9 maio 2010 às 06:00
O melhor e o pior de Robert Downey Jr.

Foto: Divulgação
Hoje em dia é muito comum alguém se tornar mais famoso por aparecer em colunas policiais ou revistas de escândalo do que por seus trabalhos. Foi o caso deste ator já veterano, que foi preso por consumo de drogas (invadiu a casa de um vizinho) e chegou a ser preso depois de violar três penas por abuso de álcool e drogas.
Foram seis meses de tentativas de reabilitação que foram registradas pela imprensa, enquanto amigos como Sean Penn, tentavam salvá-lo do uso de drogas que estava destruindo sua vida e carreira. Um plano que deu certo porque agora ele teve a maior chance profissional em muitos anos, estrelando o filme Homem de Ferro, um grande sucesso que confirmou o inesperado: o público gosta de Downey Jr, seu jeito irônico e um pouco arrogante, sua persona que, por vezes, é mais forte do que o personagem (vamos ser francos: ele em geral esta só representando facetas dele próprio, mas sempre de forma brilhante e carismática).
Já o segundo filme, em cartaz em nossos cinemas e que estreou nos EUA só esta semana, é inferior ao primeiro. Tem papo demais e parece mais preocupado em colocar o personagem com a turma de Os Vingadores (The Avengers), conforme me chamou a atenção o amigo Felipe Goulart. O Samuel L. Jackson é um recrutador para a Liga da Justiça da Marvel, que se chama Os Vingadores. Os principais desse grupo são o Homem de Ferro, Hulk, Capitão América e o Thor.
Como as filmagens de Thor e Capitão América começam nos próximos meses, numa próxima etapa farão o filme juntando todos esses heróis numa história só. No final do filme do Hulk (o novo do Edward Norton), o Downey Jr. aparece depois dos créditos. Perceberam também que aparece o Escudo do Capitão América nesse Homem de Ferro 2?
Eu fui ver o filme de novo e conferi a famosa cena final que é curta e mostra uma cratera no Novo México. Lembram que no filme um agente fala que vai para lá atender um chamado? O martelo do Thor é encontrado nessa cratera. É uma cena bem curta (deve ter uns 30 ou 40 segundos) e fica difícil para o não iniciado sacar que aquele é um martelo!
Downey Jr, a vida

Foto: Grosby Group
O sucesso de O Homem de Ferro veio também pela muita experiência de Downey Jr, que é filho de um diretor de cinema de vanguarda que o viciou em maconha desde criança. Ele estreou na tela já pequeno, aos cinco anos, em Pound, 1979. Ou seja, é ator profissional desde adolescente e todos seus diretores o defenderam dizendo que mesmo drogado, no set era super profissional. Hoje ele deve muito aos diretores que continuaram a acreditar em sua habilidade e talento. Downey começou em pontas e depois chegou ao estrelato em filmes como Abaixo de Zero, O Céu se Enganou, Air América e, principalmente, Chaplin, que lhe deu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Por vezes, chegou ao exagero como Assassinos por Natureza, de Oliver Stone (94).
Eu o conheci em Berlim um pouco antes de ficar completamente descontrolado, visivelmente drogado. Quando ele entrou na sala para ser entrevistado, imediatamente caiu a luz e ele disse bem humorado e ferino: “good bye, South America” e deu meia volta. Foi um custo convencê-lo a voltar depois de tudo arrumado. Mais tarde, falou cobras e lagartos de Hugh Grant, que devia ser seu inimigo pessoal, com uma fúria devastadora.
Depois do hiato por causa das drogas, seu retorno foi devagar, às vezes em papéis menores como em Boa Noite e Boa Sorte, Beijos e Tiros, Zodíaco e Bem-vindo ao Jogo. Na comédia Trovão Tropical, dirigida por Ben Stiller, o ator fez o papel de um ator que se maquia de negro, o que teve um resultado muito engraçado (e também ousado). Isso lhe deu uma segunda indicação ao Oscar, agora como coadjuvante, comprovando sua popularidade.

