7 novembro 2009 às 09:14
DVD
Inimigos Públicos ** Public Enemies
Áud: Ing , Esp, Port (todos 5.1). Leg: Port, Esp, Ing. Policial. Widescreen 2.40. 140 min. Cor. 2009.EUA. 12 anos. Rental. 4 de novembro. Diretor:Michael Mann.
Elenco: Christian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard, Stephen Dorff, James Russo, Chaning Tatum, Rory Cochrane, Billy Crudup, Giovanni Ribisi, Diana Krall, Shawn Hatosy, Stephen Lang, Lili Taylor, Leelee Sobieski.
Sinopse: A caçada ao Inimigo Público Numero Um dos EUA nos anos 30, John Dillinger.
Comentários: Há alguns anos não se tinha um novo filme sobre o chamado Inimigo Público Numero 1 da América, John Dillinger (1903-34) mas ele já foi objeto de 18 filmes, começando com o clássico Dillinger com Laurence Tierney, 45, até o Dillinger de John Milius em 73, com Warren Oates.

Isso sem contar as biografias disfarçadas contemporâneas ou que fizeram parte da série de tevê Os Intocáveis.
Mas há alguma razão para realizá-la? A única coisa nova que eu percebi é que agora mostram os homens do governo, os G-Men liderados pelo fundador do FBI, J.Edgar Hoover, condenado abertamente no filme como demagógico, ambicioso, controlador e fora da lei.
Para combater o crime, eles usavam não apenas métodos científicos (escutas telefônicas, pesquisas, coisas que na época eram novidade), mas também a violência, a tortura, até mesmo contra mulheres.
Ou seja, ficamos sabendo que as forças do governo não tinham as mãos limpas, ao contrário, eram iguais aos torturadores de Guantánamo e Iraque.
A impressão é que para criticar isso, o roteiro acaba pintando um retrato opaco, sem profundidade do gangster que por vezes parece ser uma figura gentil, que recusa realizar sequestros porque o público não gosta disso, que adora seus fãs e status de super bandido.
Fiel a seus amigos, não é especialmente violento, mas também não demonstra maior ambição ou inteligência. Ou seja, fazem mais um retrato superficial do protagonista.
Não mostra nem mesmo o momento em que a mocinha Billie se apaixonou por ele, o que era essencial para sua atitude fazer sentido.
Por outro lado eu gosto muito de mostrarem em detalhe o último filme que Dillinger assistiu, que foi Manhattan Melodrama/Vencido pela Lei, estrelado por Clark Gable (fato histórico) e que curiosamente tem muito a ver com sua própria história e vida.
Também se detém na figura da estrela daquela fita, a Myrna Loy, que acaba explicando porque escolheram a francesa vencedora do Oscar Marion Cottillard como Billie, já que ela faz lembrar a estrela.
Não sou fã do diretor Michael Mann, que considero superestimado (quem gosta dele é o amigo Luiz Carlos Merten) e que até agora não fez um grande filme, embora tenha tido alguns acertos (como O Informante, Fogo Contra Fogo com De Niro que é um dos co-produtores e Colateral).
Mas errou feio recentemente com Miami Vice. Ele fez aqui uma escolha polêmica, resolvendo rodar em HD Digital, depois passado para película. Isso explica muita coisa.
A maior parte do filme é em câmera na mão, acompanhando os personagens e sem situar direito a ação num determinado ambiente. De tal forma, que o ótimo elenco de apoio mal pode ser identificado, por isso acaba não tendo nem um close revelador e ainda por cima fica quase sempre no escuro.
O uso da textura do HD (que lembra vídeo) também provoca a lembrança de séries de televisão e telenovelas, inclusive havia momentos onde achei que estava vendo a série de reality Cops.
É uma pena também que a câmera sempre no vai e vem não se consiga ver uma das melhores coisas do filme, a excelente escolha de locações de época, em Chicago, Flórida ou Wisconsin.

