7 novembro 2009 às 13:07
Perdemos Anselmo Duarte

Tomara que Anselmo Duarte tenha tido a consagração merecida antes de falecer. Seu caso lembra um pouco o de Simonal ainda que menos dramático.
É simplesmente um caso de ingratidão, de falta de solidariedade, de amizade, de espírito de grupo.
Quando ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1962, sabidamente a única vez que aconteceu isso até hoje com um filme brasileiro, Anselmo Duarte foi rejeitado pela comunidade do cinema brasileiro.
Porque era galã, veio da Chanchada carioca, da Vera Cruz (um caso raro de alguém que estava nas duas vertentes) e não estava inscrito na turma do Cinema Novo.
Nem a imprensa, nem os colegas o reconheceram como o grande cineasta que era.
Uma mágoa que ele nunca conseguiu superar e que parece ter sido a causa de não ter tido a carreira que deveria.
Na época eu era ainda novo e não tenho essa culpa , nunca entendi por que não admitiam que O Pagador de Promessas é um grande filme, porque Absolutamente Certo é uma comédia deliciosa e Vereda da Salvação uma brilhante adaptação para cinema de um texto de Jorge Andrade (que não permitiu mais modificações no texto).
E custei a entender por que de certa forma Anselmo chutou o pau da barraca. Dali em diante se dedicou a filmes comerciais e mesmo assim sem especial empenho ou resultado.

Por que o brasileiro tem dificuldade de aceitar o sucesso alheio? Ou será o ser humano em geral?
Por que não admirar, ficar feliz, comemorar o feito de um parceiro (de reconhecido valor, que fez uma carreira honesta, esforçada, galgando passo a passo, sempre aprendendo?).
Houve momento em que cheguei a aventar a hipótese de uma maldição de Cannes. Os três diretores premiados por lá, os outros Lima Barreto e Glauber Rocha, também tiveram por razões diferentes suas carreiras truncadas.
Claro que ele não gostou disso. Mas talvez não estivéssemos é preparados para uma consagração internacional, já que esta nova geração passou por isso e felizmente está muito bem.
Falo de falo de Walter Salles, Fernando Meirelles, Hector Babenco.
Fiz o que pude para corrigir a injustiça. Quando criamos na Imprensa Oficial, a Coleção Aplauso, Anselmo estava logo na primeira lista de biografados (e o livro foi feito pelo Luiz Carlos Merten).
Foi na festa na Sala São Paulo e pareceu que ele ficou feliz.
De qualquer maneira, estávamos dizendo que admirávamos Anselmo, tentamos reconhecer em vida seu talento, sua luta, seu trabalho, sua carreira.
Esta é a biografia de Anselmo conforme meu Dicionário de Cineastas.
Anselmo Duarte
(1920- 2009 ). Foi o maior galã do cinema brasileiro em sua época, depois diretor do único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Nascido em Salto, estado de São Paulo, foi para o Rio nos anos 1940, onde depois de pequena aparição em Inconfidência Mineira de Carmen Santos, virou astro com Querida Suzana, de Pieralisi.
Assim, passou como galã pela Atlântida carioca (Carnaval no Fogo, Aviso aos Navegantes) e a Vera Cruz paulista onde foi contratado no começo dos anos 1950 (Tico Tico no Fubá, Apassionata,Veneno).
Foi co-produtor e ator em Depois Eu Conto (de José Carlos Burle). Mas seu sonho era ser diretor e aprendeu muito com Watson Macedo, escrevendo argumentos e roteiros.
Dirigiu o curta Fazendo Cinema durante as filmagens de Arara Vermelha (de Tom Payne) no qual participou como ator.
Estreou com uma promi ssora comédia com Dercy Gonçalves, Absolutamente Certo (1957) e já no segundo filme, O Pagador de Promessas, baseado em peça de Dias Gomes conseguiu a Palma em 1962 e a consagração internacional (poucos lembram que a fita era co-produção portuguesa e foi rodada simultaneamente em outra versão, com outro elenco, ao menos parcialmente).
