10 dezembro 2009 às 06:00
Tropa de Elite na Record
Não há dúvida que Tropa de Elite é um dos filmes mais importantes da história recente do cinema brasileiro, não apenas pelas circunstâncias do seu lançamento, mas também pela consagração inesperada no Festival de Berlim, quando levou o Urso de Ouro em 2008.
Foi um prêmio muito polêmico e não chegou a ajudar o lançamento do filme no exterior, onde em geral, passou em festivais. Já nos EUA, saiu direto em DVD em outubro de 2008, por decisão da co-produtora Weinstein.
Deve ter agora uma merecida e renovada repercussão quando será exibido pela Rede Record, hoje às 22h30h.
Tropa de Elite confirmou o talento do diretor José Padilha, que tinha feito antes o ótimo documentário Ônibus 174 e depois outro documentário polêmico, Garapa.
Consagrou Wagner Moura como protagonista, o capitão Nascimento da Tropa de Elite da Policia Militar que em 1997 fez a proteção do Papa em sua visita às favelas.

Sem dúvida, é o melhor filme brasileiro do gênero desde Cidade de Deus.
E demonstra uma coisa muito importante: que um filme brasileiro pode ser um evento excepcional que provoca discussões, levanta polêmicas e abala literalmente se não um país, ao menos um estado, no caso o do Rio de Janeiro.
Todo mundo se lembra da história de seu lançamento precipitado. Os originais do filme foram pirateados de um estúdio onde se fazia legendagem e fartamente distribuídos pelas ruas primeiro no Rio de Janeiro e depois em todo o Brasil.
Calcula-se, que no mínimo 10 milhões de pessoas tenham visto o filme carioca naquele momento. E o mais interessante é que praticamente todos gostaram muito, criando um excelente boca a boca. Era um caso também único no mundo, que depois sucederia com o Wolverine.
Finalmente isso fez o produtor se apressar e lançar nos cinemas uma cópia finalizada, que mesmo com a pirataria, teve uma boa carreira nas salas, chegando por volta de dois milhões de espectadores.
Na época parecia que Tropa de Elite era, antes de tudo, um fenômeno carioca. E para os que não moram lá, não chegava a ter o mesmo impacto.
Nem a marca da caveirona, nem o comportamento de certos personagens, como a dos estudantes universitários que, com a desculpa de que vão ajudar em ONGs nas favelas, acabam consumindo drogas e até mesmo virando traficantes.

Nem mesmo a mitologia dos morros, que conhecemos mais por noticiário de tevê do que pelo dia a dia, como sucede com qualquer carioca, que infelizmente já se acostumou a conviver com aquilo. Eles não se impressionam mais com quase nada.
Ou seja, nós de fora não compreendemos todas as referências ou implicações e sutilezas. Mas a verdade é que desde então, a violência só cresceu e se generalizou, hoje é realidade em todo o Brasil, não só um “privilégio” carioca.
Basicamente, o filme, baseado no livro "Elite da Tropa", usa como narrador o capitão que vai deixar o cargo. Ele se comporta como estressado e cansado daquilo tudo.
Apesar do texto falado em off ser inteligente, ele acaba dando ao filme um tom episódico, dividindo-o em blocos e às vezes até com gancho, já que o herói sempre faz algum comentário prevendo o que vem a seguir.
O que o deixa um pouco parecido com episódio de série americana, em que também a situação de policiais corruptos não é novidade.
Depois se soube que esse texto foi escrito pelo próprio diretor e não pelo roteirista Bráulio Mantovani.
Diziam, na ocasião, que os Weinstein, co-produtores do filme, iriam redublá-lo, porque os americanos nunca aceitariam como herói um torturador de moral discutível e o substituiriam pelo André Matias (André Ramiro).
Caso o fizessem, seria uma besteira e um erro, só prejudicaria o filme. Até porque, o trabalho de Wagner surpreendeu a própria produção, que foi interrompida e refeita quando se percebeu que ele é que era a figura dominante da história.
Só nessa revisão é que se tornou narrador e protagonista, uma decisão acertada, tanto que suas frases e expressões até hoje são imitadas.

Wagner Moura no filme Tropa de Elite
O fato é que o filme mostra o reverso da medalha, narrando a marginalidade agora pelo lado da polícia, que também é povo, saídos da classe média pobre. Sua moral faz todo o sentido pra mim: não existiriam traficante se não houvesse consumidor.
Cansou de sofrer as consequências do tráfico? É simples: deixe de consumir drogas. Houve até aqueles que propuseram a descriminalização das drogas, mas me parece algo impossível e prematuro para acontecer.
Pode ser pior a emenda que o soneto. Seria um filme a favor da polícia?
Nesse caso, porque tantos se aborreceram com as violentas críticas que são feitas a todo o sistema, não apenas à corrupção que é lugar comum e generalizada, mas principalmente à sua ineficiência, péssima administração e liderança.
Muito bem contado, o filme nem chega a ser especialmente violento. O que choca são os absurdos apresentados como corriqueiros, a frieza com que se mata e morre, a desfaçatez de um sistema corrompido e hipócrita.
Tudo com humor, ritmo, brilhante edição e diálogos convincentes. Sem falar no elenco de qualidade e o show de Wagner, que naquele momento também estava como vilão na telenovela Paraíso Tropical e desde então resolveu dar um tempo, interpretando Hamlet.
O público gosta muito de Tropa de Elite apesar de reclamações de intelectuais e consumidores de maconha (que ficaram mal na parada).
Outras considerações provocadas por Tropa de Elite
1- Como filme, Tropa de Elite, é de primeira linha. Embora o diretor José Padilha só tivesse feito antes um documentário (por sinal excelente, que foi Ônibus 174, em 2002), ele demonstra aqui um excepcional domínio do seu métier.
Sabe contar uma história, dirigir atores (certamente foram também bem preparados), encenar momentos de ação e não tem problemas em experimentar e ouvir os outros.
É corajoso e brilhante. Veja que curioso: o livro que existe foi feito depois do filme e não antes, o roteiro original é de Padilha e Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani o mesmo de Cidade de Deus só entrou num segundo momento.

