4 março 2010 às 06:11
O caso Lockergate
O Oscar realmente está diferente, começando com este mini escândalo que abalou a Academia, mas não parece ter grandes consequências, já que estourou quando praticamente todos já haviam entregado os votos.
Isso ainda assim é um sintoma curioso de baixaria, de alguém que vai contra tudo que a Academia tenta fazer, que é manter certa compostura, fair play e disfarçar que não se trata de uma luta selvagem para conseguir o que desejam, um prêmio que significa dinheiro.
O caso foi apelidado de Lockergate pela imprensa (menção ao caso Watergate, que acabou derrubando o presidente Nixon, quando ele mandou invadir o escritório dos competidores, usando o poder do governo).
Aqui foi mais simples, apenas um dos produtores, praticamente um desconhecido encarregado de vender os projetos no exterior e, portanto, é uma figura agressiva e eficiente, que resolveu mandar e-mails para os colegas pedindo para eles votarem no filme que havia co-produzido, Guerra ao Poder ou Hurt Locker.
Isso é uma das coisas que não se pode fazer segundo o manual da Academia e do Oscar. Não vou reproduzir o e-mail porque já é notícia velha e o que nos interessa mesmo é saber se isso vai ter ou não peso no resultado. Talvez não, porque não envolve os autores do filme propriamente dito, apenas um arrivista que já foi punido (ele não poderá comparecer a festa nem subir ao palco se o filme ganhar o prêmio, mas eventualmente poderá ter sua estatueta).
Um outro escândalo menor estourou tarde demais, quando alguém processou o roteirista Mark Boal, acusando–o de ter se inspirado nele, que tinha a profissão de desmontar bombas como o herói do filme. Não levo esse tipo de processo a sério demais porque todo mundo se acha escritor e toda hora estão processando canais de TV e autores de novela achando que foram roubados. Em geral isso não sucede, apenas há certas coisas que estão no ar, no inconsciente coletivo e se alguém não as escreve e publica, outra pessoa, às vezes noutro lado do mundo, o fará. Ou seja, apesar de tudo, Hurt Locker continua com sorte e parece mesmo difícil que não leve o Oscar de diretor (seria a primeira mulher a ganhar a estatueta) e isso provoca bastante boa vontade, e é compreensível.
Acho mais grave a acusação que tem sido feita contra o filme que discute se é político ou não. Isso quer dizer, em outras palavras, que ele estaria condenando a guerra. Infelizmente na revisão do filme eu fiquei com essa impressão de que realmente não condena a guerra e nem o seu herói, que é viciado em guerra, apenas mostra. Quando ao Jeremy Renner, tudo bem, mas não vejo como alguém pode não condenar o conflito não resolvido (acabei de ler no Reader’s Digest, que é o mais longo de todos os tempos em que a América já se envolveu e sem a menor aparência de que vão conseguir sair de lá, com bons resultados) Se Bigelow quis fazer um filme neutro, apenas de ação, foi um erro e talvez muitos de nós tenhamos abraçado o filme lhe acrescentando essa mensagem. Isso acontece muito e temos que ficar atentos.
Por outro lado, o fato de não ser anti-guerra pode até ajudar o filme na votação já que há uma parcela de direita entre os votantes que sempre continua ativa. Isto é, Avatar vai precisar de sorte para ganhar, no máximo parece que pode levar o de melhor filme, mas não o de melhor diretor.
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