22 maio 2010 às 06:00
Coluna de DVDs – Lançamentos
Estão Todos Bem* (Everybody’s Fine)
Áud: Ing, Esp, Port. Leg: Port, Esp, Ing. Drama. Widescreen. 99 min. Cor. 2009. EUA. Fox. Diretor: Kirk Jones. Elenco: Robert DeNiro, Sam Rockwell, Drew Barrymore, Kate Beckinsale, Lucian Maisel, James Frain, Melissa Leo.
Sinopse: Pai vai atrás dos filhos desaparecidos.

Comentários: Lamentável e infeliz refilmagem americana de filme homônimo Siammo Tutti Benne (90), de Giuseppe Tornatore, com Marcello Mastroianni e Michele Morgan. É um perfeito exemplo de como destruir um filme numa refilmagem que toma todas suas decisões erradas. Não chegou nem a estrear em nossos cinemas.
Começa pelo frio e composto DeNiro, que não tem a humanidade de Mastroianni, que fazia o velho pai que ficou sozinho enquanto seus filhos sumiram pela América, sem lhe dar mais notícias (coisas, aliás, muito comuns por lá). Só que na Itália, os dramas eram mais reais, porque os personagens eram mais pobres, mais verdadeiros, mais conflituosos. Aqui tudo é classe média para cima, a casa da primeira filha, por exemplo, é muito chique e seus problemas parecem banais. Ou seja, nenhum drama ou conflito tem maior emoção, até porque a família italiana é diferente da americana, que expulsa os filhos de casa quando eles fazem 18 anos e vão para a faculdade.

O filme fica sem sentido, o que é acentuado pela péssima direção (de Nanny McPhee e Waking Ned), que roda tudo em planos gerais, com lentes grandes angulares. Ou seja, unca ficamos próximo de ninguém. Pena que o original, ainda que sentimental, não esteja disponível por aqui. Não guardam nem a surpresa do Tornatore, só mostrando no fim que ele é viúvo e solitário. Nem Drew, geralmente humana, funciona. O final, então, destrói tudo.
Zumbilândia ** e ½ (Zombieland)
Áud: Ing, Port. Leg: Port, Ing. Comédia. Widescreen. 88 min. Cor. 2009. EUA. Sony. Diretor: Rubens Fleischer. Elenco: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray.
Sinopse: Dois amigos escapam através de um mundo dominado por zombies.

Comentários: Numa boa comédia que vi há pouco nos EUA, The World´s Greatest Dad, com Robin Williams, há uma cena em que ele comenta com outra pessoa sobre filmes de zombie, chegando à conclusão: “Pois é, todo mundo lembra de filme de zombie, né? Principalmente aqueles primeiros como os de George Romero que eram mais engraçados”. “Não sei o que piorou”. “Acho que agora os zombies estão andando muito depressa”, concluem.
Sem dúvida pode ser isso, mas também o fato de que os personagens já são mais engraçados que assustadores, e funcionaram muito bem também naquela comédia inglesa, Todo Mundo Quase Morto / Shaun of the Dead (04), que justamente serviu de inspiração para o diretor (segundo ele mesmo confessa). Só que é ruim quando a homenagem é inferior ao original.
Parece que nasceu como proposta de um filme piloto para uma série de TV, até virar esta comédia teen, com Jesse Eisenberg (um Micheal Cera piorado) e que começou a ser rodada como Another Day in Zombieland. De qualquer forma, não traz nada de muito novo (eu ainda prefiro aqueles zombies que devoraram cérebros e que só podiam ser mortos com tiros na cabeça, ao menos criava regras que tornavam tudo mais divertido).

