogame) do que em roteiro ou mesmo produção de filmes. É preciso lembrar que seu curriculum como produtor tem algumas manchas tristes (como os megafracassos Howard, o Super Herói (aquele do pato que veio do Espaço), Willow na Terrra da Magia, Assassinatos na Radio WBN) e mesmo a discutível série de tevê Star Wars: A Guerra dos Clones.

red1 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

A verdade é que apesar disso Lucas tem grande prestígio e reputação como produtor e não tanto como realizador. Seu melhor filme seria ainda American Graffiti, que fez antes de Star Wars. E todos concordam que dos seis filmes de Star Wars, o melhor é o dirigido por um professor dele, O Império contra Ataca, de Irvin Kershner.

Não tenho qualquer ansiedade de rever mesmo em 3D, este Capitulo I – A Ameaça Fantasma. Com certeza não é um Titanic – que retornara também em 3D em setembro, não vai tirar sua mãe de casa com as vizinhas para correr ao cinema. Nem provocou frissons nas teenagers. Na verdade, ele parece ter sido feito basicamente para vender bonecos e videogames, uma máquina de fazer dinheiro, de merchandising. Como cinema, cometeram-se vários erros. O primeiro é o produtor George Lucas deixar o próprio Lucas como diretor. O resultado foi um filme frio, sem emoção, com personagens mal delineados. Sem qualquer criação por parte do diretor.

Mas ao fazer um prólogo, ele armou para si próprio uma armadilha da qual vai ser difícil escapar. Não pode fugir de certos detalhes que já sabemos que irá acontecer, assim o menino herói central do filme será necessariamente o Darth Vader, que passará para o lado negro da força e que enfrentará o filho Luke Skywalker (mais estranho ainda é que Darth irá namorar e se casar com a rainha do filme, que é obviamente muito mais velha do que ele, uma diferença de idade considerável e perturbadora). Portanto, tudo tem que explicar e justificar a outra trilogia, provocando limitações de todo tipo (inclusive tecnológica, fica esquisito o passado ter mais tecnologia do que o futuro ainda distante mostrado nos filmes anteriores).

red2 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Pode ser um jogo curioso para os fanáticos da série, mas inútil para o espectador despreparado. E deixa o filme com uma trama fraca, difícil até de descrever e seguir. E ainda por cima ele vai errar na escolha do jovem Darth Vader, como esquisito Hayden Christensen, que acabou não fazendo grande carreira. A trilogia não chegou a ajudar nem os já famosos Ewan MacGregor e Liam Neeson.

Há excesso de bichinhos fofinhos, de figuras exóticas, de multidões de exércitos, nenhum deles memorável e por vezes até irritantes. As crianças menores podem se divertir (mais que nunca o filme tem apelo infantil), mas o verdadeiro fã da série, aquele que hoje em dia tem por volta de 40 anos vai se decepcionar. Porque afinal Lucas tem os pés de barro, nem sempre o Toque de Midas. Não no caso deste Red Tails, em que ele já saiba que não iria lucrar. Por amor, afinal, vale tudo!

Voltando a este Red Tails, eu assisti o filme com uma platéia formada basicamente por negros que me pareceram terem vindo em excursão de escola ou grupos. Nenhum reagiu especialmente entusiasmado, embora a bilheteria não chegue a ser um desastre (chegando aos 35 milhões de dólares).

O fato é que a historia ainda merecia um filme melhor. Não apenas o elenco é muito irregular, mas principalmente os protagonistas, Terrence Howard tem uma voz fraca e uma presença titubeante. Mas menos desastrosa do que a de Cuba Gooding Jr que nada mais faz do que ficar fazendo pose e pitando o seu cachimbo.

red3 As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – <i>Red Tails</i>

Embora a história tenha tudo para ser comovente e eletrizante, o filme resulta morno. É uma historia de superação, luta contra o racismo, puro heroísmo. Mas parece que o filme tem medo de ser mais franco e direto, optando por evitar críticas frontais aos preconceitos das Forças Armadas de então que tratavam os negros como cidadãos de segunda classe, que serviam para proteger os aviões comandados por brancos, mas assim mesmo com relutância. Isso poderia dar mais pano para manga, mas o roteiro prefere louvar o patriotismo geral e os feitos aliados.

Há dois pilotos problemáticos, o que os torna ate mais humanos, um oficial que bebe um pouco demais e um piloto rebelde que namora uma jovem italiana com quem deseja se casar mas que nem por isso, deixa de realizar ataques arriscados procurando acertar pilotos/aviões nazistas.

Bryan Cranston é um dos poucos que faz um oficial assumidamente racista. O forte do filme são os efeitos especiais que recriam com bastante qualidade os aviões e as batalhas aéreas nos céus da Itália. Parece realmente um esforço de produção reunir aviões tão antigos nesta altura (quase 60 anos depois dos fatos) e relatar as façanhas dos Red Tails (Rabos Vermelhos). Uma história importante e que merece ser relatada, num filme apenas médio. Ao menos não é um final triste para a despedida de Lucas do cinema.

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7 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – A Toda Prova

a toda prova As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Haywire/ A toda Prova (lançamento previsto para 30 de março pela Imagem)

Este é aquele famoso filme do diretor Steven Sodebergh que descobriu uma lutadora autêntica da MMA (Mixed Martial Arts) Gina Carano e resolveu transformá-la em estrela escrevendo uma história especialmente para ela, além de reunir o maior número possível de astros famosos: Michael Fassbender, Ewan MacGregor, Michael Angarano, Channing Tatum, Michael Douglas e Antonio Banderas. O resultado teve até boas criticas, mas foi totalmente rejeitado pelo público que o transformou em total fracasso (não passou dos 16 milhões de dólares de renda!).

