30 março 2010 às 06:00
Ella Fitzgerald – Twelve Nights in Hollywood
Se me perguntam qual é a melhor cantora (estrangeira), continuo a responder: sem dúvida, Ella Fitzgerald. Nenhuma outra tem o alcance, a doçura, a versatilidade, o repertório igual. Mas nem sempre tive a lucidez de ver isso. Nem mesmo durante sua vida.
Ella é de 1917 e morreu em 1996, já sofrendo muito tempo de diabetes e curiosamente chegou a fazer cinema, em Taverna Maldita/Pete Kelly’s Blues, 55, St. Louis Blues, 58 e num papel dramático de drogada em Let No Man Write um Epitaph /Algemas Partidas, 1960.
Só bem tarde que fui descobrir suas obras-primas, que são os songbooks que ela gravou com as composições de alguns dos maiores autores da música norte-americana. Foi com eles que percebi a genialidade dessa mestra da improvisação (cantar sem palavras, só com ruídos, no que chamam de scat) e que lhe valeram o apelido de primeira dama do jazz.
O fato é que, sem ela, o jazz nunca mais foi o mesmo. E nós, fãs, vivemos atrás de gravações raras, em geral ao vivo, e que ocasionalmente são descobertas. Mas é o caso desta caixa em edição limitada da Verve, chamado Twelve Nights in Hollywood.
Acontece que em 1961, aos 44 anos, no auge da forma, ela fez durante duas semanas, shows num lugar chamado Crescendo Club em Hollywood, que ficava na Sunset Strip e era um dos lugares favoritos dos músicos, porque era pequeno e agradável (apesar de na parte de cima ter dança e numa das gravações ela reclama do twist que tocavam lá em cima). Foi lá que ela fez uma gravação que saiu em disco e que existe por aí, e que leva o mesmo nome.
O curioso é que o produtor Norman Granz gravou ao vivo, não apenas uma noite ou duas, mas todas as noites, todas as canções, de 11 a 21 de maio. E o mais incrível, ela e a banda quase nunca repetiram uma melodia! O disco saiu, foi bem, mas não um clássico. Com 12 canções, inclusive uma nova versão de Mr. Paganini e Take the A Train.
Mas agora eles encontraram os masters de todas aquelas noites e ficaram encantados. Raramente ela esteve tão à vontade, contando piadas, brincando com a plateia, identificando amigos, atendendo a pedidos (como Candy para o amigo Carl Reiner) e cantando praticamente todo seu repertório.
Em quatro CD’s, com a média de 19 canções cada, agora estão disponíveis estas pequenas joias. Evitou-se repetir faixas que já tinham no outro CD, usando, quando preciso, takes alternativos e somente uma canção, Lil Darling, ficou fora por questão de qualidade.
Difícil dizer qual a melhor faixa. Nem sei dizer se prefiro a cantora alegre e solta, que improvisa, ou a intérprete de baladas românticas (como Angel Eyes, sua música preferida, que está no 4º disco). Trouxe a caixa da última viagem e a guardo como um tesouro. Recomendo-a para os que ainda não conhecem essa deusa.
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