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10 março 2010 às 12:37

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Contraveneno

Sou muito sensível ao chamado jet lag, os efeitos do fuso horário. Mal para o qual não há remédio, só mesmo a passagem do tempo, dizem que ao menos um dia por cada hora. Só sei que quando volto de viagem, em particular dos Estados Unidos e Costa Oeste, passo uns dias sonado e fora de órbita, acordo fora de hora, como nas horas erradas, enfim, um caos.

Contei também que estava cansado do Oscar e estava me recusando a repetir o que todo mundo concluiu, inclusive a repisar o que há meses dizemos, como: 1) Em Avatar, os americanos perdem a guerra e por isso foi surpreendente o sucesso do filme, mas justifica também porque não ganhou o Oscar. 2) Toda a Academia e a indústria não gosta de James Cameron, em parte pelo discurso de "eu sou o rei do mundo" na época do Titanic, mas também porque êxito provoca inveja e não admiração. 3) Sobre Guerra ao Terror, faz pouco mais de um ano que venho falando dele. Chega.

A pior festa dos Oscars de todos os tempos foi o que me fez ficar assim. Quase cheguei a ficar bodeado com o cinema. Para evitar isso, usei uma espécie de contra veneno, filmes que não tem nada a ver com Oscar; filmezinhos B da minha época de criança, ou um pouco antes, que nunca consegui assistir. E até hoje corria atrás. Não sei se hoje é assim, mas na época, para os adolescentes, era traumático que todos os filmes bons fossem proibidos até 14 ou 18 anos. Felizmente, em Santos, havia jeito de falsificar carteirinha e o porteiro deixava entrar (menos um baixinho do cine Atlântico, que a gente tinha que evitar porque esse era chato e não tinha nada mais humilhante do que voltar à bilheteria para trocar o ingresso). Muitos desses filmes hoje seriam censura livre, não passavam de policiais B, e eu não desconfiava que um dia passariam a ser chamados de filme noir, negro, dando um retrato pessimista sobre a sociedade americana do pós-guerra, com mulheres fatais, detetives corruptos, tramas mal-explicadas e crimes hediondos. Tudo em luminoso e expressionista preto e branco. Esse gênero, que só foi batizado na França anos mais tarde (os realizadores não sabiam que estavam fazendo um gênero novo; para eles, era filme de rotina e baixo orçamento), acabou caindo nas graças do público de DVD e, até hoje, eles continuam a ser lançados nos EUA.

Poucas distribuidoras lá têm se dedicado aos filmes clássicos, que continuarão a existir em DVD, já que em Blue Ray só estarão disponíveis quando forem restaurados. Mas a mais interessante é a Sony Columbia, que tardiamente começou a lançar seus clássicos (a Columbia era o mais pobre dos grandes estúdios, famoso por ter apenas uma estrela, Rita Hayworth, e um diretor, Frank Capra, mas o padrão médio de realização era muito bom). Fiquei contente ao descobrir dois pequenos boxes com quatro filmes cada, chamados Bad Girls of Film Noir, que trazem justamente esses filmes dos anos 50, que nunca saíram nem em vídeo, nem passam na tevê.  Eu sempre ouvia falar e morria de curiosidade para conhecer. No volume 1, Evelyn Keyes (a irmã mais nova de Scarlett O´Hara) faz uma traficante de joias que pode provocar uma epidemia de sarampo em Nova York, em The Killer that Stalked New York, do pouco famoso Earl McCoy. Rodado em locações, lembra um pouco Pânico nas Ruas, de Kazan, que estreou seis meses antes. Mas é daquele filme compacto, rápido, eficiente, que hoje em dia não sabem mais fazer.

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Foto: Reprodução

Os outros três são com duas estrelas do gênero: Gloria Grahame e Lizabeth Scott. Gloria, a melhor das femmes fatales, com sua cara de pecado, ajuda o fugitivo Vittorio Gassman em Muralhas da Esperança (emigrante tenta fugir por Times Square e depois pular da Nações Unidas, que é a muralha do título). Já Lizabeth Scott, que parece ainda estar viva e foi a mais celebrada das lésbicas do cinema e então rival de Lauren Bacall, está em dois trabalhos, Ambição que Mata (Bad for Each Other), em que tenta seduzir Charlton Heston, e O Filho Perdido (Two of a Kind), de Henry Levin, no qual vive uma vigarista que coloca Edmond O´Brien num plano para enganar milionário.

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Foto: Reprodução

No volume 2, para mim, a maior atração foi finalmente conhecer uma atriz chamada Cleo Moore (1928-73), de que o Rubem Biafora (crítico famoso em São Paulo) falava muito. Ela fez uma série de filmes com seu mentor, o checo Hugo Haas, que foi dos primeiros autores, escrevia, produzia, dirigia e atuava, sempre com variações em torno do tema, homem mais velho, mulher mais jovem. Foram sete filmes, sendo Alma de Pecadora (One Girl´s Confession, 53) o terceiro e o único disponível desde a estreia da dupla (no boxe tem mais dois filmes com Cleo, o penúltimo Over Exposed e Women´s Prison, ambos de Lewis Seiler). Cleo era uma Marilyn Monroe com cara de Marcia Gay Harden. Razoável como atriz, ela foi casada com o filho do famoso governador da Louisiana Huey Long, que acabou assassinado (ela própria, em 56, quase concorreu a governadora do Estado! Em 57, largou o cinema e, casou-se com o milionário e morreu muito cedo, antes dos 45 anos. Hoje é uma estrela cult!).

Deixa-me explicar então como eu uso esses filmes antigos quase como um antropólogo, estudando uma civilização antiga e extinta, uma arte que não existe mais. Uma arqueologia do que foi a maneira de se fazer cinema na época dos estúdios. Pena que os jovens de hoje não gostem de história. Existem coisas fascinantes a serem redescobertas, principalmente nestes filmes pequenos e quase desconhecidos.

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