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17 outubro 2009 às 12:21

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John Cassavetes, o pai do cinema independente

Pela primeira vez estão disponíveis no Brasil os principais  filmes do diretor e ator John Cassavetes, cujo trabalho teve importância notável nos Estados Unidos (por causa disso, ele é chamado de pai do cinema independente americano), embora eles tenham feito muito sucesso no exterior. Na França, nos anos 80, Gerard Depardieu comprou os direitos e lançou estes filmes no circuito de arte com enorme sucesso, ressuscitando a carreira de Gena Rowlands, viúva e musa de Cassavetes.

Eles saíram agora em DVD pela distribuidora Cinemax e já podem ser encontrados nas lojas.

cassavetes dvds John Cassavetes, o pai do cinema independente

Quem era Cassavetes?

John Cassavetes

(1929-1989) Diretor e ator americano. Como Orson Welles e De Sica, trabalhou como ator para pagar suas produções como diretor, absoluto sucesso de crítica, mas lentos e arrastados para o público. Fez sua reputação com um filme underground, Sombras (Shadows), rodado durante vários anos com os amigos trabalhando de favor. Depois de uma passagem infeliz pela produção tradicional, criou um estilo todo seu: utilizando os amigos (Peter Falk, Ben Gazzara, Seymour Cassel), a talentosa esposa Gena Rowlands (1930-    ), e criando histórias em torno de suas improvisações. O resultado é quase sempre indulgente, mas criou uma espécie de “cinema do ator”, onde este é valorizado e passa a ter força criativa. Mesmo os filmes de Altman utilizam um pouco seus princípios. Com Glória foi premiado com o Leão de Ouro em Veneza e, depois, em Berlim ganhou o Urso de Ouro por Love Streams. Continuou trabalhando com a esposa Rowlands, que chegou a ter uma indicação para o Oscar por Uma Mulher sob Influencia e depois com Glória. Substituiu Andrew Bergman no meio das filmagens de Big Trouble, que acabou sendo seu ultimo trabalho. Dirigiu dois episódios da série Columbo com o pseudônimo de Nick  Colasanto (seu nome real) em 1972 e 1974. É pai do também ator e diretor Nick Cassavetes (que recentemente fez Uma Prova de Amor com Cameron Diaz).

Ser pai do Cinema Independente Moderno norte-americano não é pouca coisa. Na verdade, para os jovens cineastas do fim de século 20, Cassavetes era Deus (e influenciou também o nosso Selton Mello). Além de ter sido um bom ator (sua carreira foi muito prejudicada pelo alcoolismo que acabou provocando sua morte prematura), colocou sua carreira como intérprete num segundo lugar para experimentar como realizador. Isso numa época em que o Cinema Independente praticamente não existia. Criou ele mesmo um estilo: um Cinema feito com amigos, com um mínimo de recursos, câmera na mão, em preto e branco ou 16 milímetros ampliado, se necessário, em que os atores improvisavam a partir de um determinado ponto de partida.

Logicamente, todos eles adoravam essa liberdade e, por vezes, os filmes se tornavam longos e indulgentes demais. Mas Cassavetes teve também a sorte de contar com o apoio como esposa e estrela de seus filmes de uma atriz excepcional, Gena Rowlands, uma figura luminosa e temerária que em fitas suas é capaz de tudo (como em Uma Mulher sob Influência), como raramente se viu no Cinema. É melhor esquecer suas tentativas de se conformar às normas de um estúdio tradicional. Talvez não tenha nem mesmo feito um único grande filme. Cassavetes não tem seu Cidadão Kane. Ele possivelmente só tem momentos esparsos de grandeza. Mas o estilo, a maneira de filmar, a rebeldia aos códigos pré-estabelecidos, tudo isso foi absorvido pelas gerações seguintes. Deixando uma marca indelével em tudo que você vê em Cinema hoje em dia.

Dir.: 1960 – Sombras (Shadows .Lelia Goldoni, Hugh Hurd). 1961 – A Canção da Esperança (Too Late Blues. Bobby Darin, Stella Stevens). 1963 – Minha Esperança É Você (A Child Is Waiting. Burt Lancaster, Judy Garland). 1968 – Faces (Idem. John Marley, Gena Rowlands). 1970 – Os Maridos (Husbands. Cassavetes, Ben Gazzara). 1971 – Assim Falou o Amor (Minnie and Moskcowitz. Gena Rowlands, Seymour Cassel). 1974 – Uma Mulher sob Influência ( A Woman Under the Influence .Gena Rowlands, Peter Falk). 1976 – A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie .Ben Gazzara, Seymour Cassel). 1977 – Noite de Estreia (Opening Night .Gena Rowlands, Cassavetes). 1980 – Glória (Gloria. Gena Rowlands, John Adames). 1984 – Amantes (Love Streams. Gena Rowlands, Cassavetes). 1986 – Um Grande Problema ou Problemas em Dobro (Big Trouble. Beverly D'Angelo, Peter Falk).

