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3 junho 2010 às 06:02

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Estreia – Ao Sul da Fronteira

Ao Sul da Fronteira (South of the Border) EUA, 2009. Direção de Oliver Stone. Documentário. Europa Filmes.

Teria sido engraçada a visita de Oliver Stone ao Brasil, porque eu queria ver as críticas que os jornalistas daqui fariam sobre o filme e também as perguntas embaraçosas.

Vejam como foi tudo simbólico: uma das maiores restrições que se pode fazer a esta elegia feita ao ditador da Venezuela, Hugo Chavez (que ele insiste em chamar “à la americana” com o acento errado) é a de que não fez seu trabalho de casa direito, não se preparou para a tarefa como deveria. Prova disso, é a pouca importância que deu ao Brasil: nem se deu ao trabalho de vir aqui ou entrevistar Lula, numa visita deste a Venezuela.

Desta vez, Lula fala pouco e nada muito importante - é mais citado por outros do que outra coisa. Ou seja, não nos deu maior bola. Se tivesse se preparado como devia, além de tudo saberia que para visitar o Brasil, os americanos precisam de visto (como reciprocidade). Ou seja, informar-se antes de dar opiniões é uma regra básica de qualquer jornalista ou documentarista.

Este documentário modesto é uma espécie de continuação de outros que ele andou fazendo, elogiando Fidel Castro e Cuba. Endereçado ao americano, começa mostrando uma coisa real e terrível, a impressionante imprensa (principalmente na tv) de direita americana, liderada pelo Canal Fox, que distorce tudo sempre a favor de Bush e do Partido Republicano. É um fato raro na democracia americana, em que o jornalismo recente sempre tentava ouvir os dois lados e não tomar partido. Mas isso acabou e continua assim mesmo com Obama, que é malhado diariamente.

Se o presidente leva, imagine então os países da América Latina - ainda mais aqueles que ousarem contrariar os ditames e vontades do Império. Como no caso do Chávez.

Mas para demonstrar isso, Stone não apenas entrevista o dito cujo, mas também realiza algumas cenas constrangedoras (não digo aquela de comerem folhas de coca juntos, o que é mero folclore, mas a que ele visita o lugar onde nasceu e faz Chávez andar numa bicicleta infantil - que por sinal quebra e diz que vai ter que pagar!

Ou outra cena estranha, em que faz o presidente jogar futebol ou bater bola com ele! Como se isso fosse esclarecer alguma coisa, numa discutível tentativa de humanizá-lo.

Mais de um terço do filme é dedicado a mostrar o trabalho de Chávez e elogiar seu trabalho, para só depois entrevistar outros presidentes: Bolívia, Equador, Argentina (o casal), Paraguai, meio como coadjuvantes. Ao final, como conclusão, uma entrevista com o próprio Stone, onde ele define sua posição, dizendo que esses são os lideres de uma nova América do Sul que se defende do capitalismo selvagem, que ousam questionar as vontades do império americano (que por sinal, não está acostumado a isso). E que isso é muito bom.

Uma idéia que faz sentido e tem toda lógica. A questão é o método, a maneira de fazer isso. Stone não faz as perguntas certas aos dirigentes, sente-se intimidado diante deles e o fato de ficar sempre acompanhado por um tradutor, já que não há tempo para raciocinar e entender bem o que dizem e propõem (tradutor é por definição traidor, sempre tem falhas). Ou seja, é bom que ainda existam cineastas americanos como ele, que façam polêmica, instiguem e ousem questionar os todo- poderosos. Ao contrário dos documentaristas brasileiros que continuam a não colocar dedos em feridas políticas - fazem mais registros de história da música, sempre subservientes ao poder.

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