Vocês já sabem o que eu acho de Soderbergh e sua mania de desperdiçar tempo em projetos abaixo de seu talento, como se fosse uma corrida contra o relógio. Ele fala em aposentadoria enquanto acumula filmezinhos menores que estão estragando cada vez mais sua reputação. Estranhamente a imprensa ainda não sacou qual a dele e continua lhe dando força!

a toda prova 2 As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Aqui, não foi obrigado por nenhum mafioso ou coronel amante da Gina (pelo menos até onde se sabe). Parece que um dia ele a viu na televisão lutando e achou que seria interessante fazer um filme sobre uma mulher que sabe lutar de verdade! Mas em vez de fazer um filme poderoso como Guerreiro (em DVD, procure ver) apenas mostrou cenas dela pulando de telhado em telhado e de vez em quando dando tiros. As lutas são sempre com os atores famosos, ou seja, são coreografadas e nada demais. Diria mesmo que medíocres, sem malabarismos (será que ele não contratou um diretor de luta errado? Não teria sido o caso de chamar algum chinês mestre no assunto!).

Gina é uma mulher relativamente bonita e uma atriz ausente. Nem chega a ser ruim. Seu rosto me lembrou um pouco aquele atriz do Cidade dos Sonhos, não a Naomi Watts que virou estrela, mas a outra que não foi adiante, Laura Harring (e um pouco também a brasileira Nadir Fernandes).

Também o roteiro não é muito caprichado, apenas uma variante na velha história das traições dentro do mundo da espionagem e serviço secreto. O vestuto Michael Douglas faz o chefão dos americanos, mas o roteiro de Lem Dobbs (The Limey/O Estranho, Cartada Final, Dark City) começa com a heroína, Mallory Kane que trabalha para uma grande organização que presta serviço aos americanos como operadora, ou seja, agente de campo. Ela esta no Canadá, sendo perseguida, quando entra numa lanchonete, onde é atacada por um jovem colega, o super canastrão Channing Tatum. Mas é ajudada por um rapaz que está presente no local (Aragano) e para quem ela vai contar sua história, enquanto procuram fugir da polícia. Mostra então a missão que ela teve que fazer em Barcelona, onde o chefão local era Banderas. Seu trabalho era resgatar um prisioneiro, o que acaba não acontecendo como se esperava. O passo seguinte é Dublin, Irlanda, quando descobre que foi traída e é preciso usar todos os recursos e artimanhas para conseguir escapar. Ewan faz o chefe direto dela, Fassbender é um colega que pode ser também um inimigo e tudo será resolvido numa casa no Novo Mexico.

a toda prova 3 As estreias americanas que eu assisti (Parte 3) – <i>A Toda Prova</i>

Ruim? Nem tanto, apenas banal, sem brilho, fraco justamente naquilo que seria seu ponto de venda: as lutas. Esse público que gosta do gênero sabe o que quer e não faz concessões. Se não aprovou, é porque Soderbergh errou mesmo.

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6 fevereiro 2012

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Smash, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

smash e1328522162612 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

O pessoal da NBC americana teve uma tática de marketing ousada: não se preocuparam tanto com a audiência da estreia, mas com a repercussão. Já faz mais de mês que colocaram a disposição de qualquer um o filme piloto da série Smash, na certeza de que ele vai criar um boca a boca positivo! Na esperança de que ele seria o herdeiro de Glee e irá agradar a todo fã de musical da Broadway, um número crescente, principalmente no Brasil, graças aos bem-sucedidos shows que tem sido montados por aqui.

smash2 e1328522202208 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

Smash (o título se refere ao adjetivo/gíria que denomina um sucesso arrasador, em geral é usado como um Smash Hit!) é fruto de uma ideia justamente de Steven Spielberg (que cá entre nós não está numa fase muito boa de criação e tem errado bastante principalmente na TV). Este chamado “Glee para adultos”, não tem o mesmo humor daquela série, nem sua proposta educativa e aglutinadora e por isso parece uma projeto mais difícil. Vai atingir direto aqueles que são fãs dos shows da Broadway e que irão se envolver na história de uma dupla de compositores  que está escrevendo um show musical sobre Marilyn Monroe (já houve um, foi fracasso, todos repetem mas este parece mais oportuno).Eles são a encantadora Debra Messing (de Will e Grace, num tom mais romântico, com marido ciumento, interpretado pelo também diretor e escritor Michael Cristofer, filho adolescente e a idéia de adotar outro). Seu parceiro é gay (Christian Borle) e odeia o diretor que vai assumir o projeto, que diz ser mau caráter ainda que talentoso (Jack Davenport).

O episódio inicial dirigido por Michael Mayer (que ganhou Tony por Spring Awakening) abre com cena de sonho com Over the Rainbow, as musicais originais são de Marc Shaiman e Scott Wittman (a dupla de Hairspray). Mas a história é focada em cima de duas jovens aspirantes ao sucesso, ambas muito ambiciosas, uma loira corista que procura sua chance (Megan Hilty, que estrelou no palco o musical Nine to Five e faz o tipo Marilyn) e uma moça de Iowa, que tem namorado indiano que lhe apoia, Katharine McPhee (morena, magra, antiga concorrente do American Idol, que é mais bonitinha, promissora e menos óbvia que a rival). Também é importante a produtora que está se divorciando do marido e por isso com todos os bens em litígio (Anjelica Huston), o que coloca o show em perigo.

smash3 e1328522320361 <i>Smash</i>, o musical de Spielberg que estreia hoje na TV americana!

Cheio de referências locais que os entendidos irão compreender, mostra no piloto os primeiros testes, e dois números quase completos, que primeiro são apresentados num estúdio em ensaio e depois já em seu formato profissional. Será que as pessoas irão se interessar por uma competição entre estas duas? Será que o publico quer saber se vai ter um show sobre Marilyn (claro que se der certo, a ideia é que ele seja montado mesmo! A verdadeira Marilyn aparece aqui em cenas (por sinal, geniais), de Quanto mais Quente Melhor). Tomara que exista esse publico e a série pegue. De qualquer forma, o fã do gênero musical não pode perder (segundo o IMDB a série tem previsto 15 capítulos).

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6 fevereiro 2012

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François Truffaut: 80 anos esta noite

truffuat François Truffaut: 80 anos esta noite

Ele morreu muito cedo, deixou uma grande ausência no cinema francês e mundial. François Truffaut (1932-1984) estaria completando hoje 80 anos e é uma boa ocasião para celebrá-lo através deste artigo que escrevi já há algum relembrando sua importância e a de seu primeiro filme longo, Os Incompreendidos/Les 400 Coups (1959).

