28 janeiro 2010 às 06:45
Nine, o show da Broadway
Para falar do show original que deu origem ao filme Nine, eu convidei meu amigo e especialista em Broadway, Cláudio, que me liberou o texto abaixo.
Por Claudio Erlichman
Nine é um nome estranho para um espetáculo musical, já que nine em inglês é literalmente nove, o número, mas isto tem uma explicação: o enredo baseia-se no famoso filme Fellini Oito e Meio (Otto e Mezzo, 1963), que, como o título em português já diz, é do famoso diretor italiano que sempre exerceu um enorme fascínio no compositor, letrista e arranjador Maury Yeston (Titanic, Grand Hotel).
E o maior fascínio vinha exatamente deste seu filme autobiográfico. Por coincidência, o show levou nove anos, desde a sua concepção até a estreia na Broadway, em 9 de maio, de 1982. O filme era uma obra-prima de alucinações e visões fantásticas como, aliás, era a especialidade de Fellini.
Nine foi outra obra de mestre do diretor-coreógrafo Tomy Tune, que produziu um show altamente estilizado e de surpreendente beleza visual. Tomy Tune montou um espetáculo com um elenco de 21 mulheres e apenas um homem adulto, o ator Raul Julia (1940-1994), conhecido no Brasil por suas atuações em O Beijo da Mulher Aranha (1985) e A Família Adams (1991). A música de Maury Yeston é muito romântica e perfeitamente adequada ao enredo.

A história de Nine focaliza as memórias de Guido Contini (Raul Julia), um famoso diretor de cinema, certamente o próprio Fellini, que interrompe um filme pela metade (daí o 8 e ½, ou seja, oito filmes completos e um pela metade). Atormentado, ele vai passar uma temporada de repouso, num momento de crise existencial, num spa, em Veneza.
Ali ele questiona suas relações conflitantes com a Igreja Católica e sua obsessão permanente pelas mulheres - como sua esposa Luisa (Karen Akers), sua amante Carla (Anita Morris), Claudia, (Shelly Burch) uma garota que é sua protegida, Liliane La Fleur (Liliane Montevecchi ), sua produtora cinematográfica, e ainda sua mãe (Taina Elg) - enquanto recarrega suas baterias psíquicas de forma a ser capaz de criar novamente, já que se sentia completamente bloqueado. Aqui Kathi Moss e o elenco original fazem o número Be Italian.
O musical é feito em forma de flashbacks da infância e juventude de Guido e apresenta também as imagens de sua imaginação. As visões essenciais do show são, primeiramente, o cenário de um banco branco brilhante, contrastando com as roupas pretas de todo o elenco, e o próprio elenco, integrado pelas 21 mulheres e apenas um homem.
A montagem do show é extremamente criativa, e Tomy Tune oferece momentos inesquecíveis como no número Folies Bergères, em que o famoso cabaré francês é mostrado numa visão impressionista.
Nine não foi um estrondoso sucesso de público como sempre acontece com os espetáculos musicais da Broadway, que são cenicamente muito inovadores. Porém a qualidade do show era tal que, além de obter praticamente uma unanimidade da crítica, foi consagrado com o Tony de Melhor Musical da temporada de 1982, ganhando a disputa com o excepcional Dreamgirls, de Michael Bennett.
Nine ganharia ainda, de um total de 12 indicações, os Tonys de Melhores Score (Yeston), Atriz Coadjuvante (para Liliane Montevecchi, que concorreu nesta categoria com Karen Akers e Anita Morris), Figurinos (William Ivey Long) e Direção (Tomy Tune).
Numa trágica coincidência, todos os três atores que interpretaram Guido na produção original da Broadway (Raul Julia, Bert Convy, e Sergio Franchi) morreram prematuramente, vítimas de câncer.

A remontagem de Nine estreou na Broadway em 10 de abril, de 2003, onde ficou por 283 apresentações, conquistando o Tony de Melhor Remontagem.