Foto: Divulgação
Depois disso, veio naturalmente Sherlock Holmes, do ex-marido de Madonna, e projetos atuais: Due Date (10), de Todd Phillips, com Jamie Foxx, uma continuação de Holmes para 2011, The Avengers para 2012, e ainda em desenvolvimento um Iron Man 3, a vida de Edgar Allan Poe e Oz the Great and Powerful.
Os melhores e o pior
Vamos dar uma olhada de perto na longa carreira de Downey Jr em ordem cronológica
Abaixo de Zero (Less than zero, 87) - Parece lógico que ele fosse revelado justamente no papel de um drogado, nesta esquecida, mas interessante adaptação de um livro best-seller, o primeiro de Bret Easton Ellis. No papel de um rapaz muito rico de LA, que desperdiça a vida com drogas e orgias. James Spader também ficou marcado, mas os heróis (Andrew McCarthy e Jamie Gertz) partiram para coisa pior, a decadência.
Air America (Idem, 90) - Poucos anos e vários filmes depois, Downey tem sua primeira chance de mudar de gênero e deixar de fazer filmes para adolescentes ou produções B. Aqui ao lado do super star Mel Gibson (com quem naturalmente se deu bem, já que ambos têm muito em comum!), contou a história até então inédita de uma companhia aérea secreta do governo americano para ajudar os traficantes durante a Guerra do Vietnã. Tudo em tom de comédia.
Chaplin (Idem, 92) Sua primeira indicação ao Oscar, num filme convencional de Richard Attenborough, mas um dos poucos em que ele deixa de representar a si mesmo e se aproxima de outro personagem, no caso o grande Charles Chaplin. Também sabe utilizar seu dom para a mímica e o humor. Perdeu para o muitas vezes injustiçado Al Pacino, que venceu o prêmio com Perfume de Mulher, mas acabou sendo lançado a astro.
Morrendo e Aprendendo (Hearts and souls, 93) - Agora que filmes espíritas estão na moda, deviam reprisar esta comédia de Ron Underwood, que é das melhores a abordar o assunto, com humor e sensibilidade. Ele faz o protagonista que ignora a presença de quatro almas que estão precisando de um corpo. Reparem no ótimo titulo nacional.
Ricardo III (Idem, 95) - Estava no auge do consumo da cocaína quando fez esta bela adaptação da peça de shakespeareana, de Richard Loncraine, com Ian McKellen, no papel título e ele como Lord Rivers. Um ótimo elenco e uma incrível encenação que situa a ação na época do nazismo!

Foto: Reprodução
Beijos e Tiros (Kiss Kiss Bang Bang, 95) – Único filme dirigido até agora por Shane Black, famoso roteirista de Máquina Mortífera. Uma comédia policial bem divertida e criativa, que integra parte da recuperação da vida e carreira de Jr. O título é inspirado em livro da crítica Pauline Kael e na frase de Godard: um filme só precisa de uma arma e uma garota. Ele faz o narrador do filme, Harry Lockhart, um quase ator de Nova York, que vai para LA tomar lições para um filme sobre como ser detetive particular de um deles, que é gay (Val Kilmer). Lembra um pouco outro detetive de Jr, Crimes de Detetive (The Singing Detective, 93), de Keith Gordon, que era ambicioso, mas pesado demais.
Garotos Incríveis (Wonder Boys, 2000) de Curtis Hanson - Neste período, o ator teve muitos filmes, mas pouca coisa memorável. Um dos melhores foi este drama sobre professores universitários e alunos, estrelado por Michael Douglas. Ele traz um pouco de vida e neurose no papel do editor de Michael, que vem visitar a universidade. Exemplo de que mesmo dopado, ele nunca perdia o carisma.
Homem de Ferro (Iron Man, 08)- Depois de cumprir pena, foi uma fase difícil para Jr, que precisou trabalhar na série de TV Ally McBeal para provar que era capaz de seguir organogramas e horários (para trabalhar em filmes de estúdio, em casos como este, os atores são obrigados a se submeterem a testes semanais de urina para provar que não estão drogados!). Tom Cruise e Nicolas Cage tentaram conseguir o papel, e segundo o diretor Fabreau, foram considerados para o papel Sam Rockwell (que está em Iron 2) e Clive Owen. Mas não há duvida de que é o papel da vida de Jr, e ele realmente é a figura mais adequada. O diretor achava também que havia semelhanças entre Tony Stark e Jr (com os escândalos e os tablóides sempre o perseguindo).
Sherlock Holmes (Idem, 09) - Não é o Sherlock que conhecemos de outros filmes, mas era justamente essa intenção do diretor Ritchie, que conseguiu acertar mudando muita coisa ou quase tudo, inclusive na figura do Dr. Watson (agora Jude Law). Movimentado, esperto e divertido, o filme funcionou e abriu outra franquia para o astro. Veja aqui.
Trovão Tropical (Tropic Thunder, 08)- Jr pode ser também um ótimo comediante, temerário, sem qualquer vergonha, o que prova aqui num personagem que poderia ter enfurecido os negros, já que está parodiando um ator australiano que se maquia (ou faz processos ainda mais complicados) para interpretar um negro num filme de guerra, com todos seus tiques e maneirismos. Mas deu dignidade ao personagem, sem nunca cair na caricatura.
O Pior

Foto: Divulgação
Assassinos por Natureza (Natural Born Killers, 94) Se você falar sobre o diretor Oliver Stone em Hollywood, logo virá um comentário sobre o consumo de drogas em seus sets, mais claramente a cocaína. Não é, portanto, de se admirar que nesta adaptação de roteiro de Tarantino (que não gosta do filme), Jr esteja completamente descontrolado, numa das mais desenfreadas e, por vezes, constrangedoras aparições de sua carreira. Ele usa sotaque australiano como jornalista de TV que se envolve em revolta numa prisão. Um horror.
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