23 maio 2010 às 06:00
Os grandes filmes de Jorge Amado
Jorge Amado (1912- 2001) é uma unanimidade nacional e uma das principais vertentes para o cinema brasileiro. De tal forma que sua obra foi exportada (há, no momento, uma montagem de Dona Flor na Off Broadway) e interessou estrangeiros que, com frequência, vieram aqui rodá-la (como Marcel Camus com Otália da Bahia/Os Pastores da Noite (1975) e Capitães da Areia (1971) como The Sandipits General, com texto recentemente refeito). Outros ainda sonhavam em fazê-lo, como Sophia Loren e Lina Wertmuller, com Teresa Batista, e Anthony Quinn, com Os Velhos Marinheiros.
O fato é que ele foi transportado com frequência para a televisão, tinha mantinha um bom relacionamento com a Globo. Jorge chegou a ser jurado no Festival de Cannes, ocasião em que o encontrei e conversei (sempre ao lado da muito divertida e companheira Zélia Gattai, depois autora de encantadores livros de memórias). Ele era realmente uma grande figura, generosa, simpática, muito baiano. Agora com a estreia de Quincas Berro D'Água, pode ser o momento de lembrarmos as melhores e piores adaptações de sua obra.
As melhores:
Seara Vermelha (1964)
Adaptação de um livro um pouco esquecido, sobre família que tem que se mudar para cidade grande e sua destruição. Embora este filme não seja reprisado, nem esteja disponível, nunca consegue esquecer desta adaptação do italiano Alberto D´Aversa (1920-69), importante professor e diretor de teatro. Nem da cena final nunca vista: quando a heroína enojada (Esther Mellinger) jogava uma cusparada bem na lente da câmera. Com Sadi Cabral, Fregolente, Margarida Cardoso.

Dona Flor e seus dois maridos (1976)
É difícil acreditar que o jovem Bruno Barreto, apenas em seu terceiro longa e com 23 anos, tenha conseguido fazer uma tão bem-sucedida versão do romance que foi enorme êxito de bilheteria no mundo todo! E ajudou a transformar Sonia Braga em estrela internacional. Sem falar em José Wilker para sempre Vadinho (ele odeia que isso tenha acontecido). Alem da canção, tema longuíssima de Chico Buarque O que será... E ainda por cima muito safado, engraçado e sensual.

Dali em diante, nada chegou perto. Mas três outras foram decentes:
Gabriela ou Gabriela Cravo e Canela (1983)
A novela de 76 havia sido antológica, mas tão pouco depois não foi possível fazer um roteiro com sentido para adaptar o livro famoso. A produtora foi a MGM que trouxe até Marcello Mastroianni ao Brasil, falando português foneticamente para estrelar ao lado, novamente, de Sonia Braga e grande elenco. Mas de memorável mesmo só a linda trilha musical de Antônio Carlos Jobim.
Tieta do Agreste (1996)
Outro caso parecido, a novela Tieta (1989) havia sido enorme sucesso (quem tinha os direitos dela era Betty Faria, que assim garantiu a chance de estrelá-la). Mas no cinema, produzida por Sônia Braga (com música de Caetano) ficou melhor em retrospectiva e revisão do que na época.

Tenda dos Milagres (1977)
Esta vai ser incluída mais pelo respeito ao diretor Nelson Pereira dos Santos e à história que lembrava a luta do negro para conquistar seu lugar na sociedade da Bahia. Apesar do elenco (Anecy Rocha, adorável irmã de Glauber, Joffre Soares, muitos amadores) não chegou a convencer ou marcar. Mas a versão da televisão tampouco rolou (1985).
A pior adaptação:
Meu Adorável Fantasma (Kiss Me Goodbye, 1982)
É a cara de Hollywood comprar os direitos de refilmagem, no caso de Dona Flor e seus Dois Maridos, e prontamente destruir o texto, que passou a ser apenas “sugerido por”. Mas com bom elenco (Sally Field, James Caan, Jeff Bridges, Claire Trevor) não tinham o direito de ter feito tamanha besteira, uma comédiazinha sobre o fantasma do ex-marido. O pior momento do bom diretor Robert Mulligan (Verão de 42). Espero que ao menos os envolvidos tenham sido bem recompensados economicamente.

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