No elenco tivemos Antonio Banderas como Guido (cujo desempenho lhe deu uma indicação ao Tony), além de Mary Stuart Masterson (Luisa), Chita Rivera (Liliane), Jane Krakowski (Carla), que venceu o Tony de Atriz Coadjuvante, Laura Benanti (Claudia) e Mary Beth Peil (Mãe de Guido).
As substituições incluíram John Stamos como Guido, Eartha Kitt como Liliane, Rebecca Luker como Claudi, e Marni Nixon como a Mãe de Guido.
Em junho de 1992, Nine foi apresentado em forma de concerto, em Londres, com Jonathan Pryce, Elizabeth Sastre, Ann Crumb, Kate Copstick, e Liliane Montevecchi, com Elaine Paige interpretando Claudia.
Mais tarde, em 1996, uma produção em escala menor foi levada a Londres por três meses.
Entretanto o que dizem é que nenhuma destas produções se comparou àquela apresentada em Buenos Aires, em 1998.
Muito aclamada, conquistou vários Prêmios ACE (Asociación de Cronistas del Espectáculo de la Argentina), tendo no elenco Juan Darthes como Guido, além de Elena Roger, Ligia Piro, Luz Kerz, Sandra Ballesteros e Mirta Wons.
A produção japonesa de Nine estreou em Tóquio, em 2005, com Tetsuya Bessho como Guido Contini e Mizuki Ōura como Liliane La Fleur.
Os direitos para uma montagem brasileira já foram adquiridos e terá a assinatura da dupla Claudio Botelho e Charles Möeller.

A versão para o cinema (assista ao trailer), que está estreando no Brasil nesta sexta-feira, era para ter sido estrelada por Javier Barden, que caiu fora do projeto, alegando exaustão.
Em seu lugar, entrou o igualmente vencedor do Oscar Daniel Day-Lewis (Guido), e as oscarizadas Judi Dench (Lili), Nicole Kidman (Claudia Jenssen), Marion Cotillard (Luisa), Penélope Cruz (Carla Albanese), Sophia Loren (Mamma), a vencedora do Globo de Ouro Kate Hudson (Stephanie) e a vencedora do Grammy Fergie (Saraghina).
Daniel e este incrível elenco feminino foram dirigidos por Rob Marshal (Chicago), e o filme não teve uma recepção unânime da crítica, o que pode comprometer o seu então favoritismo ao Oscar (as indicações saem no próximo dia 2 de fevereiro). O fato de Nine ter sido indicado para cinco Globos de Ouro (inclusive Melhor Filme de Comédia ou Musical) e não ter ganhado nenhum, também não ajudará muito.
O que se fala em Hollywood é que o fato de Nine ter ficado de fora foi planejado pelos inimigos do produtor Weinstein, que fizeram de tudo para destruir o filme.
Como podemos conferir no CD, com a trilha sonora de Geffen Records, quase metade das canções do show original foi cortada. Porém, Maury Yeston compôs três músicas novas para o filme (pressupostamente para concorrer ao Oscar). Guarda la Luna é uma cantiga de ninar cantada por Sophia Loren.
Yeston fez essa música sob medida para a voz de Sophia e é baseada na música ‘Waltz from Nine’, do score da Broadway. Cinema Italiano é o número de Kate Hudson e tem um certo sentimento retro, com elementos pop dos anos 60, ilustrando como o cinema italiano era importante naquela época.
O número de Kate nas telas chega a lembrar sua mãe Goldie Hawn, na época em que era comediante/dançarina no programa de TV Rowan & Martin's Laugh-In. Take It All foi originalmente escrito para o trio Claudia, Carla e Luisa, mas, logo antes das filmagens, foi rearranjada como um solo para Luisa (Cotillard).
