11 março 2010 às 08:51
Corey Haim
A tragédia se repete e já parece até lugar comum. Um astro infantil é incapaz de continuar a carreira como adulto e sucumbe às drogas e às loucuras, e acaba morrendo cedo. Já foram tantos, alguns famosos, outros esquecidos, que existe mesmo uma associação de autoajuda para os ex-astros infantis da indústria do cinema e televisão. E David Spade fez a comédia O Pestinha Cresceu (Dickie Roberts Former Child Star), de 2003, que concluía com uma espécie de número musical com a participação de vários ex-astros, entre eles, Corey Haim, que foi encontrado morto ontem após ter uma overdose de drogas, acidental ou não, já que tinha uma longa história de consumo de substâncias.

O exemplo
Sempre insisto, não deixaria um filho meu fazer carreira como ator infantil. É um mundo cruel, competitivo, que rouba da criança sua infância, inocência, estabilidade e a coloca como provedor da família cedo demais. Foram pouquíssimos os que conseguiram fazer a passagem para o mundo adulto: Natalie Wood, que eventualmente morreria afogada de maneira misteriosa, Elizabeth Taylor, Donald O´Connor, Mickey Rooney. As mais famosas tentaram e não conseguiram como Shirley Temple, que largou o cinema aos 21 anos, Margaret O´Brien, Peggy Ann Gardner. Levadas certamente por suas mães ambiciosas, que viram nos filhos a oportunidade de realizar os próprios sonhos (são as famigeradas stage mothers, das quais a mais famosa é Rose, do show Gypsy, mãe de June Havoc e Gypsy Rose Lee). Michael Jackson é uma outra vítima dessa carreira prematura (basta ver aquela sequência absurda de Bruno, em que as mães permitem que seus filhos façam qualquer coisa para aparecer no cinema!). Há ainda uma coisa mais triste: muitas vezes, a pessoa demonstra talento quando criança, mas depois o perde, como Shirley, ou simplesmente vira um adulto esquisito, como ocorreu com o garoto Haley Joel Osment, de O Sexto Sentido, ou MacCaulay Culkin como vimos na festa do Oscar. Perdeu o tipo e também a carreira. O caso de Corey Haim é semelhante.
O talentoso Corey
Ainda me lembro de Corey quando começou a aparecer no cinema e, principalmente, no primeiro filme que me marcou, Lucas (86), de David Seltzer. Aqui o longa foi chamado de Inocência do Primeiro Amor. Ele não era bonito, ao contrário, fazia o anti-herói, o garoto tímido e desajeitado por quem é apaixonada outra atriz infantil perturbada, Winona Ryder (Charlie Sheen era outro ator juvenil do elenco e que deve estar em rehab agora, cansado de tanto bater nas esposas). O engraçado é que Corey parecia diferente, talvez fosse justamente sua sensibilidade e o fato de parecer vulnerável. Mas já era um veterano no cinema. Nascido no Canadá, em 23 de dezembro de 1971, começou a carreira em 1984 com o drama Quando se Perde a Ilusão (Firstborn), seguido de outro sucesso aqui, naqueles bons tempos do vídeo: Admiradora Secreta, 85. O ator também fez séries de tevê não vistas aqui como The Edison Twins, Roomies, 85, e um terror sobre lobisomem, de Stephen King: A Hora do Lobisomen (Silver Bulltet), 85. Os trabalhos foram seguidos pelo telefilme Hora de Viver (A Time to Live, 85) e uma participação menor em O Romance de Murphy, que deu indicação ao Oscar para James Garner.
Logo depois vinha seu primeiro grande êxito, The Lost Boys (Os Garotos Perdidos), de 87, formando pela primeira vez a dupla com o outro Corey, Feldman, mais feio e menos talentoso, mas com quem sua vida estaria ligada, inclusive no vício da droga e mais tarde em filmes de sobrevivência. Foram os dois Coreys da geração 80. Logo veio o sucesso da comédia teen Sem Licença para Dirigir, 88, mas quase imediatamente começa a decadência (Watchers- O Limite do Terror, Um Sonho diferente/Dream a Little Dream, Rollerboys e, desde então, os filmes já foram saindo direto em vídeo). As capas de revistas e a badalação também chegaram junto com as drogas e a perda de tipo. Baixinho, o ator ficou gordinho, deixou de ser a imagem da inocência. Mal e aos tropeços, ele ainda fez muitos filmes, mas quase todos abaixo do radar (o IMDB fala em 48, mas ao menos dez deles em pré-produção). Apareceu até na tevê em humilhante reality show, o ponto mais baixo de qualquer carreira. Na esperada continuação de Lost Boys (Os Garotos Perdidos), 2008, fez uma pequena aparição. Pelo jeito, já não podia ser contratado para mais do que isso porque não era aceito pelas companhias de seguro. Perto dos 40 anos, o ator estava irreconhecível. A morte talvez o tenha feito descansar e, algum dia, alguém fará um telefilme sobre sua vida. Ou nem isso, no triste final das contas, foi mais um que experimentou o sopro da glória e acabou destruído por ela. The end.
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