Aqui, Jesse encontra a família daquele jeito e se junta a um aventureiro (o ator do momento Woody Harrelson) que lhe dá uma carona pelas estradas cheias de vítimas e zombies. Como é filme para adolescente, novamente aquela insistência em perder a virgindade, no caso com duas irmãs (a mais nova é Abigail, a ex Miss Little Sunshine!).
O filme é fraquinho, ocasionalmente engraçado e só tem uma razão para assisti-lo, uma participação especial muito curiosa. Parece que outros foram convidados a entrarem na brincadeira, mas o único que realmente topou foi Bill Murray, que é visitado em sua (pseudo) mansão em Hollywood e topa participar da brincadeira, sem medo do humor negro. Esse espírito esportivo é o charme desta comedinha.
Nine *** (Idem)
Áud: Ing, Esp, Port. Leg: Port, Esp, Ing. Musical. Widescreen. 118 min. Cor. 2009. EUA. Sony. Diretor: Rob Marshall. Elenco: Daniel Day Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson (Fergie), Ricky Tognazzi.
Sinopse: Diretor de cinema em crise tem que iniciar nova produção.

Comentários: Fellini Oito e Meio é meu filme do coração. Meu e de todo mundo que trabalha de alguma forma com cinema. Não apenas é a obra-prima de um cineasta genial como foi Federico Fellini, como também é o melhor registro da demência que é rodar um filme, a montanha russa emocional que toma conta de forma avassaladora do autor e o retrato de um artista em crise, quando é incapaz de criar e pensa que não tem mais nada a dizer.
Realizado de maneira genial, altamente original, criativa e, principalmente, autobiográfica, ele foi buscar em si mesmo as raízes e fontes de sua crise pessoal e artística, e transforma tudo numa grande festa circense, que termina positivamente, com aquela grande dose de humanidade que só o italiano (e o cinema italiano) era capaz de passar.
Por isso, é fácil entender porque o filme exerce até hoje, quase cinquenta anos depois de sua criação, um inacreditável fascínio em todos os artistas, a ponto de os levarem (mesmo famosos como Woody Allen e Bob Fosse) a realizar paráfrases, coisa nunca vista e sem paralelo de uma obra relativamente recente.
Mas é muito lógico, para quem viu o original, que antes de tudo, Oito e Meio é um espetáculo puramente visual. Que sintetiza praticamente a estética de um tipo de cinema que era considerado o melhor do mundo, o dos anos 50-60 (acaba com a chegada da TV aberta na Itália). Uma referência que este filme faz o tempo todo, louvando o preto e branco e tudo o mais que sucedia naquele momento, mas que para o espectador atual está completamente vaga, distante e parece coisa da pré-história (sabidamente jovens não se interessam pela história, nem mesmo a do cinema).

Fizeram um filme sobre cinema, só que baseado numa peça de teatro. Ou seja, reducionista por definição, sobre uma época que as pessoas desconhecem e principalmente sobre um tema que interessa só a meia dúzia de pessoas do público: a crise pessoal e artística de um diretor de cinema. Nada menos comercial, menos envolvente e abrangente. Isso pode explicar o fracasso de bilheteria do filme mas não a fúria e rancor com que ele foi recebido pela crítica e a própria indústria do cinema de tal forma que foi eliminado do Oscar.
Embora faça muitas restrições, tenho de confessar que o filme, apesar de tudo, tem seu fascínio para mim, em particular na sequência final, uma das poucas fiéis a Fellini em espírito. Antes, porém, é preciso já criticar a adaptação para o palco. Eu assisti às duas versões e ambas me decepcionaram, porque, obviamente, tem de seguir as convenções do teatro musicado da Broadway: redução de sets (basicamente apenas um único, coisa que o filme também faz, desnecessariamente) e, principalmente, nada de sexo, apenas vagamente sugerido, a ponto de cortarem a sequência mais famosa do filme, aquela em que Guido mantém todas as mulheres de sua vida, desde a mãe até a esposa e todas as amantes, numa espécie de harém, onde acontece uma revolta e ele domina tudo com um chicote!
O espetáculo sobrevivia não por causa de sua trilha musical, que era menos do que medíocre, do que pela presença carismática de algum astro como era Raul Julia (porto riquenho) e depois na remontagem, com Antonio Banderas (que é espanhol). Vejam o ridículo, fazer uma peça sobre um diretor tipicamente italiano como Fellini, só que como americano confunde tudo mesmo, não sabe diferenciar estrangeiros, colocaram no papel central o britânico Daniel Day Lewis. Ótimo ator, claro, mas já obviamente pecando pela base.