Ainda fez outro filme ambicioso, Vereda da Salvação (1965) baseado em peça de Jorge de Andrade. Mas depois dirigiu apenas fitas comerciais duvidosas e voltou a trabalhar como ator.
Foi casado com a estrela Ilka Soares (1932). Um dos casos mais trágicos da história do nosso cinema.
Nosso maior galã conseguiu, em seu segundo filme como diretor, ganhar um dos prêmios mais importantes do mundo, logo a Palma de Ouro do Festival de Cannes, indiscutivelmente o festival mais importante do mundo.
Com uma fita realmente emocionante, de grande qualidade, que chegou também a finalista do Oscar.
Mas que no Brasil, é descartada pela grande imprensa. Pior que isso, o nascente movimento do Cinema Novo rejeitou Anselmo e desprezou seu feito.
Amargurado, ele tentou de novo com um filme mais ambicioso, mais polêmico, Vereda da Salvação, que mesmo prejudicado pelas restrições do autor do texto Jorge Andrade que impediu mudanças, resultou de grande força e dignidade.
Mas a fita fracassou injustamente no exterior e ainda mais aqui. Anselmo desistiu então de vez, passou a aceitar qualquer oferta de trabalho e não realizou um filme nem sequer razoável.
Nem tentou mesmo um trabalho no exterior.Preferiu o refúgio de uma chácara em sua terra natal, perto de Itu.
E foi assim que o Brasil perdeu um grande cineasta e uma grande chance de ter outros filmes da estatura de um O Pagador de Promessas.
Como Ator: 1942 – It’s All True (inacabado). 1947 – Querida Suzana. Pinguinho de Gente. Não me digas Adeus. 1948 – Inconfidência Mineira. Terra Violenta. A Sombra da Outra. 1949 – O Caçula do Barulho. Carnaval no Fogo. 1950 – Aviso aos Navegantes. 1951 – Maior que o Ódio. 1952 –Tico-Tico no Fubá. 1953 – Sinhá Moça. Apassionata. Veneno. 1955 – Carnaval em Marte. Sinfonia Carioca. O Diamante. 1956 – Depois Eu Conto. 1957 – Arara Vermelha. Absolutamente Certo. Senhora (inacabado). 1958 – O Cantor e o Milionário. 1959 – Um Raio de Luz (na Espanha). 1960 – As Púpilas do Senhor Reitor (em Portugal). 1957 – O Caso dos Irmãos Naves. 1968 – Juventude e Ternura. Madona de Cedro. 1972 – Independência ou Morte. 1974 – O Marginal. 1975 – Assim era Atlântida. A Casa das Tentações. 1976 – Paranóia. Já não se faz Amor como Antigamente. 1984 – Tensão no Rio. 1986 – Brasa Adormecida.
Como Diretor: 1957 – Fazendo Cinema (Doc.). Absolutamente Certo (Anselmo Duarte, Dercy Gonçalves). 1962 – O Pagador de Promessas (Leonardo Vilar, Glória Menezes). 1965 – Vereda da Salvação (Stenio Garcia, Raul Cortez). 1969 – Quelé do Pajeú (Tarcísio Meira, Rossana Ghessa). 1970 – O Impossível Acontece (3° epis. O Reimplante. Wilza Carla, Tião Macalé). Um Certo Capitão Rodrigo (Francisco de Franco, Elza de Castro). 1973 – O Descarte (Ronnie Von, Glória Menezes). 1975 – Já Não Se faz Amor como Antigamente (1° epis. Oh! Dúvida Cruel. John Herbert, Laura Cardoso). Ninguém Segura Essas Mulheres (1° epis. Marido que Volta deve Avisar. Milton Moraes, Betty Saddy). 1977 – O Crime do Zé Bigorna (Lima Duarte, Jofre Soares). 1980 – Os Trombadinhas (Pelé, Paulo Goulart).
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