Já em sua condição de clássico absoluto, o filme dispensa recomendações mas comporta uma série de informações, fornecidas pela biografia deTruffaut escrita por Antoine De Baecque e Serge Toubiana, que ajudam a melhor apreciá-lo.

Truffaut, conhecido como “o poeta da Nouvelle Vague”, foi o caso mais notável de um crítico que passou com sucesso para a direção. Já neste seu longa de estreia, ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes (no mesmo ano em Orfeu do Carnaval levou a Palma de Ouro e Hiroshima, mon Amour, de Alain Resnais, não ganhou nada!) e depois foi votado como Melhor Filme Estrangeiro pela Associação dos Críticos de Nova York. Foi o início de uma carreira brilhante, que também incluiria um Oscar de Filme Estrangeiro (por A Noite Americana, 1973), uma participação como ator em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, em 1977 (que sai agora em DVD) e uma morte prematura de câncer.

Truffaut François Truffaut: 80 anos esta noite

Capa do DVD de Os Incompreendidos

Historicamente Os Incompreendidos é considerado o ponto de lança do movimento da chamada Nouvelle Vague (Nova Onda, literalmente), uma expressão que surgiu inicialmente em 3 de outubro de 1957, na revista L´Express, num artigo de Françoise Giroud sobre a juventude, mostrando a necessidade de mudança na sociedade francesa. Quem aplica a expressão ao novo cinema francês é Pierre Billard, em fevereiro de 1958, que é retomada em Cannes na estreia da nova safra de filmes, e logo espalhada pelo resto do país e do mundo. Passa a englobar a primeira safra de filmes de sucesso feito por jovens, que incluem além de Hiroshima e Os Incompreendidos, Os Primos, de Claude Chabrol e Ascensor para o Cadafalso, de Malle.

Era o Novo Cinema Francês que se opunha frontalmente ao “Cinema Antigo”, ou “Cinema de Papai”, como era apelidado o chamado “cinema de qualidade” produzido na época na França, pelos cineastas consagrados daquele momento (Claude Autant-Lara, René Clement, Denys de La Patteliére, Henri Verneuill, René Clair, Jean Dellanoy, etc). A oposição a eles já tinha surgido nas páginas da revista   “Cahiers du Cinema”, de onde saiu Truffaut e um novo grupo de críticos –cineastas, que incluiria a seguir Jean Luc Godard (foi Truffaut quem ajudou a produzir e escreveu o roteiro de seu Acossado/A Bout de Souffle, 1959, outro filme seminal do movimento), Jacques Rivette, Eric Rohmer, Claude de Givray, Jacques Doniol Volcroze e mais tarde Bertrand Tavernier.

Foi não apenas no “Cahiers” mas também em outros órgãos de imprensa de prestígio, “Arts” “La Parisienne”, “Le Temps de Paris”, que Truffaut foi o mais combativo e influente crítico de uma nova tendência que valorizava o cinema de autor. Numa época onde a crítica era em grande parte comunista e avaliava os filmes de acordo com os ditames do Partido (seu expoente era o historiador Georges Sadoul), eles criaram a chamada “política dos autores”, que valorizava todo cineasta que imprimisse sua marca pessoal em sua obra, fosse como estilo ou temática. Sendo que o conceito de “autor” incluía também os próprios produtores, não apenas os realizadores. Foram eles os responsáveis pela reavaliação de todo o cinema norte-americano, coisa que nem mesmo nos EUA estava se fazendo. Tudo isso devido à um fato histórico. Por causa de Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazista da França, eles só puderam assistir aos filmes norte-americanos a partir da Liberação de 1946 em diante e assim mesmo com os filmes lançados fora de ordem cronológica (só então puderam ver, por exemplo, E o vento Levou, que era de 1939).

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Truffaut ao lado de Grace Kelly

Embora aos poucos fosse se posicionando junto à esquerda, contra a Guerra da Argélia e a política do General De Gaulle, Truffaut nunca foi engajado. O brilhantismo de sua carreira e a qualidade de sua obra, não interfere porém com outro aspecto, seu discutível caráter. Até os amigos admitiam que ele era um arrivista (uma palavra fora de moda para definir “oportunista”), que com frequência polemizava  a favor dos amigos (ou daqueles que deseja ficar amigos) ou em troca de alguma vantagem. E não há  como negar que era uma pessoa ao menos prática. Homem de muitos amores  e amantes, quando se casou escolheu justamente uma garota judia, Madeleine Morgenstern, única  filha de um grande distribuidor francês, Ignace Morgenstern, diretor da Cocinor (Comptoir Cinématographique du Nord), que conheceu durante um Festival de Veneza. Adivinhem quem lhe produziu Os Incompreendidos? Obviamente seu sogro, que por sinal logo iria falecer deixando para Truffaut a organização que viria a se tornar a produtora dele, “Les Films de la Carrosse”. Comprovando assim a teoria de que a Nouvelle Vague foi basicamente fruto da alta burguesia, a qual pertencia por exemplo Malle (vindo de família de diplomatas). E Claude Chabrol produziu seu primeiro filme, Nas Garras do Vício, graças à uma herança que lhe deixou o pai.

Truffaut também era formidável como auto-promoção, mantendo uma rede de “amigos” e correspondentes, entre jornalistas e diretores de festivais pelo mundo todo, que lhe garantiam a exibição e aprovação internacional de suas fitas. Além de também fazer aquilo que os americanos chamam de “networking”, se aproximando e ficando amigos dos diretores que admirava e a quem utilizava quando necessário (de Jean  Cocteau a Roberto Rossellini, dois de seus mais achegados amigos). Para ser justo, também foi fiel à quase todos os amigos e colegas, a quem ajudou a realizar os filmes, muitas vezes sem crédito e ou lucro.

Não se pode negar que Truffaut é o santo patrono de todos os cinéfilos. Mesmo porque ele deve ter sido o maior de todos eles, se não o inventor do conceito. É muito ilustrativo, o fato de que uma das razões porque ele foi preso como marginal, estava o fato de ter roubado para poder sustentar um cine-clube de bairro (que dava prejuízo constante) e parte das dívidas foram cobertas com a venda de fotos de cena que ele e um amigo haviam roubado das portas das salas de cinema. Até hoje existem arquivadas as fichas e filmografias que ele mantinha sobre os cineastas (é importante notar que isso não era um hábito na imprensa mundial, nem mesmo na francesa. Só depois dele se tornou corriqueiro).