Como erram também em não colocar mais italianas no elenco (Penélope é outra espanhola, Marion francesa e assim por diante, chegando ao cumulo de pôr uma Dama do Império Britânico como Judi Dench fazendo uma estrela do Follies Bergère. Não importa que ela se defenda com a categoria de sempre, esta errado em sua essência).
Nine, a peça, é um travesti do filme. Nine, o filme da peça, é menos ruim porque o roteiro (coassinado por Anthony Minghella, que morreu antes de vê-lo filmado) ao menos retorna ao filme, para colocar muita coisa novamente em imagem. Mas não há porque se fixar apenas num set montado num palco em Londres (o de Cinecittá, onde Fellini realmente filmava aparece apenas para situar a ação e dar certo sabor).
Rob Marshall, que soube adaptar tão bem Chicago, não teve a mesma sorte agora usando a mesma fórmula, ou seja, canções apenas em cenas teatrais, como se cinema não pudesse ter canções sem se tornar chato e incongruente. Não tem problema que corte metade da trilha, porque ela era realmente fraca, mas o ruim é substituí-la por uma canção ridícula como a Cinema Italiano (prestem atenção na letra que é patética), ainda que tenha sido muito bem editada para virar número dançante para Kate Hudson (que, aliás, nada tem a fazer no filme). Pior ainda, incluir canções alheias de época (tinha de ser uma coisa ou outra).
Vocês vão dizer que de italiano eles têm a Sophia Loren, mas aí entra um elemento triste: além de nunca ter trabalhado com Fellini, ela virou uma múmia, perdeu a voz que tinha (cantou em muitos filmes) e mal se desincumbe de uma canção de ninar, em que o diretor tenta o tempo todo cortar e esconder seu rosto, sua falta de vitalidade. Eu mesmo pensava que quando Sophia ficasse velha se tornaria uma Anna Magnani, me enganei. Ficou um fantasma dos natais passados.

Não tem muito cabimento comparar as intérpretes originais com as desta refilmagem. Claudia Cardinale, no auge de sua juventude fazia a musa, a inocência (mas também a pureza, coisa que foi cortada desta versão). Em seu lugar, Nicole Kidman, perturbada pelo botox, interpreta uma bela canção desanimada, sem graça. Penélope Cruz se defende bem e chega até próxima da original Sandra Milo (mas nunca terá o sub texto do original, já que Sandra era também na vida real amante de Fellini, ou seja, fazia a si mesmo! Ela foi a única a ser indicada ao Oscar).
Fergie como a única cantora profissional do elenco é a que tem melhor presença, como a prostituta Saraghina, e também a sorte de ter a melhor canção, Be Italian. Enquanto Marion Cotillard (que fez Piaf), consegue passar como atriz a sensibilidade e a dor de uma esposa traída e depois se defender numa canção nova de striptease. (Marion é o coração do filme e sua canção foi também para o Oscar assim como figurinos e direção de arte).

Nine (nove) no filme não se refere tanto à carreira do diretor Guido, (seria seu nono filme), mas à idade do menino Guido (que nunca teria amadurecido, uma simplificação psicológica típica de musical que Fellini jamais chegou a cometer). Mas, apesar de tudo, tenho que confessar que o filme me deu prazer. O de ver bons atores (mesmo Day Lewis tem autoridade, presença, é um bom trabalho ainda que não italiano!), de rever Cinecittá (obviamente como bom fã de cinema já andei algumas vezes por lá fuçando os rastros de Fellini) e de confirmar a mão para o gênero do diretor Marshall (que pena que ele não foi capaz de criar em cima!).
Amor sem Escalas *** e ½ (Up in the Air)
Áud: Ing, Esp, Port. Leg: Port, Esp, Ing. Comédia. Widescreen. 109 min. Cor. 2009. EUA. Fox. Diretor: Jason Reitman. Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Amy Morton, J.K. Simmons, Sam Elliott, Danny McBride.
Sinopse: Especialista em despedir pessoas enfrenta rivais e novos métodos, assim como difíceis decisões pessoais.