Bem que ele podia ter aprendido muita coisa se visse de novo o melhor filme de gangster recente que é o Bonnie e Clyde de Arthur Penn, que retrata a mesma época de forma bem mais memorável.
A ação se passa em 1933 e retrata basicamente o último ano de vida do gangster e assaltante de bancos, seu último romance , fugas e feitos.
Tive um problema com o Christian Bale fazendo Melvin Purvis porque especialmente de chapéu ele fica por demais parecido com o ex-presidente Collor, nos trazendo más lembranças.
De qualquer forma é sua interpretação mais inexpressiva junto com o elenco que, coitado, não tem a menor chance de brilhar. Isso quando são reconhecidos.
A cópia não tem o brilho do digital, mas tem sua nitidez (por exemplo vemos todos os poros da dupla central).
Acerta por outro lado a trilha musical, com aparição rápida de Diana Krall cantando a música tema (Bye Bye, Blackbird) e várias intervenções sonoras de Billie Holliday.
Desta vez Johnny Depp não tem maiores chances de criar um tipo bizarro. Não entendi por que aparece mais velho, já está com 46 e pela primeira vez aparenta (quando devia justamente ter feito o oposto).
Também não é um personagem que lhe dê mais oportunidades. Recebido com críticas divididas e bilheteria mediana nos EUA, Inimigos é um daqueles possíveis candidatos ao Oscar que decepciona.
Não é ruim, dá para ver. Mas nada acrescenta. Sem extras.
A Festa da Menina Morta **** The Dead Girls´Feast
Áud: Port. Leg: Port, Esp, Ing, Frances. Drama. Widescreen. 110 min. Cor. 2008. Brasil. Imovision. 18 anos.Rental.
Diretor: Matheus Nachtergaele. Elenco: Daniel de Oliveira, Jackson Antunes, Cássia Kiss, Paulo José, Dira Paes, Ednelda Sahdo, Juliano Cazarré, conceição Camarotti.
Sinopse: Santinho é um rapaz que é líder espiritual de uma comunidade ribeirinha do Alto Amazonas ao realizar um “milagre” após o suicídio de sua própria mãe. Na festa da menina morta, ele entra em crise.
Comentários: Exibido em Cannes 08, no Un Certain Regard, da Mostra oficial do Festival de Cannes, provocou certo escândalo, seguido por diversas premiações em festivais nacionais.
Este é o primeiro longa-metragem do excelente ator Matheus Nachtergaele, que também escreveu o argumento e o roteiro (junto de Hilton Lacerda) do que é uma história original e de grande impacto.
Evidente que não é um filme fácil. Nem pretende ser.

Passa-se na Amazônia, numa cidadezinha a beira de um rio, não identificada.
Ali, há 20 anos morreu uma criança, aparentemente vítima de um bicho (seria estupro?) do qual se acharam apenas as roupas agora conservadas e veneradas, sob os cuidados de um rapaz que tem mediunidade e que todo mundo chama de Santinho (Daniel).
Ele tem uma figura andrógina, é mimado, resguardado, mas não tem paciência e vive tendo ataques de nervos, dando “pitis”. Sente-se diferente, mas também infeliz e não consegue se entender ou explicar nada.
É cercado pelo que parece ser a família, que lhe prestam serviços como cambonos (o filme faz questão de não definir a religião, não como poderia ser umbanda, é um culto regional, prestigiado por um padre local feito por Paulo José).
Fala-se também de uma mãe que sumiu faz tempo, mas tudo é realizado em cima de uma festa que irá se realizar no dia seguinte, que tem procissão, show, benção do Santinho e tudo para lembrar a menina morta que suponho ser milagrosa.
É porque aos poucos vamos mergulhando num universo muito particular, levados pelo olhar do diretor. Nada de planos convencionais, nem mesmo de câmera na mão perseguindo atores.
Não é fácil detectar influências. Com enquadramentos singelos, por vezes mostra-se só rio para depois revelar duas pessoas conversando, uma moça do lugar (outra aparição excelente ainda que pequena de Dira Paes e um parente do Santinho, que como todo mundo ali bebe demais, e que não acredita em milagres. Nem em santidade).
Lentamente, mas sem procurar chocar, desde a primeira cena, já se sabe que o rapaz , Santinho, dorme na mesma cama com o pai (Jackson Antunes), o que seria comum em famílias humildes.
Mas fica evidente que os dois fazem sexo, incesto, numa cena posterior, durante uma chuvarada e bastante forte (ainda que não explícita ou vulgar).
O que contribui mais ainda para a densidade do protagonista, um novo trabalho excelente do Daniel Oliveira, um mestre de composições.

Não é um galã convencional, constrói tipos, caracteres, figuras fora do comum. E com absoluta precisão, delicadeza, fragilidade.
Não que o mistério seja decifrado. Não quero revelar nada, mas na noite da festa acontece uma coisa surpreendente, que pode ou não ser verdade, talvez seja apenas uma alucinação, talvez seja real.
De qualquer forma, tem uma consequência muito grande em Santinho, levando também a uma conclusão ambígua. Ou nem tanto.
O fato é que o filme com seus mistérios e analogias tem um enorme impacto. Em parte porque ao contrário de muitas produções feitas no interior, todo o elenco - inclusive figurantes - é perfeito.
Ator geralmente dá bom diretor, melhor do que antes desenvolviam funções técnicas, simplesmente porque entendem do processo de trabalho dos colegas e Matheus não nega isso.
Todo mundo, mesmo as senhoras que desconhecemos o nome, estão ótimos (e a experiente em cinema e talentosa Cássia Kiss, nunca esteve melhor).
Destaque também para a ótima fotografia de Lula Carvalho, filho do mestre Walter Carvalho e que fez também o Feliz Natal de Selton Mello, num tom completamente diferente.
Está claro que eu gostei muito do filme, mas tenho que informar que ele pode chocar, assustar mesmo e aborrecer alguns. O que também é uma forma legítima de se reagir a um filme perturbador.Trailers.
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