Não votei nele para representar o Brasil como filme estrangeiro, porque simplesmente não é indicado para um júri de velhos veteranos que odeiam violência e recusaram antes Cidade de Deus e Carandiru.
Estava certo porque ele não teve a esperada repercussão internacional, já que era pouco claro para estrangeiros e teve ainda os que o acharam fascista.
Conversando com Bráulio, que não conhecia antes e me impressionou pela simplicidade e despretensão, além de respeitá-lo pelo óbvio talento, fiquei sabendo de alguns detalhes.
O mais interessante é que o filme originalmente era narrado pelo personagem do sucessor André Matias (que por sua vez é feito pelo ator André Ramiro).
Acontece que Wagner Moura roubou o filme e mudou todo o enfoque. Ao verem uma montagem inicial, eles perceberam isso e mudaram tudo, a história passou a ser contada pelo Capitão Nascimento.
Bráulio não escreveu o texto final da narração, que acha um pouco longa - eu também faço reparos a ela, que, de tão repetitiva, acaba dando ao filme um amor de série de tevê.
De qualquer forma, foi por isso que o filme atrasou um pouco, teve retakes e ajustes.
2- Bráulio confirma que não há qualquer lógica ou verdade num boato que tenho ouvido faz tempo, muito maldoso, de que os próprios realizadores teriam vazado a cópia do filme para os piratas, de forma que o filme fosse visto de qualquer maneira.
Parece ser uma teoria de conspiração ou mesmo um reflexo daquela coisa bem brasileira que detesta que as pessoas façam sucesso.
O fato é que qualquer um que fizesse isso teria que ser muito maluco ou delirante, porque nada fazia prever tal êxito.
Sabia-se que o filme teria alguma repercussão ao atacar diretamente a polícia, e estranhamente a Igreja Católica não se manifestou, ainda que seja tudo causado pela visita do Papa.
3- O filme tinha uma cara muito carioca, já que há situações que só eles entendem. O sinal da caveira é uma coisa que eu nunca tinha visto antes e não significava muito para mim. Mas faz parte do cotidiano deles.
O filme, ao contar a história dos traficantes, adota o ponto de vista da polícia, no caso de elite. Não se esconde nada, nem mesmo que usam tortura abertamente, nem métodos ilegais e que a grande parte deles é corruptos, que a organização por vezes é uma bagunça.
Não se faz o louvor, nem que estão certos. Mas, estranhamente, foi assim que o público o consumiu, achando que finalmente eram heróis.
O capitão no máximo é anti- herói, respondendo a necessidade de justiça e tranquilidade, que se perdeu faz tempo. Então, é preciso não confundir o que o filme mostra, com a leitura (errada) que foi feita dele.
4- O que é estranho, mesmo depois de ter sido visto por tanta gente em casa, pagando nada para os produtores. Sinal de que, realmente, o povo, classe C para baixo, não vai ao cinema simplesmente porque é muito caro, e continua subindo, ou seja, são dois públicos diferentes.
E as classes AB, ainda que possam baixar o filme na Internet, o que deve ter sido feito pelo filho adolescente, prefere ver em uma sala de cinema ou depois em DVD, numa cópia de qualidade com boa imagem e bom som.
Nunca sucedeu algo assim antes no mundo.
5- O impacto de Tropa de Elite é muito forte (afinal o filme termina com um tiro na cara da gente) e Weinstein queria um final mais positivo, com gente sendo presa ou arrependida ou algo assim.

Tenho certeza que grande parte da repercussão foi por causa de apresentar a tese da polícia de que todo o tráfico e delinquência poderia ser evitado ou ao menos reduzido caso não houvesse o consumidor.
Que a culpa seria da classe média, que sobe o morro para comprar maconha ou pó. Ou seja, se você consome drogas, não pode reclamar se a violência o atingir.
É uma ideia simplista, sem dúvida. O buraco é mais embaixo e vem também das desigualdades sociais e tudo o mais, inclusive a hipocrisia.
Mas é por falar nisso tão claramente que deve ter tido também as acusações de ser fascista, o que é - logicamente - um completo absurdo. O filme é uma denúncia, uma acusação. E dos mais fortes que se viu numa tela.
6- Mas como ficamos agora? Os piratas anunciaram mentirosas e falsas Tropas de Elites 2,3 e 4 (que são filmes do mesmo tema de origens diferentes) e a vida continua.
A pirataria chegou a ser um pouco combatida, mas não melhorou muito.
Ao menos, ficamos conscientes de que o cinema ainda tem o poder de incomodar, perturbar e até mesmo modificar a sociedade de qualquer preconceito contra o cinema brasileiro, o que não tem cabimento.
Somos competentes e talentosos e podemos fazer filmes que mexem com a nação, como Tropa de Elite. Ainda que de forma não convencional.
Que isso tudo seja de base para debates, reflexões, discussões , não apenas sobre o conteúdo, mas sobre o filme, o sistema de distribuição e exibição, o que pode ser modificado e melhorado.
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