16 julho 2010 às 06:00
Matando as saudades de Suspense, de Hitchcock
Quando eu era criança, me lembro de ter assistido pela TV Tupi, eu acho, uma série de TV que me marcou muito. Se chamava Suspense, que era o lógico título nacional de “Alfred Hitchcock Presents” (afinal ele era o mestre do suspense). Eram programas curtos de apenas meia hora (ou seja, não tinham mais de 19 minutos de arte como se diz, o resto era o prólogo e conclusão apresentados pelo próprio Hitchcock).
Iria durar sete temporadas (de 1955 a 62, sendo que só nas últimas três é que foi estendida para uma hora e passou a se chamar “Alfred Hitchcock Hour”, mas aí já não passavam mais no Brasil ou eu não via). Lembro também de ler a versão da série em livro de banca, tipo Pulp Fiction, imitando X 9 com papel ruim e letra pequena, sem ilustrações e que trazia pequenos contos de mistério com final surpresa, que era a marca registrada do projeto.
Foto: IMDb
Consegui importar o primeiro boxe da série (existem apenas quatro nos EUA) e passei grande parte do fim de semana vendo seus 39 capítulos e um Making of (do melhor realizador do gênero, Laurent Bouzerau). Assim fiquei sabendo que colocar Hitchcock na televisão foi ideia de seu agente (que depois seria o dono da MCA e Universal) para popularizá-lo (o que conseguiu inclusive por todo o mundo). O charme é que o diretor aparece pessoalmente fazendo narrativas muito bem humoradas, irônicas e por vezes surrealistas (a minha favorita é quando ele aparece com uma faca nas costas, dizendo que nunca se deve dar as costas para os amigos!).
O logotipo era o perfil de Hitchcock desenhado por ele mesmo e na qual se encaixa. Essa abertura e conclusão eram sempre gravadas em dupla versão (porque na Europa os patrocinadores não gostavam de brincadeiras com eles e a maior parte das emissoras eram do governo embora Hitch falasse também francês e alemão. Ele era obrigado a dar um final moralista as histórias - no que dizia não no que aparecia na tela - mas sempre com humor). O mais marcante porém era a trilha musical que ficou para sempre associada a ele, que era a “Marcha Funeral para uma Marionete” de Gonoud, aquele da Ave Maria!
Nem é preciso dizer que Hitch era um ótimo ator, cheio de pequenos detalhes e humor inglês. Ao todo ele dirigiu 17 episódios da série, mas a responsável por tudo era uma pessoa de sua confiança, que veio com ele e a mulher da Inglaterra, quando se mudaram para os EUA: Joan Harrison (outra figura permanente é a filha dele, Pat Hitchcock que neste primeiro ano da série estrela dois episódios e faz aparição num terceiro sobre Lizzie Borden. Pat, que por sinal ainda está viva, era muito boa atriz apesar do tipo gordinho, que lhe favorecia personagens característicos).
Foto: IMDb
Claro que ainda em preto e branco, a série é um primor de roteiro, porque tem que ser muito objetivo, para expor a situação e logo imediatamente resolver o caso e ainda deixar margem para uma reviravolta, o desejado final surpresa. E dá mais certo, quando se fixa em histórias contemporâneas de mistério e assassinato (assinadas por mestres como Cornel Wollrich e Ray Bradbury). Há tentativas de se fazer humor (um tipo “como matar sua tia velha”, com Mildred Natwick e Hud Hatfield), algumas histórias de época mas estas não tem o mesmo impacto.
O elenco desta primeira temporada traz John Cassavetes e Marisa Pavan, Charles Bronson (duas vezes, uma fazendo comédia e parecendo James Franco, com a veterana Estelle Winwood), Claude Rains (variante da história do ventríloquo), a jovem Joanne Woodward, Vera Miles, Joseph Cotten, a jovem Cloris Leachman (irreconhecível da que conhecemos hoje), Lorne Greene (que se assinava apenas Green), Gene Barry, Cara Williams, Peter Lawford e alguns que vinham de trabalhar com ele no cinema, como John Forsythe, a querida Thelma Ritter, o inglês John Williams (que aparece em três deles).
Em geral os diretores eram Robert Stevens (o mais freqüente, que curiosamente não deu certo quando passou para o cinema), Robert Stevenson (aquele que fez muito Disney), James Neilson (outra da Disney). Hitchcock dirigiu neste ano três episódios e naturalmente estão entre os melhores: Vingança (Revenge) com Ralph Meeker e Vera Miles, onde o marido tenta vingar a esposa que foi atacada em seu trailer por um estranho (spoiler: vou contar o final deles, já que não estão tão acessíveis: depois de matar o cara que ela identificou é que percebe que ela está perturbada e encontrou outros, ou seja matou um inocente).
Breakdown (Colapso)- Um milionário (Joseph Cotten) sem escrúpulos sofre acidente de carro conversível e fica preso sendo dado como morto. A gente sabe que ele está vivo porque ouvimos o que ele pensa. Mas é levado para o hospital e considerado falecido (spoiler: como descobrem que ele está vivo? por que as lágrimas começam a rolar de seus olhos!O Caso do Dr. Penhalm (The Case of Dr Penhalm) Um homem (Tom Ewell) acredita que tem um cara que esta deliberadamente o personificando.
Um de meus favoritos é aquele com Cassavetes e não de Hitch, You ´ve Got to Have Luck (Você tem que ter sorte), que exemplifica mais ou menos o que é a série. Lamont Johnson (o futuro diretor) faz o marido de uma italiana Marisa Pavan(irmã de Píer Angeli) que é ameaçada por um bandido em fuga que chega em sua casa. Mas logo a polícia aparece. Sabem por que? Ele não desconfiou que a moça é surda e lê lábios e a obrigou a falar no telefone com a mãe, que estranhou o fato e chamou a polícia!
Importante: não me decepcionei e quero ver os outros anos.
Foto: IMDb











