26 abril 2010 às 06:03
Finalmente em DVD: A maior aventura de todos os tempos
Está sendo lançado essa semana um pacote da Paramount em DVD de um dos maiores filmes de aventura de todos os tempos (também disponível em Blue Ray): Uma Aventura na África, de John Huston (1951), que até agora existia apenas numa versão não autorizada, de 2004, de uma distribuidora que parece ter usado a cópia em Laserdisc.
É um lançamento simultâneo com os EUA em cópia restaurada e versão especial, que traz um making-off de cinquenta e tantos minutos, realizado por Nicholas Meyer (diretor de A Ira de Kahn) com excelente material e entrevistas de Kate Hepburn, Huston, Bogart, os biógrafos dos falecidos, o fotógrafo Jack Cardiff, os sobreviventes Theodore Bikel, Warren Stevens, Martin Scorsese e o filho do autor do livro. Muito claro e informativo, vale a pena ser conhecido.
Vamos falar um pouco de Uma Aventura na África.
Ficha do DVD:
Uma Aventura na África ***** The African Queen
Áud: Ing , Francês, Esp, Port. Leg: Port, Esp, Ing, Frances. Aventura/Clássico. Standard 1.38. 105 min. Cor. 1951. EUA/Inglaterra. Paramount. 12 anos.
Diretor: John Huston . Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley, Peter Bull, Theodore Bikel, Walter Gotell. Produzido por Sam Spiegel para Horizon/Romulus de James Woolf.
Roteiro de James Agee e John Huston a partir do romance African Queen, de C.S. Forester. Fotografia de Jack Cardiff. Música de Allan Gray.
Sinopse: Em 1915, no começo da Segunda Guerra Mundial, na África, um veterano aventureiro e dono de um barco pequeno chamado “A Rainha da África” aceita fazer uma viagem perigosa por um rio cheio de corredeiras para atacar uma nave alemã.
Curiosidades: Grande parte do filme foi rodada em locações no antigo Congo, hoje Zaire, e no lago Alberta, Uganda (Katharine 1907-2003 chegou a escrever um livro inteiro em 1987, The Making of African Queen, a respeito dos perigos, inconveniências, doenças da equipe, desinteiras, calor, problemas para todos, menos Bogart (1899- 1957) e Huston (1906-1987), segundo contam, porque bebiam uísque e nunca tomavam água).
A Columbia comprou os direitos originais do livro de C. S. Forester para Charles Laughton e Elsa Lanchester, mas em 1939 os vendeu para a Warner, que pretendia fazê-lo com Bette Davis e David Niven. A Fox comprou os direitos, mas o engavetou, de onde John Huston o tirou. Por sugestão dele, Katharine se inspirou um pouco na personagem, Eleanor Roosevelt.
Quando os problemas na África ficaram grandes demais o filme foi transferido para um estúdio londrino onde foram rodadas as cenas com Robert Morley e Peter Bull. E também as cenas onde eles tinham que cair na água, já que África era um poço de doenças e vírus (na cena com as sanguessugas, Bogart recusou usar os verdadeiros, aqueles são falsos). A mulher dele, Lauren Bacall, o acompanhou nas locações, e muitas vezes serviu de enfermeira o ajudando a enfrentar perigos, tais como exércitos de formigas.
Crítico e roteirista, James Agee (1909-1955) teve um infarto enquanto escrevia o roteiro e morreu pouco tempo depois. Ele também escreveu o roteiro de outro clássico, O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton. Ele desejava que a viagem pelo rio simbolizasse um ato de amor entre o casal e criticou muito o roteiro final de Peter Viertel (filho da escritora Salka, amante de Greta Garbo, viúvo de Deborah Kerr, que foi responsável pelo final, já que no livro original tudo terminava mal.
Anos mais tarde, Agee escreveu também um livro sobre as filmagens e a obsessão de Huston em matar um elefante. Foi filmado por Clint Eastwood (como Huston), chamado Coração de Caçador (White Hunter, Black Heart, 1990). Este filme deu o único Oscar de sua carreira para Bogart, que não esperava vencer (ele concorria com outros excelentes atores e interpretações: Montgomery Clift por Um Lugar ao Sol, Marlon Brando, por seu trabalho seminal em Uma Rua Chamada Pecado, Fredric March, por A Morte de um Caixeiro Viajante e Arthur Kennedy, por Só Resta a Lembrança (Bright Victory, de Mark Robson, o único não clássico!). O prêmio foi visto como homenagem por sua carreira (ele só foi indicado duas vezes, antes por Casablanca e depois em 1954 por A Nave da Revolta). Também foi indicado como roteiro adaptado (ganhou Um Lugar ao Sol), direção (levou George Stevens, por Um Lugar ao Sol) e atriz (que foi Vivien Leigh, por Uma Rua Chamada Pecado). Outra coisa curiosa: o produtor era Sam Spiegel (1901-1985), malandro e desonesto, e que para fugir de problemas legais na época estava assinando como S.P. Eagle. Ele produziria ainda outros filmes memoráveis como A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia, Sindicato de Ladrões, De Repente no Último Verão e Caçada Humana, de Arthur Penn.
Dizem que a Disney usou este filme como base para sua atração Jungle Cruise, na Disney World. Na época o filme sofreu protestos do governo alemão quando participou do Festival de Berlim, porque teria “tendências anti –alemãs”. Foi rodado pelo sistema Technicolor, com três negativos e câmeras muito pesadas, por Cardiff (Os Sapatinhos Vermelhos), que era considerado o maior especialista em foto colorida (no making-off, ele nega que o filme tenha maior qualidade de fotografia, para ele o resultado é banal!
Crítica: Hoje em dia em que os espectadores são mais atentos, incomoda um pouco percebermos que grande parte das cenas no rio, e mesmo do ataque final ao navio alemão, foram rodadas em estúdio, em situações não muito convincentes (com tela de projeção ao fundo), o que atrapalha a credibilidade deste que sempre foi considerado um dos grandes filmes de aventuras de todos os tempos.
Único encontro no cinema de dois monstros sagrados das telas (que por sinal se deram bem, Kate ficou para o resto da vida amiga da mulher de Bogie, Lauren Bacall). Seus estilos opostos se misturam bem numa fita, que é simplesmente uma boa história, bem contada, que continua a funcionar graças a bem dosada mistura de bom humor, ação, bons personagens e pura aventura. Tem também um lado patriótico que é encarado com leveza, não para ser levado muito a sério. Afinal o público torce pela dupla, que parece ter tão pouco em comum, a irmã de missionário Rosie, que desabrocha diante do charme rústico do capitão do barco, o anti-herói Charlie.
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