Comentários: Não é para adolescentes, muito menos para meninas. Esta é uma comédia cínica e “cool” endereçada à força trabalhadora norte americana, os que sofrem as conseqüências da recessão econômica e do fenômeno do “downsizing”, ou seja, de cortarem despesas, empregos, benefícios. O momento em que a cabeça de qualquer um está a prêmio e não há mais garantia de emprego ou lealdade de empresa.
Tempos perfeitos para o super executivo Ryan Bingham, que é especialista justamente em despedir pessoas. Quem o faz é George Clooney, em pleno domínio de seu estilo de humor, um dos poucos atores do momento que criou uma persona, ou seja, um tom que faz pensar em astros do passado, tipo Cary Grant ou Tyrone Power. Que não precisam ser versáteis, interpretam variantes de si mesmo, mas sempre com precisão e um certo tom autocrítico.
Por causa dessa sua habilidade, ele viaja pelos Estados Unidos todo, passando mais tempo em hotéis e voos de tal maneira que será candidato a ter o maior cartão de milhagem de todos, o de dez milhões da AA (na verdade é uma fantasia do roteiro para dar maior charme, esse cartão não existe).
Mas essa é sua maior meta, já que não tem casa, família, mulher ou filhos. Ou seja, é um homem feliz, que vive com uma maleta portátil, que fura filas e é sempre bem tratado. E ainda se dá ao luxo de encontrar uma mulher que parece ser exatamente o seu equivalente feminino, Alex Goran (Vera Farmiga), com quem inicia um relacionamento do tipo: entre intervalos, quando for possível, os dois se encontram e transam, como sucede num hiato em que se cruzam em Miami.

Mas os tempos são bicudos e aparece na empresa uma jovem ambiciosa, Natalie Keener (Anne Kendrick, vencedora do Tony e do elenco de Crepúsculo), que inventou outro jeito de mandar pessoas embora, despedi-las por vídeo-conferência! Ainda mais cruel e mais rápido!
Clooney é contra e, sabiamente, vai junto com a moça, explicando o preço que ela terá de pagar pela nova atividade, mas sem nunca perder a ternura. (Anne não é bonita. É baixinha, bicuda. Não nasceu para ser estrela, vai ser sempre a melhor amiga, como em Lua Nova, mas tem um estilo especial para humor que deve levá-la longe, ou ao menos para alguma série de TV).
Amor Sem Escalas é um título horrível nacional, que nada tem a ver com o conteúdo do filme, que tem um lado romântico sim (ele vai com Farmiga visitar a única sobrinha que está se casando e acaba ajudando a resolver um impasse). É mais sobre o estúpido mundo moderno, onde se é capaz de contratar uma empresa e um cara famoso só para vir te despedir! Arruinar sua vida.

Parece que no livro original, já no terceiro ato, ou seja, no fim, Ryan descobre que está com câncer terminal e conclui tudo indo para o hospital. O diretor já confirmou que não filmou isso e que só deixou uma outra referência de passagem, que nunca quis um final desses, tão trágico. O bom, então, é que se faz comédia com um assunto seríssimo e com a mesma habilidade que o diretor Jason (filho do veterano e aqui coprodutor Ivan Reitman) demonstrou no filme anterior (Obrigado por Fumar).
Indicado para 6 Oscars: filme, ator, coadjuvantes (Farmiga e Kendrick), roteiro e direção, não levou nenhum. Mas ganhou BAFTA e Globo de Ouro de roteiro.
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