20 março 2010 às 06:00
Lançamentos em DVD – Akira Kurosawa
No próximo dia 23, comemora-se os 100 anos do nascimento do diretor Akira Kurosawa (1910- 1998). O maior nome do cinema japonês ao menos no Ocidente.
A Europa Filmes lança para a venda um boxe com quatro filmes dele: Os Sete Samurais, Cão Danado, Céu e Inferno e Sanjuro e mais um Depois da Chuva, com roteiro do mestre do cinema mas que foi dirigido por um de seus assistentes, Takashi Koizumi, que trabalhou em Sonhos, Ran, Kagemusha, Rapsódia de Agosto e Madadayo.
Todos os filmes tem áudio em japonês e português - ambos 2.0 - legendas em português, formato standard menos para Céu e Inferno e Sanjuro. Todos preto e branco - menos o Depois da Chuva.
Eis as críticas dos filmes:
Os Sete Samurais ***** Shichinin no Samurai. 202 min. 1954. Direção: Akira Kurosawa.

Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Yoshio Inaba, Seiji Miyaguchi, Minoru Chiaki, Daisuke Kato, Ko Kimura, Kamatari Fujiwara, Kuninori Kodo, Bokuzen Hidari.
Sinopse: Camponeses que vivem numa vila no século 16 resolvem contratar sete samurais para protegê-los contra os ataques anuais dos bandidos.
Comentários: Esta é a versão completa, com 220 minutos do clássico. Rodado entre 1952 e 53, nos estúdios da Toho, era o filme favorito do diretor e foi um grande sucesso internacional tornando famoso o gênero “filme de samurai”.
Acharam que ele tinha um ar de faroeste, tanto que mais tarde ele foi refilmado como Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960) de John Sturges, com Yul Brynner, Steve McQueen, James Coburn e que depois teve três continuações, foi transformado em série de TV e ainda mais tarde refeito como telefilme.
Ainda foi transposto para o espaço na fita Mercenários das Galáxias / Battle Beyond the Stars, de Jimmy T. Murakami, 1980. Ganhou Prêmio Especial do Júri em Veneza. Foi o sétimo filme do diretor com seu ator preferido, Toshiro Mifune (1920-97) que aqui faz Kikuchito (com quem ainda voltaria a trabalhar em mais nove fitas, até terem uma briga e inimizade).
Kurosawa (1910-88) pretendia fazer uma fita de época (jidai-geki) mas também divertida, bem-humorada, movimentada, eletrizante e épica, mas sempre dizendo muito sobre a natureza humana. Tem cenas de luta e ação espetaculares, uma fotografia esplêndida, uma direção de arte fenomenal (até indicada ao Oscar).
Sanjuro **** Tsubaki Sanjuro. 96 min.1962. Diretor: Akira Kurosawa
Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Keiju Kobayashi, Yuzo Kayama, Akihiko Hirata, Reiko Dan, Takashi Shimura, Kamatari Fujiwara, Kenzo Matsui.
Sinopse: O Ronin Sanjuro treina nove jovens nobres que decidiram se levantar contra a gestão corrupta de Muroto, um chefe feudal. Mas é mais difícil dar lições de vida e filosofia do que lutas.
Comentários: Continuação de “Yojimbo”, retomando as aventuras do Ronin Sanjuro, só que em tom menor, com mais falatório, menos ação. Até a fotografia é mais discreta em enquadramentos e narrativa. Por outro lado, há mais ironia e delicadeza. Sem esquecer o lado filosófico e espiritual.
Céu e Inferno ****

