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23 novembro 2009 às 10:35

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Dzi Croquettes : os prêmios são merecidos

Sem dúvida, é o documentário do ano. Ganhou na categoria dois prêmios no Festival do Rio, três na Mostra de São Paulo mas só consegui assisti-lo agora no Festival Mix da Diversidade Sexual.

E foi mais uma merecida consagração. Dzi Croquettes, o filme, foi feito por Tatiana Issa. Ela não gosta que a gente relembre, mas foi a Ceci do filme O Guarani de Norma Bengell, que é mal falado por outras razões -  não por ela -  e por Raphael Alvarez.

Como eles confessam, orçamento zero e um resultado espantoso, comovente e de grande importância histórica.

Ao final, a plateia inteira estava chorando, eu inclusive, em parte de vergonha de não sabermos até agora a história de um grupo teatral de notável importância que a história deixou de registrar e que a dupla finalmente resgatou.

Um flash-back pessoal

Eu estava há pouco em São Paulo trabalhando no Jornal da Tarde, quando fui convidado para ver a primeira apresentação desse grupo chamado Dzi Croquettes que havia estourado no Rio.

Lembro-me que foi na boate Tom Tom (Macoute) na Nestor Pestana, que estava muito lotada. Fiquei impressionado com a qualidade da dança e a vitalidade do elenco. Mas sucedeu uma coisa muito estranha, eu bloqueei as memórias.

Tenho um único flash da apresentação. Nada importante e depois não me lembro de nunca mais tê-los vistos num palco, nem sequer ter me manifestado sobre o assunto.

Agora um pouco surpreso que percebo que devo ter bloqueado tudo, num processo qualquer de defesa (afinal grande parte de minha infância é bloqueada e nada me lembro).

Certamente porque fiquei afetado e impressionado. Mas talvez por ser perigoso, ou diferente, afastei da cabeça.

O filme

dzi croquettes mostra 2 Dzi Croquettes : os prêmios  são merecidos

Por isso, o filme me foi tão importante. Em parte, porque Tatiana tenha feito também uma viagem pessoal.

É, antes de tudo, uma busca ao passado/tempo perdido, já que o pai dela trabalhava com o grupo e ela tem lembranças e imagens dela pequenina vestida com as roupas deles.

Ou seja, não é só sua pesquisa histórica mas também sentimental, muito bonito (um recurso não exatamente novo, Denise Dummont o utiliza também em seu documentário sobre o pai que esta estreando em breve).

Mas é feita com tanta delicadeza que não há como não nos afetar.

É impressionante como há pouco registro da história dos Croquettes. Eu mesmo tentei produzir um livro sobre eles para a Coleção Aplauso logo no começo do processo e esbarramos na falta de material e dificuldades variadas.

Os diretores tiveram a sorte de encontrar o único registro que existe da troupe se apresentando num show, no caso em Paris, feito por uma equipe alemã.

Aqui no Brasil, ninguém fez isso, também porque foi antes do advento das câmeras portáteis  de vídeo.

Isso e mais alguma coisa da Globo, de Norma, fotos e principalmente entrevistas longas e completas com os sobreviventes (eles eram 13 dos quais apenas 5 sobraram, três deles brutalmente assassinados em assaltos inacreditáveis e os outros vítimas da Aids.

Fossem amigos ou pessoas que foram influenciados por eles (e a  lista é incrível, traz depoimentos de Marilia Pêra, Ney Matogrosso, Pedro Cardoso, Claudia Raia, Miguel Falabella, as moças das Frenéticas (que sofreram influência direta deles), Nelson Motta, Miele e certamente alguns que me esqueço agora.

Aos poucos, através dos depoimentos, vai  se reconstituindo a trajetória deles, sempre muito sincera, sem censura, sempre muito carinhosos.

O nome veio mesmo de uma versão brasileira de um grupo americano que se chamava The Cockquettes, virando o brasileiro Dzi (ou seja The mal falado), Croquettes (que é uma coisa muito nacional).

Há especial destaque para a presença de Lennie Dale, que foi um dos principais mentores e uma figura controvertida e fulgurante, que está merecendo um filme a parte.

Quem podia fazê-lo era sua grande amiga Betty Faria, já que ele tem notável contribuição a música brasileira (criou, por exemplo, a coreografia para dançar a bossa nova).

Ele teve uma vida incrível (vindo da Broadway se apaixonou pelo Brasil, foi atropelado por ônibus, foi preso por usar maconha, mas durante o ano que ficou na cadeia foi o rei da festa no presídio).

Sem falar em drogas (que foram uma das causas do fim do grupo).

Como sei que ninguém lê texto longo em internet, melhor concluir.

Bom lembrar que o filme tem uma entrevista longa com a madrinha do grupo, Liza Minnelli (foi ela quem os salvou em Paris, levando amigos VIPs e assim tornando-os a coqueluche da cidade. Tudo confirmando a pessoa fofa que Liza sempre foi).

E  resgata um grupo fundamental para o teatro brasileiro (o pessoal do Besteirol assume que foi influenciado pelos Croquettes) e que tem sido absurdamente pouco lembrado.

O ótimo filme de Tatiana e Raphael começa a corrigir a falha. Espero que o livro que estamos com Cláudio Tovar para a Aplauso venha a vingar.

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