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28 junho 2010 às 09:47

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Trinta anos de Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu

airplane blog Trinta anos de <i>Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu</i>

Foto: Divulgação

Uma matéria no New York Times me fez dar conta de que estamos completando trinta anos da estreia da comédia Apertem os cintos... o piloto sumiu (Airplane), que revolucionou o humor americano, dando origem a uma continuação bem inferior e a dezenas de imitações. O que a matéria não comenta é que o filme foi extremamente influenciado pelas famosas sátiras de filmes feitas pela Revista Mad (nesta semana falei sobre a publicação, e ninguém mais sabia do que se tratava, embora tenha tido uma edição nacional).

Eu me lembro quando assisti ao filme nos Estados Unidos, onde estava porque havia ganhado uma bolsa para viajar pelo país e principais festivais e estúdios. Como me deram dinheiro para ver peças e filmes, me esbaldei. Acho que vi o longa pela primeira num cinema de bairro, em Georgetown, e morri de rir (aliás, vamos aproveitar para elogiar o título nacional, que, dessa vez, acertou e é muito mais sugestivo do que o original).

Desde então, cada vez em que esbarrava nele, via  até o fim. Sem dúvida é uma das minhas comédias favoritas. Há muitas ousadias, entre elas, chamar atores ditos sérios, mas que tinham fama de canastrões, ou seja, inexpressivos na tela, só que no filme conseguiram quebrar a frieza e souberam satirizar a si mesmos ou a seus tipos. Isso aconteceu, por exemplo, com Peter Graves, que faleceu há pouco tempo. Ele interpretou o piloto que fez um convite pedófilo para um garoto, coisa impossível de se imaginar hoje em dia: “Você já viu um homem adulto pelado?”, perguntava!

Hoje eles riem disso, mas o filme teve problemas para conseguir um elenco, porque consideravam o humor de mau gosto. No entanto, foi graças a ele que certos atores tiveram um novo sopro de vida em sua carreira como foi o caso de Lloyd Bridges, Robert Stack (outro já falecido) e, principalmente, Leslie Nielsen, que era totalmente apático e, de repente, prosseguiu os vinte anos seguintes fazendo variação do tenente Drebin, de Corra que a Polícia Vem Aí, que foi justamente o trabalho seguinte dos mesmos autores da comédia. Jerry Zuckr escreveu e dirigiu o filme com seu irmão David Zucker e o amigo de infância deles, Jim Abrahams.

Não me lembrava que logo após sua estreia, em julho de 1980, o filme se tornaria a comédia de maior bilheteria em toda a história do cinema, só sendo superada por Os Caça Fantasmas, em 1984. Suas piadas rápidas, cheias de citações da cultura pop, podem ser vistas hoje em séries como Os Simpsons, South Park, Family Guy e nas parodias de gênero, que na época eram feitas por italianos, mas nunca por americanos. Peter Farrelly, de Quem vai ficar com Mary?, admite que os filmes feitos com seu irmão não existiriam sem a influência de Airplane.

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Foto: Divulgação

O curioso é que, quando foi rodado, os três amigos de Wisconsin conseguiram um orçamento de U$ 3,5 milhões, que seria usado na continuação do primeiro filme deles, The Kentucky Fried Movie, que virou cult  em 1977. Como era um filme da Paramount, eles conseguiram os direitos da história de um filme chamado Zero Hour (Entre a Vida e Morte, 1957), com Dana Andrews e Linda Darneoll. Esse longa falava sobre um piloto neurótico de guerra que é obrigado a assumir o comando, quando a tripulação fica envenenada pela comida. Dali em diante se faz  uma verdadeira compilação de clichês do cinema. Há de tudo: a cauda do avião vira Tubarão, a cena de dança de Embalos de Sábado a Noite, o famoso beijo de A Um Passo da Eternidade e mais gozações com gêneros (fitas de guerra, de selva etc).

Aproveitando um casal de jovem de astros (Robert Hays e Julie Hagerty, que não foram muito adiante), e variando o humor entre o infame e o impagável, a fita é muito divertida e sempre é um prazer revê-la.

A origem do filme estaria ligada aos primeiros filmes de Mel Brooks, que também procuravam se aproximar das paródias, como Banzé no Oeste, e até a Woody Allen, com Bananas. Mas, como ressaltam os críticos atuais, não com a mesma intensidade e metalinguagem. Há por exemplo a aparição do jogador da NBA Kareem Abdul Jabbar, que é um pilotos, mas que nega ser Kareem. Ou então a famosa cena em que aparece a verdadeira Ethel Mermam (lenda da Broadway) como uma louca que acredita ser a atriz. Também há uma piada intraduzível, um trocadilho que diz “não me chame de Shirley.

Eleito pelo American Film Institute como “um dos dez filmes mais engraçados já produzidos”, foi o primeiro filme americano assinado por três diretores: Jim e os irmãos David e Jerry, que depois fizeram Top Secret e Por Favor Matem Minha Mulher. Posteriormente, eles se separaram.

David Zucker chegou a realizar sozinho filmes como Corra que a Polícia Vem Aí (The Naked Gun: From the Files of Police Squad!, 1988), com Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Corra que a Polícia Vem Aí 2 ½ (Naked Gun 2 ½: The Smell of Fear, 1991), com Leslie Nielsen e O. J. Simpson, For Goodness Sake (1993), com Jason Alexander e Scott Bakula, Sem Trapaça não tem Graça (BASEketball, 1998), com Trey Parker e Matt Stone, H.U.D. (feito para TV, em 2000), com Robert Stack e Meredith Salenger, A Filha do Chefe (My Boss’s Daughter, 2003), com Ashton Kutcher e Tara Reid, Todo Mundo em Pânico 3 (Scary Movie 3), com Anna Faris e Charlie Sheen, Todo Mundo em Pânico 4 (Scary Movie 4, 2006), com Anna Faris e Regina Hall, Corra que Tem Loucos por Aí! (An American, 2008), com Kelsey Grammer e Jon Voight.

Jerry Zucker fez sozinho os filmes Ghost – Do Outro Lado da Vida (Ghost, 1990), com Patrick Swayze e Demi Moore, Lancelot – O Primeiro Cavaleiro (First Knight, 1995), com Sean Connery e Richard Gere, Tá Todo Mundo Louco (Rat Race, 2001), com Whoopi Goldberg e John Cleese.

O triste, porém, é ver que David fez a comédia Corra que Tem Loucos por Aí, que é uma raridade, uma comédia de direita, ou seja, republicana e pró-Bush. É lamentável que o satirista de ontem hoje seja um reacionário.

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