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27 junho 2010 às 06:00

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Filmes de Walter Hugo Khouri

Quando escrevi um livro sobre Os Grandes Diretores do Século, escolhi dez brasileiros e dediquei a modesta obra a um cineasta de que gostava muito, Walter Hugo Khouri, que naquela altura, embora doente, ainda estava vivo. Hoje (27), se relembra seu falecimento em 2003.

Eis o que eu escrevi no livro:

Dedicatória

A Walter Hugo Khouri

A quem dedicar um livro sobre diretores se não a um próprio diretor? Foi seguindo esta lógica, que achei que esta era a ocasião apropriada para demonstrar meu apreço e admiração por um dos maiores cineastas brasileiros, um dos pouquíssimos que teve uma carreira longa, consistente, autoral e com um mínimo de concessões.

E, se em determinado momento ficou fora de moda criticá-lo, sofreu durante muito tempo sua carga de agressões e rejeições, que o classificavam desde “pornógrafo” (porque o sexo sempre foi seu tema preferido) a “alienado” (porque seus filmes não tinham filiação política óbvia). Foi perseguido tanto pela censura quanto pelos movimentos de esquerda.

No entanto, persistente, continuou fiel a si mesmo, por vezes inovador (como em Eros), sempre enigmático (até no final de sua fita mais recente, Paixão Perdida), sempre interessado pelo universo feminino, ainda que mostrado pela ótica masculina de um protagonista invariavelmente chamado Marcelo.

No entanto, os homens em suas fitas são figuras secundárias e apagadas, meros instrumentos para devassar o universo feminino, talvez por isso a comparação que sofreu em toda sua vida com o mestre Ingmar Bergman. Mesmo porque, quando crítico havia sido um dos responsáveis pela “descoberta” do cineasta no Festival do IV Centenário de São Paulo.

Khouri teve a honra – e o prazer – de contar em seus filmes com algumas das mulheres mais bonitas e mais interessantes do Brasil, e que nunca estiveram melhores nas telas do que em suas fitas. A lista é imensa, mas tenho de incluir, dentre muitas, a maior delas, a inesquecível Lillian Lemmertz.

Também Vera Fischer, Adriana Prieto, Sandra Bréa, Norma Bengell, Odete Lara, Nicole Puzzi e até a jovem Ana Paula Arósio. Foi assistindo a um filme dele, onde ela ainda adolescente estreava no cinema (numa ponta em Forever), que tive a ideia de convidá-la para a telenovela que eu adaptava no SBT, Éramos Seis, que acabou sendo a estreia dela na televisão e o início de uma brilhante carreira.

De uma certa maneira, por causa de Khouri, tenho também uma experiência interessante como ator. Ainda nos anos 70, na renascida Vera Cruz, ele me chamou para fazer o papel de um açougueiro em um filme que iria ser feito com Alexandra Stewart. A fita nunca foi feita, mas o convite continuou no ar e acabou se concretizando anos mais tarde, quando rodou Amor, Estranho Amor.

O papel que era pouco mais que figuração, acabou virando personagem e uma experiência importante, porque pude observar Walter dirigindo, improvisando o roteiro, controlando as tomadas na cabeça, trabalhando com rapidez e eficiência. E sempre tratando com carinho e afeição suas estrelas da ocasião.

No cinema brasileiro, em particular paulista, do século XX, sem dúvida Walter Hugo Khouri deixou sua marca singular. E como por trás de todo grande homem tem sempre uma grande mulher, a homenagem se estende também a sua fiel companheira, Nadir.

Como professor (involuntário), como amigo, como exemplo de liberdade criativa cinematográfica, como cineasta, como autor, como apaixonado pelas mulheres, Khouri merece um lugar especial nesta pequena coleção.

Biofilmografia - Walter Hugo Khouri (1929-2003)

O mais importante autor do cinema paulistano, um dos poucos cineastas brasileiros a ter uma carreira sem concessões, muito pessoal e longa. Paulistano, trabalhou na TV Record, foi jornalista e crítico.

Consegue fazer o primeiro filme (hoje desaparecido) em condições semi-amadoras, O Gigante de Pedra, (1953) mas já se revela para a crítica com Estranho Encontro (1957), na Brasil Filmes. Desde então, dirão que ele é o Bergman brasileiro, embora ele próprio se ache mais próximo de Antonioni.