Os filmes disponíveis

sombras John Cassavetes, o pai do cinema independente

Sombras (Shadows, 59) – A primeira experiência de Cassavetes como diretor, improvisando com amigos e levando vários anos para concluir. Um exercício de câmera na mão, de 16 milímetros, branco e preto, que na época era coisa rara e se tornaria seu estilo habitual. Com trilha de jazz improvisado, registra o mundo Beat dos anos 50 em Nova York com um romance inter-racial. Ele conseguiu o dinheiro  fazendo aparições na televisão no programa de Joan Shepherd  (Night People) e também de doações de estranhos. A primeira versão do filme foi dada como desaparecida (porque foi mal recebida e ele refez praticamente o filme todo, que é esta versão disponível. Só foi redescoberta por acaso em 2002. Gena Rowlands nega que a versão seja verdadeira). Custou apenas 40 mil e Cassavetes faz aparição na rua e Gena num nightclub. Depois de ganhar um prêmio da crítica em Veneza, o filme começou a ser descoberto.

faces John Cassavetes, o pai do cinema independente

Faces (Idem, 68) – Segundo filme de Cassavetes como diretor. Um homem de meia idade casado deixa sua esposa por uma mulher mais jovem. Mas a esposa também começa romance com rapaz. Foi indicado aos Oscars de coadjuvantes (Lyn Carlin, que fez muita coisa inclusive Procura Insaciável de Milos Forman, e Seymour Cassel,que se tornaria figura permanente nos filmes de Cassavetes) e roteiro. Também ganhou melhor roteiro e coadjuvante (Cassel) do National Society of Critics. Steven Spielberg então começando chegou a trabalhar convidado por Cassavetes como assistente de produção. Agora não temos mais jovens, mas gente de meia idade, e as tomadas também são mais longas. Continua a não se preocupar em ter uma trama forte, uma história para contar. Deixa o espectador testemunhar em duas horas o esfacelamento de um casamento. São instantes nunca mostrados, olhares, detalhes. Mas como nenhum dos filmes é fácil de ver.

umamulhersobinfluencia John Cassavetes, o pai do cinema independente

Uma Mulher sob Influência (A Woman under the  Influence, 74).  Gena e Cassavetes fizeram dez filmes juntos, alguns apenas como parceiros /atores como A Tempestade de Mazursky. Foram casados desde 1954 até sua morte em 89 e tiveram três filhos. Ela chegou a fazer outros filmes importantes (Sua Última Façanha com Kirk Douglas, Labirinto de Paixões com Rock Hudson) mas nada se compara às suas grandes interpretações sob a ordens do marido. Por este filme, foi indicada ao Oscar e deveria ter ganhado (mas a produção era pequena e não havia grana para promoção ou campanha). A vencedora  do ano foi Ellen Burstyn para Alice Não Mora Mais Aqui (era consolação por ter perdido por O Exorcista) e as finalistas eram Faye Dunaway (Chinatown), Valerie Perrine (Lenny), Diahhann Carroll (Claudine). A história de Mabel, esposa e mãe, que começa a enlouquecer para infelicidade do marido trabalhador (Peter Falk). É um show de uma atriz carismática e apaixonante. Aliás, Cassavetes também foi indicado ao Oscar como diretor. Gena ganhou Globo de Ouro de atriz. Foram indicados como diretor, drama e roteiro. Ninguém queria distribuir o filme até a interferência de Scorsese, que forçou um Festival de Nova York a aceitá-lo. Foi também melhor atriz em San Sebastian. Mas não custa avisar que, como sempre, é alongado e indulgente.

A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a chinese bookmaker, 76)- Este não tem Gena, mas tem um grande amigo do casal e em seu melhor momento como ator no cinema, Ben Gazzara. É o mais fraco deste lote, porque é um drama existencial sobre o dono de uma boate de strip-tease, que é viciado em jogo e contrai uma dívida grande com a Máfia, que para saldá-la, pede para que ele mate um bookmaker chinês. Com câmera na mão, interpretações naturalísticas, o filme foi visto pelo diretor como uma metáfora sobre a própria luta de Cassavetes para tentar fazer filmes pessoais e não comerciais e para todos aqueles que tentam destruir ou impedir os sonhos alheios. Não foi premiado.

Noite de Estréia (Opening Night, 77)- O maior sucesso da dupla Gena e Cassavetes seria Gloria (80), que já existe em DVD. Mas este foi bem. Foi indicado ao Globo de Ouro para Gena e a veterana Joan Blondell como coadjuvante. No Festival de Berlim teve prêmio especial e o Urso de Prata de atriz para Gena. Foi escrito originalmente para teatro, mas Gena achou que era muito cansativo para interpretá-lo toda noite. Assim, fizeram o filme com os amigo Gazzara e o próprio Cassavetes como ator. Ela faz uma estrela da Broadway, neurótica e alcoólatra, que entra em crise perto de uma estreia quando uma fã morre ao procurar vê-la. Tem toques de A Malvada e pode ser tedioso e alongado como sempre (tem 144 minutos) mas tem momentos interessantes (como sempre, o diretor deixava os atores improvisarem muito).

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