8 fevereiro 2012
As estreias americanas que eu assisti (parte 4) – Red Tails
Vocês já devem ter ouvido falar que Star Wars Episódio I esta para voltar em 3D muito em breve e que George Lucas não é mais o mesmo. Apaixonou-se novamente e por uma bela negra, Melody Hobson, que tanto o entusiasmou que resolveu produziu com seu próprio dinheiro, sem ajuda de qualquer estúdio ou outra fonte, um filme em homenagem a ela!
Um filme de ação Red Tails, com Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e uma certa Daniela Ruah (descendente de portugueses que faz uma italiana, único interesse romântico do filme) sobre uma história pouco conhecida da Segunda Guerra: a ação dos pilotos negros na base de Tuskegee que mesmo sendo vitimas de racismo e discriminação agiram com coragem e heroísmo. (Houve em 1995 um telefilme da HBO que foi o primeiro a tocar no assunto Prova de Fogo/The Tuskegee Airmen, de Robert Markowitz, com Laurence Fishburne, John Lithgow e o mesmo Cuba Gooding).
Originalmente Lucas iria dirigir, mas como o projeto está em desenvolvimento desde 1988, resolveu passar a realização para um diretor negro vindo de séries de tevê, Anthony Hemingway (nada a ver com o escritor). E como para Lucas dinheiro não tem importância, ele gastou 58 milhões de dólares na produção e mais 38 milhões no marketing!
Uma palavrinha sobre Melody, ela não é atriz, mas executiva. Nascida em Chicago, formada pela Universidade de Princeton em 1991, se tornou presidente da produtora Ariel e depois participou do Board de várias organizações culturais de sua terra natal, também do Instituto Sundance, da Starbucks, Esthée Lauder e outras. Incluindo a Dreamworks Animation! Ou seja, de boba não tem nada.
Aos 68 anos (que vai completar em maio), Lucas anunciou também que estava se aposentando (será que isso significa que a série Indiana Jones e o possível quinto episódio foram arquivados? Porque Steven Spielberg sempre afirma que tudo depende de seu amigo Lucas!). Na verdade, parece improvável agora que Star Wars Capitulo I esta de volta aos cinemas em Terceira Dimensão. É bom explicar bem: Não se trata da trilogia clássica que hoje virou Capítulos de IV a VI (feitos entre 1977 e 83), mas seu prequel (prólogo, mal traduzindo), que começa com este Capitulo I – A Ameaça Fantasma (1999) prossegue com Episódio II (O Ataque dos Clones, 2002) e conclui com A Vingança dos Sith (2005).
Tudo é facilitado porque Lucas desde aquela época já insistia em trabalhar com HD Alta Definição, ou o Sistema Digital que lhe facilitava muito os efeitos digitais. Aliás, de tal forma que muitas vezes a trilogia parecia um showroom dos efeitos mais do que uma boa história. Tem outra coisa: Lucas nunca teve problemas em mexer em seus trabalhos, atualizando os efeitos ou cortando coisas que envelheceram (ao contrario de Spielberg, que voltou atrás e jura que sua versão de ET em Blu-Ray será igual a dos cinemas, ele se arrependeu de cortar armas de fogo. Finalmente percebeu que um filme é o retrato de sua época e não deve ser censurado). Embora seja mais ligado em tecnologia (vide o sucesso de sua firma de efeitos especiais Industrial Light & Magic, e seus lançamentos em videogame) do que em roteiro ou mesmo produção de filmes. É preciso lembrar que seu curriculum como produtor tem algumas manchas tristes (como os megafracassos Howard, o Super Herói (aquele do pato que veio do Espaço), Willow na Terrra da Magia, Assassinatos na Radio WBN) e mesmo a discutível série de tevê Star Wars: A Guerra dos Clones.
A verdade é que apesar disso Lucas tem grande prestígio e reputação como produtor e não tanto como realizador. Seu melhor filme seria ainda American Graffiti, que fez antes de Star Wars. E todos concordam que dos seis filmes de Star Wars, o melhor é o dirigido por um professor dele, O Império contra Ataca, de Irvin Kershner.
