28 janeiro 2010 às 06:00
Oito e Meio de Federico Fellini
Nine, que estreia amanhã (29) nos cinemas brasileiros, é inspirado no filme Oito e Meio (Otto e Mezzo), (1963) de Federico Fellini. Este texto faz parte do livro 100 Melhores Filmes do Século e demonstra minha admiração por esta obra-prima.
Fellini Oito e Meio (Otto e Mezzo, Itália, 1963).

Produzido por Angelo Rizzoli para a Cineriz. Direção de Federico Fellini. Roteiro de Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano e Brunello Rondi. Fotografia de Gianni Di Venanzo. Música de Nino Rota.
Elenco: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée, Sandra Milo, Madeleine Lebeau, Mario Pisu, Barbara Steele, Neil Robinson, Mino Doro, Mario Tarchetti, Eugene Walter, Caterina Boratto.
Preto e branco. 138 min. Disponível em DVD.
Sinopse: Um famoso cineasta entra em crise criativa, justamente quando está iniciando a filmagem de uma nova produção. Incapaz de se comunicar com os outros, se refugia em lembranças do passado ou delírios de sua imaginação.
Bastidores: Foi vencedor do Oscar de filme estrangeiro e figurino e do Grande Prêmio do Festival de Moscou. Foi homenageado por vários cineastas, que fizeram paráfrases mais ou menos explicitas, entre eles, Woody Allen (em Memórias/Stardust Memories, 1979; Bob Fosse (All that Jazz, O Show deve Continuar, 1979, Paul Mazursky (Um Doido Genial/Alex in Wonderland, 1970, onde o próprio Fellini fez ponta).
Também foi adaptado para um show da Broadway estrelado por Raul Julia (Nine). A fita é autobiográfica em todos os sentidos e apenas Mastroianni pode ler o roteiro completo (ele compôs seu personagens usando chapéu, capa, tudo parecido com o diretor). Foi rodado como Eu Confesso (o título veio porque Fellini havia estreado na direção co-dirigindo Mulheres e Luzes (Luci di Varietá, 50, com Alberto Lattuada).
Daí o Oito e Meio do título (que pode ou não ter o Fellini incluído, porque dali em diante todas suas fitas teriam o nome do autor incluído no título). Para viver Saraghina, foi escolhida uma cantora de ópera chamada Edra Gale (que faria até outras fitas) que ainda faria outros papéis.
Crítica: Talvez haja outros filmes de Fellini (1920-1993) igualmente memoráveis (e no livro, outro dele está incluído, Amarcord). Em particular, os que ele fez com sua mulher e musa Giulietta Masina (1920-1994).
A Estrada da Vida (La Strada,1954), por exemplo, onde ele transcendeu os limites da poesia na figura “chapliniana” de Gesolmina . Logo depois, ela esteve novamente sublime em As Noites de Cabiria (1957). Ou então, momentos isolados geniais, como a sequência inacreditável e cortada pela nossa censura do desfile de roupas eclesiásticas de Roma (72).
Mas se Federico Fellini era indiscutivelmente um gênio, sua obra-prima é esta fita ainda mais autobiográfica, a partir do próprio título.
Oito e Meio é a história de um cineasta famoso em crise, que acha que não tem mais nada a dizer. Fica enrolando o produtor, a equipe, a estrela Claudia Cardinale, todos esperando suas instruções enquanto mistura lembranças do passado e imagens de sua fantasia.
O filme foi notável por ter sido o primeiro a não explicar antes para o espectador o que está acontecendo. Passado, presente e imaginação podem estar convivendo no mesmo plano e tudo fica absolutamente claro.
Mas na época era extremamente ousado e original. O filme começa com um pesadelo, esplendidamente fotografado em preto e branco por Gianni di Venanzo (1920-66), que dali em diante se supera com contrastes fortes, chegando aos limites do que era possível naquele momento (infelizmente Venanzo morreu cedo de hepatite).
Como num delírio, o cineasta, feito por Marcello Mastroianni, imagina unir na mesma dança, a esposa Anouk Aimée – que tenta parecer Giulietta com a amante Sandra Milo (que diziam ser mesmo caso do diretor), ou manter um harém com todas as mulheres de sua vida que um dia resolvem se rebelar.
No elenco feminino, Fellini chamou algumas das mulheres mais interessantes do momento, inclusive a atriz de fitas de terror, Barbara Steele, a estrela dos anos 40 Caterina Borato, a estrelinha Hedy Vessel etc.
Tão seminal quanto Cidadão Kane, o filme foi também premonitório, Fellini realmente entrou em crise e o filme seguinte, A Viagem de Guido Mastorna, deixou inacabado conforme fazia o protagonista do filme. Longe de ser um filme fácil, Oito e Meio é uma fita que resiste a análises e interpretações, muito ajudada pela magnífica trilha musical de Nino Rota, o colaborador mais fecundo e importante na carreira do diretor.
A sequência final no circo na praia Fellini imaginou de última hora e por isso nem todo o elenco esteve presente.
Antes esse final era passado num trem, e apesar de filmado, não agradou ao diretor, mas reflete muito sua visão de mundo.
A vida é um circo, diz ele, e o único jeito de se continuar vivendo e nós todos nos darmos as mãos , nos aceitarmos e sairmos dançando de mãos dadas pelo picadeiro da vida.
Veja mais:
+ Estrelas de Nine
+ Discos Nine – (trilha musical do filme)
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