26 maio 2012
Douglas Sirk: Sem medo da emoção
Que seja erradicado definitivamente o preconceito ao termo melodrama no cinema. E que se embarque nas emoções e na universalidade dos dramas e paradoxos humanos. Se todas as histórias se parecem no teatro, na ópera, no cinema e na dança, a maneira de contá-las e de tocar o coração do público será o contraponto a todas as convenções.
Assim, unir texto e música para se contar uma história gerando uma catarse emocional na plateia e abrangendo o maior número possível de espectadores de todos os segmentos sociais e formações intelectuais é mérito de alguns grandes mestres, como o alemão Hans Detlef Sierck, mais conhecido como Douglas Sirk.
Tendo iniciado sua atuação artística no teatro alemão nos anos 20, e tendo dirigido alguns filmes em seu país de origem, logo teria de fugir de um contexto que se anunciava fúnebre com a ascensão do nazismo já nos anos 30. Casado com uma atriz judia e ele mesmo antinazista, tratou de se instalar a partir de 1937, nos Estados Unidos onde começou sua frutífera e apaixonante parceria com os grandes estúdios americanos.

O diretor Douglas Sirk, em 1943. Cineasta ganha mostra em São Paulo (Foto: AFP/The Kobal Collection)
Histórias de amor, encontros, separações, vida e morte, a guerra e suas feridas, seres desesperados e apaixonados lutando contra as imposições sociais, remorsos e redenções, relatos embalados por uma música sempre grandiosa e expressiva, melodias que arrebatam e embalam o espectador numa onda sem freios em direção à suas mais recônditas emoções.
Desta forma, a conotação mais popular se impõe, entenda-se popular como sendo a capacidade de se comunicar com uma parcela cada vez maior de espectadores em toda a sua diversidade, formando um paladar visual irreversível. A barreira entre o erudito e o popular é, em Sirk, rompida, unindo os seres a partir de tudo o que possuem em comum.
São os sentimentos universais, aliados a uma ideologia libertária que irão nortear o universo cinematográfico deste grande expoente do melodrama. Não por acaso iria influenciar em séculos vindouros, criadores como o espanhol Pedro Almodóvar e o alemão Rainer Werner Fassbinder, cineastas que não se furtam a pintar com cores fortes a frágil condição humana, seja pelo viés do drama ou da comédia.
Douglas Sirk: Príncipe do Melodrama é a importante mostra que os curadores Pedro Maciel Guimarães e Cassio Starling Carlos organizaram nas unidades do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Em 29 filmes, grandes clássicos como Sublime Obsessão, Palavras ao Vento, Tudo o que o Céu Permite, Imitação da Vida, Amar e Morrer, A Agonia de Uma Alma, se unem a filmes jamais ou pouco exibidos em circuito comercial e é possível observar o tipo de interpretação que caracteriza o melodrama.
Todos os personagens tem um segredo, há sempre pausas quase que imperceptíveis nos diálogos, olhares furtivos, ocultando um passado, uma história de vida, uma riqueza interior inerente a cada um. Rock Hudson, Lana Turner, Robert Stack, Dorothy Malone, Jane Wyman, Barbara Stanwyck, Barbara Rush, Fred MacMurray, embalados pelas trilhas sonoras dos compositores Frank Skinner, Miklos Rozsa, Joseph Gershenson entre outros em apuradas produções de Ross Hunter.
Os títulos em português anunciam já a grandiloquência das obras como que dando um aval para que o espectador se abandone ao que sente, na sala escura, perdendo completamente e sem pudor, o medo da emoção.
Em São Paulo, até 10 de junho, e no dia 30 de maio às 10h, o crítico Cassio Starling Carlos e cocurador da mostra irá ministrar a aula De Sierck a Sirk, da UFA a Hollywood com projeções inéditas de trechos do grande cineasta.
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