27 junho 2010 às 10:01
Perdemos Guzik, grande crítico, ator e amigo

Todos nós que, de alguma forma pertencemos à classe artística, ou teatral, lamentamos a ausência de mais e melhores críticos de teatro. Poucos têm a grandeza, formação e competência de um Sábato Magaldi, Jefferson Del Rios e ou Alberto Guzik.
Na verdade, fomos companheiros de redação muitos anos, no Jornal da Tarde, numa época em que este era ainda um dos melhores jornais do Brasil. Guzik assumindo o lugar de Sábato que estava se aposentando.
Sábato, além de amigo, foi meu professor na USP e me passou muito sobre a difícil tarefa de escrever sobre uma arte tão difícil, tão perecível, sem ofender as pessoas que a exercem, sem posar de Deus. Mas também sem ser superficial ou vulgar, caindo na piada.
Como se confirmou ontem na cerimônia em Vila Alpina, não havia quem não gostasse de Guzik. Era um grande amigo, companheiro, uma pessoa inteligente, confiável e sempre inquieto, criativo.
Sempre o admirei também por sua corajosa opção de voltar a ser ator, de dar a cara para bater, participando de um grupo de vanguarda como o Satyros, se expondo sem pudor, e crescendo a cada participação e espetáculo.
Quando começamos a Coleção Aplauso, é claro que contamos com sua participação, inclusive foi ele quem escreveu a história do Satyros e estava preparando uma biografia de Helena Ignez, que ficou incompleta.
Tivemos também o prazer de lançar um livro de suas obras teatrais (claro, como bom homem de teatro, ele era um escritor talentoso) e transcrevo aqui a contracapa que eu escrevi na ocasião para O Teatro, de Alberto Guzik:
Você conhece Alberto Guzik como crítico teatral, ator, diretor, professor, diretor e colaborador da Coleção Aplauso (para onde escreveu biografias de Naum Alves de Souza (Imagem, Cena e Palavra) e a Cia de Teatro Satyros (Um Palco Visceral).
Paulistano, Guzik começou no grupo de teatro de Julio Gouvêa e Tatiana Belinky, cursou a Escola de Arte Dramática, se tornando depois crítico de teatro do Shopping News, Última Hora, Isto é e de 1984 a 2001, do Jornal da Tarde.
Além de romancista e contista premiado (Risco de Vida, 95, O Que é Ser Rio, E Correr), ele apresenta aqui sua produção como dramaturgo, com uma introdução de seu discípulo e também dramaturgo, Sergio Roveri, que conclui: “os quatro textos são de alguma forma sobre o mesmo tema: a solidão dos que vivem acompanhados”.
Em Um Deus Cruel, Guzik mostra a discussão entre um grupo de teatro durante um ensaio. Cansei de Tomar Fanta fala de um casal de namorados indeciso entre assistir ou não um espetáculo que começará em instantes. A partir de uma lata de refrigerante, entabulam uma discussão sobre suas preferências pessoais.
Na Noite na Praça gira em torno do furto de um vaso de cemitério, fazendo uma radiografia da sociedade atual. Errado é sobre os encontros de um intelectual velho e solitário com um jovem balconista de lojas.
Tem pessoas que nos fazem falta, que tinham muito a contribuir, que não são substituíveis. Guzik era uma delas.
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