Truffaut4 François Truffaut: 80 anos esta noite

Parece também evidente que Truffaut usou sua função de crítico para realizar o sonho de dirigir filmes, manipulando influências e contatos. Provocador, insolente, chegou a ter sua credencial de imprensa negada no Festival de Cannes de 1958, justamente aquele que o premiaria no ano seguinte. Antes de passar para o longa, fez dois curtas, Les Mistons (Os Pivetes) e uma comédia chamada L´Historie de L´Eau, que nem chegou a ser lançada.

O primeiro projeto era meio indefinido sobre a infância para ser estrelado por Yves Montand como diretor de uma escola. Depois passou a ser a adaptação de um romance de Jacques Cousseau, Temps Chaud, que acabou não sendo realizado porque a atriz prevista Bernadette Laffont sofreu um acidente grave. Mas finalmente acabou sendo Os Incompreendidos, uma fita de orçamento baixo (quarenta milhões de francos antigos, muito abaixo da média da época) que reaproveitava e estendia uma idéia que ele iria utilizar num dos episódios da fita sobre a infância, La Fugue d´Antoine. Era um fato real de sua adolescência, quando ao bolar aula e se esquecer de fazer um trabalho de casa, para fugir ao castigo deu a desculpa de que “minha mãe morreu!”. E por isso levou monumental bofetada!

A partir daí Truffaut utilizou outras recordações de sua infância conturbada, suas fugas ao lado do amigo Lachenay, o conflito com os pais ausentes, o flagrante de ver sua mãe com o amante na Praça Clichy e assim por diante. O filme é extremamente autobiográfico (algumas vezes Truffaut desmentiu o fato apenas para não piorar a relação com os pais que ficaram ofendidos com o que ele mostrou na fita, deixaram de se falar mesmo por alguns anos) embora ele tenha incorporado ao personagem central também elementos da vida do amigo de aventuras Lachenay e também do ator que foi escolhido para protagonista Jean-Pierre Léaud. Outra mudança importante. Condensou cinco anos de sua vida para um período menor de tempo e transpôs a ação da Ocupação e imediato pós-Guerra para o presente, nos anos cinquenta.

Truffaut2 François Truffaut: 80 anos esta noite

Em destaque o protagonista Jean-Pierre Léaud

Mas quase tudo que Os Incompreendidos mostra tem seu paralelo na vida real de Truffaut. Mas nem tudo ele contou. Nascido em 6 de fevereiro de 1932, como François Roland, filho natural de Janine de Monferrand, uma mãe solteira de família católica e conservadora. Era portanto um “filho do pecado” e por causa disso para sempre desprezado pela mãe. Foi criado primeiro pela avó e só com a morte dela que foi viver com os pais em Paris, num pequeno apartamento.

Diante de tanta indiferença e muita leitura, passou a desconfiar de havia algo errado, acabando por descobrir que era filho adotivo do Sr. Truffaut (ele achava esse pai adotivo um fraco,mas o preferia à mãe, a quem nunca perdoou). Somente muitos anos mais tarde, já famoso, é que surgiria a verdade; seu pai verdadeiro era judeu.

A rebeldia em casa e na escola era justificada pela incompreensão familiar (tudo isso retratado no filme), só minorada pela paixão pelo cinema e a literatura, o que acaba provocando pequenos furtos, que culminam com sua internação feita pelo próprio pai num reformatório (a lei francesa permitia isso). O filme deixa de mostrar que o cinema seria sua própria salvação, quando ficou amigo do crítico mais influente da época, André Bazin, que se tornou seu padrinho e o orientou na carreira (Bazin morreria de leucemia com apenas 40 anos em 11 de novembro de 1958, no dia seguinte ao do início das filmagens de Os Incompreendidos).

Mas fundamentalmente tudo que Truffaut mostra é real (a paixão do pai pelo alpinismo virou paixão pelos automóveis, o nome Antoine Doinel foi adotado em homenagem ao amigo diretor Jean Renoir, sua assistente tinha esse sobrenome). Para o roteiro de 94 páginas Truffaut contou com a ajuda de Marcel Moussy, autor de uma série popular na tevê da época (Si c´était vous). Decidido a rodar em formato Cinemascope e preto e branco, quis utilizar um dos melhores diretores de fotografia do momento, Henri Decae (que havia trabalhado com Jean-Pierre Melville, Louis Malle e Chabrol), conhecido também por sua rapidez e preferência pela iluminação natural (foi ele que recebeu o mais alto salário da equipe, maior do que o próprio diretor).

Truffaut3 François Truffaut: 80 anos esta noite

Frame de Os Incompreendidos

Na escolha do elenco, seleciona um grupo de coadjuvantes pouco conhecidos e coloca anúncio nos jornais para encontrar seus dois protagonistas. Foi porém um colega de Cahiers, Jean Domarchi, que recomendou-lhe Jean- Pierre Leáud, filho de um assistente de roteiro e da atriz Jaqueline Pierreux. Um garoto de 14 anos, que já fizeram um papel pequeno em Tour, prends Garde, de Georges Lampin, ao lado de Jean Marais. Se identifica tanto com ele, com sua rebeldia, que concluídas as filmagens, praticamente o adota, não apenas se tornando seu alter ego numa série de filmes como chega a alugar um quarto perto da casa onde vivia com a mulher e duas filhas, para que o rapaz não se meta mais em apuros.

As filmagens foram sem complicações. A longa corrida em direção ao mar, que encerra o filme, foi rodada na praia perto de Villers- sur- Mer, com a câmera instalada num carro (que lhe permite um travelling). Uma sequência que culmina com Antoine Doinel olhando diretamente para a câmera, como se perguntasse , “com quem direito está me julgando?”.

O próprio Truffaut admitiu que aproveitou a ideia de um filme de Ingmar Bergman, Mônica e o Desejo embora o que tenha ficado mais famoso tenha sido outro recurso, o da imagem congelada (freeze-frame), o que era muito raro ou mesmo inédito no cinema.

