27 fevereiro 2010 às 06:00
Coluna de DVD – Lançamentos
A Lei do Desejo ****
La Ley del Deseo
Áud: Esp. Leg: Port. Drama. Standard.102 min. Cor. 1987. Espanha. Imovison. 18 anos.
Diretor: Pedro Almodóvar. Elenco: Antonio Banderas, Eusébio Poncela, Carmen Maura, Miguel Molina, Fernando Guillén, Bibi Andersen, German Cobos, Helga Liné.
Sinopse: Um famoso diretor de cinema é perseguido por um jovem fã, que mata o rival (que está trabalhando numa praia distante) e faz tudo por amor.
Comentários: Certamente o melhor filme da primeira fase do diretor (que faz uma aparição como um vendedor de loja) e o filme que o revelou no Brasil (onde ganhou prêmio no Festival do Rio). É também seu trabalho mais gay.
Na época, ele não tinha ainda o controle total da narrativa como hoje, preferindo um filme mais espontâneo, desigual, mas com grandes momentos. Também é o papel mais gay da carreira de Banderas, ainda bem jovem, que faz o fã psicótico que aborda o diretor (Subiela) e chega mesmo a matar um jovem rival (de quem o diretor gosta) para ficar com ele.
Outra figura marcante é Carmen Maura, atriz favorita de Almodóvar, que faz a irmã transexual do diretor, que se apresenta no teatro fazendo a peça do Cocteau. Menos engraçada do que outras de suas obras, traz o visual berrante que é sua marca e se assemelha um pouco com Matador. Mas o diretor não tinha problemas em chocar e chegar aos excessos.
Sobrevivendo com os Lobos ***
Survivre avec les Loups
Áud: Francês. Leg: Port, Fr. Drama. Widescreen. 115 min. Cor. 2007. França/Bélgica. Paramount.14 anos. .
Diretor: Vera Belmont. Elenco:Guy Bedos, Mathilde Goffart, YaelAbecassis, Michele Bernier, Benno Furmann, Anne –Marie Phillipe, Franck de la Personne.
Sinopse: Em Bruxelas, 1942, a menina Misha, de sete anos, fica sozinha quando os pais são mandados para campos de concentração, e ela tem que viver fugindo. Acaba por se refugiar na floresta, onde vive entre os lobos.
Comentários: Uma história real, bem contada e interpretada, sobre uma Menina Loba. Não é para crianças, tem problemas com uma trilha musical inadequada, uma estética de telefilme. Pena que foi comprometida depois do filme ter sido lançado, porque a autora do livro, Misha Defonseca, que escreveu Misha, a Memoire of the Holocaust Years, admitiu para um jornal belga, que grande parte da historia é falsa. “Não é a verdadeira realidade, mas a minha realidade. Para mim, às vezes é difícil diferenciar entre o que é real e meu mundo interno”. A diretora Belmont, que fez Marquise, terá longa carreira como produtora.
Bem-Vindo ****
Welcome
Áud:França. Leg: Port. Drama.Widescreen. 110 min. Cor. 2009. França. Imovision. 12 anos.
Diretor: Philippe Loiret. Elenco: Vincent Lindon, Audrey Dana,Firat Ayverdi, Derya Ayverdi, Thierry Godard.
Sinopse: Professor de natação francês é perseguido por ajudar um jovem emigrante curdo que sonha em atravessar o Canal da mancha a nado.
Comentários: Vencedor de dois prêmios na Mostra Paralela de Berlim,este é um drama francês (mas sem aquelas lentidões e “literatice” chata de costume). Um filme de denúncia estarrecedor, que toca em assunto polêmico e atual e que merecia mais debate e divulgação.
A imigração ilegal é um problema grave em toda Europa e a história se passa em Port de Calais, tradicional posto de passagem para a Inglaterra. Lá, a polícia francesa luta para impedir o tráfico de imigrantes, em geral árabes, que tentam se fixar na Inglaterra, viajando escondidos em caminhões de carga (eles usam sacos de plástico na cabeça para não denunciar sua presença pelo aumento de gás carbônico).
