27 abril 2010 às 06:00
Outro clássico e cult finalmente no Brasil: Ensina-me a Viver
Por estranho que pareça, este filme nunca saiu em DVD no Brasil, nem mesmo em cópia pirata por alguma das distribuidoras que fingem ser legais. Falha que a Paramount finalmente está consertando por iniciativa da Livraria Cultura, que por enquanto tem sua exclusividade.
É um filme que não envelheceu (eu o revi ano passado em São Francisco, no Castro Theatre, com minha família, na tela grande). A exibição teve direito à entrevista ao vivo do astro Bud Cort (que continua a mesma coisa, só que velho), ainda um tipo esquisito e que fica muito irritado quando lhe perguntam se ele nunca fez mais nada no cinema, quando em sua carreira tem outros filmes famosos como Voar é com os Pássaros, de Altman, Sweet Charity (no final), M.A.S.H, Os amantes de Maria, Dogma, Pollock, Coyote Ugly, A Vida Marinha com Steve Zissou e o mais recente Passion Play (10), com Bill Murray e Mickey Rourke.
Infelizmente a versão não é restaurada nem contém qualquer extra (ficam devendo isso). Mas é importante lembrar que o filme foi adaptado no Brasil para o teatro com enorme sucesso nos anos 90 (o seu autor Colin Higgins morreu de Aids no auge da carreira, em 1988). A versão contou com a participação de Madame Henriette Morineau, depois Cleyde Yaconis, Maria Clara Machado e Diogo Villela. Mais recentemente, teve uma bela remontagem de João Falcão, com o ator Arlindo Góes (que gerou o projeto) no qual Gloria Menezes estava excelente.
Ensina-me a Viver ***** (Harold and Maude)
Áud: Ing (5.1,2.0), Port (2.0). Leg : Port. Comédia/Dramática. Widescreen. 91 min. Cor. 1971.EUA. Paramount. 12 anos.
Diretor: Hal Ashby. Elenco: Bud Cort, Ruth Gordon, Vivian Pickles, Cyril Cusack, Charles Tyner, Ellen Geer, Tom Skerrit, Eric Christmas, G. Wood, Shari Summers. Produção de Colin Higgins e Mildred Lewis. Roteiro de Colin Higgins. Fotografia de John A Alonzo. Musica de Cat Stevens.
Sinopse: Um jovem reprimido com fixação em funerais e suicídio tem um romance com uma mulher de oitenta anos.
Bastidores: O filme fez muito sucesso no Brasil no circuito de arte, liderado na época pelo chamado Cinema Um. Foi depois adaptado para o teatro. Ruth Gordon (1896-1985) era famosa atriz do palco, mas também célebre como roteirista de cinema, junto com seu marido (mais jovem e também diretor e escritor, Garson Kanin). Juntos escreveram peças e filmes famosos para a amiga deles Katharine Hepburn ou para o diretor George Cukor. Na lista consta obras como A Costela de Adão, A Mulher Absoluta, Da Mesma Carne e Nascida Ontem (estes dois últimos com Judy Holliday), o autobiográfico Papai Não Quer (The Actress), com Jean Simmons. Foi indicada também ao Oscar de roteirista por Fatalidade (A Double Life, 47), que deu o Oscar de ator para Ronald Colman. Ela voltou do cinema já bem mais velha e ganhou o Oscar de coadjuvante por O Bebê de Rosemary (1968), numa caracterização impressionante como a chefe dos cultuadores do diabo que cercam Mia Farrow.
O produtor e roteirista Colin Higgins ( 1941-88) se tornaria diretor de fitas como Como Eliminar seu Chefe (Nine to Five, 1980) e A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas, 1982), mas viria a falecer de Aids. Seu último trabalho foi dirigindo e produzindo Minhas Vidas, série de TV com Shirley MacLaine. O ator Bud Cort nunca mais teria no cinema oportunidade semelhante, mas continuaria a trabalhar. O diretor Hal Ashby (1919-88) era montador muito talentoso, mas teve sua carreira destruída pelas drogas. Este foi apenas seu segundo filme como realizador. Faria ainda outros trabalhos importantes: 1973 – A Última Missão (The Last Detail. Jack Nicholson, Otis Young). 1975 – Shampoo (Idem. Warren Beatty, Julie Christie). 1976 – Esta Terra é Minha Terra (Bound for Glory. David Carradine, Ronny Cox). 1978 – Amargo Regresso (Coming Home. Jane Fonda, Jon Voight). 1979 – Muito Além do Jardim (Being There. Peter Sellers, Shirley MacLaine). 1982 – Let’s Spend the Night Together (Idem. Doc. Sobre o tour americano dos Rolling Stones).