Enquanto a Nouvelle Vague como movimento teve um importante sabor de renovação em todo o cinema francês, abrindo caminho para uma nova geração, revolucionando a linguagem, liberando a câmera para as filmagens nas ruas, com luz natural, atores mais jovens, novos ídolos, como teoria a “Política dos Autores” acabou tendo enorme influência em todo o mundo.

A carreira de Truffaut continuaria a ser intensamente autobiográfica, com o personagem de Doinel retornando mais tarde em outras fitas (Amor Aos Vinte Anos/ L´Amour à 20 ans, Episódio, 62; Beijos Proibidos/Baisers Volés, 68; Domícilio Conjugal/ Domicile Conjugal,70 e Amor em Fuga /L´Amour en Fuite, 78). Também faria outros grandes filmes,  Jules et Jim/Uma mulher para Dois, (1962), sendo o mais famoso deles, enquanto O Ultimo Metrô /Le Dernier Metro (1980) foi o mais premiado (ao menos na França). Nenhum, porém, tão sincero, renovador, humano e autobiográfico quanto Os Incompreendidos.

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5 fevereiro 2012

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O registro de outra morte

john rich O registro de outra morte

Só agora consegui registrar o falecimento do diretor John Rich (1925-2012) que morreu dia 29 de janeiro, em Los Angeles, aos 86 anos. Sua maior importância é que foi um dos mestres do sitcom, dirigindo alguns dos mais famosos da história da televisão americana.

Começou em 1951 com Big Town, seguida por Our Miss Brooks, com Eve Arden, Mr. Ed, A Ilha dos Birutas, O Dick Van Dyke Show, The Brady Bunch, That Girl, All in the Family, Murphy Brown, Benson e o ultimo Payne (1999).  Mas dirigiu outros gêneros como faroestes (Bat Masterson, Gunsmoke, O Homem do Rifle, Bonanza) e realizou também alguns longas de cinema: Esposas e Amantes (Wives and Lovers) (1963), com Janet Leigh e Van Johnson, Torvelinho de Paixões (The New Interns) (1964), com Barbara Eden, Dean Jones, Barbara Eden, Stefanie Powers; O Carrossel de Emoções (Roustabout) (1964), com Elvis Presley e Barbara Stanwyck; Boeing Boeing (Idem) (1965), com Jerry Lewis e Tony Curtis; Meu Tesouro é Você (Easy Come, Easy Go) (1967), com Elvis Presley, Doddie Marshall.

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5 fevereiro 2012

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Mais prêmios importantes para o Oscar

rango blog Mais prêmios importantes para o Oscar
Divulgação

Foram anunciados dois prêmios que servem para prever o que vai suceder no Oscar, o Annie para filmes de animação e os de Direção de Arte.

No Annie, o grande vencedor foi conforme o esperado Rango. Deverá repetir a dose no Oscar. Já o Sindicato dos Diretores de Arte usa critérios diferentes, dividindo os prêmios para filmes de época, ganhou logicamente A Invenção de Hugo Cabret, o meu predileto do genial Dante Ferretti; tema contemporâneo, foi Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, até pela falta de concorrência; e Fantasia, que foi para o último Harry Potter, que também ganhou um prêmio especial por Cinematic Imagery. Gary Oldman foi o apresentador do prêmio.

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5 fevereiro 2012

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As estreias americanas que eu Assisti (parte 2) – A Perseguição

TheGrey As estreias americanas que eu Assisti (parte 2)   <i>A Perseguição</i>

Este foi o filme de maior bilheteria nos EUA na semana passada, que os analistas estão creditando ao prestígio de Liam Neeson, nesta sua fase de filmes de ação. Acontece que desde que ele perdeu a esposa Nastasha Richardson num acidente horrível de esqui no gelo resolveu esquecer se dedicando ao trabalho.

Isso ao mesmo tempo em que fazia sucesso com um filme de ação europeu (Taken/ Busca Implacável (2008), do qual, aliás, acabou de fazer uma continuação). Apesar de já maduro (nasceu em 1952!) ele continua convincente e parece estar em tudo que é novo filme (incluindo a continuação de Fúria de Titãs, onde é Zeus, a superprodução Battleship A batalha dos Mares, Batman o Cavaleiro das Trevas Ressurge).

Neste aqui que deve estrear pela Imagem em março/abril, ele volta a ser dirigido por Joe Carnahan, que apesar de ter errado com ele no Esquadrão Classe A, antes tinha feito os promissores Narc e A Última Cartada.

É engraçado como a gente sente a mão de um diretor num filme, mesmo quando não tem um estilo em particular. Mas é um capitão comandando um navio, dando uma unidade, uma linha, mostrando o que esta pretendendo enfatizar ou destacar. Esta é basicamente uma historia de sobrevivência passada numa região gelada, aparentemente do Alaska.

TheGrey 2 As estreias americanas que eu Assisti (parte 2)   <i>A Perseguição</i>

Não traz muita novidade a não ser talvez o fato de voltarmos a enfrentar um dos mais velhos inimigos do homem ao menos no cinema, que é a alcateia de lobos famintos. Nada de ETs ou inimigos mais esquisitos. É uma luta entre homem e besta, lutando pela vida cada um por si (o lobo também tem que sobreviver naquela região nevada).

E não se trata de lobisomem, é lobo normal mesmo. Inclusive não foram feitos com efeitos digitais, mas pelo sistema de “animatronics” (mais ou menos o usado pelos Muppets), ou seja mecânico.

Neeson faz um sujeito em crise (não se explica direito do que a mulher bela e jovem morreu mas ele tem sonhos recorrentes dela na cama, até se confundindo realidade e fantasia). Trabalha numa refinaria de petróleo e ele tem a missão justamente de matar os lobos e evitar que ataquem os empregados.

Quando estão vários deles viajando de avião (também se não diz direito de onde para onde, ou por quê), sofrem uma pena e caem em pleno deserto gelado (a cena do acidente é muito bem feita sem ser explicita demais). Escapam com vida apenas alguns deles, se não me engano sete. Que iniciam então uma viagem para tentar chegar em algum lugar, onde haja menos tempestade de neves, menos frio.