O CD vale, sobretudo, como uma curiosa oportunidade de ouvir tais estrelas cantando de própria voz. Um destaque especial para Madame Judi Dench em Folies Bergère, num perfeito sotaque francês, que você não diz que é ela. As duas faixas de Unusual Way também são ótimas.
A primeira, na belíssima voz de Nicole Kidman, requer só mais un po 'di anima, o que acontece na versão da faixa bônus, na voz do jovem cantor Griffith Frank, que faz uma linda releitura da música.
O CD ainda trás outras cinco faixas bônus com Fergie cantando Quando Quando Quando e Be Italian (Versão Club – exclusiva para o iTunes); Io Bacio, Tu Baci (na interpretação de The Noisettes); o remix de Cinema Italiano e um outro remix em versão Club (exclusiva para a loja de MP3 da Amazon).
Todos os outros três CDs de Nine disponíveis também são ótimos. O Original Broadway Cast, de 1982 (Columbia) nos traz um Raul Julia espirituoso em Guido’s Song’ e sedutor em Only You. Como a esposa dolorosi, Karen Akers é soberba, especialmente ao se resignar em My Husband Makes Movies e na furiosa Be On Your Own.
Anita Morris, como sua amante, ferve em A Call From the Vatican. Liliane Montevechi nos traz de volta todo um mundo antigo do entretenimento em Folies Bergères. Taina Elg, no papel da Mamma nos entrega uma adorável canção título. E Shelly Burch, como a musa Claudia, faz uma interpretação de Ununsual Way bem emotiva. Aqui cada canção brilha nas mãos do arranjador Jonathan Tunick. O CD ainda traz Yeston nas faixas bônus, interpretando três números do show.
Também excepcional é o CD que registra o London Concert Cast, de 1992 (BMG/TER), no qual temos Jonathan Pryce fazendo um Guido inteligente, probo e bem cantado. Com Elaine Paige (Claudia) e Ann Crumb (Luisa), espera-se muito daquilo que em inglês se chama de belting (uma espécie de berro do bem numa nota dramática – a money’ note – ou passagem onde este recurso é a única opção, e o público adora).
Se aqui não temos a leveza e a espirituosidade do CD anterior, temos uma clareza nas dicções, tão cristalinas, que faz dele melhor que o outro. Até mesmo a trava-língua Germans at the Spa é perfeitamente compreensível.
No Broadway Cast, de 2003 (PS Classics) podemos conferir o Guido muito sexy e bem atuado de Antonio Banderas. Nem mesmo seu forte sotaque chega a atrapalhar (confira aqui em Guido’s Song).
Mary Stuart Masterson apesar de parecer uma criancinha prosaica, nos canta um ‘Be On Your On’ poderoso. Jane Krakowski soa sexy, mas não tão maluquinha como deveria (aqui em A Call From the Vatican). Chita Rivera está divertida, principalmente no número Folies Bergères. E se a adorável Claudia de Laura Benanti carece de humor, por outro lado tem inteligência e habilidade.
O musical começa com Guido no centro do palco numa posição zen. Todas as mulheres da sua vida estão ao seu redor enquanto ele as rege como se fosse um maestro e elas os instrumentos (aqui num raro registro). Em seguida, levanta-se e as conduz numa coreografia silenciosa, iniciando uma sequência quase ininterrupta de música com diálogos ritmados pela permanente música de fundo.
O diretor Tomy Tune, muito em moda na época, sabe muito bem como é importante uma abertura de impacto, mas depois desta proeza de encenação, Nine mergulha numa certa mediocridade, causada pela fraqueza do libreto (de Arthur Kopit e Mario Fratti). Mas a crítica gostou de Nine, embora o musical não tenha sido um grande sucesso popular, com apenas 732 apresentações.
Entretanto, não há dúvidas de que foi uma montagem altamente imaginativa. E a beleza plástica do espetáculo fez com que Nine parecesse melhor do que realmente era. De qualquer forma, foi o show que estabeleceu definitivamente a reputação de Tomy Tune como diretor da Broadway.
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