Tengoku to Jigoku/ High and Low. 143 min.1963. Diretor: Akira Kurosawa
Elenco: Toshiro Mifune, Kyoko Kagawa, Tatsuya Mihashi, Tatusya Nakadai, Isao Kimura, Takeshi Kato, Nobuo Nakamura.
Sinopse: O diretor de uma fábrica de sapatos tem seu filho sequestrado. Eles exigem uma grande quantia em dinheiro e um local estranho para entregar o pacote.
Comentários: Um dos filmes menos conhecidos no Brasil de Kurosawa, um dos poucos do seu apogeu que fez sobre temas contemporâneos. No caso, adaptou um livro do americano Ed McBain. Mas um texto escrito por Donald Richie diz bem: “o sequestro não interessa ao diretor, que retrata tudo sem emoção. Interessa a busca, a captura, o confronto.
A primeira parte do filme, que seria o céu, é muito lenta, quase teatral, com planos longos toda passada em uma mansão com vidros. Na segunda, o inferno, a câmera está quase sempre fazendo tomadas do alto.
O filme é todo estilisticamente elaborado, repleto de reflexos, espelhos, um clima de paranóia para no final se fundirem em uma única realidade, sugerindo que, apesar de tudo, o bem e o mal são o mesmo e que todos os homens são iguais. Não há mais a questão de herói e vilão, bem e mal, céu e inferno”. Muito admirado pelos americanos, também pelo uso particular do widescreen.
Cão Danado *** Nora Inu. 122 min. 1949. Diretor: Akira Kurosawa.

Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji, Eyko Miyoshi, Isao Kimura, Gen Shimizu, Noriko Sengoku, Fumiko Honma.
Sinopse: Policial novato tem a arma roubada num momento de descuido. Quando ela começa a ser usada em crimes fica obcecado em recuperá-la e prender o criminoso. Para isso conta com a ajuda de um colega veterano.
Comentários: Policial do começo da carreira de Kurosawa (1910-98), influenciado por Georges Simenon e com elementos de filme noir. A história tem paralelos com o italiano Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948), que Kurosawa admirava tanto que chegou a mencionar ao receber em 1951 o prêmio em Veneza por Rashomon.
Mas os filmes foram realizados simultaneamente, com uma coincidência de ideias, e, ao contrário do que ocorre no filme de Vittorio De Sica, aqui a arma roubada do policial (interpretado com a habitual maestria pelo jovem Toshiro Mifune) tem valor mais simbólico do que prático.
Na verdade, o filme lembra bastante os policiais estilo Cidade Nua que o cinema americano fazia também na época, dando uma visão curiosa do que era Tóquio pós-guerra. Kurosawa tem a preocupação de mostrar que o policial tem outra arma e que a roubada, cuja busca o obceca, representa a própria honra e identidade do personagem, que passa a sentir culpa pelos crimes cometidos com seu revólver.
Essa obsessão é contrastada com a serenidade e distanciamento do policial veterano interpretado por outro ator constante de Kurosawa, Takashi Shimura. Como pano de fundo para esta situação, o diretor usa o miserável submundo de Tóquio, povoado de figuras mais patéticas que ameaçadoras e que tem mais coisas em comum com o jovem policial do que este imaginava.
E onde a opção pelo bem ou pelo mal pode ser apenas uma questão de acaso ou de azar. O título refere-se tanto ao policial roubado quanto ao criminoso. Ambos, como diz o colega veterano, agem como um cão louco, vendo apenas aquilo que perseguem, ainda que com isso busquem também sua destruição.
Um belo filme, que Kurosawa humildemente desmerecia dizendo ser muito técnico, sem uma ideia por trás. Mas que é mais um profundo e repleto de compaixão estudo da natureza humana realizado pelo genial diretor. Ainda assim pode ser visto como um filme de aprendizado, feito numa época em que Kurosawa ainda era desconhecido no ocidente.
Depois da Chuva *** Ame Agaru / After the Rain. 87 min. Cor. 1999. Diretor: Takashi Koizumi

Elenco: Akira Terao, Yoshiko Miyazaki, Shiro Mifune, Mieko Harada, Fumi Dan, Hisashi Igawa, Idetaka Ioshioka, Tatsuya Nakadai.
Sinopse: Misawa é um ronin (Samurai errante) que tem problemas em permanecer em empregos, é convidado por um senhor feudal para ser o novo mestre de seus lutadores, despertando a inveja de outros pretendentes ao cargo.
Comentários: Baseado no último roteiro do mestre japonês Akira Kurosawa, este Depois da Chuva foi dirigido por seu pupilo Takashi Koizumi em tom de homenagem. A narrativa é lenta e desenvolve aos poucos a relação do bondoso e desastrado samurai com as pessoas ao seu redor mas tudo de uma forma muito agradável.
O filme é bem simples e traz uma boa mensagem por traz de um final aparentemente sem impacto. Pena ter sido lançado somente em formato de tela standard (e não em widescreen, como deveria ser), perdendo muito do seu visual.
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