Não tenho qualquer ansiedade de rever mesmo em 3D, este Capitulo I – A Ameaça Fantasma. Com certeza não é um Titanic – que retornara também em 3D em setembro, não vai tirar sua mãe de casa com as vizinhas para correr ao cinema. Nem provocou frissons nas teenagers. Na verdade, ele parece ter sido feito basicamente para vender bonecos e videogames, uma máquina de fazer dinheiro, de merchandising. Como cinema, cometeram-se vários erros. O primeiro é o produtor George Lucas deixar o próprio Lucas como diretor. O resultado foi um filme frio, sem emoção, com personagens mal delineados. Sem qualquer criação por parte do diretor.
Mas ao fazer um prólogo, ele armou para si próprio uma armadilha da qual vai ser difícil escapar. Não pode fugir de certos detalhes que já sabemos que irá acontecer, assim o menino herói central do filme será necessariamente o Darth Vader, que passará para o lado negro da força e que enfrentará o filho Luke Skywalker (mais estranho ainda é que Darth irá namorar e se casar com a rainha do filme, que é obviamente muito mais velha do que ele, uma diferença de idade considerável e perturbadora). Portanto, tudo tem que explicar e justificar a outra trilogia, provocando limitações de todo tipo (inclusive tecnológica, fica esquisito o passado ter mais tecnologia do que o futuro ainda distante mostrado nos filmes anteriores).
Pode ser um jogo curioso para os fanáticos da série, mas inútil para o espectador despreparado. E deixa o filme com uma trama fraca, difícil até de descrever e seguir. E ainda por cima ele vai errar na escolha do jovem Darth Vader, como esquisito Hayden Christensen, que acabou não fazendo grande carreira. A trilogia não chegou a ajudar nem os já famosos Ewan MacGregor e Liam Neeson.
Há excesso de bichinhos fofinhos, de figuras exóticas, de multidões de exércitos, nenhum deles memorável e por vezes até irritantes. As crianças menores podem se divertir (mais que nunca o filme tem apelo infantil), mas o verdadeiro fã da série, aquele que hoje em dia tem por volta de 40 anos vai se decepcionar. Porque afinal Lucas tem os pés de barro, nem sempre o Toque de Midas. Não no caso deste Red Tails, em que ele já saiba que não iria lucrar. Por amor, afinal, vale tudo!
Voltando a este Red Tails, eu assisti o filme com uma platéia formada basicamente por negros que me pareceram terem vindo em excursão de escola ou grupos. Nenhum reagiu especialmente entusiasmado, embora a bilheteria não chegue a ser um desastre (chegando aos 35 milhões de dólares).
O fato é que a historia ainda merecia um filme melhor. Não apenas o elenco é muito irregular, mas principalmente os protagonistas, Terrence Howard tem uma voz fraca e uma presença titubeante. Mas menos desastrosa do que a de Cuba Gooding Jr que nada mais faz do que ficar fazendo pose e pitando o seu cachimbo.
Embora a história tenha tudo para ser comovente e eletrizante, o filme resulta morno. É uma historia de superação, luta contra o racismo, puro heroísmo. Mas parece que o filme tem medo de ser mais franco e direto, optando por evitar críticas frontais aos preconceitos das Forças Armadas de então que tratavam os negros como cidadãos de segunda classe, que serviam para proteger os aviões comandados por brancos, mas assim mesmo com relutância. Isso poderia dar mais pano para manga, mas o roteiro prefere louvar o patriotismo geral e os feitos aliados.
Há dois pilotos problemáticos, o que os torna ate mais humanos, um oficial que bebe um pouco demais e um piloto rebelde que namora uma jovem italiana com quem deseja se casar mas que nem por isso, deixa de realizar ataques arriscados procurando acertar pilotos/aviões nazistas.
Bryan Cranston é um dos poucos que faz um oficial assumidamente racista. O forte do filme são os efeitos especiais que recriam com bastante qualidade os aviões e as batalhas aéreas nos céus da Itália. Parece realmente um esforço de produção reunir aviões tão antigos nesta altura (quase 60 anos depois dos fatos) e relatar as façanhas dos Red Tails (Rabos Vermelhos). Uma história importante e que merece ser relatada, num filme apenas médio. Ao menos não é um final triste para a despedida de Lucas do cinema.
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