Autor completo de seus filmes, também fazia a câmera com o pseudônimo de Rupert Khouri, por vezes improvisando o roteiro no set. Em 1958, fez por encomenda Fronteiras do Inferno (cópia perdida); em 1959, Na Garganta do Diabo ganha o Festival de Mar Del Plata.

Tem seu maior êxito de público, inclusive concorrendo em Cannes, com Noite Vazia (1964), depois que o filme é perseguido e interditado pela censura. Mas ainda melhor foi Corpo Ardente (1965), a obra-prima desse seu período.

Depois entram tempos difíceis, onde tem de exagerar no erotismo, por exigência dos produtores. Mas continua fazendo filmes dignos e pessoais como As Cariocas (1966), As Amorosas (1968).

 

noitevazia Filmes de Walter Hugo Khouri

Noite Vazia (1964)

Junto com o irmão William Khouri, no final dos anos 1960 assume o controle e o acervo dos antigos estúdios da Vera Cruz. Tenta revitalizá-lo promovendo coproduções com a França, uma delas dirigida por ele: O Palácio dos Anjos (1970). Dá oportunidade a outros cineastas como Roberto Santos (Um Anjo Mau, 1971), Arnaldo Jabor (Pindorama, 1970), Anselmo Duarte (Um Certo Capitão Rodrigo, 1970) etc.

Mesmo assim, a Vera Cruz mais uma vez fechou as portas e Walter teve de realizar filmes ainda mais eróticos para os produtores Galante e Palácios. Com Eros, o Deus do Amor (1981), fez uma experiência singular: um filme todo com câmera subjetiva, pelo ponto de vista do protagonista masculino que nunca é visto e sempre é chamado de Marcelo.

Sua melhor fase é em parceria com o produtor Anibal Massaini Neto, com quem faz uma série bem-sucedida de filmes a partir de Amor, Estranho Amor (1982). Seguindo sua tradição de lançar ou aproveitar as mais belas mulheres/atrizes do cinema brasileiro, apresentou neste filme Xuxa Meneghel.

Uma ousadia que lhe custou caro. Anos depois, Xuxa conseguiu a interdição do filme, que é um dos filmes de Khouri mais maduros e sensíveis. Problemas com produtores e o falecimento do irmão William prejudicaram esses últimos anos de sua carreira.

Dir.: 1953 O Gigante de Pedra (Fernando Pereira, Irene Kramer); 1958 – Estranho Encontro (Mário Sérgio, Andrea Bayard); 1959 – Fronteiras do Inferno (Hélio Souto, Aurora Duarte); Na Garganta do Diabo (Odete Lara, Luigi Picchi); 1962 – A Ilha (Eva Wilma, Luigi Picchi); 1964 – Noite Vazia (Odete Lara, Norma Bengel); 1966 – Corpo Ardente (Barbara Laage, Lilian Lemmertz); As Cariocas (2º epis. Jacqueline Myrna, Mário Benvenutti); 1968 – As Amorosas (Paulo José, Anecy Rocha); 1970 – O Palácio dos Anjos (Adriana Prieto, Rossana Ghessa); 1972 – As Deusas (Lilian Lemmertz, Mário Benvenutti); 1973 – O Último Êxtase (Lilian Lemmertz, Ewerton de Castro); 1974 – O Anjo da Noite (Selma Egrei, Eliezer Gomes); 1975 – O Desejo (Lilian Lemmertz, Selma Egrei); 1977 – Paixão e Sombras (Lilian Lemmertz, Monique Lafond); 1978 – As Filhas do Fogo (Selma Egrei, Karin Rodrigues); 1979 – O Prisioneiro do Sexo (Roberto Maia, Sandra Bréa); 1980 – Convite ao Prazer (Sandra Bréa, Roberto Maia); 1981 – Eros, o Deus do Amor (Lilian Lemmertz, Dina Sfat); 1982 – Amor, Estranho Amor (Tarcísio Meira, Vera Fischer); 1984 – Amor Voraz (Vera Fischer, Marcia Rodrigues); 1986 – Eu (Tarcísio Meira, Nicole Puzzi); 1987 – Mônica e a Sereia do Rio (desenho animado de Maurício de Souza. Dirigiu as cenas ao vivo com Tetê Espíndola); 1988/1993 – Forever (Ben Gazarra, Vera Fischer); 1994 – As Feras (utilizando episódio antigo feito para o filme inédito As Primas, concluído em 94, ainda não lançado. Monique Lafond, Lúcia Veríssimo); 1999 – Paixão Perdida (Antônio Fagundes, Maitê Proença).

