8 janeiro 2010 às 06:30
Sherlock Holmes
Sherlock Holmes (idem). EUA/Ing, 09 Warner. Direção de Guy Ritchie. Com Robert Downey Jr, Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong, Eddie Marsan, Geraldine James, Kelly Reilly, Robert Maillet, James Fox. 128 min.
Um dia desses, eu assisti ao filme dirigido por Madonna, Filthy and Wisdom, 2008, e fiquei com a pior impressão. É bobo, mal realizado, desagradável, sem nenhuma das qualidades do ídolo pop. Quem deve ter ficado satisfeito é seu ex-marido Guy Ritchie ao constatar que a cantora não é tudo aquilo que ela pensa ser, que pode mandar em muita coisa, mas, de cinema, ela não entende. É bem provável que isso tenha influenciado o divórcio do casal, que não demorou muito a vir depois da estréia do filme (acho que ele nunca a perdoou por ter embarcado nele no pior momento de sua carreira, quando fizeram juntos aquele desastre que foi Destino Insólito, 2002).
Mas vamos ao que interessa. O ex-senhor Madonna acabou de dar a volta por cima, confirmando seu talento de realizador, nunca negado com o sucesso internacional e americano de sua versão de Sherlock Holmes.
Ritchie criou um tipo de aventura policial tipicamente cockney, ou seja, londrina, muito editada, cheia de truques de narrativa, numa série de filmes que sempre funcionou e criou escola: Jogos Trapaças e Dois Canos fumegantes, 98, foi o primeiro, seguido por Snatch - Porcos e Diamantes, de onde vem sua amizade com Brad Pitt (que faria Moriarty), e os de menor impacto, Revolver, Suspect e RocknRolla – A Grande Roubada (08).
Espertamente, ele percebeu que precisava mudar e deu origem a essa enésima adaptação do personagem de Conan Doyle, o detetive mais famoso do mundo Sherlock Holmes, que teria vivido em Baker Street, onde existe mesmo um museu dele, embora seja ficção. Acontece que a obra já caiu em domínio público no começo dos anos 70, e muitos fizeram sua versão do herói e seu parceiro Dr. Watson, inclusive, o mais ousado foi Billy Wilder em A Vida intima de Sherlock Holmes (70). Pena que não foi de seus melhores filmes, mas já então ele brincou com vários tabus que Ritchie retoma aqui.
Ele teve a sorte de contar com Robert Downey Jr, indicado ao Globo de Ouro, agora no auge da popularidade depois de Iron Man. Sem dúvida carismático, ele deixa subtextos. Por exemplo, nem é preciso dizer que Holmes cheirava cocaína (olhando para Downey, a gente já sabe disso!).
Embora não tenha tido a coragem de levar adiante o que é apenas sugerido devido ao ciúme, a possibilidade de Holmes, como bom inglês, é ser também homossexual. A ousadia se limita mais a mudar o figurino tradicional do personagem e baixar a idade do Dr. Watson, que ficou menos confuso e mais bonito, feito pelo sempre subestimado Jude Law. Não chega a ser perfeito (tem problemas de ritmo e traz muita informação para o público casual desacostumado a pensar), mas Downey trabalha muito bem com Law.
A trilha musical ajuda e há grandes sacadas, como logo no começo, quando ele está participando de uma luta e faz cálculos perfeitos para ver como melhor acabar com o adversário (o mesmo recurso volta outra vez, mas é abandonado ao final, quando já seria esperado). Mesmo assim, o ritmo derrapa, de vez em quando a atenção se dispersa. Talvez por causa da maior falha: Rachel McAdams como o único amor de Holmes, um personagem marcante na obra de Doyle e que exigiria uma atriz mais sedutora na linha de Cate Blanchett ou Charlize Theron. Ela não é ruim, só não tem o peso exigido por um personagem tão forte e marcante.
O feito de ter tornado sucesso um personagem tão antigo não é pequeno porque atualmente tudo que é “não atual”, e não vídeo game, tem sido rejeitado pelos jovens. Ainda mais quando está claro que teremos continuações (já se anuncia o inimigo fidagal de Holmes).
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