Só que logo percebem que o pior inimigo são os lobos (e armados de archotes de fogo eles veem apenas os olhos dos  bichos brilhando no escuro) que são implacáveis adversários. O pequeno grupo somente de homens vai enfrentando perigos (montanhas, desfiladeiros, muita neve, árvores) num filme enxuto, sem conversa fiada e sem concessões, até mesmo no final.

A princípio a conclusão me pareceu abrupta, naquele estilo atual de simplesmente deixar tudo no ar. Mas aqui parece que não havia saída melhor. No final das contas e numa safra fraca, como filme B chega a funcionar.

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4 fevereiro 2012

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Em Cartaz: Viagem 2- A Ilha Misteriosa

a viagem 2 Em Cartaz: <i>Viagem 2  A Ilha Misteriosa</i>

Antes de tudo acho que há um problema de comunicação no título! Como é que os leigos vão descobrir que a Viagem 2 se trata de uma continuação de Viagem ao Centro da Terra (2008), uma fantasia que foi bem por aqui principalmente por que foi dos primeiros filmes em 3D que tinha humor e bastantes efeitos especiais. Mas o elenco é diferente, o cartaz, tudo nele se diferencia do original.

É preciso que a gente seja muito informada (não esqueçam que é um filme para garotada e os bens jovens, ideal diversão para matinês) para fazer um esforço e sacar que a relação são as obras de Jules Verne, um ator precursor da ficção científica que era muito popular no começo do século passado, mas que francamente hoje anda esquecido. Inclusive porque seu melhor trabalho há muito não é reprisado, trata-se de Vinte Mil Léguas Submarinas, filmado por Disney em 1954, com Kirk Douglas, Peter Lorre e um inesquecível James Mason como o Capitão Nemo, aquele que inventou o primeiro submarino, o inesquecível Nautilus que por sinal está de volta aqui nesta aventura.

Eu mesmo confesso que levei um tempinho do cartaz antes de sacar qual era a do filme (seus efeitos digitais se esforçam em não serem muito realistas para deixar claro que é uma fantasia juvenil) inclusive porque ele está estreando aqui antes dos Estados Unidos (lá só entra semana que vem), o que não sei se é uma boa ideia, já que somos muito colonizados!

Preciso admitir mais uma coisa importante: Eu tenho um fraco confessado por filmes de monstros, ainda mais daqueles bem rampeiros, aqueles lagartos que passavam por dinossauros ou os criados por Ray Harryhausen por animação quadro a quadro. Naturalmente eu assisti e comprei o DVD importado da versão anterior de A Ilha Misteriosa (1961), de Cy Endfield, uma fitinha inglesa bem pobrezinha com Michael Craig, Gary Merrill, Herbert Lom, Joan Greenwood e alguns monstros nada assustadores (se passava durante a Guerra Civil americana e se assumia como continuação de Vinte Mil Léguas, inclusive com Herbert Lom como o Capitão Nemo ainda vivo). Aqui eles preferem outra solução e um tom bem mais humorístico e pretexto para jogar coisas na plateia. O que por sinal funciona bastante.

Ah, sim, a trilha musical se tornou clássica porque era do maestro Bernard Hermann e os efeitos sim eram de Harryhausen, como sempre com pouca grana para criar sua magia.

a viagem 2 2 e1328373861394 Em Cartaz: <i>Viagem 2  A Ilha Misteriosa</i>

O fato é que entrando finalmente no assunto eu gostei bastante desta aventura superleve e despretensiosa, que funciona muito bem graças também ao fato de The Rock, Dwayne Johnson continuar evoluindo como ator. Ele tem um tipo muito especial, o rosto parece desenho animado, mas adquiriu um timing muito bom de humor e chega mesmo a cantar simpaticamente It´s a Beautiful World, eu assisti em versão dublada numa sala pouco cheia em horario nobre e não se deram ao trabalho de legendar a canção que tinha piadas na sua letra! O povo boiou...

Se The Rock funciona, o mesmo se pode dizer do já venerável Michael Caine (ele parece se divertir tanto fazendo cinema que a gente embarca na dele), da menina Vanessa Hudgens (High School Musical) que cumpre bem seu papel e do ex-ator infantil Josh Hutcherson (do meu Cult Zathura, já esta com 20 anos e foi adulto em Minhas Mães e Meu Pai e no próximo Jogos Vorazes). Ele continuou baixinho, mas é bom ator, faz o tipo enfezado e acaba sendo a ligação mais próxima com o filme anterior.

Poucos se lembram mas Josh faz o mesmo personagem Sean Anderson, que no filme anterior viajava com um tio. Aqui ele tem uma mãe de Sex and The City (Kristin Davis) que é casada justamente com um policial atleta (Rock) com quem ele tem conflitos (mas naturalmente farão as pazes e se tornarão amigões tudo em nome da paz da família!). E Vanessa e Josh ensaiam também um casto romance.

Falta falar de quem rouba o filme, que é um dos atores característicos mais marcantes do momento, o mexicano Luiz Gusman que tem as melhores piadas (como o pai de Vanessa, ele tem uma frase que vai ficar famosa: “Literalmente posso dizer que estou andando em ovos”. Veja o filme e entenda). O porto-riquenho que fazia em geral bandidos encontrou agora seu tipo certo: fazer rir.

a viagem 2 3 e1328373765213 Em Cartaz: <i>Viagem 2  A Ilha Misteriosa</i>

O filme é isso, uma brincadeira divertida em que padrasto e filho vão atrás dessa ilha misteriosa que não está em nenhum mapa, mas eles estão respondendo ao chamado do avô do garoto, que é um famoso explorador. Chegando lá tem muitas surpresas e nem todas estão no trailer, no filme é ainda melhor explorada a piada que faz o Rock com seu peito anatômico capaz de feitos de circo (também veja para crer, contar não tem graça). Divirta-se.