Os Melhores filmes de Khouri

Amor Estranho Amor - Não porque eu estou no elenco, (minha participação é ocasional e não tem maior importância) mas porque raramente Khouri conseguiu um equilíbrio tão bom entre seus temas pessoais, um elenco famoso (Vera Fisher, Tarcisio Meira, Mauro Mendonça, a estreia de Xuxa) e uma narrativa com política, sexo, romance e uma história muito bem contada.

Walter Forster é quem faz o Marcelo (como as Helenas de Manoel Carlos) que recorda sua infância passada num bordel de luxo em São Paulo. O filme hoje está proibido no Brasil, porque Xuxa conseguiu bloqueá-lo com ordem judicial e só quem tiver velhos VHS ou conseguir uma cópia americana poderá vê-lo. Xuxa faz striptease e outras cenas estranhas para quem depois virou ídolo infantil.

Corpo Ardente – Por vezes, os filmes de Khouri resultavam um pouco frios e cerebrais, mais perto de Antonioni que Bergman. Mas ele conseguiu emocionar aqui, mesmo trazendo para o Brasil uma
estrela do cinema francês, Bárbara Laage, que faz uma grã-fina inquieta e infeliz, que vai para o Itatiaia e se impressiona com um cavalo garanhão. Tudo sugerido e com elenco talentoso que inclui a jovem Dina Sfat e Mario Benvenutti.

Noite Vazia - Seu primeiro grande sucesso. Representou o Brasil em Cannes. Duas prostitutas (Odete Lara e Norme Bengell) num único dia em que encontram dois clientes (Mario Benvenutti e o italiano Gabriele Tinti, ex de Anna Magnini e que se casara por amor com Norma). Muito escandaloso na época, dá também uma visão rara do que foi São Paulo do começo dos anos 1960.

Noite Vazia Filmes de Walter Hugo Khouri

Noite Vazia (1964)

Eros, o Deus do Amor - Um filme um pouco esquecido, mas incrivelmente criativo, porque é praticamente todo narrado em primeira pessoa, ou seja, pelo ponto de vista subjetivo, coisa
raramente feita no cinema. Marcelo (Roberto Maia) relembra seus amores, o que permite a participação de um extraordinário grupo de mulheres: Nicole Puzzi, Christiane Torloni, Norma Bengell, Denise Dumont, Renee de Vielmond, Kate Hansen, Lillian Lemmertz, Kate lyra e outras. Também raro, mas notável.

Eros Filmes de Walter Hugo Khouri

Eu – No auge da colaboração com o produtor Anibal Massaini, Khouri retoma seu Marcelo, agora interpretado por Tarcisio Meira, como um milionário escondido numa casa da praia. Tem Nicole
Puzzi, Torloni, Bia Seild, Monique Lafond, Monique Evans. O título, muito original, reflete o egocentrismo do protagonista. Foi sucesso de bilheteria.

Eu1 Filmes de Walter Hugo Khouri

 

As Amorosas - Raro encontro de Khouri com Paulo José, sempre excelente, como estudante tentando entender a agitação da época através de várias mulheres: a carismática Anecy Rocha, irmã de
Glauber, a estrelinha da época Jacqueline Myrna (que fim terá levado?) e pela primeira vez o encontro com a magnífica Lillian Lemmertz (mãe de Júlia) que seria sua atriz e musa preferida.

A Ilha - Um roteiro muito bem armado sobre um grupo de ricos num iate que vão parar numa ilha deserta, sem as loucuras de Lost. A única vez que Khouri trabalhou com a grande Eva Wilma, uma
das melhores atrizes de sua geração.

Continua a tendência do diretor em filmar em lugares fechados ou restritos, em grande parte por causa dos baixos custos, às vezes rodava em sua própria casa. O elenco tem o escritor José Mauro de Vasconcellos e a estreia de Elizabeth Hartman.

Estranho Encontro – Segundo longa metragem de Khouri feito na Vera Cruz, que eventualmente seria dele e do irmão William. Hoje, quem cuida do acervo é o filho dele, na sua segunda fase.

Demonstra a influência de Bergman num thriller de suspense, passado numa casa à beira da represa, com a bela loira Andréa Bayard (americana de origem), o galã Mário Sergio, a sempre interessante Lola Brah e Sérgio Hingst. As influências, curiosamente, ajudam o filme a envelhecer bem.

Estranho Encontro Filmes de Walter Hugo Khouri

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