8 maio 2010 às 06:00
Coluna de DVD
Plano de Mutação * ** Mindwalk
Áud: Ing. Leg.: Port. Drama. Standard. 112 min. Cor. 1990. EUA. Versátil. Livre.
Diretor: Bernt (Amadeus) Capra. Elenco: Liv Ullman, Sam Waterston, John Heard, Ione Skye.
Sinopse: Em Saint Michel se encontram um americano, um derrotado candidato à presidência americana, um poeta e uma cientista/física desiludida.
Comentários: Nunca exibido em nossos cinemas, este filme criou certa reputação em VHS. Inteiramente rodado num lugar lendário e pouco mostrado, a cidade medieval de Saint Michel, na França, que em determinadas horas do dia é uma ilha e noutras pode ir a pé até ela. O filme é para um público especial, mas filósofos e intelectuais vão gostar muito, por que pouco se fez parecido. Chegou a ser indicado ao Independent Spirit de melhor roteiro. Trilha musical esparsa de Philip Glass.

O diretor na verdade, segundo o IMDB, é um famoso desenhista de produção, ou seja, cenógrafo, que fez muita coisa (inclusive This is It, de Michael Jackson). Foi o único filme do diretor que trabalha aqui em cima das teorias de seu irmão Fritoj Capra - que é coroteirista - que em 1982 escreveu o livro The Turning Point, onde dizia que vivemos uma crise de percepção, refletindo sobre um paradigma holístico de ciência e espírito. Este é um raro filme sobre conversação (melhor do que o similar My Dinner with André, porque o que se diz tem mais consistência e mais inteligência, não banalidades).
Se encontram um pragmático, o candidato americano (Waterston), com seu velho amigo poeta (Heard, que chega a recitar o poema de Neruda) e a idealista mulher, que é física desiludida que levanta maior parte dos problemas (ecologia, física quântica, filosofia etc). Ou seja, é raro ver temas tão profundos discutidos desta forma, e de maneira tão acessível.
Galo de Briga *** Cockfighter
Áud: Ing., Esp., Port. Leg: Port., Esp., Ing. Drama. Widescreen 1.85. 83 min. Cor.1974. EUA Platinum 18 anos.
Diretor: Monte Hellman. Elenco: Warren Oates, Millie Perkins, Harry Dean Stanton, Richard B. Shull, Troy Donahue, Ed Begley Jr, Laurie Bird, Robert Earl Jones, Steve Railsback.
Sinopse: Frank Mansfield, treinador de galos de briga não é mudo, mas recusa-se a falar até que conquiste um campeonato importante. Mas não muda seu estilo de vida passando de problema para problema.
Comentários: Uma raridade: um filme inédito até agora no Brasil, produzido por Roger Corman para seu amigo - e polêmico - diretor cult, Monte Hellman. Um dos raros a abordar o tema tabu da briga de galos, que segundo o filme, ainda é uma coisa comum nos Estados Unidos, onde há verdadeiros campos de treinamento para galos.

O diretor preferiu chamar amigos e atores desempregados para viver os personagens, no que é um daqueles filmes independentes da época, com limites técnicos e difíceis de seguir. Embora a fotografia seja do grande Nestor Almendros dos filmes de Trufaut. Mesmo Warren Oates (1928-1982) não é um ator simpático ou carismático para ser o protagonista. Parece que há mesmo pudor em mostrar, em maiores detalhes, as lutas que são sempre rápidas e confusas. Há, porém, certa curiosidade em se observar que tipo de gente se envolve em coisas desse tipo.
Domínio de Bárbaros *** Fugitive, The
Áud: Ing. Leg: Port. Drama. Standard. 100 min. PB. 1947. EUA. Versátil. 14 anos.
Diretor: John Ford. Elenco: Henry Fonda, Dolores Del Rio, Pedro Armendariz, J. Carroll Naish, Leo Carrillo, Ward Bond, Robert Armstrong, Mel Ferrer.
Sinopse: Num país não determinado da América, um padre tenta fugir já que eles estão sendo perseguidos e mortos por ordem do governo central.
Comentários: É curioso que um diretor como John Ford (1894-1973), que habitualmente é considerado direitista e até reacionário, tenha feito esta parábola contra as ditaduras latinas que proibiam a ação da Igreja Católica e, principalmente, perseguiam e fuzilavam padres.