No caso do filme, é um rapaz de 17 anos, curdo (ou seja, minoria iraquiana) que deseja a todo custo chegar a Londres para encontrar sua namoradinha. E se possível, realizar o sonho de ser jogador de futebol do Manchester. Em sua primeira tentativa é preso, mas, como é menor, fica em liberdade. É quando entra na história, depois de 15 minutos, seu protagonista, feito por Vincent Lindon.
Simon, um professor de natação, que já foi campeão e que está em crise pelo fim do casamento (prestes a assinar papéis do divórcio). Acontece que o rapaz Bilal vai lhe pedir para ter aulas de natação (pagando) e assim realizar seu sonho de atravessar o Canal da Mancha nadando, mesmo consciente de todos os perigos. Meio para impressionar a ex-mulher, que é liberal, meio por solidão, Simon vai aos poucos ajudando o rapaz e aí, ficamos sabendo do fato espantoso.
Existe hoje na França uma lei que proíbe que alguém ajude de qualquer forma, mesmo dando comida, um imigrante ilegal. E quem o fizer será preso e certamente condenado. É uma lei desumana e absurda, fascista, sem dúvida. E extremamente cruel, que não esconde a gravidade do problema e as difíceis soluções.
O filme do ex-especialista em som, Philippe Loiret, não faz discursos: apenas relata os fatos de forma convincente e humana, com interpretações sinceras e naturais. E um final sem concessão. Não quer provocar choro, mas raciocínio, afinal o titulo é irônico. Procure assistir. Vale a pena.
Pelos meus Olhos ****
Te Doy mis Ojos
Aud: Esp. Leg: Port. Drama. Standard. 106 min. Cor. 2003. Espanha. Imovision. 14 anos.
Diretor: Iciar Bollain. Elenco: Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa Maria Sardá, Kiti Manver, Sergi Calleja.
Sinopse: Esposa cansada de apanhar do marido se refugia com o filho pequeno na casa da irmã.
Comentários: São muitos os filmes que tratam da violência contra as mulheres, vários deles telefilmes bastante rigorosos e sérios. Em geral, baseados em fatos reais e concluídos de forma trágica. Outras produções hollywoodianas (como Dormindo com o Inimigo, com Julia Roberts, Nunca Mais, com Jennifer Lopez) que escamoteiam os fatos, suavizando a realidade, transformando tudo em thriller de suspense.
Mas é difícil encontrar um filme como este espanhol, já com certa idade, mas que aborda o assunto de forma clara e didática, até mesmo equilibrada, se preocupando mesmo em situar os problemas do homem, ainda mais num povo tradicionalmente machão e conservador.
Não é a toa que o filme ganhou sete Goyas (todos os principais) e quatro prêmios no Festival de San Sebastian (sem falar em outros menores). É muito simples acompanhar a história contada sem melodramas ou demagogias sobre uma jovem e bonita esposa (Laia, atriz de Barcelona que não conhecia) que cansada de apanhar, vai se refugiar com o filho pequeno na casa da irmã (as conhecidas são ela, feita por Candela e a mãe delas, Rosa Maria, que trabalharam em filmes de Almodóvar).
Eles vivem em Toledo, uma cidade histórica e cercada de cultura, o que permite que a história seja toda permeada por referencias mitológicas e com a obra de El Greco (aliás, como os museus parecem belos sem a presença maciça de turistas que nos enlouquecem, quando estamos neles).
A heroína consegue um emprego como bilheteira, depois como guia e começa a encontrar sua identidade como mulher, o que no fundo só assusta ainda mais o marido. Consente em retornar a viver junto, já que ele começa a fazer terapia de grupo (e as cenas com eles são as mais reveladoras), mas é uma mudança muito grande, da submissão à aceitação, e poucos estão preparados para fazer isso.
Atrás do nome do diretor Icíar Bollain está uma mulher, também atriz de muitos filmes, e que tem sete outros trabalhos como realizadora. Ela fez um belo trabalho neste filme que é perfeito para discussões e polêmicas em salas de aula.
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