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4 fevereiro 2012

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Morre Zalman King que fez Orquídea Selvagem no Brasil

Zalman King Morre Zalman King que fez Orquídea Selvagem no Brasil

Foto: Getty Images

Era uma vez um filme chamado Nove Semanas e Meia de Amor, que vá entender porque fez um sucesso brutal no Brasil, onde ficou mais de ano em cartaz (no finado Belas Artes) e que transformou em astro, o que ainda é mais inexplicável, Mickey Rourke. O filme era um pornô chique com algum erotismo (que parecia mais coisa de fotografia de revista de fetichismo ou comercial de perfume ou bebida! Tanto que foi do comercial que veio o diretor Adrian Lynne que foi famoso por uns tempos). Mas quem queria as honras para si era justamente o sujeito que produziu o filme e foi um dos quatro roteiristas, justamente o sr. King.

E para demonstrar que sabia fazer melhor do que Lynne ele veio para o Brasil com Mr. Rourke e fez um dos piores filmes da história do cinema, que foi o famigerado Orquídea Selvagem. É verdade que o astro estava no auge do consumo de droga e do exibicionismo, seduziu a modelo que fazia o papel central (Carré Otis, que foi sua mulher por uns tempos) e protagonizou cenas dantescas (orgias, escândalos, bebedeiras e parece que surras) que foram testemunhadas pelos brasileiros da Bahia e do Rio que tiveram a infelicidade de se envolverem nessa fria.

Esse senhor King, faleceu nesta sexta-feira em Santa Mônica, Califórnia depois de uma prolongada luta contra o câncer. Ele nasceu Zalman Lefovksky em 23 de maio de 1942, em Trenton Nova Jersey. Ele foi ator em muitos filmes. Embora não fotografasse bem e não demonstrasse maior talento esteve em 40 títulos, o mais famoso deles sendo o papel central de Some Call it Loving, de James B., Harris, antigo produtor de Kubrick. Eu tive a infelicidade de ver o filme e certamente ele é dos piores que já vi numa tela.

Isso antes dele descobrir o filão erótico e se auto intitular “O sumo sacerdote do cinema erótico” (com freqüência ele trabalhava junto com a esposa Patricia Louisianna Knop com que esteve também em Nove Semanas, Orquídea e depois numa série do mesmo teor que ele fez para a teve Showtime em 1992, Red Shoe Diaries (vários episódios saíram por aqui em vídeo).

Mas não houve apenas isso, ele fez outros filmes, produziu muito e dirigiu um ate razoável chamado Two Moon Junction/Um Toque de Sedução (1988) (que foi anterior a Nove semanas e era com Sherilyn Fenn e Richard Tyson, indicando possível talento que depois se perderia). Fez ainda Wildfire (1988, com Steven Bauer), uma continuação Orquídea Selvagem II (era meio tola e claro que descartável), com Nina Siemasko, Delta de Venus (95), a serie de tevê Chromiumblue.com (2002) e Body Language(2008-2010) e  ainda um filme inédito Kamikaze Love.

Mas ainda falta mencionar sua relação com o Brasil, que foi outra calamidade, mas nunca chegou a ser lançado direito por aqui. Lembram do Boca de Ouro? O longa-metragem baseado em Nelson Rodrigues foi o único filme de cinema dirigido pelo notável Walter Avancini, com Tarcísio Meira e Claudia Raia. Pois o produtor do filme não gostou do resultado e mandou refazê-lo, usando parte do que havia sido filmado, mas acrescentando atores e história. Foi o que se chamou de Boca, de foi feito por Zalman, com Rae Dawn Chong, Martin Kemp, Martin Sheen (e sem Claudia). Era que andava na moda na época hoje sumiu, faz uma repórter que investiga a morte de crianças nas favelas cariocas, o que nada tem a ver com o resto da historia! Um crime cometido contra a memória de Nelson e Avancini.

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4 fevereiro 2012

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Morre ator americano de filme de Khouri

ben gazarra Morre ator americano de filme de Khouri

Esta é a manchete para relatar o falecimento ontem em Nova York, de Ben Gazzara, um dos mais celebres atores saídos do Actor´s Studio e que fez em São Paulo o papel principal do filme Forever de Walter Hugo Khouri (1991, em co–produção com a Itália), está na carreira dele como Per Sempre. No elenco estavam ainda Eva Grimaldi, Janet Agren, Vera Fischer, John Herbert e Ana Paula Arósio muito jovem (foi no filme do Khouri que eu a vi e chamei para estrear em Éramos Seis, no SBT). Por isso Gazzara veio várias vezes ao Brasil, onde fez amigos e badalou muito.

Ele faleceu de câncer no pâncreas (antes foi atacado por outro na garganta) e era casado com a modelo Elke Stuckman Krivat desde 1982. Seu romance mais famoso foi muito discreto na época, ele apaixonou-se por Audrey Hepburn quando os dois rodaram a comédia They All Laughed /Muito Riso e Muita Alegria, em 1981.  Foi casado outras vezes (uma delas com a atriz Janice Rule, já falecida), teve também romance com a estrela de teatro Elaine Stritch. Era grande amigo do ator e diretor John Cassavetes com quem fez cinco filmes.

Nascido Biaggio Anthony Gazzara em Nova York em 28 de agosto de 1930, filho de emigrante siciliano. Foi vendo em cena a atriz Laurette Taylor que resolveu ser ator e conseguiu bolsa para estudar com o famoso Piscator. Mas foi no Actor´s Studio e com o método Stanislawiski que encontrou seu estilo e futuro. Foi numa peça surgida lá End as Man que ele iria estrear na Broadway e depois no cinema onde teria o nome de O Rancoroso.

Numa carreira longa de 133 títulos ganhou Emmy por Hysterical Blindness e teve indicações por An Early Frost e dois pela série de tevê que o revelou Alma de Aço/Run For Your Life (e que lhe deu também três indicações ao Globo de Ouro). Nunca ganhou um Oscar ou sequer foi indicado (mas teve prêmio pela carreira em San Sebastian). E duas indicações aos Razzies de piores (por Inchon e Matador de Aluguel que se tornou um filme Cult).

Foi regular ainda na série Inocente ou Culpado/Arrest and Trial (1963-1964). Outros sucessos de Gazzara no Brasil foram o drama de Marco Ferreri, Crônica de um Amor Louco, de Bukowski; Dogville, de Lars Von Trier; O Grande Lebowski, dos Irmãos Coen e Felicidade, de Todd Solondz.