Rodado no México, com a cooperação das autoridades locais e sem preocupação de disfarçar a paisagem ou os costumes, ele chamou como assistente o famoso diretor local Emilio Fernandez, que o ajudou em algumas cenas.
Para a fotografia, aproveitou o mais famoso dos iluminadores mexicanos, Gabriel Figueroa, que tinha um estilo muito particular com planos contra o céu cheio de nuvens e o uso intenso do claro e escuro, com efeitos notáveis.
Embora a cópia tenha imperfeições, a fotografia do filme é um espetáculo. Os outros filmes de Figueroa, os trabalhos mexicanos não estão disponíveis por aqui. É ela que dá o tom do filme, lembrando Viva México de Einsenstein, que é uma longa perseguição.
É baseado em livro The Power and the Glory ou The Labyrintine Ways, do famoso escritor e crítico de cinema Graham Greene (O Terceiro Homem). Na verdade, seria um fato real, já que Greene tinha estado no México quando o presidente Calles tinha feito uma campanha anticlerical em nome da revolução mexicana.
Henry Fonda, com a aparência torturada, faz o padre que é o último que ainda não fugiu do país conturbado, mas é ajudado por uma índia local, a grande estrela Dolores Del Rio (1905-83) que havia sido estrela em Hollywood e voltou para sua terra natal onde ficou o resto da vida. Ward Bond, ator favorito de Ford, tem uma aparição marcante como aventureiro americano, também perseguido, e Armendariz é o chefe da polícia.
Curiosamente os personagens não têm seus nomes nos créditos, são apenas um padre, uma mulher e assim por diante. Pena que o filme resulte pesado, carregado de símbolos e exageradamente artístico. Foi fracasso de bilheteria. Hoje é mais curiosidade e só vale pela fotografia. Trailers de clássicos e texto sobre vida e obra de Ford.
Coração Prisioneiro *** Caught
Áud: Ing. Leg: Port. Romance. Standard. 88min. PB. 1949. EUA. Versátil. 14 anos.
Diretor: Max Ophuls. Elenco: James Mason, Bárbara Bel Geddes, Robert Ryan, Frank Ferguson, Curt Bois, Natalie Schafer, Ruth Brady.
Sinopse: Leonora é moça pobre que sempre sonhou em casar com um milionário. Mas quando consegue, ele se revela cruel e neurótico. Ela larga tudo para virar assistente de um médico por quem se apaixona.
Comentários: Este é considerado o melhor filme do diretor alemão Ophuls (1902-57) quando era refugiado em Hollywood, que sempre foi perseguido por seus produtores. Aqui houve cenas refeitas por John Berry e Robert Aldrich.

O personagem de Ryan foi inspirado no famoso milionário Howard Hughes, que por sinal havia sido chefe do diretor na RKO. Ele trabalhou com um roteiro do famoso Arthur Laurents, que escreveu West Side Story, Gypsy, Anastásia, baseado em livro de Libbi Block. Foi também o primeiro filme americano do britânico James Mason (1909-84), que era especialista em papéis de homens maus.
No fundo é uma lição de moral, mostrando que o dinheiro não traz felicidade. Feito com a elegância habitual do diretor, ajudado pelos dois bons atores Mason e Ryan (como o incompreendido milionário, um personagem mal escrito e explicado, que ele dá certa credibilidade).
Bárbara não é atraente ou interessante o suficiente para justificar o amor dos dois homens. A parte técnica ajuda com montagem do depois diretor Robert Parrish, fotografia do grande Lee Garmes (que cuidava de Marlene Dietrich), música do alemão Frederick Holander. Trailer, vida e obra de Ophuls.
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