O autor da trilha Cat Stevens se converteu ao islamismo, mudou de nome para Yusuf Islam e largou a carreira musical. Ele faz pontinha na cena do funeral, em frente a Ruth.

Crítica: Havia 99% de chance do projeto "quebrar a cara". A história de Harold e Maude estava a um passo do grotesco, do mau gosto, do revoltante, do ofensivo. Milagrosamente, o limite nunca é ultrapassado. O diretor Hal Ashby conseguiu o feito surpreendente de tornar Ensina-me a viver um dos filmes mais divertidos, humanos e curiosos da década (e por extensão do século 20). Imaginem a história: Harold é um garoto mimado, filho de milionários, que tem a mania de suicídio. Seus divertimentos prediletos são ir a enterros (de gente que nem conhece) e assustar as pessoas com suas mortes inesperadas, encenadas como espetáculos de "grand-guignol". Harold deve ter 18 ou19 anos. Um dia, num enterro, conhece Maude, que em poucos dias vai fazer 80 anos. Uma velha para frente, cujo hobby é roubar carros e curtir a vida. É ela quem o ensina a viver, a salvar as árvores da poluição, o valor das pequenas coisas. E logo Harold ama Maude. É possível o amor entre um casal com 60 anos de diferença nas idades? É possível que o público consiga digerir tamanho absurdo, contra todas as leis da love story? A resposta é inteiramente positiva.
O filme é tão bem construído, que logo nos esquecemos da diferença de idade e nos engajamos inteiramente naquele amor louco, estúpido e maravilhoso. Não só a direção é boa. Também o roteiro é cheio de boas ideias, muito bem colocadas. Todas as tentativas de suicídio são bem realizadas, inesperadas. As gags são construídas com cuidado e resultam hilariantes. A mãe de Harold na interpretação discreta e eficiente de Vivian Pickles fica a um passo da caricatura, mas nunca resvala, nem o tio coronel, que faz uma saudação de continência que é antológica. Há os encontros com as garotas que a mãe tenta arranjar. Tudo é muito engraçado e inteligente. Ao escrever sobre o filme, relembro as cenas e torno a rir, coisa que não acontecia há muito tempo. Talvez meu momento preferido seja aquele em que Harold dá um presente a Maude e ela o joga no mar,“porque saberia sempre onde ele ia estar”.
Mas há outros momentos igualmente memoráveis. O suicídio pelo fogo na piscina, o carro esporte transformado em carro funerário, a fuga de motocicleta e as diversas intervenções do policial, o braço cortado, a atriz que participa do "harakiri". Outra qualidade de Ensina-me a viver: o filme não é apenas uma comédia, também consegue fazer um painel social muito eficiente, principalmente da sede de sangue do tio, do passeio no hospital (reparem o doente caindo, sem ninguém socorrê-lo), dos conselhos imbecis, do psiquiatra (que afinal faz a piada inevitável –“nesta sociedade freudiana espera-se que os rapazes se apaixonem pela mãe, mas você foi apaixonar-se por sua avó”) e principalmente de um grande momento de estupidez - o discurso do padre (em que o ator consegue passar toda a hipocrisia). Como comédia social, o filme está somente a um passo de Pequenos Assassinatos (Little Murders, 1971, de Alan Arkin, baseado em peça de Jules Feiffer). Como psicológica, é igualmente funcional. Explica o comportamento suicida de Harold apenas com discrição, sem exageros ou clichês.
Na época parecia que o diretor Ashby não chegava a inovar. Mas numa revisão ele é de uma enorme precisão, coisa mesmo de montador (com cortes precisos e grande quantidades de cenas fotografadas com teleobjetiva - por sinal, uma extremamente bonita, quando Harold e Maude brincam no cemitério e a câmera se afasta para mostrá-los naquela mar de cruzes) e outros efeitos que agora resultam muito bem (como usar a música de Cat Stevens como contraponto das imagens com total maestria). Ruth Gordon está perfeita, livre dos cacoetes de O Bebê de Rosemary, dengosa, feminina (que delícia, quando flerta com Harold), humana, convencendo inteiramente (afinal, quantas mulheres de 80 anos tem um corpo tão bom quanto o dela?). Bud Cort, no papel de sua vida, tem uma cara particular, e a qualidade inexcedível: impossível se imaginar algum outro no papel. Um detalhe importante: repare no pulso de Ruth/Maude, que tem uma marca de números, o que é mostrado muito de passagem, mas o suficiente para se perceber que ela é uma sobrevivente de campo de concentração. O que acrescenta muito, mas é tratado apenas com um detalhe. Ensina-me a viver é daqueles filmes que conseguem ser sérios e engraçados, tristes e emocionantes, realizam numa síntese inesperada toda a grandeza e miséria da Comédia Humana. Uma obra-prima.
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