Filmografia

2012 Max Rose (que estava em produção)
2011 Chez Gino
2011 Ristabbanna
2010 Christopher Roth
2010 13 – O Jogador (13)
2006/09 L'onore e il rispetto (TV movie)
2009 Holy Money
2008 Eve (CM). Meurtres à l'Empire State Building (TV movie). Looking for Palladin,
2007 Donne sbagliate (TV movie)
2006 Paris, Te Amo (Paris Je t´aime Epis. “Quartier Latin")
2006 Quiet Flows the Don
2005 Papa João Paulo II – O Sorriso de Deus (Pope John Paul II)(TV movie)
2005 Schubert
2005 Bonjour Michel
2005 The Shore
2003 Dogville (de Lars Von Trier)
2003 L'ospite segreto
2002 Hysterical Blindness (TV movie)
2001 Brian's Song (TV movie)
2001 Home Sweet Hoboken
2001 Nella terra di nessuno
2000 A Lista (The List)
2000 Jack of Hearts
2000 Piovuto dal cielo (TV movie)
2000 Undertaker's Paradise
2000 Shark in a Bottle
2000 Very Mean Men
2000 Un bacio nel buio
2000 Espíritos (Believe)
2000 Blue Moon
2000 Poor Liza (Narrador)
1999 Thomas Crown – A Arte do Crime (The Thomas Crown Affair), de John McTiernan
1999 O Verão de Sam (The Summer of Sam, de Spike Lee)
1999 Tre stelle (TV)
1999 Paradise Cove
1998 Il tesoro di Damasco (TV)
1998 Angelo nero (TV movie)
1998 Illuminata (Idem de John Turturro)
1998 Felicidade (Happiness)
1998 O Grande Lebowski (The Great Lebowski dos Irmãos Coen)
1998 Buffalo '66 (Idem de Vincent Gallo)
1998 Muito Cansado para Morrer (Too Tired to Die)
1998 Valentine's Day (TV movie)
1997 A Trapaça (The Spanish Prisioner de David Mamet)
1997 Stag – Despedida Mortal
1997 Conspiração (Shadow Conspiracy de Cosmatos)
1997 Herança de Crimes (Farmer & Chase)
1997 Vicious Circles
1997 The Notorious 7 (TV movie)
1997 A New Life
1997 Ladykiller
1997 Una donna in fuga
1995 Interceptor 3 – Operação Moaravash /The Zone
1995Nefertiti, figlia del sole
1995 Liberdade Selvagem (Convict Cowboy.TV movie)’
1995 Bandidos (Banditi)
1994 Laços Mortais (Fatal Vows: The Alexandra O'Hara Story .TV movie)
1994 Vidas Paralelas (Paralell Lives)
1994 Les hirondelles ne meurent pas à Jerusalem.Sherwood's Travels
1993 Les gens d'en face
1993 Honra, Poder e Máfia (Love, Honor & Obey: The Last Mafia Marriage.TV movie)
1993 Jogo de Sedução (Blindsided. TV movie)
1991 Lies Before Kisses (TV movie)
1991 Forever (Per sempre de Walter Hugo Khouri)
1990 Quicker Than the Eye.
1990 People Like Us (TV movie)
1990 Oltre l'oceano
1989 Matador de Aluguel (Road House com Patrick Swayze)
1988 Don Bosco
1987 O Preço da Morte (Downpayment on Murder. TV movie)
1987 No Rastro da Violencia (Police Story: The Freeway Killings. TV movie)
1987 O pesadelo do Século (Il giorno prima/Control de Giuliano Montaldo)
1986 O Professor do Crime (Il Camorrista estréia na direção de Giuseppe Tornatore)
1986 Champagne amer
1985 A Letter to Three Wives (TV movie)
1985 Aconteceu Comigo (An Early Frost .TV movie)
1985 Meu Caro Filho (Figlio mio infinitamente caro)
1985 Telefonema na Madrugada (La Donna delle Meraviglie com Claudia Cardinale)
1984 Uno scandalo perbene)
1982 A Garota de Trieste (La Ragazza di Trieste)
1982 Questão de Honra (A Question of Honor.TV movie)
1981 Crônica de um Amor Louco (Storie di Ordinaria Folia)
1981 Muito Riso e Muita Alegria ( They All Laughed de Bognadovich)
1981 Inchon
1979 A Herdeira (Sidney Sheldon´s Bloodsimple)
1979 O Tatuado (Saint Jack de Bognadovich)
1977 Noite de Estreia (Opening Night de Cassavetes)
1977 O Julgamento de Lee Oswald (The Trial of Lee Harvey Oswald. TV movie)
1977 The Death of Richie (TV movie)
1976 A Viagem dos Condenados ( Voyage of the Damned de Stuart Rosemberg)
1976 High Velocity
1976 O Morte de um Bookmaker Chinês(The Killing of a Chinese Bookie de Cassavetes)
1975 Capone, o Gângster (Capone)
1974 QB VII (Idem. TV mini-series)
1973 Maneater (TV movie)
1973 O Fator Netuno (The Neptune Factor)
1972You'll Never See Me Again (TV movie)
1972 Afyon oppio.
1972 Pursuit (TV movie).
1972 A Família Rico /The Family Rico (TV movie)
1972 Fireball Forward (TV movie)
1972 Quando Michael Chama ou Silencio Mortal / When Michael Calls (TV movie)
1970 Os Maridos (Husbands de Cassavetes)
1969 A Ponte de Remagen (The Bridge at Remagen)
1969 Enquanto Viverem as Ilusões ( If It's Tuesday, This Must Be Belgium)
1965 Obsessão de Amar (A Rage to Live de Walter Grauman)
1962 Os Heróis Também Matam (La città prigioniera de Joseph Anthony)
1962 Convicts 4
1961 Preceito de Honra (The Young Doctors de Phil Karlson)
1961 Cry Vengeance! (TV movie)
1960 Ladrão Apaixonado (Risate di gioia, de Mario Monicelli com Anna Magnani)
1959 Anatomia de um Crime (Anatomy of a Crime de Preminger)
1957 O Rancoroso (The Strange One de Jack Garfein)

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